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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Moralidade e ressentimento no primeiro ensaio da "Genealogia da Moral" de Friedrich Nietzsche

"Aus der Kriegsschule des Lebens. — Was mich nicht umbringt, macht mich stärker."

FRIEDRICH NIETZSCHE, Götzen-Dämmerung, oder, Wie man mit dem Hammer philosophiert (1888)

No primeiro ensaio de seu Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche trata da suposta falsificação que os fracos empreendem quando afirmam valores morais. Aquilo que é julgado bom é justamente uma expressão de sua fraqueza. Tudo aquilo que o ressentido faz é esconder sua incapacidade com uma capa virtuosa. Assim, o incapaz, sendo fraco, torna a fraqueza uma virtude. 

O ensaio inicia com a afirmação de que os significados de "bom" e de "mau" sofreram uma modificação substancial ao longo do tempo, algo que poderia ser constatado a partir de uma perspectiva etimológica. Em diversos idiomas, assevera Nietzsche, a mesma transformação ocorreu: o que era considerado nobre, e portanto, bom, tornou-se mal, e aquilo que era considerado baixo, e por conseguinte mal, tornou-se bom. Como uma tal mudança pôde ocorrer é o tema do ensaio.

Nietzsche considera que esse é seu insight fundamental sobre a genealogia da moral, e que tal não havia sido percebido por conta do preconceito democrático vigente contra as questões de origem. Tal preconceito contaminaria mesmo as ciências naturais. Ademais, há a natureza plebeia da mente moderna que, diz o filólogo alemão, tem origem inglesa.

Seria um fato frequente que os mais fortes se autodenominam com termos como "os melhores", "os poderosos", "os que comandam", expressões que denotam a sua superioridade. Os fracos e os submetidos, por seu turno, são designados por nomes como "os feios", "os covardes", expressões que denotam a sua natureza plebeia. A democracia moderna, o fenômeno mais recente do anarquismo, além da predileção socialista pela comuna, segundo Nietzsche, seria um retrocesso atávico às formas de vida inferiores, agora com os fracos no poder e os fortes inferiorizados socialmente.

A casta sacerdotal, exemplificando a regra de que conceitos políticos de hierarquia se tornam sempre conceitos espirituais de hierarquia, denomina a si mesma com termos que denotam sua função sacra. Foi pelas mãos dos sacerdotes que aconteceu a primeira mudança de "bom" e "mau", conceitos de extração social, para "puro" e "impuro", conceitos morais. Nietzsche considera que os costumes dos sacerdotes têm algo de doente, pois se afastam da ação e combinam caráter meditabundo com volatilidade emocional. 

As consequências desses costumes sacerdotais são doenças intestinais e neurastenia, contra as quais os sacerdotes inventaram as suas inúmeras normas de dieta de abstenção de certos alimentos e de relações sexuais. A metafísica antisensual e hipnótica tem no nada sua ideia fixa, como testemunha o budismo e o desejo de união mística com Deus no cristianismo. A alma humana torna-se profunda e má pela forma de vida essencialmente perigosa representada pela casta sacerdotal.

Os juízos de valor aristocráticos pressupõem uma poderosa estrutura física e uma saúde transbordante, bem como os meios necessários para preservá-las, como a guerra, os jogos, a caça e todas as atividades que implicam liberdade e força de espírito. Contrariamente, os sacerdotes são perigosos justamente por serem impotentes. E, para Nietzsche, os judeus seriam o exemplo de uma raça sacerdotal, responsável por uma radical e vingativa transvalorização dos valores. O ódio e a vingança dos impotentes e dos fracos subverteram, pela inteligência dos judeus, aquilo que era nobre e belo, e exaltaram o feio e o fraco.¹

O nobre e o forte são maus, enquanto só o pobre e o fraco são bons. Com os judeus, assevera o filósofo, inicia-se a revolta dos escravos em matéria moral que já dura dois mil anos. O ódio judeu ao forte dá nascimento ao novo amor que chega a seu zênite na figura de Cristo, o redentor dos fracos, dos pobres, dos doentes e dos pecadores. A cruz, símbolo da vingança dos fracos, subverte por fim todos os valores nobres. A moralidade do rebanho, dos plebeus e dos escravos venceu os valores aristocráticos.

Aqui entra um conceito capital na obra de Nietzsche: o ressentimento, a ruminação infrutífera da ofensa recebida que envenena a alma. Incapaz de agir e de reagir no momento mesmo da ofensa, o ressentido guarda em si a mágoa acrescida da dolorosa consciência da sua incapacidade de enfrentar o ofensor. E o ressentimento cria valores que são reativos, que necessitam da oposição, estímulo externo para agir. Mas sua ação é interna, uma ruminação impotente e desgostosa.

Um exemplo claro desse ressentimento, cremos, é o homem do subsolo de Dostoievski. Incapaz de agir, fraco e anêmico, o homem do subsolo só sabe fantasiar vitórias imaginárias contra seus inimigos ou desafetos. Sonha não ceder a passagem a seu antagonista, esbarrar naquele que odeia, mas, no momento em que a situação aparece e a ação imaginada deveria ser realizada, o ressentido se acovarda e retorna a seu mundo febril de fantasias impotentes. 

Quando o homem do subsolo age, o único resultado é sua completa humilhação perante seus desafetos bem-sucedidos. Ele é desprezado e despreza o sucesso alheio. Odeia o homem de ação pelo fato de que este age sem pensar, na ignorância das dificuldades e das complexidades da realidade. Ele, o homem subterrâneo, porém, é cerebral, e não consegue agir no mundo, pois rumina e rumina até à completa inação. Uma tábua de valores distorcida nasce dessa incapacidade e a reflete em seu desprezo despeitado pelo homem de ação.

Ele vive no subterrâneo, abaixo da superfície. Simbolicamente, o que está sob a terra é o que ainda não se formou, o potencial ainda não realizado. O ressentido vive no mundo subterrâneo dos anseios e dos desejos irrealizados e irrealizáveis, já que falta a ele a potência suficiente para agir e se impor no mundo. Para Nietzsche, a moralidade do escravo nasce do ressentimento, e engendra o mundo plebeu do espírito de rebanho da democracia, do liberalismo, do cristianismo, do socialismo e do anarquismo.

O nobre e o aristocrata, ao contrário do ressentido, diz Nietzsche, age no momento da ofensa, não deixa espaço para a ruminação venenosa de suas dores. A antítese, na figura do opositor, é desejada porque é nela que o guerreiro se afirma, como um herói grego homérico que se sente honrado em bater-se com um igual no campo de batalha. Os melhores (ἄριστοι) chamam a si mesmos com termos que denotam força e felicidade e encaram o plebeu como o infeliz. Enquanto o nobre é aberto e sem rodeios, o fraco ama os caminhos secretos, as portas dos fundos, a esperteza que espera pacientemente o momento certo.

A incapacidade de guardar por muito tempo as ofensas sofridas é um sinal, segundo o filósofo alemão, das naturezas plenas, potentes, e transbordantes de vida e de saúde. Tal seria o único sentido possível de amor ao inimigo. O adversário honra o nobre guerreiro com sua grandeza e seu poder. O aristocrata vê o mal como um matiz, uma cor complementar no cenário onde ele impera. O inimigo do ressentido, ao contrário, é concebido um homem mau, como um opressor vil e injusto. Mau, para o ressentido, é o homem nobre, poderoso, saudável e dominante.

O mesmo aristocrata tão cordato com seus pares torna-se um predador, uma besta loura (blonde Bestie), tão logo se volte contra o estrangeiro. Não guarda nenhum remorso moral mesmo depois de uma horrível sequência de matanças, violência e torturas, manifestando indiferença e desprezo pela segurança, pela vida e pelo conforto. Tem profundo prazer na destruição, na sensualidade da vitória e na crueldade. A "virtude" propugnada pelo fraco é justamente a domesticação do nobre.

