terça-feira, 25 de maio de 2010

Proclo e os limites das teorias astronômicas

"Quando se trata de coisas sublunares, nós nos contentamos em tomar em conta aquilo que produz na maior parte dos casos, por causa da instabilidade da matéria que as forma. Quando, por outro lado, queremos conhecer as coisas celestes, usamos o sentimento, e fazemos apelo a uma multidão de artifícios muito distantes de toda verossimilhança. Portanto, nós que estamos colocados, como se diz, no lugar mais baixo do universo, devemos nos contentar com a aproximação de cada uma dessas coisas. Que tal é o caso torna-se manifesto pelas descobertas que se fazem sobre as coisas celestes; pois de diferentes hipóteses tiram-se as mesmas conclusões relativas aos mesmos objetos; entre essas hipóteses, existem as que salvam os fenômenos por meio de epiciclos, outras por meio de excêntricos, outras por meio de esferas desprovidas de astros e girando em sentido inverso. Os deuses, certamente, possuem um julgamento mais seguro; mas, quanto a nós, precisamos contentar-nos em atingir apenas a aproximação dessas coisas; pois somos homens...de modo que falamos de acordo com o que é verossímil e os discursos que fazemos assemelham-se a fábulas."

PROCLO, Comentário ao Timeu de Platão

A doutrina do filósofo neoplatônico Proclo (412-485 D.C.) aqui transcrita é rica em lições sobre a ciência antiga. Em primeiro lugar, Proclo afirma a divisão entre o mundo supralunar e sublunar já postulada por Aristóteles e, seguindo as linhas mestras do mestre de Estagira, declara que o conhecimento das coisas sublunares se dá pela maior parte dos casos por causa da instabilidade da matéria (hylê), que por vezes resiste à Forma (eidos).

Logo depois, trata das coisas supralunares, asseverando que elas não são são conhecidas por sua natureza (afasta-se aqui de Aristóteles), mas somente por aproximação. Mas a que tipo de aproximações Proclo se refere? Àquelas já tratadas por Hiparco, Theon de Smyrna e Ptolomeu: as descrições matemáticas do movimento observado dos corpos celestes.

É preciso lembrar aqui que, como Pierre Duhem ensina, a astronomia era a única das ciências antigas que havia alcançado o "grau de aperfeiçoamento em que a linguagem matemática serve para exprimir as leis descobertas por experiências precisas". Entretanto, esse gênero de ciência tem seus limites e Proclus sabe que de diversas hipóteses as mesmas conclusões podem se seguir.

Em vez de provar uma asserção através da demonstração de sua derivação lógica de princípios evidentes, como na Física aristotélica, a astronomia matemática só podia criar hipóteses cujas consequências fossem adequadas aos movimentos observáveis dos astros. Assim sendo, os epiciclos e excêntricos, hipóteses igualmente adequadas ao que se observava nos céus (como já havia demonstrado Hiparco), só poderiam salvar os fenômenos e nunca provar algo sobre a natureza dos movimentos celestes.

Essa doutrina será passada à frente por outro filósofo neoplatônico, Simplício, e chegará à Europa medieval através de seus comentários a Aristóteles, influenciando até mesmo Tomás de Aquino. Contudo, o século XVII abolirá a divisão das esferas e aplicará a matemática até então reservada ao estudo astronômico dos corpos celestes a todo o mundo sublunar, iniciando assim a Revolução Científica. Para muitos, com essa extraordinária mudança, a física moderna herda a questão levantada por Hiparco, Proclo e Simplício acerca da verdade das hipóteses de cunho matemático.

sábado, 15 de maio de 2010

Hiparco e a adequação das hipóteses astronômicas

"Está evidentemente de acordo com a razão que haja concordância entre as duas hipóteses dos matemáticos sobre os movimentos dos astros a o epiciclo e a do excêntrico; uma e outra concordam por acidente com aquilo que está de acordo com a natureza das coisas, o que era admitido por Hiparco."

THEON DE SMYRNA, Astronomia

O trecho acima de Theon de Smyrna (335D.C./405D.C.), filósofo, matemático e astrônomo, pai de Hipácia de Alexandria, reproduz a descoberta do também astrônomo e matemático Hiparco de Nicéia (190B.C./120B.C.) segundo a qual duas ou mais hipóteses astronômicas podem igualmente ser adequadas à observação.

Hiparco havia demonstrado que tanto a hipótese dos epiciclos quanto a hipóteses das órbitas excêntricas*, apesar de incompatíveis entre si, eram, no entanto, igualmente adequadas para salvar os fenômenos, ou seja, eram plenamente concordantes com a experiência observacional e permitiam predições acertadas.

Ora, se duas ou mais hipóteses podem ser adequadas aos fenômenos observados, então qual o critério para decidir pela verdadeira? Evidentemente, somente uma poderia ser verdadeira, somente uma poderia estar de acordo com a natureza das coisas. As outras hipóteses eram concordantes com a observação por acidente.

Concebidas pelos gregos como hipóteses matemáticas submetidas à adequação de suas proposições e predições aos movimentos regulares e observáveis dos astros, as teorias astronômicas não podiam implicar qualquer tipo de doutrina sobre a natureza última de seus objetos de estudo.

Ao astrônomo cabia somente criar hipóteses meramente concordantes com o comportamento manifesto dos corpos celestes. Por outro lado, definir as essências, as naturezas desses corpos, era tarefa do físico que procedia através de princípios não matemáticos, mas pelos princípios gerais do movimento e das causas intrínsecas aos fenômenos.

O astrônomo desenvolvia descrições matemáticas dos eventos celestes, tendo como pedra de toque a adequação observacional. O físico, como Aristóteles, se dedicava a determinar a Forma (Eidos) e a matéria dos corpos celestes, bem como as condições gerais do movimento supralunar e sublunar.

A questão levantada por Hiparco se estenderia por muitos séculos ainda, sendo parte importante das discussões acerca da nova astronomia nos séculos XVI e XVII e permeando as obras de Brahe, Kepler e Galileu. Uma vez que o modelo matemático astronômico foi estendido à física, o problema permanece relevante no debate atual sobre o realismo e o instrumentalismo científico.
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*Excêntricas eram as órbitas circulares (de planetas ou epiciclos) cujo centro não coincidia com a Terra e epiciclos eram órbitas circulares cujo centro residia em uma órbita circular em torno da Terra.

Vídeos ilustrativos que apresentam o funcionamento dos epiciclos e dos excêntricos: 

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O simbolismo mitológico indiano e o Absoluto metafísico

"A filosofia e a ortodoxia hindu esclarecida são fundamentalmente monistas e monoteístas, apesar das multidões de deuses e seres supra-humanos em que é prolífica a mitologia no país. As múltiplas representações são apenas especializações, virtudes específicas, atitudes, componentes, facetas.Olhados sob o ponto de vista da própria divindade (...), os aspectos da existência que nos parecem contraditórios - criação, duração, dissolução - são apenas um e o mesmo em termos de origem e significado final.(...) A compreensão dessa unidade é o objetivo da sabedoria hindu."

HEINRICH ZIMMER, Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia, pag. 113

O simbolismo de Vishnu deitado sobre Ananta, a serpente de mil cabeças, é sublimemente rico. É, no seu sentido mais profundo, uma tradução simbólica e mitológica das mais altas verdades metafísicas da filosofia e da religião hindu.

Vishnu representa o Absoluto, Brahman, imanente e transcendente. Imanente porque se revela em todas as coisas e transcendente porque nada pode esgotá-lo. Podemos dizer que o vaso é de barro, mas o vaso é uma forma cambiante de uma matéria, o barro, que permanecerá e assumirá outra forma.

Desse modo, o vaso é barro, mas o barro não é só um vaso. Ele transcende essa configuração particular e transitória, tem em si mesmo inúmeras outras possibilidades ainda não atualizadas.

