quarta-feira, 27 de julho de 2011

Experiência e filosofia natural na Idade Média

"Qualquer coisa que é haurida da evidência dos sentidos é superior àquilo que é oposto à observação; uma conclusão que é inconsistente com a evidência dos sentidos não deve ser sustentada; e um princípio que não concorda com o conhecimento experimental dos sentidos não é um princípio, mas o oposto disso. (...) O raciocínio deriva e garante uma conclusão, mas não a torna certa e nem remove a dúvida de tal forma que a mente possa descansar sobre a intuição da verdade, a menos que a descubra por via da experiência."

ALBERTO MAGNO, Comentário à Física de Aristóteles


O estudo dos fenômenos naturais, a Filosofia Natural, teve seus acanhados inícios na Idade Média antes ainda das traduções das obras físicas de Aristóteles no século XII e XIII. Adelard de Bath, como mostramos em um post anterior, já havia definido uma clara distinção entre o projeto teórico de estudo do mundo natural e as exigências da teologia no século XII.

Presos a um conhecimento parcial das obras peripatéticas, praticamente restrito ao corpo lógico dessa tradição, os filósofos naturais medievais encararam seu campo de estudo a partir de um ponto de vista eminentemente lógico-formal. Com as traduções das outras obras deAristóteles, chega a tradição de um pensamento firmemente fincado no mundo empírico.

Em sua Física, o filósofo grego declara que o filósofo natural lida com um mundo formado de seres móveis, ou seja, seres que atualizam potencialidades que estão inscritas em suas naturezas. Todas as operações desses seres derivam-se dessas potencialidades definidas por suas naturezas, e conhecê-las é conhecer realmente suas causas.

As naturezas - ou Formas, Eidos -são conhecidas por um processo que, necessariamente, inicia-se pelos sentidos. Os sentidos nos fornecem seres singulares e pela sua observação, a imaginação gera fantasmas e, através destes, a abstração separa o essencial daquilo que é material e alcança a natureza, que é geral e se encontra instanciada inteiramente em cada um dos seres concretos que os sentidos nos fornecem.

O que nos é mais acessível - os diversos exemplares concretos que nos vêm pelos sentidos - não é o primeiro na ordem do ser. Em outros termos, a causa das coisas é sua natureza, compartilhada por todos os exemplares concretos, que só é alcançada por um processo mediado pelos sentidos, mas que não pára neles.

A natureza será traduzida numa definição formal que, em conjunto com outras premissas, servirá como premissa numa demonstração que será verdadeiro conhecimento. Assim, o ideal do conhecimento aristotélico é empírico e indutivo em suas premissas hauridas diretamente pela experiência comum dos sentidos e demonstrativo por sua estruturação lógica.

Ora, esse conhecimento preenche plenamente o ideal de epistemé ou scientia, ou seja, conhecimento certo e infalível. Uma vez que as premissas são indubtávelmente verdadeiras, nenhum erro poderá ser deduzido delas. Em outros termos, o que sustenta o conhecimento é a verdade das premissas, hauridas pela indução e abstração a partir de exemplares concretos dados aos sentidos.

Tudo o que a coisa é - sua essência -, tudo o que a coisa pode fazer ou sofrer - suas operações e potencialidades - segue-se de sua natureza, sua causa real. Dessa forma, não é difícil entender que os filósofos naturais medievais, enquanto verdadeiros aristotélicos, enfatizavam o uso da experiência empírica comum, mas não se dedicassem a testar em experimentos suas teorias.

Ora, se algum filósofo natural que saber se uma teoria é verdadeira, basta perguntar-se sobre suas premissas. Se elas são hauridas diretamente da experiência ou puderem ser logicamente deduzidas de princípios ou premissas sabidamente verdadeiras, então sua verdade está demonstrada.

O método (da ciência moderna) de derivar logicamente de teorias algumas consequências ou predições e de testá-las num ambiente controlado - e por definição, "não-natural" - não poderia atrair um aristotélico medieval. E isso por motivos estritamente lógicos e metodológicos. Em primeiro lugar, são as premissas que sustentam o argumento ou a teoria e não o contrário. Tentar provar a teoria por suas consequências ou predições é esquecer-se que de premissas falsas podem ser derivadas conclusões verdadeiras. Por conseguinte, nada pode ser provado sobre a verdade da teoria.

Em segundo lugar, por esse método, qualquer conjunto de dados pode ser harmonizado com um conjunto indefinido de teorias. Consequentemente, jamais poder-se-ia provar definitivamente uma teoria, uma vez que é impossível afirmar que não há uma alternativa igualmente adequada aos fatos.

