quarta-feira, 17 de junho de 2026
Karṇa e o dilema do guerreiro no Mahābhārata
domingo, 15 de março de 2026
O invisível que molda o visível em "Golovin", de Jakob Wassermann
A viagem simboliza o estado cambiante e impermanente do homo viator, submetido às tribulações e aos perigos de uma existência precária e insegura. A revolução bolchevique, com sua violenta inversão das estruturas hierárquicas da sociedade e seu ódio militante pela religião, representa as forças dissolventes que militam contra toda ordem e que, em certos momentos, parecem engolfar a própria realidade no mais negro abismo de caos e de selvageria.
Que tipo de natureza deve ter um espírito para que consiga permanecer íntegro quando tudo à sua volta inclina à desordem e à corrupção moral? A viagem de Maria é uma peregrinatio, a jornada da alma cristã num mundo onde o Senhor está fisicamente ausente. Alexandre, seu marido, tal como Cristo, é o ausente presente, o invisível que ordena e dá sentido ao visível, o mastro ao qual Odisseu é atado para não ceder ao canto sedutor das temíveis sereias. Maria, por um lado, é Penélope, sua virtude preserva a herança espiritual e material do esposo, e, por outro, é Telêmaco, o filho que não mede esforços para reencontrar o amado pai.
Desde o início da narrativa, Maria exibe os sinais de um poder incomum. Quando um grupo de soldados bêbados invade o vagão onde estava com seus filhos, bastou a sua imperiosa presença para os fazer abaixar os olhos e recuar timidamente. Uma "força mágica", cria, emanava dela. De onde vem essa força? De Alexandre, que a formou como o princípio ordenador que molda a matéria e preserva a sua consistência no tempo.
O princípio formal da constância instilado em Maria pelo marido foi o ensinamento de que a Lei de Talião era a origem de todo mal. Em outros termos, o "olho por olho e dente por dente", a matemática absoluta de tomar do agressor exatamente aquilo que foi tomado por ele, deveria ser substituído por um mandamento mais profundo que não desse azo aos mesmos males: "Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus."
Maria, ainda na sua propriedade, impede que a floresta circundante seja desmatada e a madeira vendida pelos servos revoltados. Apela à gratidão devida a seu marido, o proprietário daquelas terras, e os convence do pecado que seria vender as árvores, criaturas de Deus tanto quanto os homens. Sua influência demove aqueles filhos pródigos de seu intento de dilapidar a herança do pai.
Na cidade de Tula, abrigados em um hotel, Maria, seus filhos e as empregadas são presos num quarto para serem revistados por soldados em busca de dinheiro. Sabendo que seriam mortos se os revolucionários encontrassem a quantia que trazia escondida no vestido, Maria entrega-a em segredo a um dos homens no qual percebera alguma bondade. Este toma o dinheiro, e após a revista, que nada encontrara, retorna ao quarto e o devolve à Maria na esperança que Deus leve em conta seu gesto no meio de tantos pecados que cometera.
Em Kislavodski, Maria encontra um ambiente no qual reina certa desordem e mistura de pessoas. Os aristocratas ali reunidos, em especial, com suas festas e danças, desejam manter o desastre da revolução fora do alcance da consciência. Instalada, Maria logo contrata auxiliares para as suas necessidades imediatas: o estudante Jefim Leontovitch Tatianov, tutor para a educação formal de seu filho mais velho, e Joseph Menasse, um banqueiro que lhe prometera entregar uma carta sua endereçada ao irmão de Alexandre.
Naquele lugar confuso, Maria conhece a princesa Nelidov, aristocrática senhora envolvida num drama acerca do suposto casamento secreto de seu falecido filho com uma jovem de baixa extração social. Ela também quer saber qual é a natureza da força de Maria que a permite tão bem comunicar-se com os filhos da terra russa mesmo sendo uma estrangeira. A resposta estava no invencível e inflexível Alexandre von Krüdener, o marido balto-germânico que a subjugou sem humilhá-la.
Maria, alemã criada na Áustria, era instável, porém desafiadora e independente, combinação que, intuía, poderia conduzi-la à extravagância e à libertinagem. Aos dezenove anos, o caminho para a corrupção moral estava aberto à sua frente. Então, conhece Alexandre, e, embora a atração fosse mútua, o casamento não deixa de apresentar dissabores. Maria, apegada a falsos juízos, indisciplinada e inconstante, desafiava o marido como um dualista a seu oponente.
