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sábado, 14 de fevereiro de 2026

O simbolismo da promessa em "Angel's Egg"

"Depois Noé soltou uma pomba a fim de ver se a terra já estava seca; mas a pomba não achou lugar para pousar porque a terra ainda estava toda coberta de água. Aí Noé estendeu a mão, pegou a pomba e a pôs dentro da barca. Noé esperou mais sete dias e soltou a pomba de novo. Ela voltou à tardinha, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé ficou sabendo que a água havia baixado."

GÊNESIS, 8, 8-11

O anime "Angel’s Egg" (Tenshi no Tamago), de 1985, escrito e dirigido por Mamoru Oshii, é um conto simbólico que pode ser interpretado em diversos níveis. Sob um ângulo existencial ou psicológico, a história retrata como o apego pode impedir a realização das possibilidades contidas em germe (o ovo) numa pessoa.

A qualidade da arte impressiona, e seus cenários de cidades sombrias e abandonadas remetem à estranheza dos sonhos e ao sentimento de solidão e de pequenez diante de estruturas grandiosas que se impõem por suas dimensões e por sua história, mas que perderam há muito seu sentido e sua função. Aliás, o diretor admite que essa atmosfera tem sua origem nos seus próprios sonhos, repletos de pássaros, peixes, ruínas e ambientes desolados.

O mundo onírico é o reino do insubstancial, daquilo que na mente é o resultado de separações, combinações, uniões e recombinações dos dados retidos pela memória a partir da realidade externa e concreta. O jogo livre da imaginação, a fantasia, contrasta com a rigidez imposta pelas coisas no mundo da vigília. Pensamos em opções de ação porque imaginamos cenários alternativos baseados no que conhecemos do comportamento independente das coisas. Tais pensamentos expressam possibilidades enraizadas na realidade, como germes que podem ou não se desenvolver na direção de um animal adulto.

Nos sonhos, a concatenação lógica e empírica é substituída por leis associativas que desconhecemos, de modo que os processos imaginativos são mais livres justamente por não obedecerem as regras impostas pela natureza das coisas. Em certo sentido, no reino de Morfeu tudo é possível porque ali o moldador não é circunscrito ou delimitado por nada externo.

A insubstancialidade dos sonhos representa simbolicamente a coincidência das possibilidades, tanto daquelas que eventualmente se realizam quanto daquelas que jazem irrealizadas no fundo abissal. Não é sem motivo que o termo fantasma refira-se aos mortos (alguns dos quais os romanos chamavam larvae) e ao conteúdo imaginativo, onírico ou não.

O mundo de Angel’s Egg é a um só tempo onírico e fantasmagórico. A onipresença da morte é manifestada pelas cidades abandonadas, pelos prédios e pelas construções vazias, pelo céu escuro e obnubilado no qual o Sol não penetra. Tudo sugere infertilidade, decadência, desesperança e tristeza. Contrastando com o cenário desolador, há uma menina, cujo nome nunca é dito, que carrega ciosamente junto ao corpo um ovo de pássaro.

O ovo é o símbolo do germe, pois nele reside algo pronto a se efetivar na realidade concreta se as condições forem favoráveis. Não se trata de uma possibilidade qualquer, mas de uma que já foi fecundada e delimitada segundo certa natureza específica (o pássaro). É o pensamento definido na mente que antecede a ação que vai singularizar a coisa no mundo. O pássaro, por sua natureza aérea, simboliza as possibilidades ascensionais, as que se dirigem naturalmente às alturas e aos céus.

A menina retém naquela caixa de Pandora a esperança. Ela vaga pelas cidades mortas enchendo recipientes ovais com água e trazendo-os de volta ao seu abrigo e enfileirando-os como quem aguarda pacientemente o milagre transformador das bodas de Caná. Algo vai acontecer. A água será convertida em vinho. O renascimento acontecerá cedo ou tarde. O germe está sendo gestado no seu seio. A menina, porém, não é uma mulher com poderes geradores maduros.

O risco é, então, que o pássaro permaneça para sempre um germe. O que é necessário para que a promessa seja cumprida, para que o sonho meramente concebido seja tornado realidade? Entra em cena um jovem de belo aspecto, olhar desenganado e intenções misteriosas, trazido à cidade por uma coluna de tanques, máquinas sem vida, que passa a acompanhar a menina nas suas andanças. Após um momento inicial de desconfiança, a criança aceita a sua presença aparentemente protetora.

A dupla contempla o curioso fenômeno dos pescadores que percorrem avidamente a cidade munidos de cordas e arpões, caçando as sombras projetadas nos prédios de grandes peixes voadores. Sombra (umbra) é um dos nomes dados tradicionalmente aos mortos. São fantasmas que tentam capturar entes tão insubstanciais quanto eles mesmos. Representam o esforço inútil, a concepção que permanece presa ao reino imaginativo, o sonho sem capacidade de realização, a possibilidade desperdiçada.

Depois de um descuido da menina, o jovem devolve o ovo à menina advertindo-a de que se deve manter próximo de si aquilo que se estima. Sim, mas acalentar a possibilidade sem realizá-la é ser infértil como aquele mundo desabitado e inanimado. O rapaz, cujas vestimentas remetem à função cavaleiresca, traz sobre seu ombro uma espécie de cetro ou chave em forma de cruz. Em ambos os casos, são instrumentos que remetem à autoridade e à capacidade de realizar algo.

O que ele veio fazer? No começo do filme, o jovem aparece diante do que parece ser uma nave esférica, cujo centro lembra um olho, e que é decorada por inúmeras estátuas femininas que podem ser anjos ou santas. A origem extramundana desse estranho objeto indica uma missão proveniente de uma ordem superior da realidade, o que é confirmado pela estética de um templo religioso. O olho central é o Oculus Dei pousado sobre o mundo.

O rapaz conta à menina o relato bíblico do dilúvio, quando a terra foi engolida pelas águas, e de como Noé lançou ao ar um pássaro para saber se a inundação havia terminado. O dilúvio é um símbolo do fim de um ciclo, da reabsorção das coisas na sua causa originária, enquanto o retorno do pássaro à arca representa o auspicioso início do novo ciclo, o renascimento do mundo renovado e repleto de possibilidades. A aliança firmada entre Deus e o homem garante que a destruição não mais acontecerá.

Um detalhe na versão narrada pelo jovem diverge do relato do Gênesis: a pomba não retorna à arca, e o povo esqueceu-se dela e do mundo do qual viera. talvez o pássaro nem mesmo tenha existido. O ciclo terminou, porém nenhum outro foi inaugurado. A renovação não aconteceu, a memória foi perdida, o encadeamento foi quebrado. Aquele é o mundo das sombras, das possibilidades desperdiçadas, dos pescadores sem peixe, das construções ocas, da infertilidade desesperançada.

O pássaro existe, garante a menina que conduz seu companheiro a um fóssil gigantesco. Um fóssil é um resto, um testemunho longínquo de uma vida extinta. A esperança está no ovo. Ele deseja saber o que está contido ali. A menina dorme, e o jovem, usando o cetro ou a chave, quebra o ovo. Só pode se realizar aquilo que rompe o invólucro que o contém. Fechada em si mesma, a possibilidade não é nada. A menina protege e cuida do ovo. O jovem descerra e liberta para o mundo o que estava contido.

Ela acorda, vê o ovo rompido, nada ali encontra, e se desespera. Corre em busca do rapaz, cai na água e vê refletida a imagem de uma jovem mulher, com a qual se funde. A sua função foi cumprida, e da água surgem inúmeros ovos, novas possibilidades nascidas de seu sacrifício. É preciso que a menina morra para que nasça a mãe.

O jovem contempla na praia a nave ascender aos céus. Penas de pássaro voam ao seu redor. No centro das estátuas angélicas, munida de auréola e sentada sobre um trono, está a imagem da menina. Divinizada, seu sacrifício é reconhecido. Aquilo que era uma possibilidade solidificou-se na realidade. A missão do jovem foi cumprida? Ele, tal qual Cristo, desceu à mansão dos mortos portando a cruz, e reatou a aliança desfeita?

Ao fim do filme, visto das alturas, sub specie aeternitatis, o mundo é oblongo como a arca de Noé.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Luke Skywalker e o simbolismo iniciático do herói - parte 2 - A Confirmação


"You've taken your first step into a larger world"

OBI WAN KENOBI

Luke Skywalker deve partir de Tatooine para cumprir o seu chamado. O seu primeiro vislumbre do amplo horizonte no qual adentra é a famosa taberna de Mos Eisley. A diversidade de espécies e o clima moralmente ambíguo e algo hostil do local mostram a Luke que ele está saindo do mundo protegido de seus tios e entrando na perigosa área cinzenta do mundo das relações adultas. O jovem é inexperiente e ingênuo, e logo é alvo da maldade gratuita de dois bandidos.

Mentor, Obi Wan Kenobi, intervém a fim de preservar a integridade física de seu aprendiz. Apela primeiro à dissuasão e, quando esta não surte efeito e a tensão precede a agressão, o mestre elimina o perigo matando os dois bandidos em uma habilidosa sequência de golpes de seu sabre de luz. O episódio deve ser entendido como o segundo aspecto da manifestação do caráter sacerdotal e guerreiro de Obi Wan.

Pouco antes, o mestre Jedi e seu aprendiz foram parados por uma patrulha de stormtroopers do Império que buscavam R2D2 e C3PO, os dois androides e emissários da princesa Leia. Obi Wan consegue facilmente desvencilhar-se dos soldados usando seu poder mental sobre eles. É o aspecto mágico do sacerdote-guerreiro. O homem sagrado adquire controle sobre certas áreas da realidade e sobre certos tipos de homens. Para Luke, essa é a primeira manifestação de um poder transcendente ao qual seu mestre tem acesso: a Força.

Na taberna, Obi Wan contrata a dupla de contrabandistas Han Solo e Chewbacca para levar os dois a Alderaan, onde devem entregar a mensagem da princesa Leia. Na Millenium Falcon, Luke inicia seu treinamento jedi no manejo do sabre de luz. O aprendiz fracassa e Obi Wan sugere que ele tente se defender sem usar os olhos, que abandone seu eu consciente e haja por instinto. Luke, então, consegue defender todos os ataques.

O eu consciente vive a partir das dualidades e das preferências. A visão representa o mundo das formas e da discriminação. Abandonar a visão representa simbolicamente o abandono das distinções e das oposições. A ação de Luke nasce, agora, não da discriminação, mas sim da escuridão que nada distingue porque a tudo abarca em uma unidade subjacente. O indiscriminado dá origem à ação perfeita no mundo do discriminado. Não há eu, nem a espada e nem o adversário. Luke começa a conhecer os caminhos da Força. Esta representa o Absoluto, a realidade que subjaz a tudo e que, portanto, une em si mesma como possibilidades os contrários do bem e do mal.

O mal é representado pelo Império Galáctico, cuja estrutura apresenta a união de duas correntes aparentemente inconciliáveis: uma corrente mágico-religiosa e uma corrente materialista-tecnológica. A primeira é personificada por Darth Vader, o sacerdote-guerreiro que optou pelo lado sombrio da realidade e que traiu a Ordem Jedi em nome dos desejos egoicos de poder e de ordem imposta pela violência externa. Acima de Vader, que simboliza a figura do aprendiz falhado, está o Imperador Palpatine, o mago negro.

