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terça-feira, 6 de junho de 2017

Príamo, Aquiles e a ordem dos deuses


Aquiles arrastando o corpo de Heitor

Após saber da morte de Pátroclo pelas mãos de Heitor, Aquiles desfaz-se em pranto e decide finalmente voltar à guerra. Põe fim à sua cólera, aceita os presentes oferecidos por Agamemnon, reconcilia-se com o filho de Atreu e prepara-se para os combates caros a Ares.

Entrementes, Heitor rejeita o sábio conselho de Polidamante de recuar suas tropas para dentro dos fortes muros de Tróia para dali dar combate aos aqueus. Com o apoio do resto das tropas troianas (Homero afirma que Atena cegara o entendimento de todos), o príncipe escolhe combater em campo aberto. Esse será seu maior erro durante a campanha contra os dânaos e custará sua vida.

No Olimpo, Zeus libera os deuses para que participem da guerra como desejarem. Os combates reiniciam e Poseidon salva Enéas da morte pelas mãos homicidas de Aquiles. Apolo, por sua vez, também salva Heitor do rei dos mirmidões, pois a hora do filho de Príamo ainda não havia chegado.

O exército de Tróia recua ante a fúria destruidora de Aquiles. Inúmeros heróis troianos perdem a vida quando, tentando escapar, mergulham no rio Escamandro e são ali emboscados por Aquiles, que os mata a fio de espada. No mesmo rio, o filho de Peleu e de Tétis captura doze príncipes troianos para os sacrificar nos funerais em honra de Pátroclo.

Escamandro revolta-se com tamanha carnificina e ataca Aquiles, prendendo-o em seus turbilhões. Graças à intervenção de Hefestos, Aquiles livra-se de Escamandro e parte em perseguição de Heitor. Este, porém, é protegido por Apolo que, tomando-lhe a aparência, corre em direção contrária a de Heitor, enganando a Aquiles e permitindo que o príncipe troiano chegue aos portões de Ílion a salvo.

Por fim, Aquiles reconhece o engôdo de Apolo e parte na direção de Heitor. Os dois heróis enfrentam-se. Zeus, junto com os outros deuses, decreta a morte de Heitor. Atena, tomando a forma de Deífobo, irmão de Heitor, instiga-o a lutar de frente com Aquiles, depois de o príncipe troiano correr três vezes em volta de sua cidade a fugir do matador aqueu.

Heitor arremessa sua lança contra Aquiles, sem atingí-lo. Ao pedir a seu irmão, Deífobo, outra lança, Heitor percebe que não há ninguém ali. Compreende, então, que fôra vítima de um ardil dos deuses e que sua sorte estava decidida. Aquiles enterra sua lança na garganta de Heitor e o príncipe morre. Não satisfeito em matá-lo, Aquiles amarra os pés do cadáver em seu carro e dá três voltas em torno de Tróia. 

                                Heitor

                                Aquiles arrastando o corpo de Heitor

A morte e a humilhação de Heitor são observadas com horror por Príamo, seu pai e rei de Tróia, Hécuba, sua mãe, Andrômaca, sua esposa e Helena, a causa de todos os males daquela guerra. A cidade está condenada, pois seu defensor está morto.

Aquiles retorna ao acampamento dos aqueus para dar curso ao funeral e às lamentações por Pátroclo. Este é depositado sobre um leito e dá-se início aos ritos fúnebres (prothesis). Cavalos dão três voltas em torno do corpo do guerreiro dânao. Ovelhas, cabras e bois são sacrificados e consumidos em um banquete em sua honra.

                                  Prothesis

À noite, na tenda de Aquiles, aparece-lhe o espectro de Pátroclo (eidolon) que o insta a sepultá-lo o quanto antes, pois, sem isso, não pode ingressar definitivamente no Hades, atravessando o Acheronte. Pátroclo pede-lhe também que seus ossos sejam enterrados juntos aos de Aquiles, depois do cumprimento do destino do guerreiro aqueu profetizado por Tétis.

Aquiles tenta abraçá-lo, mas nada consegue tocar, pois o espectro como o fumo dispersa-se. No dia seguinte, uma grande pira é montada e acesa. O corpo de Pátroclo para lá é carregado em cortejo (ekphora), escoltado pelos guerreiros aqueus e com a cabeça sustentada por Aquiles. O corpo é depositado na pira funerária.