De modo análogo, o que sou hoje é a atualização daquilo que tinha em potência. Contudo, cada homem "é" sempre mais do que é num momento determinado. Ele "é" também tudo aquilo que tem potência para ser e que talvez um dia possa atualizar.

Vishnu, na figura do Absoluto, engloba todo o cenário em torno. Ele é Ananta, é o oceano, é Lakshmi, sua esposa que acaricia seus pés e também Brahma, o demiúrgico deus que nasce de seu umbigo. Todos não são mais que emanações, aspectos de uma só e mesma realidade, distintos somente por uma função no teatro cósmico universal.

Vishnu deitado siimboliza também o aspecto masculino, produtor que se une ao aspecto passivo da infinita possibilidade, feminina e passiva, representada pelo oceano, pela infinitude de Ananta e pela divina esposa Lakshimi.

Da infinitude potencial, maternal e uterina das águas do oceano, Vishnu como poder masculino formador faz brotar Brahma, o deus criador do universo manifestado. Ele vem montado numa flor de lótus e tem quatro rostos representando as quatro eras da manifestação. Após o fim dessas eras, o todo retorna de novo à fonte para, depois de gestado como uma criança, retornar em novo ciclo.

Mas se da infinita potencialidade do oceano nasce o mundo manifestado, nama-rupa, este não esgota o Absoluto. Como ensinam os Upanisads, o que sobra do infinito é sempre infinito e Ananta, a serpente de mil cabeças, representa também o infinito que ainda "sobra" após a manifestação.

As representações artísticas, em que deuses, como Vishnu e Shiva, assumem o papel do Absoluto, têm missão didática, de apoio à meditação, de veículo de sabedoria metafísica por meios mitológicos. E mesmo quando diante de trindades, como a Trimurti, os deuses não são mais que aspectos de uma só e mesma realidade absoluta.

Visnu é o aspecto mantenedor, Brahma o criador e manifestador e Shiva é o destruidor. Três aspectos do Absoluto que, por vezes identificado simbolicamente a Vishnu ou Shiva, engloba os três numa unidade transcendente à qualquer determinação.

Brahman, a realidade subjacente e impessoal, está para além de qualquer determinação e é a fonte última de tudo quanto há, dos deuses, homens, animais, demônios, vegetais e tudo quanto já se manifestou, se manifesta agora ou venha a se manifestar em algum momento.

Brahman é Purusha, o homem universal e primevo, de cujo sacrifício tudo provêm, a respeito do qual se diz no Rig Veda: "[Este] homem (Purusha) é o universo inteiro/o que foi e o que ainda vai ser."

Purusha significa homem (macho, não espécie) e seu significado simbólico e filosófico é multifacetado e tem conotações diferentes, embora análogas, em diversas tradições dentro da Índia, inclusive aquelas não-védicas, como o Shankhya.

No caso, o Absoluto é um homem porque nele todas as coisas são um mesmo organismo, os órgãos são subordinados, hierarquizados e têm funções específicas. Essas partes são o organismo, mas este não é a simples soma quantitativa das partes. O homem transcende qualitativamente as partes e estas são como que virtualizadas quando se toma o homem como um todo.

Brahman é sempre mais do que se pode seguramente expressar. Os limites do símbolo não são os da coisa simbolizada e não se pode permitir que induzam ao erro. O Absoluto não é um homem, não é algo, nem tampouco é nada. É a infinita possibilidade de determinações.

Não é "algo", não tem fronteiras intrínsecas ou é limitado por "outro". Portanto, não pode ser distinto de nada. Como dito nos Upanisads, "é o Um-sem-segundo".

É o infinito, o que não tem "ser" porque não tem forma, limites, Eidos, mas que é a condição de possibilidade da determinação e de todo e qualquer ser determinado que, por conseqüência, é limitado, finito e transitório.

Brahman não é isso ou aquilo (neti neti), pois nada do que é manifestado pode identificar-se plenamente com Ele, assim como o vaso de barro não é o barro, que o transcende e o torna possível.

Assim sendo, é necessário que aquele que se aproxima das imagens artísticas e dos contos mitológicos dos deuses indianos tenha em mente que a realidade para a qual eles apontam e à qual eles prestam verdadeiro culto ultrapassa de muito os nomes e as formas, ainda que estas sejam aquelas dos deuses.

Om Shanti Shanti Shanti!
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

A função do darwinismo na epistemologia de Karl Popper

É um traço facilmente identificável a forte influência desempenhada pelo darwinismo no pensamento tardio de Karl Popper. O filósofo austríaco chegou a afirmar que sua teoria do conhecimento era uma epistemologia pós-darwiniana.

Contudo, qual o verdadeiro papel desempenhado pela teoria evolutiva de Charles Darwin na epistemologia popperiana? O darwinismo figuraria como uma base segura para as reflexões epistemológicas ou seria apenas uma analogia útil?

No artigo disponibilizado abaixo tento mostrar que o papel do darwinismo na teoria do conhecimento de Popper não passa por um viés naturalista (onde proposições filosóficas são baseadas em dados biológicos), e sim por uma relação que se mantém no nível apriorístico da lógica.

O artigo, publicado na revista Kinesis, é um resumo do último capítulo de minha dissertação de mestrado que versou sobre o darwinismo na epistemologia de Popper.


Conferência proferida por Popper em 1977 no Darwin College de Cambridge: 

sábado, 27 de março de 2010

Hayek e o caminho para a servidão


Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek

"O controle econômico não é apenas o controle de um setor da vida humana, distinto dos demais. É o controle dos meios que contribuirão para a realização de todos os nossos fins. Pois quem detém o controle exclusivo dos meios também determinará a que fins nos dedicaremos, a que que valores atribuiremos maior ou menor importância (...). [O Estado] não só decidiria quais as mercadorias e serviços a serem oferecidos, e em que quantidades; mas estaria em condições de dirigir sua distribuição entre diferentes regiões e grupos e poderia, se assim o desejasse, discriminar entre pessoas como bem entendesse. (...) Numa economia dirigida, em que a autoridade se interessa diretamente pelos objetivos visados, ela usaria seus poderes para auxiliar a consecução de certos fins e impedir a realização de outros."

FRIEDRICH VON HAYEK, O Caminho da Servidão

Este post tem como única função recomendar enfaticamente a leitura do livro O Caminho da Servidão do economista Friedrich von Hayek. Junto com Ludwig von Mises (também de leitura altamente recomendável), Hayek foi membro destacado da chamada Escola Austríaca de Economia.

Em O Caminho da Servidão, escrito na década de 40 do século passado, Hayek mostra como a planificação econômica e o coletivismo levam ao fim das liberdades individuais e por fim à ditadura.

Uma vez que numa economia planificada todos os meios econômicos restam nas mãos dos planejadores estatais, que os utilizarão para realizar fins determinados de antemão, todas as condições para a realização dos objetivos particulares que caracterizam a ação individual estarão sob o controle do Estado.

Este possuirá assim o poder ilimitado de decidir a vida dos indivíduos a partir de um padrão por ele mesmo estipulado, submetendo todas as forças (até mesmo o ordenamento jurídico e a liberdade de imprensa) às exigências pretensamente necessárias à realização de seu plano.

Para todos aqueles que querem conhecer o genuíno pensamento liberal e não as caricaturas que nos empurram nos colégios e na mídia, a leitura de Hayek e Mises é fundamental.

