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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Curtos comentários ao Isa Upanisad

Há dez anos ou mais, traduzi por conta própria alguns Upanisads hindus de forma bastante despretensiosa. Utilizei as traduções em inglês da editora indiana Advaita Ashrama e as traduções do indólogo britânico R.C. Zaehner. Acrescentei comentários que compilei a partir dos comentários de autoridades hindus tradicionais como Sankaracarya, Gaudapadacarya, entre outros, e de indólogos e estudiosos do pensamento indiano. 

Relutei bastante em publicar essas traduções por receio de deturpar de algum modo a maravilhosa mensagem dessa tradição milenar. Se agora as publico aqui, é no espírito humilde de contribuir o mínimo que seja para o conhecimento desse tesouro espiritual e metafísico, e, principalmente, como testemunho de meu profundo amor pelos Upanisads. Peço desculpas de antemão por qualquer erro que tenha cometido nesse texto, na tradução ou nos comentários.

1. Om. Todo este universo é penetrado pelo Senhor. Abandona o que quer que se mova neste mundo móvel. Não cobiceis os bens de quem quer que seja.

2. Realizando [sacrifícios] rituais (karma)um homem pode desejar viver cem anos. Para um homem como vós (que deseja viver assim), não há outra via. O homem não é corrompido pelo karma.

3Os mundos dos demônios são cobertos pela escuridão que cega. Aqueles que matam o Si, após terem deixado este corpo, para eles se dirigem.

4. Ele é imóvel, uno, mais rápido que a mente (manas). Os sentidos não O podem ultrapassar, pois escapa a eles. Em repouso, ultrapassa a todos os que correm. Nele, Matarisva aloca todas as atividades.

5. Ele se move e não se move; está longe, embora esteja perto; está dentro deste grande universo, embora esteja fora dele.

6. Aqueles que veem todas as coisas no Si e o Si em todas as coisas, jamais duvidarão d'Ele.

7. Quando todas as coisas se tornam o Si para o homem sábio, quais ilusões e quais sofrimentos podem haver para este que testemunha a unicidade?

8. Ele é todo-penetrante, puro, incorporal, sem mágoa, sem tendões, imaculado, intocado pelo mal, onisciente, governante da mente, transcendente e subsistente por si mesmo. A todas as coisas Ele ordenou segundo suas naturezas por anos infindos.

9. Na escuridão cega entram aqueles que veneram a ignorância (avidya/ritos); contudo, em maior escuridão ainda entram aqueles que que estão engajados no conhecimento (vidya/meditação).

10. Um resultado diferente é alcançado através de vidya e outro resultado se dá por meio da avidya, dizem aqueles sábios que nos ensinaram.

Comentário de Sankara Acarya: "Um resultado realmente diferente é alcançado por vidya (veneração ou meditação), pois o texto védico diz: 'O mundo dos deuses é alcançado através da meditação' (Br. I, 16); por avidya, karma (ritos), um outro resultado é obtido, pois assim diz o texto védico: 'O mundo de Manes é alcançado por meio de karma.' (Br. I, 16)."

11. Aquele que conhece os dois, avidya e vidya juntos, alcança a imortalidade através de vidya, ultrapassando a morte pela avidya.

Comentário de Sankara Acarya: "Sendo assim, aquele que conhece os dois juntos, vidya avidya - isto é, meditação sobre as divindades e os ritos, respectivamente - conhece-os como coisas a serem realizadas pela mesma pessoa; somente para esse homem - que combina os dois - ocorre a aquisição sucessiva dos (dois) objetivos num mesmo indivíduo. Através de avidya, por meio de ritos como o Agnihotra (sacrifício ao deus do fogo), é ultrapassada a morte. Através de vidya, a meditação nas divindades, obtêm-se a imortalidade, a identificação com as deidades."

12. Aqueles que veneram o não-nascido* (Prakrti) entram na escuridão cega; mas aqueles que são devotados ao nascido (Hiranyagarbha) adentram em uma escuridão ainda maior.

13. Daqueles que recebemos o ensinamento, ouvimos que um resultado é obtido na veneração do nascido e um fruto diferente resulta da veneração do não-nascido.

14. Aquele que conhece esses dois, o não-nascido e o nascido juntos, alcança a imortalidade através do não-nascido, ultrapassando a morte por meio do nascido.

15. A face da Verdade está oculta pelo barco dourado. Revela-O, ó Sol, para que eu - que sou fiel a meus deveres - possa vê-Lo.

16. Ó tu que és o nutriente, o viajante solitário, o controlador, o obtentor, o filho de Prajapati, remove teus raios, retrai teu brilho ofuscante. Contemplarei, por tua graça, a tua forma mais benigna. Eu sou aquela Pessoa que ali se encontra.

17. Deixa minha força vital alcançar o ar imortal; agora, deixa este corpo ser reduzido a cinzas. Om, ó mente, relembra tudo o que foi feito! Tudo o que foi feito, relembra!

18. Ó deus do fogo, tu que conheces nossos feitos, conduze-nos pelo bom caminho até o gozo dos frutos; remove todos os nossos erros. Nós oferecemos a ti muitas homenagens.
Fim do Isa Upanisad
...
*O termo usado é asambuthi que é a negação de sambuthi. Este, segundo Sankara, significa "o nascido", "o que nasceu". A tradução de R. C. Zaehner utiliza o termo "uncompound", que é a negação simples de "compound", que pode ser traduzido como "composto". A tradução de Swami Gambhirananda utiliza o termo "unmanifested", negação de "manifested" (imanifestado e manifestado). Como Sankara indica que esse "imanifestado" é Prakrti e não Brahman Nirguna, optei pela tradução de "não-nascido" para que não haja confusões. Prakrti é entendida aí como "matéria primordial" das coisas que, por estar em todas as coisas manifestadas, não se manifesta, pois não é algo determinado. Creio que se deva entender aí Prakrti como o aspecto passivo da manifestação, mais ou menos como a hylê grega. Esta nunca se encontra no mundo sem uma forma determinada, isto é, jamais há matéria sem forma. De certa maneira, ela é imanifestada, mas manifesta-se nas coisas. Deve-se distingui-la de Brahman Nirguna, pois este, embora seja imanifestado e substrato de todas as coisas, o é de forma mais "abrangente", pois inclui o que não se manifestou ainda e o que nunca se manifestará, ao contrário de Prakrti que está intimamente ligada à manifestação efetiva. Obs: Se alguém tiver alguma correção a fazer nessa interpretação, por favor, não se furte a fazê-la nos comentários.

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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Comentários curtos ao Mandukya Upanisad


Há dez anos ou mais, traduzi por conta própria alguns Upanisads hindus de forma bastante despretensiosa. Utilizei as traduções em inglês da editora indiana Advaita Ashrama e as traduções do indólogo britânico R.C. Zaehner. Acrescentei comentários que compilei a partir dos comentários de autoridades hindus tradicionais como Sankaracarya, Gaudapadacarya, entre outros, e de indólogos e estudiosos do pensamento indiano. 

Relutei bastante em publicar essas traduções por receio de deturpar de algum modo a maravilhosa mensagem dessa tradição milenar. Se agora as publico aqui, é no espírito humilde de contribuir o mínimo que seja para o conhecimento desse tesouro espiritual e metafísico, e, principalmente, como testemunho de meu profundo amor pelos Upanisads. Peço desculpas de antemão por qualquer erro que tenha cometido nesse texto, na tradução ou nos comentários.

1. Hari Om! Essa sílaba "Om" é tudo isso. E a interpretação é a seguinte: o que foi, o que é e o que virá a ser é verdadeiramente Om. E tudo que que está além dos três períodos do tempo é também Om.

2.Tudo isso é certamente Brahman. Este "Si" é Brahman. O Si, tal como é, tem quatro quartos.

3. O primeiro é o estado de vigília (Vaisvanara), consciência (prajna) que se relaciona com as coisas externas, que possui sete membros e dezenove bocas e que lida com o que é grosseiro (denso, espesso).

4. O estado de sonho (Taijasa), consciente do que é interno, que possui sete membros e dezenove bocas e que lida com o que é sutil.

5. O estado de sono profundo é aquele em que o homem dorme e não deseja nada e não sonha. O terceiro estado é Prajna, que tem o sono profundo como sua esfera e em quem tudo se torna indiferenciado, uma massa de sabedoria que abunda em bem-aventurança, experimenta a bem-aventurança e que é a porta para a experiência (dos estados anteriores).

6. [O quarto estado (Turiya)] Este é o Senhor de todos. É onisciente, o controlador interno (de tudo). A fonte de tudo. É verdadeiramente o lugar de origem e dissolução de todos os seres.

