Mostrando postagens com marcador História Militar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História Militar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Ernst Jünger, o fogo e a elite guerreira

"Assim como a força esmaga impiedosamente, também embriaga impiedosamente quem a possui, ou quem acredita possuí-la. Ninguém a possui verdadeiramente."

SIMONE WEIL, L’Iliade ou le Poème de la Force

"Sabemos que incorporamos uma seleção de poderosa masculinidade, e nos orgulhamos disso"

ERNST JÜNGER, A Guerra como Experiência Interior, capítulo IX

Ao redor dos Stoßtruppen, agachados em fila à espera da ordem para o assalto às linhas inimigas, havia silêncio e gravidade. Todas as coisas na trincheira, tão familiares no monótono serviço diário do funcionário da guerra, perdiam seu significado usual nos momentos que antecediam a tempestade de aço. É sabido que certas ocasiões ou acontecimentos têm o condão de suspender por completo o hábito e, assim, descortinar aos olhos do homem um vazio que não pode ser preenchido nem por isto e nem por aquilo. Nesses momentos, não é possível habitar em nada, tudo é desterro.

O homem é desertado. As coisas, em fuga, sequer deixam o rastro de sua presença no passado recente ou remoto. Algo de fundamental sobre a realidade vai ser revelado àquele que flutua nas trevas do Ungrund? Talvez. Porém, não é a primeira vez que o estranhamento do mundo circundante atinge o soldado prestes a se entregar ao serviço de Ares

Tampouco isso é um efeito de um suposto despreparo. Ao contrário, semanas de treino intenso em terreno idêntico ao do inimigo, conhecimento exaustivo de suas táticas e de sua mentalidade e planejamento minucioso criaram um mecanismo tão automático e preciso quanto um relógio. “Bendito seja o Senhor, a minha Rocha, que adestra as minhas mãos para a guerra e os meus dedos para a batalha.”

Os Stoßtruppen eram selecionados, uma aristocracia guerreira. Na noite anterior, copos nas mãos, não sentiram o irrefreável desejo da luta? Sim, ontem. “Somos uma raça que cresce com o momento”, pondera Ernst Jünger. O nume da guerra ainda não os visitara. Por ora, ascendem a inquietação e um sentimento difuso que desafia todas as armas da razão, uma névoa que fora por muito tempo camuflada pelas tarefas da manutenção da trincheira, les divertissements da guerra.

“Somente então percebemos o quão pouco estamos em casa dentro de nós mesmos”. O homem vive alheio a um reino desconhecido que se acha nos recessos de sua alma, e que emerge transmutando tudo em tristeza e desolação. De que adiantam os meses de treinamento e os usuais mantras de confiança e de coragem que os soldados recitam interiormente? Não se trata de medo, contra o qual os soldados têm remédios eficazes. Porém, nada escapa à dissolução mercurial. Solve sed non coagula.

A saída é ocupar o tempo que resta, escapar das profundezas interiores. Sempre teve a alma alemã certa atração pelo abismo, pelo fundo (Grund) indizível e incompreensível, o Mysterium Tremendum da existência. Meister Eckhart, Angelus Silesius, Jakob Boehme, entre outros, não foram os formadores da sensibilidade metafísica dos alemães? Sim, mas agora não é o momento. É preciso preencher o tempo, agir e resgatar do nada as coisas familiares e habitar novamente o mundo.

Achtung! A morte espreita! Os Stoßtruppen a saúdam sorrindo, com ousadia, impiedosa brutalidade, inteligência e ardente coragem, prontos para esmagar o inimigo com a força do punho de ferro de Götz von Berlichingen. São eles os esplêndidos exemplares do novo homem forjado na guerra moderna. Fortes, cheios de vontade, egressos da grande escola do combate, os membros dessa estirpe selecionada destruirão as formas antigas e nutrirão as novas com sangue. A profecia de Jünger é de que a guerra não será o fim, mas apenas o prelúdio da violência.

Sem embargo, a vida engendra suas melhores criações para, logo em seguida, destruí-las no turbilhão selvagem da carnificina. Aqueles homens serão destroçados se uma única metralhadora inimiga se mantiver ativa cuspindo sua rajada infernal. Para quê, afinal? Pois bem, seja a causa insignificante! O valor está no comprometimento individual, na coragem, na forma como lutaram. “Queremos demonstrar o que está em nós. Então, quando cairmos, teremos realmente vivido". O Agon (Ἀγών) é o que engrandece o guerreiro.

A artilharia inicia seu ofício preciso. Ondas seguidas de projéteis leves e pesados caem sobre as linhas inimigas. Fumaça, fogo, gás, poeira e torrões de terra sobem aos céus. Sinalizadores coloridos atravessam o horizonte. Os franceses revidam na mesma moeda. O bombardeio é massivo. O intervalo que vai do assovio que anuncia a sua vinda até a explosão do projétil no solo evoca no soldado as imagens de todo o sangue e choro que já presenciou em outros ataques. 

O redemoinho de fogo envolve tudo. O fraco desaba porque viu desaparecer o medo, seu último recurso. O forte entra na tempestade com o rosto de pedra, um intoxicado triunfador da matéria, que sabe que o mundo pode sucumbir, mas sempre o coração bravo se mantém firme.

...

Leia também: Νεκρομαντεῖον: Ernst Jünger

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Ernst Jünger, a coragem e a natureza do guerreiro


"A guerra é uma febre. Infelizes aqueles que a travam sem ter essa febre."

LOUIS LAVELLE, Carnets de Guerre, 1915-1918 (tradução minha)

"Para o Lansquenete, a vida era as nuvens de tempestade sobre a vastidão da noite, a tensão que paira sobre o abismo." 

