Νεκρομαντεῖον
terça-feira, 21 de julho de 2026
Mário Ferreira dos Santos e a "A Sabedoria da Unidade" (capítulo XXI) - a matéria prima
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Ernst Jünger, a coragem e a natureza do guerreiro
LOUIS LAVELLE, Carnets de Guerre, 1915-1918 (tradução minha)
"Para o Lansquenete, a vida era as nuvens de tempestade sobre a vastidão da noite, a tensão que paira sobre o abismo."
ERNST JÜNGER, A Guerra como Experiência Interior (tradução minha)
Ernst Jünger faz um impressionante e belo elogio da coragem no sexto capítulo de Der Kampf als inneres Erlebnis (A Guerra como Experiência Interior). O que pode haver de mais sagrado que o guerreiro?, pergunta o soldado filósofo. A coragem é o veículo das grandes realizações, a vitória do espírito sobre matéria, o juízo de Deus sobre duas ideias, o comprometimento derradeiro com aquilo que se acredita, o testemunho da consciência de que o homem tem valores eternos e indestrutíveis.
Jünger, que assumidamente escreve como guerreiro, considera que se causa santifica a luta, mais ainda a luta santifica a causa, parafraseando a famosa passagem do Zarathustra:
"Que vossa paz seja a vitória! Dizeis que a boa causa santifica até a guerra? Eu vos digo, porém, que a boa luta santifica qualquer causa. A luta e a coragem realizaram maiores feitos que o amor ao próximo. Não foi a vossa compaixão, mas a vossa coragem que até agora salvou os infelizes". *
O herói e a coragem são venerados em toda parte onde o espírito não é degradado e baixo, e comandam a admiração até mesmo quando se manifestam no inimigo. Por esse motivo, são justamente os soldados que apertam as mãos daqueles sobre os quais até há pouco despejavam a sua fúria homicida e que plantam cruzes nas sepulturas de seus adversários. O reconhecimento do valor os une numa comunidade que reconhece a Pietas a despeito da diferença dos deuses cultuados. A figura do infiel justo, fenômeno presente em várias religiões, é o que permite ao cristão admirar a Eusébia (Εὐσέβεια) de Sócrates para com seus deuses sem que estes deixem de ser rivais a serem combatidos.**
O religioso entende e admira a devoção, o compromisso e o sentimento da sacralidade presentes em outros homens não obstante as diferenças e incompatibilidades teológicas que os separam. Analogamente, a luta revela uma causa communis que reúne os inimigos dotados de excelência marcial. Todos, sabendo ou não, oferecem um sacrifício cruento nas aras de Marte. Existe neles uma força que clama por ser exercitada, uma potência que almeja a perfeição do ato, que só é dignificada no Agon (Ἀγών), no esforço da disputa e do combate com o grande adversário. Heitor quer medir-se com Aquiles. Morrer em combate singular com o maior dos aqueus é glorioso.
O reconhecimento mútuo entre os cultores dessa forma de vida (Lebensform) gera o respeito e o cavalheirismo (Ritterlichkeit) tantas vezes manifestados para com os seus pares nas linhas inimigas. Poucos, e, por isso, nobres, são os adeptos desse métier que só admite os melhores e os mais bravos, uma aristocracia que honra os fins e não os meios, e cuja comunicação é a linguagem do poder (Sprache der Macht).
Pólemos (Πόλεμος) não é somente uma força destrutiva. A guerra quebra as formas solidificadas que obstaculizavam o fluxo das novas energias. Os combatentes estão unidos nessa atividade criadora não importa quais sejam os resultados do conflito. A coragem, estar à altura de qualquer Fado, é das coisas mais belas e motivo de orgulho mesmo que nada de valor pareça ter sido conquistado. Jünger se dirige aqui aos seus camaradas de armas, alemães especialmente, que sofreram quatro anos de agruras indescritíveis nas trincheiras da Primeira Guerra e que retomaram a uma pátria derrotada e humilhada com o sentimento amargo do esforço em vão.
O combate é a oportunidade da revelação e do exercício de potencialidades e de energias residentes no homem que permaneceriam inertes não fossem convocadas pelo clangor da batalha. Se não a guerra, qual evento teria o condão de exibir alturas tão majestosas de coragem e de virilidade? No momento crucial do ataque às posições inimigas, o homem experimenta a seriedade completa, seu ser integral engajado no único objetivo que não admite falhas.
