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sexta-feira, 6 de março de 2020

"As Traquínias" de Sófocles: ciúme, culpa e a ação dos mortos


"Dejanira: "Antigo é o ditado que anda em voga entre os homens: 'até que alguém esteja morto, ninguém sabe se sua vida foi boa ou foi má"

SÓFOCLES, "As Traquínias"

A tragédia As Traquínias (Τραχίνιαι), peça teatral de Sófocles (século V A.C.), trata da fatídica decisão de Dejanira que  ocasionou a morte de Héracles (Hércules). Ao contrário do assassinato premeditado do rei Agamemnon por sua esposa Clitemnestra, dominada pela sede de vingança pelo sacrifício de sua filha, Ifigênia, a morte do maior dos heróis gregos acontece por um erro da esposa Dejanira dominada pelo ciúme e por um ardil de um inimigo já falecido.

Após anos de ausência de seu esposo, empenhado em seus famosos trabalhos, Dejanira lamenta seu destino e anseia pelo retorno do herói. Ela envia seu filho, Hilo, para procurar o pai e, em seguida, inadvertidamente, chega um mensageiro a Trachis anunciando que Héracles encontrava-se em Cabo Cenaeum realizando sacrifícios a Zeus após vitória em uma batalha e que logo estaria em casa. A boa notícia é confirmada pela chegada de Lichas, o arauto de Héracles, que traz consigo um grupo de mulheres cativas conquistado como espólio de guerra.

Lichas conta a Dejanira que seu mestre Héracles havia guerreado contra o rei da Oechalia e que, vitorioso, enviava à sua frente aquelas mulheres como butim. Entre elas estava Iole, a filha do rei. Dejanira recebe bem as jovens, apiedada da condição de escravas a que estavam agora submetidas. Mas cedo ela descobre que a história era falsa e que Héracles, na realidade, havia cercado a cidade só para capturar Iole e torná-la sua esposa.

Enciumada, Dejanira decide usar a astúcia para recuperar o amor de seu esposo. Quando jovem, Dejanira atravessara um rio montada num centauro, Nessus. Contudo, no meio da travessia, o centauro tentou subjugá-la. Héracles a salvou lançando uma flecha contra Nessus. Este, antes de morrer, dissera a Dejanira que seu sangue, agora misturado ao sangue da Hidra de Lerna que estava na flecha, seria capaz de tornar Héracles eternamente apaixonado por ela. Dejanira pede então que Lichas entregue a Héracles um manto que, secretamente, ela havia embebido no sangue do centauro.

Dejanira logo pressente que algo desastroso aconteceria quando, exposto ao Sol por acaso, o sangue do centauro derretera um pano como se fosse ácido. Lembrou-se da advertência de Nessus de que seu sangue não deveria ser exposto ao Sol ou ao calor. Nesse ínterim, retorna Hilo e acusa sua mãe de assassinato. O manto enviado a Héracles por Dejanira envenenou-o tão logo ele o vestira no meio de seus sacrifícios a Zeus.

As dores provocadas pelo veneno eram tais que Héracles, tomado pela fúria, matou Lichas, o mensageiro que entregara-lhe a túnica. Apavorada e culpada, Dejanira retira-se e suicida-se. Logo depois, Hilo descobre que a mãe não planejara a morte de Héracles, mas que fôra vítima do ardil vingativo de Nessus. Héracles é trazido à presença do filho em meio a dores insuportáveis e descobre que Dejanira não era culpada por seu infortúnio. Nessus, o centauro, era seu verdadeiro algoz.

Héracles relembra nesse momento dois oráculos proferidos sobre seu destino. O primeiro dizia que ele seria morto por um morto. De fato, o herói estava morrendo por causa do ardil de alguém que já estava morto há muito, Nessus. O outro oráculo dizia que em breve os trabalhos de Héracles teriam terminado. Mais uma vez a profecia era realizada, pois os mortos não têm trabalhos. Sabendo que vai morrer, Héracles solicita a seu filho que case com Iole, a cativa, e parte para ser queimado vivo a fim de terminar seus sofrimentos. A peça encerra-se.

Como diz Hilo, Dejanira era inocente e tinha boa intenção. Contudo, resta uma certa ambiguidade em suas ações. Por qual razão confiou Dejanira nas palavras de Nessus, sabendo que este não tinha qualquer motivo para desejar a sua felicidade com Héracles, o autor de sua morte? O ciúme a cegara para as intenções obviamente malévolas de Nessus ou Dejanira, em algum nível, intuía e desejava a morte de seu esposo que tanto tempo passara longe de sua família e que trouxera consigo uma jovem cativa a fim de substituir sua esposa no leito nupcial?

