segunda-feira, 30 de setembro de 2024
Lieh Tzu, a viagem e o Tao
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
Chuang Tzu, Confúcio e a identidade do sábio com o Tao
"Aquele que conhece o homem é sábio, aquele que conhece a si mesmo é iluminado."
"Aquele que vence os outros é forte, aquele que domina a si mesmo é o melhor."
TAO TE CHING, 33
O livro de Chuang Tzu conta que Yen Hui, discípulo do venerável Confúcio veio até seu mestre anunciar que havia progredido a ponto de esquecer-se da benevolência e da integridade completamente. Confúcio parabenizou o discípulo, mas completou dizendo que ele ainda não havia chegado a bom termo.
No dia seguinte, mais uma vez, Yen Hui foi ao mestre Confúcio anunciar que havia progredido. Dessa vez, havia esquecido ritos e música. E, também mais uma vez, Confúcio parabenizou-o, mas completou dizendo que o discípulo não havia chegado ainda ao final.
Dias depois, Yen Hui foi ter com seu mestre Confúcio para anunciar que havia progredido a ponto de sentar e esquecer de tudo. Espantado, o mestre perguntou o que isso significava. Yen Hui respondeu que deixava seu corpo cair e abandonava toda percepção e intelecto, bem como toda forma e entendimento, fazendo-se idêntico à Grande Transformação. Isso era o que significava sentar e esquecer tudo.
Confúcio respondeu que se Yen Hui havia se tornado idêntico à Grande Transformação, ele não mais possuía quaisquer apreços ou aversões. Se estava transformado, não mais havia qualquer permanência. Yen Hui havia se tornado um verdadeiro sábio. Confúcio, então, solicitou que Yen Hui o aceitasse como discípulo.
O que se mostra nessa passagem é o progressivo abandono das categorias humanas que o sábio tem de empreender no Caminho (Tao, 道). Ele deve ultrapassar ambas, a moral e a ética comuns. O certo e o errado são categorias de opostos, respondem ao mundo das dez mil coisas. Isso não significa que tudo seja permitido ao sábio ou que ele não seja perfeito moralmente, mas sim que sua perfeição não provém do mero seguimento de formas e injunções externas. Sua perfeição é a perfeição do Tao, o Princípio.
Tal abandono, porém, como indica Confúcio, não é suficiente. Os ritos humanos e os divertimentos também devem ser ultrapassados pelo sábio. Ambos enraízam-se nos costumes dos homens e nas suas aversões e preferências. De novo, insiste Confúcio, isso não é suficiente. O sábio deve sentar e esquecer tudo. O que isso significa? A identidade do sábio com o Tao.
Não se trata de quietismo ou de inação, mas do mistério de wu wei, a não-ação do Tao. Yen Hui explica a Confúcio que, abandonando os sentidos, o intelecto, as formas e o entendimento, ele se tornava idêntico à Grande Transformação. Aquilo que regra o movimento não está em movimento. Aquilo que rege a transformação está acima das transformações. Aquele que é idêntico ao Princípio das dez mil coisas não possui mais aversões ou preferências, nada há que nele permaneça.
O sábio está instalado no vazio da absoluta equanimidade. Não à toa, Confúcio inverte a relação de discípulo e de mestre e torna-se aprendiz de seu antigo aprendiz. Confúcio, na mentalidade taoísta, ainda está preso ao mundo dos opostos, e deve aprender com um sábio verdadeiro, Yen Hui.
Em outra passagem de seu livro, diz Chuang-Tzu: Não sejas uma carcaça de nomes ou uma tesouraria de esquemas. Não sejas servo de objetivos ou proprietário de fino saber. Fazei do inesgotável o seu corpo, e vaga para além das origens. Toma como suficiente tudo o que o Céu te enviar, e sabe que não possuís nada. Vive vazio, perfeitamente vazio. Os mestres sábios sempre usam a mente como um puro espelho: não saúda nada, não recusa nada. Reflete tudo, retém nada. E, assim, triunfam sobre tudo sem jamais serem feridos.