A outra corrente é representada pelo cruel Grand Moff Tarkin, comandante militar da Armada Imperial e responsável pela construção da Estrela da Morte. Não obstante, o poder bélico não é mais do que o braço armado de uma dimensão mais sombria, a religião antiga professada por Vader. Os militares não a compreendem e a desprezam, pondo toda a sua fé no terror tecnológico da Estrela da Morte. O Lorde Sith demonstra seu poder enforcando à distância um dos oficiais que teve a ousadia de menosprezar a sua "triste devoção" à Força, chamando-o de "feiticeiro".

O episódio é simbólico e demonstra que o horizonte de Vader, embora pervertido, é mais vasto do que o de seus subordinados. A opressão visível e militarizada esconde a ação de forças invisíveis, muito mais sombrias e sinistras. A ditadura recebe seu fundamento de uma sociedade secreta, os Sith, que servem ao lado escuro da realidade. 

Buscando alcançar Aldeeran, Obi Wan e Luke Skywalker são conduzidos, sem que o saibam, à Estrela da Morte, a fortaleza oculta nos céus na qual se encontra cativa a princesa. Mais uma vez, os acontecimentos se desenrolam a despeito dos planos do herói. Descobrindo por acaso que a princesa está na estação espacial, Luke e seus amigos partem para o resgate de Leia, enquanto Obi Wan, conduzido pelo destino, confronta seu antigo aprendiz, Darth Vader. 

O círculo está completo. Acontece finalmente o duelo entre o mago branco e o discípulo caído. Há uma dualidade nesse confronto que expressa as possibilidades do Caminho. Obi Wan simboliza a vitória sobre os instintos e as tendências malévolas e egoístas do ser humano, enquanto Darth Vader simboliza o fracasso do homem em vencer esses aspectos obscuros de sua natureza. O mestre também está em julgamento, pois guiar o aprendiz no Caminho era a sua responsabilidade primária. 

Obi Wan sabe que falhou na missão de formar seu discípulo e agora enfrenta as consequências de seus próprios erros. O seu objetivo não é vencer o duelo, mas sim conter o mal e abrir caminho para a Nova Esperança. Abandonando os desejos egoístas, o Jedi escolhe o autossacrifício a fim de que Luke possa escapar e realizar seu destino. Obi Wan adverte Darth Vader de que se ele o matar, seu antigo mestre ficará mais poderoso do que jamais poderia imaginar. A luta com Vader possui traços iniciáticos, pois a morte de Obi Wan causa uma mudança de seu estatuto ontológico. O Jedi morre para este mundo e renasce em outro mais vasto e mais fundamental.

Nesse ínterim, Luke e seus companheiros conseguem escapar da Estrela da Morte. A libertação de Leia retoma o tema tradicional da princesa aprisionada na fortaleza e guardiã do tesouro que é resgatada pelo herói. O segredo da destruição da Estrela da Morte está agora nas mãos da aliança rebelde e um ataque é logo lançado para explorar a fraqueza da estação espacial. Luke Skywalker receberá a confirmação de seu chamado no assédio à fortaleza imperial.

O desafio à frente de Luke é singularmente difícil, quase impossível de ser vencido: um tiro certeiro em um alvo diminuto. Um a um os pilotos rebeldes fracassam e a esperança acaba repousando sobre aquele piloto interiorano, inexperiente e sem nenhuma tradição guerreira. O desafio irrealizável, contudo, é um aspecto central da mitologia do herói. Hércules realizou doze trabalhos, Jasão roubou o velocino de ouro, Teseu enfrentou o minotauro, Perseu matou a medusa, e assim por diante. 

Mas o desafio não necessita sempre ser uma proeza física ou guerreira e pode ter o aspecto de uma demonstração ímpar de habilidade. No épico indiano Mahabharata, o príncipe pândava Arjuna, durante seu treinamento de arquearia, é instado por seu mestre Drona a acertar com uma só flechada a cabeça de um pássaro de madeira postado no topo de uma árvore. Drona questiona os irmãos de Arjuna sobre o que estavam vendo enquanto miravam a cabeça da ave. Todos responderam que viam o mestre, a árvore, os colegas e o pássaro. Arjuna foi o único que respondeu que via somente a cabeça do pássaro, e, por isso, acertou o alvo. Mais adiante, em outro episódio, Arjuna é desafiado a acertar o olho de um peixe de ouro colocado no alto de um poste mirando-o indiretamente em uma bacia d'água.

Talvez a mais conhecida cena de reconhecimento do príncipe seja a do desafio do arco de Odisseu (Ulisses) no canto XXI da Odisséia. Disfarçado como um idoso, Odisseu chega sem ser reconhecido em seu palácio real em Ítaca, onde os arrogantes pretendentes de Penélope abusam da lei da hospitalidade. Uma competição é organizada para escolher o novo esposo de Penélope: armar o arco do rei Odisseu e disparar uma seta atravessando os orifícios de doze machados alinhados. Os pretendentes falham e somente o rei, ainda disfarçado, realiza a façanha. O desafio vencido por Odisseu revela a sua verdadeira identidade e segue-se o massacre dos pretendentes.

Analogamente, Luke Skywalker é o príncipe ainda desconhecido diante do desafio que confirmará o seu chamado. Exteriormente, ele não aparenta sua nobreza e seu valor. Mas ambos ficarão evidentes no momento em que obtiver êxito na prova de habilidade. Os outros pilotos falham e só resta Luke. A voz de seu mestre Obi Wan ressoa em sua mente exortando-o a abandonar os meios tecnológicos externos e a confiar na Força. Sua ação deve provir justamente da fonte originária de tudo, anterior a qualquer impulso egoico fruto de avaliações enviesadas pelo desejo ou pelo medo. Contra todas as probabilidades e a despeito de todas as avaliações humanas, Luke dispara e acerta o alvo impossível. A fortaleza imperial é destruída. 

O desafio é vencido pelo herói. O chamado do Caminho é confirmado. As qualidades de Luke Skywalker são reconhecidas pela nobreza representada pela princesa Leia. O momento é de júbilo e de felicidade. A Via, contudo, está só no início. Em breve, o herói terá de realizar a descida ao Hades. 
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Leia também a primeira parte dessa análise:

Luke Skywalker e o simbolismo iniciático do herói - parte 1 - O Chamado:

domingo, 14 de junho de 2020

Luke Skywalker e o simbolismo iniciático do herói - parte 1 - O Chamado


"This is the weapon of a Jedi Knight. Not as clumsy or random as a blaster. An elegant weapon, for a more civilized age."

OBI WAN KENOBI, Star Wars: A New Hope, 1977

Luke Skywalker, o herói da trilogia inicial de ficção científica Star Wars nasce em um planeta periférico e desértico, Tatooine, localizado em uma galáxia dominada pelo Império Galático. Órfão, ele é criado por seus tios em uma pequena fazenda. As informações sobre seus pais  são esparsas e resumem-se a vagas referências à impetuosidade de seu pai, um piloto. As trocas de olhares entre os tios do jovem quando este pergunta sobre os pais dão a entender que Luke é mais do que aparenta e que eles temem que seu destino esteja ligado à sua ancestralidade.

A narrativa segue um tema mitológico comum, o do príncipe esquecido ou desconhecido: um jovem nobre que, por circunstâncias adversas, é expulso ainda em tenra idade de sua terra natal, e que, esquecido de suas origens, vive sua vida como plebeu em condições humildes até que eventos ou agentes externos o conduzem a reconhecer sua origem nobre e a retomar seus direitos de nascença. No âmbito da mitologia grega, o reconhecimento da própria nobreza pode ser catastrófico, como no caso do rei Édipo de Tebas. 

O destino de Luke é indicado também pela insatisfação interior que o aflige diante da vida modorrenta da fazenda. Ele sente que seu destino ultrapassa os limites exíguos de sua situação atual. Como seu sobrenome indica, o seu caminho é celeste. O seu caminho, Tao (道), é o Céu (天). Símbolo tradicional, o Céu representa a suprema paternalidade divina em diversas culturas, como Dyáuṣ Pitṛ́  (Pai do Céu) no Rig Veda, e Zeus e Jupiter nas mitologias grega e romana, respectivamente.

O Céu intervém em sua vida por meio de dois andróides vindos do espaço, R2D2 e C3PO, que trazem uma mensagem que, aparentemente, não é endereçada a ele. O grande chamado esconde-se nos pequenos atos, como a negociação mundana de máquinas agrícolas. Tudo acontece dentro da rotina e da normalidade. Luke compra os andróides sem saber que essa decisão seria o primeiro passo de sua caminhada na Via. Até este momento, o Céu encarrega-se de fazer chegar a Luke os emissários do chamado.

Os andróides o conduzem ao encontro do mentor. Na Odisséia, Mentor era o ancião a quem Odisseus confiou sua casa e seus pertences e, posteriormente, quem conduz Telêmaco, filho de Odisseus, na busca por notícias de seu pai, desaparecido desde a guerra de Tróia. Coincidentemente, Obi Wan Kenobi também é portador de notícias sobre o pai de Luke, Anakin Skywalker, além de guardar e passar ao jovem a herança de seu pai, o sabre de luz. Em certo sentido, Obi Wan conduzirá Luke em uma busca por seu pai, pois Anakin é dado como morto desde as Guerras Clônicas, como Odisseus desde a guerra de Tróia. Ainda sem o saber, Luke partirá em uma jornada que, em breve, revelará que seu pai não só está vivo, como ele não é quem Luke imagina.

Obi Wan Kenobi salva a vida de Luke e o conduz à sua casa. Ele vive no deserto, longe da azáfama do mundo, isolado como um monge ou um anacoreta do deserto. Aqui manifesta-se o aspecto religioso-monástico de Obi Wan. Todavia, ele não é um monge comum. Ele é um monge-guerreiro, como os cavaleiros hospitalares e os cavaleiros templários na Idade Média ou os sohei, monges-guerreiros budistas japoneses. Cumpre recordar que é atribuído a um patriarca budista indiano, Bodhidharma, a paternidade das artes marciais chinesas.

A um só tempo, Obi Wan possui a autoridade espiritual dos sacerdotes e o poder secular dos guerreiros. Sua vestimenta é composta por um kimono branco japonês sobre o qual repousa um manto com capuz, como o de um monge cristão. Esses dois aspectos, o monge e o guerreiro, aparentemente opostos e inconciliáveis, estão em harmonia na pessoa de Obi Wan. Ele representa uma antiga linhagem de monges-guerreiros extinta naqueles tempos de decadência moral e espiritual. Obi Wan oferecerá a Luke a admissão nessa linhagem e a responsabilidade de reavivar a ordem Jedi e os seus valores eternos.

A proposta de Obi Wan a Luke só acontece como resposta à uma motivação externa. O Céu enviou os mensageiros e estes entregam a mensagem que, aparentemente apenas, dirige-se ao Jedi idoso. A  mensagem da princesa Leia guarda um sentido simbólico: tradicionalmente, a mulher detém o tesouro, como a donzela acastelada e aprisionada por um dragão que guarda um tesouro a espera de um herói. O tesouro de Leia são os planos da Estrela da Morte, isto é, os meios para destruir o império vigente do mal.