Ovelhas, bois, cavalos, cães e os doze troianos capturados por Aquiles no rio Escamandro são ali sacrificados. Os ossos são depositados em uma urna de ouro e guardados na tenda de Aquiles. O túmulo é construído em torno da pira, a espera também dos ossos do próprio Aquiles. Jogos em homenagem ao defunto iniciam-se e Aquiles vilipendia o corpo de Heitor arrastando-o ainda três vezes em torno do túmulo de seu amigo Pátroclo.

O vilipêndio desagrada aos deuses olímpicos que decretam que tal abuso deve cessar. Zeus envia Tétis a Aquiles para que esta exija do filho o fim daquela humilhação. Ao mesmo tempo, Íris é enviada a Príamo, rei de Tróia, para inspirá-lo a dirigir-se em segredo à tenda de Aquiles e pedir-lhe em resgate o corpo de seu filho, Heitor.

                                Príamo implora a Aquiles o resgate do corpo de Heitor

Príamo, após ser visitado por Íris, toma o caminho que leva às naus aquéias. Acompanha-o um servo e carrega consigo em uma carroça grande quantidade de presentes para oferecer a Aquiles em resgate pelo corpo de seu filho. Zeus envia Hermes para escoltá-lo. Este toma a forma de um escudeiro de Aquiles e apresenta-se a Príamo a fim de conduzí-lo em segurança.

Ao chegar à tenda de aquiles, Hermes revela-se a Príamo e parte para o Olimpo em seguida. O rei troiano desce do carro e entra na tenda do terrível guerreiro aqueu. Este encontrava-se no fim de uma refeição com dois companheiros, Automedonte e Álcimo.

Graças às ordens dos deuses, dá-se a cena mais comovedora da Ilíada. O velho rei lança-se aos joelhos de Aquiles, abraçando-os e beija as mãos do assassino de seu filho. Implora-lhe que, em atenção a seu pai, Peleu, também velho, conceda-lhe o corpo de Heitor para que seja dignamente sepultado. Ambos choram. Aquiles toma as mãos do idoso e o conduz à ceia.

Inspirado pela mensagem divina trazida pela mãe, Aquiles aceita os presentes de Príamo. Ordena às servas que lavem e unjam com óleo o corpo de Heitor e, por fim, envolvam-no em um lençol. Aquiles convida Príamo a cear e depois manda prepararem-lhe leito para a noite. O rei, ainda no meio da noite, incógnito, parte conduzindo seu filho no carro em direção à Tróia.

Durante nove dias, os troianos celebram os funerais de seu defensor. No décimo, o corpo de Heitor é queimado na pira funerária, seus restos depositados em uma urna e esta é abrigada em um túmulo para ela construído.

domingo, 2 de abril de 2017

Ilíada, XVI: a obstinação de Aquiles e a morte de Pátroclo

Sono (Hypnos) e Morte (Thanatos), sob o olhar de Hermes, carregam o corpo de Sarpédon, filho de Zeus

"Cego! Se houvesse prestado atenção ao conselho de Aquiles,
provavelmente teria escapado da Morte sinistra.
Mas a vontade de Zeus é mais forte do que o arbítrio dos homens,
pois fácil lhe é pôr em fuga o mais bravo e negar-lhe a vitória,
ainda que fosse ele próprio que houvesse a lutar instigado.
Brio, desta arte, ele agora, no peito de Pátroclo inflama."

ILÍADA, XVI (tradução de Carlos Alberto Nunes)

Ao perceber que os troianos estão a ponto de queimar os navios aqueus, Pátroclo interpela Aquiles para que retorne à pugna sangrenta, resolvendo-se finalmente a auxiliar seus companheiros de luta. No diálogo, Pátroclo pergunta a Aquiles se ele não estaria evitando a batalha por causa da profecia de sua mãe, Tétis, de que, se continuasse a combater em Tróia, excelsa glória alcançaria, embora morresse em combate.

Veementemente Aquiles nega a suspeita de Pátroclo e afirma que seu motivo verdadeiro de retirar-se das batalhas é a injustiça contra ele praticada por Agammemnon ao tomar-lhe a bela Briseis, seu espólio de guerra. É interessante notar como a fala de Pátroclo indica a suspeita de que Aquiles pode não estar sendo totalmente movido pelo desejo da justa restituição da honra externa, como ele afirma.