O sábio não deve se apegar às formas, aos nomes e aos esquemas. Tudo isso é parte da multiplicidade ilimitada dos limitados. Os objetivos são preferências, apego a isto e aversão àquilo. O inesgotável (Tao) deve ser o corpo do sábio, o Princípio último é sua natureza. Instalado na equanimidade absoluta do Tao, o sábio considera tudo satisfatório, pois nada lhe falta. Sabe que não possui nada do que é deste mundo dos opostos, pois o que ele possui é o infinito.
Sua mente é como um espelho perfeitamente polido que reflete tudo o que se posta à sua frente sem nada recusar ou saudar. Reflete de modo perfeito justamente porque é vazio. Só o que é vazio pode receber tudo. Mas o sábio recebe sem reter, já que a retenção é apego. O apego é como uma imagem que mancha e desfaz a polidez perfeita do espelho. Estando no Tao, tudo pertence ao sábio e nada pode causar dano a ele. Quem é idêntico ao Princípio possui tudo o que provém do Princípio de forma perfeita e sem máculas.
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Leia também: Νεκρομαντεῖον: taoísmo (oleniski.blogspot.com)
domingo, 10 de janeiro de 2021
Chuang Tzu, o sábio e a natureza do Tao
大道甚夷,而人好徑。
"O Supremo Tao é suave e plano, mas os homens gostam de desvios."
TAO TE CHING, 53
No livro do sábio taoísta Chuang Tzu (庄子) é dito que é venturoso haver nascido na forma humana. A forma humana conhece mudanças, mas as dez mil mudanças são absolutamente ilimitadas. Quem seria capaz de calcular as alegrias que elas prometem? No entanto, o sábio vagueia onde nada está oculto e tudo está preservado. O sábio considera uma benção morrer jovem tanto quanto morrer velho, considera os inícios e os fins igualmente como bênçãos. Podemos fazer de tal pessoa nosso mestre, mas há algo a que as dez mil coisas pertencem, algo de que toda a mudança depende. Imagine fazer disso seu mestre!
É venturoso nascer na forma humana porque o homem está em uma relação intermediária entre o Céu (天) e a Terra (地). Participando parcialmente de ambos, o homem possui uma porção celeste e uma porção terrestre. Ele conhece mudanças, mas, posto que limitado, o homem não é capaz de abarcar todas as possibilidades de mudança (dez mil é símbolo de totalidade inabarcável). Por essa razão, não é capaz de prever tudo o que acontecerá com ele e com os seus. A ignorância do futuro gera inquietação, ansiedade e sofrimento no homem comum.
O sábio, entretanto, é diferente do homem comum. Este se inquieta com seu destino futuro, mas o sábio vê tudo com perfeita equanimidade. O lugar a partir do qual ele encara as coisas e os acontecimentos se encontra onde nada é oculto e tudo é preservado. Mas nenhum lugar dentro da realidade das dez mil coisas pode corresponder a essa descrição. Neste mundo sempre há algo oculto, como o futuro e os pensamentos dos homens, e sempre há algo a perder, como a vida, a saúde, o tempo. O lugar onde tudo é conhecido e nada é perdido teria de ser uma realidade fora das dez mil coisas, que fosse fundamento da existência das coisas e que as reabsorvesse quando saíssem da existência, sem nada perder jamais.
O lugar onde o sábio está é o não-lugar que torna possível qualquer lugar. O sábio habita no seio do Princípio de todas as cosas. Ele habita no Tao, o Caminho (道). Estando na fonte última de todas as coisas, o sábio não ganha e nem perde nada. Tudo pertence a ele e nada de outro é necessário. Morrer jovem ou morrer idoso é indiferente, pois ele já vive na real imortalidade do Princípio. Aquele que tudo possui não conhece inícios ou fins. É possível fazer do sábio o seu mestre. Mas, acima dele e de todas as coisas, há algo mais fundamental: o Tao, mestre verdadeiro dos homens.
No livro de Chuang Tzu também é dito que o Tao tem sua própria natureza e sua própria confiabilidade. Não faz nada e não possui forma. Pode ser passado, mas nunca recebido e retido. É possível o alcançar, mas não o enxergar. Ele é sua própria fonte e raiz. Antes do Céu e da Terra, ele já existia, constante desde os tempos antigos. Ele torna deuses e demônios sagrados, e dá nascimento ao Céu e à Terra. Está para além do pólo mais elevado, mas não é alto. Está abaixo das seis direções, mas não é profundo. Anterior ao nascimento do Céu e da Terra, contudo não é antigo. Anterior ao tempo mais antigo, não é arcaico.
