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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livros XII e XIII) - final

"Dionísio se expressa também aqui com máxima clareza e mostra-se um platônico no mais alto grau. Assim, Deus é chamado o próprio Um porque ele abarca as coisas, por mais diversas e contrárias que sejam, na sua forma una, tal como uma luz compreende incontáveis raios ou o centro integra suas linhas."

MARSILIO FICINO, "Comentário aos 'Nomes Divinos'", cap. CCCXLI 

No Livro XII, são explicados os nomes "Santo dos Santos" (Αγίου ἁγίων), "Rei dos Reis" (Βασιλέως βασιλέων), "Senhor dos Senhores" (Κυρίου κυρίων) e "Deus dos Deuses" (Θεοῦ θεῶν). A "Santidade" (Ἁγιότης), Dionísio ensina, é a pureza sem manchas, a "Realeza" (Βασιλεία) é o poder de determinar todo limite e impor a ordem segundo a hierarquia, o "Senhorio" (Κυριότης) é a posse inteira e universal do Bem, e a "Divindade" (Θεότης) é a Providência que contempla e penetra todas as coisas sustentando-as unidas, porém transcendendo-as completamente.

A unicidade absoluta da natureza divina supraessencial é a causa transcendente dos dons que os entes exibem. Tudo aquilo que participa em alguma medida desses dons (a "Realeza", "Santidade", etc.) manifesta em grau finito o que no divino é infinito. Por conta desse excesso inabarcável de perfeição, Deus é chamado de "Santo dos Santos", "Rei dos Reis", "Senhor dos Senhores" e "Deus dos Deuses". Os santos deste mundo manifestam limitadamente a "Santidade" perfeitíssima do Princípio último de todas as coisas, assim como os reis manifestam a "Realeza", e assim por diante.

As realidades mais altas na hierarquia das coisas são mais santas e mais divinas. O anjo, por alta que seja a sua posição, ainda é um ente limitado. A sua santidade é um reflexo tênue da "Santidade" ilimitada. Analogamente, Dionísio afirma no Livro XIII, o nome "Perfeição" (τελείου) é atribuído a Deus enquanto causa transcendente de toda perfeição (ou completude) finita que os entes exibem. Marsilio Ficino comenta a esse respeito:

"Em Deus a perfeição não é um acidente extrínseco, mas é a sua própria substância. Ele não é perfeito somente em alguma parte, mas no todo, e de modo simultâneo e total. Tampouco recebe (a perfeição) de qualquer outro que não ele mesmo". 

Deus recebe o nome de "Um" (τὸ ἕν), Dionísio prossegue, pelo fato de que nada do que existe (ou pode existir) está destituído de participação na unidade. Os entes incorporais são mais indivisos e dela participam mais perfeitamente. Os corporais contêm alguma multiplicidade neles mesmos, partes distintas de outras partes, e, portanto, são divisíveis. Dentre estes, alguns são formados por partes de facto independentes umas das outras que são unidas num Todo por um agente externo, como no caso dos artefatos, ou pela ação de causas cegas, como num monte de poeira. Também os números procedem da unidade (μονάς ), princípio do múltiplo.

Obviamente, a unicidade divina, que não deve ser concebida em termos de quantidade ou de qualidade determinada, precede e transcende infinitamente, na sua coincidentia oppositorum, qualquer uma das participações dos seres finitos. Estes, que sempre se apresentam na realidade concreta como unidades numéricas (um cavalo, um homem, etc...), por seu turno, devem ao "Um" sua existência, sua coesão, sua permanência e sua forma. Até os termos "Uno" e "Trino" presentes na formulação dogmática da Santíssima Trindade, são inadequados para expressar a natureza divina supraessencial que ultrapassa quaisquer polaridades (uno e múltiplo, parte e todo, finito e infinito, definido e indefinido, etc...). 

A limitação da linguagem humana nos obriga a designar aquilo que está para além do Ser (ὑπερούσιος) com nomes que são adequados somente aos seres. O mistério divino é indizível, inefável, incompreensível, inalcançável. Mesmo o "Bem", que é o mais venerável e o mais justo dentre todos os termos atribuídos a Deus, não pode descrevê-lo adequadamente. A teologia negativa ou apofática é preferível à teologia afirmativa ou catafática porque as negações impedem que os nomes dados à natureza divina sejam interpretados segundo o sentido limitado proveniente das coisas deste mundo. 

A alma, abandonando toda multiplicidade, deve elevar-se por meio das negações à santa e luminosa região do Uno inominável que transcende tanto os sentidos quanto o intelecto, e pelo qual, no qual e graças ao qual as coisas possuem unidade e existência. Sobre essa bem-aventurada contemplação mística, Plotino ensinava nas Enéadas que "tal é o fim real da alma: entrar em contato e ver essa luz por ela mesma, e não por outro. Ver aquilo mesmo pelo qual ela vê. (...) Não vemos o Sol pela luz de outra coisa. Como isso se dá? Faça abstração de tudo" (V, 3, 17).

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Comentário completo de "Os Nomes Divinos": Νεκρομαντεῖον: Os Nomes Divinos

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livro XI) - a Paz

"A paz divina, a unidade supraessencial, gera a paz ela mesma per se, isto é, a paz ideal que une tudo na presença de Deus e na mente angélica, pois, ao seu modo, as Ideias existem em ambos. A paz de Deus cria igualmente a paz universal que é a compartilhada união do universo, e a paz particular que é adequada a cada coisa singular, ou seja, a sua própria união individual."

MARSILIO FICINO, "Comentários aos Nomes Divinos", CCCXIX

Os sentidos dos nomes "Paz" (εἰρήνης), "Ser em si" (αὐτοεῖναι), "Vida em si" (ἡ αὐτοζωή), "Poder em si" (ἡ αὐτοδύναμις) dados a Deus são esclarecidos por Dionísio no Livro XI. O primeiro nome refere-se ao poder unificador divino que traz todas as coisas à harmonia, a despeito de suas contrariedades e oposições no mundo. 

A pacificação é um aspecto do Uno (τὸ ἕν), o princípio último do neoplatonismo grego. Ao comentar a proposição XIII de seu tratado "Os Elementos de Teologia", o neoplatônico grego Proclo ensina que "A bondade, por conseguinte, é a unificação (ἕνωσις). O Bem é um, e o Uno é o bem primordial". Melhor um ente será quanto mais estiver unificado consigo próprio e com a unidade transcendente que dá realidade e sustentação às coisas.