Há ambiguidade nas ações de Aquiles e, principalmente, em sua recusa de participar da luta contra os troianos. Isso significa que Aquiles, em alguma medida, está dividido, que em seu imo peito motivos conflitantes influenciam sua decisão. A cólera contra Agammemnon, a recusa das Preces e, agora, a obstinação em continuar retirado mesmo na iminência da destruição da frota aquéia assumem uma conotação mais sombria quando vistas sob a luz da fala de Pátroclo.

Diante da negação de Aquiles, Pátroclo pede-lhe que, ao menos, permita que ele lidere o contra-ataque aqueu vestido com sua armadura e empunhando suas armas divinas. Aquiles consente, mas adverte Pátroclo de que ele deve restringir-se a expulsar os troianos da praia onde estão os navios aqueus, salvando-os da destruição pelo fogo. Ele não deve, levado pelo ímpeto guerreiro, avançar  e conduzir a luta até os muros de Tróia, pois, ao fazer isso, um deus poderia descer do Olimpo para proteger os troianos.

Pátroclo parte para a guerra e expulsa os troianos da praia, salvando a frota aquéia. Não contenta-se com isso e, levado pelo calor da pugna sangrenta, prossegue a perseguição aos troianos até os portões de Ílion. Sua glória aumenta quando consegue abater com um dardo o lício Sarpédon, filho de Zeus, de quem o senhor do Olimpo ordena a Febo Apolo e aos irmãos gêmeos Sono e Morte que retirem o corpo do campo de batalha e o entreguem na Lícia para que receba os ritos fúnebres apropriados.

Inebriado, Pátroclo investe três vezes contra os muros de Tróia e é repelido por Apolo. Na quarta, o deus, terrível, o adverte de que a ele não era dada a glória de tomar a cidade troiana. E nem a Aquiles, muito mais valoroso do que ele. Pátroclo recua, temeroso de incorrer na ira de Apolo. Mas seu destino já está decidido. Sua ousadia será castigada, como lhe advertira Aquiles.

Ao entardecer, Pátroclo investe impetuosamente três vezes contra os troianos. Gabriel Germain, em seu Homère et la Mystique des Nombres, afirma que,

"Na Ilíada, o 3 exprime de modo contínuo (e é o único a fazê-lo) as tentativas de um personagem que, na quarta vez, atingirá seu intento, ou, mais frequentemente, falhará. (...) Pátroclo tenta três vezes atingir a muralha de Tróia. Na quarta tentativa, Apolo o impede. Da mesma forma, após haver lançado-se três vezes sobre os troianos, o herói sucumbe na quarta tentativa."

A morte de Pátroclo exteriormente virá pelas mãos de Heitor. Empenhado em sua quarta investida contra os troianos, Pátroclo é estapeado nos ombros e nas espáduas por Febo Apolo que, em seguida, retira-lhe o elmo, quebra-lhe a lança, faz cair seu escudo e, por fim, o despe de sua couraça. Heitor, percebendo sua fraqueza, finca-lhe a sua lança. Antes de morrer, Pátroclo diz a Heitor, vaticinando, que sua morte pelas mãos de Aquiles também estava próxima.

A ira de Aquiles e sua recusa em voltar aos combates são as causas indiretas da morte de Pátroclo, seu amado companheiro. A recusa das Preces cobra seu preço e, de certa forma, o sacrifício de Pátroclo dará termo à obstinação de Aquiles. E, com isso, aproxima-se o fim da longa campanha aquéia.

A destituição das armas e da armadura de Pátroclo por Apolo indicam simbolicamente a impossibilidade de tomar o lugar de outro homem naquilo que lhe é próprio. Pátroclo não pode ser Aquiles e a tentativa deste de enviar seu companheiro para realizar seu dever termina em desgraça para ambos. De certo modo, há uma usurpação em curso, embora consentida. Caberia a Aquiles e não a Pátroclo restaurar o equilíbrio da balança da guerra.