Tudo se passa como se o herói a quem se destinam o chamado e o tesouro fosse Obi Wan e não Luke. Há uma ocultação, pois ainda não é o momento certo, o kairós, da confirmação da eleição do herói. Ocorre que Obi Wan é idoso e pede a Luke que o acompanhe em sua missão. O cavaleiro promete treiná-lo no Caminho (Tao) da Força e entrega ao jovem o sabre de luz, a espada de seu pai Anakin. A oferta de presentes ao herói ou ao santo é tradicional na mitologia e nas tradições religiosas, como as armas ofertadas por Atena a Aquiles na Ilíada e os dons ofertados a menino Jesus pelos reis magos.

A espada é símbolo óbvio da via guerreira, mas também de penetração espiritual. Ela separa e penetra, distingue o verdadeiro do falso, o bem do mal, o justo do injusto. Erguida, simboliza o Axis Mundi, o eixo que liga o Céu e a Terra, e a mente imóvel que não oscila, como na imagem do Fudo Myoo na tradição budista japonesa. A espada indica comprometimento, disciplina, força e retidão. Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares (MT 10: 35,36).

O primeiro chamado de Luke é o de aprendiz e de escudeiro de um cavaleiro experimentado, nobre e virtuoso. Mas o jovem é provinciano, acredita que tem responsabilidades para com seus pais adotivos, e recusa o convite. A voz dos tios é a da prudência daquilo que é familiar, seguro e umbilical e que, muitas vezes, impede o homem de crescer na direção de horizontes espirituais mais vastos.

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim. A ação do Céu trouxe os mensageiros até Luke e essa mesma ação trouxe a morte a seus tios por meio da ação dos agentes sinistros do Império. O Céu corta os laços que prendem Luke à Terra e o liberta para a sua missão. Tudo o que o jovem tem que fazer agora é assumir seu destino. Nada mais o prende ao horizonte existencial de seus tios, por justo e decente que ele fosse em si mesmo. O eremita e o fazendeiro devem partir do planeta-deserto, o primeiro para retornar aos conflitos do mundo que outrora havia abandonado, e o segundo para realizar seu destino oculto de equilibrar em si mesmo as oposições da Força.

Luke aceita o chamado parte com Obi Wan Kenobi. Começarão o treinamento e as provas do herói. Nada está garantido, e o jovem terá de provar a si mesmo e aos outros o seu valor. O Chamado do Céu não significa garantia de sucesso na empreitada do herói. Astra inclinant sed non obligant. Nesse momento, Luke é somente a Nova Esperança. 
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quarta-feira, 22 de abril de 2020

"First Blood": violência, comunidade e integração da sombra

"Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestra minhas mãos para o combate, meus dedos para a guerra."
SALMO 144,1

"O mundo heróico e cúltico apresenta uma relação com a dor inteiramente diferente daquela do mundo da sensibilidade. Enquanto no segundo busca-se marginalizar a dor e proteger a vida contra ela, no primeiro o ponto é integrar a dor e organizar a vida de tal modo que se esteja sempre armado contra ela (a dor)."

ERNST JÜNGER, Über den Schmerz

First Blood (1982), dirigido por Ted Kotcheff, é o primeiro filme do que posteriormente seria a franquia Rambo. O filme apresenta o personagem John J. Rambo, ex-combatente da guerra do Vietnã que é impedido pelas autoridades locais de entrar em uma cidadezinha de Washington chamada Hope, é preso e agredido, e reage violentamente usando táticas de guerrilha contra seus agressores.

John Rambo representa o homem destinado à violência. Ele não é um simples soldado convocado para servir na guerra do Vietnã, mas alguém cujo potencial ofensivo foi identificado pelo exército, moldado e aprimorado no duríssimo treinamento de uma tropa de elite: os Boinas Verdes (Green Berets). Durante a guerra, ele é condecorado com a Medal of Honor, a mais importante medalha por serviços militares. Cumprido o seu dever, ele é dispensado e retorna aos EUA.

O filme começa sete anos após sua dispensa e encontra John J. Rambo viajando para visitar um camarada de armas em uma pequena cidade. Ele encontra a casa de seu amigo, mas descobre que ele está morto devido a complicações relacionadas a um gás venenoso inalado na guerra. Rambo segue viagem e chega à uma cidade sugestivamente chamada Hope. O simbolismo aqui é óbvio. O veterano tenta entrar em Hope, isto é, tenta encontrar a esperança, mas há forças que o impedirão de alcançar seu intento.

O contexto evidente do filme é o da recepção conflituosa dos veteranos da guerra do Vietnã nos EUA. Todavia, há mais ali do que o retrato de um momento da história americana recente. O filme trata das relações entre a comunidade e a violência necessária para mantê-la. É possível questionar se e o quanto era necessário à segurança dos EUA o envolvimento na guerra do Vietnã. Analogamente, sempre é possível questionar a justiça, a conveniência ou a eficiência dos atos beligerantes de qualquer governo.

Contudo, toda sociedade precisa manter um certo contingente de homens preparados e treinados para a violência a fim de proteger a própria existência da comunidade de seus inimigos externos e internos. No mais das vezes, os cidadãos de um país não conhecem e nem desejam conhecer as ações que esses homens efetivamente realizam para manter a segurança da sociedade. O tema central, então, é a tensão universal entre a sociedade e seus guerreiros/soldados. O que a comunidade deve aos seus membros escolhidos e treinados para o exercício consentido da violência?

Rambo é desprezado pelos cidadãos de seu país, pois ninguém quer uma máquina de matar por perto. Ninguém quer ouvir suas histórias e seus traumas porque o cidadão comum não deseja saber os meios pelos quais a sua segurança é garantida na vida real, longe do círculo protetor da comunidade imediata. A entrada de John Rambo na cidade significa a irrupção de uma realidade brutal e inevitável no cenário pacífico de uma comunidade que esqueceu (ou quer esquecer) como a manutenção da vida exige e implica a morte.

A autoridade local, o xerife William "Will" Teasle, hostiliza Rambo e vocaliza o desejo da comunidade de que a brutalidade que ele representa passe ao largo da cidade. Ao tentar manter o idílio pacífico da comunidade, o xerife brutaliza Rambo achando que pode controlar o soldado como controla os bêbados da localidade. Essa é a hubris do xerife que atrai a desgraça para a sua pacata cidade. Isto é, ele acha que os meios de ação da comunidade, mesmo os mais severos e torpes, podem dar conta de um agente da violência empregada na manutenção de uma nação.

A brutalidade de Teasle, longe de afastar o perigo, ocasiona uma transferência simbólica fatal: a violência sofrida por Rambo nas mãos dos policiais é identificada interiormente à violência sofrida no cativeiro no Vietnã e dispara um mecanismo automático de defesa. O inimigo estrangeiro assume a forma de seus concidadãos. Hope torna-se o Vietnã. O resultado é óbvio. Rambo reage, foge, um policial morre acidentalmente, a guarda nacional é humilhada e o caos se instala na cidade.

A única voz que pode aplacar a fúria de Rambo é a de seu mentor, coronel Trautman, o homem que sofisticou seus talentos naturais para o combate. Trautman adverte o xerife de que seus homens não estão preparados para lidar com alguém como Rambo. As forças que foram ali libertadas não podem ser controladas com os meios e os recursos usuais da cidade. O coronel veio não para salvar Rambo das milícias locais, mas salvar as milícias locais de Rambo. Ele sugere que se deixe o soldado escapar do cerco para prendê-lo na próxima cidade. Mas o xerife não ouve o coronel e insiste em sua arrogância e em seu orgulho desmedido.

Obviamente, há aí o tradicional conflito entre a autoridade de uma cidade interiorana e uma autoridade que remete ao nível nacional. O xerife Teasle não ouve Trautman também porque o militar simboliza uma instância cujos motivos e interesses ultrapassam de muito os motivos e os interesses prosaicos de uma cidadezinha do interior. Trautman representa a intromissão dos assuntos nacionais na vida regional. Não foi o coronel quem criou o monstro que é Rambo? Agora a criação de Trautman e das autoridades de nível nacional ameaça a segurança da pacata cidade do xerife Teasle. O afastamento interiorano do centro das grandes decisões nacionais pode ser uma bênção, mas frequentemente gera a diminuição do horizonte e do senso de proporções.

Por sua vez, em contato com Trautman via rádio, Rambo recusa a rendição, pois foram as forças locais que derramaram o "primeiro sangue". Não há conciliação e nem possibilidade de integração na vida da comunidade. Rambo simboliza a violência que se volta contra a comunidade que a gerou e a incapacidade de integrar o lado sombrio da existência em um todo coerente. A sombra é rejeitada, escondida, expulsa da cidade. Mas ela não pode ser extinta, pois faz parte da estrutura da realidade. Então ela retorna, ronda a comunidade como um andarilho, e quando não encontra seu lugar, a sombra emerge como força descontrolada e destruidora.

A violência aumenta. O xerife Teasle é capturado por Rambo e não perde sua vida graças somente à intervenção providencial do coronel Trautman. Rambo finalmente reencontra alguém que entende o que significa a violência necessária à manutenção da comunidade idílica e pacífica. E sua confissão ao Coronel Trautman revela as lembranças dos horrores da guerra que povoam o seu espirito, bem como seus sentimentos de rejeição e de inadequação. Rambo paga o preço pessoal, psíquico e espiritual, daquele que é escolhido, ou talhado pela Natureza, para exercer a violência legitimada pela comunidade.

Ao final, Rambo é convencido por Trautman a render-se e é preso pelas autoridades. Mas o conflito que Rambo representa não se resolve, pois a necessidade da violência para a manutenção da paz interna e externa da comunidade faz parte da estrutura da realidade tanto quanto o conflito entre as leis da cidade e as αγραφοι νομοι em Antígona.

A vida individual de Rambo é também uma tentativa contínua de interação da sombra. Como é possível integrar tanta violência em sua nova vida de civil? Como os demais filmes da franquia evidenciam, toda vez que John busca a paz de espírito, ele é trazido de volta à guerra. Seus talentos são solicitados ora pelo governo, ora por particulares. Ele é incômodo por sua própria existência, mas, no final, é indispensável. John Rambo desempenha uma função que tem um preço interior muito alto. "Todos os que tomam a espada, pela espada morrerão", diz o Evangelho de Mateus. Mas qual comunidade pode dispensar seus soldados?
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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Aspectos do simbolismo da ordem em Star Wars

É de conhecimento comum que o diretor americano George Lucas, criador da saga Star Wars, inspirou-se na obra The Hero with a Thousand Faces, de Joseph Campbell, para conceber sua própria mitologia intergaláctica. Não à toa, é possível encontrar em seus filmes inúmeras referências a mitos tradicionais e a doutrinas religiosas e filosóficas ocidentais e orientais. Embora o universo de Star Wars seja cercado de máquinas e de tecnologia avançada, as ações de seus personagens principais são ditadas por valores que transcendem de muito esse âmbito da realidade.

