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segunda-feira, 1 de março de 2021

Curtas observações sobre os gregos na Índia

                                                     Buddha protegido por Hércules

“Excetuando-se a estátua de Buddha, a história da Índia teria sido essencialmente a mesma se os gregos jamais tivessem existido.”

W.W. TARN, The Greeks in Bactria and India, p. 376 (tradução minha)

Há alguns meses, li, um após o outro, dois livros importantes sobre os macedônios e os gregos na Índia: The Greek Experience of India, de Richard Stoneman, e o clássico de W.W. Tarn The Greeks in Bactria and India. As duas obras são excelentes, embora algo enfadonhas em alguns pontos, principalmente nas discussões acerca da identificação de rios e de cidades. Meu interesse na leitura era entender melhor os contatos culturais entre gregos e indianos e a fundação de reinos helenísticos naquela região, algo que me fascinava desde a leitura do Milindapanha.

Não farei aqui resenha desses livros, mas tão somente apontarei algumas curiosidades e questões que me chamaram a atenção. Não são necessariamente os temas mais importantes abordados pelas obras e, talvez, nem mesmo os mais interessantes. São somente alguns pontos selecionados entre tudo aquilo de que tomei nota.

Alexandre Magno invadiu a Ásia em 334 A.C. e em 331, em Gaugamela, venceu definitivamente o Grande Rei Darius III, encerrando assim a dinastia persa dos Aquemênidas que havia iniciado no século VI antes de Cristo. Alexandre prosseguiu em suas conquistas, chegando à Báctria (Afeganistão) e Índia. Às margens do rio Hydaspes, o rei macedônio enfrentou e venceu o raja indiano Porus e avançou até o rio Hyphasis, onde suas tropas recusaram-se a avançar mais e exigiram o retorno à Macedônia.

Após a morte de Alexandre na Babilônia, em 323, houve um período de quarenta anos de guerras entre os generais macedônios pelo domínio de seu império. Algumas dinastias nasceram e prosperaram, como os Ptolomeus no Egito (dinastia da famosa Cleópatra) e os Selêucidas na Ásia, até a conquista romana. Reinos e dinastias gregas foram fundados também no Afeganistão (Báctria) e na Índia.

A maior parte das informações que sobre a Índia da época de Alexandre e de seus sucessores (século IV A.C.) vêm do livro Indika (Ἰνδικά) de Megasthenes, filósofo e embaixador grego do rei selêucida Seleuco I Nicator em Pataliputra, capital do império do grande rei indiano Chandragupta Maurya, fundador da dinastia Maurya (320–180 A.C.). Todavia, o livro só existe em fragmentos citados por autores posteriores como Arrian e Strabon (Estrabão). Assim como no caso dos pré-socráticos (séculos VI/V A.C.) cujos testemunhos, citações e fragmentos aparecem em Platão, Aristóteles e Teofrasto (IV A.C.) e em autores posteriores (séculos I, II, III D.C. em diante) como Plutarco, Sextus Empiricus, Diogenes Laertio, Stobeus, etc, os relatos de Nearchus, Onesicritus e Megasthenes sobre os gregos na Índia (sec. IV B.C.), sobreviveram parcialmente em Strabon (I A.C.) e Arrian (II D.C.), e em autores ainda posteriores.

Povos fantásticos

O livro de Megasthenes é famoso por suas histórias sobre povos e animais fantásticos da Índia. Richard Stoneman, em seu The Greek Experience of India, tratando dos relatos de Megasthenes sobre a Índia, destaca dois desses povos fantásticos: os sem-boca e os cabeça-de-cachorro. Os sem-boca seriam homens sem boca que se alimentariam de perfumes inalados! O mais curioso é que os fragmentos de Megasthenes parecem afirmar que ele viu esses sem-boca serem chamados à presença do rei Chandragupta Maurya. Megasthenes não estaria repassando um relato proveniente dos povos nativos, mas seria uma testemunha ocular da existência desse povo.