Para isso, contudo, Aquiles deveria abandonar sua obstinada recusa em juntar-se aos combates. Ainda sob efeito da cólera, Aquiles consente somente em enviar seu amigo em seu lugar, usando suas armas e sua armadura a fim de que os troianos tomassem Pátroclo pelo grande Aquiles. O estratagema funciona em parte, mas Pátroclo é incapaz de controlar seu ardor e esquece a advertência de Aquiles de que não buscasse perseguir os troianos até os muros de sua cidade.

Isto é, o próprio Aquiles estabelece os limites que o separam de Pátroclo. É possível tomar o lugar de um grande herói, mas somente até certo ponto. Tornar-se externamente Aquiles não é o mesmo que ser Aquiles e logo chega o momento em que o limite impõe-se tragicamente para aquele que iludiu-se pensando poder ultrapassá-lo.

Apolo adverte Pátroclo de que nem mesmo ao grande Aquiles, mais valoroso que ele, é dada a glória da tomada de Tróia. Pátroclo, nos muros de Tróia, tenta tomar de assalto a glória que é de outro homem. Os deuses restabelecem os limites intrínsecos das coisas e o condenam à morte por sua desmedida. A semelhança externa com Aquiles é desfeita pela retirada das armas e da armadura e Pátroclo enfrenta o seu destino com as forças que lhe são próprias.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Ilíada, IX: Aquiles, as Preces e a recusa da reconciliação

"As Preces são as filhas de Zeus todo-poderoso.
Coxas, enrugadas, de olhos cruzados, elas tentam seguir
Atrás da Loucura, que, por ser forte e rápida,
Corre longe na frente delas, aparecendo
Em todo o mundo, trazendo dano aos homens.
Longe, as Preces continuam a sua cura.
Se um homem homenageia estas filhas de Zeus
Como elas se aproximam, eles vão ajudá-lo grandemente,
Prestando atenção a ele enquanto ele ora.
Se alguém as despreza, rudemente as rejeita,
Elas vão para Zeus, filho de Cronos, implorando
Para a Loucura perseguir aquele homem, que então
Prejudica a si mesmo e sofre punição.
Por essa razão, Aquiles, você deve dar,
Às filhas de Zeus, seu respeito."

HOMERO, Ilíada, IX

"Vede! Os deuses choram, todas as deusas choram,
Que o belo pereça, que o mais perfeito desapareça.
Mas um lamento nos lábios dos amados é glorioso,
Pois o comum desce ao Orco em silêncio."

FRIEDRICH SCHILLER, Nänie

Pressionado pela contra-ofensiva de Heitor, líder das tropas troianas e de seus aliados, que rapidamente empurrava os aqueus de volta a seus navios, Agamemnon vê-se obrigado a buscar a reconciliação com Aquiles a fim de evitar a amarga derrota. Aquiles, contudo, como relata o livro IX da Ilíada, rejeita os presentes generosos oferecidos por Agamemnon por meio de uma embaixada liderada pelo rei de Ítaca, Odisseu.

Os membros da embaixada tentam, em vão, demover o herói de sua decisão de rejeitar os presentes do rei de Micenas e líder da expedição dos aqueus. Não contente em recusar a reconciliação com Agamemnon, Aquiles declara sua intenção de abandonar o cerco a Tróia e retornar à Grécia.

Ademais, sua mãe, a ninfa Tétis, contara-lhe que se ele decidisse permanecer em Tróia, ganharia a imortalidade na memória dos homens por meio de uma morte heroica cuja glória seria eterna. Se, por outro lado, decidisse partir, morreria idoso e feliz em sua terra natal.

Nesse momento, há uma escolha crucial a ser feita: a glória imortal por meio da morte heroica que será lembrada pelos homens para sempre ou a felicidade e a tranquilidade de uma morte serena, mas que condena o homem ao esquecimento. O drama de Aquiles é o drama da imortalidade possível aos homens onde não há ainda a noção de uma alma individual imortal.

Em Homero, a Psychê não é mais que um sopro que se desprende do homem no último suspiro antes da morte. Imortais somente são os deuses benfazejos. Os homens são destinados à morte e suas sombras, espectros totalmente inconscientes da vida do mundo dos vivos, descem ao Hades. A única imortalidade é a da memória coletiva da comunidade.