O primeiro Star Wars: A New Hope, por exemplo, é permeado pelo tema da superioridade de uma perspectiva espiritual sobre o horizonte meramente técnico-material. E, curiosamente, uma das cenas mais características dessa hierarquia é protagonizada por Darth Vader, o Lorde Sith, que a defende diante dos oficiais do Império encantados com o "terror tecnológico" da Estrela da Morte.

Na cena, um alto oficial do Império gaba-se do imenso poder de destruição da Estrela da Morte e é interrompido por Vader que afirma que a capacidade de destruir planetas é insignificante diante do poder da Força. Arrogante, o oficial classifica Vader como um "feiticeiro" e sua declaração como uma "triste devoção a uma antiga religião". O que se segue é uma demonstração concreta de Vader do poder da Força, quase asfixiando à distância o oficial, acompanhada por um comentário sarcástico sobre a descrença do militar: I find your lack of faith disturbing.

Assim, manifesta-se que o belicismo tecnológico imperial é um mero instrumento de uma dimensão espiritual mais profunda, ainda que sinistra. O imperador Palpatine, por sua vez, não é um ditador ou um tirano comum, mas o representante de uma linhagem de interpretação da natureza do divino e de suas relações com todos os seres.

Paralelamente, Obi Wan Kenobi também enfrenta semelhante ceticismo acerca da dimensão espiritual da Força. Já embarcados na Millenium Falcon, o mestre Jedi e seu pupilo Luke Skywalker são ridicularizados pelo contrabandista cínico Han Solo que afirma que não crê que haja qualquer coisa que controle e transcenda a todas as coisas. A reação de Obi Wan, ao contrário de Vader, não é demonstrar violentamente a existência da Força, apelando a seus poderes, mas simplesmente sorrir condescendentemente, deixando as coisas exatamente como estão. 

Darth Vader e Obi Wan Kenobi refletem duas concepções simbólicas da ordem da realidade: os cavaleiros Jedi e a República representam a submissão voluntária, harmônica e orgânica das partes em favor da realização do Todo e os Sith e o Império representam a submissão das partes a um projeto de Todo imposto de fora. Os Jedi e os Sith são modos distintos de unificação de todas as manifestações da Força. Os Jedi percebem que multiplicidade não nega a unidade subjacente da Força e respeitam seus diversos modos de manifestação como justos em si mesmos, como aspectos harmonizados no Todo.

Os Sith consideram que a multiplicidade de manifestações da Força unifica-se não somente pela percepção espiritual da unidade subjacente de todas as coisas, mas que ela deve refletir-se palpavelmente na submissão de todas as coisas à unidade imposta pelo representante visível da Força, no caso, o Imperador. Por isso Palpatine e Darth Vader são tão fascinantes. Eles são a encarnação da atraente idéia de que a paz e a ordem só são alcançadas pela imposição de um princípio ordenador externo e irresistível que, de fato, realiza a ordem, ainda que seja por meio da supressão de todo conflito e de toda dissidência advindos das partes.

É interessante notar que, nos eventos cronologicamente anteriores a A New Hope, quando o caráter orgânico da República é ameaçado pela dissidência (fomentada secretamente por Palpatine), a solução encontrada e esposada é justamente a da imposição da ordem por meios bélicos, a saber, a criação de um exército de clones a ser usado contra os separatistas. A vitória de Palpatine acontece justamente quando sua visão de unificação da realidade é voluntariamente adotada pelos cavaleiros Jedi, ainda que com o objetivo de salvar a República.

Note-se, en passant, que um exército de clones simboliza uma força igualmente externa, vinda de fora da República, adquirida por meio do dinheiro, mercenária, cujos constituintes são destituídos de diferenciações e dissenções internas, mas também destituídos de convicção nos valores republicanos. Os clones são um instrumento impessoal que torna evidente a estranha ausência de um exército formado por cidadãos dispostos a defender com suas vidas a República. O Império Galáctico, inaugurado por Palpatine ao fim das guerras clônicas, é simplesmente a consequência lógica da escolha deliberada de uma concepção de ordem política que espelha-se em uma concepção metafísico-religiosa da ordem da realidade.

Em termos espirituais, a atenção do homem, quando voltada para a multiplicidade dos fenômenos, é seguida pelo apego, pela ambição e pelo desejo de controle. Os entes devem todos ser trazidos à ordem e à unidade que serve aos desígnios do Imperador. Já a atenção voltada para a unidade subjacente de todos os fenômenos, a qual revela-se na diversidade de suas manifestações, é seguida pelo desapego e pela negação do ego, o que faz com que os Jedi possuam uma postura serena de respeito desapegado pela multiplicidade dos entes. Luke Skywalker só pode destruir a Estrela da Morte porque abandona os meios técnicos externos e "usa a Força", isto é, sua ação provém justamente da fonte originária de tudo, anterior a qualquer impulso egóico fruto de avaliações enviesadas pelo desejo e pelo medo.

A queda e a posterior desaparição dos Jedi são ocasionadas pela mudança interior de uma percepção espiritual da unidade subjacente dos entes à uma tentativa de manter a sua unidade externa por meio da força e do controle. A ordem 66 realiza o fim material dos Jedi, mas sua derrota deu-se muito antes, em seu espírito.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"Hereditary", liberdade, maldição e ancestralidade

O caráter mais essencial de nossa existência contingente é o fato de que devemos nossa própria existência a outrem, isto é, ao contrário de Deus, não existimos desde sempre e para sempre e não temos em nós mesmos a razão de nossa existência. Não existíamos e passamos a existir e, um dia, não existiremos mais.

Em razão disso, nossa constituição física e psíquica é fruto da combinação de caracteres de nossos ancestrais e parte considerável do que somos está fora completamente de nossa escolha. O que herdamos nos constitui, torna-nos o que somos, mas tudo o que é algo determinado só pode sê-lo na medida em que exibe limites, constrangimentos que definem a coisa no ato mesmo em que restringem todas as outras possibilidades de ser. Não posso ser qualquer outra coisa, somente eu mesmo.

Esse ser que eu sou também exibe um conjunto de possibilidades que pode ou não realizar-se, variando em grau de acordo com as oportunidades externas e as decisões que eventualmente tomo. Nesse cenário, as decisões que nossos ancestrais tomaram também restringem nosso horizonte de possibilidades assim como o expande em outras direções. Em certo sentido, como diriam os gregos antigos, todos estão submetidos à Moira, o lote que lhe cabe no mundo.

Acontece que, aparentemente, o lote de alguns é mais favorável do que o de outros. Não é preciso pensar muito para identificar terríveis circunstâncias herdadas às quais inúmeras pessoas estão submetidas e que fazem o homem questionar a justiça e mesmo o valor da própria existência. Entre as mais comuns fontes de sofrimento, estão as escolhas feitas por nossos pais. 

Obviamente, essas escolhas são inevitáveis, pois as crianças não são capazes de um julgamento responsável acerca da maioria das circunstâncias de sua ainda inexperiente vida. Igualmente óbvio é o fato de que as decisões dos pais podem prejudicar os filhos grandemente, ainda que tomadas na mais pura intenção de realizar o certo e o melhor para seus rebentos. No pior dos casos, tais decisões são tomadas por razões sinistras que destroem as vidas de seus filhos para sempre. 

Qual destino pode ser mais inquietante do que ter a sua vida completamente decidida desde antes de seu nascimento, seja pela imprevisibilidade da Roda da Fortuna ou seja pela decisão de seus genitores ou ancestrais? Esse é caso de Hereditary, certamente o melhor filme de horror de 2018, que apresenta os horripilantes acontecimentos que se abatem sobre uma família após à morte da matriarca.

Desde o início do filme, fica clara a ascendência de Ellen Leigh sobre a família de sua filha Annie (a excelente Toni Collette), pois a película começa com o convite para o funeral da idosa. Tudo girará em torno desse evento e das decisões tomadas por Ellen. Em certo sentido, ela é o centro da trama e a influência maligna que decidirá o destino de todos os envolvidos.

Em seu funeral, Annie faz uma estranha eulogia onde declara que a mãe era uma pessoa difícil e reservada. E acrescenta que não conhece a maioria dos presentes à cerimônia, o que atesta o quanto a mãe tinha uma vida que não compartilhava sequer com sua filha. Esse é um ponto central na trama, pois é justamente o afastamento das duas, mãe e filha, que torna possível o desenrolar ordenado e planejado dos eventos.

Annie é miniaturista, uma artista que cria miniaturas perfeitas de situações cotidianas. O afastamento e o controle caracterizam a profissão de Annie e remetem ao papel de sua mãe na vida de todos à sua volta. Annie vê sua própria vida sob a lente de aumento sem a qual seria impossível criar os diminutos cenários que retratam os diversos acontecimentos passados e presentes de sua família. Note-se que a lente de aumento implica afastamento, mas também observação e controle dos mínimos detalhes. As "vidas" dos bonecos que constrói são controladas de fora pela artista Annie.

O que Annie ainda não sabe é que controle sobre os acontecimentos é justamente aquilo que ela não possui, pois tudo está decidido pelos desígnios sinistros de sua mãe. O que se seguirá é a paulatina perda de controle e de liberdade de todos os membros de sua família e o progressivo desvelamento de um plano com raízes sobrenaturais profundas. Há aí duas hereditariedades, no sentido daquilo que outros decidem sobre nós, uma de ordem natural, a ancestralidade, e outra de ordem metafísica, o poder que certos entes têm sobre o homem.

A mesma tendência artística se manifesta em Charlie, sua filha, que desenha e constrói bonecos, embora em ambos os casos, as obras demonstrem alguma excentricidade. Os desenhos são toscos, feios e apresentam todos os retratados em traços que remetem à loucura ou ao sofrimento. Os bonecos são feitos de materiais incomuns e inadequados que parecem ser torturados para adquirirem as formas que lhes são impostas por Charlie.

Aliás, Charlie parece ser ela mesma uma inadequada. A começar por seu nome masculino, a menina apresenta traços de uma personalidade retraída e ensimesmada, impenetrável e incompreensível.  Ela gosta de isolamento e teima em dormir em uma casa na árvore a despeito das advertências em contrário de Annie. Tudo isso poderia ser atribuído à adolescência, uma fase de mudanças, de meio termo entre a infância e a vida adulta, em que o jovem parece ainda não estar confortável com o próprio corpo e com seu papel no mundo. Mas há algo muito mais sinistro nessa inadequação e que só será revelado no fim do filme.

No funeral de Ellen, olhares estranhos são dirigidos a Charlie, assim como homenagens pouco usuais são feitas ao corpo da avó que é enterrada com um pingente com um símbolo que mais parece um selo. O interessante é que Annie também usa um pingente idêntico, embora não saiba seu significado.  A família, formada também pelo marido de Anne, Steve (o ótimo Gabriel Byrne) e pelo filho mais velho, Peter, retorna ao lar ao fim do funeral.

