SIMONE WEIL, L’Iliade ou le Poème de la Force
"Sabemos que incorporamos uma seleção de poderosa masculinidade, e nos orgulhamos disso"
ERNST JÜNGER, A Guerra como Experiência Interior, capítulo IX
Ao redor dos Stoßtruppen, agachados em fila à espera da ordem para o assalto às linhas inimigas, havia silêncio e gravidade. Todas as coisas na trincheira, tão familiares no monótono serviço diário do funcionário da guerra, perdiam seu significado usual nos momentos que antecediam a tempestade de aço. É sabido que certas ocasiões ou acontecimentos têm o condão de suspender por completo o hábito e, assim, descortinar aos olhos do homem um vazio que não pode ser preenchido nem por isto e nem por aquilo. Nesses momentos, não é possível habitar em nada, tudo é desterro.
O homem é desertado. As coisas, em fuga, sequer deixam o rastro de sua presença no passado recente ou remoto. Algo de fundamental sobre a realidade vai ser revelado àquele que flutua nas trevas do Ungrund? Talvez. Porém, não é a primeira vez que o estranhamento do mundo circundante atinge o soldado prestes a se entregar ao serviço de Ares.
Tampouco isso é um efeito de um suposto despreparo. Ao contrário, semanas de treino intenso em terreno idêntico ao do inimigo, conhecimento exaustivo de suas táticas e de sua mentalidade e planejamento minucioso criaram um mecanismo tão automático e preciso quanto um relógio. “Bendito seja o Senhor, a minha Rocha, que adestra as minhas mãos para a guerra e os meus dedos para a batalha.”
Os Stoßtruppen eram selecionados, uma aristocracia guerreira. Na noite anterior, copos nas mãos, não sentiram o irrefreável desejo da luta? Sim, ontem. “Somos uma raça que cresce com o momento”, pondera Ernst Jünger. O nume da guerra ainda não os visitara. Por ora, ascendem a inquietação e um sentimento difuso que desafia todas as armas da razão, uma névoa que fora por muito tempo camuflada pelas tarefas da manutenção da trincheira, les divertissements da guerra.
“Somente então percebemos o quão pouco estamos em casa dentro de nós mesmos”. O homem vive alheio a um reino desconhecido que se acha nos recessos de sua alma, e que emerge transmutando tudo em tristeza e desolação. De que adiantam os meses de treinamento e os usuais mantras de confiança e de coragem que os soldados recitam interiormente? Não se trata de medo, contra o qual os soldados têm remédios eficazes. Porém, nada escapa à dissolução mercurial. Solve sed non coagula.
A saída é ocupar o tempo que resta, escapar das profundezas interiores. Sempre teve a alma alemã certa atração pelo abismo, pelo fundo (Grund) indizível e incompreensível, o Mysterium Tremendum da existência. Meister Eckhart, Angelus Silesius, Jakob Boehme, entre outros, não foram os formadores da sensibilidade metafísica dos alemães? Sim, mas agora não é o momento. É preciso preencher o tempo, agir e resgatar do nada as coisas familiares e habitar novamente o mundo.
Achtung! A morte espreita! Os Stoßtruppen a saúdam sorrindo, com ousadia, impiedosa brutalidade, inteligência e ardente coragem, prontos para esmagar o inimigo com a força do punho de ferro de Götz von Berlichingen. São eles os esplêndidos exemplares do novo homem forjado na guerra moderna. Fortes, cheios de vontade, egressos da grande escola do combate, os membros dessa estirpe selecionada destruirão as formas antigas e nutrirão as novas com sangue. A profecia de Jünger é de que a guerra não será o fim, mas apenas o prelúdio da violência.
Sem embargo, a vida engendra suas melhores criações para, logo em seguida, destruí-las no turbilhão selvagem da carnificina. Aqueles homens serão destroçados se uma única metralhadora inimiga se mantiver ativa cuspindo sua rajada infernal. Para quê, afinal? Pois bem, seja a causa insignificante! O valor está no comprometimento individual, na coragem, na forma como lutaram. “Queremos demonstrar o que está em nós. Então, quando cairmos, teremos realmente vivido". O Agon (Ἀγών) é o que engrandece o guerreiro.
A artilharia inicia seu ofício preciso. Ondas seguidas de projéteis leves e pesados caem sobre as linhas inimigas. Fumaça, fogo, gás, poeira e torrões de terra sobem aos céus. Sinalizadores coloridos atravessam o horizonte. Os franceses revidam na mesma moeda. O bombardeio é massivo. O intervalo que vai do assovio que anuncia a sua vinda até a explosão do projétil no solo evoca no soldado as imagens de todo o sangue e choro que já presenciou em outros ataques.
O redemoinho de fogo envolve tudo. O fraco desaba porque viu desaparecer o medo, seu último recurso. O forte entra na tempestade com o rosto de pedra, um intoxicado triunfador da matéria, que sabe que o mundo pode sucumbir, mas sempre o coração bravo se mantém firme.
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