"Mortal after all."
David, sobre os Engenheiros
Prometheus se move em dois eixos interligados. Em seu primeiro eixo, algo como sua estrutura geral ou espinha dorsal, o filme apresenta o confronto de duas ideias, uma delas apenas sugerida, sendo a outra explicitada pelos eventos relacionados ao segundo eixo. As ideias que se confrontam no eixo fundamental são duas teologias: a teologia secularizada e a teologia tradicional.
A primeira delas, derivada sem dúvida das teorias ufológicas do "antigo astronauta", nada mais é do que a atribuição da origem humana a seres inteligentes provenientes de outros planetas que, de um jeito ou de outro, deram origem à vida na Terra e, por conseguinte, seriam nossos reais criadores. Chamo essa teoria de "teologia secularizada" porque se trata de um discurso tradicionalmente pertencente ao âmbito das religiões, centrado na determinação da natureza humana a partir de suas relações com entes divinos, mas que, hodiernamente, é traduzido em termos científicos e materialistas.
Obviamente, a ideia que rivaliza com a teologia secularizada é justamente o discurso original sobre o homem proveniente das religiões abraâmicas, o que chamo de teologia tradicional. Esta é somente ventilada, nunca totalmente expressa em seus termos próprios, mas sim apresentada no conflito interior da Dra. Elizabeth Shaw, que resolutamente carrega uma cruz ao pescoço. A partir desse fato, somos informados de que a teologia tradicional cristã dominará o pano de fundo religioso do filme.
Embora a teologia tradicional seja uma sombra constante no filme, a teologia secularizada será desenvolvida no eixo das ações e dos acontecimentos. Dado seu ponto de partida científico materialista, a ação não poderá ocorrer a não ser no nível daquilo que pode ser tratado dentro desses limites estreitos. A tradução materialista da pergunta sobre a origem do homem só pode ter uma resposta materialista. Isto é, a origem do homem, um ser biológico submetido às leis da matéria, só pode ter sua origem em entes eles também materiais. Se é assim, onde estão os deuses?
Logo no início da película, uma nave sobrevoa uma grande cachoeira em um planeta aparentemente carente de vida. "O Espírito de Deus pairava sobre as águas". Um Engenheiro toma um recipiente (símbolo sempre de possibilidades contidas e de poder para fazer algo) e ingere o conteúdo. "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança". O Engenheiro passa por um processo de degeneração que resulta na sua morte, seus restos são lançados nas águas da cachoeira e ali começa um processo químico que culmina com a criação da vida.
O tema do sacrifício da divindade que dá origem ao mundo é bastante conhecido em diversas tradições religiosas, bastando citar o sacrifício de Purusha nos Vedas, o sacrifício do Cordeiro imolado antes de todos os séculos e o sacrifício de Cristo na cruz que salva o mundo renovando todas as coisas. Os deuses da teologia secularizada são os Engenheiros. Eles não criam como Deus cria - ex nihilo - , mas manipulam o que já existe. O próprio nome já indica as suas limitações. O engenheiro cria engenhos, é um artífice e, enquanto tal, utiliza nas suas obras aquilo que já existe. Ele apenas recombina elementos dados, como o DNA.
O eixo das ações e dos acontecimentos nessa teologia secularizada se concentra na origem biológica e material do homem, e se desenvolve de uma forma estranha e, por isso mesmo, notável. Se falamos em vida, falamos de parentalidade e de procriação. Todavia, imperam a esterilidade e a rejeição da prole em quase todas as relações estabelecidas no filme.
A começar pelo empresário que financia a expedição: Peter Weyland. Ele tem uma filha, a Srta. Vickers, mas a renega e prefere chamar de filho a um robô, David, que, evidentemente, é estéril. Weyland é o homem materialista dedicado ao lucro, ao sucesso, à "construção de um mundo melhor" como diz o slogan de sua empresa. Representa a tentação humana de criar o Paraíso pelos meios materiais.
O homem é mortal, e essa realidade é inaceitável e angustiante para quem se considera o herdeiro de um titã, o Prometheus mitológico. O único objetivo de Weyland na expedição, e na busca pela origem do homem, é o prolongamento de sua própria vida. Seu horizonte é o da mera perpetuação dos dias. Escondido em um compartimento da nave, ele é a sombra manipuladora que torna possível a expedição, mas submete tudo aos seus fins egoístas.
Ao final do filme, Vickers ainda tenta trazer o pai à realidade, reafirmando a transitoriedade da vida. Weyland, incapaz de enxergar algo além de sua própria existência, renega a filha de novo. A origem renega o originado. Weyland prefere David, o sintético, produto da engenhosidade humana e não de uma lei biológica que antecede e submete o homem.