Aristóteles, na Poética, afirma que o herói trágico é um alguém de virtude comum que comete um erro, hamartia, cujas consequências são funestas. Ele não é depravado ou mau, embora seu erro não seja totalmente desprovido de responsabilidade. No caso de Dejanira, sua hamartia é tomar uma decisão ditada pelo ciúme, o que a cega para as evidentes más intenções de Nessus. Embora não desejasse a morte do esposo, Dejanira deveria ter atentado ao fato de que o presente do centauro não era confiável. Porém, seu ciúme parece bloquear a percepção dessa realidade que, em outra situação, seria percebida com maior clareza.

O contraste aqui é com Clitemnestra. Enquanto esta assassina premeditadamente Agamemnon para vingar o sacrifício de sua filha Ifigênia, Dejanira não tem a intenção de matar Héracles, mas sim recuperar seu amor por meio de um artifício. O amor conjugal não é restaurado por meios mágicos e artificiais, e o resultado é a morte do ser amado. Restam a culpa, o remorso e a vergonha insuportáveis. O desfecho funesto é a morte de ambos, esposo e esposa.

Se não é possível afirmar a culpa de Dejanira pela morte intencional de Héracles, não é igualmente possível negar a sua responsabilidade nos eventos que a isso conduziram. Essa é a ambiguidade da hamartia. Não é a expressão de uma natureza má e corrompida pela escolha livre e habitual das más ações e da injustiça, mas também não é uma ação completamente destituída de responsabilidade.

Como diz Aristóteles na Ética a Nicômaco, uma má ação não faz um homem mau tanto quanto uma ação boa não faz um homem bom. O homem bom e o homem mau são ambos resultados da opção habitual e constante por ações boas ou por ações más respectivamente. Dejanira não é má ou corrompida. Nem sequer tomou uma decisão intencionalmente má. Porém, sua ação não é isenta de responsabilidade moral. Por essa razão, compreendemos o sentimento de culpa de Dejanira e, por conseguinte, seu desespero que culmina no suicídio.

É mister notar que a astúcia vingativa de Nessus representa simbolicamente a reverberação das ações dos antepassados e como os mortos afligem os vivos. O oráculo previu que Héracles seria morto por um morto, o que parecia absurdo. No entanto, as ações dos mortos moldam a vida dos vivos de modos imprevisíveis. As consequências dos atos humanos são como sementes plantadas no tempo e que germinam quando o solo é propício.

Héracles selou seu destino ao tirar a vida de Nessus para salvar Dejanira. Ele seria morto pelo centauro ao qual matou para defender a mulher que eventualmente seria o instrumento de sua própria morte. O ciclo completou-se. Todos os envolvidos nos eventos daquela travessia de rio estão mortos. A vitória de Héracles converteu-se em sua ruína. O destino humano parece ser a um só tempo determinado e imprevisível. Em retrospecto, é sempre possível remontar a cadeia de eventos que resultaram no atual estado de coisas, mas quando o homem toma as suas decisões, não é dado a ele nenhum ou quase nenhum vislumbre das consequências de seus atos no futuro remoto.

No início da tragédia, Dejanira afirma que nenhum homem pode dizer se sua vida foi boa ou má até que ela tenha chegado ao fim. A morte encerra o teatro da vida e revela em sua totalidade o enredo daquela trama. Assim como o espectador não conhece de antemão o curso dos acontecimentos em uma peça, assim também o homem não sabe de antemão o curso completo dos acontecimentos de sua própria vida. O autor da peça rege os eventos cênicos segundo um plano. Resta saber se há alguma regência nos destinos humanos. 


domingo, 7 de outubro de 2018

"Ajax" de Sófocles: loucura, piedade e as leis dos deuses

"AJAX: A todas as coisas o longo e incontável tempo tira da escuridão para depois as ocultar da luz."

Ajax, de SÓFOCLES

A tragédia Ajax dá-se após a morte de Aquiles, quando da escolha de qual dos heróis do cerco de Tróia deveria ficar com as armas do maior guerreiro grego. Ajax, filho de Telamon, rei de Salamina, julgava-se o único merecedor da honra de receber as armas do falecido líder dos mirmidões. Uma disputa é organizada e, para desespero de Ajax, os juízes entregam o prêmio a Odisseus, o astucioso rei de Ítaca.

Furioso, Ajax intenta matar os líderes aqueus em suas tendas, mas é impedido pela deusa Atena por meio de uma ilusão. Ajax, sob o encanto da deusa, massacra um rebanho e seus pastores pensando tratar-se dos seus odiados inimigos. Tão grande era sua fúria que trouxera à sua tenda alguns desses animais para submetê-los a torturas alongadas, crendo estar infligindo sofrimentos cruéis aos reis gregos, em especial a Odisseus.

A deusa, encontrando Odisseus em frente à tenda de Ajax, ordena que o iludido guerreiro saia e apresente-se a ela e a seu protegido. Ajax, sob efeito do poder de Atena, não pode reconhecer Odisseus e discursa sobre as torturas a que está submetendo seus prisioneiros. A cena toda inspira horror no coração do rei de Ítaca, que reflete assim sobre o destino humano:


"ATENA: Vês, Odisseus, quão grande é o poder dos deuses? Havias tu conhecido alguém mais sensato e homem de mais recursos frente a qualquer contingência?