Somente o valor imortal e eterno explica que alguém consciente avance na direção da morte. A guerra assume seu aspecto espiritual de desvelamento da natureza humana. É a ocasião na qual exercitam-se potências que vão moldar em parte os tempos vindouros. A grandeza do herói revelada na luta eleva os outros homens, como Thomas Carlyle escreveu acerca do culto dos heróis:
"Ah, não sente todo homem verdadeiro que ele próprio se eleva ao prestar reverência àquilo que está realmente acima dele? Nenhum sentimento mais nobre ou mais abençoado habita o coração do homem." ***
Jünger inicia o capítulo seguinte, Landsknechte, com uma reafirmação do caráter aristocrático de seu pensamento:
"Envelhecemos, e ficamos complacentes como os velhos. Tornou-se crime ser ou ter mais do que os outros. Hoje, desacostumados aos intoxicantes fortes, o poder e os homens se tornaram uma abominação para nós. As massas e a igualdade são nossos novos deuses. Se as massas não podem ser como os poucos, então que os poucos se tornem como as massas."****
A cultura moderna burguesa, liberal, igualitária e democrática, dominada pelas massas informes cujos desejos, valores e interesses ditam os rumos da civilização pela força da maioria, é a antítese do ideal dos aristoi (ἄριστοι), "os melhores", e, por isso, condena qualquer excelência (ἀρετή) como expressão de uma injustiça que deve ser eliminada em nome do nivelamento universal. "É preciso livrar-se do mau gosto de querer estar de acordo com muitos", dizia Nietzsche no Além do Bem e do Mal.
A Natureza, contudo, não é democrática e não distribui os seus dons de forma igualitária. Há certos seres cuja perfeição (Vollendung) é o combate. São semelhantes aos predadores, espécimes admiráveis e belos quando observados em seu habitat, na crua expressão de suas tendências naturais, a despeito de todo o sofrimento que causam às suas infelizes vítimas. Não é preferível o animal que destroça sua presa inocentemente do que a matança realizada sob o verniz superficial da cultura?
Jünger observa tais manifestações da vida com o olhar desapaixonado e sem juízos morais do entomologista. A violência é tão natural para os conquistadores da estirpe de Tamerlão quanto o é para o tigre que ataca a sua presa na selva. Ouvem-se aqui os ecos da besta loura (Die blonde Bestie) descrita por Nietzsche na Genealogia da Moral. A constituição saudável do forte, e, portanto, do nobre, diferente do ressentido e seu remorso, não rumina internamente as suas ações, mesmo as mais cruéis, e nem as ofensas que recebe. Ao contrário, tem profundo prazer na destruição e na sensualidade da vitória.
Sob outra perspectiva, não explorada por Jünger no texto, o horror e o fascínio que a visão do predador desperta no homem remetem ao Mysterium Tremendum do sagrado, tema central do pensamento do teólogo e filósofo alemão Rudolf Otto. Ademais, para além da Natureza, no âmbito metafísico da religião, a incompreensibilidade divina se manifesta na aparente contradição do Criador que traz à existência a pacífica ovelha e o tigre violento. O sentimento de perplexidade (e de exultação?) diante desse fato foi bem expresso nos famosos versos de William Blake:
"Tyger Tyger, burning bright/ In the forests of the night;/ What immortal hand or eye, /Could frame thy fearful symmetry?" (...) "When the stars threw down their spears/And water'd heaven with their tears:/ Did he smile his work to see?/Did he who made the Lamb make thee?"
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* "Euer Friede sei ein Sieg! Ihr sagt, die gute Sache sei es, die sogar den Krieg heilige? Ich sage euch: der gute Krieg ist es, der jede Sache heiligt. Der Krieg und der Mut haben mehr große Dinge getan, als die Nächstenliebe. Nicht euer Mitleiden, sondern eure Tapferkeit rettete bisher die Verunglückten." (Also Sprache Zarathustra, Friedrich Nietzsche)
** A Pietas e a Eusébia eram o sentimento de reverência devida aos deuses entre os romanos e os gregos, respectivamente.
*** "Ah, does not every true man feel that he is himself made higher by doing reverence to what is really above him? No nobler or more blessed feeling dwells in man’s heart." (On Heroes, Hero-Worship, and the Heroic in History, 1841)
**** Alt sind wir geworden und bequem wie die Greise. Verbrechen wurde es, mehr zu sein oder zu haben als die andern. Den starken Räuschen entwöhnt, sind Macht und Männer uns zum Greuel geworden, Masse und Gleichheit heißen unsere neuen Götter. Kann die Masse nicht werden wie die Wenigen, so sollen die Wenigen doch werden wie die Masse.
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quarta-feira, 24 de junho de 2026
A ascensão mística nas "Confissões" de Agostinho de Hipona
"Quem amo então, quando amo o meu Deus? Quem é aquele que está acima de minha alma? Pela minha própria alma subirei até ele, ultrapassarei a força que me prende ao corpo e vivifica meu organismo."
AGOSTINHO DE HIPONA, Confissões, Livro X, capítulo 7
O êxtase espiritual de Agostinho e de Mônica, relatado no capítulo 10 do livro IX das Confissões, é um dos mais belos exemplos da mística ascensional neoplatônica cristã. Convertido há pouco, o futuro bispo de Hipona encontra-se com sua piedosa mãe em Ostia Tiberina, cidade onde ambos descansavam de uma longa viagem e aguardavam o retorno marítimo ao nativo continente africano. Afastados das multidões, e apoiados em uma janela que dava para um jardim interno, mãe e filho tentavam conceber a felicidade da vida eterna prometida aos fiéis.