David, uma versão nova de HAL ("Don't do it Dave!") atua como o infiltrado na expedição a mando de Weyland. Ele ama "Lawrence da Arábia", quer ser como ele, pinta o cabelo com o louro de Peter O'Toole no filme clássico. Parece ser leal, mas, como seu herói histórico, é um agente estrangeiro movendo forças desorganizadas e desordenadas contra a autoridade local estabelecida. David quer destronar seus senhores - "Todo filho quer ver seu pai morto." - , aí então será livre. Se Weyland quis tomar o fogo dos deuses para superar a própria mortalidade, David quer furtar o fogo divino para destruir os deuses. Zeus deve matar Cronos e tornar-se o senhor dos deuses.
É interessante notar que é David que conhece a língua dos Engenheiros. Não são os homens que conhecem a língua ancestral, mas sim a sua invenção, a máquina, que sabe se comunicar com os deuses. O que David diz, seja o que for, ofende o deus, e este destrói tanto seus filhos biológicos quanto seus netos sintéticos. Mais uma vez, a origem rejeita o originado.
No Gênesis, Deus se desagrada da corrupção moral da humanidade, e um dilúvio se abate sobre os homens. Mas Noé encontra graça diante de Deus, e o Senhor o poupa assim como aos casais de animais reunidos na Arca. A Criação é refeita com as sementes da era anterior. A vida continua, sob a égide da vontade divina. Contudo, não parece haver aliança possível com os Engenheiros. Eles rejeitam e querem destruir a sua criatura.
A Dra. Elizabeth Shaw também é estéril e rejeita sua prole. De uma forma profana e blasfema, acontece com ela um milagre semelhante ao ocorrido nas Sagradas Escrituras. A infértil dá à luz a um rebento pela ação milagrosa de Deus. No caso materialista de Prometheus, o milagre ocorre pela ação indireta dos Engenheiros. David põe uma gota da substância misteriosa dos Engenheiros na bebida de Shaw, que então concebe e dá à luz um ser monstruoso.
Cumpre notar que a ação traiçoeira de David tem um significado sinistro. Ele inicia um novo mundo, a destronação de seu pai, Weyland, por meio de um ser criado a partir da recombinação da natureza de seus criadores humanos. Elizabeth, no entanto, rejeita a prole monstruosa. Rejeição de novo.
Elizabeth Shaw é a personagem que mais claramente vive o conflito das duas teologias. Ela busca a origem material do homem, mas, ainda assim, permanece usando sua cruz ao peito. Conhece o significado da mortalidade, pois seu pai morrera infectado pelo vírus Ebola. Contudo, não conhece a procriação, já que é estéril.
David tira-lhe a cruz antes de anunciar sua gravidez. É o momento do triunfo da manipulação, o início da construção de um novo mundo, a destronação do deus antigo, a vitória derradeira do materialismo alcançada por um ser que ultrapassa a própria biologia: um robô. Temos um milagre negro. O rebento desse novo mundo exige o sacrifício de sua mãe, da mesma forma que o nascimento do homem exigiu o sacrifício do Engenheiro na cachoeira. O filho que nasce de Elizabeth Shaw vive somente pela morte, é um parasita que destrói seu hospedeiro.
A Dra. Shaw sobrevive ao parto e, diante da rejeição dos Engenheiros que pretendem devastar a Terra com sua nave repleta de cápsulas daquela misteriosa substância, suplica ao piloto de Prometheus que impeça essa tragédia. O preço, naturalmente, é a morte. Então, Prometheus avança contra os deuses, impede a destruição dos homens com um ato de autossacrifício. Diferente de Weyland que só busca prolongar seus dias indefinidamente, Janek, o piloto, sacrifica sua vida generosamente pelo futuro da humanidade.
Única sobrevivente da expedição, Elizabeth Shaw tem ainda de enfrentar a ira do Engenheiro remanescente. Ela usa contra ele o parasita ao qual deu à luz, e este infecta o Engenheiro com um xenomorfo, que nasce de seu corpo após algum tempo de incubação. O último dos deuses está morto. Elizabeth toma de volta a sua cruz. A teologia secularizada se encerra com a retomada da teologia tradicional.
O retrato da vida que a teologia secularizada apresenta é um quadro cruel de esterilidades e de rejeições, um jogo de incubações e de destronamentos, sem fim ou propósito, no qual impera a morte. Elizabeth insiste em buscar um sentido nesse jogo biológico-materialista absurdo, por isso parte para o planeta de origem dos Engenheiros. Contudo, parece saber que essa teologia tem seus limites, afinal ela se coloca explicitamente a questão de que se um ser biológico é a origem última do homem, então qual a origem desse ser biológico?
A cruz permanece em seu pescoço simbolizando a intuição de que não é no nível material que se encontra a resposta à sua pergunta, mas em uma realidade que transcende a História, e que, não obstante, se manifesta concretamente no tempo, como bem indica a última entrada da Dra. Shaw no diário de bordo da nave: "É Ano Novo do Ano do Senhor de 2094."
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