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Link para versão PDF de O Caminho da Servidão:


Link para o site Taking Hayek Seriously (artigos, entrevistas, vídeos):


Link para versão em quadrinhos de O Caminho da Servidão:

sábado, 13 de março de 2010

Ciência medieval e as condenações de 1277

"A condenação [de 1277] enfraqueceu a influência da ciência e da filosofia aristotélicas sobre o mundo letrado. A certeza e a confiança que haviam caracterizado os filósofos naturais aristotélicos no século XIII foram abaladas. A ênfase no poder absoluto de Deus acoplada à críticas legítimas aos fundamentos da certeza filosófica e científica alteraram consideravelmente o caráter e o campo da discussão científica. Alternativas e possibilidades que não eram sonhadas ou discutidas no século XIII foram consideradas e exploradas no século XIV. (...) Entretanto, embora a confiança no sistema físico de Aristóteles tenha certamente decrescido, isso se deu principalmente por uma ampla desconfiança acerca das explicações físicas em geral."

EDWARD GRANT, Physical Science in the Middle Ages, p.84

Há ainda os que, por ignorância ou preguiça, defendem que não havia discussão científica na Idade Média. Através de diversos estudos históricos dos quais Pierre Duhem foi o pioneiro no início do século XX se sabe hoje que nada disso pode ser dito com justiça. Os debates acerca da física aristotélica estiveram na lista dos temas mais importantes daqueles tempos.

Esses debates, realizados nas grandes universidades, não só pretendiam esclarecer o sentido das proposições de Aristóteles, mas também contribuir com novas questões e críticas. É preciso lembrar que o bojo da educação universitária na Idade Média era a Lógica e a filosofia natural.

Nada mais natural então que a Física fosse um dos mais comentados e discutidos livros de Aristóteles naquele período. Contudo, a recepção da obra do Estagirita não aconteceu de forma plácida e sem conflitos. Há um erro em se afirmar, como tão frequentemente se ouve em nossos dias, que "Tomás 'batizou' Aristóteles e este se tornou a autoridade indiscutível na Idade Média."

A questão é muito mais complexa do que isso e neste espaço não é possível analisá-la em todos os seus aspectos. Mas é possível apontar para alguns fatos importantes da história científica medieval para que se torne mais matizado o caráter das relações entre o pensamento grego e a revelação cristã na Idade Média.

No século XII houve um incremento inédito das traduções das obras dos gregos clássicos. Incentivados pelas traduções árabes, monges e outros eclesiásticos ocidentais se dedicaram à tradução dessas obras para o latim. Poucas vezes na história humana houve um esforço tão grande e concentrado em resgatar e preservar a cultura herdada dos antigos.

O século XIII continuou essa empreitada e nele iniciou-se as grandes discussões acerca da absorção do saber dos antigos dentro da civilização cristã. É o século de Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino, os grandes defensores de Aristóteles. Mas porque o grego necessitava de defensores?

Ora, a filosofia aristotélica era um conjunto formidavelmente coeso, coerente e compreensivo de saber que se aplicava às mais diversas áreas do conhecimento*. Isso impressionou vivamente o espírito dos medievais. Contudo, apesar de tanta sabedoria inegável, algumas das teses da Física e de outros escritos estavam em franca contradição com pontos importantes da Revelação.

Aristóteles negava, por exemplo, a imortalidade da alma e afirmava a eternidade do mundo. A tarefa que se seguiu foi a de buscar uma harmonização entre essa ciência antiga e os conteúdos da fé. Sem dúvida, o maior luminar dessa era e desse projeto foi o frade mendicante dominicano Tomás de Aquino.

Mas nem todos estavam convencidos da conveniência e das vantagens desse projeto. Em 1277, três anos após a morte de Tomás, Etienne Tempier, bispo de Paris, reunido com os mestres de teologia da respeitada universidade parisiense condenou 219 proposições defendidas pelos mestres de artes (filósofos sem treino em teologia).

Entre essas proposições haviam diversas que pertenciam ao corpo científico do pensamento aristotélico. A motivação dessas condenações seria a de preservar a liberdade de Deus. Segundo os teólogos daquela época, as teses condenadas restringiriam inapropriadamente a onipotência divina.

Para Aristóteles todas as coisas obedecem a uma necessidade específica dada pela essência (Forma ou Eidos) que, internamente, faz com que cada coisa se torne o que ela deve ser. São essas essências ou naturezas que determinam o comportamento e o lugar de cada coisa no cosmos fechado e hierarquicamente ordenado.

A partir da perspectiva aristotélica, aquilo que é fisicamente impossível é necessariamente impossível. Tempier e os mestres de teologia da Universidade de Paris consideraram que essa filosofia era restritiva demais, pois, ainda que algo fosse impossível no mundo natural pelos meios naturais, não seria Deus capaz de fazê-lo sendo Ele onipotente?

Aristóteles negava a possibilidade do vácuo, do movimento retilíneo do mundo (o que implicaria o vácuo) e a pluralidade dos mundos. Se para o grego era necessariamente impossível que essas coisas se dessem, não seriam elas possíveis Àquele que sustou o curso do Sol para ajudar Josué?

As teses aristotélicas acima citadas estavam entre aquelas condenadas em 1277. Por causa dessa ofensiva teológica de defesa de Deus, o edifício aristotélico foi abalado e desacreditado e o século XIV assistiu a um período de engenhosas e sutis discussões acerca de hipóteses sobre possibilidades antes totalmente proibidas pela filosofia natural do Estagirita.

Grandes pensadores como Jean Buridan e Nicolas Oresme se dedicaram a questionar, modificar e propor alternativas às soluções dadas por Aristóteles. Mas o faziam como simples hipóteses sem valor real. Qual o motivo para tal comportamento?

A resposta é simples: por causa da liberdade divina. Se Deus é livre a ponto de fazer aquilo que a filosofia natural julga ser necessariamente impossível, resta que nenhum conhecimento real do mundo é possível. Tudo o que pensamos, nossas teorias acerca do mundo só têm valor conjectural, pois qualquer que seja nossa hipótese, por mais certa que pareça, não pode constranger Deus na Sua onipotência.

Para qualquer teoria que se apresente, com qualquer grau de certeza que se queira, Deus sempre pode fazer diferente do que se pensa. As teorias então são encaradas como hipóteses que, embora concordantes com os fatos, nunca podem ser consideradas verdadeiras.

Todas as especulações de Buridan e Oresme são consideradas como construções mentais (secundum imaginationem) que somente "salvam os fenômenos" ou seja, são adequadas ao observado, mas nada dizem sobre a real natureza das coisas.

Dessa forma, as condenações de 1277 afrouxaram os laços do aristotelismo e acabaram por incentivar uma atividade teórica rica e diversificada no campo do estudo dos fenômenos naturais onde floresceram inúmeras hipóteses que antecipavam teses importantes da revolução científica do século XVII.

Por outro lado, essas mesmas inovações teóricas não são encaradas como nada além de construções mentais interessantes e adequadas aos fenômenos, mas incapazes de serem afirmadas como verdadeiras.

A despeito do prefácio de tom conciliador e instrumentalista que o luterano Andreas Osiander escreveu para o De Revolutionibus, o polonês Copérnico ciosamente afirmava a verdade de seu sistema heliocêntrico. É somente aí que a revolução começa. E começa porque novamente se ousa falar em verdades acerca de assuntos concernentes ao mundo natural.

A ciência moderna se fundará na rejeição de Aristóteles e na afirmação da verdade de suas teorias. Para que isso seja possível, uma vez abandonada a ontologia essencialista aristotélica, uma nova ontologia do real é construída.