Obviamente, por mais afastada que estivesse de sua mãe, a morte de um ente próximo é sempre uma situação difícil e Annie tem de lidar com os sentimentos ambíguos que nutre por Ellen em meio ao luto. Ela busca apoio em um  grupo comunitário de enlutados e ficamos sabendo do triste histórico da família. Segundo Annie, sua mãe era bipolar e tinha múltiplas personalidades, seu pai morrera deliberadamente por inanição e seu irmão esquizofrênico se suicidara acusando a mãe de lançar sobre ele as vozes que o atormentavam.

Eis outro sentido da hereditariedade, o que herdamos corporal e fisicamente de nossos ancestrais.  Não pedimos e nem fizemos nada para merecê-lo, mas recebemos, como em uma loteria cósmica, uma série de características deletérias na forma, por exemplo, de doenças ou predisposições a doenças presentes em nossos pais ou em ancestrais mais remotos. Annie, dado o histórico familiar, pode desconfiar que sua saúde mental e a de seus filhos não sejam as melhores.

A própria Annie apresenta episódios de sonambulismo e, a julgar por algumas passagens no filme, também sofreu um surto não muito tempo atrás. Note-se, contudo, que essas doenças, de Annie e de seus pais e irmão, podem ter outro significado. Alterações radicais de ânimo, múltiplas personalidades, sonambulismo, audição de vozes, depressão são encaradas em certos círculos como manifestações espirituais de influência de forças sobrenaturais. E mais, os dois homens da família morrem em circunstâncias trágicas, o pai em um ato de profunda desesperança com a vida e o outro, o irmão, em um ato de desesperada fuga do que acreditava ser a influência nefasta de sua mãe. Doenças mentais os mataram ou a percepção de realidades insuportavelmente sinistras ligadas à Ellen?

O centro da trama, por enquanto,  ainda é Annie e seu luto, mas logo isso mudará e o foco estará na gradativa dissolução de sua própria família. Em certo sentido, há um paralelo entre a tragédia familiar de Ellen e a tragédia familiar de Annie. Ambas serão o vetor da ação demoníaca (a mãe deliberadamente e a filha inconscientemente) e ambas trarão a destruição para os seus, principalmente aos homens.

Charlie tem uma intolerância a amendoim e seu irmão, Peter, ao levá-la a uma festa, deixa-a sem supervisão e a menina come um bolo feito com amendoim. O resultado é um choque anafilático e Peter tenta levá-la a um hospital. No meio do caminho, contudo, com dificuldade de respirar, Charlie coloca a cabeça para fora da janela do carro e é decapitada pelo choque com um poste (que, aparentemente, leva o mesmo selo do pingente de Ellen). O luto que se segue à tragédia expõe e agrava a relação conflitiva que Annie tem com seu filho.

Como era de se esperar, Annie guarda ressentimento contra Peter pela morte de Charlie e o filho sente-se culpado pelo acidente. Graças a um episódio de sonambulismo entremeado por sonhos, o espectador é apresentado a fatos como a tentativa de aborto de Peter, que não aconteceu graças à intervenção de Ellen. Mais ainda, em certo momento do filme, Annie conta que, sonâmbula, havia encharcado seus dois filhos com uma substância inflamável e que estava prestes a incendiá-los com um fósforo aceso quando subitamente despertara de seu torpor. Mais uma vez, a sanidade de Annie pode ser posta em questão ou há aí algum estranho significado oculto?

Steven, o marido e a pessoa mais equilibrada da família, nota a piora no comportamento da esposa e teme que ela esteja próxima de sofrer em algum surto. Com a finalidade de não perturbá-la ainda mais, ele não conta à Annie que recebeu uma ligação da funerária dando conta de uma profanação do túmulo de Ellen. Haverá consequências disso em breve.

Annie, em uma tentativa de retornar ao grupo de apoio de enlutados, é abordada por Joan, uma mulher que alega haver perdido seu neto em um acidente há pouco tempo. Após uma inicial resistência de Annie, as duas  tornam-se amigas e, um dia, Joan confidencia que uma médium conseguira invocar o espírito de seu neto e que ela a ensinara como realizar o ritual de invocação em casa. Annie se deixa convencer, participa de uma sessão conduzida por Joan e recebe desta uma fórmula em língua desconhecida e as instruções para invocar o espírito de Charlie.

É nesse momento do filme que o drama da dissolução de uma família pela dor da perda violenta de um de seus membros dá lugar ao elemento sobrenatural. Annie primeiramente realiza o ritual sozinha e depois, tendo tido sucesso, exige que Steve e Peter participem de uma sessão. O que se segue é uma manifestação espiritual assustadora que, ao final, parece converter-se em algum tipo de possessão temporária de Annie.

O ponto é que, querendo ou não, Annie havia invocado algo que parecia atender pelo nome de Charlie, mas de cuja natureza real ninguém poderia afirmar nada. Se há um mundo de seres espirituais, nada impede que dentre eles haja alguns que possam assumir as identidades dos entes falecidos invocados pelos vivos. Ademais, Annie confessara desconhecer o idioma da invocação, o que aumenta a possibilidade de que aquilo que foi convidado não era o espírito de Charlie.

Peter, enfraquecido pelo remorso e pela culpa, parece estar sendo perseguido por forças ocultas. Ele vê coisas estranhas, entre elas uma luz azulada que se aproxima dele e desaparece. Durante a aula, ele mal consegue prestar atenção ao que é ensinado pelo professor. Mas, para o espectador, o tema das aulas esclarece muito do que acontece durante o filme todo. O professor discute figuras da mitologia e da tragédia gregas, como Hércules e Ifigênia, personagens que têm em comum um destino sobre o qual não tinham responsabilidade direta.

Ifigênia foi sacrificada em Áulis pelo próprio pai, Agamemnon, por exigência de Ártemis, porque ele havia ofendido a deusa ao matar um cervo sagrado. O significado é claro: uma filha morre pelas mãos do pai por exigência de uma potência sobre-humana. Aqui fica claro também que o centro da trama de hereditariedade não era Charlie, mas sim Peter. Ele é a Ifigênia que deverá ser sacrificada por exigência de um deus. E Annie pode ter selado o pacto naquele ritual em língua estranha que ela realizou buscando invocar a filha defunta.

Annie desconfia que pode ter trazido algo sobrenatural naquela séance e decide ir atrás de Joan. Ela não consegue encontrá-la, mas o espectador testemunha que na casa da mulher há um altar com o símbolo estranho do pingente de Ellen assim como uma espécie de trabalho de bruxaria contendo a foto de Peter e vários dos bonecos feitos por Charlie. Além disso, na porta estava um capacho bordado idêntico aos que sua mãe fazia.

Annie volta para casa e revira os pertences da mãe, os quais permaneciam até então intocados em caixas. Lá ela encontra fotos de Ellen com Joan e livros de invocação demoníaca com o estranho símbolo na capa, que ela descobre ser um selo de Paimon, um dos reis do inferno que, em troca de fortuna e de conhecimento, exige um corpo masculino para habitar. Subindo ao sótão, ela descobre, horrorizada, o mesmo símbolo escrito na parece com sangue e o corpo em putrefação da mãe, decapitado, e circundado por velas.

Quando ela tenta queimar o caderno de desenhos de Charlie, que havia usado como forma de ligação com a filha na invocação, Annie começa a pegar fogo. Assustada, pede a Steve que lance o caderno no fogo, mas ele, já desconfiado de que a esposa não estava mais em seu juízo perfeito, recusa-se. Ela toma-lhe o caderno das mãos, lança-o no fogo e é Steve que queima até a morte. Nesse instante, Annie é possuída e, depois, passa a perseguir Peter que, apavorado, refugia-se no sótão.

Lá, ele encontra o mesmo símbolo escrito na parede com sangue, mas, em vez do corpo putrefato de Ellen, está sua foto com os olhos furados. E percebe que sua mãe também está lá, flutuando e cortando a própria garganta com uma corda de piano. Aterrorizado, ele constata que há pessoas nuas na casa observando tudo. Ele se joga da janela e é nesse momento que a luz azulada penetra seu corpo e ele acorda já não mais o mesmo, mas outro. O corpo decapitado de Annie flutua até a casa da árvore na qual Charlie insistia em passar as noites.

Peter (?) se dirige para lá e no caminho há outras pessoas nuas observando tudo. Ele sobe a escada e quando chega na casa encontra uma cena dantesca. Pessoas, algumas nuas e outras vestidas, prostradas em adoração frente a um boneco de madeira segurando um cajado e trazendo no peito o símbolo de Paimon. Prostrados também estavam os corpos decapitados de sua avó e de sua mãe. A cabeça do boneco, contudo, era a cabeça putrefata e coroada de Charlie. E, em uma das paredes, a foto de sua avó com a inscrição "Queen Ellen".

Então uma das adoradoras retira da cabeça de Charlie a coroa e a coloca em Peter e lhe diz que eles haviam corrigido o corpo feminino em que Paimon estava habitando, Charlie, e haviam dado a ele um corpo masculino adequado, Peter. Ele não é mais Peter, mas Paimon, um dos reis do inferno. O filme termina com saudações exultantes dos adoradores prostrados diante de Peter, assim como  estão prostrados diante dele os corpos de sua mãe e de sua avó. O filme termina com uma miniatura da cena, o que indica o caráter de controle de uma potência infernal.

Não há dúvida que Hereditary repete temas de clássicos do horror como Rosemary's Baby. Culto satânico secreto, relação homem-mulher, relação mãe-filho, encarnação do mal no mundo, desconfiança, alucinações, possibilidade de loucura, etc. O filme também pode ser comparado com o excelente The VVitch, onde há igualmente o cerco insidioso de forças demoníacas a uma família, a presença dissimulada de uma convenção de bruxas, a morte dos familiares e o pacto final com as forças do mal.

Por outro lado, simbolicamente, essas forças destrutivas e malignas conjuradas por Ellen podem representar o fardo que todos carregam das escolhas equivocadas de nossos ancestrais bem como da herança genética que se manifesta em doenças, distúrbios psíquicos e tendências deletérias. Fica evidente no filme que a família de Ellen é, de certa forma, amaldiçoada com uma série de problemas físicos e psíquicos. Annie é sonâmbula e parece já ter tido surtos, Ellen era bipolar e tinha múltiplas personalidades, o pai morreu voluntariamente de inanição, o irmão suicidou-se porque ouvia vozes, Charlie era quase autista e era alérgica a certos alimentos e Peter transparece tendências a comportamentos irresponsáveis.

A partir de um ponto de vista racional, a maioria das desgraças da família se deve à grande loteria da Natureza que a uns dá saúde e a outros contempla com desordens mentais e físicas. Não há ninguém a culpar e o que se pode fazer é, quando possível, tentar amenizar os efeitos dessas condições. Nesse caso, o filme aponta para um certo determinismo segundo o qual alguns de nós estamos condenados desde o nascimento seja a repetir os erros de nossos pais e ancestrais remotos, seja a carregar distúrbios psíquicos e físicos igualmente herdados. Como Ifigênia, somos sacrificados por nossos ancestrais e não há nada que possamos fazer quanto a isso.

