ERNST JÜNGER, "A guerra como experiência interior"
Incontáveis são os pensamentos despertados na imaginação livre durante as longas noites servindo como vigia na trincheira, relata Ernst Jünger no décimo capítulo de “A guerra como experiência interior”. Quem está lá? “Um guarda, uma arma, a mais elementar unidade de combate, um número. Muitos não veem nada de diferente”. Os jornais elogiam o moral das tropas como quem reporta o desempenho e a resistência de um bom material. O soldado é um material, um recurso, o carvão a ser queimado até o fim nas fornalhas que alimentam a infernal máquina da guerra. No entanto, é também uma pessoa, um coração, uma alma.
O materialismo convicto do jovem Jünger estudante de ciências naturais e leitor de literatura moderna deu lugar à incerteza, a um senso de mistério acerca do sentido e do propósito de tudo o que acontecia ao seu redor. Forças obscuras e sangrentas movem as ações. “Mas no sangue há sempre uma razão profunda”, reflete. Na redescoberta da força e no contato com o solo (Grund) uma nova direção se revela à consciência. As intermináveis discussões sobre o conflito mostram o quanto seus companheiros são dominados por um materialismo rasteiro. Ainda julgam que a guerra é uma causa, e não compreendem que a pergunta está mal colocada. A guerra é uma expressão cuja causa está no interior e não no exterior.
A consciência daqueles homens se chocava contra os próprios limites, incapazes de formular uma pergunta que se dirigisse para além das superficialidades e das necessidades imediatas e egoístas. Eram matéria-prima para a realização dos fins da ideia sem que disso tivessem a menor noção. Os slogans, que reinavam como verdades absolutas nas incessantes discussões, constituíam os únicos instrumentos disponíveis para compreender a sua situação presente.
Os conceitos de nação e de pátria não significam para eles outra coisa que não o pedaço de terra familiar onde nasceram e cresceram, enriquecido de recordações absolutamente pessoais. Jünger não os condena. Ao contrário, defende que sejam tratados compassivamente enquanto indivíduos. São companheiros fiéis que lutam e sofrem juntos enfrentando um tempo que não compreendem totalmente, esperando um dia discernir alguma razão superior em tanto sofrimento.
A luta é uma das maiores paixões humanas. Amanhã, quando o ataque às linhas inimigas houver terminado com sucesso, os vencedores contemplarão do alto de seu poder os derrotados em fuga, e um grito selvagem e primitivo, em uníssono emergindo das auroras da existência, será ouvido ao longo dos campos da morte. Ninguém é indiferente à vitória. O Agon (Ἀγών) a todos governa. A força quer ser exercida, a prova é desejada, o domínio do sofrimento revela a natureza de cada homem, as fontes mais recônditas da vida são acessadas no clangor do combate. O guerreiro é um asceta da agonística.
"É terrível matar alguém que você nunca viu e que não lhe fez nenhum mal", lamenta o espírito comum que admite que se mate apenas por ódio, em resposta a um motivo pessoal. Não compreende que, observa Jünger, é possível respeitar o inimigo e ainda combatê-lo, não como um ser humano, este homem contra o qual não tenho nenhuma desavença, mas enquanto puro princípio (Prinzip), e que uma ideia possa ou deva ser defendida com todos os recursos da inteligência e da violência. Sobre isso, só se pode falar entre homens.
Os portões do Hades infundem medo (Angst, o tema do ensaio seguinte) até nos soldados mais experientes. Em breve, terá início o combate renhido, a avalanche metálica dos projéteis de artilharia atingirá o solo desfigurado e irreconhecível, os gritos lancinantes dos feridos serão ouvidos por toda parte, os mortos acumulados servirão de passarela para os combatentes e o acaso reinará inconteste. Fortuna imperatrix mundi.
"Vorwärts!" O que os faz o soldado avançar na direção do inimigo a despeito do medo que o domina? A situação é séria demais e demanda muito além da disciplina, e não admite a exaltação do entusiasmo típico do patriotismo e do senso de dever. O fato de que tudo o que é pessoal e individual no combatente se opõe à intrepidez do ataque revela a agência de uma vontade superior (höherer Wille) da qual não tem consciência, e que atua por meio dele para realizar seus próprios fins. É o poder da Ideia (Idee) que guia o guerreiro, e que encontra os meios necessários para alcançar o objetivo. Em retrospectiva, as proezas realizadas sob o signo dessa vontade lhe parecem com razão heroicas.
"Sentimos medo por sermos criaturas finitas, mas, quando algo imperecível em nós vence esse medo, podemos nos orgulhar disso. Isso demonstra que estamos verdadeiramente ligados à vida, e não apenas à mera existência."
O temor é o domínio do pessoal e do individual. O homem pode se orgulhar quando as exigências e os cuidados desta existência singular (Dasein) que o constitui são superados pela ação interior de um princípio (Prinzip) inextinguível, a Vida (Leben), que o emprega como instrumento de sua vontade superior. Os limites intrínsecos da finitude humana são suspensos enquanto dura o entusiasmo (ἐνθουσιασμός) que arrebata o herói e o transmuta em veículo de uma realidade primordial que o ultrapassa infinitamente.
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