Tudo está unificado em Deus e por Deus, em que pese o fato que, para que isso aconteça, como Marsílio Ficino observa no seu comentário a Dionísio, seja necessário haver no mundo, ao mesmo tempo, união (unio) e distinção (distinctio). Considerados apenas segundo as suas naturezas, os seres manifestam-se tanto em unidades quantitativas (um cavalo) quanto qualitativas (um cavalo). Os entes, assim constituídos, entram em acordos e em desacordos uns com os outros.  

Os acordos não podem ser tais que exijam que os entes percam as suas naturezas próprias mergulhando numa completa indistinção. Tampouco os desacordos podem ser tão profundos a ponto de isolar completamente os seres uns dos outros. Vale recordar que, as duas possibilidades, de distinção e de indistinção absolutas, foram alvo de refutação no diálogo "Sofista", de Platão. 

Ficino usa a imagem da deusa romana Concordia ("cum": com, "cor", "cordis": coração) para ilustrar a comunidade que governa os entes no mundo. Há que se distinguir, contudo, dois níveis da unificação. No seio eterno da natureza supraessencial de Deus, todas as distinções estão anuladas na coincidentia oppositorum enquanto meras possibilidades. No mundo criado, algumas coisas concordam com algumas, porém não todas com todas. A unidade, neste caso, harmoniza as distinções num Todo coerente, espelhando na multiplicidade a absoluta unicidade divina, como a imagem imita o rosto que está diante do espelho.

A paz de Deus é um silêncio indizível, incompreensível, transcendente e indivisível que é a origem e o fundamento da diversidade ordenada que caracteriza o mundo. As coisas desejam a paz na medida em que todas querem permanecer na existência, mantendo as suas unidades individuais e as suas propriedades essenciais. Mais ainda, enquanto realizam as mudanças e as ações correspondentes às suas naturezas e às suas funções respectivas na estrutura universal, elas manifestam o desejo de participar de uma paz que as supera, a da ordem do Cosmo, e de contribuir para a sua preservação.

Quanto às coisas que se afastam da ordem e quebram a simpatia que une as partes do universo como estão unidas as partes de um animal? Dionísio responde, alinhado com o que foi ensinado anteriormente acerca do Mal, que nada consegue realmente abandonar a unidade imposta por Deus ao Todo, e que aquilo que é instável e indefinido não possui ancoragem no Ser. Mesmo os seres que se opõem à ordem o fazem desejando a paz, ainda que estejam enganados sobre os meios para alcançá-la graças à perturbação causada pela desordem de suas paixões.

Dionísio, em seguida, explica por qual razão Deus pode receber os títulos de "Vida em si", "Ser em si" e "Poder em si" ao mesmo tempo em que é chamado de "Sustentador da Vida", "Sustentador do Ser" e "Sustentador do Poder". Ele é a própria "Vida" ou só o seu "Sustentador"? A aparente contradição é resolvida quando atentamos aos sentidos nos quais são empregados esses nomes. A denominação "Sustentador" (ὑποστάτης) é utilizada para indicar a absoluta transcendência da natureza divina supraessencial com relação às coisas.  

Deus não é a "Vida" se por isso entendemos um modo particular de existência. Ele não pode ser identificado a nenhum tipo de entidade, por mais excelsa que ela seja. A fim evitar erros de compreensão, Deus é chamado "Sustentador da Vida", enfatizando assim o caráter de dependência ontológica da "Vida" com relação a Ele. Porém, Deus é a "Vida em si" no sentido de que é a causa Imparticipável (ἀμέθεκτος) desse dom providencial do qual os seres vivos participam limitadamente.

Conhecendo os viventes (este cavalo e aquele homem, por exemplo), sabemos que eles participam da "Vida", considerada aqui como a propriedade comum que os torna a todos entes vivos. Subindo da "Vida" até Deus, a causa última de tudo, encontramos não somente a "Vida em si", mas também o "Ser em si", o "Poder em si", etc... Porém, todos esses dons estão reunidos no seio da natureza divina supraessencial sem distinção de qualquer espécie (coincidentia oppositorum). É somente a fraqueza de nosso entendimento que distingue esses poderes dentro da unicidade absoluta de Deus.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livro X) - o Antigo dos Dias

"As Sagradas Escrituras empregam o termo 'eterno' em quatro sentidos: o primeiro, para designar o incriado, isto é, Deus e aquilo que lhe é próprio; o segundo, para significar o imortal e o imutável, como os anjos; o terceiro, para designar o antigo; o quarto, para indicar a vida eterna do homem."

MARSILIO FICINO, "Comentários aos 'Nomes Divinos'"

O livro X de "Os Nomes Divinos" dedica-se a explicar a atribuição dos nomes "Governante Universal" (παντοκράτορος), "Antigo dos Dias" (παλαιοῦ ἡμερῶν), "Eterno" (αἰῶνος) e "Tempo" (χρόνος). Deus é denominado "Governante Universal", o Pantocrator, porque contém em si todas as coisas, e as governa como sua origem e seu retorno. Seu domínio, contudo, não é violento, pois a violência age contra a natureza da coisa violada. Tudo o que existe tem em Deus seu primeiro Princípio (ἀρχή) e seu derradeiro Fim (τέλος). Portanto, há uma natural reversão (ἐπιστροφή) dos seres na direção do Bem.

Tudo o que é possível, isto é, aquilo que tem aptidão para existir em algum momento, está contido eternamente no seio do poder divino. O filósofo alemão G.W. Leibniz, no seu escrito Échantillon de découvertes sur les secrets de la nature prise en général, de 1688, definiu Deus como a "raiz da possibilidade". Isso significa que Ele é o único que pode ser dito Onipotente. Sendo o fundamento de toda e qualquer possibilidade de existência, nada pode estar fora de seu poder, de seu domínio e de seu governo. 