Essa é uma das passagens mais controversas do filósofo alemão, pois parece exaltar a crueldade e a indiferença moral do predador, personificado na figura do aristocrata. A besta loura pode ser referência ao leão, mas obviamente alguns viram aí a prefiguração das forças sinistras que iriam se abater sobre a Europa nas décadas vindouras. A afirmação de uma ação insidiosa do doente no seio de uma casta sã e guerreira, que enfraquece a sua saúde a ponto de nela inocular o veneno da fraqueza e da domesticação, será um discurso encontradiço nos anos sombrios da primeira metade do século XX.

O ressentido, segue o filólogo, torna a virtude "voluntária", um objetivo a ser almejado por uma alma ou substrato indiferente que tem diante de si uma pletora de valores e de ações possíveis, e escolhe voluntariamente os mais altos valores e as ações mais meritórias. A crítica de Nietzsche vai ao cerne do que ele considera a grande falsificação empregada pelos fracos: travestir a incapacidade de fazer o contrário do que se faz em uma "virtude" voluntária.

"O sujeito (ou, para adotar um idioma mais popular, a alma) tem sido o melhor artigo de fé na Terra até hoje, pois permite à maioria dos mortais, os fracos e os oprimidos de toda sorte, praticar esse sublime autoengano - a interpretação da fraqueza ela mesma como liberdade, o modo como são, como mérito." (itálicos no original) ²

Não somente a fraqueza e os valores que o ressentido engendra não são valores altos, como também é impossível ao fraco agir de qualquer outro modo a não ser como um fraco. Todo o discurso sobre esforço e ascese na direção do "bem" seria, segundo Nietzsche, uma mentira criada para disfarçar a incapacidade de agir como age o forte. O nobre também não é uma alma que está indiferente diante de opções de valores e de ações, ele age segundo sua natureza de forte e de aristocrata. 

A separação artificial entre a alma e as suas ações seria o instrumento usado pelos ressentidos para criar uma impressão de liberdade na qual o fraco pode introduzir a ideia de um poder de ação que não possui, e do qual se abstém de usar meritoriamente. A bondade do ressentido, então, é fraqueza travestida de abstenção voluntária do uso da força. 

Nietzsche reconhece em Roma o adversário arquetípico da Judéia. O conflito entre ambos representaria simbolicamente o conflito milenar entre os valores aristocráticos e os valores plebeus dos ressentidos. Os romanos seriam os homens fortes e nobres, enquanto que os judeus seriam o povo sacerdotal e ressentido par excellence. E Roma, entretanto, curva-se diante de três judeus: Cristo, Paulo e Maria. 

Na Renascença, há uma volta da aristocracia romana, logo sufocada pela  Reforma, e, depois, pela Revolução Francesa, na qual a última nobreza da Europa sucumbiu aos valores ressentidos. Nietzsche declara que, contra o slogan do ressentimento que proclama a prerrogativa do maior número, é necessário afirmar a prerrogativa dos poucos. Napoleão seria a encarnação do problema do ideal nobre enquanto tal.

Não é preciso, de forma alguma, aceitar a tese geral de Nietzsche para admitir um ponto importante da psicologia humana: muito do que usualmente se considera como bondade é realmente uma capa para a incapacidade e para a fraqueza. Estar abaixo do pecado por insuficiência não é ser virtuoso. Quem é bom exteriormente só por ser incapaz de fazer o mal não é bom, e, frequentemente, cria dentro de si ressentimento, a ruminação infrutífera que envenena a alma e deturpa os juízos sobre a realidade, como testemunha o homem subterrâneo de Dostoievski.

Por outro lado, é interessante notar o fascínio que a figura de Napoleão exerceu no século XIX. Nietzsche, Raskolnikov e Julian Sorel veem no imperador a figura do homem singular que parece encarnar um destino histórico único, e que confirmaria a ideia da eleição de uns poucos que realmente importam no mundo. Diante da ascensão contínua dos valores e dos regimes de maioria, esses personagens sentem a necessidade de afirmar a individualidade e a singularidade de uns poucos homens pretensamente extraordinários. 

Nietzsche considera que os melhores (ἄριστοι) sempre são poucos (ὀλίγοι), e jamais seriam representados pelos movimentos políticos de massa (como aqueles do século XX). Não obstante, as consequências da pretensão à singularidade extraordinária foram bem retratadas por Dostoievski em Crime e Castigo. É por considerar a si mesmo um Napoleão, destinado a grandes feitos que justificariam a morte daqueles que considerava piolhos, que Raskolnikov comete seu duplo assassinato. É pela mesma pretensão que os jovens estudantes de Rope, de Alfred Hitchcock, inspirados por Nietzsche, assassinam um colega de faculdade considerado por eles como um estorvo dispensável.

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Notas:

¹ Declarações como essa deram azo a acusações de antissemitismo, e tornaram Nietzsche suspeito de inspirar as monstruosidades cometidas contra os judeus no abjeto regime nacional-socialista alemão. Contrariamente, porém, o filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, em sua obra O homem que nasceu póstumo, afirma que "o socialismo de Estado não é um progresso humano, mas uma fórmula viciosa. O que havia de socialismo no nazismo? O Estado torna-se senhor, único, absoluto. É uma autocracia de grupo, de casta, como o é na Rússia dos senhores do feudalismo burocrático. Ele (Nietzsche) negava esse Estado 'nec-plus-ultra' dos socialistas, esse Estado absorvente, totalizador, criador de homens de rebanho, negador das exceções. Ninguém poderia elevar a voz de Zaratustra num Estado de opressão, de massas bovinas. A interpretação totalitária da obra nietzscheana é uma grande mentira e uma grande falsificação."

² Das Subjekt (oder, daß wir populärer reden, die Seele) ist vielleicht deshalb bis jetzt auf Erden der beste Glaubenssatz gewesen, weil er der Überzahl der Sterblichen, den Schwachen und Niedergedrückten jeder Art, jene sublime Selbstbetrügerei ermöglichte, die schwäche selbst als Freiheit, ihr So- und So-sein als Verdienst auszulegen.

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Leia também:

Νεκρομαντεῖον: Dostoievski, subterrâneo, consciência e ação (oleniski.blogspot.com)

Νεκρομαντεῖον: Raskolnikov e a ilusão das idéias (oleniski.blogspot.com)

Νεκρομαντεῖον: Hitchcock, Dostoievski e o julgamento do intelectual (oleniski.blogspot.com)

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Artigo do prof. Edward Feser sobre Nietzsche e ateísmo:

Edward Feser: Adventures in the Old Atheism, Part I: Nietzsche

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Julien Sorel, Raskolnikov e o drama da pretensão

"Quando Bonaparte deu que falar de si, a França tinha medo de ser invadida; o mérito militar era necessário e estava na moda. Hoje, a gente vê pares de quarenta anos com 100.000 francos de vencimentos, três vezes mais do que o percebiam os famosos generais de divisão de Napoleão. E ainda têm quem se dobre ante eles. Vejam esse juiz de paz, tão sensato, tão honesto até agora, tão velho, desonrando-se por temor de desagradar a um jovem vigário de trinta anos! Preciso ser padre."

JULIEN SOREL, em O Vermelho e o Negro, de STENDHAL

Há diversas semelhanças entre Julien Sorel e Rodion Raskolnikov: a consciência de sua superioridade sobre os demais, o orgulho ferido pelas condições adversas a que foram submetidos pelo destino, a ambição de galgar os degraus da elevação social, a disposição de utilizar de meios imorais para alcançar seus objetivos, a coragem e uma certa nobreza de caráter e a adoração pela figura de Napoleão.

O quadro que se apresenta é o de jovens angustiados e aflitos pelas limitações de seu meio e que percebem a um tempo a mediocridade daqueles que se encontram nas altas posições sociais e a evidente superioridade de suas almas e de seus intelectos. 