A matéria da virtude são as tendências que resistem à instauração da ordem. O oleiro molda a argila impondo a ela uma forma. O seu trabalho demiúrgico é também uma luta, um combate contra as tendências próprias da matéria que resistem à delimitação. Há certa liberdade no amorfo, na instabilidade de não ser nem isto e nem aquilo. As possibilidades estão abertas, nada foi fixado. O avarento não ama seu tesouro pelos bens que efetivamente adquire, mas pelo cabedal de possibilidades de aquisição contidas nele.
O real é uma redução do possível, e, por isso, fixar algo significa preterir as outras possibilidades. O processo de formação é sempre doloroso e conflitivo porque não é possível ser algo sem restrição, delimitação e perda. A questão é saber se a forma a ser imposta encontra naquela matéria um suposto adequado à sua realização. Alexandre havia percebido, em um momento de súbita claridade, a "verdadeira substância" de Maria. O escultor contempla o Apolo escondido num pedaço de pedra e decide libertá-lo dessa prisão amorfa. A matéria é elevada à sua melhor potencialidade pela ação transitiva do artista.
Ao final, as resistências cessam, a ordem chega à completude, e a obra singularizada manifesta a mente do artista como a Lua reflete a luz do Sol. Ausente e inacessível em termos físicos, Alexandre está na esposa tal qual o selo impresso na cera. "Pelos frutos conhecereis a árvore", disse o Senhor. Numa analogia com a teologia natural, a ordem visível testemunha a bondade do ordenador. O invisível plasma o visível.
Maria diz à princesa que marido e mulher foram "fundidos em uma entidade mística, e era daí que surgia a força". O casal remete ao hieros gamos, o "matrimônio sagrado", pelo qual os opostos são reunidos em harmonia sob uma ordem superior. O artista é o veículo da ideia, e Alexandre transmite à esposa a Imago Dei que recebeu do Logos, convertendo-a em ícone da realidade que o ultrapassa infinitamente. Por isso, a princesa Nelidov deseja trazer consigo um retrato de Maria na qualidade de talismã protetor.
Não se sentia oprimida por aquele domínio?, indaga a aristocrata. Maria responde que escolhera a "parte divina". Afastara o seu livre-arbítrio para seguir a liberdade, a orientação fundamental da alma na direção do Bem e da Verdade. "Meu jugo é suave e o meu fardo é leve". A tentação é sempre possível, claro, porém sua decisão fora irrevogável porque não é possível fazer experiências na proximidade do divino. Seu rigor é radical, não permite idas e vindas. Somente o demônio, o rigor oposto na desordem, seria capaz de tentá-la.
O caos avançava, tiros eram ouvidos do lado de fora do hotel e soldados corriam de um lado a outro da cidade. Os hóspedes buscavam refúgio em festas, romances fugidios e até em casamentos. Maria convencera Menasse a organizar em segredo a sua fuga dali para um lugar seguro, e somente aguardava o seu sinal para partir. Menasse é o "despachante", a imagem do judeu conhecedor dos meandros práticos da vida, especialista na arte da sobrevivência em meio à hostilidade e à perseguição.
Quando chega a hora de abandonar o hotel, Maria ainda tem tempo para um último gesto de amor ao próximo. Acolhe em seu grupo a desprezada Lisaveta Petrovna, a jovem pobre supostamente casada com Grigorii, o filho da princesa Nelidov. Ela conta à Maria que os dois se conheceram num lugar de má fama onde trabalhava, e que permanecera quatorze meses escondida no navio de guerra onde Grigorii servia, tempo no qual ambos sofreram inúmeras agruras e conflitos. Em terra firme, casaram-se, e, ato contínuo, cada qual tomou um rumo diferente, sem jamais voltarem a se encontrar.