7. Não é consciente do mundo interno, nem do mundo externo e nem de ambos juntos. Não é massa de sabedoria (prajna), nem sábio, nem ignorante. Invisível, com quem não se pode ter comércio, incompreensível, indistinto, inconcebível (pelo pensamento), indescritível. Sua prova é a unidade do Si, no qual todo o fenômeno cessa; e que é imutável, auspicioso e não-dual. Assim eles consideram que é o quarto [estado]. Tal é o Si e Isto deve ser conhecido.

8. Verdadeiramente o Si, considerando-o do ponto de vista da sílaba, é Om. Considerado a partir das letras [que constituem Om], os quartos [do Si] são as letras [do Om] e estas são aqueles. A, U, M. *

9. O estado de vigília, comum a todos os homens é A, significando "pervasividade" ou "aquilo que está no início". Pois aquele que o conhece obtém todos os desejos e se torna o começo.

10. O estado de sonho, composto de luz, é U, a segunda letra e significa "exaltação" e "aquilo que é intermédio". Aquele que o conhece aumenta o continuum do conhecimento e se torna igual a tudo. Neste estado não há ninguém que não conheça Brahman.

11. O estado de sono profundo, sábio, é a terceira letra, M. Significa "medida" ou "absorção". Aquele que o conhece "mede" o universo inteiro e é absorvido nele.

12. O quarto é além de todas as letras. Não há comércio com ele; ele traz fim a todo desenvolvimento, auspicioso e não-dual. Tal é o Om, verdadeiramente o Si. Quem o conhece entra no Si através de si mesmo.
...
*(juntas, essas letras são pronunciadas como OM)

Comentários:

1. Assim comenta Sankara Acarya: "Como todos os objetos que são indicados por nomes não são diferentes desses mesmos nomes e os nomes não são diferentes do OM, então o OM é verdadeiramente tudo isso. E como o supremo Brahman é conhecido através da relação que subsiste entre o nome e seu objeto, Ele também é OM."

OM é a sílaba da realidade última de tudo aquilo que foi, é ou será. Nele estão identificadas as realidades manifestadas e as imanifestadas. Na presente perspectiva, OM é Brahman enquanto considerado em seu aspecto de Absoluto, englobando aquilo que está sujeito ao tempo, bem como o que não está, seja porque ainda não se manifestou, já cessou ou é atemporal.

Desse modo, os seres inanimados, os vegetais, os animais, o homem, o corpo, os sentimentos, a razão, os pensamentos, a personalidade individual, o assassino, o santo, os deuses, a alegria, a tristeza, a dor, o prazer, o nascimento, a morte, o ciclo cósmico, o universo, enfim, tudo é Brahman e tudo é OM.

2. Tudo isso é Brahman e o próprio Eu não é mais que Brahman. Eis o ponto central: "Tu és isso!" Ou seja, "tu mesmo, no mais íntimo de tua interioridade é Brahman". Esse "eu" fenomênico, que carrega um nome, que se identifica com seus atos, que sofre e goza, ainda não é a realidade mais profunda. Ele não é mais do que uma manifestação do princípio de todas as coisas que está igualmente inteiro em cada ente sem jamais esgotar-se neles.

Disse Krishna ao indeciso príncipe Arjuna no Bhagavad Gita: "Esses corpos do Incorporado que é eterno, indestrutível e incognoscível, são ditos finitos. Luta, então, ó filho de Bharata!" Os objetos, animados ou não, sutis ou grosseiros, não são mais que vestes passageiras de Brahman e Este é o Absoluto, imutável e eterno.

Escreve Heinrich Zimmer: "A essência dos fenômenos macrocósmicos é una e é idêntica a dos fenômenos microcósmicos." A partir dessa perspectiva, nenhuma dualidade poderá se afirmar como última e irredutível. O supra-pessoal, o não-dual, é o objetivo espiritual por excelência.
"Tu és isso!". O verdadeiro Eu, o "Si" de tudo o que há é Brahman e seus quatro quartos são suas condições representadas nas letras da sílaba sagrada OM. Essas condições serão apresentadas nos versos seguintes.

3. O estado de vigília é aquele do eu fenomênico, que vê, ouve, sente, toca, saboreia, ri, chora, sofre e goza em meio a outros corpos animados e inanimados. Sua esfera de ação primordial é com aquilo que é externo, ao que é presente pelos sentidosSankara Acarya afirma que nesse estado a "idéia é que a Consciência aparece como se relacionada aos objetos de fora, devido à ignorância."

Os sete membros constam no Chandogya Upanisad V, 8, 2. As dezenove bocas são assim discriminadas por Sankara: "(...) os (cinco) sentidos da percepção e os (cinco) órgãos de ação fazem dez.As forças vitais - Prãna e o resto - fazem cinco e (há) a mente (a faculdade de pensar), intelecto, ego, e a substância mental. Esses são bocas, pois são comparáveis a bocas. Isto é, eles são as portas da experiência."

E continua o sábio ortodoxo hindu: "Com efeito, uma vez que através dessas entradas Vaisvanara, assim constituído, desfruta dos objetos grosseiros (brutos, espessos) - como sons e o resto - então Ele é um Sthulabhuk, um desfrutador do grosseiro."Os objetos grosseiros ou espessos são aqueles diretamente perceptíveis pelos sentidos e representam a porção mais baixa na hierarquia da manifestação.

4. O estado de sonho tem como esfera de atividade o mundo da consciência totalmente interna e desfruta somente daquilo que é sutil.O sutil é, em contraposição ao grosseiro, o que é produzido não pela ação dos sentidos que captam os corpos externos e que mantém uma relação sempre de exterioridade.

Taijasa, segundo o indólogo Heinrich Zimmer, é "o Eu quando sonha, contemplando os objetos luminosos, sutis, magicamente fluídificos, e estranhamente encantadores, no mundo que fica por trás das pálpebras dos olhos."

Ao contrário do estado de vigília, em que os objetos deixam impressões na mente, os objetos sutis se apresentam à mente sem entes externos correspondentes. Taijasa, ensina Sankara, significa "luminoso" e isso porque nele o Eu se torna "testemunha da cognição que é destituída de objetos e que aparece somente como uma coisa luminosa. Como Vaisvanara (o estado de vigília) é dependente de objetos, ele experimenta a cognição grosseira, enquanto a consciência que é experimentada aqui consiste de meras impressões; por isso seu desfrute é sutil."

5. O terceiro estado é o do sono profundo no qual não há nenhuma forma, seja sutil ou densa. Nele não sonhos ou desejos.

Sankara Acarya afirma que esse estado é chamado "indiferenciado, uma vez que o conjunto inteiro das dualidades, que é variado como os dois estados (de vigília e de sonho) e que não são mais do que modificações da mente, se tornam indiscerníveis (nesse estado) sem perder suas características já mencionadas, da mesma forma que o dia e o mundo fenomênico se tornam indiscerníveis sob o manto da escuridão noturna."

Como salienta Sankara, nesse estado de sono profundo, sem sonhos, o mundo das formas se torna indiferenciado e indiscernível de forma análoga às coisas visíveis que se indiferenciam na chegada da noite, mas não desaparecem ou são destruídas. O mundo, por assim dizer, se recolhe na noite e retornará tão logo a luz do Sol o ilumine.

Segundo René Guénon, nesse estado todas as possibilidades da manifestação estão como que contidas numa indiferenciação principial. Estão recolhidas como o animal está contido potencialmente no ovo que ainda não quebrou. Nele, Purusha e Prakriti, os princípios ativo e passivo respectivamente, estão recolhidos como possibilidades efetivas do Ser.

Esse estado é vazio, mas não é um nada. É um útero de uma mulher grávida. É repleto de todas as possibilidades manifestáveis e que efetivamente se manifestarão. Seu vazio é o da indistinção, não o da ausência.

Sankara declara que nesse estado há ausência de discriminação e que ele é "ananda-mayah, repleto de alegria, sendo sua abundância de alegria causada pela ausência da dor envolvida no esforço da mente que vibra de acordo com os objetos e seu experimentador. Mas ele não é a Felicidade em si mesma, uma vez que a alegria não é absoluta. Da mesma forma como, no linguajar comum se diz que alguém livre de qualquer esforço é considerado feliz ou anandabhuk, 'aquele que experimenta a alegria', assim também este é chamado anandabhuk, pois por ele se experimenta libertação extrema do esforço"

Como diz o Mandukya Upanisad, tal estado é "a porta para a experiência", pois é dele que tudo o que é manifesto advirá, como que atravessando uma porta. Ele é chamado Prajna, consciência plena, porque nele somente há, como afirma Sankara, "o conhecimento do passado, do futuro e de todas as coisas", pois ele as contém em princípio.

De acordo com as correspondências efetivas entre os estados individuais até agora assinalados e a realidade metafísica, o estado de sono sem sonhos simboliza o Ser como princípio, ou seja, como ainda não manifestado. Nesse sentido ele é Iswara, o Senhor de tudo.