"Próximo do dia de sua partida desta vida (Tu o conhecias, mas nós não), aconteceu (por Tu, creio eu, que o providencias por Teus caminhos secretos) que estivéssemos sozinhos, eu e ela, encostados no parapeito da janela que dava para o jardim da casa que ocupávamos em Ostia. Naquele lugar, afastados da multidão, descansávamos para a viagem, após a fadiga de uma longa jornada."
O relato inicia com a revelação de que Mônica, sem que ela ou Agostinho pudessem saber, em breve partiria desta vida. Existe aí um paralelismo entre o êxtase e a morte, pois na experiência mística a alma goza por antecipação a felicidade dos bem-aventurados. A vida eterna, encarada sob a ótica da sucessão do tempo, é mera promessa distante enquanto o homem ainda vive no mundo da corrupção. Porém, na visão divina, sub specie aeternitatis, há uma só e mesma realidade atemporal.
Agostinho e Mônica descansavam de uma longa jornada, e se preparavam para uma viagem marítima rumo à África. A peregrinatio (peregrinação) do homo viator ("homem viajante") neste mundo é cansativa e cheia de tribulações. A alma deve encontrar descanso e se preparar para a jornada de retorno à pátria derradeira, representada pelo símbolo tradicional da travessia do mar (Arca de Noé, Odisseia).
Onde achar abrigo e descanso? Na janela que se abre para o "jardim dentro da casa" (hortus intra domum) que existe no âmago de todo ser espiritual. "O Reino de Deus está dentro de vós" (Lucas 17, 21). O jardim do Éden é acessado pela contemplação (theoria,θεωρία) quando a alma se afasta da multidão (o múltiplo) e ascende na direção do Um.
"Conversávamos então a sós, muito agradavelmente, e, esquecendo as coisas que ficaram para trás e voltando-nos para as que estão adiante, buscávamos, na presença da Verdade, que Tu és, qual seria a natureza da vida eterna dos santos, a qual os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais penetrou no coração do homem."
A sós, a alma abandona o passado, o que já não existe, e se concentra na vida eterna que, ocultada pelo véu deste plano temporal, ainda é apenas uma promessa. Iluminada pela Verdade, o "mestre interior", ela almeja ascender à realidade divina do modo como concebe que será a contemplação na vida eterna, mesmo sabendo que há limites para a entendimento humano de tais sublimes realidades.
"Enquanto o nosso discurso nos conduzia a este fim (que qualquer deleite dos sentidos carnais, por maior que fosse e por mais brilhante que fosse a luz corporal, parecia indigno de comparação, nem mesmo de menção, diante da suavidade daquela vida), elevando-nos com afeto mais ardente para o próprio, percorremos gradualmente todas as coisas corporais, e o próprio céu, de onde o Sol, a Lua e as estrelas brilham sobre a terra."
A contemplação mística inicia pelo abandono interior das coisas sensíveis, cujo deleite é incomparavelmente inferior ao das coisas espirituais vindouras, e prossegue subindo pelos graus hierárquicos deste mundo, ultrapassando por fim o Sol, a Lua e as estrelas, corpos celestes que simbolizam os limites do Cosmos, obra da divindade em sua função demiúrgica. Porém, a visão a partir do Todo não é suficiente, uma vez que ainda encontra-se dentro das fronteiras do mundo corporal.
"E ainda subíamos, meditando interiormente, falando e admirando as tuas obras, e chegamos às nossas mentes e as transcendemos, para atingirmos a região da abundância inesgotável, onde alimentas Israel eternamente com o pasto da verdade. E ali a vida é a Sabedoria, pela qual são feitas todas estas coisas, e as que foram e as que hão de ser. E ela mesma não se faz, mas é assim como foi, e assim será sempre; ou melhor, nela não há “foi” nem “será”, mas apenas “é”, porque é eterna: pois “ter sido” e “haver de ser” não é eterno.
Há que se encontrar o Princípio Supracósmico de todas as coisas. Onde buscá-lo senão no fundo da alma daquele que foi feito "segundo Sua imagem e semelhança"? Chega-se, então, à parte mais íntima e superior da alma (mens), que, no entanto, ao reconhecer-se como objeto de seu próprio pensamento, sabe que ainda permanece no âmbito das realidades limitadas. Transcendendo a si mesma, no fim da via da anábase (Ἀνάβασις), ela encontra a Sabedoria incriada, o Verbo que é o princípio e fundamento eterno de tudo quanto há e pode haver.
No livro X acontece a suposta ruptura. Agostinho não trata mais de sua existência pregressa, mas passa a refletir sobre o presente e sobre o poder da memória. A alma está sempre no presente, mesmo quando lembra dos eventos do passado. Não há nenhum conhecimento daquilo que já não existe a não ser pela confiabilidade da memória.
