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sexta-feira, 25 de julho de 2025

Marco Aurélio, sabedoria, virtude e o Todo

"Reverencia o poder superior no universo, que tudo utiliza e rege todas as coisas. Outrossim, reverencia o poder superior em ti, que é semelhante àquele outro poder. Em ti também, ele tudo utiliza e governa tua vida."

MARCO AURÉLIO, Meditações, Livro V, 21

A sabedoria nas tradições espirituais consiste na identificação do sábio com o princípio (ἀρχή) mais alto da realidade. Quanto mais o homem assemelha-se ao princípio, mais ele é sábio. O imperador romano Marco Aurélio (121-180 D.C.), no livro VIII das suas "Meditações", seguindo nessa direção, afirma que a natureza do Todo converte aos seus propósitos quaisquer obstáculos ou resistências, e que também o ser racional pode converter toda e qualquer situação em matéria para fazer avançar seus objetivos. 

"Assim como a natureza do Todo é a fonte de todas as outras faculdades de todo ser racional, ela concedeu-nos também esse mesmo poder. Semelhante à natureza, que converte aos seus propósitos o que é obstrutivo ou contrário, alocando-o no esquema geral das coisas e tornando-o parte de si mesma, o ser racional também pode transformar o obstáculo em material para seu próprio uso, e utilizá-lo para avançar seus objetivos, quaisquer que eles sejam." (VII, 35)

Nessa passagem, Marco Aurélio resume um aspecto fundamental de sua filosofia: a semelhança entre o Todo enquanto princípio último e pervasivo de todas as coisas e a parte mais alta da natureza humana, o hegemonikon (ἡγεμονικόν), princípio diretor de origem divina capaz de converter tudo aquilo que aparentemente lhe é contrário em algo favorável. Aquilo que, à primeira vista, pareceria uma obstrução ao, por assim dizer, "plano" do Todo, na verdade não se constitui em impedimento para o exercício de sua providência. 

Tema comum na filosofia helenística, a providência (προνοια, providentia) é a ideia segundo a qual a ordem do Cosmos é dada pelo Todo, e que as suas partes, na verdade, adequam-se a esse "plano" desempenhando os papéis que receberam dentro desse esquema geral das coisas. Então, há um princípio ordenador no âmago do Cosmos que determina a cada coisa o seu lugar. Os entes se encontram nessa ordem como partes que estão organizadas e unificadas para a realização do Todo.

O ser racional possui igual capacidade, não no nível macrocósmico, mas no nível microcósmico da ordenação ético filosófica de sua vida interior. Em outra passagem das Meditações, no livro VII, tratando do uso sábio das contingências, o imperador adverte que "a ação é importante, a circunstância é indiferente". Não importa o que aconteça ao homem, ele sempre tem à sua disposição a capacidade de tirar das situações o único e verdadeiro bem que está sob seu alcance: o bem moral

O homem pode aproveitar qualquer circunstância para ser virtuoso. Isto é, todas situações da vida, mesmo aquelas que aparentemente são contrárias à sua vontade, às suas inclinações ou prejudiciais ao seu corpo podem ser convertidas em algo que realiza a natureza humana enquanto ser racional. O único bem é o bem moral, o único mal é o mal moral. Sempre é possível viver as circunstâncias de forma virtuosa, e nisso está o bem. 

A virtude está sob o controle do homem, não os eventos externos ou as consequências remotas de suas ações. Mais ainda, ele controla os seus juízos, positivos ou negativos, sobre a realidade que se apresenta naquele momento. Sêneca, filósofo estoico romano (século I D.C.) que viveu sob o imperium de Nero, em suas Cartas a Lucílio, dizia que mesmo a pessoa doente, acamada, poderia viver essa situação de forma virtuosa, com coragem. Todos os eventos são material para a formação do caráter. 