O sutil e o grosseiro perfazem nama-rupa, o mundo dos nomes e das formas, cambiante e mutável que deve ser ultrapassado na direção da identificação com o Princípio último, eterno, imutável e imanifestado, Brahman Nirguna (sem forma), verdadeiro objetivo da vida espiritual.

Tudo o que há na manifestação é Brahman Saguna, o diferenciado, quando considerado do ponto de vista da multiplicidade e Brahman Nirguna, quando considerado do ponto de vista do princípio absoluto e último de todas as coisas, que não admite em si nenhuma dualidade.

O objetivo da vida espiritual é alcançar a consciência da identificação plena com Brahman eterno e sem forma, fonte e sustentáculo de tudo o que é manifestada e natureza verdadeira de cada coisa. Não há aqui espaço para o dualismo corpo/espírito ou corpo/alma.

Corpo e espírito, no sentido comum que se revestem esses termos na contemporaneidade, como entidades distintas, não têm lugar no Hinduísmo ortodoxo. Eles são aspectos inseparáveis no ser humano de uma mesma realidade una e não-dual (Brahman) que é o fim último do conhecimento e sinônimo de libertação da ignorância e que só é alcançada quando se ultrapassa completamente nama-rupa.

6. No quarto estado, Turiya, chega-se ao ápice da visão espiritual. Eis a natureza última, fonte (Yoni) e fim de todas as coisas animadas, inanimadas, sutis, grosseiras, divinas e humanas. Por isso é chamado de sarvesvara, "Senhor de Tudo".

Sankara Acarya afirma que "em sua imanência em toda diversidade, é o conhecedor de tudo, por isso o Onisciente e o controlador interno." Tudo o que é, foi ou será dele provém e para ele retornará. É Brahman Nirguna, o sem-qualidades, O sem-segundo.

Gaudapada Acarya, mestre de Sankara Acarya afirma em sua karika: "O grosseiro satisfaz Visva e o sutil satisfaz Taijasa. E assim também o regozijo satisfaz Prajna. Saiba que o gozo é triplo"Em seguida Gaudapada ensina: "Aquele que conhece ambos - o gozo que há nos três estados e aquilo o qual é declarado ser o desfrutador ali - não se torna afetado mesmo enquanto estiver desfrutando."

Ou seja, aquele que sabe a verdadeira natureza de todas as coisas sabe que os três estados, vigília, sonho, sono sem sonhos e seus respectivos prazeres e alegrias estão contidos eminentemente no quarto estado que é a origem e fim de tudo o que há. Assim, somente Brahman é a realidade no sentido pleno e só ele é o desfrutador.

Aquele que conhece sua natureza verdadeira é como Arjuna na batalha, o santo que age mas não se identifica com o que age e com o que experimenta e sabe que aqueles que mata não são mais do que conformações passageiras do eterno e imutável substrato não-dual de todas as coisas.

7. Turiya é diferente dos três primeiros estados e se revela de forma análoga a revelação da ilusão que toma uma corda por uma serpente. É quando se nega a serpente que se chega à corda. Turiya é a serpente nua, sem qualidades e sem determinações.

Se por um lado é a natureza de tudo o que há, o substrato último, e portanto não diferente de nada do que há, por outro lado é sem qualidades e sem determinações porque nenhum ser, grosseiro ou sutil, o esgota ou o representa totalmente. É a base que está além de todas as classificações, para a qual os termos opostos (p.ex. consciência, não-consciência) são inaplicáveis. Não pode ser visto, não pode ser manipulado, inferido, pensado ou descrito.

Sankara Acarya assevera que sendo Turiya "destituído de toda característica que torne o uso de palavras possível, Ele (Turiya) não é descritível por meio de palavras; e daí o Upanisad busca indicar Turiya somente através da negação de atributos." Mas isso significa que Ele é um vazio?

Sankara responde: "Não, pois uma ilusão, apesar de irreal, não pode existir sem um substratum; pois a prata, a serpente, o ser humano, a miragem e outros não podem existir separados dos correspondentes substrata: madrepérola, corda, tronco de árvore, deserto e assim por diante".

E Sankara acrescenta: "Ao contrário de uma vaca, por exemplo, o Si, em sua realidade própria, não é objetivo de qualquer outro meio de conhecimento; pois o Si é livre de todos os atributos. Não pertence a qualquer classe como acontece com a vaca; por ser o Um sem segundo, é livre de atributos genéricos e específicos. (...) Livre de qualidades, escapa a qualquer descrição verbal."

Nele todo o fenômeno cessa, isto é, tudo o que é fenomênico tem nele sua base, mas não o esgota ou o torna cognoscível. Imutável solo de tudo, não-dual porque não há segundo que se lhe oponha e todas as oposições são nele resolvidas e dissolvidas. É o solvente universal de tudo o que é fenomênico.

Gaudapada Acarya ensina: "O imutável não-dual Um é o ordenador - o Senhor - enquanto o erradicador de todas as dores. Diz-se do refulgente Turiya que é a fonte toda-penetrante de todos os objetos."
Tal é o Si e é isso que deve ser conhecido. E conhecer é tornar-se aquilo que se conhece. "Tu és isso!"

8. O Si, considerado a partir da sílaba, é Om. Considerado a partir das letras que o compõem, os quartos do Si são as letras. A sílaba sagrada Om é um ditongo composto por A, U e M.

As maneiras de considerar a sílaba Om são análogas às formas de consideração da realidade suprema. Pode-se tomá-la a partir de si mesma, em sua unidade não-dual, ou a partir da multiplicidade da manifestação, representada aqui pelas partes da sílaba sagrada.

Brahman pode ser considerado a partir de sua natureza não-dual, livre de toda limitação e das determinações que constituem e tornam possível a existência de tudo o que é manifestado. É Brahman Nirguna, sem gunas, sem qualidades. Encarado segundo a manifestação, Brahman é Saguna, qualificado e múltiplo.

O grande Ananda Coomaraswamy assim se refere à sílaba Om: "De todo os nomes e de todas as formas de Deus, a sílaba monogramática OM, que totaliza os sons e a música das esferas cantadas pelo Sol ressoante, é a melhor. A validade desse símbolo sonoro é exatamente a mesma daquela do símbolo plástico do ícone. Eles são, um e outro, suportes de contemplação (dhiyâ-lamba). A necessidade de tais suportes deriva do fato de que aquilo que é imperceptível ao olho ou à orelha não pode ser percebido objetivamente tal como é em si mesmo, mas somente por meio da similitude. O símbolo deve, obviamente, ser adequado, e não poderia ser escolhido ao acaso. Infere-se (avêshyati, âvâhayati) o invisível do que é visível, o não compreendido do que é compreendido. Mas essas formas não são mais do que meios de aproximação do informal e devem ser descartados antes que nos seja dado de nos mudar nele."

A partir daqui, o Upanisad passa a identificar os estados às letras que compõem a sílaba sagrada OM.

9. O estado de vigília é A, pois simboliza o início. Na ordem do ser, a vigília, o estado comum a todos os homens é hierarquicamente a última, pois correponde à manifestação em seu aspecto mais denso e grosseiro. Quando tomado a partir do ponto de vista do homem e de sua ascensão espiritual, esse estado é o primeiro. Aquele que realiza a plena consciência e identificação torna-se o senhor desse primeiro estado e tudo que nele há lhe pertence.

10. O estado de sonho é U, pois simboliza o estado intermediário na manifestação. Não é mais o denso estado de vigília e corresponde à manifestação sutil, mas ainda não é o sono profundo. Quem realiza essa identificação conhece tudo o que é manifestado, seja aquilo que é sutil ou seja grosseiro, pois este está contido naquele. Ninguém que pertença à sua posteridade espiritual será ignorante de Brahman.

11. O estado do sono sem sonhos é M e simboliza o ponto extremo da manifestação. Ele encerra a sílaba sagrada e corresponde à manifestação enquanto eminentemente contida em seu princípio. É "medida" porque é o princípio de toda a manifestação, que se compõe de seres determinados e ordenados. É "absorção" porque tudo o que há, sutil ou grosseiro, tem nele sua origem e a ele retorna e dele não difere essencialmente.

Quem realiza essa identificação têm em si todas as possibilidades da manifestação da mesma forma que Ishwara. Gaudapada Acarya declara que "o grande sábio, aquele que conhece com firme convicção a similaridade nos três estados é digno de adoração e louvor por todos os seres."

12. O quarto estado não tem representação nas letras que compõem a sílaba sagrada OM. Isso porque ele está além de toda palavra e toda representação. Nele todas as coisas encontram seu fim, pois é o substrato não-dual de tudo o que há, houve e um dia vai haver. Está além do próprio princípio da manifestação que é representado pela letra M. É a verdadeira do eu fenomênico, é o Si supremo e quem realiza essa identidade alcança Brahman por meio de seu próprio eu. Tat Tvan Asi. "Tu és isso!"