Como afirma Werner Jaeger na Ingersoll Lecture de 1958, intitulada The Greek Ideas of Immortality:

"(...) havia uma diferença entre a grande massa dos mortais que não tinham nada a esperar após a morte e os valentes e nobre guerreiros que deixavam atrás deles a gloriosa memória de seus feitos vivendo nas canções dos aedos. Nessas canções, os grandes feitos dos deuses e dos homens eram igualmente louvados. A diferença entre mortais e imortais parecia quase desaparecer, e o homem adquiria glória eterna e reputação. Sua personalidade era forte o suficiente para resistir à lei comum do esquecimento."

A imortalidade era alcançada pelo louvor dos aedos que preservavam a memória dos feitos dos heróis do esquecimento. Em outros termos, a paridade com os deuses não poderia vir por nenhuma igualdade ontológica com os olímpicos, já que os homens são irremediavelmente mortais, mas da memória coletiva recolhida e cantada pelo aedo. A poesia é o veículo da imortalidade.

Nesse sentido, Homero, ao cantar as proezas de Aquiles e dos grandes heróis do cerco a Tróia, garante-lhes a imortalidade a que eles têm direito por causa justamente de seus esforços e feitos naquela guerra. A transcendência é merecida pela excelência guerreira e assegurada pelas canções dos aedos.

Essa imortalidade pode ser perdida, contudo. Aquiles está na encruzilhada entre a vida do homem comum que desce ao Hades em silêncio e em oblívio e a vida heroica que conduz à glória da lembrança nas canções dos poetas. Em certo sentido, o dilema da predição de Tétis expressa o conflito entre o desejo pessoal pela tranquilidade da vida comum que culmina em uma morte serena e o anseio pela imortalidade através da memória coletiva que, no entanto, exige trabalhos dolorosos e uma morte violenta.

Aquiles tem esse dilema na mente quando recebe a embaixada enviada por Agamemnon, pois o cita expressamente diante dos embaixadores reais. Agamemnon é o cabeça da comunidade que vem exigir/pedir que ele cumpra seus deveres para com o coletivo. Afinal, todos sofrem enquanto ele recusa-se a lutar. Aquiles falha em perceber como sua atitude põe em risco o equilíbrio das coisas, já que ele mesmo é um rei, um guerreiro. O que acontece quando os guerreiros recusam-se a guerrear?

Aquiles apega-se à ofensa de Agamemnon e recusa as suas ofertas de reconciliação por causa de sua cólera (cholos). Eis, de novo, o centro da Ilíada: a cólera de Aquiles que tanto mal causou aos aqueus no cerco da sagrada Ílion. E essa cólera pode privá-lo da imortalidade da canção do aedo.

O texto homérico, por meio do discurso do sábio Fenice, refere-se à recusa de Aquiles em termos de um cenário de relações divinas. As ofertas de Agamemnon são sagradas, pois são da parte das Litai (Preces), deusas filhas de Zeus que vivem a perseguir e a tentar alcançar a Ate (loucura, desatino), para neutralizar seus efeitos sobre os homens. Não obstante, aquele que recusa as Litai é castigado, pois elas sobem a Zeus e pedem que sobre o recalcitrante desça a Ate e que esta o castigue perseguindo-o para sempre.

Isto é, as Preces - expressões da reconciliação, da restauração da justiça e da harmonia -, estão sempre atrás do desatino e da loucura tentando consertar seus efeitos deletérios nos homens. Há uma cura para o erro: a prece, o pedido, a oferta de reconciliação com o ofendido. O problema é que as Preces estão sempre atrasadas em relação à Ate. 

Essa perseguição reflete simbolicamente o conflito interior do homem. O desatino humano parece sempre estar fora do alcance da oferta de paz. Ou melhor, o próprio da loucura e do desatino é justamente fugir das preces, das tentativas de acomodação dos conflitos. Se o homem recusa as Preces, recusa a reconciliação, escolhe a permanência na discórdia (Eris). Escolhe a cólera (cholos) quando ela não é mais justa. É a hubris, a desmedida.

A consequência é que as Preces, recusadas e desprezadas, apelam à justiça (dikê) de Zeus e condenam o homem a ser presa da Ate. Em outros termos, a oferta de apaziguamento, quando recusada, torna-se condenação. O homem fica entregue ao desatino, já que a cura não está mais ao encalço da loucura.