Em seguida, no livro XI, Agostinho investiga filosoficamente a espinhosa questão acerca da natureza do tempo. Se a sucessão temporal não tivesse realidade, os acontecimentos do passado que recordamos não passariam de ficções produzidas internamente pelas forças da própria alma. Portanto, a memória seria enganosa in totum. Embora o tempo só possa ser medido na alma, graças à lembrança do passado e à expectativa do futuro, não se segue daí que se trate de um fenômeno exclusivamente interno à consciência.
Nos dois últimos livros, XII e XIII, Agostinho interpreta o Gênesis, subindo assim à ação criadora de Deus, o fundamento eterno do tempo. O mundo, inseparável da temporalidade, encontra no Criador atemporal a sua origem e o seu sustentáculo na existência. Assim, a estrutura das Confissões é uma ascensão ontológica (passado, memória, tempo, eternidade) que vai das realidades mutáveis ao Deus imutável.
A subida, anábasis, acontece no interior da alma que contempla sucessivamente os níveis da realidade até chegar ao Princípio derradeiro de todas as coisas. Agostinho, tendo subido ao topo da Escada de Jacó, desce das alturas e apresenta aos outros homens a hierarquia ontológica na forma do relato da sua própria vida. As almas que o leem, por seu turno, fazem o mesmo caminho ascensional interior guiados pelo mistagogo que já contemplou o mistério.
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quarta-feira, 17 de junho de 2026
Karṇa e o dilema do guerreiro no Mahābhārata
sábado, 6 de junho de 2026
Agostinho de Hipona e o argumento ontológico
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Ernst Jünger, Eros, a guerra e a paz
Julius Caesar (Ato 3, Cena 1), de WILLIAM SHAKESPEARE
A guerra sufocara toda finesse, tato, sofisticação, beleza e cultura que tão laboriosamente a civilização havia construído e incutido em seus membros. O horror das trincheiras moldara até mesmo a relação entre os sexos. Na iminência da morte, observa Ernst Jünger no capítulo intitulado Eros, o homem experimenta uma explosão de urgente sensualidade, como se tudo o que a vida tem a oferecer devesse ser sorvido num único gole de máximo prazer sexual, sem tempo para os caminhos usuais da cortesia e da decência, rodeios e etapas protelatórias do rito civilizado da conquista amorosa.
O selvagem Carpe Diem! da luxúria hiperbólica se manifesta sempre que a existência está ameaçada pela guerra, pelas revoluções e pelas pragas. Essa necessidade de expressão intensa da vida combinada com a ânsia de esquecer o perigo iminente da morte fazem com que o soldado, nos lupanares da retaguarda, experimente no torvelinho do êxtase erótico uma união quase mística com o eterno círculo da vida que o ultrapassa infinitamente, de tal modo que a morte lhe parece pequena e desprezível. O sexo contrastado com o pano de fundo da guerra e a consciência do fim próximo franqueiam o acesso à experiência da afirmação absoluta da vida.
Amor omnia vincit quia mors omnia solvit. A respeitabilidade, a reputação e a saúde nada significavam para os que sabiam que em breve estariam mortos. Aos homens embrutecidos, acostumados a avançar na terra de ninguém sob o fogo cerrado das metralhadoras e a chuva incessante da artilharia inimiga, nenhuma restrição poderia se interpor entre eles e o prazer imediato. Encarnações do espírito mecanizado da guerra moderna, tomam as donzelas da luz vermelha sem conversa, cerimônia ou sentimento. Gimme the prize!
Os tempos são avessos à delicadeza e à ternura. Todavia, fora do distrito vermelho, no segredo de um quarto da cidade arruinada, dois jovens, um estudante e uma camponesa, experimentam a doçura e a pureza da união das almas para além das fronteiras do idioma e da identidade nacional, alheios à brutalidade da guerra pela duração da noite mágica. "Darão um ao outro cem nomes novos, e tornarão a tirá-los todos, um do outro, de leve, como se tira um brinco de uma orelha."* Na manhã seguinte, o estudante, conduzido pela mão fria do dever, encara confiante a horrenda face metálica do combate. Redimido pela noite anterior, "o perfume dos beijos ainda em seu cabelo", receberá a morte como a um amigo.
No capítulo seguinte, Pazifismus, Jünger sentencia que a guerra é "o mais poderoso encontro entre as nações". Nenhuma outra relação entre elas (comércio, negociações, competições) tem o poder de unificar e engajar inteiramente seus membros sob um único objetivo, a saber, matar o inimigo. Porém, considerada em si mesma, a guerra não é um aspecto eliminável da realidade. É uma lei inescapável, mediante a qual toda liberdade, grandeza e cultura são preservadas, expandidas ou perdidas.