ERNST JÜNGER, A Guerra como Experiência Interior (tradução minha)

Ernst Jünger faz um impressionante e belo elogio da coragem no sexto capítulo de Der Kampf als inneres Erlebnis (A Guerra como Experiência Interior). O que pode haver de mais sagrado que o guerreiro?, pergunta o soldado filósofo. A coragem é o veículo das grandes realizações, a vitória do espírito sobre matéria, o juízo de Deus sobre duas ideias, o comprometimento derradeiro com aquilo que se acredita, o testemunho da consciência de que o homem tem valores eternos e indestrutíveis.

Jünger, que assumidamente escreve como guerreiro, considera que se causa santifica a luta, mais ainda a luta santifica a causa, parafraseando a famosa passagem do Zarathustra:

"Que vossa paz seja a vitória! Dizeis que a boa causa santifica até a guerra? Eu vos digo, porém, que a boa luta santifica qualquer causa. A luta e a coragem realizaram maiores feitos que o amor ao próximo. Não foi a vossa compaixão, mas a vossa coragem que até agora salvou os infelizes". *

O herói e a coragem são venerados em toda parte onde o espírito não é degradado e baixo, e comandam a admiração até mesmo quando se manifestam no inimigo. Por esse motivo, são justamente os soldados que apertam as mãos daqueles sobre os quais até há pouco despejavam a sua fúria homicida e que plantam cruzes nas sepulturas de seus adversários. O reconhecimento do valor os une numa comunidade que reconhece a Pietas a despeito da diferença dos deuses cultuados. A figura do infiel justo, fenômeno presente em várias religiões, é o que permite ao cristão admirar a Eusébia (Εὐσέβεια) de Sócrates para com seus deuses sem que estes deixem de ser rivais a serem combatidos.**

O religioso entende e admira a devoção, o compromisso e o sentimento da sacralidade presentes em outros homens não obstante as diferenças e incompatibilidades teológicas que os separam. Analogamente, a luta revela uma causa communis que reúne os inimigos dotados de excelência marcial. Todos, sabendo ou não, oferecem um sacrifício cruento nas aras de Marte. Existe neles uma força que clama por ser exercitada, uma potência que almeja a perfeição do ato, que só é dignificada no Agon (Ἀγών), no esforço da disputa e do combate com o grande adversário. Heitor quer medir-se com Aquiles. Morrer em combate singular com o maior dos aqueus é glorioso.

O reconhecimento mútuo entre os cultores dessa forma de vida (Lebensform) gera o respeito e o cavalheirismo (Ritterlichkeit) tantas vezes manifestados para com os seus pares nas linhas inimigas. Poucos, e, por isso, nobres, são os adeptos desse métier que só admite os melhores e os mais bravos, uma aristocracia que honra os fins e não os meios, e cuja comunicação é a linguagem do poder (Sprache der Macht).

Pólemos (Πόλεμος) não é somente uma força destrutiva. A guerra quebra as formas solidificadas que obstaculizavam o fluxo das novas energias. Os combatentes estão unidos nessa atividade criadora não importa quais sejam os resultados do conflito. A coragem, estar à altura de qualquer Fado, é das coisas mais belas e motivo de orgulho mesmo que nada de valor pareça ter sido conquistado. Jünger se dirige aqui aos seus camaradas de armas, alemães especialmente, que sofreram quatro anos de agruras indescritíveis nas trincheiras da Primeira Guerra e que retomaram a uma pátria derrotada e humilhada com o sentimento amargo do esforço em vão.

O combate é a oportunidade da revelação e do exercício de potencialidades e de energias residentes no homem que permaneceriam inertes não fossem convocadas pelo clangor da batalha. Se não a guerra, qual evento teria o condão de exibir alturas tão majestosas de coragem e de virilidade? No momento crucial do ataque às posições inimigas, o homem experimenta a seriedade completa, seu ser integral engajado no único objetivo que não admite falhas.

Somente o valor imortal e eterno explica que alguém consciente avance na direção da morte. A guerra assume seu aspecto espiritual de desvelamento da natureza humana. É a ocasião na qual exercitam-se potências que vão moldar em parte os tempos vindouros. A grandeza do herói revelada na luta eleva os outros homens, como Thomas Carlyle escreveu acerca do culto dos heróis:

"Ah, não sente todo homem verdadeiro que ele próprio se eleva ao prestar reverência àquilo que está realmente acima dele? Nenhum sentimento mais nobre ou mais abençoado habita o coração do homem." ***

Jünger inicia o capítulo seguinte, Landsknechte, com uma reafirmação do caráter aristocrático de seu pensamento: 

"Envelhecemos, e ficamos complacentes como os velhos. Tornou-se crime ser ou ter mais do que os outros. Hoje, desacostumados aos intoxicantes fortes, o poder e os homens se tornaram uma abominação para nós. As massas e a igualdade são nossos novos deuses. Se as massas não podem ser como os poucos, então que os poucos se tornem como as massas."****

A cultura moderna burguesa, liberal, igualitária e democrática, dominada pelas massas informes cujos desejos, valores e interesses ditam os rumos da civilização pela força da maioria, é a antítese do ideal dos aristoi (ἄριστοι), "os melhores", e, por isso, condena qualquer excelência (ἀρετή) como expressão de uma injustiça que deve ser eliminada em nome do nivelamento universal. "É preciso livrar-se do mau gosto de querer estar de acordo com muitos", dizia Nietzsche no Além do Bem e do Mal.

A Natureza, contudo, não é democrática e não distribui os seus dons de forma igualitária. Há certos seres cuja perfeição (Vollendung) é o combate. São semelhantes aos predadores, espécimes admiráveis e belos quando observados em seu habitat, na crua expressão de suas tendências naturais, a despeito de todo o sofrimento que causam às suas infelizes vítimas. Não é preferível o animal que destroça sua presa inocentemente do que a matança realizada sob o verniz superficial da cultura

Jünger observa tais manifestações da vida com o olhar desapaixonado e sem juízos morais do entomologista. A violência é tão natural para os conquistadores da estirpe de Tamerlão quanto o é para o tigre que ataca a sua presa na selva. Ouvem-se aqui os ecos da besta loura (Die blonde Bestie) descrita por Nietzsche na Genealogia da Moral. A constituição saudável do forte, e, portanto, do nobre, diferente do ressentido e seu remorsonão rumina internamente as suas ações, mesmo as mais cruéis, e nem as ofensas que recebe. Ao contrário, tem profundo prazer na destruição e na sensualidade da vitória.