Quão grande é o drama de ver-se repleto de capacidades e talentos e constatar, ao mesmo tempo, que estes poderão muito bem jamais florescer como deveriam graças à precariedade do meio e à mediocridade daqueles que dominam o teatro do mundo! Talvez seja a consciência desse drama que pode facilmente ser divisado por todos que tornam quase inevitáveis ao leitor a simpatia e, porque não?, uma certa admiração pelas figuras de Sorel e de Raskolnikov.

Sim, eles são criminosos e seus objetivos não são afinal os mais nobres na escala qualitativa dos bens da vida humana. Mas um olhar mais profundo e mais complacente consegue perceber que seus atos são um protesto menos contra a estrutura de desigualdade social do que uma tentativa desesperada de resguardar e de realizar a justiça de uma ordenação hierárquica dos talentos.

O escândalo não é exatamente que haja diferenças sociais, mas que estas estejam baseadas não no mérito e no talento e sim no mero nascimento ou no dinheiro. É contra a preeminência dos medíocres que ambos se erguem.

Napoleão surge justamente como a figura simbólica do talento que vence a despeito das resistências das condições concretas da vida e da sociedade. Nele o valor se afirma e vence, fazendo curvarem-se as veneráveis mediocridades que até então dominavam e governavam o mundo.

Ele sonha com batalhas e com a rápida ascensão na hierarquia militar que, segundo pensa, reconheceria e premiaria o seu valor e a sua bravura. Não obstante, o caminho de Sorel, ainda que iluminado por Napoleão, não se encontra nas fileiras dos filhos de Ares. O que não o impede de enxergar a si mesmo como um brilhante comandante militar demonstrando sua inteligência tática nas batalhas em que se envolve. Só que seu front não é Austerlitz e sim os enfadonhos salões da dita "sociedade".

Por conseguinte, tampouco seu caminho é o da ação violenta direta contra o explorador, como o de Raskolnikov. A dissimulação e a ascensão dentro das brechas da própria estrutura social constituem seu método. Em uma época - a Restauração que se seguiu ao fim do império napoleônico - na qual um rei curva-se piedosamente diante de um simples bispo, o modo mais certo de triunfar socialmente é tornar-se membro dessa confraria que dobra os joelhos até de monarcas.

Então é necessário a Sorel a dissimulação de seus verdadeiros sentimentos e convicções. Ele esconde sua admiração por Napoleão, Rousseau e Voltaire, exibe Joseph de Maistre e aprende de cor as Escrituras em Latim. Em suma, finge a cândida piedade de um camponês devoto que aspira às ordens sacerdotais. 

Sua prodigiosa memória e sua aguda inteligência lhe servem para ganhar as graças de um velho cura que, contudo, é experimentado o suficiente para entrever a falsidade e a ambição daquele talentoso rapaz filho de carpinteiro. Com o hábito religioso, consegue adentrar no seio da pequena nobreza provinciana de sua cidade na qualidade de um piedoso seminarista feito tutor dos filhos do prefeito, Monsieur De Rênal.

Sorel engana, ilude, decerto. É um radical em meio às frivolidades e provincianismos que imperam na casa de seu empregador, mas sua beleza e seu fascínio acabam ganhando o amor sincero da esposa ingênua e inexperiente deste, Mme. De Rênal. Mas ele a ama? 

O traço dominante de seu caráter é o orgulho. Teme somente ser humilhado pelos que estão acima dele, odeia-os e despreza-os interiormente. Sua intrepidez e inexperiência quase o lançam na desgraça pública de um escândalo de adultério. A conquista do amor de Mme. De Rênal é encarada por ele como uma grande vitória militar.

As desconfianças de Monsieur De Rênal crescem e, por um golpe do destino, após um curto período no seminário, Sorel é enviado à casa da grande nobreza parisiense. Enfim, ele se encontra no centro do mundo. Torna-se secretário do velho aristocrata Monsieur Marquis De La Mole que, ironicamente, perdera tudo e fora exilado durante a Revolução e os anos napoleônicos.

O marquês afeiçoa-se por Julien, encarrega-o do cuidado de sua biblioteca e de boa parte de seus negócios e até mesmo confia-lhe uma missão secreta em meio à uma conspiração anti-jacobina. O jovem, apesar de seus esforços, não brilha no salão dos De La Mole e chega mesmo a angariar a antipatia de muitos dos aristocratas que ali frequentam.

Curiosamente, aos poucos Sorel desperta a atenção de Mathilde, filha do bom marquês. Inteligente, ácida e de caráter volúvel, a Mlle. De La Mole entedia-se até a morte com os salões elegantes e, principalmente, com seus insossos pretendentes aristocráticos. Superando seu desprezo inicial, ela percebe o vigor e a natureza orgulhosa de Julien. Isso a agrada e a faz conceder ao empregado deferências que contrariam as práticas e os costumes de sua classe.

O encontro dessas almas é um dos pontos mais interessantes da obra de Stendhal. Sedenta como Sorel por aventuras e por heroísmos, mas com uma imaginação alimentada por histórias românticas de grandes amantes de tempos passados, Mathilde sentia-se especialmente ligada ao destino de um seu ancestral do século XVI, Boniface De La Mole, que fora decapitado, sendo sua cabeça reivindicada e enterrada por sua amante, a rainha Margarida de Navarra.

De certo modo, ambos são insatisfeitos com o mundo que se lhes apresentava. Sorel por se achar melhor do que a posição social a que o destino e a sociedade lhe concederam. Mathilde por considerar aquele mundo destituído do heroísmo e do valor dos gloriosos tempos passados. Para ele o herói é Napoleão, aquele que, vindo das classes baixas, se eleva pelo mérito e pela força às alturas do poder. Para ela, a heroína é uma rainha que não se furta a prestar as últimas homenagens a seu bravo amante.

Não leva muito tempo para tornarem-se íntimos. Porém, o orgulho de ambos torna sua relação amorosa uma experiência dolorosa e repleta de crueldades. Julien, por um lado, orgulhoso, encara o amor de Mathilde inicialmente como uma vitória do plebeu revoltado que é sobre a aristocracia que ele odeia e despreza. Ao mesmo tempo, desconfia que está sendo vítima de uma conspiração para desmoralizá-lo e humilhá-lo. Por fim, convence-se da sinceridade da bela jovem aristocrata e de que também a ama.

Mathilde, por seu turno, ama Julien, mas ressente-se desse sentimento que a seus olhos a rebaixa frente a um subalterno e maltrata e despreza seu amante toda vez que este demonstra alguma fraqueza. Convence-se de que não o ama e dele se afasta, fazendo-o amargar dias de extremos desespero e infelicidade. Em seguida, enche-o de promessas de sacrifício amoroso somente para depois arrepender-se de suas palavras e desprezar o amante com palavras ferinas e humilhantes.

Afinal, Julien não é um Boniface De La Mole e sim o reles secretário plebeu de seu pai. Em desespero, o inexperiente Julien procura a ajuda de um nobre russo que o aconselha a cortejar por meio de cartas amorosas uma dama da alta sociedade que frequenta o salão da mãe de Mathilde.

Nada mais fácil para fazer nascer ou reascender o amor do que o ciúme e a perspectiva da perda do(a) pretendente para um(a) rival. Tema que irá se repetir no ciclo de Em Busca do Tempo Perdido, de  Marcel Proust, o amor que nasce do ciúme e do medo da perda sela de vez o destino do amante. A jovem Mathilde entrega-se a Julien e engravida.

O escândalo parece inevitável. Movida pelo senso do dever - ou pelo desejo de criar de vez um desfecho dramático como os das histórias que habitam sua imaginação? -, Mathilde conta a seu pai sobre seu romance com Julien e informa-o de seu estado interessante. Pede-lhe modesta pensão para viver com o marido, afastada da azáfama da sociedade.