ODISSEUS: A ninguém, decerto. Todavia, dá-me verdadeira compaixão o desventurado, ainda que inimigo fosse, por causa da triste desgraça na qual está envolto. E penso em mim mesmo não menos no que penso nele, pois vejo, com efeito, que todos que vivemos não somos nada senão fantasmas e vagas sombras.

ATENA: Posto que o vês assim, jamais digas tu palavras altaneiras contra os deuses nem te ensoberbeças se alguma vez prevaleces sobre os outros em força ou em riquezas, porque um dia basta para abater e para, de novo, elevar todas as coisas humanas. Aos sensatos amam os deuses e aos maus os detestam."

O homem está, portanto, submetido a tal ponto aos deuses que sequer seus sentidos e sua razão podem ser confiáveis. A mania que toma Ajax faz com que veja o que não há, que tome animais por homens e que exerça sua fúria contra vítimas inocentes. Cego à realidade, presa do encanto da deusa, Ajax tem seu impulso homicida impedido de realizar seu mau intento.

Por outro lado, a ação divina que condena um, ao mesmo tempo, protege outro. É por causa de Odisseus, seu protegido, que Atena age contra Ajax. O sensato é amado pelos deuses, o insensato é odiado. Mas o espetáculo mesmo do destino de Ajax compadece Odisseus, pois ele é homem como é homem seu inimigo. A revelação da fragilidade e da insubstancialidade da vida humana frente a forças muito mais poderosas às quais está submetida não pode deixar Odisseus indiferente.

Retomando a sanidade, Ajax dá-se conta de que matara não os chefes aqueus, mas um rebanho e seus pastores. Sua vergonha é imensa e ele decide suicidar-se, não sem antes encomendar seu filho, Eurísaques, e sua mulher, Tecmessa, aos cuidados de Teucro, seu meio-irmão. Ajax afasta-se de todos e, logo depois, um mensageiro chega e avisa Tecmessa que o adivinho Calkas avisara que o guerreiro não deveria ser deixado a sós, pois a loucura enviada por Atena duraria somente aquele dia.

Todos partem em busca de Ajax, mas este, fixando sua espada na terra, já havia se lançado sobre ela. Quando finalmente encontram o corpo, a lamentação é imensa. Teucro, chegando ao local do suicídio do irmão, ordena que ele seja sepultado dignamente. Mas, Agamemnon, rei de Micenas e chefe da expedição aquéia, proíbe o sepultamento e exige que ele seja deixado ali para apodrecer ao ar livre como castigo por sua rebelião e por seu intento homicida.

Teucro insiste em seu dever de sepultar o irmão e Agamemnon em seu direito real de castigar Ajax. Quais leis são mais importantes e primordiais, as leis eternas e não-escritas de respeito aos parentes falecidos ou as leis baseadas na autoridade do soberano?

Odisseus, que testemunhara a loucura de Ajax enviada por Atena, toma a palavra e aconselha Agamemnon a não deixar insepulto o filho de Telamon. Embora Ajax, desde quando Odisseus tornou-se dono das armas de Aquiles, fosse seu inimigo, ele não deixara de estimar o maior guerreiro aqueu depois de Aquiles. O mesmo deveria fazer Agamemnon e deixar sepultar a Ajax, pois o contrário seria violar as leis dos deuses. Não é justo maltratar um morto.

Agamemnon replica que não é fácil ao soberano ser piedoso eque todo cidadão dever escutar seus chefes. Odisseus apela para a  amizade que os une dizendo que deixar-se vencer pelos amigos é vencer também. E quanto ao mal que Ajax pretendia realizar, Agamemnon responde, não deve ficar impune, sob pena de o rei passar por covarde. Ao contrário, Odisseus responde, o rei aí sim será justo e bem visto por todos os gregos.

O chefe aqueu cede e permite o sepultamento de Ajax, mas adverte que não fará o trabalho e não o ajudará em nada. Odisseus, declara que ele mesmo participará nos ritos funerários e que é amigo de Teucro tanto quanto foi amigo de Ajax. Teucro louva a bondade de coração e a nobreza de Odisseus, embora não permita que ele tome parte dos funerais para que não se desagrade o falecido. O rei de Ítaca parte e começam os preparativos para os ritos fúnebres.

Ajax, embora grande guerreiro, representa a arrogância e o desprezo pelas normas. Crendo-se o único merecedor das armas de Aquiles, não se submete às regras sob as quais ele mesmo disputou as honras em isonomia com os outros pretendentes. E sua reação é a revolta e a sedição contra os chefes aqueus e contra o vencedor que o derrotou, Odisseus.

Em certo sentido, é Odisseus a figura proeminente aqui. É ele, o astuto, e não o guerreiro bruto Ajax, que é considerado digno das armas do melhor dos aqueus. O modo antigo, o modo de Ajax, desemboca na carnificina cega, na cegueira que confunde animais com homens, na vergonha da hybris que consuma-se na desgraça da auto-destruição. Essas forças têm de ser domadas e subsumidas a esferas mais elevadas.