Segundo Marco Aurélio, tudo o que acontece faz parte do bem do Todo, ainda que pareça um mal na perspectiva deste ou daquele ser em particular. Só é sábio aquele que é capaz de aceitar os eventos da vida, da forma como eles acontecem, sabendo que por trás deles há uma inteligência, há uma providência, no sentido de há uma ordem que transcende as partes e que dá a elas os seus lugares respectivos na realização desse Todo. 

Quando o homem enxerga os acontecimentos a partir do Todo (que não é uma perspectiva no sentido da visão de uma parte, mas justamente a visão da completude), ele os aceita porque reconhece que fazem parte da ordenação do Todo. No momento em que o homem eleva a sua razão à ordem primária das coisas e se identifica com ela, tudo o que lhe sobrevém pode ser vivido de forma virtuosa, dado que ele também recebeu o mesmo poder ordenador do Todo que dobra tudo aquilo que aparentemente é contrário à sua direção. 

O Todo submete as partes com vistas à realização do próprio Todo. Analogamente, o hegemonikon, o princípio diretor, aquilo que é divino no homem, é capaz transformar as situações adversas da vida em matéria para virtude. Quanto mais o homem logra realizar essa operação, mais ele se identifica com o Todo. 

No livro VII, Marco Aurélio recorda que não há motivos para o homem temer o futuro, pois quaisquer que sejam os acontecimentos que o aguardam, ele os enfrentará com a mesma inteligência que possui hoje, no sentido de que tem os meios para converter tudo em oportunidade para a virtude, o único bem real. Os problemas do passado ou do porvir não devem perturbar o seu espírito. Em vez disso, deve perguntar a si mesmo, em cada instante do presente, o que há neste trabalho hic et nunc que ele não possa suportar. Não é o futuro e nem o passado que pesa sobre o homem, mas sempre o presente, e o fardo presente diminui quando é assim isolado.

Não se pode mudar aquilo que foi feito, que não mais existe, e nem aquilo que será feito, que ainda não existe. A única coisa que se pode fazer é utilizar o material do momento presente para realizar a virtude e a sabedoria, para realizar a essência humana, que é a razão, essa fagulha divina que Zeus colocou no homem. Ao fazer isso consistentemente, o homem se aproxima do Todo, da própria ordem que permeia o Cosmos. Quanto mais se aproxima dessa providência que dobra todas as coisas à sua vontade, no sentido de transformar aquilo que parece um obstáculo em uma oportunidade para a virtude, mais o homem se aproxima da sabedoria.

A identificação com o princípio último, tanto quanto é possível, torna sábio o ser humano. Nesse caso, progressivamente, porque nunca haverá identificação completa com princípio. A sabedoria é a contínua conversão interior de todos os acontecimentos em virtude. Abandonando os juízos parciais baseados no agrado e no desagrado, o sábio realiza uma conversão (μετάνοια) que o redireciona e o alinha com a ordem central da realidade. Então, é na solidariedade intrínseca entre conhecimento e virtude que o mundo aparece tal como ele é. 

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Leia também: Νεκρομαντεῖον: Marco Aurélio

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Marco Aurélio, o juízo interno e a impermanência das coisas

"De qualquer modo, lembrai que em um muito curto espaço de tempo ambos, vós e ele, estarão mortos, e pouco depois nem mesmo seus nomes serão lembrados."

MARCO AURÉLIO, Meditações, Livro IV, 6

No livro IV de suas Meditações, o divino imperador-filósofo Marco Aurélio reflete sobre a transitoriedade da fama. Se um pouco de fama já é capaz de distrair-nos, basta que consideremos a fugacidade da vida humana. Um tempo imensurável passou antes que viéssemos a este mundo, e um tempo igualmente imensurável passará depois que já tivermos partido.

Considerando a pequenez do palco de nossos sucessos (a Terra não é mais que um mero ponto no espaço, diz Marco Aurélio), pouco ou nada importa a nossa fama passageira. Aqueles que nos aplaudem hoje estarão mortos amanhã como nós mesmos estaremos. Consideremos ainda a quantidade de gente que passou por este mundo desperdiçando a vida em inimizades, ódio e guerras. Todos são pó agora.