O Tao é sua própria fonte, não obedece a nada além de si mesmo. Lao Tzu, no Tao Te Ching, afirma que o homem segue a Terra, a Terra segue o Céu, o Céu segue o Tao, e o Tao segue a si mesmo.¹ Isto é, sendo o Princípio último, tudo nasce dele e nada há de mais elevado que o Tao. Não obstante, ele não faz nada e nem possui forma. A não-ação, wu wei (無為), não significa inação no sentido de falta ou de incapacidade de agir. É o conceito taoísta de uma ação que não necessita exteriorizar-se em atos, mas que opera pela simples influência da própria presença do sábio ou do Tao. O Princípio de todas as coisas não age como agem as coisas, transitivamente. O Tao é desde sempre, por isso as dez mil coisas existem.
O Tao não possui forma. A não-forma não significa o amorfo no sentido daquilo que é disforme ou inacabado. Lao Tzu, no Tao Te Ching, diz que o Tao constante é inominável.² O Tao é informe e inominável não por conta de alguma deficiência, mas sim por causa de sua plenitude. É o Princípio para além de toda forma e de todo nome. Ele pode ser passado porque é abundante, mas jamais pode ser recebido e retido como se fosse algo limitado e abarcável. O sábio alcança o Tao, vive em sua realidade última, mas ele não pode ser enxergado com os olhos que enxergam as polaridades deste mundo.
O Tao é a sua própria fonte e sua própria raiz porque é o fundamento de tudo o que há. Ele é a origem da polaridade primordial da Terra e do Céu, e, portanto, é anterior ontologicamente a toda e qualquer polaridade. Todos os seres devem sua existência e seu lugar na escala das coisas ao Tao supremo e constante, mesmo os deuses e os demônios. É mais alto que o ponto mais alto, mas não é elevado no sentido ordinário de espacialidade. Nem é profundo, embora esteja abaixo das seis direções. O alto e o baixo são polaridades espaciais que possuem seu fundamento no Tao que os abarca e os transcende.
Anterior ao tempo mais antigo, o Tao não é arcaico. Antiguidade e novidade são polaridades temporais, só fazem sentido no mundo da mudança e da multiplicidade. O Tao é o fundamento e a ordem de todas as mudanças das dez mil coisas. A regra que ordena não está submetida às mudanças que impõe àquilo que ela rege. Por isso, o Tao é sempre atual e sempre novo, presidindo a temporalidade. O Tao sempre foi e sempre será.
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¹ 人法地,地法天,天法道,道法自然 (Tao Te Ching, 25)
sábado, 25 de julho de 2020
Chuang Tzu: Tao, o sábio e os homens
PIERRE HADOT, Quest-ce que la Philosophie Antique?, p. 334 (tradução minha)
O sábio é exteriormente como qualquer homem, embora já não seja igual aos homens. Lieh Tzu, outro dos três sábios do Taoísmo, era conhecido por ser "incomumente comum". O que distingue o sábio dos outros homens é o fato de que ultrapassou as distinções e polaridades, vivendo em harmonia com o Tao. Preferências e aversões são características do homem, e o sábio não se deixa abalar por essas distinções.
O Tao e o Céu o fizeram humano, então ele permanece humano. Todavia, ao mesmo tempo, o sábio não é mais humano, pois ultrapassou o horizonte dual que caracteriza os homens. Ele provou o alimento do Céu, está desperto, iluminado. É por essa razão que o sábio deixa tudo exatamente como está, sem impor qualquer tipo de juízo. Considerando todas as coisas a partir da equanimidade absoluta, o sábio retorna ao Princípio original sem deixar de ser homem e sem ser mais como os outros homens.