"Antigo dos Dias" simboliza a anterioridade ontológica de Deus. Ele não é antigo temporalmente como um idoso que tem mais anos de vida do que um jovem. Sua natureza supraessencial é eterna, e precede a todo tempo enquanto Princípio dos seres temporais. Uma causa será mais fundamental quanto mais for universal, e aquilo que é mais fundamental é mais venerável. Então, as Santas Escrituras comparam Deus, o fundamento universal, a um ancião (πρεσβυτέρος), símbolo tradicional daquele que é digno de reverência por conta de sua experiência e de sua sabedoria 

A fim de evitar qualquer tentação de se conceber o divino literalmente como um ancião, as Escrituras também o chamam de Jovem (νεώτερος). Os entes vêm e vão, uns antes e outros depois no tempo, mas o Princípio que dá origem a eles é atemporal, "anterior" e "posterior" a tudo que é passageiro, "antigo" por sua precedência ontológica e "novo" por seu poder criador inesgotável. Toda antiguidade e toda novidade que se apresentam no mundo têm em Deus somente a sua razão de ser.

Note-se, entretanto, que as Sagradas Escrituras não utilizam o nome "Eterno" (αἰῶνος) para designar exclusivamente a natureza divina que não tem início (ἀγένητος) e nem sucessão de qualquer espécie. Também é considerado eterno aquilo que é imutável, invariável e imortal, como é o caso da aeviternitas dos anjos que, embora criados, não estão submetidos ao fluxo temporal. Outro emprego de eternidade refere-se àquilo que é muito antigo, ou ao próprio curso do tempo tomado em sua inteireza, pois este mede as mudanças que sofrem os seres cambiantes deste mundo.

O filósofo neoplatônico Proclo (412/485 D.C.), no seu tratado "Elementos de Teologia", distinguia dois tipos de perpetuidade (ἀΐδιος): a eterna, característica daquilo que é um Todo simultâneo, simples e indiviso, que não implica qualquer mudança ou sucessão, e a temporal, que implica numa sucessão de momentos sem início ou fim. Dionísio parece supor essa distinção quando assevera que há a eternidade que significa a ausência de mudança (Deus e os anjos) e a eternidade que significa um processo perpétuo, o que define a essência do tempo.

Cuidadoso com o uso dos termos, Dionísio adverte que nenhum ser é coeterno com Deus (nem os anjos). Se assim fosse, a natureza divina supraessencial compartilharia um atributo, a eternidade, com outros entes. Na verdade, Deus transcende até mesmo aquilo que é eterno. Marsilio Ficino explica essa passagem mencionando o fato de que quando concebemos na inteligência um ser eterno, pensamos num estado particular que não é simplíssimo e primeiro. Ou seja, a transcendência divina não admite qualquer comparação, de modo que nenhum termo, por mais sublime que seja, pode ser aplicado a Deus sem o risco de reduzi-lo a um ente entre outros entes.

Assim, declara Dionísio, existem coisas que devem ser entendidas como realidades intermediárias entre a imutabilidade e a mudança, participando tanto da eternidade quanto do tempo. Abaixo delas, estão os seres temporais que vêm a ser e deixam de ser. No caso dos seres humanos, embora submetidos à mudança, a eles é prometida a participação futura na incorruptível vida eterna. 

Por fim, Deus é denominado "Tempo" por ser a origem e o fundamento da perpétua sucessão temporal. Simbolicamente, o tempo representa a inesgotável força produtiva divina, a Natura Naturans, a mítica cornucópia repleta de bens e de riquezas que se manifesta continuamente pela renovação das coisas. 
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terça-feira, 2 de setembro de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livro IX)

"Ao discutirem sobre as classes dos seres e sobre as Ideias, os platônicos frequentemente introduzem certos opostos: o mesmo e o outro, com relação à substância; o grande e o pequeno, com relação à quantidade; o semelhante e o dissemelhante, com relação à qualidade; e o repouso e o movimento, com relação ao ato. Os teólogos os atribuem a Deus por uma razão que os ultrapassa de muito."

MARSILIO FICINO, Comentários ao "Os Nomes Divinos"
 
À Causa Universal (τῷ πάντων αἰτίῳ), diz Dionísio Areopagita, são atribuídos os títulos de Grande (τὸ μέγα), Pequeno (τὸ μικρὸν), Mesmo (τὸ ταὐτὸν), Outro (τὸ ἕτερον), Similar (τὸ ὅμοιον), Dissimilar (τὸ ἀνόμοιον), Repouso (ἡ στάσις) e Mudança (ἡ κίνησις). Deus é Grande porque seu poder é infinito (ἄπειρόν) e, portanto, imensurável (ἄποσον), superando qualquer quantidade. Todos os seus dons, distribuídos às criaturas, não diminuem em nada, como acontece a um ser limitado e material que, dividido, fica menor do que era antes da divisão. 

Pequeno refere-se ao fato de que Ele "penetra" todas as coisas sem obstáculos. Qualquer coisa que possua algum tamanho, por menor que seja, não é capaz de estar em qualquer lugar. A extensão sempre ocupa algum espaço, de modo que será impedida de encontrar-se onde já houver outro naquele lugar. A Pequenez divina, no entanto, não é uma extensão material menor que todas as outras. É o poder criador que dá realidade a tudo o que existe sem jamais ser limitado ou obstaculizado por nada. 

Marsílio Ficino comenta que a Pequenez simboliza a simplicidade unida ao poder. Quanto mais uno algo é, mais excelso e superior ele é com relação ao que é múltiplo e dividido. A simplicidade da unidade, por exemplo, é o princípio do múltiplo, e contém em si, potencialmente, todos os números. Os elementos são os princípios que formam os compostos, e assim por diante. Quanto mais simples e indivisa a coisa é, mais ela atua como princípio de algo. Sendo infinito, Deus é simplíssimo, o Princípio de todas as coisas.

Ele é dito o Mesmo (ou Idêntico) porque é imutável (αμετάβλητοςna Sua absoluta unicidade supraessencial. Nos seres deste mundo, há sempre algo que permanece e algo que muda. A essência define o que uma coisa é, sendo, portanto, aquilo que não muda enquanto os aspectos acidentais variam. O cavalo é sempre cavalo, embora varie no tempo em seu tamanho, potência, maturidade, cor, etc. A estabilidade que existe nos seres imita a Identidade divina, ainda que imperfeitamente.

"Nele não há variação nem sombra de mudança", diz a Epístola de Tiago (1:17). Deus é invariável (αμετάπτωτος), puro (ἀμιγές), imaterial (ἄνυλος), inabalável (ἀῤῥεπές), simplíssimo (ἁπλούστατος) e independente (ἀπροσδεές). Nele não existe acréscimo (ἀναυξές) nem diminuição (ἀμείωτον). Não foi engendrado (ἀγένητος) por outro. Portanto, é autossuficiente (αὐτοτελὲς), eterno (ἀεὶ ὂν), sempre o mesmo (ταὐτὸν ὂν), e encontra em si e de si próprio, de forma única e idêntica, o fundamento de sua separação (ou do seu ser).