Heinrich Zimmer afirma que o quarto estado é o silêncio sobre o qual o som da sílaba sagrada repousa. O som passa, mas o silêncio permanece. É o fundo eterno, imutável e em si mesmo não-dual do qual e sobre o qual as dualidades nascem e duram no tempo. Nada pode ser dito a não ser a negação sistemática de qualquer determinação e limite.

Gaudapada Acarya comenta: "OM é certamente o Brahman inferior; e Om é considerado o Brahman superior. OM é sem causa, sem dentro e sem fora e sem efeito; e é imperecível"
Sankara Acarya explica o comentário de seu mestre: "OM é o Brahman superior e o inferior. Quando as partes e letras desaparecem, a partir do ponto de vista superior, OM vem a ser verdadeiramente o supremo Si que é Brahman. Por conseguinte, é apurvah, sem causa que o preceda. Não há nada dentro dele que seja de uma classe diferente, então ele é anantarah, sem "dentro". Similarmente, não há nada existindo fora.(...) A idéia implicada (como um todo) é que ele é coextensivo a tudo que está dentro ou fora; e é verdadeiramente sem nascimento."

Gaudapada Acarya continua seus comentários seguintes termos: "Om é realmente o começo, meio e fim de tudo. Tendo conhecido OM dessa forma, a pessoa atinge imediatamente a identidade (com o Si supremo)."

Sankara Acarya, o mestre vedantino comenta o comentário de seu mestre; "Como um mágico (OM é) o começo, meio e fim - a origem, a manutenção e a dissolução de tudo - do universo fenomênico inteiro, que consiste de espaço e o resto que se originam como um elefante mágico, uma serpente que na verdade é uma corda, uma miragem, um sonho, etc."

Gaudapada cotinua: "Deve-se reconhecer o OM como o Deus sediado nos corações de todos. Meditando no todo-penetrante OM, o homem inteligente não mais sofre.(...) Aquele por quem o OM é conhecido é o sábio real e nem um outro o pode ser."

Como asseverava René Guénon, aquele que alcança esse quarto estado realiza a "Suprema Identidade."
Encerram-se aqui os comentários curtos ao Mandukya Upanisad.
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Leia também: 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

René Guénon, monoteísmo, politeísmo e angeologia


"Pois as Formas são engendradas no sentido de possuírem um princípio do qual elas derivam seu ser, mas elas são engendradas porque não possuem tal princípio no sentido temporal."

PLOTINO, Enéadas, II. 4.5 (tradução minha)

Em um artigo publicado na edição de outubro-novembro de 1946 da revista Études Traditionelles (republicado na edição Mélanges, da Gallimard), René Guénon trata das relações entre monoteísmo e politeísmo nas tradições espirituais. O politeísmo, tal como entendido usualmente, seria a afirmação de um pluralidade de princípios independentes como origem da realidade manifestada. Ocorre que, para Guénon, essa noção não pode ser mais do que uma incompreensão metafísica da relação entre os deuses e o Princípio supremo. 

Segundo Guénon, toda a tradição verdadeira é essencialmente monoteísta, isto é, afirma antes de tudo a unidade do Princípio Supremo, origem e sustentáculo de todas as coisas. Embora o monoteísmo seja claramente afirmado pelas formas religiosas (e, portanto, exotéricas) do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, o termo "monoteísmo" poderia, sem inconveniente, ser aplicado à toda afirmação da unidade principial.

Por essa razão, o monoteísmo pode conter em si todo tipo de desenvolvimentos envolvidos na extensão dos atributos divinos ou mesmo na angeologia. Os anjos, por exemplo, podem ser entendidos como "intermediários celestes", representando ou exprimindo aspectos divinos na ordem da manifestação informal, afirma Guénon. Haveria, portanto, em todas as tradições legítimas uma angeologia ou algo que o valha, o que explicaria as coincidências encontradas nesse tema entre culturas diversas e que geralmente são atribuídas à influência mútua entre as sociedades. 

Em outros termos, a angeologia seria uma decorrência necessária da afirmação tradicional da unicidade do Princípio Supremo. Trata-se da doutrina que se refere aos estados informais ou supraindividuais da manifestação. Como exemplo, Guénon afirma que os devas, os deuses hindus, não seriam outra coisa que os anjos nas tradições semíticas. 

Guénon parece ter a mesma opinião de Jagadish Chandra Chatterji, exposta em seu livro The Wisdom of the Vedas (1931), na página 87:

"Os Devas, crua e incorretamente interpretados como 'deuses', mas, mais apropriadamente 'anjos', não são personificações da natureza e de seus fenômenos, mas o próprio espírito e Eu (Self) do Universo visto através das formas da Natureza através de um prisma." (tradução minha)

Na nota 56, a fim do livro, Chatterji explicita mais ainda o seu pensamento acerca das relações entre os deuses e o Princípio Supremo:

"Os Vedas não são mais politeístas do que são, para cunhar um novo termo, 'poliantropoísticos'. Os assim chamados deuses dos Vedas não possuem existências mais separadas e independentes do que as dos homens: ambos, humanos e deuses, são igualmente diferentes manifestações de uma única realidade, Brahman, que é o único Deus, se "Deus" deve ser usado. É tão absurdo chamar os Vedas de politeístas que Max Müller foi obrigado a cunhar um novo termo, 'henoteísmo', para a concepção védica dos devas." (p.134)

A tese de que existem tradições politeístas, no sentido da afirmação de uma pluralidade de princípios da realidade, segundo Guénon, é fruto somente da incompreensão dessa realidade metafísica exposta em seu artigo. A acusação de que a angeologia teria sido uma influência contaminadora do politeísmo sobre o monoteísmo seria o mesmo que dizer que, se a idolatria nasce da incompreensão de certos símbolos, o próprio simbolismo seria  não mais que uma derivação da idolatria. O que é, portanto, absurdo.

Guénon não o diz, mas a sua exposição trata, cremos, da confusão comum entre os sentidos de O θεός ("o theós", Deus) em monoteísmoοι θεοί ("oi theoi", os deuses) em politeísmo. Embora ambos, monoteísmo e politeísmo, utilizem o mesmo termo θεός, o sentido empregado muda nos dois usos. O monoteísmo afirma θεός como origem e sustentáculo de todas as coisas, isto é, como a fonte última e eterna de toda a realidade. O sentido de θεός em politeísmo afirma a existência não de uma pletora de princípios distintos, todos igualmente responsáveis pela origem e sustentação de toda a realidade, mas sim uma classe de realidades, superiores ao homem, que, no entanto, é composta igualmente por manifestações do Princípio último de todas as coisas. 

Em outros termos, o absolutamente Incondicionado dá origem a diversos níveis de condicionados. Os deuses, como diriam os gregos antigos, são Ἀθάνατοι, "imortais". Eles possuem origem (o que na mitologia é simbolizado pelas narrativas dos nascimentos dos deuses), mas não morrem. Não são a fonte última de todas coisas, mas são superiores aos homens, que são mortais. Do mesmo modo, os deuses não podem ser igualados ao Princípio último, ao Incondicionado, por mais sublimes que estes sejam em comparação com os homens.

Confundir os deuses com o Princípio seria confundir o finito com o infinito, o causado com a causa. Toda a incompatibilidade entre o monoteísmo e o politeísmo adviria somente da incompreensão dessas relações. Ademais, a presença da angeologia em tradições monoteístas como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo seria a evidência de que essa pretendida incompatibilidade é ilusória, pois os anjos não seriam mais do que manifestações desse Princípio. Como, por exemplo, manifesta a deliberada identificação realizada pelo filósofo judeu Fílon de Alexandria (século I D.C.) entre as Ideias de Platão e os anjos, na qualidade de razões eternas contidas na mente de Deus.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Surendranath Dasgupta, Yoga, mística e Budismo

"A mais fundamental característica do misticismo do Yoga consiste, em seu aspecto negativo, não somente em uma descrença na habilidade da percepção sensível e do pensamento lógico para compreender a verdade última sobre a absoluta pureza e caráter livre de nosso verdadeiro eu, mas também na descrença na possibilidade da compreensão dessa excelsa verdade enquanto a própria mente não for destruída. Em seu aspecto positivo, ela implica que a sabedoria intuitiva é apta a conquistar uma clara compreensão da verdade por meio da gradual destruição do intelecto."