A cólera de Aquiles era justa enquanto Agamemnon recusava-se a devolver Briseis, poi sua honra guerreira estava em questão. Agora que Agamemnon não somente promete devolvê-la, mas também oferece presentes tão numerosos quanto valiosos, a cólera de Aquiles deveria ser apaziguada. As Preces deveriam ser aceitas, já que a honra de Aquiles foi reconhecida e restaurada.

Aquiles as rejeita, contudo. Ele rejeita o remédio para a Ate, para o desatino. Note-se que a Ate é filha de Eris, a discórdia. Aquiles, em seu desatino, ameaça retornar à Grécia e deixar os aqueus à mercê da fúria do grande Heitor, defensor de Tróia. Ele cria a discórdia. O herói não aceita pôr fim à cólera ao rejeitar as ofertas de amizade e de reconciliação.

Como Eric Voegelin assinala no segundo volume de seu Order and History, há uma fratura na elite daquela sociedade. A alma do herói, patologicamente centrada em si mesma e em sua própria noção de satisfação e de honra, recusa os liames que reúnem os homens depois das desavenças, divide a comunidade e a põe em risco de destruição.
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Leia também:
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ilíada VI: Glauco, Diomedes e a lei da hospitalidade

                                Diomedes troca armas com Glauco

"Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo
 que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia.
 Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos."

HOMERO, Ílíada, VI (tradução de Carlos Alberto Nunes)

"Finalmente, a relação não era simplesmente entre dois indivíduos, mas entre duas famílias, dado que era hereditária - mesmo se a existência de uma xenia não fosse necessariamente conhecida por um ou por ambos os parceiros. Esse era o ponto da famosa história na Ilíada do encontro entre o grego Diomedes (de Tiryns, no Peloponeso) e Glauco, o lício (Lícia localizava-se na região costeira sul da Ásia Menor ocidental). Diomedes teve de lembrar, ou, antes, contar a Glauco que eles eram xenoi hereditários."

PAUL CARTLEDGE, The Spartans, p. 147(itálicos no original)

No livro VI da Ilíada de Homero, Glauco, guerreiro lício aliado dos troianos e herói descendente de Belerofonte (que matou a Quimera e foi dono de Pegasus), encontra, no calor do campo de batalha, o grande Diomedes, herói aqueu. Antes que o combate inicie-se, eles travam um diálogo no qual ambos anunciam suas honrosas ascendências. 

É Diomedes que, vendo Glauco aproximar-se, pergunta-lhe quem ele é, pois não o havia ainda visto no meio das batalhas. O motivo da pergunta era o temor de Diomedes de atacar novamente um imortal envolvido na guerra como antes fizera com Afrodite e com Ares. Como Glauco apresentava grande coragem em vir enfrentá-lo, Diomedes acha por bem averiguar se o oponente não é, na verdade, um deus em forma mortal.

A coragem de Glauco o distingue a ponto de Diomedes tomá-lo por um deus. Eis um elemento de honra e de grandeza da ética guerreira: Glauco não é um soldado qualquer. Sua disposição para um combate singular com Diomedes já demonstra seu valor. O relato de sua ascendência heróica só confirmará essa impressão inicial.

Glauco inicia questionando a necessidade da pergunta, pois:

"As gerações dos mortais assemelham-se  às folhas das árvores,
 que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam
 na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa.
 Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira"

A importância da pergunta far-se-á evidente somente ao final do relato, quando a obrigação de hospitalidade mostrar-se clara. A reflexão de Glauco sobre a impermanência e desimportância das gerações humanas serve para ressaltar a revelação que virá a seguir e colocá-la dentro de um quadro mais abrangente de verdades sobre a existência.

O herói lídio, então, inicia seu relato e, nele, afirma ser descendente do grande herói Belerofonte, o matador do monstro conhecido como Quimera. Diomedes, então, declara que Glauco é seu hóspede desde os seus avós, pois seus ancestrais estavam ligados por deveres de hospitalidade. A Belerofonte fora dado abrigo por Eneu de Argos, de quem Diomedes descende.

Glauco e Diomedes imediatamente reconhecem aquela ligação sagrada e abstém-se de qualquer ato belicoso e trocam presentes. Entre apertos de mão, Diomedes dá a Glauco suas armas e este dá as suas a Diomedes. E despedem-se amigavelmente.