A presença de Alexandre transparecia em sua esposa, mas a mãe de Grigorii não conseguiu enxergá-lo em Lisaveta. A despeito do matrimônio celebrado, o laço imaterial harmoniza os opostos foi incapaz de gerar "um só corpo e uma só alma". O selo foi impresso imperfeitamente, a obra não revela o artista. Reunidos prematuramente, depositados num vaso de guerra, recipiente metálico artificial sob a égide de pólemos, agitados pelo temor da interferência externa, os componentes não coalescem e separam-se quando a contenção artificial é suspensa. A unidade dissolve-se pela incompatibilidade de seus elementos.
Após uma sufocante viagem de trem, Maria, com seus filhos e seus empregados, chega a uma cidade costeira onde busca abrigo num albergue. Os outros fugitivos ocuparam os poucos aposentos disponíveis, e a disputa pelo único quarto restante a coloca pela primeira vez diante de Igor Semionovitch Golovin, o líder dos marinheiros revolucionários que comandam o lugar. A mulher impõe-se, defende seu direito ao aposento, e Golovin decide abrigar-se em uma mansarda.
Mais tarde, porém, o homem aparece solicitando uma conversa a sós com Maria. O "ditador da cidade", como se autodenomina Golovin, exige da mulher a devida "gratidão" por seu gesto de desprendimento com relação ao quarto disputado. Dinheiro não o atrai. Menasse tentara suborná-lo horas antes, sem sucesso. A tomada do poder político não é suficiente. Ele deseja conspurcar o leito matrimonial do aristocrata Alexandre von Krüdener deitando-se com a sua esposa.
A recusa de Maria, fundada no temor de sua consciência, algo desprezível aos olhos do materialismo revolucionário, irrita o marinheiro que, impaciente, aumenta a pressão sobre a mulher colocando seus filhos e seus empregados na barganha. Se ela ceder, estarão a salvo. Se não, todos sofrerão as consequências. Golovin considera que sua proposta é razoável, pois não deseja representar Átila e tomar pela força o que pode obter via persuasão e ameaça.
Maria não deixa de sentir alguma atração por aquele homem. Os seus gestos, as suas palavras, a sua fisionomia, mostram que não ele é igual aos brutos que o acompanham. Há nele certa grandeza, embora corrompida. Os pecados são a imitação distorcida das virtudes divinas. Mesmo o demônio, o mais degradado dos entes, mantém algum traço de semelhança com o Criador. Maria enxerga o bem sufocado, a luz da "lâmpada colocada sob a cama", o Alexandre que poderia ter sido.
Por outro lado, só nos tenta aquilo para o qual somos inclinados. Golovin é tentador porque responde a um anelo original da alma de Maria: a liberdade ilimitada e amorfa que a ação ordenadora do marido circunscreveu e moldou. Ceder significaria dissolver a unidade que lhe fora imposta por Alexandre e que a elevou à excelência. Todavia, a forma pode ser sentida como uma prisão. O que sucederia à Maria caso sucumbisse à manha do tentador? "Corruptio optimi pessima est". O excelente quando se corrompe torna-se péssimo.
O embate entre os dois inicia algumas horas depois, a sós, na mansarda onde está hospedado Golovin. Quem era ele na verdade?, indaga Maria. O homem conta sucintamente sua origem polaca e inglesa, suas andanças pelo mundo, os inúmeros ofícios que exerceu antes de se tornar marinheiro e, no decurso da Revolução, tomar o vaso de guerra no qual servia matando seus oficiais. A sua vida, ele o admite, é um conjunto de acontecimentos, um caixote preenchido de coisas que foram ali depositadas em desordem. Partes que não se harmonizam na realização de um Todo.
O marinheiro Relata a condição psíquica que acomete os homens que se encontram confinados num navio por meses a fio, submetidos ao rigor do código militar e aos trabalhos extenuantes, atormentados por violentas fantasias lúbricas nascidas da insaciedade e da repressão de suas necessidades carnais. "He who desires but acts not breeds pestilence", diz o provérbio infernal de Blake. Foi nessa caldeira que Golovin alimentou cuidadosa e gradativamente o seu o desejo.
O que resultou dessa fermentação imaginativa, que não tinha matéria onde encarnar-se, foi o gosto pela sensualidade epidérmica, pela camada mais superficial da substância que ela recobre e esconde. Mesmerizado, Golovin queria seguir o curso do magnetismo animal que o impelia a tomar posse do corpo daquela mulher. Ao fim da confissão dos desejos de seu algoz, Maria percebeu a presença de um escorpião, símbolo da destruição dos valores e das formas, da inoculação do veneno, da putrefação, da agressividade e do erotismo. Era um aviso.