SURENDRANATH DASGUPTA, Hindu Mysticism, pag. 80 (tradução própria)

Na terceira palestra do ciclo de lectures ministrado na Northwestern Univerity sobre o misticismo hindu, o scholar indiano Surendranath Dasgupta trata do Yoga e seus objetivos. Ele inicia afirmando que, após a mudança de perspectiva e de objetivos espirituais operada pelos rishis nos Upaniṣads, a busca pela realidade última dar-se-ia no interior do homem, na compreensão da natureza do Ātman. Em vez dos objetivos materiais preconizados pelos sacrifícios védicos, os sábios buscavam conhecer a realidade absoluta para além de toda linguagem e descrição.

Segundo Dasgupta, de 700 a 800 anos antes de Cristo, já havia ascetas cujo hábito era o de concentrar suas mentes em objetos particulares e, por conseguinte, parar o movimento da mente e dos sentidos. Essa prática ainda não fazia parte de nenhum sistema metafísico de pensamento, mas era praticada com o fim de alcançar paz e quietude mental. Patañjali (II A.C.), o grande mestre do Yoga, fornece uma base filosófica para o sistema e indica, pela primeira vez, como as técnicas podem ser utilizadas para a emancipação do homem da servidão da mente e dos sentidos.

Os sábios dos Upaniṣads afirmavam que a realidade última era alcançada por uma experiência de auto-iluminação superior a qualquer modo de cognição comum. A natureza desse princípio último era altamente mística e foi considerada obscura mesmo no tempo dos rishis, uma vez que ultrapassava os modos de cognição sensíveis e intelectuais. Não obstante, era encarada como o eu real (e a realidade última. Essa experiência é a raiz de toda mística indiana desde então. A concepção geral do Ātman era de uma pura consciência sem conteúdo, diferente do que entendemos por idéia, conhecimento e pensamento. 

Enquanto nossos pensamentos e sentimentos são mutáveis, a pura consciência é imutável. O objetivo derradeiro do Yoga é justamente dissociar o eu dos pensamentos, sentimentos, sensações e idéias e aprender que estes não passam de associações estranhas à sua natureza real. O eu é sempre livre, o princípio último da pura consciência, distinto de todas as funções mentais, faculdades, poderes e produtos. Confundimos o eu com as operações mentais e, por isso, perdemos de vista a sua verdadeira luz.

O verdadeiro eu, diz Dasgupta, é como uma pura luz branca encerrada por uma cúpula colorida e as operações da mente são os raios coloridos que emanam da cúpula. A luz branca permanece inalterada mente branca em sua fonte, mas é vista em diversas cores e confundida com elas. A única forma de desfazer a confusão é retirar a cúpula colorida e deixar livre a pura luz branca. O processo do Yoga consiste em controlar a mente de tal modo que cesse a mudança dos diferentes estados mentais. 

A primeira condição é uma grande elevação moral. O yogue deve abster-se de prejudicar, ferir ou tirar a vida de qualquer ser vivo. Não deve roubar ou mentir e deve ter absoluto controle de suas tendências sexuais. Ele deve trocar pensamentos pecaminosos por pensamentos santos, meditar nos efeitos deletérios das tendências que o levam ao caminho errado. Deve cultivar a pureza, o contentamento, a indiferença às dificuldades, o estudo, a rendição a Deus, a compaixão, etc.

A meditação do Yoga começa com a concentração em algum objeto objeto físico. Essa concentração, entretanto, nada tem a ver com a busca da descoberta de novas relações ou fatos, como no caso do cientista concentrado em um fenômeno natural. O objetivo é parar o movimento da mente e evitar sua natural inclinação para a comparação, classificação, associação e assimilação. Atada a esse objeto, a mente não vagueia e seu movimento cessa.

Nada é conhecido do objeto em suas relações normais, mas a mente torna-se una com ele, fixa e imóvel. É o estado chamado de samadhi. É o conhecimento não mais contaminado pelas associações da mente, no qual o objeto não aparece como um objeto de "minha" consciência, pois não há mais "eu" e "objeto". A real natureza dos objetos é obscurecida pelas muitas associações ilusórias e falsas que fazemos em nosso conhecimento comum. Quando toda a dualidade de sujeito e objeto é ultrapassada, a real natureza das coisas é revelada em uma intuição direta chamada de prajna.

É preciso que o yogue concentre-se em objetos cada vez mais sutis, como a mente e Deus, a quem ele deve render-se completamente. Assim, verdades mais nobres são percebidas até que a libertação total do eu verdadeiro dos apegos da mente tenha acontecido. Mas a revelação última está para além de todo conceito, razão, sentimento ou mesmo intuição dos modos comuns de conhecimento. É, pois, indizível.

O processo consiste, então, em um caminho triplo de alta elevação moral, treino físico do corpo pela prática das técnicas de Yoga e concentração mental fixa que conduz ao conhecimento da realidade tal como ela é, fora de todas as associações que nascem da dualidade de sujeito e objeto. A mente controlada liberta o homem do apego e da rejeição.

Na palestra seguinte, sobre o misticismo budista, Dasgupta afirma haver muitas coincidências entre o caminho de Patañjali e o de Buddha e afirma que não é improvável que ambos tenham feito uso de práticas que existiam já há muito. A diferença principal parece ser o objetivo de cessação ou extinção expresso no Nirvana budista. Embora seja difícil descrever o Nirvana, pois é um estado sem nenhum conteúdo, ele é a libertação de todo o sofrimento e de toda a felicidade. É concebido como a suprema bem-aventurança e é, ao mesmo tempo, comparado à extinção de uma chama.

O estudiosos ocidentais, cujo temperamento é muito diferente dos budistas indianos, não compreenderam o Nirvana, critica Dasgupta. Tanto os ensinamentos dos Upaniṣads quanto os ensinamentos de Patañjali apresentam o estágio último da busca espiritual como algo sem conteúdo e não conceitual.  É o eu, mas o eu liberto de todos os apegos e formas de conhecimento de nossa experiência comum. É a extinção de todos os sofrimentos, prazeres e experiências mundanas, tal qual o Nirvana. É um estado de bem-aventurança, mas sem sujeito e objeto, para além de toda a compreensão intelectual.

Os hindus, continua Dasgupta, pensam que tal estado é o luminoso Ātman. Os budistas, todavia, não podendo dizer o que existe nesse estado, negaram a existência do eu. O ensinamento hindu, porém, dificilmente pode ser dito mais claro que o budista. Ātman e Nirvana são igualmente indescritíveis, a não ser pelo método negativo de "não isso" e "não aquilo". Para discussões acadêmicas e filosóficas, um é absolutamente diferente do outro, mas do ponto de vista da experiência mística, ambos são transcendentes, sem conteúdo, insondáveis e profundos demais para a compreensão comum.

Surendranath Dasgupta não avança na comparação e deixa a questão nesse estado. Será interessante, creio, citar uma passagem do livro The Wisdom of the Vedas, de Jagadish Chandra Chatterji, onde o autor trata do objetivo espiritual último e faz uma comparação semelhante a de Dasgupta:

"Em seguida, há um terceiro grupo de práticas que são puramente mentais, conduzindo ao que é chamado de Samadhi, que é, em sua forma última, o estado de consciência do próprio ser verdadeiro do Atman, absolutamente livre e independente de todas as relações com qualquer objetividade, que desapareceu. Esse é também o Nirvana do Buddha, a consciência ilimitada (anantam vijnanam) sem qualquer relação  com Terra e Água, Fogo e Ar, isto é, toda a objetividade, que desapareceu de sua visão (ver Kevaddha Sutta, fim). O Nirvana é descrito exatamente nos mesmos termos aplicados a Brahman-Atman nos Vedas, tais como não-nascido, incomposto, eterno e similares." (tradução própria, itálicos no original).
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Leia também: http://oleniski.blogspot.com/2019/10/surendranath-dasgupta-mistica-e-os-vedas.html

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Paul Friedländer: Platão, Sócrates, diálogos e os Upanisads

"Não há conflito entre Platão, o metafísico, e Sócrates, o inquiridor irônico: o próprio Platão sempre viu em Sócrates um símbolo tanto da realidade quanto da inafabilidade daquilo que ele, de modo muito simples, chamou de 'o bem'."

PAUL FRIEDLÄNDER, Plato: an Introduction, p. 170

No capítulo VIII de sua introdução ao pensamento de Platão, o filósofo alemão Paul Friedländer discute a natureza dos diálogos de Platão e, em dado momento, permite-se uma interessante digressão sobre uma outra tradição de diálogos mais antiga que a dos gregos, a saber, os Upanisads indianos. Algumas páginas antes, Friedländer afirma que, com Sócrates, um movimento dialógico entra no pensamento grego e na vida intelectual do mundo ocidental, movimento esse que não existia anteriormente.

Todavia, o autor reconhece que há uma tradição dialógica (provavelmente sem nenhuma conexão histórica com Platão) anterior à grega e que é uma grande literatura de conversações filosóficas no mundo inteiramente diferente da Índia. Essa tradição espelha uma vida marcada pelo debate e pode ser comparada aos diálogos socráticos (Σωκρατικοί Λόγοι) por também construírem seus diálogos como obras literárias em contraste com a conversação natural. Esse parece, contudo, ser o único elemento que ambas as tradições têm em comum.