Cumpre lembrar que Steven, o marido e pai amoroso, é um psiquiatra. Ele representa os meios humanos de lida com essas heranças deletérias, mas, mesmo sendo o mais equilibrado dos membros da família, ele é impotente diante da carreira avassaladora dos acontecimentos e das forças destrutivas que estão em ação ali. Ele hesita, tenta racionalizar e dar alguma ordem ao caos, tenta amenizar os efeitos das manifestações agressivas, procura compreender a esposa e o filho, poupa Annie de notícias que agravariam sua condição. Tudo em vão. Ele acaba sendo uma das vítimas da maldição que assola aquela família. O homem é impotente diante do destino.

Todavia, se mantivermos o elemento demoníaco, o resultado não é menos desalentador. Desde o início, Ellen, e por meio dela, Paimon, estavam no controle de tudo e o desenrolar dos acontecimentos já estava selado. O histórico familiar aparece sob outra luz. O que pareciam doenças e distúrbios psíquicos, provavelmente eram efeitos do pacto demoníaco de Ellen. Suas bipolaridade e múltiplas personalidades, a manifestação de seu conluio com entidades malévolas. A morte por inanição do marido, provavelmente uma reação desesperada à revelação dos laços de Ellen com o oculto e seus planos de encarnação no mundo de Paimon. O suicídio do filho talvez tenha sido uma fuga igualmente desesperada do destino de ser o veículo da vinda do mal ao mundo. E, quem sabe, Annie mesmo não tenha tentado impedir o destino de realizar-se quando quase incendiou os filhos durante um episódio de sonambulismo?

Peter é o receptáculo adequado da hereditariedade do título do filme. Simbolicamente, ele é aquele que é tomado e dominado completamente pelas tendências herdadas a ponto de não ser mais ele mesmo, mas somente o veículo de inclinações subterrâneas que falam e agem por sua boca e por seu corpo. Ele resiste  inicialmente, mas fraqueja e falha ao final. Peter é o símbolo da derrota da afirmação de uma personalidade individual diante das exigências comunitárias e parentais, das forças herdadas que se agitam no interior de cada homem. É a submissão que destrói toda a possibilidade de autodeterminação pessoal.

No fundo, Peter é o não-homem. Nesse sentido, ele harmoniza-se com a tendência moderna de ver no ser humano não um centro racional, moral e autodeterminante, mas somente como o resultado do movimento interno de forças infrarracionais que se manifestam externamente no comportamento e nas ideias dos homens. Nesse caso, Paimon expressa o poder e o controle determinante que essas forças subterrâneas exercem sobre o homem a ponto de curvá-lo a seus "desígnios".

Paimon também representa o conjunto de aspirações e ambições em nome do qual a comunidade não se furta a sacrificar o indivíduo. Os adoradores de Paimon pedem conhecimento, riquezas, bons parentes e a aquiescência de todos os homens às suas vontades. Assim como Agamemnon precisa sacrificar Ifigênia para poder chegar à Tróia e combater os troianos, Ellen e seus seguidores não hesitam em sacrificar Peter para obter o que desejam. O centro valorativo desse culto não está nos ideais transcendentes representados pela Trindade, a qual eles expressamente rejeitam, mas justamente nos bens transitórios oferecidos pelo diabo a Cristo.

Peter é a vítima das escolhas valorativas equivocadas da ancestralidade, seja a comunidade ou seja a família. Isso se expressa não somente pelo culto a um rei do mundo subterrâneo e das forças dissolventes, mas também manifesta-se no boneco que adoram. É uma imagem de madeira sem vida, oca, que imita um homem e cuja cabeça está morta e em estado avançado de putrefação. Sua mão direita aponta para baixo, para os infernos, e sua mão esquerda segura um cajado cuja ponta é também uma mão apontando para a esquerda. À direita de Deus ficarão os eleitos, à esquerda, os réprobos.

O homem-demônio é o resultado final dessas escolhas e dessas tendências ancestrais. E ele é coroado por seus súditos e adoradores e reina sobre eles. Como em Rosemary's Baby, há um nascimento, uma encarnação profana do mal no mundo. No caso de Hereditary, a gestação não é realizada por uma mulher grávida e sim por uma ancestralidade comunitária que decide pelas trevas. Peter não sabe,  mas ele é o vaso de eleição das forças caóticas que o espreitam desde seu nascimento. O mesmo tema da eleição demoníaca aparece recentemente tanto em The VVitch quanto em Kill List.

Há também similaridades com The Antichrist de Lars von Trier, como o trauma da perda de um filho e o luto que a ele se segue desencadeando eventos aterrorizantes que destroem uma família, a relação mãe e filho e a relação marido e esposa, a incapacidade do homem racional (o terapeuta) de lidar com as potências caóticas que se manifestam e acabam por sobrepujá-lo, a afirmação do poder de uma certa ancestralidade sobre os atos humanos, entre outros aspectos sobre os quais não comentarei aqui.

Cabe ressaltar a excelente trilha sonora que, na sequência final do filme, em vez de optar por um tema musical de tensão e de horror, opta por um tema jubiloso, de ascensão espiritual, o que faz o espectador sentir que está diante de um milagre, de um acontecimento portentoso. Essa sensação causa enorme incômodo, pois sabemos que nada ali é divino, não obstante seja, sob certo aspecto, espantoso, maravilhoso. O belo no horror. O contraste entre a trilha e a natureza do evento tem um efeito perturbador que permanece mesmo depois de encerrada a película. É o que se espera de um bom filme de terror.

sábado, 2 de junho de 2018

"The Killing of a Sacred Deer": tragédia, erro e sacrifício

"É a única coisa que consigo pensar que está perto da justiça."
Martin

A tragédia trata sempre das consequências dos atos, divinos ou humanos, estando seus agentes cientes ou não de seu papel como desencadeadores dos acontecimentos. Como Édipo que, embora desconhecesse que Laio era seu pai e Jocasta sua mãe, deve pagar a retribuição pelos crimes de parricídio e incesto a fim de aplacar as funestas consequências de seus atos para a cidade de Tebas.

Aristóteles afirma em sua Poética que o herói trágico é homem de virtude e justiça comuns que, não por conta de depravação ou defeito moral, comete um erro (hamartia) que desencadeia consequências que tornam desafortunado aquele que antes era afortunado, espetáculo diante do qual o público experimenta medo e piedade. O Professor de Estudos Clássicos Malcolm Heath salienta, em sua introdução à Poética, que o termo hamartia não deve ser entendido como um engano de ordem meramente intelectual, excluindo toda e qualquer culpa moral. 

O termo implica apenas que o erro cometido não decorre de um caráter mau, mas de uma má decisão pontual, tomada por ignorância, engano ou por erro moral de maior ou menor responsabilidade. Um dos exemplos que o Professor Heath elenca é o de um engenheiro que, por algum descuido ou negligência, erra em seus cálculos para a construção de uma ponte. A consequência é a queda da ponte e a morte de diversas pessoas. Imagine-se, para defesa do engenheiro, que sua distração foi causada pela perturbadora notícia de que está com câncer. Moralmente culpável, sua negligência seria ao menos compreensível dadas as circunstâncias.

Todavia, as mortes se deram e uma reparação tem de ser feita. Esse é o cerne narrativo de The Killing of a Sacred Deer (2017), de Yorgos Lanthimos. O filme explora a amizade entre o cirurgião cardiologista Steven Murphy e o adolescente Martin que encontram-se periodicamente para conversar. A princípio, tudo parece remeter à relação pai e filho com o doutor dando conselhos, dinheiro e presentes ao jovem. Todavia, logo fica claro que Steven é movido por algo inconfessável.

Casado com a bela Anne e pai de Kim e Bob, o médico tem uma boa vida, uma casa espaçosa, prestígio e sucesso em sua área de atuação. O jovem, no entanto, desde o início mostra claros sinais de inadequação social, timidez, educação excessiva e um certo ar de alienação da realidade. E o motivo presumido dessa sua estranheza reside na recente morte de seu pai, falecido durante uma cirurgia cardíaca realizada por Steven. Fica claro que a amizade entre os dois é fruto do sentimento de culpa do médico.

Os encontros aumentam de frequência e Steven leva Martin para conhecer sua família. Logo Kim, a filha do cirurgião, encanta-se pelo jovem e ambos começam uma relação amorosa. Mas a amizade entre Steven e Martin deteriora-se na medida em que o jovem exige mais e mais atenção, insinua que sua mãe viúva poderia casar com Steven e começa a persegui-lo no hospital. Desconfortável, o médico afasta-se do rapaz e este, por fim, revela-lhe a razão de sua invasiva proximidade: ele culpa Steven pela morte do pai.

Martin culpa Steven e exige reparação. Seu pai fôra tirado dele, então algum membro da família de Steven deverá morrer para que o equilíbrio seja restaurado. Se a escolha e o sacrifício não forem realizados por Steven, seus filhos e sua mulher, um após o outro, sofrerão as consequências. Martin profetiza que, primeiro, perderão o uso das pernas, logo depois não conseguirão comer e, por fim, sangrarão pelos olhos e morrerão.

Bob é o primeiro a perder o movimento das pernas e a deixar de comer. Kim o segue logo depois. Steven, contudo, não crê em Martin e busca soluções médicas, seu métier. Todos os tratamentos falham e ele desespera-se. Anne, por seu turno, desconfia de que algo está errado e descobre que o marido, um alcoólatra recuperado, havia bebido um pouco antes da fatídica cirurgia do pai de Martin. Eis o "cervo sagrado" do título.

Agamemnon, chefe das hostes aquéias, estacionado com suas tropas em Áulis, mata um cervo do bosque sagrado de Ártemis durante uma caça. Como castigo, a deusa interfere nos ventos impedindo que a frota zarpe para Tróia. Calchas, o vidente, adverte Agamemnon que os ventos só retornarão se ele sacrificar sua filha mais velha, Ifigênia, como reparação da ofensa à deusa. O rei hesita e caos cresce no meio das tropas. Premido pelas circunstâncias, ele ordena que a esposa, Clitemnestra, traga a filha a Áulis, sob pretexto de casá-la com Aquiles, a fim de sacrificá-la para apaziguar Àrtemis.

Steven é Agamemnon que deve escolher entre seus entes queridos qual sacrificará para restaur a paz com o divino. Martin é a um tempo o ofendido e o vidente, Àrtemis e Calchis, o divino e o profeta. Anne é Clitemnestra que acabará por concordar com o sacrifício de um de seus filhos. É ela quem questiona Martin sobre por qual razão eles deveriam pagar pelo erro de Steven. Ele responde que é a coisa mais próxima de justiça que ele consegue pensar.

O médico ainda não crê em Martin, sequestra-o, espanca-o e exige que ele restaure a saúde de seus filhos. De nada adianta tentar coagir o ofendido, o sagrado. Assim como no início Steven não conseguira restaurar o equilíbrio com seus meios tímidos, dando alguma atenção a Martin, agora também seus meios violentos e desesperados não funcionarão. O sagrado tem sua lógica própria e demanda satisfação proporcional ao delito. 

Aliás, foi Steven que trouxe o infortúnio para sua casa. Fisicamente, inclusive. Ele convidou Martin a conhecer sua família. Simbolicamente, convidou o sagrado, tentou negociar, entrar em termos com ele. O homem, contudo, não controla essas realidades. O sagrado pode manifestar seu poder, como a proximidade de Martin melhora momentaneamente a saúde de Kim. No entanto, quando Steven sequestra Martin ou quando Kim implora pela cura, Martin nada opera, para o desespero de ambos.  