Surpreendentemente, o marquês concede a ambos uma pensão substancial, faz de Julien tenente de um regimento de hussardos, doa-lhe terras e ainda consegue que um outro nobre reconheça o marido de sua filha como seu "filho ilegítimo". Com um só golpe, o "general" Sorel logrou as mais impressionantes vitórias: dobrara pelo amor uma jovem e linda aristocrata, tinha um herdeiro, tornara-se finalmente militar e um nobre senhor de terras.

"A arrogância precede a ruína e a altivez, a queda" sentencia o livro dos Provérbios de Salomão.  O passado do jovem ambicioso retorna para cobrar-lhe seu preço. A felicidade de Julien e de Mathilde é desfeita quando o marquês recebe uma carta de Mme. De Rênal - instigada por um clérigo que era seu confessor e ambicionava ser seu amante - na qual dizia explicitamente que Julien era somente um maquiavélico alpinista social que se introduzia nos bons lares da sociedade como um jovem devoto somente para depois seduzir a dona da casa a fim de tomar para si o que era dela e dos seus.

Transtornado, o impulsivo Sorel abandona Mathilde e atira na Mme. De Rênal durante a missa celebrada por seu confessor e diretor espiritual. Fizera aquilo por vingança contra quem destruíra seu sonhos de grandeza ou por ciúme de um possível amante de Mme. De Rênal? Aqui a ambiguidade dos motivos de Julien torna-se mais explícita.

E essa ambiguidade cresce quando o leitor questiona-se sobre a verdadeira natureza da relação do jovem com Mathilde. Não será seu romance com a volúvel aristocrata não era uma repetição do amor que sentiu pela Mme. De Rênal, inclusive nos detalhes marcantes dos passeios nos jardins e da subida de escada ao quarto da dama na calada da noite?

Seja como for, uma vez preso, Julian convence-se de que ama realmente Mme. De Rênal e não Mathilde. Alegra-se quando descobre que a primeira não morreu e aborrece-se com as visitas e os esforços da última para salvá-lo da pena capital. Não busca safar-se, assume sua culpa e a premeditação de seu crime.

Durante o julgamento que mais parece um evento social ou um espetáculo, Julien reafirma sua admissão da culpa e da premeditação do crime discursando diante da multidão que acompanha o julgamento. Afirma que muitos de seus juízes cometeram torpezas tão ou mais graves que a sua para chegar onde estão e que seu crime foi querer abandonar sua condição precária e ascender ao mundo da "sociedade".

É condenado e guilhotinado. Mathilde, dando curso à sua fantasia romântica, reivindica sua cabeça e enterra seu corpo, tal qual Margarida de Navarra fez com seu ancestral Boniface De La Mole. Impactada pela morte de Julien, Mme. De Rênal morre de amor pouco tempo depois do jovem.

Julien Sorel e Rodion Raskolnikov representam personagens de revolta contra as condições materiais que impedem a realização plena de suas capacidades e talentos. Mas também são personagens de ambição, de orgulho e de pretensão. Dotados de evidentes qualidades, ambos, contudo, têm de si mesmos uma imagem exaltada, pretendidamente à altura de seu ídolo comum, Napoleão. Resta saber se suas qualidades de fato ombreiam-se com as suas pretensões.

Cumpre notar que tais personagens de Stendhal e de Dostoievski, embora separados temporalmente, partilham uma hierarquia de valores comum na qual o sucesso no mundo, a fama, a riqueza, o reconhecimento são os fins últimos que os movem. Em uma palavra, são mundanos. Suas almas são consumidas pelo desejo e pelo conflito entre este e os obstáculos que se antepõem à sua realização.

Seria possível questionar, inclusive, se a ambição que os corrói nasce da consciência de sua superioridade ou se esta está, ao contrário, a serviço daquela. "Queremos e ambicionamos, logo temos direito à posse", pensam. E o fundamento dessa pretensão se apresentaria ad hoc como um direito natural do homem superior: "porque somos como Napoleão".

Se é certo que as condições materiais adversas podem podar o florescimento de um homem de gênio, não é certo que todos os submetidos a essas condições seriam homens de gênio se as condições fossem modificadas a seu favor. Sorel e Raskolnikov pensam que se encontram na situação de um gênio impedido de desenvolver-se por obra de uma conspiração das circunstancias.

Não é possível ser gênio antes de efetivamente sê-lo. Obviamente, a grandeza exige certo "capital", certa potência, por assim dizer, natural. No entanto, o homem grande só o é porque torna-se grande, constrói-se na imposição voluntária da unidade de uma regra ditada pela razão à multiplicidade dos atos concretos. A pretensão é justamente a segurança da posse de algo anterior à tensão que irá constituí-la concretamente.

Em suma, esses jovens não têm efetivamente nada, mas crêem-se desde já merecedores de condições que não obstaculizem a manifestação de seus talentos. No fundo, são presas de um idealismo das condições."Mostraríamos a grandeza que possuímos se as condições fossem ideais". O problema é que elas nunca são. Aliás, a grandeza jamais é abstrata.
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domingo, 7 de setembro de 2014

Dostoievski, subterrâneo, consciência e ação

"(...) Pois o fruto direto e legítimo da consciência é a inércia, isto é, deixar-se ficar de braços cruzados, conscientemente. Já falei nisso. Repito, enfaticamente repito: todas as pessoas diretas, todos os homens ativos são ativos simplesmente porque obtusos e limitados. Como explicá-lo? Da seguinte maneira: em consequência de sua limitação, eles tomam por primárias as causas secundárias, imediatas, e assim se convencem, mais depressa e mais facilmente que outras pessoas, de que encontraram um fundamento inabalável para sua atividade. Então se tranquilizam, é isto que importa. Para começar a agir é preciso antes de mais nada estar perfeitamente tranquilo, sem nenhum vestígio de dúvida. Mas como chegaria eu a essa tranquilidade de espírito? Onde as causas primárias sobre as quais construir, onde os fundamentos? Entrego-me à reflexão, e, consequentemente, uma causa fundamental vai puxando outra, ainda mais fundamental, e assim até ao infinito. Tal é o verdadeiro cerne de toda consciência, de todo pensamento."

FEDOR DOSTOIEVSKI, Notas do Subterrâneo, p.26, Ed. Bertrand Brasil (Trad. Moacir Werneck de Castro)

O protagonista amargurado da novela Notas do Subterrâneo (1864) de Fedor Dostoievski opõe o "homem de ação" ao "homem da consciência". Enquanto o primeiro parece não padecer de dúvidas quanto a seus próprios princípios e conhecimentos, o segundo sofre do mal oposto, é quase incapaz de ação exatamente por duvidar demais.

A causa do comportamento do primeiro é que, na maior parte das vezes, os homens de ação são facilmente convencidos pelas causas mais próximas e acessíveis - às vezes sequer são elas causas reais! - e, por isso, agem mui tranquilamente como se estivessem sobre solo firme. Dito de outro modo, o homem de ação tem visão curta e convence-se mais facilmente daquilo que lhe é mais próximo.

Aristóteles afirmava na Ética que jovem não deve se dedicar à ciência política justamente porque é pouco experiente, não viveu quase nada e quase nada conheceu do mundo e dos homens. Por isso sua opinião é dispensável e superficial. Ele facilmente consegue compreender ciências formais, pois estas são abstratas em um nível superior às coisas da vida cotidiana. Mas quando se trata daquilo que exige experiência (empeiria), eles são ineptos.

O que acontece usualmente com os jovens, acontece com alguns homens adultos também. Por que é tão fácil doutrinar, arregimentar, cooptar os jovens? Porque eles nada sabem da vida. Estão prontos para a ação a todo o momento desde que alguém lhes apresente uma razão ou uma causa (nos dois sentidos) imediata e facilmente compreensível. Muitos homens feitos também são assim. 