Os cabeça-de-cachorro seriam um povo montanhês e caçador que falaria por meio de latidos, e que usaria peles de animais como roupa. Haveria cerca de 120.000 deles, segundo Megasthenes. Eles apareceriam depois no Romance de Alexandre, onde estariam entre os povos derrotados por Alexandre e classificados como “impuros” e canibais. Esse povo entrará no imaginário da Idade Média européia e, no mundo islâmico, Ibn Battutah e Al Biruni afirmarão a existência dos cabeça-de-cachorro, habitantes do Norte da Índia.

Gregos e sábios indianos

Richard Stoneman afirma que a primeira referência a Buddha no mundo greco-romano aparece no Stromata de Clemente de Alexandria (III D.C.). Lá se diz que entre os indianos havia os que adoravam um certo Boutta como um deus por conta de sua enorme santidade. Essa passagem é antecedida por informações que sabidamente são de Megasthenes (IV A.C.). A questão controversa é saber se a referência a Buddha é originalmente de Megasthenes ou é um acréscimo do próprio Clemente. No primeiro caso, haveria evidência de que o contato dos gregos com budistas dataria da época de Alexandre ou em tempo imediatamente posterior a ele.

Sobre os sábios e filósofos indianos, as outras informações de Megasthenes, compiladas por Strabon, dão conta de uma distinção entre “Brachmanes e Sarmanes”. Aparentemente, “sarmanes” é a versão grega de Śramaṇa (श्रमण), enquanto que “Brachmanes” corresponderia aos brâhmanes. Sobre estes, os relatos de Megasthenes parecem concordar com o que se sabe sobre suas doutrinas e deveres. Megasthenes, contudo, parece usar Śramaṇa no sentido amplo de “asceta” ou “buscador”. O problema é saber exatamente quem são esses ascetas.

As informações de Megasthenes não permitem afirmar conclusivamente a quais tipos de ascetas ele se referia (sadhus, ajivakas, budistas, jainistas, etc.). A diversidade de práticas, de doutrinas e de ritos entre os ascetas na Índia daquele tempo dificulta a identificação dos grupos. Assim, ao que parece, permanece também uma questão em aberto a identidade dos famosos sofistas nus (γυμνοσοφισταί) que aparecem nos diversos relatos sobre a vida de Alexandre e nos fragmentos de Onesicritus.

Sobre a questão acerca da possível influência mútua entre gregos e indianos, Richard Stoneman afirma que, aparentemente, os reinos gregos (Norte) estiveram, em geral, associados ao budismo (ex. Menandro) e jamais alcançaram influência substantiva sobre os povos védicos indianos que os desprezavam como inferiores (mleccha). O historiador W.W. Tarn, em seu clássico The Greeks in Bactria and India, afirma que os gregos eram considerados pelos brâhmanes indianos como membros da varna dos Ksatryias (guerreiros), embora de uma extração inferior.

A conclusão de Tarn sobre os reinos gregos na Índia é que nenhum dos povos, indiano e grego, teve muita influência sobre o outro, apesar de uma convivência em “bons termos”. A troca cultural e filosófica entre os dois povos simplesmente não aconteceu. Houve alguma influência, como nomes de reis gregos no Mahabharata, conversão de reis gregos ao budismo ou ao vaishnava, algumas palavras gregas entrando no sânscrito e trocas científicas. Mas, no cômputo geral, a troca foi muito pequena.

Houve grandes reis gregos na Índia no século II A.C. como Demetrius na Báctria e Menandro em Gandhara. Menandro é mais conhecido como Milinda por conta de sua aparição no texto budista Milindapanha. Composto em páli, a obra trata das perguntas do rei yonaka (jônio, grego) Milinda ao sábio budista Nagasena acerca do Dhamma. Tarn, no entanto, considera que o texto não tem influência grega e que seu autor escreveria as mesmas coisas se jamais houvesse existido um grego na Índia.