Friedländer assevera que as realidades apresentadas nesses diálogos são completamente diferentes. No caso grego, é Sócrates, a um tempo conhecedor e ignorante, que pergunta, testa e educa. Nos Upanisads, são diversos sábios competindo entre si e proclamando suas doutrinas a partir da profundidade de suas sabedorias. Mesmo quando um sábio destaca-se entre os outros, como Yajnavalkya, ele é muito diferente de Sócrates, pois a pessoa importa tão pouco que a mesma proclamação de sabedoria é feita por um outro sábio, Aruni, ou mesmo por um deva.

Aparentemente, mais próxima à tradição dos diálogos socráticos, como Friedländer considera, estão as conversações e debates competitivos de Siddharta Gautama, o Buddha. De fato, aqui encontra-se o iluminado parcialmente pregando e parcialmente comunicando a eles as doutrinas básicas sobre o sofrimento e a libertação do sofrimento. Não obstante, na situação bem como na forma da conversação, há similaridades com os diálogos socráticos. 

Mas as diferenças incomparáveis entre os mundos grego e indiano, a proclamação de uma doutrina inabalável, a atribuição da sabedoria a si mesmo do Buddha mostram, diz Friedländer, que às conversações do iluminado tanto quanto àquelas dos Upanisads falta a unidade orgânica superior alcançada por Platão em suas obras. E isso conduz ao cerne da comparação: que o autor dos diálogos não ensina nada ele mesmo, mas o que ele diz reflete seu mestre. Não há nenhum elemento de tensão entre seus próprios processos de pensamento e aqueles que ele está descrevendo. 

O mundo platônico, por seu turno, afirma Friedländer, tem um centro e uma periferia separados de Sócrates. O que distingue os diálogos platônicos dos diálogos de Sócrates é o fato de que, além de espelhar a vida socrática, eles são também uma exposição da própria filosofia de Platão. Mas se este é o caso, não há conflito entre o modo socrático, sempre inquirindo, buscando e professando ignorância, e o dogmatismo de Platão? Por qual razão ele teria escolhido um meio de expressão que estivesse tão longe de seu mestre?

Sócrates era completamente comprometido com o discurso oral, de modo que jamais escreveu suas idéias filosóficas. Mas não há como saber se ele, em algum momento, teceu reflexões sobre o valor do discurso escrito. O que sabemos é que Platão fez considerações sobre o valor da escrita pela boca de Sócrates nos diálogos e nas suas cartas.

Não obstante, diz Friedländer, "o impulso do artista criativo sempre esteve aceso nele com um poder tremendo". A nova experiência de Sócrates, e não a dos heróis trágicos, exigia uma expressão criativa. Ademais, os diálogos afastavam as objeções formuladas contra os livros escritos: que são rígidos e que não sabem como responder a questões. O diálogo escrito transmite sua dinâmica dialógica e dialética ao leitor.

Para Sócrates, só há filosofia como uma atividade contínua e suas conversações variavam de acordo com seu interlocutor. Platão, a despeito de transmitir doutrina e sabedoria, incorpora o princípio educativo socrático da filosofia conduzida por uma constante mudança de perspectivas que revelam diferentes aspectos da questão geral. E o conhecimento humano não repousa quando conquistado. Ao contrário, o que é adquirido é sempre ameaçado por forças contrárias. A dialética possui uma tensão que a torna viva.

Por outro lado, afirma Friedländer, essa forma intelectual transforma-se em uma forma dramática. O autor dramático reflete o mundo como uma luta de forças autênticas e personalizadas. Os diálogos dão voz e expressão a posições que, embora não sendo as esposadas pelo próprio Platão, em certa medida faziam parte de Platão como forças a serem conquistadas interiormente.

O princípio socrático de destruição das pretensões de conhecimento do interlocutor a fim de abrir o caminho para a busca conjunta pela verdade manifesta-se em Platão, segundo Friedländer, como uma tensão na qual a falsidade deve ser, antes de tudo, identificada e as forças opostas destruídas, para que, só então, seja possível passar à reconstrução do saber. Os primeiros diálogos platônicos têm essa função. Esse caminho hierárquico do conhecimento é o caminho dialético que, por sua vez, reflete-se nos diálogos.

Aqui chega-se ao contraste entre o caminho filosófico socrático e o caminho filosófico platônico. Platão não encerra a discussão, como Sócrates, com uma declaração de ignorância. Ele encontrou um mundo metafísico e, por isso, tinha como tarefa fazer com que outros enxergassem essa realidade através de seus olhos. Isto é, Platão descobriu o que Sócrates buscava.

Mas foi pela dialética socrática que o discípulo alcançou o mundo das formas eternas. Daí que Platão sentisse a necessidade de levar o discurso socrático para além de seus limites originais e, assim, a dialética tornou-se a escada pela qual ascende-se das hipóteses condicionais ao incondicional. E no cume de tudo está aquilo que é "para além do ser", incognoscível e incomunicável. A característica admissão socrática de ignorância é espelhada pela ausência de expressão da verdade final em Platão.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

P.T. Raju sobre a filosofia ocidental e a filosofia oriental

"A filosofia grega, ao contrário, embora sem desinteressar-se por essa verdade religiosa, estava mais interessada na vida que o homem tinha que levar na terra. Consequentemente, era preciso formular uma estrutura conceitual da natureza, da sociedade e do homem. Enquanto que, para o indiano, sendo a realidade na qual ele estava interessado interna e uma questão de experiência, a formação de conceitos era de importância secundária."

P. T. RAJU, The Western and the Indian Philosophical Traditions, p. 137

O professor e filósofo indiano Poola Tirupati Raju, em seu artigo The Western and the Indian Philosophical Traditions, tenta traçar, em linhas gerais, as origens, diferenças e desenvolvimentos do pensamento filosófico greco-ocidental e do pensamento filosófico indiano. Raju afirma que a civilização e a religião indianas nasceram há cerca de quatro mil anos nas regiões de Mohenjo-Daro e de Harappa, das quais dão testemunhos escavações que encontraram evidências de uma população pacífica que cultuava Siva e Sakti. Na mesma época, a prática da Yoga já era difundida.

A direção decisiva do pensamento indiano é dada no advento dos primeiros Upanisads, em torno de 900 a 600 anos antes de Cristo. Ali estão contidas discussões  sobre o Samsara, a transmigração, a lei do Karma, a imortalidade da alma e a identidade do Absoluto (Brahman) e do Atman, A ênfase migra da realização criteriosa dos sacrifícios determinados pelos Vedas para a meditação e realização de Brahman. A realidade última deve ser encontrada não no exterior, mas nas profundezas interiores de nosso ser, o Atman.

O aparecimento, no século VI A.C., do jainismo e do Budismo, respectivamente fundados por Mahavira e Siddarta Gautama, aprofunda ainda mais essa ênfase na busca interior, pois, sendo tradições que rejeitam a autoridade dos Vedas, estão completamente desligadas dos deveres de sacrifício e da estrutura das varnas (castas). O centro dessas tradições está na busca interior da libertação, constituindo-se predominantemente de comunidades monásticas para as quais a organização social exterior tinha pouco interesse. Raju afirma que o Budismo e o Jainismo não pregam nada estranho aos Upanisads, concentrando-se, contudo, exclusivamente na natureza interior da realidade e deixando outras doutrinas de fora de suas prioridades espirituais.

Algo completamente diferente ocorre na origem da filosofia grega, afirma Raju. Embora a preocupação com a realidade interior não tenha jamais desaparecido do horizonte da filosofia grega, a ênfase estava na realidade exterior. O centro desse pensamento encontra-se no homem e na sociedade, na ciência e na ética. Busca responder à questão de como pode o homem viver a boa vida no mundo.

Raju ilustra essa diferença comparando o que considera a primeira grande obra filosófica grega, a República, de Platão, com a primeira grande obra filosófica indiana, o Brhadaranyaka Upanisad . A primeira tem como objetivo o estudo da sociedade e do lugar do homem dessa estrutura, enquanto a outra tem como objetivo o estudo do Atman e dos métodos para a sua realização:

"O método adotado pelo primeiro é o dialético-socrático, que visa a formação de conceitos necessários para a compreensão da realidade exterior, enquanto o do último é a negação de uma entidade após a outra, até que nos deparemos com uma realidade que não pode ser negada. Há pouco esforço para formular um conceito dessa realidade e toda a importância está ligada à sua realização. Para resumir a diferença: a filosofia grega tentou entender os modos da vida exterior e a filosofia indiana o caminho para a vida interior, e ambos consideravam que estavam em busca da realidade última." (p. 135)

Os rishis, os sábios dos Upanisads, almejavam conhecer o real e o supremo universal e o encontraram no Atman identificado a Brahman. Por essa razão, o pensamento  indiano não estava precipuamente interessado na construção de uma estrutura conceitual para refletir a realidade que, ao fim, encontrava-se na dimensão mais interior e não na exterior. Tal é o fundamento da metafísica indiana.