Como um exército que recua estrategicamente a fim de atrair o inimigo ao terreno que lhe é mais favorável, Maria passa do aparente ao substancial respondendo que nenhum de nós possui verdadeiramente aquilo que não nos foi dado. Se a seus olhos possuir uma mulher equivalia a colher uma fruta no jardim do vizinho só para saciar a fome, então que Golovin consumasse a sua concupiscência. Ela estava a seu dispor. O sacrifício que era obrigada a fazer para salvar a si e aos seus não era especial ou comovente dentro do grande esquema das coisas.
O revolucionário surpreende Maria ao afirmar que seu real adversário era o invisível Alexandre von Krüdener. Possuir seu corpo sob coação não seria uma vitória. Era preciso antes destruir a imagem do aristocrata que se manifestava em cada gesto da esposa, dissolver a unidade dos cônjuges pela paciente aplicação de sortilégios destinados a realizar em poucas horas o que seria normalmente um lento processo de desabrochamento. "É uma questão de magia".
Golovin, o mago negro, atribui o seu encontro com Maria não ao acaso, mas ao suposto poder de seu fluido. Ele é o princípio diretor até dos acontecimentos mais remotos. A sua pretensão é substituir a ordem estabelecida, no mundo e em Maria, por uma outra baseada na vontade e na decisão. Faz-se mister primeiro dissolver o composto, retorná-lo à maleabilidade da matéria indefinida e amorfa, para só então imprimir o novo selo. Corruptio unius sit generatio alterius.
O revolucionário crê que tudo é uma questão de mudança nas condições materiais e externas. Palco diferente, peça diferente. O autor não importa, e as falas que compõe não são partes que se coadunam formando um todo ordenado e com sentido. São apenas imposições despóticas que privam os personagens de sua liberdade. Novamente, a ausência de constrangimentos encontra eco na alma em razão de sua promessa de horizontes infinitos de expansão volitiva.
No misterioso Oriente, garante Golovin, aprendera técnicas de manipulação da sensualidade que a mente limitada dos ocidentais jamais teria capacidade de conceber. Ele cita o caso escandaloso de uma dama da alta sociedade americana que renunciou a todos os ditames sociais e fugiu com um chinês, enfeitiçada até à submissão completa pelos prazeres sutis que tais métodos proporcionavam.
Trata-se, segundo o marinheiro, do único amor, o amor carnal, isto é, a natureza despida das ficções do espírito. O ocidental não é talhado para alcançar as suas camadas mais baixas, e as mulheres, em particular, incapazes de resistir às manobras daquela ciência profana, acabavam por celebrar a "felicidade da destruição", ocas e sem vida. A técnica consiste em despertar insidiosamente o corpo para os êxtases próprios a cada parte do corpo. O objetivo final é o esvaziamento completo da mulher, totalmente entregue ao amante, sem pensamento pudor ou medo.
Com esse discurso, Golovin pretende haver destruído a imagem de Alexander no coração da sua esposa. "Esta é a vossa hora e o poder das trevas". Maria, contudo, em meio à escuridão, acende uma vela e conta uma parábola. Dois camponeses, Petruchka e Nikituchka, viviam na pobreza. O primeiro partiu de onde moravam e, após longos anos, retornou com um saco de ouro. Nikituchka, cobiçoso, quis saber onde o amigo havia conseguido tanto ouro. Informado de que teria que cavar por muito tempo numa mina, Nikituchka declara que não está disposto a fazê-lo e exige do amigo que lhe dê seu ouro. Petruchka responde que estava construindo um castelo e convida Nikituchka a participar de sua empreitada e, assim, receber seu ouro.
Golovin é o camponês que não deseja o trabalho necessário para alcançar o que deseja. Busca atalhos, subterfúgios, não hesita em roubar mesmo sabendo que desperdiçará tudo o que ganhou e voltará a ser tão pobre quanto antes. Não recebe o prêmio quem não cava na mina, quem não desce às profundezas. Porém, sofrer não é suficiente. A construção do castelo exige o bom uso do sofrimento. A simples divisão do ouro não cria virtude. A solução do revolucionário é inútil se realmente almeja-se erguer algo duradouro, firme e substancial.