Ela será quantitativa, ideal e geométrica. Expulsará do real as qualidades cotidianamente observadas e se fiará na necessidade que caracteriza a matemática. Doravante, se considerará a ordem somente a partir de seu aspecto quantitativo e mesmo Deus será convertido num matemático.
...
*(Em diversos posts anteriores nós tratamos das características e teses principais da ciência aristotélica, principalmente com relação às diferenças que estas apresentam frente à ciência moderna. Pedimos ao leitor que se remeta a esses posts para maiores esclarecimentos.)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Schönborn, ciência e teleologia

"Retornemos ao cerne do problema: o positivismo. A ciência moderna primeiro exclui a priori causas finais e formais, depois investiga a natureza sob o modo reducionista do mecanismo (causas eficientes e materiais) e, em seguida, volta-se para afirmar que tanto as causas finais quanto as formais são obviamente irreais, e também que seu modo de conhecer o mundo corpóreo tem prioridade sobre todas as outras formas de conhecimento humano. Sendo mecanicista, a ciência moderna também é historicista: argumenta que uma descrição completa da história causal eficiente e material de uma entidade é uma explicação completa da própria entidade. Em outras palavras, que compreender como algo veio a ser é o mesmo que compreender o que a coisa é. Mas o pensamento católico rejeita a falácia genética aplicada ao mundo natural e contém, em vez disso, uma compreensão holística da realidade baseada em todas as faculdades da razão e em todas as causas evidentes na natureza, incluindo a causalidade 'vertical' da formalidade e da finalidade."

CARDEAL CRISTOPH SCHÖNBORN, First Things, jan.2006

O cardeal católico austríaco Cristoph Schönborn envolveu-se no ano de 2005 numa polêmica acerca da evidência de um desígnio inteligente dirigindo a evolução dos seres vivos (na suposição, é claro que tal evolução tenha ocorrido). O prelado apontava em um artigo publicado no The New York Times que a idéia de uma biologia sem a consideração de fatores teleológicos era intrinsecamente incapaz de explicar satisfatoriamente os fenômenos naturais.

No ano de 2006, na edição de janeiro da revista First Things, Schönborn retomou o tema em outro artigo, dessa vez intitulado The Designs of Science. O texto é uma resposta a um crítico e também um desenvolvimento das ideias ventiladas no artigo de 2005.

Não comentaremos o texto, nos limitando a apontar alguns pontos importantes e interessantes da argumentação do cardeal.

Schönborn salienta que:

1) Suas teses não são defendidas a partir do ponto de vista da teologia, nem da ciência moderna e tampouco da "teoria do design inteligente". Seu apoio vem da filosofia e de exigências racionais e de concordância com a experiência empírica cotidiana;

2) O pensamento cristão contemporâneo absorveu o dualismo cartesiano ao ponto de aceitar tacitamente que o mundo divide-se entre os fenômenos naturais mecanisticamente descritos e explicados e as realidades imateriais cuja crença depende somente da fé;

3) A rejeição dos aspectos teleológicos da realidade leva a um conhecimento intrinsecamente parcial e imperfeito;

4) Há um problema epistemológico com relação ao papel da aleatoriedade (randomness) na teoria neodarwiniana.

Segundo Dawkins, a teoria evolutiva neodarwiniana pode ser resumida numa frase: "mutação genética aleatória mais seleção cumulativa não aleatória". Ou seja, as mutações são aleatórias no sentido de imprevisíveis, mas a seleção ambiental faz o trabalho análogo ao de um designer.

As mutações que concorrem para a maior adaptabilidade do indivíduo ao ambiente aumentam suas chances de sobrevivência e são passadas aos seus descendentes tornando-se parte da herança da espécie. Como aqueles que são portadores de mutações que diminuem sua adaptabilidade têm em geral suas chances de sobrevivência também diminuídas, eles se reproduzem menos e suas características não são passadas adiante pela reprodução sexuada.

Aos poucos, moldada num processo per se não observável de milhares de anos, a espécie se modifica a ponto de fazer surgir uma nova espécie.

Ora, Schönborn questiona o sentido dessa aleatoriedade e afirma que, não obstante os protestos dos neodarwinistas, o ambiente não é menos randômico que as mutações, uma vez que, segundo a própria teoria, ele está sempre mudando e não é relacionado a nenhuma teleologia.

5) A discussão do neodarwinismo por parte dos comentadores católicos está viciada pelo erro de somente discutir a possível compatibilidade dessa teoria com os conteúdos da fé e não tocar na delicada questão da compatibilidade da mesma com as exigências racionais.

O texto do cardeal Schönborn é interessante não só pelas questões instigantes que levanta, mas principalmente pela coragem de propor uma discussão teórica que vai além da posição defensiva adotada pelos teólogos e cristãos em geral que se limitam a comodamente afirmar a transcendência de sua fé.

A atitude correta é discutir não só as questões teológicas, mas também apontar os limites dos pressupostos e das escolhas filosóficas que estão implicadas em cada teoria. Acastelar-se atrás da transcendência dos dogmas e abandonar o campo das disputas intelectuais aos adversários é admitir de antemão a derrota e, por conseguinte, torná-la realidade.

Em tempo: o Cardeal Schönborn é dominicano e, como era de se esperar, dá mostras de conhecer bem a obra do Doctor Angelicus.
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O artigo de Schönborn no The New York Times:

Artigo no First Things:

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ágora, cristianismo e propaganda

É difícil assistir ao filme espanhol Ágora sem ter a sensação de se estar diante de uma peça de propaganda. Visualmente belíssimo, com uma reconstrução impressionante de Alexandria, o filme peca pelo maniqueísmo mais raso.

A protagonista, a filósofa neoplatônica Hipácia, de quem nada sobreviveu além de alguns poucos testemunhos de historiadores, é apresentada como uma legítima precursora da ciência moderna, realizando experimentos e antecipando até mesmo Kepler.

Mas essa liberdade na composição de uma personagem de quem tão pouco se conhece não é inocente. Hipácia de fato era uma filósofa pagã de Alexandria que fora morta por um grupo de cristãos aparentemente sob a influência do Santo e Padre da Igreja Cirilo de Alexandria. O papel real deste na morte da filósofa ainda é matéria bastante controversa entre os historiadores.

Contudo, os roteiristas fizeram com que uma filósofa neoplatônica se tornasse uma mártir do ateísmo científico. O filme pretende mostrar como, supostamente, do estudo de Aristarco de Samos e da crítica do sistema de epiciclos de Ptolomeu, Hipácia chega gradativamente à idéia de órbitas elípticas de Kepler.

Por meio desse anacronismo, o filme faz com que Hipácia esteja intimamente ligada às conquistas teóricas da ciência moderna e se torne simbolicamente sua representante. E a partir de suas descobertas científicas, Hipácia alcança a verdade sobre o lugar do homem no cosmos: a Terra não está no centro e por isso o homem não é um ser especial como querem os cristãos.

Os cristãos, por sua vez, são representados no filme como belicosos, rudes, fanáticos, ignorantes, psicóticos e têm ao seu dispor uma tropa de choque armada trajada de preto (como os camisas negras fascistas e a S.S.) com ares de terroristas islâmicos. Antecipando-se à Inquisição, esses brutos se dedicam a jogar pagãos em fogueiras obrigando-os a andar nas chamas. Tais beócios serão aqueles que, ao final, trucidarão Hipácia antes mesmo que ela possa anunciar sua grande descoberta.

A morte da filósofa é selada no momento em que ela, diante das pressões cristãs, recusa-se a aceitar o batismo e, instada a responder se crê em Deus, limita-se a dizer que crê na filosofia. É claro que, na linguagem do filme, a "filosofia" de Hipácia não é aquela a que ela historicamente se dedicou, o estudo do neoplatonismo que tinha no conhecimento e na união com o divino seu fim último.

Ao contrário, no filme Hipácia é uma cientista contemporânea, quase um Richard Dawkins, lutando contra a ignorância obscurantista cristã. E para consumar essa imagem, a filósofa é acusada formalmente de ateísmo e bruxaria. Então ela é morta pela turba daqueles homens de negro.

Ora, isso significa que, no filme, se Hipácia não houvesse sido morta, ela teria anunciado suas descobertas e a ciência moderna começaria ali mesmo. Não teria havido uma Idade Média, uma era de trevas e de obscurantismo. O ocidente não teria que dar aquela imensa e tortuosa volta que foi o período medieval para alcançar a sabedoria do século XVII. O caminho teria sido reto e sem obstáculos.