Sob outra perspectiva, não explorada por Jünger no texto, o horror e o fascínio que a visão do predador desperta no homem remetem ao Mysterium Tremendum do sagrado, tema central do pensamento do teólogo e filósofo alemão Rudolf Otto. Ademais, para além da Natureza, no âmbito metafísico da religião, a incompreensibilidade divina se manifesta na aparente contradição do Criador que traz à existência a pacífica ovelha e o tigre violento. O sentimento de perplexidade (e de exultação?) diante desse fato foi bem expresso nos famosos versos de William Blake:

"Tyger Tyger, burning bright/ In the forests of the night;/ What immortal hand or eye, /Could frame thy fearful symmetry?" (...) "When the stars threw down their spears/And water'd heaven with their tears:/ Did he smile his work to see?/Did he who made the Lamb make thee?"

Os Lansquenetes (Landsknechte), mercenários alemães a serviço do Sacro Império Romano-Germânico entre os séculos XV e XVI, são um exemplo da presentificação histórica do tipo do homem que tem na guerra seu habitat natural, segundo Jünger. A um só tempo mercenário (Söldner) e voluntário (Freiwilligen), os dois únicos tipos de soldados, o Lansquenete se distingue tanto da massa de "filisteus armados", elemento predominante no exército burguês e democrático, quanto do combatente que harmoniza suas ações exteriores de acordo com a consciência interior do certo e do errado. 

Nascido para a luta, o Lansquenete não representa o ideal heroico de sua época, não se preocupa com nada que não seja a guerra pela guerra. Simples e direto na fala, propenso ao abuso do álcool, veículo de forças cegas e primitivas, ele é intoxicado pelo sentimento de força (Gefühl der Kraft) quando chega a hora do combate. Quando todos os outros soldados dormem nas trincheiras, o predador insone se esgueira pela terra de ninguém para caçar o inimigo oculto nas fundas crateras moldadas pela artilharia pesada. 

É a aventura ou o horror que move esse licantropo? O homem-animal que Jünger descreve lembra a figura do berserkir, o temível guerreiro nórdico que lutava tomado pelo transe da fúria, envolto em pele de lobo ou de urso. O descontrole aponta para algo transcendente. A mania (μανία) e a desmedida (ὕβρις) não eram manifestações do toque dos deuses? A força superior ao recipiente no qual foi contida tende a transbordar. O filho de um numen não está circunscrito aos limites comuns aos homens. Aquiles espalha terror e fascínio enquanto chacina os troianos no escandalizado rio Escamandro.

Jünger relata que no meio de uma coluna de soldados que marchava lenta e silente na direção do brilho sinistro do front, um guerreiro se distinguia de todos porque trazia dois chifres de touro presos na frente de seu stahlhelm. A força quer externalizar a sua presença mesmo fora do combate. Os cornos do animal simbolizam o excesso de poder do qual é portador. Semelhante a um Æsir, ele avança sereno para o Ragnarök.

O autor alemão observa que é justamente a vida mais vigorosa que se sacrifica mais voluntariamente. É a liberalidade de quem possui tanta riqueza que pode distribuir sem medo os seus dons. A mesquinharia não surge se uma fonte inesgotável o habita. O Lansquenete busca sua realização final na batalha. Jünger confessa que seu caminho é diferente. Para alguns, ele diz, a vida é a aurora, para outros é o meio-dia ou o crepúsculo. A vida do Lansquenete é como as nuvens tempestuosas espalhadas sobre o vasto manto da noite.

* "Euer Friede sei ein Sieg! Ihr sagt, die gute Sache sei es, die sogar den Krieg heilige? Ich sage euch: der gute Krieg ist es, der jede Sache heiligt. Der Krieg und der Mut haben mehr große Dinge getan, als die Nächstenliebe. Nicht euer Mitleiden, sondern eure Tapferkeit rettete bisher die Verunglückten." (Also Sprache Zarathustra, Friedrich Nietzsche)

** A Pietas e a Eusébia eram o sentimento de reverência devida aos deuses entre os romanos e os gregos, respectivamente.

*** "Ah, does not every true man feel that he is himself made higher by doing reverence to what is really above him? No nobler or more blessed feeling dwells in man’s heart." (On Heroes, Hero-Worship, and the Heroic in History, 1841)

**** Alt sind wir geworden und bequem wie die Greise. Verbrechen wurde es, mehr zu sein oder zu haben als die andern. Den starken Räuschen entwöhnt, sind Macht und Männer uns zum Greuel geworden, Masse und Gleichheit heißen unsere neuen Götter. Kann die Masse nicht werden wie die Wenigen, so sollen die Wenigen doch werden wie die Masse.

...

Leia também: Νεκρομαντεῖον: Ernst Jünger

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ernst Jünger, Eros, a guerra e a paz

"Cry 'Havoc!', and let slip the dogs of war!"

Julius Caesar (Ato 3, Cena 1), de WILLIAM SHAKESPEARE

A guerra sufocara toda finesse, tato, sofisticação, beleza e cultura que tão laboriosamente a civilização havia construído e incutido em seus membros. O horror das trincheiras moldara até mesmo a relação entre os sexos. Na iminência da morte, observa Ernst Jünger no capítulo intitulado Eros, o homem experimenta uma explosão de urgente sensualidade, como se tudo o que a vida tem a oferecer devesse ser sorvido num único gole de máximo prazer sexual, sem tempo para os caminhos usuais da cortesia e da decência, rodeios e etapas protelatórias do rito civilizado da conquista amorosa.

