FRIEDRICH NIETZSCHE, Götzen-Dämmerung
Nos dois últimos capítulos de “A Guerra como Experiência Interior”, intitulados “O Inimigo” e “Antes da Batalha”, Ernst Jünger reflete sobre o soldado às vésperas de uma grande ofensiva. A tediosa vida da trincheira era vez por outra interrompida por escaramuças com patrulhas inimigas que tinham a ousadia suicida de cruzar a terra de ninguém sob o manto protetor de Nix, rastejando dentro das crateras do terreno fustigado pela artilharia e se ocultando atrás dos destroços do que um dia poderia ter sido uma aldeia ou uma cidade.
Nada grandiosos em si mesmos, esses pequenos combates seriam anos depois floreados e contados com orgulho pelos veteranos aos seus conterrâneos, filhos e netos. O efeito dessas histórias seria encher os jovens de inveja e de nostalgia até que, graças ao funcionamento das leis imutáveis do sangue, o repositório de energia acumulada pelos tempos de paz dará lugar à necessidade irrefreável da força transbordar em proezas guerreiras, vencendo assim as vozes prudentes e recalcitrantes dos pacifistas e dos filósofos morais.
O inimigo na guerra moderna é uma presença difusa e impessoal que se manifesta nas tempestades de aço maciças que castigam as trincheiras e colhem suas vítimas ao acaso. Raramente é um ser de carne e osso contra o qual se pode investir olhando nos seus olhos injetados de fúria. Na ofensiva, ao contrário, quando um dos lados em luta abandona a proteção de seus bastiões e avança na direção das linhas do outro atravessando o mar revolto da terra de ninguém, o soldado tem finalmente a inesquecível experiência do inimigo que retoma a aparência humana, do fantasma que assume as cores terrosas de um uniforme. O combate une as partes em um só corpo, um Todo que afirma simultaneamente amigo e inimigo, uma trama urdida pelas Moirai.
A preponderância das máquinas faz com que o homem quase desapareça do cenário, deixando a impressão de que uma causa mecânica, cega e morta é a responsável pelos eventos infelizes que se desenrolam diante dos olhos atônitos dos combatentes. Mas isso é uma ilusão. O ser mais perigoso e sedento de sangue da Terra, o homem, dirige as máquinas no sentido de seus propósitos. No espetáculo do combate moderno, o fenômeno do material intimamente unido à inteligência não tem paralelos na História. “Hoje escrevemos poemas de aço e composições de concreto reforçado. Lutamos pelo poder em batalhas onde os eventos se entrelaçam com a precisão das máquinas”.
É uma honra fazer parte da vanguarda do grande ataque que está por vir. Os estratagemas dos covardes já lhes garantiram a segurança da retaguarda. A Vida se expressa mais profundamente no comprometimento até a morte com a Ideia (Idee) do que nos livros dos filósofos que o soldado justamente ignora. Não importa se um dos lados esteja errado ou que ambos estejam, diz Jünger, pois “a morte por uma convicção é a mais alta das realizações”, é a “perfeição par excellence” neste mundo imperfeito. Aquele que morre por um erro ainda é um herói.
As controversas afirmações do escritor parecem reverberar o conceito de liberdade defendido por Friedrich Nietzsche no livro Götzen-Dämmerung (1888). Embora desprezasse os liberais, os socialistas, os anarquistas e os democratas, o filósofo alemão reconhecia que as lutas desses agentes em prol de seus ideais decadentes e gregários eram positivas porque a guerra educa para a liberdade:
“Pois, afinal, o que é a liberdade? É a vontade de assumir a própria responsabilidade. É manter a distância que nos separa dos outros, tornar-se indiferente ao esforço, à dureza, à privação, e até à própria vida. É estar disposto a sacrificar a si mesmo e outros homens pela sua causa. Liberdade significa que os instintos viris, aqueles voltados para a guerra e para a vitória, exercem domínio sobre outros instintos, como, por exemplo, os instintos voltados para a ‘felicidade’. ”
O valor de uma ação reside naquilo que ela exige do agente. Morrer por uma convicção é pagar o mais alto preço concebível, é desprezar o conforto mesquinho do “bem-estar” característico, segundo Nietzsche, dos mercadores, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e democratas. O esforço empreendido para superar a resistência de um obstáculo é o índice que mede a liberdade. O perigo revela o espírito de cada homem. Só é forte aquele que é obrigado a ser forte.
Vista por esse prisma, a guerra torna-se de fato uma experiência interior (Inneres Erlebnis). A verdade ou a falsidade de uma convicção não determinam o valor da ação empreendida em seu favor. O Agon (Ἀγών), a aristocrática virtude guerreira do esforço, da disputa e da proeza, é o exercício da liberdade. Desse modo, Jünger garante que o sentido de todo o sofrimento vivenciado durante o conflito mundial resida no interior do soldado e não na objetividade das reinvindicações dos Estados em luta entre 1914 e 1918.
“Aquele que enxerga nesta guerra somente negação e sofrimento, e não afirmação, o máximo dinamismo, terá vivido como um escravo. Terá tido somente uma experiência externa, não uma experiência interior”. A guerra é, para Jünger, a manifestação do fluxo incessante da própria Vida, que se manifesta nas formas modernas da Vontade de Luta (Wille zum Kampf) e da Vontade de Poder (Wille zur Macht), e arrasta o homem ao conflito como uma força elementar e avassaladora diante da qual tudo o mais perde seu significado.
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