A consciência e a experiência, contudo, instauram uma cisão, uma crise no homem. Ele duvida das bandeiras justamente porque sabe recuar nas cadeias de causas e contemplar a extrema complexidade do real. É porque se conhece tão bem a realidade - não por compreendê-la melhor, mas por perceber sua complexidade - que o homem de consciência demora a agir ou não age.

E a cisão da consciência divide o homem dentro de si mesmo e o opõe a ele mesmo. Será que estou agindo com com essas motivações nobres ou com outras mais sinistras? O exame da consciência é a desconfiança acerca de si mesmo. O inimigo está à espreita esperando para atacar e ele sou eu mesmo. Este é o teatro interno no qual crio o enredo da peça, assisto-a e julgo moralmente seu único personagem.

Essa dinâmica pode - como tudo na vida - degringolar e gerar um ser como o homem do subterrâneo  de Dostoievski. Ele não age, mas remói dentro de si suas incapacidades e misérias e tira delas até algum gosto. He who desires but acts not breeds pestilence, já dizia Blake.

Ele é desprezível, mas é capaz de perceber certas verdades. Ele percebe a idiotia e a estupidez de seus colegas e contemporâneos. E percebe também que, por mais ligeiro e superficial que lhe pareça o homem de ação, sem ele o mundo não andaria. 

Mesmo no subsolo, abaixo da linha na qual se dá a convivência humana, ele percebe coisas que os outros não percebem. Por exemplo, a superficialidade do positivismo e de todas as utopias de progresso e harmonia por meios materiais. Os homens de ação logo põem-se à serviço de utopias porque crêem que conhecem as causas primeiras das coisas e que tudo está sob seu controle.

Basta fazer isso ou aquilo, seguir tal e qual método, seguir esta teoria a não a outra e então tudo no final dará certo e os homens viverão felizes em um mundo controlado, medido, pesado e calculado para a sua própria felicidade. O homem do subterrâneo vê bem que não é assim. Vê que há algo que para o homem é mais importante que a sua felicidade material: o fato de ser homem. E para provar sua humanidade ele destruiria o paraíso matematicamente planejado.

E isso não é um pessimismo, pois o otimismo, nesse contexto, seria assumir que o homem pode ser planejado e controlado como são as coisas que o próprio homem produz. Isso sim seria um inferno. O que nos torna homens é justamente o fato de que somos imprevisíveis, que temos em nós um "resto" que foge aos cálculos. O homem de ação estaria mais à vontade no mundo do cálculo e do planejamento, pois ali impera a tranquilidade da certeza e da posse das causas primeiras.

O homem de consciência - e sua forma degenerada, o homem do subterrâneo - sabe que não é assim e que não pode viver nessa tranquilidade ilusória. Seu habitat é o conflito interno, a luta interior, que sustenta a dúvida, que mede a complexidade da realidade e que reconhece a extrema dificuldade de sua compreensão. Ele não se deixa levar pelo encanto das causas próximas, mas aceita a cadeia quase infinita das causas remotas.

O homem da consciência seria naturalmente desconfiado desses grandes projetos, das virtudes altissonantes e dos ideias exaltados que movem os homens de ação. Ele sabe que nem mesmo pode confiar em si totalmente. Talvez ele esteja mais à vontade com o pecador contrito do que com o humanista otimista.

Todavia, o homem do subterrâneo desceu demais, penetrou demais no interior de si mesmo e da realidade e, não encontrando ali nenhuma luz, fez da escuridão, da humilhação e da inépcia seu pão cotidiano. O homem de ação age porque inconsciente, porque iludido pelas causas (?) imediatas. São dois extremos. Há que se encontrar o termo médio.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Raskolnikov e a ilusão das ideias

"Eu insinuei pura e simplesmente que o homem extraordinário tem o direito...ou seja, não o direito oficial, mas ele mesmo tem o direito de permitir à sua consciência passar... por cima de diferentes obstáculos, e unicamente no caso em que a execução de sua idéia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija."

RODION RASKOLNIKOV in FEDOR DOSTOIEVSKI, Crime e Castigo, p.268 (Trad. de Paulo Bezerra, Ed. 34)

Rodion Raskolnikov, protagonista do romance Crime e Castigo de Fedor Dostievski, é um doente. Convém, contudo, não patologizar demais o seu mal. Sua doença não é tanto uma moléstia do corpo ou da psiquê. Ele tem uma pneumopatologia, uma doença do espírito. Seu mal é o orgulho que se manifesta em uma autoimagem exacerbada que é posta em xeque pela consciência aguda de sua condição real de miséria e de impotência.

Tudo gira em torno disso. É porque ele se considera um Napoleão, alguém cujas riquezas interiores e cujas capacidades o tornariam diferente do resto da comezinha humanidade ("piolhos", como a denomina) que Raskolnikov se acha no direito de matar a velha usurária. É um drama sobre uma dignidade hipotética imaginada por um jovem diante da realidade cruel que se recusa a se conformar à imagem exaltada que tem de si mesmo.

O que fazer? Se a realidade se recusa a cooperar, é necessário fazê-la curvar-se diante de sua dignidade hipotética. O primeiro erro de Raskolnikov é atribuir-se uma excelência que ele ainda não havia demonstrado através de feitos concretos e agir como se fosse realmente alguém especial. O segundo foi crer que Napoleão pode fazer o que bem entende simplesmente por ser Napoleão.

Nas obras de Dostoievski, boa parte de seus personagens mais perturbados e atormentados são oprimidos por idéias, filosofias e teses. São precipuamente adeptos de pensamentos hipotéticos, de esperanças utópicas, de desejos irrealizáveis, de teorias grandiloquentes sobre eles mesmos e sobre o mundo. Não seria errado afirmar que eles são como possessos.  

Não são mais pessoas, mas porta-vozes de idéias abstratas que não somente fluem por suas bocas como também os consomem na medida em que exigem sua realização concreta naqueles indivíduos. Verkhovenski, Kirilov, Chigaliov, Stavrogin, Ivan Karamazov e Raskolnikov são quase ilustrações de suas próprias idéias, como silogismos concretos e individuais que explicitam as premissas que se encontram em suas próprias mentes. 

Raskolnikov crê tanto nas idéias que chega a inverter a ordem da realidade temporal e supor como real o Napoleão apenas potencialmente contido naquele general obscuro que ainda não havia vencido em Austerlitz ou invadido a Rússia. Napoleão estava destinado a ser Napoleão antes mesmo de sê-lo. Os homens grandes são destinados naturalmente a serem grandes, de tal modo que nada deve impedi-los e nem interpôr-se em seu caminho.

Napoleão foi quem foi por conta de seus feitos militares extraordinários. Feitos concretos e determinados. E Raskolnikov? De que grande feito poderia gabar-se? De nenhum, por certo. Resta evidente que também Napoleão não poderia ter se tornado o que se tornou por suas realizações e sim porque tais realizações eram expressões inequívocas de uma grandeza que já estava nele, de uma destinação natural, de algo próximo a um imperativo que para realizar-se concedia um salvo-conduto a quem porventura fosse o seu portador. 

Raskolnikov é monstruosamente pretensioso, orgulhoso e, acima de tudo, iludido. Somente a humilhação e a aceitação da realidade poderiam salvá-lo. Sonia Mermeladov aparece-lhe como a realidade. Ela sim é especial, alguém que enfrenta a realidade desesperadora mantendo a dignidade e o amor. Ela faz algo pelo seu próximo, por seus irmãos e seu pai. Concretamente e não hipoteticamente. Ela é grande e Raskolnikov apenas sonha ser grande.

Sonia exerce sua grandeza nos atos mais comezinhos e tristes da vida. Ela não é cindida entre a pretensão e a realidade. Por isso Raskolnikov ajoelhar-se-á diante dela. A meretriz o salva porque ela é mais real do que tudo o que ele imaginava de si mesmo. "As prostitutas e os publicanos vos precederão no Reino dos Céus" (Mt 21,31).