O selvagem Carpe Diem! da luxúria hiperbólica se manifesta sempre que a existência está ameaçada pela guerra, pelas revoluções e pelas pragas. Essa necessidade de expressão intensa da vida combinada com a ânsia de esquecer o perigo iminente da morte fazem com que o soldado, nos lupanares da retaguarda, experimente no torvelinho do êxtase erótico uma união quase mística com o eterno círculo da vida que o ultrapassa infinitamente, de tal modo que a morte lhe parece pequena e desprezível. O sexo contrastado com o pano de fundo da guerra e a consciência do fim próximo franqueiam o acesso à experiência da afirmação absoluta da vida. 

Amor omnia vincit quia mors omnia solvit. A respeitabilidade, a reputação e a saúde nada significavam para os que sabiam que em breve estariam mortos. Aos homens embrutecidos, acostumados a avançar na terra de ninguém sob o fogo cerrado das metralhadoras e a chuva incessante da artilharia inimiga, nenhuma restrição poderia se interpor entre eles e o prazer imediato. Encarnações do espírito mecanizado da guerra moderna, tomam as donzelas da luz vermelha sem conversa, cerimônia ou sentimento. Gimme the prize!

Os tempos são avessos à delicadeza e à ternura. Todavia, fora do distrito vermelho, no segredo de um quarto da cidade arruinada, dois jovens, um estudante e uma camponesa, experimentam a doçura e a pureza da união das almas para além das fronteiras do idioma e da identidade nacional, alheios à brutalidade da guerra pela duração da noite mágica. "Darão um ao outro cem nomes novos, e tornarão a tirá-los todos, um do outro, de leve, como se tira um brinco de uma orelha."* Na manhã seguinte, o estudante, conduzido pela mão fria do dever, encara confiante a horrenda face metálica do combate. Redimido pela noite anterior, "o perfume dos beijos ainda em seu cabelo", receberá a morte como a um amigo. 

No capítulo seguinte, Pazifismus, Jünger sentencia que a guerra é "o mais poderoso encontro entre as nações". Nenhuma outra relação entre elas (comércio, negociações, competições) tem o poder de unificar e engajar inteiramente seus membros sob um único objetivo, a saber, matar o inimigo. Porém, considerada em si mesma, a guerra não é um aspecto eliminável da realidade. É uma lei inescapável, mediante a qual toda liberdade, grandeza e cultura são preservadas, expandidas ou perdidas.

"A guerra, tanto quanto o impulso sexual, não é uma instituição humana, mas uma lei natural. Destarte, jamais lograremos nos libertar de seu jugo. Cumpre não negá-la, ou seremos devorados."**

Jünger observa que a sua época (e a nossa) manifesta forte tendência pacifista, e diagnostica a sua fonte em duas atitudes muito distintas. Há o pacifista cujo idealismo é respeitável na sua corajosa disposição de ser martirizado por amar mais as pessoas do que a naçãoDefende a paz por ideais que pairam acima da sua própria segurança ou conforto. Soldado da ideia, seu espírito é o de preservação. 

O outro tipo de pacifista é o fraco, que considera sagrada a sua própria pessoa, é avesso ao sangue, foge da luta e esconde sua covardia sob as vestes de respeitáveis virtudes. A sua predominância numa sociedade é sinal inequívoco de derrocada próxima. No diagnóstico do fraco, Jünger parece antecipar temas que serão desenvolvidos em seu ensaio Sobre a Dor (Über den Schmerz), de 1934, no qual a disciplina é concebida como a capacidade de tornar o corpo um "posto avançado" a ser usado, e até sacrificado, pelo comando central em nome de um objetivo maior.

Em contraste com a sensibilidade moderna e burguesa, que tem no corpo a sua centralidade, e que deseja escapar da dor a todo custo, a disciplina do asceta e do herói não afasta a dor, mas a inclui e a domina com o fim de, por meio do endurecimento, alcançar tal maestria sobre a vida que ela esteja preparada para servir a um valor de ordem superior. O pacifismo do fraco recusa a guerra por medo da dor, e, ao contrário do idealista, é incapaz de sacrificar seu "posto avançado" em nome de qualquer valor que transcenda sua segurança e seu bem estar imediatos.

Visto que o conflito é uma realidade ineliminável, o pacifismo do fraco é tanto um sintoma da incapacidade do homem moderno de se comprometer com ideais superiores quanto um suicídio voluntário, pois a negação da guerra em nome apenas da segurança corporal é incapaz de opor resistência às ameaças externas. A vida devora a si mesma, e viver é matar.***

Nenhuma cultura, por mais elevada que seja, pode se furtar ao dever sagrado de possuir o melhor exército. Se a cultura perde sua vontade de preservação e de crescimento, isto é, sua vontade de luta (Willen zum Kampf), o centro magnético ordenador de sua vida, ela será destruída pelo ataque das forças adversárias exteriores que pressentem a fraqueza, e que agem de acordo com o impulso destrutivo arraigado na natureza humana. 

A História confirma sobejamente essa verdade, e Jünger ilustra sua tese com dois exemplos de sua experiência direta do vício da destruição (Die Sucht zu zerstören) que habita o seio humano. No primeiro, em frente às vitrines das lojas de uma rua de Bruxelas, repletas de prosperidade, beleza e sofisticação, dois soldados experientes jogam conversa fora sobre como ali a guerra parecia uma realidade distante. Ato contínuo, com satisfação indisfarçável, comentam sobre a possibilidade de uma granada de artilharia cair naquele lugar e mandar tudo pelos ares.