"A guerra, tanto quanto o impulso sexual, não é uma instituição humana, mas uma lei natural. Destarte, jamais lograremos nos libertar de seu jugo. Cumpre não negá-la, ou seremos devorados."**
Jünger observa que a sua época (e a nossa) manifesta forte tendência pacifista, e diagnostica a sua fonte em duas atitudes muito distintas. Há o pacifista cujo idealismo é respeitável na sua corajosa disposição de ser martirizado por amar mais as pessoas do que a nação. Defende a paz por ideais que pairam acima da sua própria segurança ou conforto. Soldado da ideia, seu espírito é o de preservação.
O outro tipo de pacifista é o fraco, que considera sagrada a sua própria pessoa, é avesso ao sangue, foge da luta e esconde sua covardia sob as vestes de respeitáveis virtudes. A sua predominância numa sociedade é sinal inequívoco de derrocada próxima. No diagnóstico do fraco, Jünger parece antecipar temas que serão desenvolvidos em seu ensaio Sobre a Dor (Über den Schmerz), de 1934, no qual a disciplina é concebida como a capacidade de tornar o corpo um "posto avançado" a ser usado, e até sacrificado, pelo comando central em nome de um objetivo maior.
Em contraste com a sensibilidade moderna e burguesa, que tem no corpo a sua centralidade, e que deseja escapar da dor a todo custo, a disciplina do asceta e do herói não afasta a dor, mas a inclui e a domina com o fim de, por meio do endurecimento, alcançar tal maestria sobre a vida que ela esteja preparada para servir a um valor de ordem superior. O pacifismo do fraco recusa a guerra por medo da dor, e, ao contrário do idealista, é incapaz de sacrificar seu "posto avançado" em nome de qualquer valor que transcenda sua segurança e seu bem estar imediatos.
Visto que o conflito é uma realidade ineliminável, o pacifismo do fraco é tanto um sintoma da incapacidade do homem moderno de se comprometer com ideais superiores quanto um suicídio voluntário, pois a negação da guerra em nome apenas da segurança corporal é incapaz de opor resistência às ameaças externas. A vida devora a si mesma, e viver é matar.***
Nenhuma cultura, por mais elevada que seja, pode se furtar ao dever sagrado de possuir o melhor exército. Se a cultura perde sua vontade de preservação e de crescimento, isto é, sua vontade de luta (Willen zum Kampf), o centro magnético ordenador de sua vida, ela será destruída pelo ataque das forças adversárias exteriores que pressentem a fraqueza, e que agem de acordo com o impulso destrutivo arraigado na natureza humana.
A História confirma sobejamente essa verdade, e Jünger ilustra sua tese com dois exemplos de sua experiência direta do vício da destruição (Die Sucht zu zerstören) que habita o seio humano. No primeiro, em frente às vitrines das lojas de uma rua de Bruxelas, repletas de prosperidade, beleza e sofisticação, dois soldados experientes jogam conversa fora sobre como ali a guerra parecia uma realidade distante. Ato contínuo, com satisfação indisfarçável, comentam sobre a possibilidade de uma granada de artilharia cair naquele lugar e mandar tudo pelos ares.
No segundo evento, mais insólito e mais revelador que o precedente, após chuvas torrenciais que desmancharam por completo as trincheiras e mergulharam seus defensores num mar de lama e terra, soldados de ambos os lados foram obrigados a sair de seus abrigos desfeitos. Após justificada hesitação inicial, e a despeito de todos os meses de contínua carnificina, alemães e ingleses encontraram-se na outrora terra de ninguém semeada com mortos em decomposição e cumprimentaram-se com apertos de mão.
Semelhantes a Glauco e a Diomedes que, tendo apresentado suas genealogias nobres, trocaram prendas valiosas diante dos muros da sagrada Tróia, tommies e boches presentearam uns aos outros com garrafas de bebida e entabularam alegre conversação como se os últimos anos de combate renhido não tivessem existido. Durante esse episódio de congratulação mútua pareceu justa a esperança de que chegaria a hora em que os dois lados compreenderiam a urgência moral da reconciliação e da paz duradoura.
Logo, porém, uma divindade com ciúme da felicidade humana faz despejar, do alto de um monte, uma súbita chuva de metralha sobre o campo aberto, matando vários infelizes e obrigando os sobreviventes a voltar rastejando às suas trincheiras diluídas. Quem poderia atirar em gente desprevenida? A pergunta faz sentido para quem está desprotegido sob o fogo cerrado. Ouvindo o sussurro de Marte, o homem que dispara sua metralhadora enxerga somente moscas sendo atingidas e sente o prazer da guerra nua.
Homens dessa espécie, não importa o quanto estejam saturados do conflito, podem em breve concordar com um armistício ou prometer a si mesmos que nunca mais haveria guerras, mas, ao fim e ao cabo, o impulso bélico permanece neles intocado porque a sua fonte é mais profunda, e pouco ou nada tem a ver com as decisões dos governos ou com a habilidade dos diplomatas.