Se isso não aconteceu, a culpa foi do cristianismo. Mais de um milênio antes do caso Galileu, a Igreja já havia impedido o avanço da ciência. Evidentemente, o argumento é simplista demais, contudo ele serve bem para influenciar uma platéia já predisposta por séculos de propaganda anti-cristã.

Ninguém pode negar que houve conflito entre a herança filosófica grega e o cristianismo nascente. Houve rejeição e condenações decerto. Como exemplo poderíamos citar Tertuliano que negava qualquer valor à sabedoria filosófica pagã e o imperador cristão Justiniano que fechou a Academia platônica em 527 D.C., forçando Damascius, seu último líder, a exilar-se na Pérsia.

Mas também houve compreensão e preservação. São Justino, no século II defendeu o estudo da filosofia e da sabedoria gregas e Santo Agostinho, contemporâneo de Hipácia, realizou a primeira grande tentativa de harmonização entre o cristianismo e o platonismo.

Nunca é demais lembrar que foram os monoteístas islâmicos que buscaram traduzir as obras filosóficas gregas ainda no século IX da era cristã e foram os mosteiros europeus que posteriormente preservaram e copiaram essas obras tornando-as acessíveis. Além disso, o século XII assistiu a uma enxurrada de traduções de clássicos gregos e os séculos XIV e XV assistiram a debates acalorados sobre a filosofia e a física de Aristóteles.

O problema de Ágora não é somente a simplificação grosseira da complexidade dos conflitos surgidos entre o cristianismo e a herança pagã que ele apresenta. Seu problema principal é a falsificação histórica com objetivos de propaganda. Hipácia não era, e não poderia ser, por sua época e sua formação, uma cientista moderna e atéia. E nem os cristãos eram uma massa ignara e fanática de assassinos.

Por outro lado, há uma certa tendência na cultura popular contemporânea que parece conceber que os pagãos viviam num idílio edênico até o momento em que os seguidores de um certo carpinteiro galileu monoteísta chegaram e destruíram tudo a ferro e fogo. Isso decerto não tem nenhum respaldo histórico, mas ajuda a entender o apelo que o filme possa ter nas audiências contemporâneas.

No fim, Ágora é uma peça de propaganda que usa anacronismos e elementos contraditórios, como uma defesa do ateísmo mesclado à uma simpatia difusa pelo paganismo, para disseminar uma imagem totalmente negativa do cristianismo digna dos mais caluniosos panfletos iluministas do século XVIII.

Certamente diversos momentos da história do cristianismo no ocidente podem ser alvos de críticas. E já houve quem as fizesse com muita propriedade e pertinência. Mas definitivamente esse não é o caso de Ágora.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

George Ellis, Física e um bule de chá

"Nosso ambiente é dominado por objetos que incorporam os resultados de um desenho intencional (prédios, livros, computadores, colheres de chá). A física de hoje não tem nada a dizer sobre a intencionalidade que resultou na existência de tais objetos, ainda que essa intencionalidade seja claramente efetiva." (tradução minha)

GEORGE ELLIS, Physics, Complexity and Causality, in NATURE, v.435, jun.2005

O trecho acima destacado é tirado de um artigo de autoria do sul-africano George Ellis, físico, cosmólogo e professor de matemática aplicada do Departamento de Matemática da Universidade da Cidade do Cabo. Ellis já escreveu livros em parceria com Stephen Hawking e é considerado uma das maiores autoridades em cosmologia atualmente.

Nesse interessante artigo Ellis mostra como a física moderna é incapaz de dar conta de objetos que apresentam qualquer grau de desenho intencional. Certamente pode-se descrever matematicamente as leis que subjazem ao comportamento dos corpos, mas não se pode explicar os objetos que são frutos de desígnio finalista.

Em outras palavras, para a física a teleologia de certos objetos como o bule de chá permanece inexplicada. Por outro lado, esse estado de coisas tem uma história bem definida. Ele surgiu ainda no século XVII quando os proponentes da nova física abandonaram a física qualitativa e teleológica de Aristóteles e fundaram seu programa de pesquisas numa ontologia quantitativa.

Para tais pensadores, só o que pode ser lido pela linguagem das matemáticas pode ser objeto de ciência. Sua ousadia foi até ao ponto de afirmar que as qualidades sensíveis, cotidianamente observadas (cheiros, cores, sabores, etc..), nada mais eram do que impressões subjetivas e que, na realidade, a natureza última das coisas era matemática. O mundo não seria mais do que matemática reificada.

Ora, como mostramos diversas vezes em posts anteriores, uma ontologia matemática do real não deixa espaço para nenhuma teleologia. Tudo no mundo se processa como num grande mecanismo sem qualquer finalidade.

Aristóteles considerava que os filósofos antes dele haviam somente tratado das causas materiais e defendia que uma física deveria dar conta de todos os fenômenos observados, inclusive aqueles que apresentam uma causalidade final consciente como a ação humana. Por outro lado, o filósofo grego via também uma teleologia agindo em todo o fenômeno, ainda que não por uma ação consciente.

Em cada coisa há uma essência (Eidos, Forma) que é passada do progenitor à sua descendência nos seres vivos ou imposta por um agente nos seres inanimados e que age na matéria (Hylé, substrato primário de cada coisa) internamente levando-a a atualizar determinadas potencialidades. Assim, por exemplo, a Forma que está na mente do construtor e que é imposta aos materiais adequados se tornará, ao final do processo, uma casa atual.

Para Aristóteles seria absurdo achar que o que somos foi formado, ainda que num primeiro momento, pelo choque casual e randômico de partículas. A possibilidade de um único ser complexo qualquer a partir do acaso já seria difícil demais para ser concebida, mas o mundo é feito da repetição de comportamentos típicos.

A água é água porque o mesmo comportamento observável e características internas (composição química) pode ser verificado em cada gota. Um animal determinado pode ser identificado como um cão porque suas características físicas e comportamentais se coadunam com aquelas da espécie canina.

Não há compreensão do singular sem que se remeta a um universal. Cada coisa neste mundo se refere a um gênero e a uma espécie. Não há nenhum objeto que seja rigorosamente sui generis. E o universal é a essência da coisa. É aquilo que faz que uma coisa seja o que é e não outra coisa e que garante o comportamento típico que apresenta.

Essa perspectiva foi abandonada, ao menos no nível teórico, pela ciência moderna. Contudo, restava ainda o fantasma da finalidade consciente humana dentro da moderna máquina sem propósitos. Tentou-se então a redução dessa teleologia ao mecanismo.

Mas como aponta com perspicácia A. N. Whitehead, "nunca se observou, entre os componentes materiais de um corpo animal, qualquer reação que, de algum modo, restringisse as leis químicas e físicas aplicáveis ao comportamento da matéria inorgânica. Isso, entretanto, é uma proposição muito diferente da doutrina de que nenhum princípio adicional pode estar envolvido."

O interessante no artigo de Ellis é que ele aponta para as deficiências do modelo teórico adotado pela ciência desde o século XVII. Evidentemente, as questões que podem ser derivadas da crítica dessas deficiências são muito mais complexas do que é possível aqui tratar. De qualquer forma, essa é uma discussão que considero das mais importantes e que parece não pode mais ser postergada.
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Artigo de George Ellis:

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Nome da Rosa: William de Baskerville e os limites da investigação


"Nunca duvidei da verdade dos signos, Adso, são a única coisa de que dispõe o homem para se orientar no mundo. O que eu não compreendi foi a relação entre os signos. Cheguei a Jorge através de um esquema apocalíptico que parecia reger todos os crimes, contudo era casual. Cheguei a Jorge procurando um autor de todos os crimes e descobrimos que cada crime tinha no fundo um autor diferente, ou então nenhum. Cheguei a Jorge seguindo o desígnio de uma mente perversa e raciocinante, e não havia desígnio algum, ou seja, Jorge mesmo fora dominado pelo próprio desígnio inicial e depois se iniciara uma cadeia de causas, e de concausas, e de causas em contradição entre si, que procederam por conta própria, criando relações que não dependiam de qualquer desígnio. Onde está toda a minha sabedoria? Comportei-me como um obstinado, seguindo um simulacro de ordem, quando devia bem saber que não há uma ordem no universo."