No segundo evento, mais insólito e mais revelador que o precedente, após chuvas torrenciais que desmancharam por completo as trincheiras e mergulharam seus defensores num mar de lama e terra, soldados de ambos os lados foram obrigados a sair de seus abrigos desfeitos. Após justificada hesitação inicial, e a despeito de todos os meses de contínua carnificina, alemães e ingleses encontraram-se na outrora terra de ninguém semeada com mortos em decomposição e cumprimentaram-se com apertos de mão.

Semelhantes a Glauco e a Diomedes que, tendo apresentado suas genealogias nobres, trocaram prendas valiosas diante dos muros da sagrada Tróia, tommies e boches presentearam uns aos outros com garrafas de bebida e entabularam alegre conversação como se os últimos anos de combate renhido não tivessem existido. Durante esse episódio de congratulação mútua pareceu justa a esperança de que chegaria a hora em que os dois lados compreenderiam a urgência moral da reconciliação e da paz duradoura. 

Logo, porém, uma divindade com ciúme da felicidade humana faz despejar, do alto de um monte, uma súbita chuva de metralha sobre o campo aberto, matando vários infelizes e obrigando os sobreviventes a voltar rastejando às suas trincheiras diluídas. Quem poderia atirar em gente desprevenida? A pergunta faz sentido para quem está desprotegido sob o fogo cerrado. Ouvindo o sussurro de Marte, o homem que dispara sua metralhadora enxerga somente moscas sendo atingidas e sente o prazer da guerra nua. 

Homens dessa espécie, não importa o quanto estejam saturados do conflito, podem em breve concordar com um armistício ou prometer a si mesmos que nunca mais haveria guerras, mas, ao fim e ao cabo, o impulso bélico permanece neles intocado porque a sua fonte é mais profunda, e pouco ou nada tem a ver com as decisões dos governos ou com a habilidade dos diplomatas. 

Jünger encerra o capítulo concordando com o pacifista quando este afirma que antes de qualquer coisa a humanidade nos une a todos. Mas, precisamente por isso, o combate é inevitável. É uma forma de vida (Lebensform), sempre idêntica, não importando os meios e as ocasiões. 

...

* Rainer Maria Rilke, A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, tradução de Paulo Ronai e Cecília Meireles

** "Der Krieg ist ebensowenig eine menschliche Einrichtung wie der Geschlechtstrieb; er ist ein Naturgesetz, deshalb werden wir uns niemals seinem Banne entwinden. Wir dürfen ihn nicht leugnen, sonst wird er uns verschlingen."

*** "Es ist das Lied vom Leben, das sich selbst verschlingt. Leben heißt töten."

...

Leia também: Νεκρομαντεῖον: Ernst Jünger

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Ernst Jünger e a guerra na trincheira

"Algures, nas crateras da terra de ninguém, uma tropa murmurante, armada até os dentes e pronta para o assalto, talvez estivesse aguardando o momento para lançar-se sobre a trincheira para um massacre repentino, para uma breve orgia de fogo e sangue."

ERNST JÜNGER, "A Guerra como Experiência Interior"

A trincheira, fortaleza e bastião entre mundos, o "Moloch fervente que aos poucos reduziu a escórias a juventude dos corpos.", tema do terceiro capítulo de "A Guerra como Experiência Interior", de Ernst Jünger, mais do que um lugar, era sobretudo um estado de espírito de constante vigilância, um punho cerrado erguido sobre as cabeças dos infelizes tal qual a célebre espada de Dâmocles

Sua presença funesta podia ser divisada na retaguarda, nas casas das cidades ocupadas pelos soldados, antes mesmo que alcançassem aqueles sulcos infernais cavados na terra desfigurada. As janelas tremiam, marteladas pelo impacto da artilharia reverberando pelo espaço distante, a fumaça vermelha se misturava à névoa da manhã, e, de repente, a lava incandescente era cuspida da boca de Marte, ordens despachadas, e, saídas da retaguarda, das cidades e das vilas fumegantes e cheirando a carniça, correntes de capacetes de aço penetravam nas veias das trincheiras, aliviados por abandonarem a sombra de uma vida normal que já não mais existia.

Cobertos pelo manto de aço dos infindos projéteis inimigos que atravessavam o céu noturno como legiões de anjos caídos lançados à terra, os soldados percorriam as trincheiras, os corpos moles dos companheiros atingidos por alguns desses demônios descidos servindo de pranchas para a passagem dos restantes que buscavam seus postos. Uma vez instalados e o ataque cessado, o silêncio, "primeiro mandamento da trincheira" era reverentemente obedecido por todos os membros daquela assembleia reunida em torno do culto da implacável Bellona.

Os seus inquilinos conheciam cada canto, esquina e corredor daquele labirinto atordoante e sinistro que fazia fronteira com o reino da "terra de ninguém", o campo aberto repleto de buracos, depressões e crateras esculpidos pela imponderável matemática da queda das granadas, habitado pelos mortos, antigos e recentes, e pela trama contundente formada pelo arame farpado. Sob o véu da noite, alguns, o próprio Jünger entre eles, silenciosos caçadores armados com facas, pistolas, porretes e granadas de mão, atravessavam o território disputado levando às trincheiras inimigas o pavor da presa surpreendida pelo predador.*

O estado mental comum era o de alerta constante, e a espera pelo combate se arrastava por semanas ou até por meses, atravessando os dias, as estações, as mudanças do clima. Qualquer mínimo ruído, o balanço do arame farpado, um farfalhar na parca folhagem à frente da trincheira, e então as mãos automáticas dos combatentes cobriam a cabeça com o stahlhelm e, firmes, tomavam o cabo do fuzil como o homem do gelo agarrava seu machado de pedra ao menor sinal de perigo. No soldado fora impresso a ferro e fogo o selo primitivo do animal sob perpétua ameaça.