Jünger encerra o capítulo concordando com o pacifista quando este afirma que antes de qualquer coisa a humanidade nos une a todos. Mas, precisamente por isso, o combate é inevitável. É uma forma de vida (Lebensform), sempre idêntica, não importando os meios e as ocasiões.
* Rainer Maria Rilke, A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, tradução de Paulo Ronai e Cecília Meireles
** "Der Krieg ist ebensowenig eine menschliche Einrichtung wie der Geschlechtstrieb; er ist ein Naturgesetz, deshalb werden wir uns niemals seinem Banne entwinden. Wir dürfen ihn nicht leugnen, sonst wird er uns verschlingen."
*** "Es ist das Lied vom Leben, das sich selbst verschlingt. Leben heißt töten."
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quarta-feira, 22 de abril de 2026
O itinerário filosófico e espiritual de Agostinho de Hipona
"Ó Deus, tu que me conheces, faze que eu te conheça, como sou por ti conhecido."
AGOSTINHO DE HIPONA, Confissões, Livro X, capítulo 1
A obra Confissões, de Agostinho de Hipona (354-430 D.C.), antes que uma autobiografia no sentido usual do termo, é o testemunho de uma alma que abandona as riquezas mundanas e ascende até o Princípio de todas as coisas. A sua influência na filosofia e na teologia é incomensurável. Os seus treze livros manifestam tanto a inegável influência do neoplatonismo em seu autor quanto uma profunda e sincera fé cristã. O relato pode ser entendido sob a dupla ótica da reversão (ἐπιστροφή) neoplatônica, a disposição metafísica de todas as coisas de permanecerem unidas às suas causas, e da conversão (μετάνοια), a mudança de vida do pecador que abraça a Boa Nova.
Cerca de dez anos após sua conversão, Aurelio Agostinho, nascido na cidade de Tagaste, norte da África, filho da cristão Mônica e do ainda pagão Patrício, deseja nas Confissões, como o nome sugere, "confessar a Deus e aos homens", os seus pecados e louvar a imensa misericórdia divina que o resgatou de seu estado de miséria espiritual. Entremeado por inúmeras citações bíblicas, o texto, no entanto, não conta com minúcias todas as faltas morais do futuro bispo de Hipona, mas, concentra-se em meditar sobre o estado da alma que se afasta de Deus em razão de seu apego desordenado pelas coisas mundanas.
A vaidade, o furto, o amor pelo louvor alheio, o vício no jogo, o gosto pelos espetáculos teatrais e o desregramento sexual são alguns dos pecados confessados nos nove livros que contam a vida de Agostinho desde a infância em Tagaste até o batismo em Milão. O pecado é a troca dos bens superiores por bens inferiores. Todas as coisas são boas quando encaradas em seu ato fundamental de existirem. Todavia, é a vontade do homem que, graças às afeições desregradas, prefere bens relativos em lugar do Bem absoluto.
O famoso episódio do furto das peras, por exemplo, tem interesse na medida em que revela as inclinações da alma. Por que o jovem Agostinho roubou as peras de um vizinho sem necessidade, já que tinha a seu dispor na casa de seu mecenas uma abundância de peras de qualidade melhor? Pelo gosto da transgressão, forma invertida de imitação da liberdade divina que tudo pode, e pela necessidade de angariar a estima dos seus companheiros que praticavam essas maldades.
Em Cartago, entrega-se aos excessos do amor carnal e aos estudos de retórica, nos quais depositava suas esperanças de progresso social. Aos dezenove anos, lê o Hortênsio, diálogo hoje perdido no qual Cícero faz um elogio da filosofia enquanto amor à sabedoria. A obra incute na alma do jovem africano o desejo de dedicar-se à busca honesta da sabedoria como sua orientação fundamental na vida.
Adere ao maniqueísmo, movimento religioso fundado pelo profeta persa Mani (século III D.C.), cuja "doutrina fundamental ensina o dualismo radical de 'Princípios' antitéticos. (...) Os dois Princípios antagonistas, Luz e Trevas, Bem e Mal, são igualmente eternos e de força igual, ainda que o nome de Deus seja reservado ao Princípio do Bem, e que em vez de falar de um 'deus do Mal', os doutores da seita o designam habitualmente sob o nome de Satã."*
Em retrospecto, Agostinho considera que o maniqueísmo o atraiu porque naquela época sentia-se incapaz de conceber um Deus que não fosse material. A raiz dessa incapacidade está na cobiça imoderada pelas coisas sensíveis. A alma apega-se aos seres do mundo externo, os reais objetos de seu amor, e, tendo sua inteira atenção sempre voltada somente ao que é corpóreo, acaba concebendo tudo o que há em termos materiais, e ergue assim um obstáculo à intelecção das puras realidades imateriais.
O ponto é indissociavelmente moral e cognitivo. A alma dominada pela sua porção apetitiva, a concupiscência (concupiscentia, ἐπιθυμία), sente dificuldades para captar as verdades eternas e abstratas, os objetos próprios do intelecto (mens, νους, sua porção mais alta e divina. Portanto, o caminho filosófico trilhado por Agostinho terá o duplo aspecto de um retorno à Deus e de uma purificação intelectual.