William de Baskerville, em O Nome da Rosa de Umberto Eco

As palavras do frade franciscano inglês William de Baskerville ao final do romance O Nome da Rosa, eivadas de decepção e desânimo, revelam uma questão teórica das mais importantes e que dá um certo tom desalentado à empresa detetivesca do protagonista. Esse tom parece ter sido totalmente esquecido na adaptação cinematográfica e em boa parte das críticas à obra.

A questão que põe William desconcertado é o fato de que, embora largamente adequada aos signos manifestos, aos fatos ocorridos, e a despeito de ao fim conduzir à descoberta das atividades criminosas do velho "venerável" Jorge de Burgos, a hipótese que guia o frade é totalmente errônea.

Sua teoria de uma mente que matava de acordo com um esquema apocalíptico, embora se coadunasse com as formas e com a ordem cronológica dos crimes, estava totalmente equivocada, pois esses mesmos crimes foram, na realidade, cometidos de forma aleatória totalmente independente do esquema geral imaginado por William.

A nevasca de Adelmo foi na verdade um suicídio. O sangue onde foi encontrado Venâncio foi uma idéia de Berengário para esconder o corpo que inadvertidamente encontrara. A morte de Berengário na água foi casual e estava ligada a seu costume de banhar-se com freqüência. A terceira parte do céu na morte de Severino foi uma coincidência determinada pelo fato de uma esfera armilar ser a coisa mais à mão de Malaquias que cometeu o crime por ciúme vulgar. E, por fim, os escorpiões de Malaquias não eram mais do que o reflexo de uma sugestão ameaçadora de Jorge de Burgos.

Em todos esses eventos o acaso desempenhou um papel preponderante, de modo que a concordância dos crimes com o esquema hipotético do frade inglês não revelava uma adequação real entre a teoria e os fatos, entre o explicans e o explicandum. E isso manifesta a verdade epistemológica de que qualquer conjunto de dados pode ser logicamente explicado de forma adequada por um número indefinido de teorias.

O maior desafio da razão teórica é reunir os diversos fatos dispersos no tempo e no espaço sob um conjunto finito de leis fundamentais. E não basta que se possa delas derivar logicamente os fatos; é necessário que essas leis fundamentais realmente correspondam à natureza dos fenômenos estudados.

A questão colocada claramente pela personagem cativante do franciscano William de Baskerville levanta dúvidas capitais acerca da possibilidade de "deduzir" verdades de fatos isolados, habilidade de que geralmente os detetives da literatura se valem para a resolução de seus mistérios.

A conclusão desalentadora de William, exposta pouco mais à frente no livro, é a de que as teorias, construções mentais de ordem que imaginamos e impomos ao mundo, no fundo nada mais são que redes, instrumentos que devem ser abandonados tão logo se alcance o que se almeja, uma vez que se descobre fatalmente que elas não eram em absoluto verdadeiras.

A revelação do erro, final desconcertante da busca do franciscano detetive, lança sobre toda a sua empreitada investigativa um certo tom de ironia e de fracasso. Contudo, o fracasso não é a palavra derradeira dessa história porque William, apesar de tudo, ainda carrega sob seus braços diversos livros raros salvos por ele das chamas enquanto abandona o mosteiro destruído.

Ele continua na empreitada do conhecimento. Como poderia não ser assim?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Popper e o critério de demarcação científica

Encontram-se amiúde nas discussões e embates acerca de criacionismo, design inteligente e darwinismo tentativas de retirar deste último o status de teoria científica. E frequentemente os argumentos usados para tanto são retirados das teorias de Karl Popper. A estratégia seria desacreditar o darwinismo como opção científica válida pelo fato de não apresentar um caráter empiricamente preditivo.

A manobra descrita acima carrega implicitamente, por vezes, a ideia de que o critério de demarcação popperiano implica em algum tipo de negação da importância cognitiva de teorias não científicas e na afirmação de que somente teorias científicas podem alcançar a verdade. Entretanto, sem entrarmos no mérito da questão da cientificidade darwinista, veremos que a teoria da demarcação defendida por Popper não implica em nenhuma dessas consequências.

O problema que levou Popper às suas investigações epistemológicas foi aquele da possibilidade de uma demarcação clara entre a legítima ciência empírica e a pseudociência empírica. Tradicionalmente a ciência empírica é descrita segundo o modelo indutivista: de fatos observados semelhantes inferem-se teorias explicativas e enunciados universais na forma de leis. Seriam teorias científicas aquelas que se coadunassem a esse procedimento indutivo.

Ora, para Popper essa teoria estava errada em dois pontos principais: 1) teorias antecedem logicamente os fatos e 2) instâncias singulares não estabelecem enunciados universais.

1) Fatos são semelhantes e diferentes em diversos aspectos e se observamos fatos semelhantes é porque já o vemos a partir de algum ponto de vista ou de algum tipo de expectativa mais ou menos teórica. Assim, dos fatos não se inferem teorias, mas a partir de teorias, pontos de vista ou expectativas prévias observamos fatos.

2) De nenhum grupo limitado de fatos observados pode-se logicamente inferir um enunciado universal. A observação de diversos cisnes brancos, não importando seu número, não nos dá o direito de afirmar que todos os cisnes são brancos. Sempre pode haver uma instância refutadora (ou uma série delas).

Popper não aceitava a ideia de uma demarcação que caracterizasse a ciência a partir do comportamento real dos cientistas em suas pesquisas e defende que uma teoria demarcatória alternativa deveria ser encontrada que resolvesse os problemas lógicos e epistemológicos que o indutivismo apresentava e que, ao mesmo tempo, não criasse outros tantos.

A solução dada por Popper era o método hipotético-dedutivo. Se não se pode derivar logicamente um enunciado universal de instâncias singulares e concretas, pode-se no entanto refutar enunciados universais a partir de enunciados singulares. De um número qualquer de corvos pretos observados não se infere que todos os corvos são pretos, mas o enunciado de que todos os corvos são pretos pode ser refutado logicamente pela observação de um corvo branco (ou uma série deles).

Mas isso não é suficiente. Para satisfazer o caráter empírico da ciência essa refutação deve ser também empírica. Então, para Popper, teorias científicas são aquelas cuja estrutura lógico argumentativa permita a possível refutação de suas predições. Em outros termos, teorias científicas (consideradas como um conjunto argumentativo logicamente consistente composto de enunciados universais, condições iniciais e hipóteses auxiliares) são aquelas das quais se podem derivar predições empíricas, ou seja, predições testáveis intersubjetivamente.

Para que uma teoria seja científica, basta que ela apresente o caráter disposicional de refutabilidade empírica, ou em outros termos, basta que suas predições possam ser expostas ao teste empírico. Se as predições se confirmarem, a teoria está momentaneamente corroborada. Isto significa que até o momento presente suas predições não foram refutadas.

Para Popper, em nenhum momento a corroboração implica num atestado de veracidade da teoria. Teorias científicas podem somente ser refutadas, nunca confirmadas definitivamente. Resta então que o caráter hipotético e conjectural é inerente às teorias científicas.

As teorias e teses que não são científicas são chamadas por Popper de "metafísicas". O fato de não poderem ostentar o selo da cientificidade não lhes furta sua importância ou sua pretensão de verdade. Embora irrefutáveis empiricamente, elas podem ser verdadeiras ou falsas e devem ser avaliadas segundo sua capacidade de resolver adequadamente as questões às quais pretendem responder.