Odisseus contemplou a miséria de Ajax e compreende a fraqueza da existência humana. Diante de tal espetáculo, o ódio cede lugar à piedade e à afirmação da dignidade que não pode ser negada sequer a um inimigo. Sófocles, pela boca de Odisseus, o bom conselheiro de caráter nobre, aponta que, diante das exigências dos reis e das exigências das leis divinas, o certo é seguir os ditames dos deuses, ainda que isso signifique postumamente favorecer ao injusto e ao inimigo.

sábado, 2 de junho de 2018

"The Killing of a Sacred Deer": tragédia, erro e sacrifício

"É a única coisa que consigo pensar que está perto da justiça."
Martin

A tragédia trata sempre das consequências dos atos, divinos ou humanos, estando seus agentes cientes ou não de seu papel como desencadeadores dos acontecimentos. Como Édipo que, embora desconhecesse que Laio era seu pai e Jocasta sua mãe, deve pagar a retribuição pelos crimes de parricídio e incesto a fim de aplacar as funestas consequências de seus atos para a cidade de Tebas.

Aristóteles afirma em sua Poética que o herói trágico é homem de virtude e justiça comuns que, não por conta de depravação ou defeito moral, comete um erro (hamartia) que desencadeia consequências que tornam desafortunado aquele que antes era afortunado, espetáculo diante do qual o público experimenta medo e piedade. O Professor de Estudos Clássicos Malcolm Heath salienta, em sua introdução à Poética, que o termo hamartia não deve ser entendido como um engano de ordem meramente intelectual, excluindo toda e qualquer culpa moral. 

O termo implica apenas que o erro cometido não decorre de um caráter mau, mas de uma má decisão pontual, tomada por ignorância, engano ou por erro moral de maior ou menor responsabilidade. Um dos exemplos que o Professor Heath elenca é o de um engenheiro que, por algum descuido ou negligência, erra em seus cálculos para a construção de uma ponte. A consequência é a queda da ponte e a morte de diversas pessoas. Imagine-se, para defesa do engenheiro, que sua distração foi causada pela perturbadora notícia de que está com câncer. Moralmente culpável, sua negligência seria ao menos compreensível dadas as circunstâncias.

Todavia, as mortes se deram e uma reparação tem de ser feita. Esse é o cerne narrativo de The Killing of a Sacred Deer (2017), de Yorgos Lanthimos. O filme explora a amizade entre o cirurgião cardiologista Steven Murphy e o adolescente Martin que encontram-se periodicamente para conversar. A princípio, tudo parece remeter à relação pai e filho com o doutor dando conselhos, dinheiro e presentes ao jovem. Todavia, logo fica claro que Steven é movido por algo inconfessável.

Casado com a bela Anne e pai de Kim e Bob, o médico tem uma boa vida, uma casa espaçosa, prestígio e sucesso em sua área de atuação. O jovem, no entanto, desde o início mostra claros sinais de inadequação social, timidez, educação excessiva e um certo ar de alienação da realidade. E o motivo presumido dessa sua estranheza reside na recente morte de seu pai, falecido durante uma cirurgia cardíaca realizada por Steven. Fica claro que a amizade entre os dois é fruto do sentimento de culpa do médico.

Os encontros aumentam de frequência e Steven leva Martin para conhecer sua família. Logo Kim, a filha do cirurgião, encanta-se pelo jovem e ambos começam uma relação amorosa. Mas a amizade entre Steven e Martin deteriora-se na medida em que o jovem exige mais e mais atenção, insinua que sua mãe viúva poderia casar com Steven e começa a persegui-lo no hospital. Desconfortável, o médico afasta-se do rapaz e este, por fim, revela-lhe a razão de sua invasiva proximidade: ele culpa Steven pela morte do pai.

Martin culpa Steven e exige reparação. Seu pai fôra tirado dele, então algum membro da família de Steven deverá morrer para que o equilíbrio seja restaurado. Se a escolha e o sacrifício não forem realizados por Steven, seus filhos e sua mulher, um após o outro, sofrerão as consequências. Martin profetiza que, primeiro, perderão o uso das pernas, logo depois não conseguirão comer e, por fim, sangrarão pelos olhos e morrerão.

Bob é o primeiro a perder o movimento das pernas e a deixar de comer. Kim o segue logo depois. Steven, contudo, não crê em Martin e busca soluções médicas, seu métier. Todos os tratamentos falham e ele desespera-se. Anne, por seu turno, desconfia de que algo está errado e descobre que o marido, um alcoólatra recuperado, havia bebido um pouco antes da fatídica cirurgia do pai de Martin. Eis o "cervo sagrado" do título.