Anne cuida dos ferimentos de Martin e beija seus pés reverentemente. Não há nada mais que possa fazer. Então, liberta o jovem. Steven protesta. Os olhos de Bob começam a sangrar, o último estágio da profecia de Martin antes da morte. Todos morrerão, um a um, até que o médico convença-se de que deve reparar seu erro?

A hamartia de Steven, causada pela fraqueza do vício e não pela maldade, desencadeou os eventos que tornaram a sua vida desafortunada. A reparação é requerida e Steven, ao final, cede. Encapuza sua esposa, seus filhos e a si mesmo. Armado com uma espingarda, gira e atira a esmo até que atinge seu filho Bob. Não escolhe qual ente querido sacrificar, deixa a decisão à Moira. O sacrifício é realizado. 

Na cena final, Martin encontra com Steven, Anne e Kim em uma lanchonete. Eles não cumprimentam-se. Obviamente, a família está destruída. As ações têm consequências. Desejadas ou não, previstas ou não, e quem agiu deve assumir seus efeitos. Steven e a família saem da lanchonete sob o olhar inexpressivo de Martin. Ao saírem, é a filha a única a fitar diretamente o sagrado.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"Mother!", fatalismo e o mito do eterno retorno

Mother! (2017), de Darren Aronofsky, é um mito cosmogônico sobre a criação e destruição cíclicas do mundo pelo fogo. No centro do mito está a pergunta filosófica radical de por qual razão há o Ser e não simplesmente o nada. Ou ainda, por qual razão Deus inclina-se a criar e não simplesmente isola-se no seio de Seu poder criador?  E, mais profundamente, por qual razão Deus criou os homens?

A história inicia com dois personagens, um poeta e sua esposa que vivem em uma casa isolada de todos. Ele passa por uma crise criativa e busca retomar sua inspiração para uma nova obra. Ela, a fim de criar um ambiente propício ao trabalho do marido, dedica-se a reconstruir toda a casa que havia sido destruída por um incêndio em algum momento do passado do esposo, antes que ambos tivessem se conhecido. A única coisa que restou da casa depois do incêndio foi um cristal que o poeta conserva com todo cuidado em seu escritório. 

O esposo é poeta, alguém cujo ofício é criar a forma perfeita de expressão. Por sua natureza, o poeta é um ordenador das palavras, um criador de ordem, e a poesia pretende comunicar universalmente seu conteúdo a todos que a lêem ou a ouvem. A mulher, a Mãe do título, é a potência geradora, a receptora, a sede das possibilidades já engendradas e das possibilidades ainda não efetivadas. O homem e a mulher, o Logos e a Physis, a Razão e o Poder divinos, o Determinante e o Determinável, Deus e o Mundo são os diversos níveis simbólicos que o mito de Aronovsky abrange.

Até certo momento, Deus e o Mundo, o Poeta e a Mãe, viviam sozinhos. Mas não era suficiente. O Poeta queria mais. Ele queria alguém que o ouvisse e admirasse sua obra. Então o Poeta convida um casal para passar a noite em sua casa. O homem é criado, Adão e Eva entram na casa, isto é, no mundo. Eva não obedece a restrição de não subir ao escritório do poeta e ela e seu marido destroem o cristal que sobrara da casa anterior. O Pecado Original. As consequências desse pecado não tardam a se manifestar. 

Os dois filhos do casal aparecem na casa brigando por herança e pelo amor do pai. O primogênito é morto pelo irmão e, ao tentar separar a briga, o Poeta acaba marcando o jovem na testa. Caim mata Abel e recebe de Deus a marca indelével de seu pecado. O lugar onde o fratricídio ocorre fica também marcado. O mundo nunca mais será o mesmo. A ferida jamais cicatrizará.

Apiedando-se da dor do casal, o Poeta permite que eles tragam seus parentes para uma celebração fúnebre. Ele consola a todos com suas palavras, mas rapidamente a situação foge do controle e a Mãe é obrigada a ver sua casa ser vilipendiada enquanto é exposta à miséria e à ingratidão humanas. Por fim, esgotada sua paciência, ela expulsa aquele gente toda de sua casa.

A Mãe, no entanto, por causa desses eventos, percebe no Poeta uma estranha necessidade de admiração e uma certa leniência com relação aos atos moralmente condenáveis das pessoas a quem ele acolhe. Ao mesmo tempo, o Poeta descuida de seus deveres para com a Mãe. Por que ela não é o suficiente e eles simplesmente não vivem sós e isolados?

Mas é nesse momento que, inadvertidamente, o Poeta não somente consegue finalmente escrever seu poema perfeito como também engravida a Mãe. Tudo parece encaminhar-se para o bem do casal, pois as fontes de inquietação e de conflito parecem haver desaparecido. O Paraíso será, de novo, só do Poeta e da Mãe. O ponto onde Abel é morto por Caim não apresenta mais as marcas do assassinato original. Tudo renovar-se-á. Tudo está em ordem. 

A Palavra do Poeta traz os homens de novo à casa. Eles atendem ao chamado, escutam a mensagem, invadem a casa com suas necessidades e suas carências. O Poeta os ama, acolhe-os, têm necessidade de sua admiração e culto. E é exatamente isso que se segue. Rapidamente, um culto forma-se em torno da Palavra do Poeta, o poema. Sacerdotes são ordenados. Multidões formam-se esperando uma simples palavra do Poeta. 

Os homens o amam. E. logo depois, odeiam-no. Aquele que necessita, facilmente passa a odiar o objeto de sua necessidade. Em instantes, o caos e o horror instalam-se na casa. Conflitos, protestos, assassinatos, roubos, estupros, fanatismos, execuções e toda sorte de desgraças abatem-se sobre a casa. A Mãe vê, em escala ainda maior, o mesmo horror que testemunhara não muito tempo atrás, quando da morte de Abel. 

Ela mesma é atacada, vilipendiada, abusada, violentada pelos homens. Seu filho nasce e o Poeta quer apresentá-lo à multidão. Ela não o quer. Por que não podem viver sozinhos com seu filho? Por qual razão os homens devem participar dessa ordem, já que mostraram-se sempre caóticos e ingratos? O Poeta, não obstante, entrega seu filho às massas. Estas o adoram e, como soi acontecer, em seguida o matam. E comungam de sua carne e de seu sangue. Fazem culto de sua morte e de seu suposto arrependimento. Os homens, em suma, são desprezíveis. 

A referência ao Cristo é óbvia. O Filho de Deus é morto e os assassinos transformam seu crime em religião e afetam arrependimento. A Mãe não suporta essa visão tétrica. Seus filho está morto e os homens não valem a pena. Algo deve ser feito. Ela desce ao fundo da casa, isto é, desce às profundezas da realidade, do caldo de possibilidades inicial que simboliza tanto aquilo que da onde as coisas nascem quanto àquilo no qual as coisas dissolvem-se.

Ela acende o fogo e queima a casa. O mundo é destruído pelo fogo. Das cinzas do mundo, contudo, do coração queimado da Mãe, o Poeta resgata o cristal com que a criação do mundo iniciara. O Poeta a conduz ao princípioisto é, ao tempo atemporal onde se dá o ato criador divino. Ela pergunta-lhe por que fazer tudo de novo. Ele responde-lhe que não pode ser diferente. É de sua natureza criar. Sempre de novo. Eterno retorno.

Simbolicamente, o Poeta é o poder criador divino, o intelecto e fonte ordenadora da realidade. O Deus de Aronofsky, todavia, é constrangido a criar por conta de Sua natureza. É fraco, dependente da admiração dos homens, sedento de ser compreendido em Sua obra, almejando sempre encontrar a linguagem perfeita para comunicar-se com a humanidade. Ilude-se, inclusive, ao considerar que encontrara a fórmula poética perfeita. Entrega-se aos louvores dos homens e espanta-se quando estes matam seu filho. 

Deus, em Mother!, está destinado a sempre tentar mais uma vez, a sempre instar a Mãe a recriar a casa, a sempre convidar os homens a nela habitar, sem aparentemente jamais aprender a lição óbvia de que os homens não merecem tantos benefícios. Seria melhor simplesmente deixá-los fora da casa, expulsá-los da existência, lançá-los à escuridão do Não-Ser e cincunscrever-se eternamente ao amor incondicional da Mãe. 

Bonum est diffusivum sui, diziam os medievais. O Deus de Aronofsky não cria por superabundância de Sua bondade e sim por fraqueza, por uma estranha imposição interna. Sua ação é impelida por uma necessidade que O prende, pela Moira que até aos deuses comanda. À pergunta de por qual razão o mundo existe, a resposta dada é que não pode ser de outra forma, porque há uma necessidade que até a Deus encarcera e que repetirá eternamente o ciclo de horror que testemunhamos desde sempre.

Não há esperança do Fim dos Tempos, da instauração definitiva do Reino de Deus, onde todo mal será afastado para sempre. Não há um Céu ou um Paraíso, "onde o desejo será satisfeito antes mesmo de ser concebido e a satisfação não será menor do que o desejo", como o definiu um teólogo medieval. O que há e que haverá para sempre é essa necessidade crua do ciclo eterno de criação e de destruição, intermediado pelo lamentável caminho humano sobre a Terra. 

A Mãe protesta, mas nada pode contra essa cadeia. Entrega-se à necessidade, morre e nasce de novo. O mundo renasce, como uma nova esposa ao Poeta que, por sua vez, no momento oportuno, exigirá novamente o cristal remanescente do incêndio do mundo anterior, para retomar Sua criação. A Mãe entregará de novo seu coração, seu núcleo, como semente do novo mundo.

A Mãe simboliza tanto o mundo como a "Mãe Natureza", escoiceada por aqueles que moram em sua casa, objeto de seu cuidado perpétuo. Em algum momento, ela cansa-se dos abusos, expulsa seus ingratos habitantes humanos e volta-se ciumentamente ao Criador. Afinal, seria melhor que os homens jamais tivessem existido. 

Note-se que a insatisfação do Poeta com o amor da Mãe indica que a Natureza não reflete suficientemente o divino. O Poeta necessita comunicar-se intelectualmente. Há algo nos homens que não há na Mãe, o que causa sua perplexidade com os atos do Poeta. Por toda a extensão do filme, a Mãe anseia viver com o Poeta em isolamento. A sua insatisfação cresce e alimenta-se da insatisfação do Poeta com a vida isolada. A Mãe percebe e expressa verbalmente a realidade: o Poeta não considera a vida comum com ela como satisfatória e suficiente.

Para o Poeta, o mundo não é suficiente sem os homens. Frequentemente, ele abandona a Mãe e senta-se em diálogo com os homens, recebe sua admiração, sua adulação e depois seu culto. O Poeta ama mais os homens que a Mãe. O Espírito encontra-se alienado de si mesmo na Natureza, mas encontra-se refletido somente no espírito humano. O casamento entre Deus e a Natureza não pode bastar-se em seu isolamento e é necessário haver um ente capaz de reconhecer o Logos contido na obra do Poeta. 