Hui Tzu não compreende como o sábio pode viver dessa forma, desatento às necessidades da vida. Chuang Tzu repete a afirmação da forma humana do sábio e de sua realidade interior livre das oposições. E repreende Hui Tzu por viver afastado de seu espírito, sem considerar o privilégio de haver nascido homem e dedicando-se a debates sobre distinções sutis. Note-se que a própria pergunta de Hui Tzu sobre como alguém pode ser homem e não possuir a natureza humana é, ela mesma, uma questão acerca de distinções.
O sábio é também figura central na filosofia greco-romana antiga, como o filósofo francês Pierre Hadot sublinha em seu clássico Quest-ce que la Philosophie Antique?. Segundo Hadot, a filosofia na Antiguidade era encarada precipuamente como um modo de vida, uma opção existencial que se manifestava em discursos teóricos e em exercícios espirituais. Ocorre que seu motor primeiro era o desejo de encontrar a sabedoria. Por essa razão, a figura do sábio tomava a forma de uma norma transcendente que determina o modo de vida filosófico.
Isso não significa que o próprio filósofo se considerava um sábio, mas que a filosofia era um modo de vida conducente à sabedoria, ao menos como aspiração. A despeito das diferenças entre as diversas escolas filosóficas (platônicos, aristotélicos, cínicos, estóicos, epicuristas, céticos), alguns traços comuns seriam identificáveis. O sábio seria dotado de saber perfeito, obviamente, mas isso não corresponderia a um simples acúmulo de conhecimentos e sim a um modo de vida que realiza aquilo que de mais alto há no homem.
O sábio é sempre idêntico a si mesmo, isto é, permanece o mesmo a despeito das circunstâncias. Ele encontra em si mesmo a sua felicidade e, por isso, é autárquico, independente. Sabe que são os juízos sobre a realidade que conduzem os homens ao sofrimento e que, controlando esses juízos, ele assegura sua perfeita liberdade interior, baseada na identificação com uma instância transcendente e supra-individual (Natureza, Razão ou Deus). Surge nesse ponto uma questão que é semelhante à indagação posta por Hui Tzu a Chuang Tzu: "na realidade, o sábio não se confunde com o divino?".
Indubitavelmente, o divino (deuses e/ou Deus) é o modelo da sabedoria para os filósofos antigos, afirma Hadot. Aproximar-se da serenidade, da imperturbabilidade e da felicidade do divino é tornar-se sábio. Mas, ao mesmo tempo, é tornar-se mais humano, verdadeiramente humano. A vida do espírito é uma identificação do homem com aquilo que é mais divino nele mesmo. O ponto central das éticas antigas e tradicionais é que o homem é mais homem quanto mais ele imita o divino, ou seja, quanto mais unifica suas ações segundo a natureza imóvel do divino e não segundo a variabilidade das preferências humanas.
Entretanto, Hadot ressalta, o sábio é considerado pela filosofia antiga como algo raro ou inexistente. O único consenso entre as diversas escolas filosóficas parece ser a figura de Sócrates. Cada escola reconhecia outros sábios, notadamente seus fundadores ou figuras proeminentes como Cato, o jovem, entre alguns estóicos, ou Plotino, entre seus discípulos. Para os filósofos gregos e romanos, o sábio é menos uma pessoa concreta e mais um modelo que define os traços de um comportamento ideal a ser imitado como um modo de vida.
O Tao é incondicionado, equânime e autárquico. O sábio descrito por Chuang Tzu possui as mesmas características, ainda que permanecendo um homem como todos os outros homens. Possui tudo, pois vive a partir do Princípio último das dez mil coisas. Não necessita de nada e nem teme perder nada.
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Chuang Tzu, Confúcio e a retidão do Tao:
Chuang Tzu e a inutilidade do sábio:
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Chuang Tzu, Confúcio e a equanimidade absoluta do sábio:
http://oleniski.blogspot.com/2020/06/chuang-tzu-confucio-e-equanimidade.html
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Chuang Tzu, Confúcio e a retidão do Tao
TAO TE CHING, 38
"O sábio ultrapassou todas as distinções inerentes aos pontos de vista exteriores. No ponto central onde ele se encontra, toda oposição desapareceu e se dissolveu em um perfeito equilíbrio."