Sonia é o bom samaritano da parábola evangélica e Raskolnikov é homem ferido pelos bandidos, ferido pelas consequências de suas próprias idéias. Quem salvou o homem judeu na estrada senão o seu mais odiado inimigo, o samaritano? Quem salvará Raskolnikov de suas pretensões ilusórias de grandeza? A pior imagem da degradação que a realidade pode assumir: a prostituta explorada pelo próprio pai.

Assim como o samaritano é grande por conta de seus atos concretos de piedade, Sonia mostra sua grandeza em atos de amor por seus irmãos e por sua madrasta, em atos de perdão para com seu pai e em atos de piedade e de misericórdia com Raskolnikov. E ela acompanha o jovem estudante até à prisão, onde, por fim, ele se arrepende plenamente de seus erros.

Raskolnikov é um homem dividido, um homem cindido justamente porque ainda não é um homem de verdade. É um garoto pretensioso e incapaz de aceitar a realidade. Mas seu drama é uma encruzilhada moral no mais alto sentido do termo.

sábado, 7 de setembro de 2013

Hitchcock, Dostoievski e o julgamento do intelectual

"Um povo é o rodeio que faz a natureza para chegar a seis ou sete homens. - Sim: para em seguida evitá-los." 

FRIEDRICH NIETZSCHE, Além do Bem e do Mal, cap. IV, aforismo 126

"Rope" (no Brasil, "Festim Diabólico") é um dos filmes mais interessantes de Alfred Hitchcock. Muito já se falou de seu estilo teatral (o roteiro é adaptado de uma peça*) e de sua aparente filmagem sem cortes. Entretanto, o filme tem como tema uma questão moral e filosófica: é o mestre responsável pelos atos torpes realizados por seus discípulos, ainda que estes somente tenham tornado efetivas as ideias que aquele propugnou como meras abstrações?

Todo o evento se desencadeia a partir de uma única premissa teórica: a de que seres superiores intelectualmente estão acima do bem e do mal e que, por essa razão, a eles é permitida a realização de atos considerados pelos seres inferiores como criminosos. 

No centro da trama estão dois jovens bem-nascidos e inteligentes, Brendan e Philip, que sequestram um colega de college, David Kentley, e o estrangulam com uma corda. Cometido o crime, não satisfeitos, depositam o corpo em um grande baú no meio de sua sala de visitas, onde, dali a poucas horas, receberão convidados para uma pequena festa.

Ora, os convidados não poderiam ser mais significativos. Trata-se, em primeiro lugar, do pai de David e de sua tia, convidados com a desculpa de um prometido empréstimo de livros raros. Além deles, são convidados a futura noiva de David, Janet, o antigo namorado desta, Kenneth e, como coroamento, o antigo professor de filosofia dos dois assassinos, Prof. Rupert Cadell.

Foi o distinto professor que inoculou nos dois rapazes as idéias da superioridade de alguns homens especiais sobre o resto de uma humanidade composta de covardes e seres incapazes e inferiores, aos quais nada além da morte seria adequado. 

Fica evidente, desde o início, que Brendan e Philip não estão no mesmo nível, apesar de sua amizade. Brendan é o verdadeiro cérebro do crime. É frio, ardiloso, cínico, mas fascinante, charmoso e sedutor. Philip tem um temperamento mais sensível, é pianista, e, evidentemente, vive sob o encanto do amigo. 

Amigo? Não exatamente. Com sinais sutis, como a mudança do foco do olhar de Philip nos olhos de Brandon para sua boca durante uma quase imperceptível inclinação do primeiro na direção do segundo em uma conversa muito próxima logo nos primeiros atos do filme, fica evidente que há uma relação homossexual entre eles. Não obstante, a diferença de caráter de ambos determinará sua ruína. 

Brandon faz de tudo para humilhar seus convidados, ainda que estes não o saibam. O defunto se encontra em um baú acima do qual serve-se a comida, ao pai de David é dito que o filho em breve se juntaria a eles na festa, o mesmo é dito à futura noiva e a seu antigo rival. Brandon chega a amarrar os livros que entrega ao pai de David com a própria corda com que assassinou seu filho.

Mas a peça central dessa obra de vaidade é o professor Cadell. Embora inconsciente do crime no início, Cadell assiste à realização de seus pupilos e Brandon quase não se contém em dar pistas para que o mestre possa  apreciar o que foi feito. No fundo, especial que fosse segundo seus próprios padrões, Brandon vive à sombra do professor e quer sua aprovação.

Tanto é assim que, no meio da festa, na frente do pai de David, Brendon inicia um discurso sobre o privilégio do assassinato e é logo seguido por Cadell que reafirma tais teses, a princípio jocosamente, mas depois de forma séria. E o que muda o tom de Cadell é justamente a indignação do Sr. Kentley que, com desgosto, recrimina aquelas demonstrações de desprezo pela humanidade.

O nome de Nietzsche é citado pelo Sr. Kentley, bem como sua doutrina do übermensch. Ato contínuo, vem à baila Hitler e seus asseclas. Brendon, como era de se esperar, recusa tais identificações, menosprezando o líder nazista e seus grosseiros seguidores apontando para o que ele chamaria de assassinato como obra de arte.

Brandon é vaidoso demais para admitir que a superioridade pudesse se encontrar na massa, como no nazismo. Uma multidão de criaturas em si mesmas insignificantes hipnotizadas por um líder carismático não lhe apareceria a não ser como um espetáculo grosseiro e nauseante. Não. Só ele e alguns poucos são especiais. O resto - como ele próprio afirma a respeito de David Kentley - está aí para "ocupar espaço". Ele não é um nazista, não acredita em raças, mas em indivíduos especiais.

Ele está mais próximo de Raskolnikov do que de Verkhovensky. Não há uma causa, ainda que hipócrita, cuja realização permita de antemão a eliminação dos recalcitrantes. David Kentley não morre, como Chatov, por causa do socialismo ou do chigaliovismo. Não morre por causa de um projeto de sociedade.

Mas isso não significa que David tenha morrido por nada. Ele morreu para que se realizasse uma obra, uma idéia. A obra de arte do assassinato perpetrado por uma mente superior contra seres inferiores e desprezíveis. "São todos piolhos", diria Raskolnikov. Brendan é o grande homem, como Napoleão, a quem a natureza deu o direito de passar sobre os corpos dos vermes para que se realize uma grande obra.

Brandon é tão cioso de sua obra que se dá o direito de manipular as relações de seus amigos só para colocar as coisas onde elas deveriam, segundo supõe, estar. Esse é o caso de Janet, que aos olhos de Brandon só abandonou Kenneth por estar interessada na fortuna de David Kentley. Convidando-a para uma festa onde seu ex-namorado estaria presente e que seu futuro noivo só estaria como ausência, posto que morto, o ardiloso anfitrião intenta favorecer uma traição mesmo sabendo que ela, a rigor, não mais é possível.

Por outro lado, Philip se parece também com Raskolnikov. Só que com aquele que já cometeu seu crime contra a velha agiota e sua irmã e que, aos poucos, sente o remorso, o medo e o arrependimento tomarem conta de si. É ele que, como o protagonista de Crime e Castigo, deixa escapar, quase que desejando inconscientemente ser apanhado, pistas cada vez mais sólidas do assassinato. Seu comportamento é errático, nervoso, desconfiado e destemperado. É um homem ruindo por dentro. É Raskolnikov descobrindo dolorosamente que, afinal de contas, não é tão especial assim.

Todavia, há um personagem que, ao final, passa por uma espécie de metanóia. É o professor Cadell.  E aqui algo interessante acontece. Se Philip é o Raskolnikov dividido e atormentado pela culpa, Cadell é seu Porphiry. É ele que, aos poucos, junta as evidências e as pistas e que, impulsionado pela crescente suspeita e tomando então a iniciativa, arma interrogatórios que pressionarão Philip e que, em um jogo de gato e rato, o conduzirão a explosões e descontroles cada vez maiores até à confissão final.