O mito não toca Golovin. Nada há neste mundo que seja atemporal. O que passou não retorna, a marcha histórica é inexorável no seu papel destruidor. O mundo de Maria, a despeito de suas esperanças, jamais voltará. Somente as circunstâncias a fizeram feliz no casamento e converteram a sua natureza nobre em fraqueza e medo da liberdade pessoal. O matrimônio destrói as jovens, que deveriam ser apanhadas pelo Estado.
A defesa da liberdade pessoal é o subterfúgio que o revolucionário utiliza para impor seu despotismo. Chigaliov resumira o método: "partindo da liberdade absoluta chega-se à escravidão absoluta". Golovin deixa escapar, quase sem querer, que o final do caminho é a submissão ao Estado, uma entidade invisível e onipresente que molda os destinos humanos à revelia de seus desejos, inclinações e convicções.
Golovin diz à Maria que a sua riqueza era tamanha que uma noite não seria nada para ela, enquanto para ele teria um valor imenso. Aquelas convenções todas a que se apegava não mais faziam sentido. O mundo mudara irreparavelmente. Que ela fosse somente mão atada à sua mão. Se não naquela noite, ao menos numa vindoura. Exausta, Maria vê os sinais da manhã. O embate encerrava-se. Ela e os seus estavam livres para seguir viagem.
O marinheiro parte para a sua guerra, não sem antes lançar um último feitiço: Maria jamais retomaria a paz até que houvesse uma decisão definitiva entre ambos, o que julgava incerto de acontecer. O escorpião lograra inocular seu veneno em Maria, e seus efeitos apareceriam no futuro? A imagem de Alexandre estava preservada por ora. Algo foi tocado, sem dúvida. Todo ataque deixa marcas. Se estas serão absorvidas e integradas à higidez interior ou se serão rachaduras que comprometem a estrutura, somente quem penetrasse no mistério da alma poderia responder.
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sábado, 14 de fevereiro de 2026
O simbolismo da promessa em "Angel's Egg"
GÊNESIS, 8, 8-11
O anime "Angel’s Egg" (Tenshi no Tamago), de 1985, escrito e dirigido por Mamoru Oshii, é um conto simbólico que pode ser interpretado em diversos níveis. Sob um ângulo existencial ou psicológico, a história retrata como o apego pode impedir a realização das possibilidades contidas em germe (o ovo) numa pessoa.
A qualidade da arte impressiona, e seus cenários de cidades sombrias e abandonadas remetem à estranheza dos sonhos e ao sentimento de solidão e de pequenez diante de estruturas grandiosas que se impõem por suas dimensões e por sua história, mas que perderam há muito seu sentido e sua função. Aliás, o diretor admite que essa atmosfera tem sua origem nos seus próprios sonhos, repletos de pássaros, peixes, ruínas e ambientes desolados.
O mundo onírico é o reino do insubstancial, daquilo que na mente é o resultado de separações, combinações, uniões e recombinações dos dados retidos pela memória a partir da realidade externa e concreta. O jogo livre da imaginação, a fantasia, contrasta com a rigidez imposta pelas coisas no mundo da vigília. Pensamos em opções de ação porque imaginamos cenários alternativos baseados no que conhecemos do comportamento independente das coisas. Tais pensamentos expressam possibilidades enraizadas na realidade, como germes que podem ou não se desenvolver na direção de um animal adulto.
Nos sonhos, a concatenação lógica e empírica é substituída por leis associativas que desconhecemos, de modo que os processos imaginativos são mais livres justamente por não obedecerem as regras impostas pela natureza das coisas. Em certo sentido, no reino de Morfeu tudo é possível porque ali o moldador não é circunscrito ou delimitado por nada externo.
A insubstancialidade dos sonhos representa simbolicamente a coincidência das possibilidades, tanto daquelas que eventualmente se realizam quanto daquelas que jazem irrealizadas no fundo abissal. Não é sem motivo que o termo fantasma refira-se aos mortos (alguns dos quais os romanos chamavam larvae) e ao conteúdo imaginativo, onírico ou não.