RENÉ GUÉNON, Aperçus sur l"ésoterisme islamique et le Taoïsme, p.118 (tradução minha)
O relato de Chuang Tzu, um dos três sábios fundadores do Taoísmo, repete o tema do homem cujo pé foi cortado como punição por uma transgressão. Simbolicamente, Shu-shan representa o homem que falhou no cumprimento das normas exteriores e comuns pelas quais todos são julgados na sociedade. Ele carrega publicamente a marca de seu desajuste e de seu crime, e é desprezado e vilipendiado por todos.
Shu-shan visita Confúcio e é repreendido pelo mestre justamente por sua inadequação às normas. Do que adiantaria agora, quando ele já havia se tornado um réprobo, procurar Confúcio? Ele deveria ter feito isso antes, a fim de que não desrespeitasse as normas e não fosse castigado como consequência de seu descuido. Shu-shan responde que, de fato, não compreendera seu dever e fora descuidado a ponto de receber a mutilação como castigo. No entanto, havia mais valor nele do que essa falha e Confúcio deveria ser como o Céu e a Terra, tudo acolhendo. Um mestre que não é capaz de perceber isso não pode ser realmente um mestre.
Em outros termos, Confúcio só enxergou Shu-shan no nível do cumprimento exterior da norma e o rejeitou. Seu horizonte é limitado, e só entende sua própria função como mestre a partir da manutenção da norma exterior. Mas a resposta de Shu-shan faz Confúcio perceber que errara ao tratar o homem daquela forma e, desculpando-se, ele o convida a ser seu discípulo. Ocorre que Shu-shan percebeu algo fundamental em Confúcio e não tem mais interesse no mestre.
Confúcio, então, retorna aos discípulos e diz a eles que aquele homem, mesmo tendo errado, buscava endireitar o seu caminho. Mais ainda deveriam ser atentos aqueles cuja retidão é irrepreensível. Novamente, Confúcio entende o episódio em termos da manutenção da norma exterior, do dever e da reputação que a obediência angaria diante dos homens. "Atenção à conduta!", é o que diz o mestre a seus aprendizes. A irrepreensibilidade é o valor a ser cultivado e preservado.
Sendo Chuang-tzu um mestre taoísta, o problema suscitado no episódio com Confúcio receberá sua resposta no diálogo posterior de Shu-shan com o grande mestre taoísta Lao-Tzu, autor do Tao Te Ching.*. Shu-shan considera que Confúcio não alcançara o estado do homem perfeito, pois seu horizonte era ainda o da fama e da reputação, exterioridades que não são mais do que grilhões para o homem realmente perfeito. Lao-Tzu indaga Shu-shan se não seria o caso de libertar Confúcio desses grilhões mostrando a ele que a vida e a morte, o aceitável e o inaceitável são uma mesma e só realidade.
O mestre ancião fala aqui da sabedoria que ultrapassa todas as oposições porque se instala no eixo do Tao (道), e não de uma equivalência superficial e vulgar entre retidão e engano, virtude e vício. O supremo Tao é retidão justamente porque não é reto como retos são os homens, de forma participativa e limitada. O Tao é retidão justamente porque não é reto como os homens são retos, mas como a fonte última e ilimitada de toda a retidão.
As normas exteriores enraízam-se em preferências e oposições, mas o sábio habita no centro absolutamente equânime das dez mil coisas. O sábio ultrapassa as exterioridades das normas porque ultrapassou as preferências e os apegos dos homens comuns. Confúcio ainda não compreendeu o Tao e, por isso, seus julgamentos permanecem no reino das oposições. Shu-shan considera não ser possível libertá-lo de suas amarras, pois ele recebeu um castigo do Céu.
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terça-feira, 9 de junho de 2020
Chuang Tzu, Confúcio e a equanimidade absoluta do sábio
道常無名
"O Tao constante é inominável."
TAO TE CHING, 32
"Transcender o nascimento e a morte é entrar no ilimitado, é ser um com a origem do Céu e da Terra."
Confúcio responde que Wang T'ai era um sábio e que, se ele mesmo fosse ter com Wang T'ai, tornar-se-ia seu discípulo, bem como todo o distrito de Lu e, no futuro, todo o mundo. Ch'ang Chi responde que se ele, mesmo havendo perdido seu pé como castigo por uma infração, era superior até a Confúcio, o que dirá o homem comum? E, em seguida, pergunta a Confúcio como aquele sábio, Wang T'ai, usava sua mente.