Agamemnon, chefe das hostes aquéias, estacionado com suas tropas em Áulis, mata um cervo do bosque sagrado de Ártemis durante uma caça. Como castigo, a deusa interfere nos ventos impedindo que a frota zarpe para Tróia. Calchas, o vidente, adverte Agamemnon que os ventos só retornarão se ele sacrificar sua filha mais velha, Ifigênia, como reparação da ofensa à deusa. O rei hesita e caos cresce no meio das tropas. Premido pelas circunstâncias, ele ordena que a esposa, Clitemnestra, traga a filha a Áulis, sob pretexto de casá-la com Aquiles, a fim de sacrificá-la para apaziguar Àrtemis.

Steven é Agamemnon que deve escolher entre seus entes queridos qual sacrificará para restaur a paz com o divino. Martin é a um tempo o ofendido e o vidente, Àrtemis e Calchis, o divino e o profeta. Anne é Clitemnestra que acabará por concordar com o sacrifício de um de seus filhos. É ela quem questiona Martin sobre por qual razão eles deveriam pagar pelo erro de Steven. Ele responde que é a coisa mais próxima de justiça que ele consegue pensar.

O médico ainda não crê em Martin, sequestra-o, espanca-o e exige que ele restaure a saúde de seus filhos. De nada adianta tentar coagir o ofendido, o sagrado. Assim como no início Steven não conseguira restaurar o equilíbrio com seus meios tímidos, dando alguma atenção a Martin, agora também seus meios violentos e desesperados não funcionarão. O sagrado tem sua lógica própria e demanda satisfação proporcional ao delito. 

Aliás, foi Steven que trouxe o infortúnio para sua casa. Fisicamente, inclusive. Ele convidou Martin a conhecer sua família. Simbolicamente, convidou o sagrado, tentou negociar, entrar em termos com ele. O homem, contudo, não controla essas realidades. O sagrado pode manifestar seu poder, como a proximidade de Martin melhora momentaneamente a saúde de Kim. No entanto, quando Steven sequestra Martin ou quando Kim implora pela cura, Martin nada opera, para o desespero de ambos.  

Anne cuida dos ferimentos de Martin e beija seus pés reverentemente. Não há nada mais que possa fazer. Então, liberta o jovem. Steven protesta. Os olhos de Bob começam a sangrar, o último estágio da profecia de Martin antes da morte. Todos morrerão, um a um, até que o médico convença-se de que deve reparar seu erro?

A hamartia de Steven, causada pela fraqueza do vício e não pela maldade, desencadeou os eventos que tornaram a sua vida desafortunada. A reparação é requerida e Steven, ao final, cede. Encapuza sua esposa, seus filhos e a si mesmo. Armado com uma espingarda, gira e atira a esmo até que atinge seu filho Bob. Não escolhe qual ente querido sacrificar, deixa a decisão à Moira. O sacrifício é realizado. 

Na cena final, Martin encontra com Steven, Anne e Kim em uma lanchonete. Eles não cumprimentam-se. Obviamente, a família está destruída. As ações têm consequências. Desejadas ou não, previstas ou não, e quem agiu deve assumir seus efeitos. Steven e a família saem da lanchonete sob o olhar inexpressivo de Martin. Ao saírem, é a filha a única a fitar diretamente o sagrado.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Ésquilo, Prometeu e a origem da condição humana



"Coro: Novos governantes manejam o leme sobre o Olimpo,
 E Zeus manda arbitrariamente por meio de novas leis;
 O que antes era poderoso, lança ao oblívio."

ÉSQUILO, Prometeu Acorrentado

Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, apresenta o castigo infligido por Zeus ao titã Prometeu que roubara do Olimpo o fogo sagrado e entregara-o aos homens. Zeus, após haver vencido os titãs e seu próprio pai, Cronos, na titanomaquia, lançando-os no Tártaro, estabelece sua nova ordem como rei inconteste dos demais olímpicos. O soberano dos deuses governa somente porque destronou seu pai e venceu as forças da antiga ordem. Como relata Hesíodo na Teogonia, Zeus também derrota o monstro Typhaeus, tema simbólico clássico da instauração da ordem do cosmo pela vitória do herói sobre a serpente ou sobre o dragão.

Todavia, Zeus, para vencer os titãs, convence alguns dos titãs a lutar por ele. É o tema da sobrevivência de traços da antiga ordem das coisas na nova ordem. Prometeu, o titã, representa simbolicamente a presença desse vestígio do mundo anterior no cosmo instaurado pelo governante atual. Pertencendo a outro estrato da realidade, Prometeu, não à toa, não age segundo os ditames do mundo constituído por Zeus. Simbolicamente, há forças que são mais profundas que a nova ordem e que, portanto, são rebeldes à ordem recém estabelecida.

Antes de Prometeu dar aos homens o fogo sagrado que roubara no Olimpo, estes não eram mais do que animais sem inteligência ou arte. O presente do titã tornou os homens o que eles são. Deu-lhes diversas artes e saberes como a construção de habitações, a agricultura, a criação de animais, a matemática, a metalurgia, a construção de barcos, a medicina, o vaticínio, a interpretação do voo das aves e dos sonhos, etc. É o mito tradicional da origem da cultura, o modo próprio de vida do homem.