Note-se que Homero afirma que Zeus conturba o juízo de Glauco, pois este não se importa de trocar suas valiosas armas de ouro pelas armas de bronze de Diomedes. O deus intervém para que o juízo meramente humano de valor material não se sobreponha ao valor imaterial da hospitalidade. 

Essa relação de hospitalidade apresentada por Homero na Ilíada permanece na Grécia clássica na instituição do xenos. Segundo Paul Cartledge, essa era um instituição antiga e aristocrática cujo significado vai além do simples "estrangeiro" (tradução de xenos) e que pode melhor ser compreendido como "convidado-amigo ritualizado".

Isso porque a ligação criada entre os membros dessa aliança era afirmada e mantida por observações rituais poderosas. Ainda segundo Cartledge, o xenos não era uma simples relação de amizade e podia ser firmada mesmo com parceiros não gregos, como o espartano Antalcidas era xenos do grande rei da Pérsia Artaxerxes II.

O historiador da antiguidade grega Moses Finley, em seu clássico The World of Odysseus, afirma que a própria ambivalência do termo xenos, a um tempo significando estrangeiro e hóspede, demonstra a tensa ambiguidade da condição do estrangeiro, uma ameaça constante a quem, no entanto, era necessário dar abrigo e proteção. No entanto, o indivíduo que tinha um xenos em uma terra estrangeira, possuía um substituto efetivo de seus próprios pais, um protetor, um representante e um aliado. 

E acrescenta: "Hóspedes e liames de hospitalidade eram bem mais que a expressão sentimental de uma afeição humana. No mundo de Odisseus, esses são termos técnicos que servem para designar formas muito concretas de ligação, implicando direitos e deveres tão formais quanto aqueles do matrimônio." 

Paul Cartledge sublinha que o xenos podia ser mais fiel a seu hospedeiro do que a seus compatriotas. Glauco e Diomedes deixam de cumprir seu dever guerreiro de matar os inimigos de seus respectivos reis e cidades, quaisquer que eles sejam (como ambos comprometeram-se quando de seu engajamento na guerra), para obedecer os laços pessoais da hospitalidade. Eles, conscientemente, escolhem cumprir uma lei que se lhes parece superior às leis da comunidade.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Ilíada V: a grandeza e a desmedida de Diomedes e os limites da realidade

                             Diomedes atacando Enéas, a quem Afrodite amparava

"Quando, porém, pela quarta avançou, qual fosse um demônio,
 com voz terrível lhe diz Febo Apolo, o frecheiro infalível:
 'Entra em ti mesmo, Diomedes; afasta-te; é absurdo pensares
 que é como os deuses; em caso nenhum podem ser comparados
 os moradores do Olimpo com os homens que rojam na Terra.'
 A essas palavras, o forte Diomedes recuou poucos passos, 
 para evitar o rancor do frecheiro infalível. Apolo."

HOMERO, Ilíada, Livro V (tradução de Carlos Alberto Nunes)


Eric Voegelin, no segundo volume de seu Order and History, afirma que um dos temas de Homero é a "patologia do herói", exemplificada principalmente pela cólera (cholos) de Aquiles na Ilíada. O motivo da cólera é anunciado no primeiro livro do épico. Agammemnon, rei de Micenas e chefe da armada dos Aqueus, toma para si a escrava Briseis, a qual pertencia a Aquiles pela divisão do butim de guerra. Aquiles, então, recusa-se a obedecer as ordens de Agammemnon e a tomar parte nos combates aos troianos dali por diante. 

A cólera do herói é, em si mesma, justa, já que Aquiles foi injustiçado por Agamemnon, O que está errado, a desmedida (hubris), é a recusa de Aquiles em aceitar os pedidos e os presentes de reconciliação oferecidos posteriormente por Agamemnon. Como consequência, a hubris de Aquiles lança o exército Aqueu em uma série de infortúnios que quase culminam na desgraça de uma humilhante derrota.

A figura de Diomedes, que avança, instigado por Atena, contra Afrodite (que protegia seu filho Enéas) e a fere com sua lança, também contém os elementos da hubris. Diomedes, um dos grandes guerreiros aqueus, príncipe de Argos, fôra ferido na batalha contra os troianos e seus aliados fora dos portões de Ílion (Tróia). Ele, então, pede a Atena que lhe conceda acertar com sua lança aquele que o havia alvejado na espádua com uma seta.