O filósofo natural medieval não queria um conhecimento meramente provável ou probabilístico, mas um conhecimento certo que se derivasse diretamente da natureza das coisas. Longe de ser um desprezo da experiência, sua postura era antes uma confiança insuperável na verdade da mesma e na racionalidade do mundo.

O mundo é um cosmos, um ente dotado de seres que se relacionam ordenadamente uns com os outros segundo suas naturezas intrínsecas e imutáveis. É a natureza - Forma ou Eidos - que garante a inteligibilidade e a ordem do mundo. Se este se apresenta ao homem de forma ordenada, é porque as coisas têm naturezas intrínsecas e suas operações e movimentos - suas atualizações de potencialidades - são determinadas por aquelas. A experiência nos dá testemunho dessa ordem racional. O mundo é inteligível e pode ser estudado racionalmente. Por isso, o conhecimento é certo e demonstrável.

Esse pressuposto básico será duramente criticado já no final do século XIII e desse questionamento surgirá uma nova forma de filosofia natural, restrita ao âmbito do mero provável e ancorada em experimentos dados somente na imaginação.
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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Newton teólogo II: o ariano e o Apocalipse


Isaac Newton acreditava que o Cristianismo havia sido corrompido no quarto século pela introdução de uma doutrina herética segundo a qual Jesus seria da mesma natureza que Deus Pai (homoousios) e que, com o Espírito Santo, eles formariam uma trindade consubstancial e indivisível. A doutrina trinitária trouxera para o seio da Igreja o maior dos pecados: o culto idolátrico. Cristo, então, se tornara um deus a ser cultuado com a honra e a adoração devidas ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Um pecado de tal magnitude, Newton considerava, teve e ainda teria consequências funestas e terríveis.

Não é de se admirar que esse evento se tornasse a pedra angular da interpretação newtoniana das profecias bíblicas. O físico inglês se dedicara ao seu estudo desde a década de 1670, e continuou a escrever inúmeros manuscritos sobre esses assuntos, os quais revisava constantemente, pelos quase cinquenta anos que se seguiram. Após a sua morte, um único volume conheceu publicação: "Observations upon the Prophecies of Daniel and the Apocalypse of St. John" (1733).

Richard Westfall informa em sua magistral biografia "Never at Rest" que Newton considerava que a essência da Bíblia estava mais na profecia da história humana do que na revelação de verdades suprarracionais sobre a vida eterna, e que não havia em toda a Escritura um "livro mais recomendado e mais guardado pela Providência" que o Apocalipse joanino. (p.319)

Com o intuito de perscrutar seus segredos, Newton recolheu toda a informação disponível à sua época para esclarecer o sentido das linhas proféticas da Bíblia. Seu rigor matemático o levou a introduzir uma metodologia rígida na sua interpretação que intentava torná-la livre das fantasias alegóricas e pessoais e aproximá-la o máximo possível do ideal de uma ciência demonstrativa. Entre as suas regras estão: 

"Atribuir um único sentido a uma passagem; manter um único sentido para as palavras dentro de uma visão; dar preferência ao sentido que estiver mais próximo do sentido literal da palavra, exceto onde uma alegoria é claramente exigida; aceitar o sentido que se segue mais naturalmente do uso e da propriedade da linguagem e do contexto; preferir interpretações que, sem deturpação, reduzam as coisas a uma maior simplicidade; as interpretações devem aplicar-se aos mais importantes eventos de uma era, e não aos obscuros." (Westfall, p. 326)

Newton não se concentrou em relacionar as profecias aos eventos de sua época, mas sim a julgar a história humana a partir de seu evento mais importante, a Grande Apostasia, iniciada no quarto século pela introdução da doutrina herética e idolátrica da divindade de Cristo, o que desviou os cristãos do culto do único e verdadeiro Deus. 

A interpretação newtoniana é complexa e intrincada, estendendo-se por inúmeros manuscritos constantemente reescritos. Embora seja impossível reproduzir aqui todos os seus detalhes, é possível apontar, por exemplo, que Newton interpretava a abertura dos sete selos no Apocalipse como sucessivas eras na História da Igreja. O sétimo selo revela o início da Grande Apostasia, em 381, quando Atanásio, apoiado pelo imperador Teodósio, consegue vencer os debates conciliares e estabelecer a doutrina trinitária.