Dionísio faz menção aqui ao fato de que Deus tem seu fundamento na sua própria natureza. Aquilo que é engendrado ou causado, recebe sua realidade de outro. O termo causa sui (causa de si), utilizada por alguns filósofos e teólogos, tenta expressar inadequadamente essa absoluta autossuficiência divina. Mas o defeito dessa expressão reside no fato de que o que se deseja negar é precisamente qualquer dependência de Deus com relação a outra coisa. Ao se afirmar que Ele é sua própria causa, insere-se na natureza divina uma insuficiência ontológica que só cabe aos entes limitados.

Se algo tem uma causa, é porque não existe e nem pode existir a não ser pela agência de outro ente que já existe. No entanto, a "causa" de Deus não pode ser outro. Como dizer, sem contradição, que aquilo que depende de outro pode existir por si mesmo? O termo mais adequado, por conseguinte, para expressar a autarquia (αὐταρχία) divina seria ingênito (ἀγένητος) ou variações como incriado ou incausado.

A ordem do universo é fruto do Mesmo, pois o conjunto das coisas está unificado desde toda a eternidade no intelecto divino. Na sua natureza supraessencial, estão identicamente contidos, enquanto possibilidades, todos os opostos e riquezas deste mundo (coincidentia oppositorum). Encarado sob o ângulo da multiplicidade dos seres que existem, Deus é Outro (ou Diferença) porque está presente em todas as coisas pela sua providência (πρόνοια) enquanto princípio (ἀρχή) de tudo.

As coisas visíveis simbolizam a presença divina que é una, indivisível e invisível. De forma análoga, a alma está inteira presente por toda a extensão do corpo, mas se desejássemos imaginar as suas funções e representar cada uma delas por uma parte corporal, poderíamos dizer que o intelecto (νοῦς) seria simbolizado pela cabeça, a opinião (δόξᾰ) pelo pescoço, o ardor (θυμός) pelo peito, a concupiscência (ἐπιθυμία) pelo estômago e a natureza vital (φύσις) pelos pés e pelas pernas. 

A alma é una e indivisa, e seria errôneo pensar que ela possui partes materiais pelo fato de que a cabeça pode simbolizar o intelecto, etc. Trata-se de um único e mesmo poder que se manifesta em múltiplas funções e partes. A planta (ou projeto) de uma casa está presente em cada pedaço da casa construída sem que a planta, ela mesma, tenha partes materiais. O corpo, sendo material, é extenso e divisível, mas não a alma. 

A esse respeito, Marsílio Ficino comenta que Deus está presente em todas as coisas como uma única e mesma face está presente nas imagens refletidas em vários espelhos. Não haveria imagens se não houvesse uma face que as sustenta e permanece a mesma enquanto é refletida. Os bens individuais são como as imagens do Bem primordial. Outrossim, a unidade está integralmente presente em todos os números. 

Dionísio ensina que não se deve confundir o símbolo com o simbolizado, atribuindo a Deus os limites intrínsecos das coisas que o simbolizam. Ao atribuirmos a Deus comprimento, largura e profundidade, as propriedades definidoras do corpo, é mister purificar essas noções para compreender seu justo sentido quando aplicadas ao Princípio. O comprimento é seu poder que excede a tudo, a largura é sua emanação sobre todas as coisas e sua profundidade é a escuridão de seu mistério incompreensível.

Deus é chamado Similar quando encarado segundo a similitude que concede às suas criaturas, inclinando-as sempre a Ele. Todavia, Deus não é similar a nenhum ente. O rosto refletido no espelho não é semelhante à imagem refletida. Ao contrário, a imagem é que se assemelha ao rosto. Se Deus fosse semelhante a alguma coisa, ambos coincidiriam em alguns de seus aspectos. Isso é impossível, dado que Deus não é um ser limitado para participar com outros seres de um atributo qualquer.

Dois entes são semelhantes quando possuem alguns atributos em comum. Essa comunidade (κοινωνία) implica que ambos sejam comparáveis segundo certos aspectos. Supor que Deus se compare a um ser qualquer é reduzi-lo a uma coisa limitada. Os seres finitos é que, na medida que suas naturezas permitem, participam e dependem do infinito poder divino. Por isso, Deus é mais propriamente chamado de Dissemelhante por causa de sua natureza absolutamente incomparável.

O nome Repouso expressa a imutabilidade divina na qualidade de fonte última de toda estabilidade das criaturas. Contudo, o repouso não é uma condição a que Deus esteja submetido, como acontece com as coisas materiais deste mundo. Um corpo pode estacionar num lugar por um tempo e depois mover-se na direção de outro ponto. O repouso divino não é corporal ou espacial, mas significa o imutável fundamento metafísico de toda realidade

A atribuição da Mudança a Deus nas Escrituras expressa o poder de trazer as coisas à existência e sustentá-las pela sua providência em todos os momentos da duração temporal dos seres. O filósofo e polímata alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, na terceira parte de sua obra Essais de Théodicée, explica que "a criatura depende continuamente da operação divina, tanto no seu começo quanto após o seu começo. Tal dependência implica que ela não continuaria a existir se Deus não continuasse a agir." (385). 

A ação divina é imediata e atemporal, conquanto a permanência das coisas na existência seja temporal. A eficácia dessa ação criadora é representada pelo movimento em linha reta que vai direto de um ponto a outro sem nenhum obstáculo. O símbolo mais adequado dessa realidade, cremos, seria o movimento vertical descendente, o caminho que vai do céu à terra, o que o aproxima, quando deixamos de lado seu aspecto dinâmico, do simbolismo tradicional do Axis Mundi (eixo do mundo).