O mundo de Angel’s Egg é a um só tempo onírico e fantasmagórico. A onipresença da morte é manifestada pelas cidades abandonadas, pelos prédios e pelas construções vazias, pelo céu escuro e obnubilado no qual o Sol não penetra. Tudo sugere infertilidade, decadência, desesperança e tristeza. Contrastando com o cenário desolador, há uma menina, cujo nome nunca é dito, que carrega ciosamente junto ao corpo um ovo de pássaro.
O ovo é o símbolo do germe, pois nele reside algo pronto a se efetivar na realidade concreta se as condições forem favoráveis. Não se trata de uma possibilidade qualquer, mas de uma que já foi fecundada e delimitada segundo certa natureza específica (o pássaro). É o pensamento definido na mente que antecede a ação que vai singularizar a coisa no mundo. O pássaro, por sua natureza aérea, simboliza as possibilidades ascensionais, as que se dirigem naturalmente às alturas e aos céus.
A menina retém naquela caixa de Pandora a esperança. Ela vaga pelas cidades mortas enchendo recipientes ovais com água e trazendo-os de volta ao seu abrigo e enfileirando-os como quem aguarda pacientemente o milagre transformador das bodas de Caná. Algo vai acontecer. A água será convertida em vinho. O renascimento acontecerá cedo ou tarde. O germe está sendo gestado no seu seio. A menina, porém, não é uma mulher com poderes geradores maduros.
O risco é, então, que o pássaro permaneça para sempre um germe. O que é necessário para que a promessa seja cumprida, para que o sonho meramente concebido seja tornado realidade? Entra em cena um jovem de belo aspecto, olhar desenganado e intenções misteriosas, trazido à cidade por uma coluna de tanques, máquinas sem vida, que passa a acompanhar a menina nas suas andanças. Após um momento inicial de desconfiança, a criança aceita a sua presença aparentemente protetora.
A dupla contempla o curioso fenômeno dos pescadores que percorrem avidamente a cidade munidos de cordas e arpões, caçando as sombras projetadas nos prédios de grandes peixes voadores. Sombra (umbra) é um dos nomes dados tradicionalmente aos mortos. São fantasmas que tentam capturar entes tão insubstanciais quanto eles mesmos. Representam o esforço inútil, a concepção que permanece presa ao reino imaginativo, o sonho sem capacidade de realização, a possibilidade desperdiçada.
Depois de um descuido da menina, o jovem devolve o ovo à menina advertindo-a de que se deve manter próximo de si aquilo que se estima. Sim, mas acalentar a possibilidade sem realizá-la é ser infértil como aquele mundo desabitado e inanimado. O rapaz, cujas vestimentas remetem à função cavaleiresca, traz sobre seu ombro uma espécie de cetro ou chave em forma de cruz. Em ambos os casos, são instrumentos que remetem à autoridade e à capacidade de realizar algo.
O que ele veio fazer? No começo do filme, o jovem aparece diante do que parece ser uma nave esférica, cujo centro lembra um olho, e que é decorada por inúmeras estátuas femininas que podem ser anjos ou santas. A origem extramundana desse estranho objeto indica uma missão proveniente de uma ordem superior da realidade, o que é confirmado pela estética de um templo religioso. O olho central é o Oculus Dei pousado sobre o mundo.
O rapaz conta à menina o relato bíblico do dilúvio, quando a terra foi engolida pelas águas, e de como Noé lançou ao ar um pássaro para saber se a inundação havia terminado. O dilúvio é um símbolo do fim de um ciclo, da reabsorção das coisas na sua causa originária, enquanto o retorno do pássaro à arca representa o auspicioso início do novo ciclo, o renascimento do mundo renovado e repleto de possibilidades. A aliança firmada entre Deus e o homem garante que a destruição não mais acontecerá.
Um detalhe na versão narrada pelo jovem diverge do relato do Gênesis: a pomba não retorna à arca, e o povo esqueceu-se dela e do mundo do qual viera. talvez o pássaro nem mesmo tenha existido. O ciclo terminou, porém nenhum outro foi inaugurado. A renovação não aconteceu, a memória foi perdida, o encadeamento foi quebrado. Aquele é o mundo das sombras, das possibilidades desperdiçadas, dos pescadores sem peixe, das construções ocas, da infertilidade desesperançada.