Por que os hindus recusam-se a conceituar Atman e os budistas recusam-se a fazer o mesmo e por que ambos afirmam que a realidade última está para além de qualquer conceito ou pensamento? Porque o Ser ou essa realidade a ser conceituada está dentro daquele que conceitua, incluindo-o e transcendendo-o. Os Upanisads tratam do Atman e de Brahman e, por meio desses escritos, o homem adquira alguma idéia de ambos. Mas nenhuma idéia é o seu Ser.

Brahman é o centro mesmo de nosso ser e não pode ser apontado demonstrativamente como alguém que aponta um objeto distinto de si mesmo. Se o experimentamos, sujeito e objeto são obliterados e a pré-condição de qualquer julgamento desaparece. Por isso os Upanisads afirmam que nem a linguagem e nem os conceitos alcançam Brahman, a realidade última.

O desenvolvimento do pensamento indiano testemunhou, ensina Raju, a permanência e manutenção dessa mensagem da interioridade durante seu desenvolvimento posterior. Jiva dos jainistas, o Nirvana dos budistas, o Atman do Nyaya e do Vaiseshika, o Samkhya e o Yoga, Brahman dos Upanisads e do Vedanta são todos realidades internas. Não importando se o sistema, monista ou pluralista, realista ou idealista, a filosofia indiana é uma exposição dessa interioridade.

Raju encontra nessa especificidade do pensamento indiano a explicação do modo pacífico e harmônico com o que a religiosidade upanisádica absorveu diversos cultos dentro e fora da Índia. A ausência de dogmas e da exigência de crença em uma pessoa histórica particular, como nas religiões monoteístas, permitiu a sua expansão sem a destruição de cultos locais. A incorporação deu-se pela atribuição de um novo sentido, a da interioridade dos Upanisads, às formas exteriores dos cultos. Todo deus é uma forma de Brahman e toda deusa é sua Sakti. Semelhantemente, a expansão do Budismo pela China, Japão e Sudeste Asiático incorporou harmonicamente tradições locais.

Não há exposições sistemáticas nos Upanisads da interioridade, mas sim sentenças sobre diversas verdades ou experiências, de diferentes pessoas de diferentes épocas e lugares. A formação de conceitos filosóficos teria iniciado em torno do primeiro século antes de Cristo, estendendo-se até o século sétimo depois de Cristo com a composição dos Nyayasutras (século II D.C.), Vaisessikasutras (II D.C.), Mimansasutras (II D.C.), Yogasutras (III D.C.), Brahmasutras (IV D.C.). O primeiro grande comentário aos Brahmasutras foi composto por Gaudapada (século VI ou VII), seguido pelo importante e influente comentário de Sankara (século VIII).

A tradição ocidental, resume Raju, é essencialmente uma filosofia da exterioridade e a tradição indiana é uma filosofia da interioridade. O que não significa que estejam completamente ausentes em cada tradição os elementos da outra. A tradição indiana é centrada no Atman, seu ponto de partida e seu fim, de onde tudo origina-se e a para o qual tudo retorna. Imanente ou transcendente, a realidade última é diferente de qualquer coisa concebível.
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quinta-feira, 2 de maio de 2019

Radhakrishnan, Platão, Plotino e a estrutura da realidade

"Assim, temos o supremo Absoluto como primeiro princípio, do qual ambos o Deus pessoal (nous) e a alma do mundo surgem para fazer a mediação entre o Absoluto e o mundo. O símbolo Aum, incluindo os três sons A U M, representa o supremo com seus três aspectos grosseiros, sutis e causais. Da mesma forma que a totalidade da experiência do homem inclui os três estados de vigília, sonho e sono profundo, a realidade de Brahman inclui os aspectos grosseiros, sutis e causais  do universo."

SARVEPALLI, RADHAKRISHNAN, Eastern Religions & Western Thought, p. 127

Sarvepalli Radhakrishnan, scholar indiano, em sua obra Eastern Religions & Western Thought, traça interessantes paralelos entre a estrutura da realidade em Platão, em Plotino e nos Upaniṣads. Ao tratar do Mandukya Upanisad, Radhakrishnan afirma que ali é apresentada uma correspondência entre os quatro estados da consciência e quatro estados da realidade.

Os estados da consciência são: consciência transcendental (turiya), sono sem sonhos (susupti), sonho (svapna) e vigília (jagrat). Neste último, o estado de vigília, o eu trava contato com o mundo físico e com seu corpo, embora um seja distinto do outro. No estado do sonho, o eu tem contato com as realidades oníricas intangíveis e no estado do sono sem sonhos o eu permanece mesmo sem consciência do mundo físico ou do mundo onírico.

O eu psicológico é um composto de idéias, imaginações, memórias, afecções, desejos e hábitos. Mas o eu verdadeiro é mais do que esse eu psicológico, essa personalidade que não é mais do que uma máscara. O eu profundo, o "si mesmo", é a eterna testemunha silenciosa, uma luz inextinguível, verdadeira, bela e pacífica.

Não percebemos nosso verdadeiro ser por causa da nuvem de ignorância e de apego que obnubila nossos olhos. Essa consciência espiritual não é uma fantasia metafísica e pode ser realizada por qualquer um. É no estado de consciência transcendental que toma-se contato com o puro espírito do qual os estados de vigília, sonho e sono profundo são articulações imperfeitas.

"Ela é, de acordo com o Upaniṣad, invisível (pelos órgãos dos sentidos), não relacionada às coisas do mundo, incompreensível (pela mente), destituída de marcas (as quais podem ser a base da inferência), impensável, indescritível, essencialmente da natureza da consciência a qual constitui o caráter do eu, negação de todo fenômeno, a tranquilidade, a bem-aventurança, o não-dual. Tal conhecimento negativo não é mera ignorância. Conhecer que o espírito supremo não é para ser confundido com qualquer objeto que pode ser apreendido nesta vida é o mais perfeito conhecimento. Mesmo quando dizemos que permanece desconhecido, é conhecido por nós. Afirmamos que não é relacionado aos objetos externos, como na experiência da vigília, ou internos, como nos sonhos, e é um estado que transcende toda a experiência ordinária, embora seja a sua base." (RADHAKRISHNAN, p.123-124)

Diz o Mandukya Upaniṣad:

"6. [O quarto estado (Turiya)] Este é o Senhor de todos. É onisciente, o controlador interno (de tudo). A fonte de tudo. É verdadeiramente o lugar de origem e dissolução de todos os seres.

7. Não é consciente do mundo interno, nem do mundo externo e nem de ambos juntos. Não é massa de sabedoria (prajna), nem sábio, nem ignorante. Invisível, com quem não se pode ter comércio, incompreensível, indistinto, inconcebível (pelo pensamento), indescritível. Sua prova é a unidade do Si, no qual todo o fenômeno cessa; e que é imutável, auspicioso e não-dual. Assim eles consideram que é o quarto [estado]. Tal é o Si e Isto deve ser conhecido."


Correspondentes aos quatro estados da consciência são os quatro estados da realidade. Brahman é o Absoluto impessoal para além de todo conceito e de toda a limitação. A via negativa, o caminho da negação é a única linguagem possível aqui. O silêncio reverente é a atitude exigida e qualquer descrição deverá necessariamente utilizar em termos negativos. Brahman, evidentemente, não é o Não-Ser, o nada, mas justamente o que ultrapassa toda e qualquer limitação por ser a fonte última de toda e qualquer limitação.

No estado de sono profundo, sem sonhos, o princípio da objetividade, do qual nascem os estados de sonho e de vigília, está inativo, mas presente. Quando Brahman torna-se Īśvara, o deus pessoal, o repouso de Brahman torna-se uma dualidade de sujeito e objeto, o mundo ainda sendo imanifestado. Nossa frágil mente, atada às coisas temporais, facilmente imagina um processo temporal, mas aí não há tempo ou espaço. Esse princípio inconcebível de todas as coisas é como uma auto-divisão do Absoluto, como se Deus negasse a si mesmo a fim de que houvesse mundo.