Arte greco-budista

Segundo Tarn, a arte greco-budista da Escola de Gandhara floresceu quando os reinos gregos da Índia já haviam sucumbido às invasões nômades dos Sakas e de outros povos. Entretanto, ele crê que tenham sido escultores gregos contratados por budistas os pioneiros na representação de Buddha. Até então, o Buddha era representado por seus pés, pela árvore Buddhi, pela roda do Dhamma, etc.

A hipótese de Tarn é que artistas gregos foram contratados para fazer esculturas e, só sabendo como esculpir deuses e heróis, eles tomaram o deus Apolo como modelo. Tarn ainda afirma que a arte budista de Mathura foi uma reação indiana à escola de Gandhara, pois os Buddhas gregos eram pouco fiéis à grandeza espiritual do Buddha. Nesse ponto Tarn discorda frontalmente da opinião de Ananda Coomaraswamy, para quem a escola de Mathura nasceu independentemente da escola de Gandhara. E mesmo no caso do Buddha de Gandhara, ele foi aos poucos desaparecendo e tornando-se plenamente asiático. Aliás, tornar-se asiático e desaparecer foi o destino dos gregos que sobreviveram às invasões nômades que extinguiram os últimos reinos gregos na Índia e na Báctria.

                                                                Buddha de Mathura

                                                                        
                                                       Buddha de Gandhara

sábado, 1 de junho de 2019

Modelos mecânicos do mundo nos pré-socráticos

"Tolos, pois eles não possuem pensamentos vastos, uma vez que consideram que aquilo que não era veio a ser ou que uma coisa que morre é completamente destruída."

EMPÉDOCLES DE AGRIGENTO, fragmento 12 (tradução própria)

"A sua crítica a Anaxágoras não era que ele havia feito a Mente a força motriz por trás de todo o universo, mas que, tendo feito isso, ele a ignorou e explicou o fenômeno cósmico por causas mecânicas as quais pareciam não ter qualquer relação com a inteligência."

W. K. C. GUTHRIE, Socrates, p.155

"Ao ler Anaxágoras, Sócrates descobriu que a ação dessa Inteligência estava limitada a iniciar o movimento no espaço e que, para todo o resto, Anaxágoras retorna ao tipo usual de causas mecânicas. Esse  sistema do mundo, afinal, não fora projetado para nenhum bom propósito."

F.M. CORNFORD, Before and After Socrates, p.3

Nossos sentidos nos testemunham mudanças evidentes. As coisas que nos cercam aparecem e desaparecem, nascem e morrem, vêm ao ser e deixam de ser. Mas, se isso é verdade, elas passam do não-ser ao ser e do ser ao não-ser. Como algo assim pode se dar se o não-ser corresponde ao nada? Do nada nada vem, então não pode haver passagem do não-ser ao ser. E aquilo que é ser, por qual razão tornar-se-ia não-ser, ou seja, nada? E pode haver nada? Aparentemente, a filosofia da escola eleata de Parmênides, Zenão e Melisso negava justamente essas possibilidades.

A questão é saber como conciliar (se for possível, é claro), a evidência dos sentidos com a percepção intelectual de que nada pode vir do não-ser. A fim de preservar as duas instâncias de conhecimento, a solução encontrada por alguns dos físicos pré-socráticos foi afirmar que, ao contrário do surgimento de algo a partir do não-ser, a mudança sempre se dá a partir de algo que não somente já existe, mas existe desde sempre e para sempre.

Tudo o que há e que aparentemente muda, só muda porque é o rearranjo de entidades que jamais mudam, isto é, entidades mais fundamentais: os elementos. Se as coisas que testemunhamos pelos sentidos têm origem e fim, os elementos caracterizam-se justamente por não terem início ou fim. Eles são eternos, jamais vindo do não-ser ao ser e jamais passando do ser ao não-ser. Desse modo, há um substrato eterno fundamental que dá conta da aparição e desaparição das coisas sem que haja risco de afirmar o absurdo de uma geração a partir do nada.

Em certo sentido, a geração e a corrupção que vemos no mundo é o aspecto mais exterior da absoluta estabilidade dos elementos. Fundamentalmente, o que há são os elementos eternos e suas conformações passageiras dão origem às coisas efêmeras que vêm e vão, como o homem. Mas resta apontar as causas das conformações dos elementos, ou seja, por quais razões os elementos combinam-se em determinadas formas e proporções que dão origem a tudo o que vemos.