Ali começa a adoração da Besta e de sua Imagem, ou seja, da Igreja e do Império Romano. Iniciam-se as depravações, deturpações bíblicas, cultos heréticos, profanos e pagãos, nascem as superstições mais baixas, como a adoração das "relíquias carcomidas de desprezíveis plebeus" (Westfall, p.323), entre outras tantas abominações. Por causa desses pecados, seis ondas de invasões bárbaras assolam o Império, correspondendo às seis trombetas que soam depois do sétimo selo.

A verdadeira Igreja era aquela dos que não se prostituíram na idolatria, um resto, pouquíssimas pessoas escolhidas por Deus, livres de interesse ou do assentimento submisso à educação recebida ou às autoridades temporais, e que se colocam diligentemente na busca pela verdade. Entretanto, a restauração final do verdadeiro culto a Deus não se daria ainda na sua época, mas duzentos anos depois, quando se completassem os 1260 anos de apostasia, cujo ápice se encontrava na quarta trombeta, no ano de 607 D.C.

Quando soar a sétima trombeta, Cristo retornará e porá fim ao período de apostasia, ressuscitando os mortos, recompensando os bons e castigando os réprobos. Os reinos do mundo serão dissolvidos e substituídos pelo verdadeiro Reino de Cristo, que dará fim à falsa Igreja, institucionalizada, secularizada e idólatra. Ário e seus seguidores terão, enfim, vencido a luta contra a Grande Apostasia. Newton, portanto, não enxergava no "fim do mundo" um evento cataclísmico que encerraria a História, mas um restabelecimento da verdadeira e única religião em todo o mundo. Sua postura traz em si uma tintura milenarista, na qual o Reino de Cristo se instaura neste mundo. 

É inegável que a interpretação de Newton só tem validade para aquele que compartilha de sua premissa central, a ideia de que a Grande Apostasia repousa na adoção da doutrina trinitária no quarto século. Para a maioria dos cristãos, romanos, ortodoxos, anglicanos, e boa parte dos protestantes clássicos, esse partis pris é absolutamente inaceitável. A adoção do arianismo determina não só sua interpretação das profecias contidas nas Escrituras, mas também a sua concepção de Deus e da Escatologia final.

As consequências de suas crenças, contudo, não se limitaram ao plano teológico ou confessional. Uma das mais amargas foi a necessidade de permanecer privadamente herético em um ambiente majoritariamente ortodoxo. Em outros termos, Newton teve sempre que disfarçar suas concepções arianas para viver no mundo protestante anglicano. As suas invectivas contra os partidários do trinitarismo tinham que permanecer confinadas aos seus manuscritos pessoais ou, no máximo, serem murmuradas na solidão de seus aposentos.

Ironicamente, Newton pertencia ao Trinity College, na Universidade de Cambridge. A fim de assumir seu cargo como professor lucasiano em 1669, teve de jurar conformidade de fé com a Igreja Anglicana, e em 1675 foi obrigado pelas regras da faculdade a se ordenar clérigo. A situação era dramática para Newton, pois de um lado estavam suas inegociáveis convicções arianas e, de outro, a perspectiva de ser defenestrado da faculdade e perder todo o apoio material e financeiro que tornavam possíveis suas pesquisas. 

Quase no último momento, Newton foi salvo por um decreto real que dispensava da ordenação sacerdotal os professores do Trinity College. Assim, o físico e matemático permaneceu ali como professor, negando secretamente a mesma Trindade sob cuja proteção a sua faculdade se colocava piedosamente.
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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Newton teólogo: o discípulo de Ário

"Bem antes de 1675, Newton já havia se tornado um ariano no sentido original do termo. Ele reconhecia Cristo como o divino mediador entre Deus e o homem, que era subordinado ao Pai que o criou. Cristo recebeu o direito de ser venerado (embora não com a adoração devida ao Pai) por ter se humilhado e por ter sido obediente até a morte. O homem Jesus era para Newton não a união hipostática da divindade com a natureza humana em uma pessoa, mas o logos criado encarnado num corpo humano, de tal forma que ele, e não o homem, pudesse sofrer na carne. Por sua obediência, Deus o exaltou e o elevou ao lugar à Sua direita." (tradução minha do original em inglês, itálico no original)

RICHARD WESTFALL, Never at Rest - A Biography of Isaac Newton, p.313

Além de seu comprovado envolvimento com a Alquimia, Isaac Newton dedicou-se durante toda sua vida intelectual às questões sutis da Teologia. Seu interesse nessas matérias data de antes de 1672 e se estende pelo resto de seus dias. Tais estudos, contudo, tinham um caráter privado e permaneceram desconhecidos do mundo acadêmico até a descoberta feita por John Maynard Keynes na primeira metade do século XX. A razão do segredo foi compreendida quando o conteúdo dos manuscritos teológicos foram revelados.