O universo todo é inexistente, um nada, embora haja infinitas possibilidades a serem atualizadas pelo Supremo Senhor. Radhakrishnan afirma que "a contemplação do puro nada como uma possibilidade conduz à percepção de que qualquer tipo de existência requer um ser absoluto, o qual suplantaria o não-ser total. Mesmo o mínimo de ser envolve a derrota do não-ser pelo ser positivo. A existência de qualquer coisa pressupõe a absoluta positividade, o ser eterno, atividade e forma que atualiza potencialidades." (p.126)

Nesse papel dual, Īśvara, o Supremo é concebido como um ser pessoal cujas vontade e conhecimento não são limitados por nada e que traz o mundo à existência. Todavia, o Absoluto, Brahman, considerado em si mesmo, na sua plena auto-suficiência para além de toda limitação, segundo os Upaniṣads, não é Deus criador do mundo, Īśvara. 

Correspondendo ao estado intangível dos sonhos, Īśvara torna-se Hiraṇyagarbha, a alma do mundo, o filho primogênito de Deus. Hiraṇyagarbha é a unidade subjacente ao mundo, ontologicamente anterior à manifestação. E, por fim, o estado de vigília corresponde ao mundo já manifestado, Virāṭ

Páginas depois, tratando da filosofia ocidental, Radhakrishnan declara que Platão é a expressão completa da tradição mística grega. Essa tradição é estranha à religião grega fundada no culto dos olímpicos e sua origem deve ser buscada em influências orientais. É interessante notar, de passagem, que Paul Friedländer, em sua introdução ao pensamento de Platão, reconhece que o ateniense alcança teoricamente, na Idéia do Bem, aquilo que está para além do Ser, sendo essa a fonte de toda a mística ocidental. Todavia, para Friedländer, Platão não pode ser considerado um místico, título que deve ser concedido a Plotino, dada a sua doutrina da união com o Uno (também chamado de Bem).

Radhakrishnan também defende que há coincidência entre a estrutura da realidade nos Upaniṣads e na filosofia platônica. Há, tanto em Platão quanto nos Upaniṣads o Deus mais alto, a Idéia do Bem na República, o Demiurgo e a Alma do Mundo no Timeu. E no livro sexto da República, Platão descreve o esforço da filosofia  como a ascensão ao primeiro princípio do universo, o qual transcende toda e qualquer existência definida.

A estrutura da realidade em Platão e nos Upaniṣads apresentaria as seguintes coincidências:

Idéia do Bem (ἡ τοῦ ἀγαθοῦ ἰδέα) - Brahman
Demiurgo (δημιουργός) - Īśvara
Alma do mundo (ψυχή κόσμου) - Hiraṇyagarbha
Mundo fenomênico - Virāṭ

Radhakrishnan considera que o neoplatonismo crê na técnica hindu de entrar na consciência espiritual. Plotino solicita que se deixe de lado tudo o que não seja o Uno para que se possa alcançá-lo. Corpo, alma e todas as concepções devem ser ultrapassadas. Para Radhakrishnan, o neoplatonismo, tanto quanto os Upaniṣads, tem fé em uma mais alta revelação por meio da experiência mística. Prova-o Porfírio, discípulo de Plotino, que descreve em sua Vida de Plotino como seu mestre atingiu quatro vezes a união extática com o Deus para além de todas as coisas. 

Plotino ensinava que a realidade última não é um Intelecto, mas o Uno indescritível e absolutamente livre. É possível remontar ao Uno a partir da cadeia necessária dos entes, mas, no Uno, nenhuma necessidade O constrange. Em Plotino, diz Émile Bréhier em sua obra La Philosophie de Plotin, o Bem (Uno) reveste-se de uma dupla função: é o fim e a suposição basilar de toda e qualquer teoria racional do mundo, como era em Platão, e é o bem último com o qual toda alma quer unir-se para além do mero aspecto intelectual.

Como fundamento racional, diz Plotino, chega-se ao Uno pelo raciocínio, pelas negações e pela ascensão a partir das criaturas. Enquanto Bem último de toda realidade, chega-se ao Uno pelas virtudes, purificações e meditações. O Bem está para além do Intelecto (Nous). O ponto máximo da filosofia de Plotino é a experiência mística: a purificação da alma do amor a tudo que seja limitado, ainda que inteligível, pela percepção de que o que se ama nas coisas é o que nelas é entrevisto, a realidade supraessencial do Uno.

Temos em Plotino, afirma Radhakrishnan, uma teoria do Deus que exclui todo conhecimento de Deus, correspondendo ao Brahman impessoal dos Upaniṣads, uma doutrina do Nous, correspondendo ao Īśvara pessoal,  e a concepção de uma Alma do Mundo similar a Hiraṇyagarbha, seres intermediários pelos quais Deus age no mundo dos fenômenos, Virāṭ. Além disso, encontra-se em Plotino a confiança na elevação extática a ser alcançada por meio da emancipação do mundo dos sentidos.

A estrutura da realidade em Plotino e nos Upaniṣads apresentaria as seguintes coincidências:

Uno (ἕν) - Brahman
Intelecto (νοῦς) - Īśvara
Alma (ψυχή) - Hiraṇyagarbha
Mundo fenomênico - Virāṭ
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Leia também: http://oleniski.blogspot.com/2019/03/radhakrishnan-yoga-plotino-e-o-ideal.html

sábado, 18 de julho de 2009

Nirguna

"Conforme a fórmula bramânica, a dialética do universo é uma manifestação de um princípio não-dual, além de todo dual, porém imanente, que produz o mundo de nomes e formas (namarupa) e o habita como seu princípio animador. O dualismo da natura naturans (prakrti) e a imaterial mônada transcendente (purusa) fica deste modo transcendido."

HEINRICH ZIMMER, Philosophies of India

Toda religião ou doutrina metafísica tem como seu objetivo primordial revelar a verdadeira natureza das coisas e, por conseguinte, a verdadeira natureza do homem. Na Índia, essa revelação se dá pelo conhecimento de uma oposição essencial (a qual já apontei em outros posts) entre o determinado e o indeterminado.

Poder-se-ia dizer que a característica essencial da metafísica indiana é a discriminação (viveka) entre namarupa e nirguna. Tudo o que as doutrinas religiosas indianas ensinam, do Jainismo e do Sankhya até os Upanishads e o Vedanta, é a discriminação entre o fluxo incessante do mundo fenomênico de seres discretos atuantes no tempo e no espaço e a natureza real, imutável, inativa, eterna e, principalmente, sem qualidades.

A discriminação indiana não passa , como a ocidental, por uma divisão entre alma e corpo, ou mente e corpo. Tanto os fenômenos mentais e internos quanto os fenômenos corporais externos estão incluídos num mesmo reino. A metafísica indiana essencialmente discrimina entre namarupa, o mundo de nomes e formas determinadas e finitas e nirguna, o que não tem características, o indeterminado, o infinito.

Na antiga doutrina dualista e realista pré-ariana do Sankhya-Yoga, o mundo do nome e das formas é prakrti que é posto em movimento, desde sempre, pela presença inativa de purusa de forma análoga à grama que cresce pela ação indireta do Sol. Como o indólogo alemão Heinrich Zimmer afirmava, de purusa " nada pode ser dito (além da declaração de que ela é), exceto em termos negativos: não tem atributos, qualidades, partes, movimento; é imperecível, inativa e impassível; não é afetada por dores nem por prazeres, carece de emoções e sentimentos, é completamente indiferente às sensações. Está fora das categorias do mundo."

Ela é nirguna, sem determinações ou qualidades. Na filosofia vedantina ortodoxa, pregada pelo grande Sankaracarya, o adjetivo nirguna será aplicado a Brahman, a realidade subjacente não-dual e imanifestada que se revela e se esconde em cada manifestação fenomênica. Tudo o que é é Brahman, mas Brahman não é nenhuma das coisas em particular e nem a soma delas. É transcendente no sentido de que nada do que há o esgota e imanente no sentido de que cada coisa, sem exceção, manifesta-o.

Brahman Nirguna é o substrato de todas as coisas do qual nada se pode dizer, pois a linguagem dual do mundo das formas e nomes (namarupa) não é capaz de descrevê-lo. A tentação é chamá-lo de nada. Mas não um nada privativo e negativo, de ausência que qualquer coisa. Mas um nada que, como possibilidade última de toda e qualquer manifestação, é seu pressuposto. É o que, por ser imanifestado, torna possível a manifestação e, por conseguinte, não pode ser descrito ou esgotado por nenhum meio próprio ao que é manifestado.

Na filosofia Vedanta, no entanto, o dualismo Sankhya, que afirmava uma diferença ontológica real entre purusa e prakrti, é deixado para trás pela concepção na qual Brahman Nirguna não é ontologicamente diferente do mundo das formas e dos nomes (namarupa). Ele simplesmente é o barro do qual o vaso é a modificação. É a corda que, por engano e por ilusão (Maya), é vista como uma cobra.

Tat tvam asi. Tu és isso. Cada ser que observamos no exterior assim como nosso corpo e nossa realidade psíquica interior são manifestações desse princípio infinito e impessoal a que nenhuma vicissitude atinge.

Brahman é lótus florescendo.