Há algum princípio, interno ou externo, que incline os elementos a se combinarem do modo ordenado em que se combinam ou toda a ordem que o mundo sensível exibe deve-se ao acaso ou à ação de forças cegas que lançam ao esmo os elementos fazendo-os por vezes juntarem-se em todos coerentes e funcionais e por vezes separarem-se destruindo esses todos? Um muro é feito de tijolos, mas não está claro como os tijolos poderiam formar um muro se lançados ao acaso uns sobre os outros.

O que caracteriza os modelos mecânicos da realidade física de Empédocles, Demócrito e Anaxágoras é justamente a tentativa de construção do mundo sem auxílio de qualquer princípio formal subjacente que dê às coisas singulares o tipo de ser que elas são. Em outros termos, a realidade sensível tem a conformação que apresenta não pela ação de algum princípio formal ou teleológico intrínseco ou extrínseco às coisas, mas pela ação não intencional de forças cegas agindo sobre constituintes materiais eternos.

Assim, segundo Empédocles, há quatro elementos eternos (Água, Fogo, Terra e Ar) que combinam-se e separam-se de acordo com a ação de um vórtice governado ora pelo Amor, ora pelo Ódio. Isto é, há quatro componentes materiais últimos e uma causa mecânica que os agrega formando todos coerentes (por vezes criando monstros) e os desagrega desfazendo esses todos e que é a responsável derradeira pela diversidade das coisas no mundo. 

Em Demócrito e Leucipo, nada há além de uma infinidade de átomos eternos e o vazio infinito no qual estes movimentam-se. Toda a diversidade testemunhada pelos sentidos não sendo nada mais do que configurações passageiras formadas pela agregação e desagregação de conjuntos de átomos de tamanhos e formas geométricas diferentes em diversos arranjos espaciais. Mais uma vez, há constituintes materiais elementares e o movimento e o choque entre os átomos sendo a causa mecânica última de haver seres como os há na realidade física.

Anáxágoras, por sua vez, postula que em tudo há tudo o que há, isto é, todas as coisas são formadas por porções de todas as coisas que estavam, de início, completamente fundidas em uma mistura indiferenciada. Eis o elemento material eterno. A causa mecânica é o vórtice que separa essas porções de tudo presentes em tudo. Todavia, há uma Mente, diferente desses princípios, mas que só fornece o impulso inicial e não intervém mais no processo. Todas as coisas formam-se a partir daí pela separação contínua das porções presentes em todas as coisas.

Evidentemente, não é possível expulsar totalmente os princípios formais e teleológicos das coisas, como aponta Aristóteles em sua Física, mas a pretensão em todas essas tentativas é a de criar um mundo a partir somente de um ou mais elementos materiais eternos que formam, por exclusiva ação mecânica, a diversidade dos seres que os sentidos testemunham.

F.M. Cornford e W.K.C. Guthrie assinalam que essa limitação é a razão pela qual Sócrates rejeita a filosofia de Anaxágoras, pois, apesar do apelo à uma mente, toda a explicação do mundo resume-se a dizer como as suas partes constituintes comportam-se e não por que elas se comportam do modo como o fazem. Sócrates, abandonando as investigações dos filósofos naturais, realizará a conversão da filosofia do estudo do mundo exterior ao estudo do homem e do cuidado de sua alma. Cornford denominará essa mudança de descoberta da alma.
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Leia também:
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domingo, 31 de maio de 2015

Hinduísmo, religião, dever e ortopraxis


"Uma situação de tal tipo pode parecer a um estrangeiro um terreno fértil para o ressentimento social ou rebelião. Vista de dentro, contudo, a resposta foi justamente o oposto disso. Embora a identidade de casta hereditária tornasse a mobilidade social impossível dentro do tempo de vida individual, os princípios do Karma e do renascimento não somente explicavam a condição presente de um homem como também oferecia a esperança de um avanço futuro. O meio para semelhante avanço era a performance apropriada do Dharma, que agora significava a série inteira dos deveres atribuídos por casta. Somente se a identidade de casta fosse aceita e suas respectivas obrigações fossem fielmente cumpridas haveria a chance  para um status mais alto e melhor oportunidades  em vidas futuras. Os valores de casta e os deveres eram dessa forma internalizados e reforçados, tornando a conformidade presente não só suportável, mas desejável."