Confúcio responde que a vida e a morte são preocupações sérias, mas para o o sábio não representam motivo de mudança. Mesmo se o Céu (天) e a Terra (地) fossem abalados e caíssem, isso não seria para o sábio algo perturbador, pois ele tem os olhos voltados àquilo que não tem falsidade e não muda como as coisas. As transformações do mundo, ele bem o sabe, são inevitáveis, e o sábio mantém-se firme na fonte.
Ch'ang Chi pergunta o que Confúcio quer dizer com aquele discurso e o mestre assevera que se alguém enxerga as coisas em termos de suas diferenças, há fígado e há vesícula, há as terras de Ch'u e há as terras de Yueh, mas se alguém enxerga tudo em termos de igualdade, então todas as dez mil coisas são uma só realidade. Um homem assim não conhece aquilo que os olhos ou os ouvidos devem aprovar ou não, e seu espírito (心) se move em harmonia com a retidão (德). Como o sábio enxerga as coisas em unidade, não considera sequer a falta de um pé uma perda.
Ch'ang Chi insiste e pergunta por qual razão as coisas reúnem ao redor de Wang T'ai. Confúcio responde que os homens não espelham a eles mesmos em água corrente, mas tão somente em água serena e quieta. Somente a quietude pode aquietar a quietude das coisas. Entre as coisas que recebem a vida da Terra, somente o pinheiro e o cipreste são os melhores, pois mantém-se verdes seja verão ou inverno. E entre as coisas que recebem sua vida do Céu, somente os imperadores Yao e Shun são os melhores, pois mantiveram-se acima das dez mil coisas. Ordenaram suas próprias vidas e, por isso, ordenaram as outras coisas.
Preservar as sutilezas da origem é um ato de bravura. Um bravo guerreiro, em busca de fama e de glória, pode atacar sozinho exércitos poderosos, disse Confúcio a Ch'ang Chi. Se isso é verdade para alguém guiado somente pela ambição, o que dizer daquele cujo reino é o Céu e a Terra e que possui as dez mil coisas, cujos olhos e ouvidos são janelas vazias e seu corpo um mero alojamento, e para quem tudo é unidade e cujo espírito é imortal? Tal homem escolhe um dia e ascende ao Céu. Os homens o seguem, mas como ele poderia importar-se com as coisas?
A história relatada no livro de Chuang Tzu ilustra a figura do sábio taoísta, aquele que vive na absoluta equanimidade do Tao (道). Enxergar todas as coisas a partir de sua comunidade fundamental, ou seja, a partir de sua fonte última para além de todas as diferenças é ser absolutamente equânime, pois, desse modo, nada resta para ser classificado como agradável ou desagradável, bom ou mau, segundo as avaliações e preferências do ego.
Lieh Tzu, outro dos três sábios fundadores do Taoísmo, ensina que o sábio transcende o nascimento e a morte, isto é, os opostos e todas as diferenças entre os entes, e habita em Wu-Chi (無極), o "sem pólo" ou o "sem extremidade", traduzido também como "infinito". É a realidade imanifestada que transcende a toda a dualidade manifestada ou possível, inclusive a polaridade primordial entre o Céu e a Terra. O sábio enxerga a realidade para além do pensamento discriminativo do homem comum.
O filósofo francês Louis Lavelle, em sua obra La Présence Totale, afirma que é somente quando os entes deixam de ser objeto de apego que eles manifestam ao homem seu valor real. Se um ente qualquer, por mais humilde que ele seja, torna-se para nós um meio de fruir da presença absoluta do Ser, então ele nos apresenta a realidade do Todo. Ao contrário, se encaramos os entes somente do ponto de vista da posse, nada jamais satisfará os nossos desejos, pois os entes são cambiantes. Segundo Lavelle, paradoxalmente, "é a indiferença a todo objeto que dá a cada objeto seu valor absoluto" (p. 45, tradução minha).