O movimento espiral simboliza a combinação da incessante criação e da estabilidade da natureza divina, pois a espiral move-se girando em torno de um eixo estável. Os seres são como ondas que "saem" do ponto central estendendo-se horizontalmente (isto é, na duração temporal) enquanto permanecem sempre unidas à estabilidade do eixo vertical, que representa o eterno poder engendrador e sustentador do Princípio. A serpente que se enrosca em torno da árvore do Paraíso.*

O movimento circular representa a Identidade de Deus. A circunferência não tem início ou fim em algum ponto, é autocontida, independente, e, por isso, é vista tradicionalmente como um símbolo da perfeição. Ademais, há um circuito da realidade no sentido de que as coisas "saem" de Deus e "retornam" a Ele sem jamais estarem separadas Dele. Os seres estão reunidos em Deus como os pontos opostos da circunferência são unidos pelo seu diâmetro e têm no centro sua origem.**

Por fim, depreende-se do Mesmo e do Justo que Deus é Igual (ῐ̓́σος). Ele se faz presente em todas as coisas igual e uniformemente, sem distinções. E qualquer igualdade que se manifeste no mundo estava contida na transcendente unidade divina.
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*Sobre esse tema, vide as observações de René Guénon nos capítulos 20 e 25 de sua obra "Le Symbolisme de la Croix".

**Em termos tridimensionais, cumpre recordar o simbolismo da esfera utilizado por Parmênides para representar o caráter totalizante do Ser. Na segunda definição do "Liber Viginti Quattuor Phisolophorum, Deus é "uma esfera infinita cujo centro está em todo lugar e cuja circunferência está em lugar nenhum" (Deus est sphaera infinita cuius centrum est ubique, circunferentia nusquam).
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sexta-feira, 13 de junho de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livro VIII)

"Em suma, nada há neste mundo que não esteja sob a conservação e sob o domínio universal de Deus que a tudo sustenta. Pois aquilo que não tem nenhum poder não existe, nem é algo, nem tem qualquer lugar ou posição."

DIONÍSIO AREOPAGITA, Os Nomes Divinos, livro VIII

No livro VIII de Os Nomes Divinos, Dionísio Areopagita examina os sentidos nos quais as Sagradas Escrituras atribuem a Deus os nomes de Poder (δύναμις), Retidão (δικαιοσύνη), Salvação (σωτηρία) e Redenção (ἀπολυτρώσεως). Seguindo o padrão das reflexões anteriores, o termo Poder (ou Potência) significa que a Divindade Supraessencial antecipa em si mesma todos os poderes que se manifestam no mundo seja no seu conjunto ou nas suas partes, transcendendo-os infinitamente na qualidade de sua causa última.

Nos seus comentários à supracitada obra, Marsilio Ficino esclarece que "o que os gregos chamam dunamis, nós interpretamos propriamente como poder e capacidade, embora o uso comum agora pareça incluir virtude significando poder. Por isso, as autoridades religiosas chamam Deus poder ou virtude". O poder divino é, nesse sentido, uma virtus, uma capacidade de agir, de ser causa eficiente da existência dos entes. Não se trata, como no caso dos seres finitos, de uma potencialidade que, contingente, precisa de uma causa eficiente externa para trazê-la à realidade.

Deus dá origem a infinitos seres que são eles mesmos poderes. Estes, por serem finitos, jamais esgotam o Poder Infinito (ἀπειροδύναμος). Uma infinitude de entes limitados será sempre potencial, isto é, a cada elemento dado um novo elemento pode ser adicionado sem que haja de facto um número infinito. Portanto, essa infinitude quantitativa potencial não tem o condão de esgotar a capacidade do Absoluto que não está submetido a qualquer limitação.

O Poder divino é limitado somente nas coisas, no sentido de que cada ente só pode receber de Deus o poder necessário e suficiente para ser este ou aquele tipo de ser. O homem só recebe o poder que corresponde à sua natureza, assim como o cachorro, a planta, a pedra, etc. Isso fundamenta a hierarquia da realidade na qual alguns entes são superiores e outros são inferiores. Não obstante, o Poder divino está presente mesmo nas mais humildes das criaturas sustentando-as na existência.

Tudo o que existe é poder, seja na forma de intelecto (νοερός), pensamento discursivo (λογική), percepção sensível (αἰσθητικὴ), vida (ζωτικὴ) ou simples ser (οὐσιώδη). O Poder divino concede existência à vida espiritual dos anjos e ao seu desejo pelo bem, dá azo à ordem, à harmonia e à concordância que permeiam o Cosmos, governa os seres, homens, animais e plantas, preservando as suas respectivas unidades, naturezas próprias e fins intrínsecos.

Deus é o governante universal (Παντοκράτωρ) que define as naturezas das coisas, estabelece os seus limites intrínsecos, combina-as num Todo ordenado e harmônico no qual os seres estão associados numa comunidade (κοινωνία) perfeita. Aquilo que carece de poder não existe de modo algum, não possui individualidade e nem lugar no esquema universal da realidade. Ser é poder. 

Dionísio comenta que certo mago chamado Elimas censurou o apóstolo Paulo por afirmar que Deus não pode negar-se a si mesmo, o que, segundo seu juízo, equivaleria a atribuir-lhe um limite, algo incompatível com a sua onipotência. "Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo" (2 Timóteo, 2:13). A objeção do mago interpreta a fidelidade divina como uma incapacidade de ser infiel e, portanto, como uma fraqueza ou uma carência. A onipotência (παντοδύναμός) exclui toda e qualquer limitação, portanto Deus não poderia estar privado da capacidade de ser infiel.

O busílis da questão reside na confusão (intencional, no caso de Elimas) entre a impossibilidade por limitação e a impossibilidade metafísica. A ausência de uma capacidade ou de uma potencialidade em um ente impossibilita certas operações, ações e efeitos. O homem, por exemplo, não pode voar, pois essa capacidade não está no rol das propriedades da natureza humana. O cego não pode enxergar por conta da privação de uma capacidade natural ao ser humano.

Deus, por seu turno, não é incapaz de negar a si mesmo no sentido de não possuir uma determinada propriedade ou de estar privado de alguma capacidade natural à sua espécie. Estas são incapacidades próprias de seres finitos. O ser infinito, Absoluto, não tem carência de nada, e, justamente por isso, não está sujeito às variações típicas dos entes limitados. A infidelidade é uma falta, um decréscimo que só faz sentido quando pensado em seres cambiáveis. 

Deus é "incapaz" de infidelidade não porque lhe falte uma capacidade, mas sim por não lhe caber essa imperfeição que não é outra coisa senão um decréscimo de virtude. Assim como não se pode dizer que um triângulo é incapaz de ser um quadrado porque lhe falta o poder de ser um quadrado, Deus não pode ser dito incapaz de ser aquilo que contraria a sua natureza infinita. Ao contrário do que o argumento de Elimas sugere, a possibilidade de Deus ser infiel provaria a sua limitação e não a sua onipotência.