Ainda em Milão, Agostinho tem contato com os "livros platônicos", provavelmente as Enéadas de Plotino, e naquela obra encontra tanto a afirmação do Bem (ou Uno) como origem e fundamento de tudo o que há, quanto a firmação do Logos consubstancial por meio do qual tudo foi feito. Não encontra ali, porém, a "encarnação do Verbo", centro da fé cristã. Embora os filósofos possam ascender às realidades divinas, o mistério final de que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós" foi revelado apenas aos humildes.
Não obstante, a metafísica de Plotino permite a Agostinho compreender que o Mal não é um princípio oposto ao Bem, como ensinava o dualismo maniqueu, mas sim a corrupção do bem relativo de cada coisa. Aprende também com a mística neoplatônica que a verdade divina revela-se ao fim da via contemplativa no interior da alma. Então, abandonando as coisas corpóreas, Agostinho recolhe-se em seu íntimo, passa pelo sentido interno, o centro receptor das informações sensórias, ascende à razão (διάνοια), pensamento discursivo e mutável, até alcançar a estabilidade da mens (νους), que intelige as verdades eternas.
Ali encontra a luz que o faz afirmar com certeza absoluta que o imutável é melhor que o mutável. A noção de imutabilidade, portanto, deve residir na mens como condição de possibilidade desse juízo. Só temos experiência de seres mutáveis, então de onde pode vir a noção da imutabilidade senão do próprio Deus imutável? Nesse lampejo de "comovida intuição", Agostinho alcança "Aquele que é".
A sua anterior concepção materialista de Deus se desfaz quando compreende que a presença divina não é espacial, mas ontológica. Isto é, Deus é causa da existência das coisas, sejam elas materiais ou não. O obstáculo do materialismo é finalmente ultrapassado. O caminho que conduz à conversão parece estar livre de obstáculos.
O que ainda o impedia de concluir sua jornada com o batismo na Igreja Católica, segundo o que o próprio Agostinho admite no livro XVII, eram os vícios carnais que dividiam sua alma em "duas vontades". Por um lado, a parte superior da alma que reconhece a verdade o inclinava a buscar a Deus. A outra parte, sensível, arraigada nos prazeres ilícitos, pendia para uma existência mundana e desregrada.
A divisão da vontade nasce da paixão (passio, πάθος), a disposição passiva na qual o homem sofre os efeitos das coisas externas que, se são agradáveis, o incitam a fruir dessas sensações de novo e de novo. A repetição cria o hábito, e este gera a necessidade. Obviamente, tal necessidade não é determinista, dado que a todo momento é possível tomar decisão contrária à satisfação dos desejos.
O hábito instala certo "constrangimento", corporal ou mental, que nunca oblitera o livre arbítrio, mas que pode solidificar-se num caráter permanente. Ninguém é bom por um único ato bom, e sim por uma sequência deliberada, continuada e consistente de atos bons, dizia Aristóteles na Ética a Nicômaco. Outrossim, mau não é o homem que ocasionalmente comete uma ação condenável, mas o que continuamente age contra o bem.
A força do hábito prende Agostinho aos prazeres, enquanto sua razão quer conduzi-lo a Deus. Sente inclusive a atração da virtude da continência (continentia). A continência, de onde vêm os vários sentidos de "continente", significa circunscrição, limitação, contenção e receptáculo. Na sua acepção ética, significa a imposição de uma medida adequada aos desejos e às inclinações.
O fundamento da metafísica neoplatônica de Agostinho é a afirmação de que todas as naturezas (entes, substâncias), no seu ato de existirem, são boas, pois exibem modo, ordem e espécie. O mal só aparece como uma diminuição do modo, da ordem ou da espécie intrínsecos às coisas. Em outros termos, uma natureza será boa tanto quanto consegue permanecer de acordo com sua própria regra interna. A desmedida, ou desregramento, da alma, portanto, tem de ser curada pela continência, a recondução aos limites definidores de seu ser.
"A unificação é o bem, e o bem é a unificação", dirá Proclo, o filósofo neoplatônico (V D.C.) no tratado Elementos de Teologia. A "unificação" (ἕνωσις) significa, entre outras acepções, a manutenção do ente dentro dos limites característicos de sua natureza. A divisão instaura uma diminuição da unidade subjacente à coisa. A vontade dividida, diz Agostinho, não é “plena”, está enfraquecida e incapaz de dar ordem à alma.
"Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode subsistir" (Mc 3, 24). Somente a unidade da vontade é capaz de sobrepujar o hábito ruim e abraçar o Summum Bonum que a alma reconhece no seu íntimo. A lei do pecado é a violência do hábito que arrasta o homem na direção daquilo que é inferior. O sofrimento é castigo merecido, pois a inclinação viciosa nasce de escolhas continuadas e livres.