Mas quando ele é confrontado com o horror daquilo que seus antigos pupilos fizeram a partir de suas idéias, ele recua, como Ivan Karamazov recuou diante da insinuação de Smierdiákov de que cometera o parricídio inspirado em suas idéias. A reação é a mesma: "eu não disse isso", "eu não o faria". Mas ele não pode negar que a conclusão lógica do que ensinou àqueles rapazes se encontrava materializada dentro daquele baú. As idéias têm consequências.

Nesse momento, Brandon busca explicar a seu mestre que ele seria capaz de entender o que fizeram, que ele sabia que a vida dos seres inferiores é insignificante e que o homem superior não se pauta pelas regras morais medíocres do resto da humanidade. Brandon quer o reconhecimento de um igual. Philip já demonstrou ser indigno.

Cadell rejeita Brandon e suas idéias. Defende o direito à vida de todo ser humano e condena a imoralidade do assassinato. Por fim, entrega os jovens à polícia. Cadell representa o intelectual que é colocado diante das consequências reais e concretas de suas idéias abstratas. Embora seja ele a pronunciar a condenação moral dos jovens pupilos, não seria errado afirmar que, durante todo filme, era ele que estava em julgamento.
...
*A peça, por sua vez, foi baseada no caso real de Leopold e Loeb, dois jovens bem-nascidos e brilhantes intelectualmente que, em 1924, mataram um colega para provar a própria superioridade. Segundo declararam, também inspiraram-se nas ideias de Nietzsche.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Os Demônios" de Dostoievski: Kirilov, Verkhovenski e o espírito da negação

"- Pois fique sabendo que se eu estivesse no seu lugar, manifestaria minha vontade matando a outrem, e não matando-me. Poderia assim tornar-me útil. Se não tem medo, posso indica-te a quem matar. E nesse caso você poderia abster-se de estourar os miolos hoje. A gente entraria numa combinação.
- Matar a outrem seria a mais baixa manifestação da minha vontade; isso te define inteiramente. Eu não sou tu: eu quero a forma suprema, e hei de matar-me. (...)Dá-me a pena! bradou, de repente, Kirilov, tomado como de súbita inspiração. Dita, que assinarei tudo. Assino também que matei Chatov. Dita, enquanto isso me diverte. Não receio o que pensarão os escravos arrogantes!"

Os Demônios, FIODOR DOSTOIEVSKI

Alexei Kirilov assina a confissão da morte de Chatov e assume a responsabilidade no lugar do assassino Verkhovensky. Parece-me haver aí algo tremendamente simbólico. É sob a rubrica do "homem novo" que o revolucionário mata os recalcitrantes e infiéis.

Kirilov é o "homem novo", o fim para o qual tendem os movimentos revolucionários. Ele é o homem sem Deus, aquele que, nas suas próprias palavras, recusa-se a "inventar Deus". Kirilov tem consciência de sua própria importância, pois proclama que sua morte dividirá a história em duas, como a morte de Cristo o fez antes dele.

Somente que, agora, Kirilov será "a porta", o primeiro: "começarei, terminarei, abrirei a porta. E trarei a salvação." E a salvação é o homem plenamente senhor de sua divindade, de sua vontade absoluta, livre de Deus e de tudo aquilo que instanciava, direta ou indiretamente, Sua autoridade: Igreja, Estado, moral.

Na primeira morte, a de Cristo, o homem morre para alcançar a salvação para toda a humanidade. A kenosis - a aniquilação, o esvaziamento - da encarnação do verbo se completa na kenosis da carne, da humanidade de Cristo, que abre as portas da ressurreição e da deificação.

Em um, o homem morre para renascer divino. No outro, Deus é morto para dar lugar somente ao homem carnal. Em Cristo o divino abarca o mundo sem negá-lo. Em Kirilov o mundo é afirmado pela negação do divino.

O recurso literário de Dostoievski consiste em apresentar simultaneamente o objetivo - Kirilov - e o processo - Verkhovensky - em um diálogo. É muito significativo o fato de que Kirilov não faz parte do grupo de revolucionários. Não poderia ser diferente. Ele não pode reconhecer e nem se identificar com os anseios de Verkhovenski e de seu grupo. Ele mesmo o afirma: matar outrem define Verkhovenski e não ele.

Verkhovenski é o homem da ação, do processo. É o agente da destruição e do caos que precede necessariamente o objetivo final, simbolizado por Kirilov. Isso não significa que Verkhovenski entenda plenamente Kirilov. Este é tratado até com impaciência por aquele. Suas razões são diversas. Kirilov conhece o revolucionário, pode dizer o que o define, assim como a fase final compreende seus estágios anteriores e não o contrário.

Ora, aí se instala um diálogo demoníaco. Verkhovenski quer que Kirilov assine uma confissão em que assume a responsabilidade pela morte de Chatov, o traidor, o elemento recalcitrante. Ele já quer matar (possivelmente até por ciúmes de Stravoguin), já se decidiu pelo assassinato. Mas não quer ser responsabilizado e julgado. Quer que outro assuma a responsabilidade.

Todavia, quem poderia tomar para si essa responsabilidade senão o "homem novo"? Kirilov não matou e nem vai matar ninguém. Não é diretamente culpado pela morte de Chatov. Mas simbolicamente Kirilov é culpado porque é o fim, a finalidade para a qual tendem todos os esforços de Verkhovenski.

Ele é o "homem novo", é o símbolo vivo do homem que há de vir. Kirilov não age diretamente, como uma causa eficiente, mas indiretamente, como uma causa final. Esta, por sua vez, absolve de toda responsabilidade o agente concreto do caos, Verkhovenski. Tudo é permitido? "Não", dirá o revolucionário. "Somente aquilo que for necessário para trazer o ideal ao mundo."

É sob a assinatura do "homem novo", Kirilov, que Verkhovenski, absolvido a priori, comete seu assassinato. Os meios se justificam pelos fins. Que fique claro que essa morte é apenas a primeira. Verkhovenski mesmo o assume dizendo: "Ainda restam milhares de Chatov." A doutrina de Chigaliov, o discurso de Verkhovenski após a morte de Chatov e a confissão de Liamchine dão a medida exata do que virá a seguir.

O que vem é a morte. Kirilov é seu profeta maior. Nele, a afirmação da divindade humana e a negação de Deus chegam ao ápice:

"Se Deus existe, toda a vontade Lhe pertence e, fora dessa vontade, nada posso. Se Ele não existe, toda vontade me pertence, e devo proclamar minha própria vontade. (...) Tenho que meter uma bala na cabeça porque o suicídio é a manifestação suprema da vontade."

Essa é a grande liberdade, a divindade da qual Kirilov é o primeiro representante. É o espírito de negação radical e total. A afirmação última e definitiva do homem é sua destruição voluntária. À morte de Chatov se segue a realização do "homem novo": a morte como afirmação da vontade livre e absoluta.

Nada menos do que o suicídio é digno do "homem novo". Nada há para construir ou usufruir. Toda outra opção é condenar-se a "viver pela metade", diz Kirilov. É comportar-se "como um pobre que herdou uma fortuna e que treme, sem coragem de se aproximar do saco de dinheiro, considerando-se muito fraco para tal façanha."

Kirilov é a encarnação do espírito da negação. Por isso o caminho que conduz a ele é pavimentado pela morte e pelo caos. Exatamente o que Verkhovenski semeia na pequena cidade que é palco da trama, um microcosmo que antecipa o que se dará no macrocosmo.
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Leia também:

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Dostoievski e a estratégia revolucionária



"-Por que tantos crimes, esses escândalos, essas misérias?
- A fim de abalar o Governo nas suas bases, a fim de apressar a decomposição da sociedade, a fim de desanimar a todos e inocular nos espíritos a desordem. Depois teríamos nos apoderado dessa sociedade caótica, doente, abandonada, cínica e cética, mas que aspira submeter-se a qualquer idéia diretriz; teríamos brandido o estandarte da revolta, apoiando-nos na rede de grupos de Cinco, que por seu lado agiriam promovendo a propaganda, estudando os pontos fracos do adversário e os meios práticos de o combater."