Isaac Newton, o patrono das ciências, ao contrário do que muitos poderiam esperar, não era indiferente às questões religiosas, mas sim um abnegado estudioso de Teologia que gastou anos de sua vida pesquisando a história do Cristianismo, bem como perscrutando as Sagradas Escrituras e os escritos dos Padres da Igreja. Os resultados dos seus estudos, entretanto, o conduziram a abandonar secretamente a ortodoxia e a abraçar a heresia ariana. 

Segundo Richard Westfall, na biografia "Never at Rest", Newton estudou privadamente quase todos os grandes autores da tradição cristã: "Atanásio, Gregório Nazianzeno, Jerônimo, Agostinho, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Eusébio, Eutíquio, Alexandre de Alexandria, Epifânio, Hilário, Teodoreto, Gregório de Nissa, Cirilo de Alexandria, Leão I, Vitorino, Rufino, Manêncio, Prudêncio e outros." (p. 312)

O seu principal interesse residia nas controvérsias cristológicas e trinitárias do quarto século que definiram dogmaticamente a natureza divina de Jesus. Segundo Newton, uma grande fraude teria ocorrido nessa época, e suas consequências funestas se estendiam até seus dias. A fraude começara quando Atanásio, o egípcio, venceu a polêmica contra Ário, introduzindo a doutrina da Trindade e, por conseguinte, da divindade de Cristo.

Newton acreditava que o centro dessa doutrina estava na fórmula grega homoousios (ὁμοούσιος, "a mesma substância" ou "a mesma natureza") utilizada no Concílio de Nicéia (325 D.C.) para descrever a relação existente entre o Pai (Deus) e o Filho (Cristo). O dogma proclamado afirmava uma Trindade consubstancial e indivisível, na qual Cristo seria a sua segunda Pessoa (hipóstase, ὑπόστασις), em quem a natureza divina e a natureza humana estariam unidas hipostaticamente e sem mistura na Encarnação.

A palavra homoousios foi usada originalmente por Alexandre, bispo de Alexandria, na sua acusação de heresia contra Ário, e retomada depois nas definições de Nicéia. Uma série de deturpações das Escrituras teriam sido feitas pelos hierarcas da Igreja, principalmente Atánasio, para tornar a doutrina trinitária aceitável. E, como consequência, apontava Newton, o erro e a heresia se espalharam em formas variadas que iam desde a concentração de autoridade nas mãos dos eclesiásticos até à introdução da "perversa instituição" do monaquismo.

Entre 1672 e 1675 Newton define sua cristologia ariana na qual Cristo não é da mesma natureza que Deus Pai, mas sim o Logos encarnado que, por sua obediência, foi digno de receber a honra e a exaltação. As Sagradas Escrituras, segundo o físico, jamais usam o termo "Deus" (θεός) referindo-se a nenhum outro ser que não o Pai. O Filho sempre confessa nos Evangelhos a sua dependência com relação a Deus, além de reconhecer que o Pai é maior que ele e que unicamente Deus tem a presciência de todas as coisas. A união entre Jesus e o Pai é aquela que existe entre os santos e nada mais.

Quanto ao prólogo do Evangelho de João, que diz expressamente "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus", Newton responde:

"Quando, depois que alguns heréticos tomaram Cristo por um mero homem e outros o viram como o supremo Deus, São João, no seu Evangelho, quis determinar sua natureza [de Jesus], de tal modo que os homens pudessem ter a partir daí uma apreensão correta dele e evitar aquelas heresias, ele usou, para esse fim, chamá-lo Palavra ou Logos. Devemos supor que ele entendia esse termo no mesmo sentido em que era usado no mundo antes que ele o usasse, quando aplicado da mesma forma a um ser inteligente. Pois se os discípulos não usassem as palavras da forma como as encontravam, como poderiam esperar ser corretamente compreendidos [?]. Ora, o termo Logos antes que São João escrevesse, era geralmente empregado no sentido dos platonistas, quando aplicado a um ser inteligente, e os arianos o compreenderam no mesmo sentido e, por conseguinte, deles é o verdadeiro sentido de São João." (p. 316)