"No passado, a guerra era coroada por dias nos quais morrer era uma alegria, erguendo-se acima dos tempos como monumentos brilhantes de coragem viril." O piloto ainda vivia a ancestral bravura do desafio à morte quando sobrevoava os exércitos inimigos, como fazia a intrépida esquadrilha comandada por Manfred von Richtoffen, o Barão Vermelho, registrada por Jünger em "Tempestades de Aço". A trincheira, porém, tornara a guerra uma profissão e fizera do guerreiro um trabalhador, um diarista da morte. Não havia espaço para a reverência pela própria grandeza, para o senso poético, para a sofisticação ou para a delicadeza nem nos períodos de relativa paz e nem nos abrigos subterrâneos saturados de poeira, gás e fumaça de tabaco.

Murmúrios ou palavrões quebravam aqui e ali o silêncio e o entendimento tácito reinantes. A humanidade emergia brevemente do lodo pesado daquelas mentes oprimidas e entorpecidas quando algum soldado nostálgico recordava em voz alta uma insignificância qualquer de sua terra natal. Então todos, contaminados por um élan invisível, reviviam por um curto espaço de tempo suas próprias lembranças paroquiais para em seguida submergir nos afazeres da monótona administração da guerra.

Cedo ou tarde, as peças de artilharia cuspiam seus petardos, o fogo e a fumaça subiam, e os homens, surpresos e tomados pelo furor, afluíam aos montes para fazer frente aos invasores que atravessavam a terra de ninguém com intentos assassinos. A guerra alcançava o seu clímax quando dois grupos adversários se enfrentavam dentro dos estreitos corredores das trincheiras. Ao breve silêncio do súbito encontro com os olhos dos inimigos logo à frente seguia-se o grito selvagem e primitivo que escancarava de vez os portões do Hades e dava início à indescritível orgia de fúria.

Matar ou ser morto. Nada mais importava. O sangue era o idioma que unificava as hostes de nacionalidades diferentes. A embriaguez da brutalidade durava pouco, e deixava, ao seu fim, pálidas figuras atônitas, incapazes de compreender o que haviam experimentado. Os feridos aos poucos diminuíam suas queixas, os mortos apodreciam até identificarem-se com o solo enrugado e devastado da terra de ninguém, e tudo retornava ao normal.

...

* Os Sturmtruppen, tropas especializadas cujas táticas de infiltração, reconhecimento, mobilidade, combate aproximado e assalto às trincheiras inimigas foram concebidas pelo capitão Willy Rohr em 1915. Em pouco tempo, aliados e adversários do Império Alemão formaram suas próprias tropas de assalto seguindo basicamente os mesmos princípios.

...

Leia também: Νεκρομαντεῖον: Ernst Jünger

sexta-feira, 20 de março de 2026

Ernst Jünger, a guerra, o sangue e o horror

"Foi a guerra que fez dos homens e dos tempos isso que eles são. O combate, pai de todas as coisas*, é também o nosso pai. (…) Foi ele que nos martelou, cinzelou e embebeu para fazer de nós o que nós somos. (…) Seu espírito entrou em nós, os servos de sua corveia, e nunca mais os deixará livres de seu serviço."

ERNST JÜNGER, "O Combate como Experiência Interior", Prefácio

"O horror, horror, horror! Tongue nor heart / Cannot conceive nor name thee!" 

WILLIAM SHAKESPEARE, "Macbeth", Ato 2, Cena 3

Dedicado a seu irmão Fritz como lembrança do encontro de ambos no campo de batalha de Langemarck, o livro "Krieg als inneres Erlebnis" ("O Combate como Experiência Interior"), de 1922, do escritor, filósofo, entomologista e militar alemão Ernst Jünger**, é uma impressionante reflexão acerca do significado da primeira guerra mundial para os que dela participaram, àquela altura já retornados à vida civil. Na contramão de boa parte da literatura produzida por combatentes durante e após a guerra, Jünger enxerga o conflito como uma oportunidade de revelação de verdades fundamentais sobre a realidade e o ser humano. 

Não se encontram no livro os belos e pungentes lamentos dos poetas britânicos Wilfred Owen (morto em combate em 1918) e Siegfried Sassoon ou a condenação explícita da guerra do clássico "Nada de Novo no Front Ocidental", de Erich Maria Remarque. Ao contrário, o estilo brutal, informativo, analítico e, por vezes, de uma assustadora frieza, caracterizara a sua obra mais famosa e celebrada, o relato de combate "Tempestades de Aço" (In Stahlgewittern), de 1920. 

No prefácio de "O Combate como Experiência Interior", o autor afirma que a geração que voltara das trincheiras era formada por homens forjados na luta, a um só tempo filhos e pais do combate, e que carregavam dentro de si tanto o impacto da destruição no fogo das trincheiras dos antigos ídolos de barro da Sociedade, do Estado, de Deus e da  Moral, quanto a possibilidade nietzschiana de forjamento de novos valores.

Antes orgulhosos da técnica, “embriagados da matéria, crentes que a máquina seria a chave da semelhança com o divino”, esses mesmos homens lançaram-se à guerra numa orgia de pulsões por muito tempo sufocadas pela sociedade e pelas leis. Paixão, êxtase e embriaguez são termos recorrentes no texto para descrever o estado interior dos soldados na guerra. Nessa linha, em sua novela "Sturm", publicada no ano seguinte (1923), Jünger faria o protagonista, o fictício escritor e soldado Tenente Sturm, admitir que "todos aqueles ideais nacionais e heroicos que até então, pensava, eram os motivos que me guiavam, haviam evaporado no fogo da paixão como gotas d'água sobre uma placa de ferro quente."

O capítulo seguinte, intitulado "Blut" ("Sangue"), apresenta a tese de que a vida, a humanidade e o indivíduo têm a mesma capacidade de convocar, quando necessário, as camadas mais longínquas e mais fundamentais de sua constituição, ainda que estas pareçam mortas e definitivamente ultrapassadas pela hegemonia das formas atuais e dianteiras. A analogia com o mundo natural permite a Jünger explicar o estado de espírito que toma o soldado no campo de batalha. Nada é realmente abandonado, e as forças mais antigas, as configurações há muito desaparecidas da superfície do mundo, são novamente convocadas a atuar no palco do teatro como personagens de uma nova peça.