THOMAS J. HOPKINS, The Hindu Religious Tradition, p. 85

Segundo o professor Thomas J. Hopkins - do Departamento de Estudos Religiosos do Franklin & Marshall College - em seu The Hindu Religious Tradition, a tendência teísta personalista não foi a única reação do brahmanismo ortodoxo frente às doutrinas e movimentos heterodoxos surgidos no século VI A.C.. Paralelamente, cresce a importância das questões relacionadas ao Dharma, ou seja, o dever que emana do lugar de cada homem no mundo.

A maioria da população estava longe de poder alcançar o objetivo último da libertação como postulado pelos Upanisads e seus problemas encontravam-se majoritariamente na vida cotidiana e comum. Por essa razão, doravante, a ortodoxia brahmânica buscará definir uma ortopraxis, um conjunto de normas para cada uma das castas bem como para cada época da vida.

Tradicionalmente, os quatro grandes objetivos da vida são: Kama, Artha, Dharma e Moksha. Kama refere-se aos prazeres sexuais e conjugais, Artha aos deveres de governo e de liderança, Dharma refere-se aos deveres de cada homem de acordo com sua casta e Moksha é a libertação final.

Após o século VI A.C., crescem os conjuntos de textos concernentes ao Dharma. O mais importante deles é o Dharma Sastra. Nele se encontram as famosas Leis de Manu. O centro do ensinamento desses livros está na doutrina do Varna-Asrama Dharma. Varna refere-se às castas, Asrama aos estágios da vida e Dharma aos deveres inerentes à cada casta e à cada estágio da vida.

Os textos sobre o Dharma, apesar de reconhecerem o fim último da libertação, Moksha, enfatizam o dever social. O dever de cada homem é determinado tanto por sua casta quanto pelo estágio da vida em que se encontra. As quatro varnas são: Brâhmanes, Ksatryias, Vaisyas, Sudras, como determinado pelo Rig-Veda no texto do sacrifício de Purusha, e os quatro estágios da vida são brahmacharin (estudante), grihastha (chefe de família), vanaprastha (morador na floresta) e sannyasa (renunciante).

O Brâhmane, o sacerdote, tem como dever o estudo, o ensino, o sacrifício, assistência ao sacrifício, a oferta e a aceitação de dons. O Ksatryia, o guerreiro e governante, tem como dever proteger o povo, ofertar dons, sacrificar e estudar os Vedas. Vaisyas, os comerciantes e criadores de gado, tem como dever proteger seus animais, comerciar, estudar os Vedas e cultivar a terra. Os Sudras não têm direito ao estudo dos Vedas e nem podem realizar sacrifícios, restringindo-se a servir às três primeiras varnas das quais depende econômica e ritualmente.

Os estágios da vida iniciam-se com o brahmacarya ou ''vida de estudante''. O jovem é iniciado no upanayana e abandona a casa paterna entre os oito e os doze anos para viver com um mestre. Durante os próximos doze anos, o jovem vai aprender os Vedas e os demais livros sagrados, participar dos rituais, mendigar a comida de seu mestre e atuar como seu servo. Ele aprende rituais, deveres, valores e padrões de conduta de sua casta. Durante todo o seu período de estudante, ele deve permanecer puro e casto.

Ao final desse período, o jovem retorna à sua casa, seus pais escolhem uma esposa e ele se torna um chefe de família, grihastha, o segundo estágio da vida ortodoxa hindu. Há uma grande valorização desse estágio da vida nos textos dhármicos, pois preservação da sociedade inteira depende dos chefes de família. Eles cuidam de suas famílias, têm filhos, preservam a herança espiritual sustentando ascetas e mestres.