Sozinho o homem pode superar a correnteza de suas paixões? A continência é dom da graça divina derramado sobre aqueles que se entregam sem reservas ao Senhor. A hesitação de Agostinho é diminuída pelos relatos de dois homens que abandonaram tudo para seguirem o caminho de Cristo: Antão e Mário Vitorino.
Antão (ou Antônio, o Grande) foi um famoso anacoreta que ainda jovem, após ouvir a mensagem evangélica de despojamento das riquezas, abandonou seus pertences e dirigiu-se ao deserto do Egito para viver como eremita. Agostinho conhece indiretamente sua vida exemplar escrita por Santo Atanásio, e isso desperta nele o desejo de viver o monaquismo.
A história da conversão de Mário Vitorino, narrada pelo amigo Simpliciano, surpreende e edifica Agostinho. Vitorino era um pagão de enorme saber, tradutor de Platão para o Latim, filósofo, retórico e gramático de renome. O seu batismo trouxe-lhe muitos dissabores e rejeição social por parte dos antigos amigos e admiradores que enxergaram nessa mudança uma traição à religião politeísta de seus ancestrais.
A coragem de Vitorino de trocar o louvor dos homens pelo opróbrio certo em nome de Jesus Cristo o impressiona particularmente, pois em capítulos anteriores das Confissões Agostinho admitira o quanto era suscetível ao elogio dos homens e à estima pública. Algo cujo valor, aliás, fazia parte da ética romana tradicional. Se Vitorino abandonara a glória mundana e abraçara a verdade cristã numa idade avançada, a despeito de todas as inclinações contrárias adquiridas na sua longa vida, por qual razão Agostinho não lograria fazer o mesmo?
O conflito interno que o afligia é vivamente relatado com grande sinceridade nos últimos capítulos do livro VIII. Em Milão, na residência onde morava com o fiel amigo Alípio, Agostinho sente que está no limiar de tomar a sua decisão definitiva que, no entanto, era adiada por tentativas malogradas de superar o medo de perder as alegrias e prazeres sensíveis. A força da inclinação viciosa havia diminuído, e somente um "fio" ainda o prendia à vida mundana.
O pecado, de acordo com a definição de Agostinho, consiste em preferir um bem inferior em lugar de um bem superior. O que acompanhamos no seu relato é a luta paradigmática da alma para desvencilhar-se do apego aos bens relativos a fim de abraçar o Bem Absoluto. Nada há realmente a perder, dado que todo e qualquer bem limitado que se encontra no mundo está contido infinitamente na sua causa última, o Sumo Bem.
Agostinho retira-se para o jardim da residência para dar curso livre à torrente de lágrimas que sentia aproximar-se. Embaixo de uma figueira, chora copiosamente, e suplica o auxílio divino. O jardim é símbolo do Éden ao qual a alma retorna (ἐπιστροφή) para recuperar a unidade com o Princípio de todas as coisas. Embaixo da figueira, que representa a "árvore do bem e do mal" o homem pranteia o pecado, a escolha primordial que divide o mundo em dualidades relativas, ocultando a unicidade absoluta de Deus.
A figueira tem de que dar frutos, caso contrário será amaldiçoada com a infertilidade (Mt 21,19). Porém, Jesus viu Natanael embaixo da figueira, aquele em quem não havia falsidade e que reconheceu Cristo como o Filho de Deus (Jo 1,45-47). Agostinho deve reconhecer o Logos, a ordem central coeterna com o Pai.
A resposta divina veio na voz de uma criança na casa vizinha que cantarolava o verso "Toma e lê!" (Tolle, lege!). Agostinho, recordando que Antão se convertera após ouvir por acaso a passagem evangélica do desapego dos bens, ergueu-se e, saindo do jardim, voltou à residência, abriu o livro das cartas do apóstolo Paulo que estava sobre a mesa e leu a primeira passagem sobre a qual caíram seus olhos: "Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Pelo contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne" (Rm 13:13,14).
As escamas caíram, a luz sempiterna dissipou as trevas e a certeza serenou o coração inquieto. Agostinho conta a Alípio o acontecido, mostra-lhe a passagem libertadora, e este, lendo o versículo seguinte, recebe a ordem divina: "Acolhei ao que é débil na fé" (Rm 14:1). Ambos partem para a casa de Mônica, mãe de Agostinho, para anunciar a realização de suas súplicas. Resta agora a conclusão do catecumenato pelo rito iniciático do batismo, que acontece sob o báculo de Ambrósio.
Adão volta ao Éden. A alma dividida retorna à unidade divina, onde "permanecem estáveis as causas de todas as coisas instáveis, imutáveis os princípios de todas as coisas mutáveis, e eternas as razões de tudo o que é temporal e irracional."
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* François Decret, "Mani et la tradition manichéenne", p.75
** Sobre o ceticismo acadêmico: Νεκρομαντεῖον: Carnéades e o ceticismo acadêmico
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