Os estratos mais recentes da vida devem sua existência àqueles mais remotos, e, no momento propício, as águas calmas da superfície dão lugar à turbidez das correntes profundas. A cultura refina, decanta, enobrece, impõe limites e forma ao fundo amorfo e agitado das paixões primevas sem jamais eliminá-lo. O animal domado ataca quando ameaçado, recuperando em um átimo a fera que herdou de seus ancestrais.

Há nisso uma sabedoria da Natureza. No combate, diz Jünger, o sangue retoma seus direitos, flui escaldante nas veias sem encontrar os obstáculos usuais dos ditames da convivência social, e faz emergir das eras imemoriais o "primeiro homem", o atavismo da besta livre de cadeias. Maça ou granada, o tipo de arma não importa. Dois seres disputam a sobrevivência, a situação mais originária e desprovida de adornos.

"A visão do adversário proporciona, além de um cúmulo de horror, a libertação de uma pressão pesada e insuportável." A embriaguez da volúpia do sangue toma a consciência, mobiliza todas as forças para o único objetivo de matar o inimigo, se possível com as mãos nuas. Entusiasmado por essa divindade vermelha, o guerreiro sonâmbulo avança esquecido de tudo até que a corrente animal diminui e cessa, entregando à consciência normal um homem pálido, esgotado e horrorizado consigo e com os perigos que enfrentou durante o frenesi. Segundo Jünger, é somente aí que inicia a bravura, ao fim da mania do sangue.

O horror (Grauen), acompanha desde o início o homem primitivo, por exemplo, nas figuras dos predadores sempre à espreita e nos trovões e relâmpagos que iluminavam os céus manifestando divindades sombrias. O animal sente o medo e a angústia, contudo, para Jünger, o horror é uma experiência exclusivamente humana. “É o primeiro relampejo no céu da razão”, segundo suas palavras.

Por que só o homem sente o horror? Jünger não desenvolve esse ponto explicitamente, mas é possível aferir que essa experiência exige alguma ideia de significado do próprio mundo e da vida. O animal, por instinto e espontaneamente, tenta se afastar e escapar da ameaça que o assedia naquele momento sem que isso se transmute em material para reflexão posterior. Para o fim prático da sobrevivência, basta-lhe sentir a intenção que emana da própria forma do predador sem que sequer a ideia clara da morte lhe passe pela mente. Todos os seres vivos morrem, porém o homem sabe o que é a morte.

Na experiência do sagrado, o Mysterium Tremendum, de acordo com a célebre teoria de Rudolf Otto, combinam-se os elementos do temor e do fascínio. Há também um componente inegável de fascínio no horror. Não fosse assim, não teríamos a inclinação de ouvir histórias macabras e de assistir peças trágicas, não teríamos a curiosidade de conhecer os destruidores efeitos corporais de certas doenças e de acidentes os mais variados. Jünger enxerga um parentesco entre o horror e a luxúria, a embriaguez do sangue e a volúpia do jogo. Em comum, o excesso, o transe e o êxtase. O horror não é o simples medo determinado por uma ameaça imediata.

Os jovens voluntários, muito antes da partida para o front, reuniam-se em torno dos veteranos para ouvir seus relatos cheios dos terrores do campo de batalha. Semelhantes histórias, ainda que os assustassem e os fizessem empalidecer, tinham o condão de suscitar o desejo ardente de "encarar a Górgona de frente", não importando se o resultado desse confronto fosse a morte. 

Após tanta espera e tanta fermentação, já nas trincheiras, vinha finalmente o momento do batismo de fogo, o choque longamente antecipado, "tão saturado de virilidade transbordante que cada inspiração embriagava, e que dava vontade de chorar sem que se soubesse o motivo. Ó corações viris, capazes de sentir isso!” O horror cobria com as suas asas as colunas entrincheiradas. "Então Ares ordenou a Deimos (Terror) e Fobos (Medo) que atrelassem seus cavalos, e ele próprio vestiu sua armadura brilhante", dizia o aedo no Canto XV da Ilíada

Logo o primeiro morto fazia a sua sinistra e inolvidável aparição que congelava os corações. A lembrança de cada soldado guardava imagens diferentes desse evento funesto. Uns recordavam as mãos crispadas no solo, outros a crosta sangrenta nos cabelos ou os lábios azulados do caído. Aquele era o primeiro de muitos, e a variedade dos cadáveres mostrar-se-ia infinita a partir dali.

O odor pesado, adocicado e tenaz da putrefação emanava dos corpos que revelavam a céu aberto “os mistérios da tumba”. Vivos e mortos conviviam numa estranha e profana comunidade com ratos, moscas e vermes. Fora da frente de batalha, nas ruínas das cidades, vilas e fazendas arrasadas, o temor da aparição fantasmagórica das vítimas civis da guerra penetrava no coração dos combatentes saturados de horror

A sobrevivência de restos da vida normal em meio à tal destruição gerava por vezes uma comicidade absurda: a vitrine repleta de chapéus femininos que permanecera incólume entre os escombros de uma loja, o piano mecânico que funcionou automaticamente numa casa enquanto soldados ferozes combatiam no andar de baixo, a ratazana bem nutrida que saltou do bolso do cadáver de um soldado. A fronteira que separava o riso da loucura era tênue, e Jünger menciona en passant o riso estridente dos homens cujos crânios acabavam de ser alvejados, o soldado que correu nu pelo campo de batalha em pleno inverno e o humor satânico dos postos de socorro. 