Prometeu representa simbolicamente o divino que fornece os limites definidores do homem, é aquele que, no princípio, dá os contornos essenciais do que é ser homem. Acorrentado à montanha do Cáucaso, símbolo do eixo do mundo, ele representa uma possibilidade realizada e encerrada dentro da ordem do Ser. O homem é aquilo que aí está, com esse fogo divino que o ajuda a sobreviver, mas nada mais ser-lhe-á acrescentado.

O amor de Prometeu aos homens, no entanto, é a causa de seus infortúnios. Zeus ordena que Poder e Violência, junto com Hefestos, acorrentem-no ao Cáucaso. Isto é, o exercício do poder sempre vem acompanhado da ameaça da violência. E a técnica está, ainda que a contragosto, a seu serviço na figura relutante de Hefestos. 

O castigo de Prometeu simboliza a percepção espiritual de que a suficiência divina não precisava haver criado o homem, e que, de certa forma, nossa existência deve-se a um logro, a um ato furtivo, como se houvesse uma divisão interna do divino pela qual a existência do homem escapasse da origem como um ladrão no meio da noite. Dado que houve essa fuga e esse roubo, é necessário que se feche a porta por onde o ladrão saiu. O divino volta a fechar-se em si mesmo e a águia que come o fígado de Prometeu é símbolo de possibilidades que não se realizam, que voltam à sua fonte sem efetivar-se jamais. É a gravidez sem parto, o feto que nunca chega à maturidade do nascimento. Sempre e de novo.

Zeus e sua Dikê (justiça) não aceitam mais a ordem antiga dos Titãs como Prometeu. O homem, tal como o conhecemos e nas condições que o circunscrevem, tem origem na iniciativa de uma ordem mais antiga, mais caótica, mais primeva, simbolizada pelo titã remanescente. O homem é mais filho do arguto, do que planeja (Prometeu, "o que pensa antes"), do enganador e do ladrão furtivo do que da nova ordem , embora a ela tenha de submeter-se tanto quanto Prometeu.

O mito é a percepção de que nossa condição tem algo de fundamentalmente arbitrário e de caótico. Somos o fruto, por assim dizer, de uma parte do divino que age sob a égide de razões que não são as da ordem e da força representadas por Zeus. Sim, o divino manifesta-se pela face de Zeus e de sua Dikê, mas nossa origem e o ser que somos não se explicam por essa face mais recente, mais próxima e compreensível, mas por uma dimensão mais profunda, antiga, furtiva e, no fim, incompreensível.

É interessante notar que tanto no relato mítico do Gênesis quanto no mito poético de Hesíodo a condição presente do homem nasce do engano. O homem, criado por Deus, é enganado pela serpente e Zeus é enganado por Prometeu que rouba o fogo divino e o concede aos homens. Em ambos os casos, o caráter divino é prometido ou entregue ao homem pelo enganador. No caso bíblico, a consequência é a dor e o sofrimento da expulsão do Éden. No caso grego, a consequência é o presente dos deuses, Pandora, a mulher que será a fonte de todos os males humanos. Isto é, o castigo segue-se à mudança de condição do homem tornada possível pelo enganador.

O mito de Prometeu marca a ambiguidade da condição humana em sua relação com o divino. O homem não aparece senão tardiamente na ordem do Ser e o relato de sua origem serve como definição de seu lugar periférico na estrutura das coisas. Não obstante, é por causa dos homens, esses seres que "vivem por um só dia", como o expressa Ésquilo, que acontece o castigo de Prometeu e manifesta-se peso excessivo da mão de Zeus. Embora insignificantes, os homens são causa de divisão no seio divino.

O poder vigente, contudo, tem seus limites traçados por forças ainda mais primevas no seio do divino, pois, como assevera Prometeu, mesmo Zeus é prisioneiro da Moira e seu destino está selado. A face divina que agora apresenta-se em Zeus será destronada como foi a face de Cronos, seu pai. E, de modo análogo, será um descendente de Zeus que trará sua ruína. Prometeu, o "pré-vidente", já sabe disso da mesma forma que já sabia o que acontecer-lhe-ia se ajudasse os homens.

As filhas de Oceano fazem companhia a Prometeu e o consolam de suas dores. O aquático é símbolo de possibilidades ainda não engendradas, como assinalou Mircea Eliade em diversas de suas obras. Prometeu, aquele que enxerga antes, contempla possibilidades que ainda não realizaram-se. Não à toa, é no diálogo com elas que ele revela o destino funesto de Zeus.

Prometeu é símbolo da providência (πρόνοια), do arcabouço divino de onde vêm os dons e, concomitantemente, da antevisão do que vai se dar no futuro. É por pertencer a um estrato anterior da ordem do divino que ele pode testemunhar a ascensão e a queda dos deuses governantes. E é também por essa razão que ele é acorrentado, uma vez que o novo poder não suporta a permanência de vestígios de uma ordem anterior que não conformam-se a seus desígnios. Simbolicamente, a nova face divina tenta circunscrever e impor suas leis, mas há no seio mesmo da ordem do divino esferas mais antigas, mais fundamentais e, portanto, incontroláveis. Prometeu prevê sua própria libertação.   