E se nos queixamos de nosso lugar dentro do grande Todo, revisitemos a alternativa: "providência ou átomos." A alternativa faz parte de um dos pontos centrais da filosofia estoica de Marco Aurélio, e tem como objetivo assegurar o homem de que, seja o mundo fruto de uma consciência superior ou fruto das configurações aleatórias dos átomos no espaço vazio, ainda é um dever ser racional e, por conseguinte, ser bom.

Se o mundo é um Todo harmônico ordenado por uma Providência superior e racional, então é nosso dever imitarmos essa divindade e, sobretudo, aceitar nosso lote na vida. Sendo, pois, o universo regido pela razão providencial, nada está fora do lugar e tudo concorre para o bem do Todo. Mas se o mundo é resultado do movimento caótico dos átomos, este mesmo movimento deu origem a seres racionais como nós e isso é suficiente para que vivamos uma vida racional e boa. Não há, portanto, alternativa a não ser aceitar nosso lugar no mundo e os deveres que daí derivam.

Por fim, é preciso recuar para o santuário da interioridade, ser mestre de si mesmo, e agir como humano, cidadão e criatura mortal. E há dois pensamentos imediatamente úteis  para a vida: o primeiro é que as coisas externas não têm poder sobre a alma. Isso significa que, de acordo com o preceito estoico, nada há de mal senão o juízo moral errôneo. Os acontecimentos externos não têm, em si mesmos, o poder de fazer mal ou bem à alma, mas esta escolhe no seu juízo sobre a situação se aquilo que lhe acontece é bom ou ruim.

A disciplina da aceitação estoica prevê que o homem deve aceitar tudo o que lhe acontece como sendo obra da Razão que rege o Todo. Ao aceitar aquilo que acontece como a parte que cabe a ele na harmonia providencial das coisas, o homem não sofre mais. É o juízo interno que determina como reagiremos aos acontecimentos. Do mesmo modo, as coisas externas não têm poder sobre a alma, pois são inertes. As ansiedades vêm somente do juízo interno acerca das coisas.

E o segundo pensamento é que todas as coisas que vemos mudarão quase ao mesmo tempo em que as vemos, e que depois não mais existirão. Constantemente devemos trazer na mente tudo aquilo que nós mesmos já vimos mudar e perecer. Tudo é impermanente, dura um pouco e logo se desfaz. Se mantivermos na mente esse pensamento, teremos o juízo correto das situações pelas quais passamos durante a vida. O universo é mudança, diz o imperador, e a vida é julgamento.

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Leia também: Νεκρομαντεῖον: O sábio e a disciplina do assentimento em Marco Aurélio (oleniski.blogspot.com)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O sábio e a disciplina do assentimento em Marco Aurélio


"Ele (o sábio) quer aquilo que acontece, isto é, aquilo que quer a Natureza universal. Ele diz a verdade, interiormente e exteriormente, isso significa que, à ocasião de todas as representações que se apresentam ao assentimento do princípio diretor, ele se atém àquilo que é objetivo na representação, sem adicionar julgamentos de valor sobre coisas que não possuem valor moral."

PIERRE HADOT, La citadelle intérieure, p. 136

"Ser filósofo não é ter recebido uma formação filosófica teórica ou ser professor de filosofia, mas é, após uma conversão que opera uma mudança radical de vida, professar um modo de vida diferente daquele dos outros homens."(tradução minha)

PIERRE HADOT, La citadelle intérieure, p.25

A vida filosófica antiga é uma escolha existencial que engaja o homem inteiramente. O imperador romano Marco Aurélio (121-180 D.C.), um iniciado nos Mistérios de Elêusis, adotou o modo de vida filosófico pela influência do filósofo estóico Junius Rusticus, seu professor, amigo e conselheiro. Foi de Rusticus que o imperador recebeu o ensinamento do escravo-filósofo Epiteto, figura máxima do estoicismo. O imperador seguiu então os passos do escravo.