Dessa forma, para Popper, negar a cientificidade de uma hipótese ou teoria não é negar-lhe a importância e nem mesmo torná-la irracional, dispensável ou sem sentido. O que distingue teses científicas de teses metafísicas é o fato de que as primeiras podem ser refutadas pela experiência.

Entretanto, Popper admite que nem mesmo essa refutação terá caráter definitivo uma vez que os testes empíricos são feitos com aparelhos e instrumentos que incorporam teorias que não podem ser conclusivamente estabelecidas, somente refutadas. Então qualquer resultado experimental que possa refutar as predições de uma teoria pode ser questionado a qualquer momento.

No fundo, são teorias usadas para refutar outras teorias. Somente a convenção entre os cientistas poderá decidir pela refutação de uma teoria frente a resultados experimentais adversos.
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Leia também:
Sobre o caráter convencional da refutação empírica em Popper:
http://oleniski.blogspot.com.br/2014/04/popper-convencionalista.html

Sobre a falseabilidade do falseabilismo popperiano:

domingo, 17 de janeiro de 2010

Imre Lakatos, Pierre Duhem, teorias e anomalias

"Quando certas consequências de uma teoria são refutadas pelo experimento nós aprendemos que essa teoria deve ser modificada, porém não nos é dito pelo experimento o que deve ser mudado. Ele deixa para o físico a tarefa de encontrar o ponto fraco que atrapalha todo o sistema. Nenhum princípio absoluto dirige essa busca, a qual diferentes físicos podem conduzir em formas muito diferentes sem terem o direito de acusar um ao outro de ilogicidade. Por exemplo, alguém pode se obrigar a salvaguardar certas hipóteses fundamentais enquanto tenta restabelecer a harmonia entre as consequências da teoria e os fatos complicando o esquematismo no qual essas hipóteses são aplicadas invocando várias causas de erros e multiplicando correções. O outro físico, desdenhando tais complicados procedimentos artificiais, pode decidir mudar algumas das afirmações essenciais que suportam todo o sistema."

PIERRE DUHEM, The Aim and Structure of Physical Theory, pag.217

O que fazer quando as predições de uma teoria são refutadas pelos experimentos? Sem dúvida, essa é uma das questões cruciais da metodologia e da epistemologia. Ela é tão importante que suas implicações alcançam até a questão da possibilidade de uma demarcação entre ciência e pseudociência.

Pierre Duhem demonstrou elegantemente que quando uma predição é refutada pelo experimento todo o sistema da teoria é abalado. Ou seja, como uma teoria é um conjunto logicamente ordenado de hipóteses, axiomas, condições iniciais e hipóteses auxiliares, uma predição deduzida desse conjunto, se falsa, implica na refutação do conjunto inteiro da teoria, pois é como um todo que ela é posta em teste.

Evidentemente não podemos dizer que cada hipótese e afirmação contida na teoria é falsa, mas podemos dizer que o conjunto é falso. E, desse conjunto, o experimento não nos diz qual afirmação ou hipótese é falsa. O problema pode estar em uma hipótese auxiliar, nas condições iniciais ou mesmo nas afirmações mais essenciais da teoria ou em leis aparentemente bem assentadas que lhe servem como background teórico.

A questão então será como lidar com essa anomalia experimental. Pode-se tentar consertar a teoria pela adição de hipóteses ad hoc, ou seja, hipóteses que têm por objetivo solucionar problemas específicos. Por exemplo, pode-se questionar os aparelhos de medição ou as teorias que sustentam os mesmos, postular a existência e atuação de forças além daquelas admitidas primeiramente pela teoria ou mesmo modificar asserções mais ou menos essenciais para a teoria.

O caso é que não há limite lógico para esses consertos na teoria. Assim, um cientista pode se aferrar a uma teoria refutada por experimentos o quanto ele quiser sem poder ser acusado de dogmatismo ilógico. Ele pode passar a vida a retocar sua teoria para fazê-la adaptar-se aos dados e nada o impedirá de continuar nessa busca indefinidamente.

Se a refutação de uma teoria pelo experimento implica somente que o conjunto dado que compõe a teoria está confutado sem com isso indicar qual de seus elementos constituintes deve ser modificado ou substituído, então o cientista deverá testar inúmeras modificações e novas configurações para solucionar o puzzle da adequação empírica.

Duhem admite que logicamente não há como restringir esse processo, mas assevera que em algum momento, pela ação do que ele chama de bom senso, a teoria indefinidamente retocada será por fim abandonada. Entretanto, nenhuma indicação de quando isso deve acontecer pode ser dada.

É Imre Lakatos que tentará fornecer um critério para a admissão de hipóteses ad hoc em teorias científicas. O filósofo da ciência defenderá que as teorias estão sempre diante de um mar de anomalias e que são justamente as modificações ad hoc que constituem um programa de pesquisas. Toda nova hipótese acoplada ao hard core (conjunto de afirmações básicas protegido da refutação) da teoria deve, para ser científica, apresentar um caráter de progressividade, ou em outras palavras, deve prever novos fatos.

Se um determinado programa de pesquisa sempre apresenta novas predições corroboradas pelos experimentos, então ele é progressivo. Se, pelo contrário, um programa de pesquisas não apresenta novos fatos além de seus sucessos antigos, então ele é um programa degenerativo.

O detalhe é que, ainda que se possa escolher um programa progressivo ao invés de um degenerativo, nada impede um cientista de fazer a escolha inversa. Isto pelo simples fato de que essa avaliação acerca da progressividade ou degeneração é sempre momentânea, histórica e tentativa. Não se pode dizer que um dia, por ação de mais modificações, um programa não possa se tornar de novo progressivo depois de um período qualquer de estagnação.

O fato é admitido por Lakatos que acrescenta que nenhum cientista pode ser considerado ilógico por se aferrar a uma teoria estagnada. Desse modo parece que, ainda que um critério de avaliação nos tenha sido dado, a situação permanece em essência a mesma daquela diagnosticada por Duhem.
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Leia também:
(texto curto de Imre Lakatos sobre sua metodologia dos programas de pesquisa)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Dostoievski e a estratégia revolucionária



"-Por que tantos crimes, esses escândalos, essas misérias?
- A fim de abalar o Governo nas suas bases, a fim de apressar a decomposição da sociedade, a fim de desanimar a todos e inocular nos espíritos a desordem. Depois teríamos nos apoderado dessa sociedade caótica, doente, abandonada, cínica e cética, mas que aspira submeter-se a qualquer idéia diretriz; teríamos brandido o estandarte da revolta, apoiando-nos na rede de grupos de Cinco, que por seu lado agiriam promovendo a propaganda, estudando os pontos fracos do adversário e os meios práticos de o combater."

Liamchine, membro do grupo revolucionário de Cinco, em Os Demônios de FIODOR DOSTOIEVSKI


Toda a estratégia revolucionária, exposta por Dostoievski, de um fôlego só, na confissão deliberada da personagem do revolucionário Liamchine.

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Mais de Dostoievski sobre os revolucionários:

domingo, 3 de janeiro de 2010

Chesterton e a moral revolucionária

"Os homens tentaram transformar o verbo transitivo 'revolucionar' em um verbo intransitivo. O jacobino poderia indicar não somente o sistema contra o qual se rebelava, mas também (e isso era o mais importante) o sistema contra o qual ele não se rebelava, o sistema sobre o qual ele depositava confiança. Mas o novo rebelde é um cético e não vai confiar inteiramente em nada. Ele não tem lealdade; então ele não poderá jamais ser um verdadeiro revolucionário. E o fato de que ele duvida de tudo se mostra realmente quando ele pretende denunciar tudo. Pois toda denúncia implica uma doutrina moral de algum tipo; e o revolucionário de hoje duvida não somente da instituição que ele denuncia, mas também da doutrina pela qual ele denuncia. (...) Em suma, o revolucionário moderno, sendo infinitamente cético, está sempre engajado em minar suas próprias minas. Em seu livro sobre política ele ataca os homens por pisotearem a moral; em seu livro sobre ética ele ataca a moralidade por pisotear os homens. Assim, o homem revoltado moderno se tornou praticamente inútil para todos os propósitos da revolta. Por se rebelar contra tudo ele perdeu seu direito de rebelar-se contra qualquer coisa."

