"É sabido, através da tradição a esse respeito, que numerosas figuras da primeira era do Islã julgavam que a Revelação comportava o evidente e o velado, e que não era necessário que conhecessem o velado aqueles que não são homens aptos a possuir a ciência e que, por isso, seriam incapazes de compreendê-la."
AVERRÓES, Kitab Fasl Al Maqal,26
Abu Al Walid Mohammed Ibn Ahmad Ibn Mohammed Ibn Rushid, conhecido entre os latinos como Averróes, nasceu em Córdoba em 1126 e faleceu em Marrakesh em 1198. Filho de um famoso jurista, recebeu uma educação esmerada que incluiu estudos de teologia, direito, medicina, matemática, astronomia e filosofia.
Sábio inconteste, Averróes ficou conhecido no mundo ocidental por seus excelentes comentários às obras de Aristóteles. Se este recebeu o eíteto de “O Filósofo”, Averróes foi aclamado como “O Comentador”. Sua influência no pensamento medieval foi imensa, particularmente sobre os gênios filosóficos de Alberto Magno e de Tomás de Aquino.
Averróes não foi somente um comentador de Aristóteles. Ele também envolveu-se em polêmicas religiosas e filosóficas. É de sua autoria o Tahafut Al Tahafut ("A Incoerência da Incoerência"), escrito em resposta ao Tahafut Al Falasifa ("A Incoerência dos Filósofos") do teólogo sufi Abu Hamid Al Ghazzali, a fim de defender a Falsafa, escola que reivindicava o uso da herança filosófica grega clássica.
Contudo, sua defesa da filosofia não se restringiu à polêmica ácida com Al Ghazzali. Por ironia, um dos escritos mais famosos deAverróes não é um tratado filosófico, mas uma fatwa, ou seja, um parecer legal de natureza jurídico religiosa versando sobre a proibição ou a permissão de algo. Trata-se do Kitab Fasl Al Maqal (“O Discurso Decisivo”). A questão central do texto é se o estudo da filosofia helênica e das ciências da lógica é:
1) Permitido pela lei religiosa islâmica (Shariah);
2) Condenado;
3) Prescrito como recomendação;
4) Prescrito como obrigação.
Averróes inicia seu parecer afirmando que se a filosofia é o exame racional dos seres e se a lei religiosa recomenda aos homens refletir sobre os seres, então a filosofia é recomendada e obrigatória. “Refleti, ó vós, que sois dotados de clarividência” diz o Qur'an.
Se o muçulmano deve refletir sobre os seres, então ele deve estudá-los racionalmente. E só pode fazê-lo por meio de inferências, sendo a melhor delas a demonstração. E para construir demonstrações, é necessário estudar lógica a fim de saber quais são os tipos de argumentos possíveis. Onde mais pode o muçulmano encontrar estudos avançados nesse tema da lógica? Nos antigos gregos, obviamente. Sendo assim, proibir aqueles capazes de tal estudo é desobedecer à lei corânica.
Visto que o próprio texto do Qur'an exige a busca pelas razões dos seres, então jamais haverá real contradição entre aquilo que é demonstrado racionalmente e aquilo que é revelado pelo Profeta, diz o filósofo cordobês. Afinal, a verdade sempre concorda com a verdade. Não obstante, se alguma contradição aparente se fizer notar entre o sentido imediato e óbvio do Qur'an e alguma conclusão de uma demonstração racional, então é necessário interpretar o sentido literal do texto.
E se houver um consenso entre os sábios acerca do significado óbvio de uma dessas passagens corânicas que eventualmente pareçam contradizer uma demonstração racional? Será correto interpretá-la? Havendo, de fato, esse consenso, então não será correto interpretá-las. Contudo, o consenso é impossível porque não são jamais conhecidas as opiniões de todos os sábios de uma época.
Por outro lado, desde o início do Islã os sábios afirmam a existência de um sentido exotérico (Zahir) e de um sentido esotérico (Batîn) do texto sagrado. Por conseguinte, não é possível um consenso acerca do sentido óbvio do texto corânico. Ademais, Averróes assevera, o Qur'an se dirige aos três tipos de homens:
I) Aqueles que se convencem por argumentos retóricos;
II) Aqueles que se convencem por argumentos dialéticos;
III) Aqueles que se convencem por demonstração.
Averróes refere-se a cada grupo nos seguintes termos:
"Os homens repartem-se, do ponto de vista da Lei revelada, em três classes: Aqueles que não são absolutamente aptos a conhecer a interpretação e que são homens que assentem por retórica. É a grande massa dos homens, pois não há homem são de espírito que seja desprovido da faculdade de assentir desse modo.
Aqueles que são aptos a conhecer a interpretação dialética e que são homens que assentem por dialética, seja unicamente por natureza, seja por hábito.
Aqueles que são aptos a conhecer a interpretação certa e que são homens que assentem por demonstração, por causa de sua natureza e da ciência que exercem, a saber, a ciência da filosofia. Tal interpretação não deve ser exposta aos que assentem por dialética, menos ainda à multidão " (Fasl Al Maqal, 55)
Assim, aos sábios cabe a interpretação do texto sagrado. E se houver erro, ele é desculpável, pois é proveniente do trabalho daquele que é habilitado a realizá-lo. Mas se o erro vem daquele não habilitado, então é condenável. Ao sábio é obrigatória a interpretação daquilo que tem um sentido esotérico, e ao simples é obrigatória a mera aceitação e reprovável a tentativa de interpretação.
Não se deve expor aquilo que é demonstrativo ao que não pode apreender demonstrações. Isso conduziria à infidelidade. A interpretação supõe a invalidação do sentido literal e o estabelecimento do sentido depreendido pela interpretação. Se aquele que ouve a interpretação é incapaz de apreender o novo sentido, ele rejeitará o sentido literal sem abraçar o sentido esotérico.
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