Westfall assevera que Newton via Atanásio como o heresiarca-mor, aquele que havia corrompido o Cristianismo, inoculando um veneno que até a Reforma fora incapaz de extirpar. Semelhantes opiniões, é claro, o físico mantinha privadamente, de tal modo que, após sua morte, seu secretário pessoal não se furtara em louvar publicamente a sua perfeita ortodoxia em matéria de religião.
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sábado, 2 de julho de 2011

Jeova Sanctus Unus: Newton e a Alquimia

“Uma das maiores paixões de sua vida, como testificado por um vasto corpo de papéis que se estendem por trinta anos, um propósito o qual incluiu contato com círculos alquímicos como é atestado por suas cópias de tratados não publicados, permaneceu largamente escondido da visão do público e permanece como tal até hoje.” (tradução minha do original em inglês)

RICHARD WESTFALL, Never at Rest - A Biography of Isaac Newton, p.289

A relação de Isaac Newton com a Alquimia ficou definitivamente comprovada com a revelação em 1942 da existência de certas obras até então não publicadas. Seis anos antes, o economista britânico John Maynard Keynes comprara em um leilão um lote de manuscritos classificado como “impróprio para a publicação” (“not fit to be printed”) após a morte do sábio inglês em 1727.

Desde então, os estudos acerca das influências alquímicas na obra de Newton já geraram clássicos acadêmicos como “The Foundations of Newtons’s Alchemy” (1975) e “The Janus Faces of Genius: The Role of Alchemy in Newton’s Thought”, ambos de Betty Jo Dobbs. A erudita e definitiva biografia “Never at Rest” (1980), de Richard Westfall, conta com um capítulo dedicado aos estudos alquímicos de Newton no qual o autor mostra que Newton dedicou-se avidamente aos experimentos e à leitura de obras de Alquimia.

A despeito de todo o estudo e de todos os esforços feitos até aquele momento, Westfall afirma que muitas lacunas importantes sobre os interesses alquímicos de Newton permaneciam abertas. As anotações do físico trazem diversos nomes de autores cujas identidades ainda são ignoradas, além de encontros com personagens misteriosos que Westfall especula (ele mesmo admite) que tenham sido eventos com “motivação alquimista”.

O que não é especulação é que Newton inicia seus estudos sobre Alquimia pelo ano de 1669. A extensa série de obras alquímicas, grande parte delas copiadas à mão pelo próprio Newton, sugere fortemente o contato com uma “sociedade de alquimistas ingleses largamente clandestina”(p. 286). A origem desses livros é desconhecida.

É certo também que quando de sua morte, a coleção alquímica de Newton contava com cento e setenta e cinco volumes, entre livros e panfletos, perfazendo dez por cento de sua biblioteca. A referida coleção incluía volumes anteriores ao século XVII e obras de autores contemporâneos como Sendivogius d’Espagnet e Eirenaeus Philalethes, objetos de atento estudo por parte do físico e matemático inglês.

Westfall, que teve acesso aos manuscritos alquímicos de Newton, estima que ele tenha devotado mais de um milhão de palavras à Alquimia. Ainda segundo o biógrafo, Newton copiou e estudou, entre muitos outros, o “Secrets Reveal’d” de Philalethes, o “Novum Lumem Chymicum” e o “Arcanum Hermeticae Philosophiae Opus” de Sendivogius, “Symbola Aurae Mensae Duodecim” de Michael Maier, “Opera” de George Ripley, alquimista medieval, “Triumphal Chariot of Antinomy” de Basil Valentine, as coleções de tratados “Theatrum Chemicum” de Elias Ashmole, “Turba Philosophorum”, “Ars Auriferae”, “Musaeum Hermeticum”, além de citar em suas notas de estudo as autoridades de Morienus, Hermes Trismegistus, Tomás de Aquino e Bacon.

Não obstante, adverte Westfall, o objetivo de Newton era precipuamente penetrar nos símbolos alquímicos e descobrir o processo comum a todas as transformações da Obra e, por isso mesmo, considerava que a Alquimia estudava as mudanças que ocorrem nas substâncias materiais. Sendo assim, os seus estudos carregam a marca da experimentação contínua e do rigor matemático e racional, inclusive na aplicação de medições, algo não muito comuns na literatura ou na prática alquimista. Mostra-se aí o método newtoniano, agora nas searas da Alquimia, de deduzir leis fundamentais a partir da observação atenta dos fenômenos e sua posterior extensão indutiva a domínios diferentes do campo originalmente observado.