Wang T'ai não ensina ou discute, mas possui tantos discípulos quanto Confúcio. O sábio age sem agir, "wu wei" (無為), por sua mera presença, como a força interior de um guerreiro faz o adversário desistir da luta antes mesmo que qualquer golpe seja desferido. A ação do sábio está em harmonia com o Tao e não se origina dos desejos e das preferências do ego, o qual alterna entre a aprovação e a desaprovação das coisas.
Chuang Tzu, em outra passagem, ensina que insistir nos opostos, na aprovação e na desaprovação, é como viajar a Yüeh quando já se chegou a Yüeh. O sábio abraça tudo, os outros homens dividem as coisas e usam um ente para revelar o outro. Aqueles que dividem as coisas não enxergam. O ego obscurece a natureza das coisas com suas preferências e a equanimidade do sábio deixa que as coisas sejam o que são, sem interferência ou divisões.
Os homens seguem Wang T'ai porque a quietude da mente do mestre aquieta a mente dos discípulos. Novamente, a ação do sábio é não-ação. Na tradição Zen budista japonesa, a transmissão do mestre ao discípulo acontece de "mente a mente" (以心伝心), isto é, trata-se de um ensino não-verbal, mas não menos real. O homem sábio e virtuoso inspira a muitos por seu exemplo, mesmo que jamais profira uma só palavra. Os imperadores Yao e Shun ordenaram os seus reinos porque ordenaram a si mesmos.
Unido à fonte última e inominável, Wang T'ai compreende plenamente as transformações pelas quais passam todos os entes. A falta de um pé não afeta o sábio, pois, na realidade, nada pode faltar àquele cujo espírito se encontra no nascedouro onde todas as coisas tomam sua origem. Tudo pertence a ele justamente porque não discrimina nada. Chuang Tzu diz que um homem assim já não vive como os homens, pode ascender ao Céu no momento em que desejar.
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quarta-feira, 20 de maio de 2020
Chuang Tzu e a inutilidade do sábio
"A 'não-ação' não é, de forma alguma, a inércia, mas, ao contrário, a plenitude da ação da atividade, embora seja uma atividade transcendente e completamente interior, imanifestada, em união com o Princípio, para além de todas as distinções e de todas as aparências que o vulgo toma erroneamente como a própria realidade, enquanto que não são mais que o seu reflexo mais ou menos distante."
RENÉ GUÉNON, Aperçus sur l'Ésotérisme Islamique et le Taoïsme, p.114 (tradução minha direto do francês)
O carpinteiro respondeu que a madeira daquele carvalho era inútil e que os barcos feitos com ela afundariam, os caixões apodreceriam rapidamente, as ferramentas estragariam e os pilares encheriam de cupim. A árvore era totalmente inútil, afirmava o carpinteiro. À noite, contudo, o carvalho do santuário apareceu em sonho ao carpinteiro e perguntou-lhe a quais árvores ele o comparava. As árvores belas e úteis são logo colhidas, cortadas, desmembradas, destruídas e utilizadas para os mais diversos fins.
O carvalho disse haver praticado a inutilidade até alcançar a perfeição naqueles tempos, pouco antes de sua morte. Se não houvesse feito isso, não teria durado tanto. E quem era o carpinteiro, afinal, para criticar o carvalho do santuário? O homem acordou de seu sonho e seu aprendiz perguntou-lhe por qual razão a grande árvore estava no santuário, dado que queria ser inútil. O carpinteiro respondeu que ela estava ali para continuar inútil, pois se estivesse em qualquer outro lugar, seria imediatamente cortada e utilizada pra os fins dos homens.
Como o historiador das religiões romeno Mircea Eliade mostrou em inúmeros de seus livros, a árvore é símbolo tradicional do "eixo do mundo", Axis Mundi. Isto é, o eixo vertical que liga e sustenta os diversos níveis horizontais da realidade. Por isso, a árvore está geralmente situada em um jardim ou terreno sagrado. O carvalho da história Chuang Tzu está em um santuário, local sagrado para onde todos convergem a fim de contemplar a grandeza da árvore. As suas dimensões magníficas representam simbolicamente a abundância da Realidade sem medida.