Por mais saturados daquelas circunstâncias que os combatentes estivessem, não eram tanto os fatos, mas sim o incerto, o indizível e o pressentimento que pesavam sobre os sentidos. Quando um grupo isolado atravessava a "terra de ninguém" à noite, e, subitamente, a língua de fogo das metralhadoras lambia o solo dilacerado, um grito de reconhecimento ecoava, então o horror recaía sobre a mente, mas seu significado profundo, qualquer que fosse, não podia mais ser revelado através dos lábios petrificados do morto.

...

*Jünger faz alusão ao fragmento de Heráclito de Éfeso: "O conflito é o pai e rei de todos" ("Πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστι, πάντων δὲ βασιλεύς").

**Voluntário nos Stoßtruppen, Jünger foi ferido quatorze vezes, e sua bravura foi reconhecida pela outorga de duas Cruz de Ferro (1.º e 2.ºgraus), da Cruz de Cavaleiro da Ordem da Casa de Hohenzollern com Espadas e da Orden Pour le Mérite, a mais alta condecoração do império germânico.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Xenofonte e a "Marcha dos Dez Mil"

"Tendo lido a carta, Xenofonte indagou a Sócrates, o ateniense, se devia aceitar ou recusar o convite. Sócrates, que tinha o temor de que o Estado de Atenas pudesse de alguma forma encarar com suspeita a minha amizade com Ciro, cuja zelosa cooperação com os espartanos contra Atenas na guerra não havia sido esquecida, aconselhou Xenofonte a ir a Delfos e lá consultar o deus acerca da conveniência de tal empreitada. Xenofonte foi a Delfos e indagou de Apolo a qual dos deuses ele deveria orar e sacrificar  a fim de que pudesse melhor empreender a jornada desejada  e retornar à salvo com boa sorte. Então Apolo respondeu-o: 'A tais e tais deuses deveis sacrificar.' Ele retornou e informou a Sócrates sobre o oráculo. Este, porém, ao ouvir o relato, criticou Xenofonte por não haver perguntado em primeiro lugar se seria melhor para ele ir ou ficar, mas, ao contrário, ter resolvido ele mesmo afirmativamente a questão ao perguntar diretamente como poderia empreender da melhor maneira a viagem. 'Uma vez que,' continuou Sócrates, 'você colocou a questão dessa maneira, deverá fazer aquilo que ordenou o deus'. Assim, sem mais delongas, Xenofonte ofereceu sacrifício aos que o deus havia nomeado e partiu de barco para a sua jornada."

ANABASIS, Livro III, I

Anabasis é obra do ateniense Xenofonte, historiador, militar, mercenário e filósofo. O texto constitui-se em um relato das desventuras de dez mil mercenários gregos que estiveram a serviço de Ciro, o jovem, contra seu irmão, o rei Artaxerxes II, e que, após a morte do primeiro na batalha de Cunaxa (401 A.C.), são traídos pelos persas e se vêem obrigados a atravessar o império persa desde próximo da Babilônia até o Mar Negro para daí retornar à Grécia.

Xenofonte, assim como Platão, foi aluno de Sócrates e dedicou à memória do mestre uma série de diálogos como a Apologia, O Banquete, Econômico  e um livro sobre os ditos e feitos de Sócrates, Memórias. É ao filósofo ateniense que ele irá consultar para saber se se une ou não a Ciro,  o jovem, em sua expedição.

O relato de Xenofonte é o de quem viveu aquela aventura, pois, após a traiçoeira execução pelos persas do espartano Clearcus e dos outros chefes da expedição helênica, ele mesmo foi eleito como novo líder do exército junto com Cheirisophus. A marcha de subida - por isso o título "Ἀνάβασις" - dos dez mil gregos partiu dos arredores da Babilônia e atravessou o que hoje são a Armênia e a Geórgia, o Curdistão, a Macrônia, até chegar a Trapezus, colônia helênica às margens do Mar Negro. 

Durante o percurso em território inimigo, os helenos tiveram que enfrentar as forças do grande rei persa, debelar inúmeras escaramuças e emboscadas de tribos hostis, atravessar grandes e profundos rios, suportar a neve e o frio, tomar fortalezas e vilas e superar a constante escassez de provisões para um tão grande exército.

Ao avistar o mar do alto de uma montanha, os gregos gritaram exclamação que ficou famosa: "O mar! O mar!". De Trapezus o exército moveu-se até às cidades helênicas de Cerasus, Cotyora, Sinope, Heraclea e atravessam o mar de Marmara para Bizâncio. Na Trácia, os mercenários servem ao rei Seuthes e depois são convocados pelo general espartano Thibron para lutar contra o sátrapa persa Tissaphernes, aquele mesmo contra quem Ciro, o jovem, os havia contatado para lutar de início.

Rota dos dez mil com Ciro, o jovem, de Sardes até Cunaxa, entre os rios Tigre e Eufrates.
Rota de subida dos dez mil de Cunaxa até Trapezus, na costa do Mar Negro, até Bizâncio, na Trácia.
                                 Xenofonte à frente dos Dez Mil (desenho próprio)
                        Guerreiro cita, um dos povos enfrentados pelos Dez Mil (desenho próprio)

Contendo inúmeros detalhes sobre os costumes gregos e bárbaros, sobre táticas, estratégias e armamento dos exércitos helênicos da época e sobre a forma quase democrática de sua organização, o relato de Xenofonte é uma aventura fascinante e altamente informativa seja para quem se interessa por façanhas militares, seja para quem estuda História Antiga. Anabasis tornou-se célebre ainda na antiguidade e chegou a inspirar Alexandre, o grande, em sua própria campanha contra o império persa menos de um século depois da marcha dos dez mil.  

Ademais, Xenofonte é figura das mais interessantes e escreveu diversas outras obras além dos diálogos socráticos, como manuais de cavalaria, biografias de reis espartanos, um relato sobre os anos finais da Guerra do Peloponeso a partir de onde parara Tucídides, além de Cyropaedia, um livro sobre a educação de Ciro, o grande, rei persa.