G.K. CHESTERTON, Orthodoxy, pags.46/47 (tradução própria)

O que o ensaísta e escritor britânico G.K. Chesterton denuncia aqui é a impossibilidade de um revolucionário moderno defender realmente a revolução a partir de qualquer ponto de vista ético minimamente válido. E isso é simples de se entender, uma vez que entre suas ideias está a relatividade desses mesmos valores, considerados como mera fachada ideológica usada pelas classes dominantes para a opressão das classes dominadas.

Se realmente os valores nada mais são do que expressões e reflexos culturais diretos de uma infraestrutura econômica, então a partir de quais valores é possível defender uma transformação radical dessas mesmas relações e sobre qual ponto ético deverá girar a roda da revolução? Pois se o revolucionário é cético acerca da validade absoluta das afirmações e dos juízos morais, então não há motivos para que qualquer pretendida opressão seja interrompida ou para que qualquer injustiça seja reparada. Não há justiça a ser feita. Há mera facticidade, mero acaso. Uns oprimem e outros são oprimidos e é só.

Que motivo pode o revolucionário fornecer para a mudança dessa situação senão aquele do desejo meramente egoísta e tirânico de tomar ele mesmo o lugar do opressor? É claro que ele enfeitará sua retórica com palavras como liberdade e emancipação. Mas para ele elas não podem ser mais que palavras vazias, flatus voces como diriam os medievais. Chesterton não o aponta explicitamente, mas o niilismo é a marca do revolucionário que ele critica. Ele luta por valor nenhum além de seu próprio egoísmo. Não reconhece universalidade alguma nos valores mais caros da humanidade. Ele os usa como meros fantoches para seus ardis enganadores.

Como Popper indicou em suas obras sobre política, a única moral que o revolucionário poderia defender é aquela do futuro, aquela que ele pretende conhecer "cientificamente" de antemão como a ética dos vencedores no inexorável processo histórico que conduzirá ao Éden terrestre. "A força que está por vir é o direito", diz o revoltado moderno. O revolucionário vive de "futurismo moral". Ele pretende que a moral que ele defende seja a moral que prevalecerá, como um fato científico, no fim da História. Mas como um mero "fato científico" pode fundamentar uma moral? E se uma pretensa lei histórica indicasse que a moral do futuro seria escravagista? Dever-se-ia assim mesmo defendê-la e lutar para instaurá-la?

Eis mais uma consequência da ideia de que valores são meras fachadas de interesses de classe. A moral futura não será nada além da expressão dos vencedores do inescapável processo histórico e não um valor absoluto e inegociável para a dignidade humana. O revolucionário floreia esse futuro com expressões morais e valores agradáveis e de ampla aceitação. E em nome desse futuro edênico pretensamente inexorável ele se permite toda e qualquer ação imoral aos olhos da sociedade vigente. Inverte-se a ordem natural das coisas. O presente é substituído e regido pelo futuro.

Nechaiev e Trotsky eram unânimes em dizer, que qualquer ato ou prática são legítimos, desde que contribuam para a revolução. Todo escrúpulo ou resistência moral à utilização de atos torpes é considerado como obstáculo que pode retardar o processo revolucionário e, por fim, é creditado à resistência fútil das classes dominantes ameaçadas pela revolução.

O revolucionário não pode se basear em valores para defender suas atividades. Na verdade, ele é a última pessoa que deveria ser ouvida quando se trata de moralidade, pois ninguém pode dar aquilo que não tem.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dostoievski e o ascetismo demoníaco

"Em suma, tudo depende dos senhores e da convicção em que devem estar de que agiram bem - convicção da qual logo amanhã estarão definitivamente de posse, segundo o espero. É por isso, entre outras coisas, que estão reunidos e que, partilhando das mesmas idéias, formaram livremente uma organização a fim de se auxiliarem mutuamente e, sendo preciso, a fim de se vigiarem mutuamente. Foram chamados a reformar uma sociedade decrépita e apodrecida: esse pensamento lhes deve estimular constantemente a coragem. Os seus esforços devem sempre procurar fazer com que tudo desabe - tanto o Estado quanto a sua moral. Só nós ficaremos de pé, nós que desde muito estamos preparados para tomar posse do poder. Anexaremos os indivíduos mais inteligentes, e quanto aos imbecis, serão por nós cavalgados. Isso não os deve chocar. Teremos que reeducar a geração atual para a tornar digna da liberdade. Ainda restam milhares de Chatov. Organizar-nos-emos para dirigir o movimento: seria uma vergonha, da nossa parte, não nos apoderarmos do que praticamente se nos oferece."

Discurso de Piotr Stepanovitch Verkhovensky, líder do grupo revolucionário socialista, após o assassinato de Chatov em Os Demônios de FIODOR DOSTOIEVSKI

Esse discurso, sem dúvida, poderia ter saído dos lábios de Sergei Nechaiev, o revolucionário niilista russo que assassinou um dissidente em novembro de 1869 e inspirou Dostoievski na criação de Piotr Stepanovitch. Nechaiev foi também o autor do nefasto Catecismo Revolucionário onde preconizava que todos os fins, mesmos os mais torpes, são justos se conduzem à revolução.

No Catecismo, Nechaiev afirmava que o ser inteiro do revolucionário está "devorado por um único propósito, um único pensamento, uma única paixão - a revolução. De coração e de alma, não somente por palavras, mas por ações, ele cortou toda a ligação com a ordem social e com o mundo civilizado inteiro; com as leis, boas maneiras, convenções e moralidade desse mundo. Ele é seu impiedoso inimigo e continua a habitar nele com apenas um propósito: destruí-lo."

O revolucionário é um homem totalmente dedicado, para quem sentimentos como amor gratidão, misericórdia, amizade e honra devem ser afastados. E até mesmo ódio e vinganças pessoais devem ser imperiosamente afastadas em nome do sucesso da revolução e da destruição de toda a ordem vigente.

As inclinações pessoais e os desejos do revolucionário não podem jamais se sobrepor aos interesses da atividade revolucionária, sendo sua moral e regra de vida realizar tudo, por qualquer meio concebível, que contribua para a conquista de seu objetivo único. O revolucionário está morto para si mesmo para que a revolução viva.

Se Nechaiev não houvesse sido preso, o jovem dissidente morto por ele certamente teria sido só o primeiro. Piotr Stepanovitch, o Nechaiev dostoievskiano, por seu turno, tem consciência de que Chatov é somente o primeiro e que milhares deveriam futuramente ter o mesmo destino.

O Catecismo prosperou e fez inúmeros discípulos que se dedicaram com afinco a eliminar seus próprios Chatov onde quer que os encontrassem. As valas comuns, Gulags e campos de extermínio do século XX o testemunham com eloquência muda.

É um dado incontestável declarado por todas as religiões tradicionais: o homem necessita de ascese. É de sua natureza mais profunda. Entretanto, é também fato conhecido a todas as religiões a possibilidade da ascese maléfica.

Uma leva o homem a morrer para si mesmo, a esvaziar-se, a tornar-se nada para alcançar o Todo, o Absoluto. A outra leva o homem a morrer para seus desejos imediatos, para concentrar-se inteiramente na busca de um ideal de poder e de destruição, fruto da insatisfação de um exílio ontológico confusamente discernido a partir de uma imagem invertida do céu.

Left hand path, ascese do demônio.