O jovem torna-se um grihastha em torno dos vinte anos através do casamento. Uma esposa adequada é escolhida para ele - geralmente de idade entre oito e dez anos, embora o casamento só seja consumado na puberdade dela –, da mesma casta ou de uma das castas superiores. O casamento é obrigatório.

Por mais valorizada que seja, a vida matrimonial não era o objetivo mais alto a ser perseguido na vida. Moksha permanecia o mais importante objetivo a que um hindu poderia dedicar-se. Entretanto, para a maioria das pessoas, a vida de casado é o limite de sua vida presente: elas casam, sustentam uma família, cumprem todos os seus deveres sociais, realizam seus rituais prescritos e acabam suas vidas como chefes de família.

Algumas poucas pessoas estão preparadas para os dois estágios superiores da vida, vanaprastha e sannyasa. ''Quando um chefe de família vê sua pele enrugar-se e seu cabelo embranquecer e vê os filhos de seus filhos, ele pode conduzir a si mesmo à floresta'' (Manu, VI, 2).

O ''morador da floresta'' é um eremita que retira-se da vida de chefe de família e se isola na floresta em busca da libertação (Moksha). Por um tempo ainda realiza os rituais e sacrifícios, mas aos poucos estes deverão ser substituídos por disciplinas ascéticas interiores. Alimenta-se com plantas da floresta ou com uma dieta bastante rígida obtida basicamente da mendicância. Na realização de exercícios ascéticos, o eremita crê poder libertar-se ou ao menos aproximar-se desse objetivo.

Contudo, há ainda um último estágio de vida hierarquicamente reservado àqueles com os mais altos padrões de pureza e de dedicação: o renunciante. A vida de renunciante inicia-se com um ritual formal no qual o iniciado renuncia a todos os laços mundanos, incluindo aqueles do matrimônio e da família.

Ele realiza um último sacrifício, abandona os apetrechos desses ritos e afirma: ''eu não pertenço a ninguém e ninguém pertence a mim''. Faz votos de total abstinência, de veracidade, de não-violência, de afastamento das riquezas e desconsideração pela própria saúde. 

Calçando apenas sandálias, tanga, manto ocre, uma jarra para água, um bastão e uma tigela para mendigar, o renunciante afasta-se de toda companhia dos outros. Silêncio, meditação, Yoga e não-violência compõem sua vida.

Com o tempo, subcastas foram adicionadas ao esquema original de quatro castas, incluindo-se aí os párias ou intocáveis. O processo de desenvolvimento dessas doutrinas dhármicas chega a seu estágio final por volta dos últimos séculos do primeiro milênio da era cristã.

Para Hopkins, as doutrinas do Dharma e do Karma deram as bases de uma sociedade que, embora estivesse nela ausente a mobilidade social, sustentou-se sem grandes conflitos graças à perspectiva de melhores renascimentos alcançáveis pelo cumprimento diligente dos deveres sociais.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Xenofonte e a "Marcha dos Dez Mil"

"Tendo lido a carta, Xenofonte indagou a Sócrates, o ateniense, se devia aceitar ou recusar o convite. Sócrates, que tinha o temor de que o Estado de Atenas pudesse de alguma forma encarar com suspeita a minha amizade com Ciro, cuja zelosa cooperação com os espartanos contra Atenas na guerra não havia sido esquecida, aconselhou Xenofonte a ir a Delfos e lá consultar o deus acerca da conveniência de tal empreitada. Xenofonte foi a Delfos e indagou de Apolo a qual dos deuses ele deveria orar e sacrificar  a fim de que pudesse melhor empreender a jornada desejada  e retornar à salvo com boa sorte. Então Apolo respondeu-o: 'A tais e tais deuses deveis sacrificar.' Ele retornou e informou a Sócrates sobre o oráculo. Este, porém, ao ouvir o relato, criticou Xenofonte por não haver perguntado em primeiro lugar se seria melhor para ele ir ou ficar, mas, ao contrário, ter resolvido ele mesmo afirmativamente a questão ao perguntar diretamente como poderia empreender da melhor maneira a viagem. 'Uma vez que,' continuou Sócrates, 'você colocou a questão dessa maneira, deverá fazer aquilo que ordenou o deus'. Assim, sem mais delongas, Xenofonte ofereceu sacrifício aos que o deus havia nomeado e partiu de barco para a sua jornada."