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

As leis e a ordem divina na "Orestíada" de Ésquilo


                                            Orestes, as Erínias, Apolo e Atena (vaso grego)

André-Jean Festugière, em seu ensaio De l'Essence de la Tragédie Grècque afirma que a tragédia grega possui dois elementos essenciais. O primeiro é o fato comumente reconhecível de que a vida humana é repleta de desgraças e de infortúnios. O segundo é o caráter aparentemente ininteligível dos desígnios das potências sobrenaturais que, em tese, governam os destinos humanos. O resultado da combinação desses componentes é a percepção de que o homem não é mais do que um inseto submetido a forças que estão muito além de seu poder (já que é o poder que caracteriza a divindade) e que nenhum dos infortúnios que sobre ele se abatem é passível de elucidação última.

Ainda segundo Festugière, não obstante a opacidade do destino, os poetas trágicos buscam uma fresta no muro que separa o homem do sentido de seus sofrimentos. No caso de Ésquilo (525/524 - 456/455 A.C.), a busca pelo sentido passa pela afirmação da justiça divina. Na trilogia de tragédias da Orestíada, composta de Agamemnon, Coéforas e As Eumênides, os temas do crime, da justiça e da ação dos deuses aparecem no centro da trama.

Em Agamemnon, vemos o grande rei de Argos e chefe de todos os aqueus retornando de sua vitoriosa campanha contra Tróia, trazendo consigo Cassandra, filha do rei Príamo, como prenda de guerra. Ocorre que ele é atraiçoado por sua própria esposa, Clitemnestra, mancomunada com o amante, Egisto, e é assassinado logo ao chegar a seu palácio.

Todavia, não se trata de mero crime de ambição política. Clitemnestra vingava-se de Agamemnon por este haver sacrificado sua própria filha, Ifigênia, em Áulis, a fim de apaziguar a deusa Ártemis e assim poder chegar à Tróia. Egisto, por seu turno, vingava-se indiretamente de Atreu, pai de Agamemnon e de Menelau, por haver servido ao irmão, Tiestes, sem que este o soubesse, seus filhos em um banquete.

A linhagem dos Atridas é proveniente de Tântalo, um lídio que comeu seu próprio filho, Pelops e foi, por essa razão, enviado ao Hades, onde recebeu o castigo de sofrer eterna fome, impedido de ingerir a abundante comida sempre fora de seu alcance. Pelops, ressuscitado pelos deuses, teve dois filhos, Atreu e Tiestes. Este engana o irmão e toma a sua esposa. Atreu resolve vingar-se e, capturando os sobrinhos, mata-os e serve-os a Tiestes em um banquete sem que este o saiba. Tiestes, horrorizado, parte para o exílio com seu filho sobrevivente, Egisto.

Agamemnon, filho de Atreu, herda a maldição de sua família e sacrifica sua filha Ifigênia. Clitemnestra, então, para vingar a filha morta, une-se a Egisto para matar seu marido. O sangue de Agamemnon, por conseguinte, clama por vingança e o dever de matar os assassinos recai sobre Orestes, o filho exilado do rei.

Na segunda tragédia, Coéforas, vemos a entrada de Orestes. Tendo recebido uma ordem do oráculo de Delfos para vingar seu pai, ele retorna incógnito a Argos. Reconhecido por sua irmã, Electra, ele une-se a ela para matar Clitemnestra, mãe de ambos, e seu amante, Egisto. Tão logo o crime é cometido, Orestes passa a ser perseguido pelas Erínias e foge de Argos na direção de Delfos, buscando a proteção de Apolo.

A terceira e última peça, As Eumênides, inicia-se com Orestes em Defos entre os suplicantes que consultam-se o sagrado oráculo. As Erínias são despertadas pelo fantasma de Clitemnestra, que exige que seja cumprido o castigo de Orestes. Aqui insinua-se claramente uma passagem dos conflitos humanos aos conflitos entre os deuses. Há uma tensão na ordem divina das coisas que revela-se por causa do crime de Orestes.

As Erínias, que perseguem Orestes por haver matado sua mãe Clitemnestra, representam uma ordem antiga de potências divinas e também as leis antigas, como aquela que pune o crimes de sangue contra parentes. Filhas de Nix, a noite, as Erínias são divindades subterrâneas, moram no Hades, são terríveis e assustadoras. São as defensoras dos antigos laços de parentesco, mas pertencem a um estrato mais caótico da realidade.

Apolo representa a nova ordem dos deuses olímpicos (os que, liderados por Zeus, venceram os Titãs e estabeleceram-se no monte Olimpo) e uma lei que reconhece e pune os crimes contra o matrimônio, pois Clitemnestra matara o esposo Agamemnon. Isto é, os crimes contra os que não são do mesmo sangue também merecem punição. Mas a antiga ordem resiste e exige seus diretos.