A resposta de Dionísio ao desafio do mago consiste em mostrar que negar-se a si mesmo é declinar da verdade, e, sendo que a verdade tem Ser, então a declinação da verdade é uma negação do Ser. Logo, Deus não pode deixar de ser. Em outros termos, o infiel não se mantém na verdade. A deserção da verdade significa a deserção do Ser (a mentira é o contrário do que é real), e é impossível que Deus possa desertar de sua própria natureza enquanto o Ser Absoluto o mínimo que seja e em qualquer sentido que se queira.

O segundo nome atribuído a Deus é o de Retidão (ou Justiça) porque é Ele que concede às coisas a proporção (εὐμετρία), a beleza (κάλλος), a boa ordem (εὐταξία), determina a função e o lugar de cada uma delas na hierarquia da realidade de acordo com uma regra soberanamente equitativa. "Dispusestes tudo com medida, quantidade e peso" (Sabedoria 11:20). Nele estão contidas eternamente as medidas, os logoi, as ideias de todos os seres, consideradas separadamente e em conjunto, organizadas e dispostas num Todo ordenado, coerente e perfeito. 

Ἀεὶ ὁ θεὸς ὁ μέγας γεωμετρεῖ. "O grande Deus sempre geometriza". Ele determina a essência (εἶδος) de cada ser, impondo a cada um o seu limite (πέρας) e o seu fim (τέλος) específicos. Nenhum ente pode usurpar o lugar próprio de outro ente na ordenação da realidade. Consequentemente, a definição da Justiça é "dar a cada um aquilo que lhe é devido". Ser justo é reconhecer e agir de acordo com a ordem e a hierarquia expressas nas naturezas das coisas. "Comparada a todas as outras, portanto, a justiça é a mais divina e a mais abrangente das virtudes", pondera Marsilio Ficino.

Alguns dirão que não é justo que homens santos sejam oprimidos pelos maus. Dionísio responde que se esses homens são realmente santos, eles reconhecem que as coisas terrenas, objetos de ambição material, são inferiores às realidades divinas, as únicas realmente desejáveis. Se, em vez destas, eles amam e desejam aquelas, então não são de fato santos. E a justiça divina está em fortalecer a virtude desses homens desapegando-os das coisas inferiores e estimulando-os a buscar as realidade celestes, e não na concessão de bens terrenos e materiais que poderiam corrompê-los.

Deus é chamado Salvação primariamente porque Ele preserva na existência o mundo, mantendo cada coisa no seu lugar devido, evitando assim que a ordem do Cosmos definhe pelo conflito e pela degradação. E também redime os seres, restaurando o seu estado original, quando decaem e se afastam de seus limites próprios. Desse modo, a ordem do mundo é preservada da completa confusão mútua de suas partes e da sua destruição completa. 
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segunda-feira, 10 de março de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livros VI e VII) - o conhecimento divino

"Assim, Deus não se conhece isoladamente, e, de maneira distinta, conhece e abarca todas as criaturas em comum. De fato, a Causa Universal, conhecendo-se a si mesma, não pode deixar de conhecer as coisas que dela procedem e das quais ela é a Causa. Com tal ciência, Deus conhece todos os seres, não por meio do mero entendimento das coisas, mas graças ao conhecimento de si mesmo."

DIONÍSIO AREOPAGITA, Os Nomes Divinos, Livro VII

No curto livro VI, Dionísio discorre sobre o nome divino Vida. Seguindo o padrão visto até aqui com os demais nomes, dizemos que Deus é Vida porque retornamos a Ele esse poder fundamental que testemunhamos nos seres vivos, todos manifestamente incapazes por eles mesmos de produzi-lo ou de conservá-lo. Até os anjos, os mais excelsos entes vivos (imortais, indestrutíveis e em perpétua atividade), recebem sua relativa imortalidade daquele que é real e propriamente o Imortal. Os anjos vivem para sempre, mas existem somente pela agência divina.

Todos os viventes, sejam anjos, demônios, humanos, animais ou plantas não possuem a vida a não ser como um dom do Princípio Supra-Vital. A vida participada pelos seres vivos é um pálido reflexo limitado dessa Vida superabundante e infinita. Aos homens Deus promete a restauração da unidade de corpo e alma dissolvida na morte, a ressurreição, o que para os antigos pareceu algo inatural. O que é encarado como impossível do ponto de vista da ordem natural vigente, contudo, não o é para o Princípio acima da Natureza, a quem nenhuma forma de vida é inatural ou sobrenatural.

No livro seguinte, os nomes analisados são Sabedoria, Mente, Razão, Verdade e Fé. Deus é ilimitado em Sabedoria, transcende toda a Razão e toda a Inteligência de tal modo que qualquer pensamento humano é um tipo de erro quando comparado à permanência imóvel de Seus pensamentos. Isso era o que o Apóstolo queria expressar ao dizer que "a tolice de Deus é mais sábia do que os homens" (1 Cor 1, 25). A absoluta transcendência da Verdade inefável, medida por nossos fracos conceitos presos às coisas sensíveis, assume a aparência de absurdidade e de estranheza.

O intelecto humano (νοῦς) é capaz de apreender as verdades inteligíveis. Porém, a comunhão com realidades que transcendem esse âmbito ultrapassa a sua natureza intelectual. O sentido humano dos termos deve ser substituído por um sentido transcendente quando tratamos das coisas divinas. É tendo essa "tola sabedoria" em mente que podemos dizer que Deus é a fonte de toda Inteligência e de toda a Razão.

Os anjos, sendo imateriais, não obtém seu conhecimento de Deus a partir dos sentidos e do raciocínio discursivo, e, por isso, não estão submetidos às limitações próprias desses meios. Conhecem as realidades divinas de forma espiritual e intuitiva, de modo indiviso e imaterial, o que os torna semelhantes à própria Sabedoria Divina. Os homens, por seu turno, precisam dos sentidos para recolher os dados da realidade sensível, e os organizam discursivamente em raciocínios laboriosamente desenvolvidos.