ANABASIS, Livro III, I

Anabasis é obra do ateniense Xenofonte, historiador, militar, mercenário e filósofo. O texto constitui-se em um relato das desventuras de dez mil mercenários gregos que estiveram a serviço de Ciro, o jovem, contra seu irmão, o rei Artaxerxes II, e que, após a morte do primeiro na batalha de Cunaxa (401 A.C.), são traídos pelos persas e se vêem obrigados a atravessar o império persa desde próximo da Babilônia até o Mar Negro para daí retornar à Grécia.

Xenofonte, assim como Platão, foi aluno de Sócrates e dedicou à memória do mestre uma série de diálogos como a Apologia, O Banquete, Econômico  e um livro sobre os ditos e feitos de Sócrates, Memórias. É ao filósofo ateniense que ele irá consultar para saber se se une ou não a Ciro,  o jovem, em sua expedição.

O relato de Xenofonte é o de quem viveu aquela aventura, pois, após a traiçoeira execução pelos persas do espartano Clearcus e dos outros chefes da expedição helênica, ele mesmo foi eleito como novo líder do exército junto com Cheirisophus. A marcha de subida - por isso o título "Ἀνάβασις" - dos dez mil gregos partiu dos arredores da Babilônia e atravessou o que hoje são a Armênia e a Geórgia, o Curdistão, a Macrônia, até chegar a Trapezus, colônia helênica às margens do Mar Negro. 

Durante o percurso em território inimigo, os helenos tiveram que enfrentar as forças do grande rei persa, debelar inúmeras escaramuças e emboscadas de tribos hostis, atravessar grandes e profundos rios, suportar a neve e o frio, tomar fortalezas e vilas e superar a constante escassez de provisões para um tão grande exército.

Ao avistar o mar do alto de uma montanha, os gregos gritaram exclamação que ficou famosa: "O mar! O mar!". De Trapezus o exército moveu-se até às cidades helênicas de Cerasus, Cotyora, Sinope, Heraclea e atravessam o mar de Marmara para Bizâncio. Na Trácia, os mercenários servem ao rei Seuthes e depois são convocados pelo general espartano Thibron para lutar contra o sátrapa persa Tissaphernes, aquele mesmo contra quem Ciro, o jovem, os havia contatado para lutar de início.

Rota dos dez mil com Ciro, o jovem, de Sardes até Cunaxa, entre os rios Tigre e Eufrates.
Rota de subida dos dez mil de Cunaxa até Trapezus, na costa do Mar Negro, até Bizâncio, na Trácia.
                                 Xenofonte à frente dos Dez Mil (desenho próprio)
                        Guerreiro cita, um dos povos enfrentados pelos Dez Mil (desenho próprio)

Contendo inúmeros detalhes sobre os costumes gregos e bárbaros, sobre táticas, estratégias e armamento dos exércitos helênicos da época e sobre a forma quase democrática de sua organização, o relato de Xenofonte é uma aventura fascinante e altamente informativa seja para quem se interessa por façanhas militares, seja para quem estuda História Antiga. Anabasis tornou-se célebre ainda na antiguidade e chegou a inspirar Alexandre, o grande, em sua própria campanha contra o império persa menos de um século depois da marcha dos dez mil.  

Ademais, Xenofonte é figura das mais interessantes e escreveu diversas outras obras além dos diálogos socráticos, como manuais de cavalaria, biografias de reis espartanos, um relato sobre os anos finais da Guerra do Peloponeso a partir de onde parara Tucídides, além de Cyropaedia, um livro sobre a educação de Ciro, o grande, rei persa.