Atena atende seu pedido e adverte-o, contudo, a não investir contra nenhum dos deuses, a não ser Afrodite, caso ela descesse à batalha. Entusiasmado, Diomedes avança contra os troianos e fere gravemente a Enéas com uma pedra. Este curva-se e fica à mercê do ataque de Diomedes. Ocorre que Enéas era filho de Afrodite e esta, vendo-o prestes a ser morto, desce do Olimpo e intervêm na batalha protegendo seu rebento.

Diomedes não se intimida e investe com sua lança contra Afrodite, ferindo-a na mão. Ele ainda ameaça a deusa indefesa que, assustada, retorna ao lar dos imortais. O feito de Diomedes causa escândalo no Olimpo. À Dione, Afrodite relata que o arrogante Diomedes a ferira quando tentava proteger Enéas, seu dileto filho. Ela diz: 

"Não se restringe aos Troianos e Aquivos a guerra, somente;
 té contra os deuses eternos os Dânaos, agora, se atrevem. 

Os homens chegam ao ponto de atacar os próprios imortais! Eis o escândalo. Segue-se, no Olimpo, um relato das diversas vezes nas quais os deuses sofreram infortúnios por causa dos homens ou foram feridos por eles. Um limite perigoso fora cruzado.

Há, no feito de Diomedes, uma ambiguidade essencial: o ato é, a um só tempo, divino e horroroso. Diomedes investe contra Afrodite instigado por palavras de Atena, é preciso lembrar. Não obstante, essa origem divina do ato arrogante mostra que há algo de admirável nele. Isto é, o desajuste, o exagero, têm algo de belo justamente por sua força, impetuosidade e grandiosidade. Por outro lado, é um ato blasfemo e horroroso de destruição da ordem natural das coisas.

Há uma tensão perigosa nisso tudo. Os grandes homens tendem, por suas ações tremendas, a destruir a ordem reinante, a recusar e a investir contra os próprios fundamentos da realidade. Entretanto, isso é belo, é digno de admiração, é digno de ser contado e recontado pelos aedos. E é horroroso ao mesmo tempo.

No homem há algo que o faz ombrear-se com os deuses e, no limite, até mesmo a desafiá-los insolentemente. É uma centelha divina que o torna grande. A grandeza, no entanto, não pode ultrapassar certos limites, sob pena de tornar-se patologia. Não pode tornar-se um esquecimento da ordenação do mundo. 

Diomedes é lembrado de seu lugar no mundo por Apolo, que tomara Enéas sob a sua proteção. O herói grego ousa investir contra o deus a fim de ferir Enéas. Apolo repreende-o ferozmente de que nenhum mortal pode tentar equiparar-se aos deuses imortais. Trazido à razão, Diomedes recua.

Note-se ainda que Diomedes ataca Afrodite no momento em que ela desce para ajudar o filho Enéas. Ou seja, no momento em que o divino inclina-se amorosamente ao humano. Afrodite é vítima da hubris do herói quando demonstra amor materno, cuidado e proteção. Simbolicamente, o divino é escorraçado exatamente quando desce aos homens e estes, embriagados pela grandeza que os próprios deuses nele inspiraram, avançam desejosos de pôr termo aos imortais.

Mais à frente na narrativa homérica, Diomedes é novamente inspirado por Atena a atacar um dos olímpicos. Ela, que também é deusa da guerra, desce da morada dos imortais e junta-se a Diomedes em sua carruagem para pôr fim à matança instaurada por Ares, que ora lutava a favor dos troianos. Desta feita, a inspiração divina o guia a atacar o deus da guerra com o objetivo de pôr fim ao desequilíbrio. 

Atena toma as rédeas do carro e desvia de Diomedes as lanças que a ele endereça Ares. O carro conduzido pela deusa é símbolo de submissão ao guiamento superior, a ordenação adequada ao homem. Sob a condução de Atena, Diomedes projeta sua lança contra Ares, ferindo-o e obrigando-o a retornar ao Olimpo. A hubris do deus, a desmedida na guerra, é encerrada pela ação do homem guiado pela mão da sabedoria divina.