Liamchine, membro do grupo revolucionário de Cinco, em Os Demônios de FIODOR DOSTOIEVSKI


Toda a estratégia revolucionária, exposta por Dostoievski, de um fôlego só, na confissão deliberada da personagem do revolucionário Liamchine.

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Mais de Dostoievski sobre os revolucionários:

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dostoievski e o ascetismo demoníaco

"Em suma, tudo depende dos senhores e da convicção em que devem estar de que agiram bem - convicção da qual logo amanhã estarão definitivamente de posse, segundo o espero. É por isso, entre outras coisas, que estão reunidos e que, partilhando das mesmas idéias, formaram livremente uma organização a fim de se auxiliarem mutuamente e, sendo preciso, a fim de se vigiarem mutuamente. Foram chamados a reformar uma sociedade decrépita e apodrecida: esse pensamento lhes deve estimular constantemente a coragem. Os seus esforços devem sempre procurar fazer com que tudo desabe - tanto o Estado quanto a sua moral. Só nós ficaremos de pé, nós que desde muito estamos preparados para tomar posse do poder. Anexaremos os indivíduos mais inteligentes, e quanto aos imbecis, serão por nós cavalgados. Isso não os deve chocar. Teremos que reeducar a geração atual para a tornar digna da liberdade. Ainda restam milhares de Chatov. Organizar-nos-emos para dirigir o movimento: seria uma vergonha, da nossa parte, não nos apoderarmos do que praticamente se nos oferece."

Discurso de Piotr Stepanovitch Verkhovensky, líder do grupo revolucionário socialista, após o assassinato de Chatov em Os Demônios de FIODOR DOSTOIEVSKI

Esse discurso, sem dúvida, poderia ter saído dos lábios de Sergei Nechaiev, o revolucionário niilista russo que assassinou um dissidente em novembro de 1869 e inspirou Dostoievski na criação de Piotr Stepanovitch. Nechaiev foi também o autor do nefasto Catecismo Revolucionário onde preconizava que todos os fins, mesmos os mais torpes, são justos se conduzem à revolução.

No Catecismo, Nechaiev afirmava que o ser inteiro do revolucionário está "devorado por um único propósito, um único pensamento, uma única paixão - a revolução. De coração e de alma, não somente por palavras, mas por ações, ele cortou toda a ligação com a ordem social e com o mundo civilizado inteiro; com as leis, boas maneiras, convenções e moralidade desse mundo. Ele é seu impiedoso inimigo e continua a habitar nele com apenas um propósito: destruí-lo."

O revolucionário é um homem totalmente dedicado, para quem sentimentos como amor gratidão, misericórdia, amizade e honra devem ser afastados. E até mesmo ódio e vinganças pessoais devem ser imperiosamente afastadas em nome do sucesso da revolução e da destruição de toda a ordem vigente.

As inclinações pessoais e os desejos do revolucionário não podem jamais se sobrepor aos interesses da atividade revolucionária, sendo sua moral e regra de vida realizar tudo, por qualquer meio concebível, que contribua para a conquista de seu objetivo único. O revolucionário está morto para si mesmo para que a revolução viva.

Se Nechaiev não houvesse sido preso, o jovem dissidente morto por ele certamente teria sido só o primeiro. Piotr Stepanovitch, o Nechaiev dostoievskiano, por seu turno, tem consciência de que Chatov é somente o primeiro e que milhares deveriam futuramente ter o mesmo destino.

O Catecismo prosperou e fez inúmeros discípulos que se dedicaram com afinco a eliminar seus próprios Chatov onde quer que os encontrassem. As valas comuns, Gulags e campos de extermínio do século XX o testemunham com eloquência muda.

É um dado incontestável declarado por todas as religiões tradicionais: o homem necessita de ascese. É de sua natureza mais profunda. Entretanto, é também fato conhecido a todas as religiões a possibilidade da ascese maléfica.

Uma leva o homem a morrer para si mesmo, a esvaziar-se, a tornar-se nada para alcançar o Todo, o Absoluto. A outra leva o homem a morrer para seus desejos imediatos, para concentrar-se inteiramente na busca de um ideal de poder e de destruição, fruto da insatisfação de um exílio ontológico confusamente discernido a partir de uma imagem invertida do céu.

Left hand path, ascese do demônio.

sábado, 29 de agosto de 2009

Dostoievski profeta

"Cada um pertence a todos e todos pertencem a cada um. Todos os homens são escravos e iguais na escravidão. (...) Antes de tudo, rebaixa-se o nível da instrução, das ciências e dos talentos. O nível elevado da ciência e do talento só se obtém graças a inteligências superiores, - portanto nada de inteligências superiores. Homens de talento apoderam-se sempre do poder e tornam-se déspotas. E não podem agir de outra maneira; sempre fizeram mais mal que bem. É mister baní-los ou matá-los. Cícero terá a língua cortada, Copérnico os olhos furados, Shakespeare será lapidado. Isso é que é o chigaliovismo. (...) Não há necessidade de instrução, chega de ciência! Os materiais de que já dispomos nos bastarão durante mil anos; o que é importante estabelecer é a obediência. A sede de instrução já é uma sede aristocrática. Mal é permitida a instalação da família e do amor, imediatamente nasce o desejo de propriedade. Haveremos de matar esse desejo: desenvolveremos a embriaguez, a calúnia, a delação; mergulharemos o homem numa devassidão inaudita, destruiremos no ovo qualquer gênio que se esteja formando. Todos serão reduzidos ao denominador comum: igualdade absoluta."

Verkhovensky, em Os Demônios (1871) de FIODOR DOSTOIEVSKI

Em Os Demônios Dostoievski faz um diagnóstico preciso das idéias e motivações dos grupos radicais russos do final do século XIX. Inspirado no caso real do assassínio de um estudante por Niechaiev, líder de um desses grupos, o mestre russo faz desfilar ante o leitor a plêiade aterrorizante dos tipos que compunham aqueles movimentos e das idéias que, como demônios, os habitavam.

Pela boca de Chigaliov, o teórico do grupo, Dostoievski enuncia os objetivos e os métodos que seriam usados nas revoluções e ditaduras que iriam tomar a Rússia e boa parte do mundo no século seguinte.Partindo da liberdade absoluta chega-se a servidão absoluta. Um décimo será livre além dos limites e manterá o resto em servidão sem limites. Eis a essência do chigaliovismo. Um rebanho tolo e sem vontade transformado pela mediocrização contínua.

Ódio pelo talento e pelo espírito, considerados como pretensões aristocráticas ofensivas ao igualitarismo do rebanho. Como é possível haver inteligências superiores, talento e mérito? O igualitarismo extremo configurar-se-á necessariamente em uma negação da Natureza. E se esta insiste em criar diferenças, elas deverão ser devidamente anuladas por meio de uma nova organização social que sufoque o gênio e force a igualdade na mediocridade. Em vez de justiça, haverá nivelamento e servidão.

E o assassínio de Chatov, o crime praticado por motivos políticos e, por isso mesmo, absolvido em nome da escatologia da "causa", assim como o crime perpetrado por Niechaiev, pressagia a massa quase infinda de cadáveres e de covas coletivas que assombraram o século XX. Como disse John Gray, os czares eram culpados de muitos crimes. Mas o genocídio com o objetivo de aperfeiçoar a humanidade não era um deles. Esse é um projeto moderno. E Dostoievski parecia saber exatamente para onde ele conduziria.

Nada menos que profético.