Jeova Sanctus Unus (anagrama de Isaacus Neuutonus), foi o pseudônimo alquímico utilizado por Newton durante seus estudos e experimentos que, longe de buscarem objetivos vulgares como a transformação de pedra em ouro, tinham o objetivo de encontrar a verdade e a sabedoria. Segundo Westfall, foi essa busca incessante pela verdade que fez com que Newton logo se sentisse insatisfeito com os resultados do mecanicismo que ele mesmo postulara em seus tratados de Física.

Se, de um lado, no “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica” (1687) Newton rejeitava o uso de “hipóteses não diretamente deduzidas dos fenômenos” na Física, de outro, na Alquimia, ele esposava princípios de uma ordem que ultrapassa o caráter inerme da Natureza considerada mecanicamente.

“Na filosofia mecânica, Newton encontrou um enfoque da natureza que separou radicalmente o corpo do espírito, eliminou o espírito das operações da Natureza e as explicou somente pela necessidade mecânica das partículas de matéria em movimento. A Alquimia, ao contrário, oferecia a incorporação quintessencial de tudo aquilo que a filosofia mecânica havia rejeitado. Ela olhava para a Natureza como vida e não como máquina, explicava os fenômenos pela agência ativante do espírito e afirmava que todas as coisas eram geradas pela cópula dos princípios masculino e feminino.” (Westfall, p. 299)

Influenciado pela Alquimia e pelo “platonismo de Cambridge” (Henry More, em especial), e instigado pelo desejo de refutar o ateísmo que julgava depreender-se da Física de René Descartes (um universo físico constituído somente por extensão e movimento obedecendo inflexivelmente a leis mecânicas de choque e tração sem qualquer intervenção divina), Isaac Newton, nos diz Westfall, teria buscado uma solução que ultrapassasse o fantasma do mecanicismo estrito. Nisso constituiria a “rebelião” de Newton (título sugestivo do capítulo de “Never at Rest” dedicado às pesquisas alquímicas e teológicas newtonianas).

Philip Ashley Fanning, em seu livro “Isaac Newton and the Transmutation of Alchemy” defende que o teor positivista do “Principia” tinha como objetivo duplo encobrir e proteger as crenças alquímicas de Newton. Dessa forma, o físico poderia explanar uma teoria mecanicista e, ao mesmo tempo, advertir o leitor de que seu ponto de vista não significava uma afirmação acerca da natureza dos fenômenos físicos, mas tão somente uma descrição matemática de seu comportamento através de propriedades hauridas na observação direta.

No plano dos princípios matemáticos da filosofia natural tudo poderia ser apreendido pela observação meticulosa sem a tentativa de construir “hipóteses” sobre a natureza daquilo que fora observado. Estava fora de dúvida que o comportamento das grandezas no mundo podia ser descrito a partir de princípios matemáticos e mecânicos. Se o mundo é de facto constituído exclusivamente de partículas materiais em movimento, isso já é uma questão à qual a filosofia natural parece não poder responder sem ultrapassar seus limites metodológicos intrínsecos.

Todo esse discurso newtoniano teria como fonte não uma manifestação de humildade apenas retórica, mas um desejo sincero de preservar o âmbito próprio daquilo que está para além do mecanicismo, e de também ocultar uma série de opiniões que estariam em pleno desacordo com a ortodoxia científica que se formava em seu tempo.

Não é possível ignorar ou subestimar um elemento importante que pode ajudar a compreender o caráter privado das convicções alquímicas de Newton: a natureza secreta de todo o hermetismo. Se Newton fez parte realmente de um grupo de alquimistas clandestinos, como quer Westfall, então nada seria mais natural do que um esforço calculado de ocultação, ou mesmo de despistamento, com o fim de evitar os olhares dos curiosos e, principalmente, dos incapazes de compreender a Obra.

A forma como a Alquimia e as influências platônicas e teológicas estão presentes na obra científica de Newton ainda são objeto de discussão e demandam estudos mais aprofundados. O que está claro pela pesquisa histórica e pelo advento dos manuscritos de Keynes é que Newton tinha interesses que iam muito além do campo da Física e da Matemática. Interesses que adentravam em esferas consideradas irracionais pela tradição iluminista que, a partir do século XVIII, vai eleger Newton seu patrono e profeta. Mas certamente confirma-se aqui a regra de que os mestres são sempre mais interessantes e sutis do que seus discípulos e, principalmente, do que aqueles que se pretendem defensores de suas obras.

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