As duas formas de conhecimento, é mister recordar, possuem suas limitações intrínsecas. Dionísio contrasta o conhecimento angélico com o humano para, ao fim e ao cabo, ressaltar a absoluta diferença de ambos com relação ao conhecimento divino. O homem está limitado àquilo que seus meios cognoscitivos podem lhe fornecer. Os sentidos só informam sobre seus objetos próprios e comuns. A visão percebe as cores e as formas, a audição percebe os sons, o tato sente as superfícies e as formas, o paladar sente os gostos e o olfato sente os odores.

Tais dados fornecidos pelos sentidos são unificados pelo sentido interno, guardados pela memória, e separados, combinados e recombinados pela imaginação (φαντασία, fantasia) de acordo com as necessidadesEntão, pela razão discursiva (διάνοια, dianóia), os juízos sobre a realidade (afirmações ou negações sobre algo) são encadeados em raciocínios (que se desenvolvem no tempo) e que chega a conclusões derivadas somente daquilo que está presente nos juízos. O conhecimento natural de Deus que o homem possui é limitado por essas faculdades.

Os anjos são intelectos incorporais, não recolhem dados da realidade externa pelos sentidos. Eles captam as verdades imaterialmente, não a partir da multiplicidade que caracteriza a realidade sensível na qual habitam os seres corporais. O homem, contudo, também é um intelecto (νοῦς, nous), e, tanto quanto as suas limitações o permitem, consegue intuir verdades divinas. Os seus sentidos são um eco ou reflexo da Sabedoria adaptada às condições que caracterizam a condição humana. 

O reflexo nunca possui tudo o que o refletido possui. Um homem diante de um espelho tem só a sua imagem refletida. Somente os traços mais externos de seu corpo são reproduzidos. Sua voz, seus órgãos internos, sua consciência, sua vida, sua tridimensionalidade, entre outras coisas, não são reproduzidas na imagem. Analogamente, nossas formas de conhecimento são reflexos, imagens diminuídas da Sabedoria Divina. Até a inteligência dos demônios, enquanto inteligência, é um reflexo do conhecimento de Deus.

Todo o conhecimento dos seres limitados é precedido, temporalmente ou não, pela ignorância. Os seres humanos precisam entrar em contato com as coisas para conhecê-las. Os anjos, embora não sejam submetidos às mesmas limitações temporais e corporais que os homens, não possuem o conhecimento das coisas como algo próprio, e precisam recebê-lo da Mente Divina. Nenhuma dessas limitações se encontram em Deus, e seu conhecimento não é o de algo sobre o qual Ele ignorava.

O conhecimento divino é ontológico. Deus possui eminentemente todos os seres antes (não no sentido temporal) que eles tomem qualquer realidade. Ele os conhece enquanto Causa e Princípio eterno de todas as coisas. A Mente Divina não se enriquece pela aquisição de um saber do qual estava carente. Ela possui, de um modo causal, na coincidentia oppositorum de sua natureza insondável e infinita, tudo o que pode e o que não pode existir, tudo o que existiu, existe e existirá, e tudo aquilo que poderia existir, mas não existiu, não existe e nem existirá.

O Uno conhece toda multiplicidade dos seres de modo uno contemplando a sua própria Unicidade. O conhecimento é uma redução do múltiplo ao uno. Quando o homem entende o que é o cavalo, ele reduz este cavalo e aquele cavalo à unidade da natureza comum que torna cavalo cada um desses exemplares que se apresentam na realidade sensível. Os cavalos só existem porque há uma espécie que os unifica, contém, antecipa e abarca. 

O saber de Deus é absolutamente uno, pois antecipa causalmente tudo o que pode existir. Semelhante à luz que contém a possibilidade da escuridão, e só a "conhece" por sua própria luz. O conhecimento que Deus possui de si mesmo implica o conhecimento de todas as coisas que têm nele sua origem e sua manutenção contínua na existência. 

O filósofo neoplatônico, teólogo, mago e padre renascentista italiano Marsilio Ficino, nos seus comentários aos Nomes Divinos de Dionísio, explica essa passagem:

"Portanto, assim como os anjos percebem os sensíveis pelo intelecto, e não por meio dos sentidos, assim também Deus compreende propriamente os inteligíveis e os sensíveis juntos, nem por eles mesmos, nem pelo intelecto, mas por uma luz mais resplandecente que a inteligência. Nem possui Ele um conhecimento gêmeo como nós, um de si mesmo, e outro, dos outros. Tampouco, à nossa maneira, Ele conhece a si mesmo por referência a outrem. Em vez disso, conhecendo-se, Ele compreende tudo de forma simples, pelo conhecimento que, repito, precede até as razões ideais das coisas que são concebidas, discernidas e distribuídas por tal saber."

Não temos condições de conhecer a natureza de Deus tal como ela é em si, dado que Ele transcende infinitamente os sentidos e o intelecto finitos. Todavia, por meio da ordenação das coisas que são como imagens e semelhanças dos exemplares divinos, podemos ascender, dentro de nossa medida, pela via da negação até à Causa Universal. A ordem testemunha a existência do ordenador, e o homem deve subir a cadeia das coisas para alcançar o Criador, partindo dos efeitos à causa.

A ordem dos seres é a Escada de Jacó, por onde os anjos sobem e descem, que franqueia o acesso ao Céu. A ascensão, a anábase (Ἀνάβασις), exige que seja seguida a via negativa ou via remotionis, isto é, a negação de tudo o que é limitado. A teologia negativa ou apofática consiste em afirmar a perfeição para que não se afirme a imperfeição, e negar a perfeição para que não se afirme a imperfeição. As perfeições dos seres devem ser atribuídas a Deus como sua fonte última, porém, a fim de que Ele não seja concebido segundo as limitações intrínsecas aos entes, essas mesmas perfeições devem ser negadas naquilo que elas têm de finito.

Desse modo, afirma Dionísio, Deus é conhecido nas coisas e fora delas. As positividades dos entes manifestam Deus, e as suas limitações manifestam que eles não são Deus. Há conhecimento igualmente pelo desconhecimento. A via negativa, um dos traços distintivos da tradição neoplatônica, não alcança a natureza divina insondável, apenas retira os obstáculos da finitude que, por assim dizer, a "encobrem" como nuvens que impedem a visão do Sol. A douta ignorância (Docta Ignorantia), segundo a definição dada séculos depois por Nicolau de Cusa, é um saber ignorante porque entende que o desconhecimento da natureza divina se deve à sua absoluta transcendência.