O carpinteiro e seu aprendiz caminhavam em uma via (Tao, 道) e, diante da árvore, têm reações distintas. O aprendiz, inexperiente e com a mente livre de conhecimentos, encanta-se com as possibilidades infinitas contidas na madeira do carvalho do santuário. Nas artes marciais japonesas, o iniciante é chamado de shoshinsha (初心者), algo como "pessoa que está iniciando". Quem inicia tem a mente ou o espírito (心) aberto e sem resistências, pois não sabe nada ou quase nada sobre a Via. É por isso que o aprendiz só enxerga riquezas e potencialidades indefinidas no carvalho.
O carpinteiro, por seu turno, é experiente e saturado de conhecimento. Ele conhece bem as possibilidades que os diversos tipos de madeiras oferecem e olha para a árvore do santuário com desdém. Ela não serve para nada, sua madeira é ruim, e tudo o que for produzido a partir dela será insatisfatório. Em suma, a árvore do santuário é inútil para os propósitos da carpintaria.
Ocorre que ambos, o aprendiz e o carpinteiro, não conhecem outra utilidade para a madeira que a carpintaria. O aprendiz enxerga inúmeras possibilidades porque não sabe nada ou quase nada de carpintaria e o carpinteiro enxerga só inutilidade porque sabe bem o que a madeira pode oferecer. Um tem a mente vazia e ignorante e o outro tem a mente cheia com conhecimentos. Mas tudo o que vêm é utilidade, possuem uma mentalidade utilitária e dual.
O aprendiz só enxerga o que pode ser feito da árvore e o carpinteiro só enxerga o que não pode ser feito da árvore. Nenhum dos dois enxerga a árvore enquanto ela mesma. Seus interesses obnubilam a visão do que realmente é aquela árvore. Em outra história atribuída a Chuang Tzu, é dito que quando as preferências aparecem, a Via (Tao) é manchada.
O carpinteiro e o aprendiz representam os pólos da negação e da afirmação, respectivamente. Todavia, há um plano mais alto que transcende e funda essas oposições. O sonho do carpinteiro com a árvore do santuário revela essa dimensão fundamental. O carvalho repreende o carpinteiro por seu julgamento baseado na utilidade prática, na preferência fundada na perspectiva dos desejos e anseios humanos.
A árvore praticara durante toda a sua vida a inutilidade e agora, ao final de sua existência, alcançara a perfeição. Se o carvalho não fosse inútil, teria sido vítima dos interesses práticos dos homens. O que é visto sob o prisma somente do uso e das preferências humanas é destruído, não chega a seu termo natural. Sendo inútil, a árvore realizou sua natureza verdadeira. O santuário era o único lugar próprio para ser inútil, pois o sagrado não se encontra na esfera das preferências e dos juízos humanos. No "eixo do mundo" não há preferências ou inclinações, mas a perfeita equanimidade e não-ação.
A árvore do santuário simboliza também o sábio que segue diligentemente o Tao. A ação do Tao (道) é "wu wei" (無為), "não-ação". Sua presença basta para tornar as dez mil coisas o que elas são. O sábio não age por interesse próprio, por isso ele age realmente. A sua ação nasce do Tao, ontologicamente anterior à divisão do Céu (天) e da Terra (地), a dualidade primordial. Aos olhos dos outros homens, imersos no pensamento discriminativo das preferências, o sábio é inútil como a árvore do santuário.
Equânime, o sábio enxerga todas as coisas a partir do "eixo do Tao", ponto onde cessam as oposições e as preferências. Ele deixa as coisas serem como elas são, não intervém nos fenômenos com pensamentos de utilidade ou de preferência. Se a presença dos entes é ocasião somente de desejo de posse ou de uso, nada satisfará o homem, pois os entes são fugidios, sucedendo-se uns aos outros incessantemente. Ver todas as coisas a partir de sua comunidade mais fundamental é ver as coisas em absoluta equanimidade.
A não-ação do sábio, entretanto, não significa inação. Como ensinou o pensador Zen japonês Kitaro Nishida, em seu Ensaio sobre o Bem, que "é apenas quando alcançamos a única atividade do céu e da terra extinguindo o sujeito e o objeto e esquecendo o eu e as coisas que podemos chegar ao ponto supremo da ação boa."
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