O filósofo e historiador da filosofia francês Pierre Hadot considera que as famosas Meditações de Marco Aurélio são exercícios espirituais que têm a função não de revelar os estados mentais de seu autor, mas sim de rememorar os princípios e os dogmas fundamentais da vida boa, reatualizando-os em sua alma. O imperador escreve precipuamente para ter sempre presente ao espírito os dogmas que compõem a regra de vida estóica.

Um dos princípios de Marco Aurélio assevera que não são as coisas externas que afetam a alma, mas são os juízos que alma faz sobre os acontecimentos que geram os sofrimentos. Só há o mal moral, isto é, o que depende de nós é como julgamos os eventos que não dependem de nós.

A disciplina do assentimento no imperador romano e filósofo estóico Marco Aurélio corresponde ao domínio que o sábio deve ter sobre seus juízos acerca das coisas sobre as quais ele não tem controle. Amiúde, o filósofo assevera que as coisas externas não têm poder sobre a alma. Isso significa que os acontecimentos externos não perturbam e não atingem o homem? Evidentemente, qualquer um sabe que somos constantemente abalados interiormente pelas vicissitudes e pelas alegrias da vida. 

Ocorre que o sábio não pode e não deve ser como os outros homens. O sábio também é afetado por esses eventos externos até certo ponto. Se um urso o ameaça, ele recuará instintivamente, tal qual o homem comum. A diferença não está nessa reação de medo ou de espanto que se impõe ao indivíduo de forma imperiosa, sem que haja possibilidade de qualquer controle consciente. A reação é imediata, mas tão logo ela tenha passado, cabe à parte mais alta da alma, o "princípio diretor" (hegemonikon) ou razão, examinar o conteúdo objetivo daquele acontecimento. A impressão (phantasia ou, como alguns traduzem, "representação") deixada na alma pelo acontecimento deve ser avaliada para que se defina um juízo adequado sobre ela.

A fim de que haja um juízo, é mister que haja um critério de julgamento. O critério estóico é simples: "só há um bem: o bem moral; só há um mal: o mal moral". Isto é, aquilo que nos acontece proveniente dos eventos externos segue leis que não estão sob nosso controle e, por isso, não são bons ou ruins em si mesmos. São indiferentes. Por exemplo, a doença não é em si mesma boa ou ruim. Ela é um acontecimento natural, regido por leis naturais que têm seu sentido e sua justificação últimas na Razão que permeia o Cosmos como um Todo ordenado. Por isso, o único juízo adequado acerca das impressões desses eventos externos é afirmar que elas são indiferentes, nem boas e nem ruins.

Todavia, aquilo que está sob nosso controle é o juízo que fazemos sobre as coisas sobre as quais não temos domínio. De novo, a doença não é boa ou ruim, mas depende inteiramente do homem se ele formulará ou não um juízo adequado sobre esse acontecimento. Os homens sofrem menos pelas vicissitudes do que pelos juízos de valor que fazem sobre essas vicissitudes. Afirmar que esses eventos fora de nosso controle são bons ou ruins é adicionar um juízo de valor que não pertence a eles enquanto entes independentes de nós.

Não podemos escolher aquilo que nos acontece, mas podemos escolher como os julgamos. Essa é a cidadela interior da qual fala o filósofo Pierre Hadot, intérprete do pensamento de Marco Aurélio. Há no homem uma cidadela inexpugnável, livre e capaz de julgar adequadamente as coisas sobre as quais ele não possui qualquer controle. Essa fortaleza é a sede de nosso poder moral, onde se decidem as únicas coisas que são realmente boas ou más, os juízos, posto que estão sob nosso controle.

Esse centro tem a escolha livre de se identificar com a Razão universal, norma transcendente da moralidade, e livrar-se da influência dos desejos e das vontades que contaminam os juízos humanos sobre a realidade. Unido à Razão, o hegemonikon, o princípio diretor, é a fortaleza inexpugnável na qual o sábio habita em segurança, pois tudo é julgado adequadamente segundo o critério que distingue o que depende e o que não depende do homem.