O homem reconhece o Logos, é capaz de dialogar com o Poeta. Mas não importa o quanto o poema seja perfeito, o quanto sua mensagem seja clara, o homem corromper-se-á e corromperá o poema. Não parece haver esperança e o Poeta está condenado a perpetuamente encetar tentativas sempre infrutíferas de fazer-se compreender totalmente. Não pode abster-se de retomar esse curso, pois, como afirma, essa é sua natureza. O fatalismo é completo. Quando Deus é fraco e está preso à necessidade, então o homem vive em uma prisão cósmica submetido a um ciclo perpétuo de decadência e de horror.

A despeito de seu título, Mother!, a Mãe tampouco é protagonista capaz de interromper o ciclo. Ela ama o Poeta e já o amou antes, inúmeras vezes. É de sua natureza, também. Está submetida à Moira tal como o Poeta. Embora pareça perceber claramente aquilo que o Poeta, tal qual um idealista cego e iludido, não consegue perceber acerca da natureza dos homens, a Mãe só é capaz de estabelecer o fim de cada uma das conformações da casa, mas cede sempre ao amor pelo Poeta. A Mãe exerce uma função dentro do ciclo e é instrumento de sua perpetuidade.

É a natureza do Poeta que tem a última palavra. A lei inexorável que enreda a todos submete também a Mãe. Mother! repete um tema mítico tradicional presente em diversas culturas e tradições espirituais, o mito do eterno retorno, no qual há um ciclo perpétuo de criação e de destruição do mundo fenomênico. A angústia gerada pela repetição cíclica engendrou desde cedo a busca por vias  espirituais de libertação dessa roda de encarnações do mundo.

A especificidade do mito cosmogônico de Aronofsky é a aparente impossibilidade de qualquer via de libertação do ciclo. Em particular, nada aparece no filme que indique que para o homem haja alguma esperança seja do advento de um Reino dos Céus por iniciativa divina, seja de uma libertação espiritual individual por meio do ascetismo ou da experiência mística. Os elementos judaico-cristãos do filme (Adão e Eva, Abel e Caim, o Filho de Deus) são engolidos por uma metafísica fatalista que não admite igualmente nenhuma escapatória iluminativa.

O homem é o elemento caótico e degenerador que leva à exaustão a Mãe que, por sua vez, reage periodicamente incinerando a casa (tema mítico da purificação pelo fogo), mas que submeter-se-á novamente ao Poeta que não pode deixar de criar sempre novas versões infrutíferas de seu poema. O homem é uma praga da qual a Mãe gostaria de livrar-se não fosse a insistência cega do Poeta em trazê-lo sempre de novo para a casa.

No fundo, então, a Mãe é hostil ao homem e o vê como um intruso que atrapalha a comunhão ideal entre ela e o Poeta, entre a Natureza e o Espírito. A Mãe não é acolhedora e mantenedora, mas a dona de uma casa na qual o homem não passa de um hóspede (no melhor dos casos) ou de um intruso (na pior) e que apenas suporta a sua presença por causa da idiossincrasia de seu marido, um tolo idealista que não pode furtar-se a convidar esses estranhos à sua casa.

Eis o que o homem é aos olhos da Mãe: um estranho. Um visitante incômodo, um fardo imposto por um marido fraco e débil. A situação do homem é a de um estranho em uma casa que não foi feita para ele e cuja dona o hostiliza porque deseja estar em paz com seu esposo. Melhor seria se ele jamais tivesse sido convidado a entrar na casa, embora nada possa ser diferente do que sempre foi.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"The Mission", a redenção e os caminhos da virtude

"Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos."

JOÃO, 15:13

"Devolve a espada ao seu lugar, pois todos os que tomarem a espada perecerão pela espada." 

MATEUS, 26:52.

"Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada."

MATEUS, 10:34

The Mission (1986), belíssimo filme de Roland Joffé, narra a história da relação conflituosa que entre o padre jesuíta Gabriel (Jeremy Irons) e o mercenário e mercador de escravos Rodrigo Mendonza (Robert De Niro) na região entre o Paraguai e a Argentina durante a segunda metade do século XVIII. Padre Gabriel é um missionário que, líder um pequeno grupo de padres da Companhia de Jesus, embrenha-se na densa selva a fim de fundar uma comunidade (a "Missão" do título) dedicada à conversão dos índios guarani, mesmo sabendo do martírio sofrido por seu antecessor.

No primeiro contato de Gabriel com Mendonza, o padre testemunha os métodos cruéis empregados pelo mercador de escravos para capturar os guaranis. O religioso reconhece a humanidade dos guaranis a ponto de arriscar sua vida para salvar-lhes as almas imortais. O mercador só os enxerga como mercadorias, utensílios a serem vendidos pelo melhor preço. O antagonismo inicial está posto: os dois vivem em mundos morais distintos e inconciliáveis. 

O destino (ou a Providência) tratará de uni-los, contudo. Por causa de uma disputa com seu irmão Felipe pelo amor de uma mulher, Mendonza cai em desgraça. Em um duelo com Felipe, ele comete o fratricídio. Mas assim como Caim carrega em sua testa a marca de sua culpa onde quer que vá, Mendonza também carrega o peso do fratricídio e consome-se pelo remorso. Que oceano poderá lavar o sangue de suas mãos?

Gabriel é sua resposta. O padre vai visitá-lo e o insta a buscar a redenção por meio da penitência. Mendonza une-se ao padre Gabriel em seu retorno à Missão. No caminho, os viajantes são obrigados a escalar o lado de uma alta queda d'água. Mendonza, atormentado pela culpa, carrega, pendurado à sua cintura por uma corda, a carga de suas armas e de sua armadura. O fardo da guerra e da violência. A dificuldade de subir atado a tanto peso é enorme e, ao chegar ao topo, os guaranis cortam a corda e libertam Mendonza.

O mercador de escravos cai em prantos e é efusivamente consolado pelos guaranis. O simbolismo é claro: não é possível subir aos céus com o peso do pecado e da culpa. Não é possível subir aos céus carregando a vida antiga, as armas e a armadura. É preciso abandonar o homem velho para que nasça o homem novo. O guarani que corta a corda que ata Mendonza à vida antiga, simboliza o perdão divino, a redenção garantida à alma purificada pelo arrependimento e pela penitência. "Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento" (Lucas 15:7).

Na Missão de São Carlos, Mendonza é apresentado à simplicidade da vida dos guaranis e à profundidade espiritual dos Evangelhos. Decide, então, tornar-se ele mesmo um jesuíta. Padre Gabriel o recebe na Ordem da Companhia de Jesus como noviço. Todavia, questões mundanas envolvendo os poderes seculares de Espanha e de Portugal colocarão o destino das missões em risco.

O território onde localizava-se a Missão estava sob domínio espanhol, onde a escravidão era proibida. Ocorre que, por conta de um tratado, Portugal assumiria esse território, o que exporia os guaranis ao comércio de escravos permitido pelos portugueses. Enviado pelo Vaticano, o cardeal Altamirano reúne os jesuítas, os representantes das coroas portuguesa e espanhola para decidir se as missões permaneceriam ou não sob proteção da Igreja.

Durante as discussões, Mendonza, sabendo da cumplicidade de Don Cabeza (o representante espanhol) com o tráfico de escravos, acusa-o publicamente. Por obediência a seus superiores, é obrigado a retratar-se. Mas, a questão principal permanece: os jesuítas obedecerão as autoridades seculares e religiosas se forem obrigados a abandonar as missões? Pressionado de todos os lados, Cardeal Altamirano compromete-se a visitar as missões a fim de tomar sua decisão.

Apesar de testemunhar a beleza e a prosperidade das missões, Altamirano exige que elas sejam abandonadas sem resistência pelos guaranis e, principalmente, pelos padres. Aqueles dentre os jesuítas que desobedecerem sua ordem ou que incentivarem os guaranis a resistir ao domínio português serão excomungados. A autoridade espiritual curvou-se ao poder temporal e o que resta à diminuta comunidade jesuíta é decidir a quem obedecer e como obedecer.

Eis o grande dilema: o conflito entre a obediência à autoridade espiritual legitimamente constituída e a obediência aos ditames da consciência que julga apreender uma lei ainda mais profunda. Padre Gabriel e sua comunidade escolhem obedecer à lei da consciência a fim de cumprir a lei de Deus. Mas não do mesmo jeito.

Padre Gabriel escolhe o martírio pacífico ao lado dos guaranis. Mendonza e os outros jesuítas decidem resistir com armas ao assalto das tropas europeias. Aqui, de novo, há antagonismo entre Gabriel e Mendoza. O sacerdote não concebe que a violência seja um meio verdadeiramente cristão de opor-se ao mal e à injustiça. Se Mendonza quer mesmo ajudar os guaranis, que o faça como padre e não como soldado. Gabriel dará a outra face.

Mendonza, por seu turno, não vê outro caminho para ajudar os guaranis que não seja juntar-se a eles na luta contra os invasores. Dar a própria face ao tapa não é o mesmo que dar a face dos outros. Em mais uma cena simbólica, um pequeno guarani resgata do fundo do rio a espada de Mendonza e a entrega a ele. É das profundezas do homem antigo que o ex-mercenário deve trazer os talentos necessários ao combate. Entretanto, agora, essas habilidades não estão mais a serviço da injustiça. Foram reconfiguradas em um pano de fundo completamente diferente.

Mendonza representa o homem convertido que luta contra suas tendências antigas, mas que, por ação de circunstâncias externas a ele, vê-se colocado em uma situação na qual pode dar curso à sua natureza colocando-a a serviço de uma causa encarada como justa. É o que acontece, por exemplo, com Augusto Matraga contra Joãozinho Bem Bem, no conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. A questão é saber se esse homem antigo tem algum lugar na economia do homem novo.

Em caso de resposta negativa, Mendonza retornou ao mercenário que foi e perdeu sua alma. Assim, Gabriel e Mendonza estão novamente separados por mundos morais antagônicos e inconciliáveis. Mas se a ação do ex-mercador de escravos é justa, então suas opções são modos diferentes de um mesmo mundo moral. São caminhos diferentes da virtude. Nem Gabriel ousa determinar isso com certeza, deixando a Deus o julgamento: se Mendonza estiver certo, Deus o abençoará. 

Gabriel aceita o martírio e morre pacificamente conduzindo seu rebanho em procissão, não opondo resistência ao maligno. Mendonza morre no combate, opondo ao maligno a espada daqueles que viveram pela espada. Do ponto de vista mundano, todavia, ambos são derrotados. Um massacre é perpetrado, a Missão é destruída e o paraíso é vilipendiado.

O tema do paraíso perdido é recorrente durante o filme. As missões são, diversas vezes e pela boca de personagens muito distintos entre si, comparadas ao paraíso terrestre. Ao fim, os acontecimentos parecem demonstrar mais uma vez que não é possível "construir o Éden com os meios da Queda", como afirmava Cioran. O cardeal Altamirano, diante da afirmação cínica do representante português de que simplesmente o mundo é assim mesmo, relembra a responsabilidade humana: "fomos nós que o fizemos assim. Eu o fiz assim."