O pássaro existe, garante a menina que conduz seu companheiro a um fóssil gigantesco. Um fóssil é um resto, um testemunho longínquo de uma vida extinta. A esperança está no ovo. Ele deseja saber o que está contido ali. A menina dorme, e o jovem, usando o cetro ou a chave, quebra o ovo. Só pode se realizar aquilo que rompe o invólucro que o contém. Fechada em si mesma, a possibilidade não é nada. A menina protege e cuida do ovo. O jovem descerra e liberta para o mundo o que estava contido.
Ela acorda, vê o ovo rompido, nada ali encontra, e se desespera. Corre em busca do rapaz, cai na água e vê refletida a imagem de uma jovem mulher, com a qual se funde. A sua função foi cumprida, e da água surgem inúmeros ovos, novas possibilidades nascidas de seu sacrifício. É preciso que a menina morra para que nasça a mãe.
O jovem contempla na praia a nave ascender aos céus. Penas de pássaro voam ao seu redor. No centro das estátuas angélicas, munida de auréola e sentada sobre um trono, está a imagem da menina. Divinizada, seu sacrifício é reconhecido. Aquilo que era uma possibilidade solidificou-se na realidade. A missão do jovem foi cumprida? Ele, tal qual Cristo, desceu à mansão dos mortos portando a cruz, e reatou a aliança desfeita?
Ao fim do filme, visto das alturas, sub specie aeternitatis, o mundo é oblongo como a arca de Noé.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Buddha, o céu e o espírito
HUANG PO, Coletânea de Wan Ling, I, 16
O mestre Huang Po (黄檗), da escola budista chinesa Tch'an, ensinava a seus discípulos que o "espírito é o Buddha", que Bodhidharma deixou a Índia somente para anunciar aos seres que eles "são o Buddha desde sempre", e que, por isso, "não há necessidade, mesmo por um momento, de quaisquer práticas". Se alguém reconhece a própria natureza original, nada mais é preciso e nada mais é desejável.
O ensinamento de Huang Po é de que o espírito (shin, 心), traduzido por vezes como "mente" ou "coração", é o Buddha, e que todas as coisas, das mais excelsas às mais humildes, são o Buddha desde sempre na sua natureza (svabhāva) original. Todas as práticas ascéticas e métodos espirituais, por serem realidades deste mundo de polaridades e de multiplicidade, tornam-se inúteis tão logo a natureza original é reconhecida.
Ninguém jamais tornou-se um Buddha, se isso significa a passagem de um estado determinado a outro estado determinado, como a criança que vira um adulto ou a pessoa que adquire ou perde uma qualidade, uma função, etc. Tampouco o espírito do qual fala Huang Po é um estado mental determinado. Se o espírito (ou o nibbana) fosse um estado mental, seria este ou aquele estado particular. Por conseguinte, o Buddha não teria ultrapassado o mundo dos fenômenos, mas tão somente encontrado uma modalidade mental bem-aventurada que, por mais excelsa e divina que fosse, não diferiria essencialmente das outras com respeito à relatividade e à vacuidade.
"O espírito é análogo ao Céu: não possui forma, aspecto, lugar ou direção. Sem ser um nada, ele é imperceptível", diz Huang Po. Seria possível ler nesse trecho a influência taoísta que considera o Céu (天) um dos pólos primordiais junto com a Terra (地), a partir da junção dos quais todas as "dez mil coisas" (万物) têm sua origem. O Céu, em certos contextos, pode ser assimilado ao próprio Tao (道, a "Via"), e nessas ocasiões, seu significado não é mais o de um dos lados da polaridade primordial que diversas mitologias representam com o "casal originário".
O Céu é um símbolo natural do infinito e do atemporal porque a sua extensão indefinida é o "manto" sob o qual estamos em qualquer tempo, onde quer que nos encontremos. Ademais, o Céu não está num lugar determinado e nem possui uma direção específica. Ao contrário, são os lugares e as direções que são determinados por referência a ele. Apesar de amorfo, o Céu não é um nada absoluto. A ausência de forma e de traços distintivos tornam-no apto para assumir o sentido simbólico de fonte última que transcende todas as diferenças.