Apolo defende e protege Orestes que, por sua vez, busca proteção e purificação em Delfos, o centro do mundo. Simbolicamente, Orestes encontra-se no Eixo do mundo, no ponto de contato entre o estrato humano e o divino, na ligação entre a Terra e o Céu. Apolo é solar e, armado com arco, ameaça as Erínias em Delfos, mas não pode derrotá-las.

Eis o centro da contenda. Há leis antigas e sagradas que não podem ser abandonadas e nem descuradas, mas há, ao mesmo tempo, a consciência de um novo horizonte moral, a percepção de que certos modos e práticas não podem mais ter o mesmo lugar na nova economia das coisas. Sem ter como resolver a questão, Apolo envia Orestes ao templo de Atena, na cidade de Atenas, onde ele será julgado. O herói solar dá lugar à deusa da razão e da guerra. Só ela pode dirimir o conflito. E o fará por meio de um julgamento.

Em Atenas, no Areópago, Atena escolhe dez juízes para decidir o destino de Orestes. Todas as partes devem expor sua visões. A deusa ouve as razões das Erínias e, por conseguinte, admite os direitos das leis da antiga ordem. Orestes é matricida e não pode ficar impune. Aquele que mata seus parentes comete terrível delito e deve receber castigo proporcional ao horror que cometeu. Sempre foi assim e assim deve permanecer. É o direito ancestral das Erínias cobrar o preço desse gênero de malfeito.

Apolo, defendendo Orestes, apresenta um argumento decisivo:

"Justo,  eu digo, a ti e à tua alta corte, Atena. Vidente como sou, nunca minto. Nem uma só vez,  dos assentos do Profeta, declarei uma palavra que refira-se a homem, mulher ou cidade que Zeus não tenha comandado, o Pai Olímpico. Essa é sua justiça - todo-poderosa, eu advirto-te. Inclina-te à vontade de Zeus. Nenhum juramento pode comparar-se ao poder do Pai." (tradução livre a partir da edição de Robert Fagles da Orestíada)

Ora, dado que Orestes matara Clitemnestra seguindo a ordem de Apolo em seu oráculo sagrado, o centro do mundo, e dado que o oráculo nada diz que não tenha origem no senhor dos deuses, a conclusão é que Orestes simplesmente seguiu a ordem das coisas e deve ser inocentado do sangue de sua mãe. Insinua-se aí o tema da violência sagrada, ou seja, aqueles atos condenáveis do ponto de vista da tradição religiosa e comunitária, mas que, realizados sob a instrução ou ordem direta da divindade, tornam-se atos do divino e não dos indivíduos que concretamente os realizaram.

A violência de Orestes, detestável dentro da ordem tradicional estabelecida (Erínias), é um ato realizado por determinação divina (Apolo) e serve para revelar a fonte última (Zeus) de onde flui uma ordem mais profunda da realidade (Atena). E aquela que não foi gerada pelo desejo e pela conjunção carnal entre os deuses, que não foi gestada, que saiu armada da cabeça de Zeus, como que emanada da fonte patriarcal, julgará o lugar das potências antigas na economia da realidade.

Atena declara-se a favor da justiça (Dikê) de Zeus e seu voto é por Orestes. Em seguida, convoca os juízes a votar. Há um forte combate verbal entre Apolo, o deus da luz, e as Erínias, as filhas da Noite. Ambos os lados advertem os jurados de seus respectivos direitos e das consequências funestas de uma decisão contrária a eles.

O resultado é proclamado por Atena. Há empate. Orestes está livre. Afirma-se a ordem de Zeus. O princípio foi estabelecido. Resta saber se a ordem antiga será completamente obliterada ou se haverá algum lugar para ela a partir daquele momento. Como era de se esperar, as Erínias protestam veementemente, ameaçam lançar desgraças sobre a cidade, exigem seus direitos ancestrais, denunciam a ofensa de que foram vítimas.

Atena, fazendo uso da Persuasão (Peitho), tenta convencê-las de que podem assumir nova função em Atenas e que a elas grandes honras e reverências serão dadas pelos cidadãos atenienses. Basta que se tornem potências benfazejas, protetoras da cidade e de tudo o que é bom. Elas relutam, resistem, mas são ao fim convencidas de seu novo papel. O princípio superior absorve o inferior sem negá-lo, reordenando as funções antigas deste de acordo com a ordem daquele.

Agora, a lei e o julgamento imparcial dos juízes encerra os conflitos. Antigos costumes e modos de fazer justiça são domados por uma ordenação mais profunda das coisas. Atena é o aspecto solar que doma as potências noturnas, antigas e subterrâneas e pacifica os conflitos. É a elevação da consciência a um novo patamar na ordem dos valores. A descoberta de um novo horizonte da alma. Por essa razão, as Erínias tornam-se Eumênides, as bondosas.