"Não é possível afirmar se o espírito existe ou não quando não é preciso responder às circunstâncias, e tão logo o faça, não deixa rastro atrás de si". Huang Po aplica ao espírito uma intuição comum ao taoísmo de que o Tao manifesta-se indiretamente nas mudanças, embora permaneça sempre invisível e impassível. Se nada jamais mudasse neste mundo da diferença, ele permaneceria imanifestado e inaparente. Visto sob o ângulo das coisas, o espírito "sofre" as vicissitudes dos seres graças à sua presença em todos eles, como a forma de um vaso está presente por toda a extensão do vaso e, assim, "sofre" acidentalmente as vicissitudes que o atingem. Por outro lado, enquanto fundamento de tudo, o espírito é imóvel e impassível, como a forma do vaso que permanece inalterada a despeito de tudo aquilo que sucede ao vaso.
"Tudo é produzido pelo espírito", inclusive os seis destinos (mundos, caminhos) da cosmologia budista tradicional: deuses (devatā), antideuses (asura), homens (manuṣya), animais (tiryagyoni), fantasmas famintos (pretas) e inferno (naraka). Porém, a afirmação de Huang Po não equivale ao solipsismo, pois os destinos não são produções da mente deste ou daquele homem particular. Na realidade, tudo nasce de uma única fonte não dual que só é conhecida quando os conceitos errôneos são abandonados, pois no espírito "não há nem eu e nem outro, nem cupidez e nem desgosto, nem ódio ou amor, nem vitória ou derrota".
A conceptualização errônea (vikalpa) prende o homem no mundo das dualidades, passando disso para aquilo, segundo a tendência natural de manas (mente) ao câmbio constante. Quando a ação se dá por apego a coisas particulares, o espírito é bloqueado por obstáculos e encadeado pela causalidade. O bodhisattva, ao contrário, sem nenhum estado de espírito particular, é absolutamente livre, vive na coincidência silenciosa.
A iluminação (boddhi) não pertence ao domínio desta existência, não é algo acessível por meio de práticas baseadas em teorias sem conexão com a Via. Todos os conceitos devem ser abandonados. O que Huang Po ensina é a verdade de que só entende o Buddha aquele que é um Buddha. Toda tentativa de explicação faz uso de conceitos e de opiniões que são incapazes de alcançar o espírito. Qualquer pequena ideia acerca da verdade é somente mais um evento mental, não corresponde à Via inominável do Tch'an.
Não obstante, acrescenta o mestre chinês, "pode acontecer que um móvel, uma ocasião baste. Sobrancelhas que se erguem, olhos que se reviram, algo que ressoa no buscador. Digo, então, que ele compreendeu vivenciando, que ele é testemunha disso ao despertar para a verdade do Tch'an". Huang Po descreve nessa passagem o que o Zen japonês denominaria posteriormente de satori, a súbita compreensão da realidade búdica que pode ocorrer no discípulo graças ao uso deliberado de algum expediente pelo mestre (um koan, por exemplo) ou espontânea e inadvertidamente por conta de algum evento externo que o desperta.
Que não se considere, porém, que haja mudança na natureza originária quando ocorre o satori. Somente no plano da experiência relativa algo acontece. No espírito, jamais houve erro ou iluminação. O que quer que façamos, nunca abandonamos o Céu que nos contém. Nunca deixamos de ser espírito. O Buddha verdadeiro não possui boca para pregar qualquer método espiritual. "A verdadeira audição não tem ouvidos", arremata Huang Po em consonância com o Sutra do Diamante (26), no qual Buddha ensina que "aquele que me busca na forma e aquele que me busca na voz empregam esforço inútil. Tais pessoas não me veem."
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Leia também: Νεκρομαντεῖον: budismo
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
O simbolismo das bodas de Caná
"Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Jesus respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser!”. Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água!”. Encheram-nas até a boca. Jesus disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala!”. E eles levaram. O mestre-sala experimentou a água que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho bom até agora!” Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele."
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Dionísio Areopagita, simbolismo e a hierarquia celeste (parte final)