Dionísio diz que Deus é tudo em todas as coisas e nada em nenhuma delas. É tudo porque os entes não existem senão pelo poder divino, e nada porque Ele as transcende infinitamente. Conhecido por todas as coisas e por todos os homens, e não é conhecido por todas as coisas e por todos os homens. Não existe contradição nessas declarações. Sob certo ângulo, Deus é conhecido por meio das suas criaturas que manifestam suas perfeições. Sob outro ângulo, nenhuma das criaturas, e nem o seu conjunto, pode revelar plenamente a natureza divina.

O caminho ascensional que parte da ordem das criaturas até à Causa Universal possui limites intrínsecos. Deus é conhecido nessa via segundo o vínculo causal com as criaturas. O mais divino conhecimento de Deus, que ultrapassa a relação causal, se dá quando a alma, deixando todas as coisas para trás, inclusive a si mesma, une-se à luz celestial supraluminosa, e nela é iluminada pela inescrutável profundeza da Sabedoria. 

Trata-se da unio mystica, a união mística, na qual a alma abandona tudo, até a si mesma, e se une ao Absoluto numa experiência que é indizível, inexplicável e indescritível. A doutrina de Dionísio apresenta aqui outro aspecto distintivo da tradição neoplatônica: o cume da contemplação é uma união espiritual com o Uno. Nas Enéadas, o filósofo neoplatônico Plotino, antecessor de Dionísio, expõe semelhante ensinamento:

"Tal é o fim real da alma: entrar em contato e ver essa luz por ela mesma, e não por outro. Ver aquilo mesmo pelo qual ela vê. (...) Não vemos o Sol pela luz de outra coisa. Como isso pode se dar? Faça abstração de tudo."  (Enéadas, V, 3, 17)

Marsilio Ficino comenta que a investigação filosófica, partindo da ordem do universo, não consegue ir além de Deus enquanto Criador das coisas. A alma é mais próxima de Deus quando, feitas todas as negações da via negativa, e afastada de seus poderes investigativos, ela "transporta-se para a luz divina inteiramente por amor, e, iluminada e unida em formas maravilhosas, rejubila maximamente em Deus".

Não obstante, deve-se haurir conhecimento de Deus por meio da ordem das coisas, dado que Ele é o autor da harmonia que se testemunha no Cosmo, ligando as coisas superiores às inferiores por cadeias indissolúveis numa hierarquia de acordo perfeito. O nome Razão (λόγος) é justamente atribuído a Deus não só por Ele ser a fonte última da razão que governa e penetra as coisas, mas também porque estão contidas na sua unicidade (μονοειδῶς) simplíssima as causas de todos os entes, transcendendo a todos por sua absoluta independência.

A Razão é a pura e infalível Verdade ao redor da qual a orbita. Os fiéis têm na verdade um solo firme e imutável, cujo conhecimento elimina o câmbio próprio da ignorância. E aquele que assim está estabelecido na Verdade sabe que está ao abrigo da errância, embora muitos, vendo-o de fora, possam considerá-lo como alguém fora de seu estado normal.
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Sobre o conhecimento divino:

sábado, 11 de janeiro de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livro V) - sobre o Ser

 

"Agora devemos proceder ao nome de 'Ser', o qual é verdadeiramente aplicado pela Ciência Divina a Ele que é realmente. Porém, e isso deve ser dito, não é o propósito de nosso discurso revelar o Ser Supraessencial em Sua Supraessencial natureza (pois é indizível, incognoscível e transcende a Unidade), mas somente celebrar a emanação da Absoluta Essência no universo das coisas."

DIONÍSIO AREOPAGITA, Os Nomes Divinos, Livro V, 1

No Livro V de Os Nomes Divinos explica-se por qual razão o Ser, tão importante na filosofia grega desde Parmênides, em especial no platonismo/aristotelismo, é um dos nomes atribuídos a Deus. Seguindo a tradição neoplatônica, Dionísio esclarece de início que não pretende expressar a natureza divina em si mesma, pois ela é supraessencial (ὑπερούσιος), acima de toda e qualquer essência (οὐσία). A piedade (εὐσέβεια) exige que se respeite o inefável, o indizível (άρρητων) do mistério divino.

Ora, o que é possível afirmar sobre Deus é o que conhecemos a partir das coisas, sabendo que Ele as transcende infinitamente. Então, conhecemos mesmo o Ser na qualidade de uma emanação da natureza divina nos seres limitados. Nosso conceito ordinário de existência não alcança a maneira simples e indefinível na qual Deus existe, abarcando e antecipando todos os existentes em Si mesmo.

O Eterno antecede todas as coisas não no tempo, como algo que vem antes de outro, mas na qualidade de seu fundamento último e imutável. Deus recebe o nome Ser porque a existência é o primeiro dom que Ele concede às coisas. Quaisquer outros princípios ou características dos seres necessitam primeiro existir. Um gato existente possui todas as qualidades e propriedades comuns ao tipo de ser que ele é, porém antes de existir como gato, ele precisa existir. Óbvio, o seu ato de existir e o seu ser gato não se separam temporalmente, mas o ato de existir tem prioridade metafísica com relação a seu ser gato.

Os universais assim como os entes singulares têm na existência a qualidade primordial da qual participam, ensina Dionísio. Deus contém todas as coisas semelhantemente à unidade que indivisivelmente contém e antecede todo e qualquer número. A unidade é o princípio no qual os números estão contidos como possibilidades, e que se tornam atuais quando repetem limitadamente a unidade formando uma multiplicidade qualquer. Não obstante, a unidade permanece a mesma sem sofrer qualquer mudança.

Todos os raios de todas as circunferências possíveis estão contidos no centro adimensional, e só existem atualmente com referência a ele. O ponto central é o princípio que os antecede nele mesmo sem que jamais sofra qualquer mudança. Se retornamos do raio de uma circunferência existente na direção do centro, passamos por indefinidos raios de circunferências possíveis, todas igualmente contidas no ponto central do qual elas poderiam partir.

"E, então, não é surpreendente que, quando ascendemos das imagens obscuras à Causa Universal, contemplemos com olhos sobrenaturais todas as coisas, inclusive as que são mutuamente contrárias, existindo como uma  indivisa Unidade na Causa Universal." (V,7)

O trecho acima repete o tema constante no platonismo do conhecimento que parte das imagens (εἰκασία) e da opinião (δόξα), ascende ao pensamento calculativo (διάνοια) e alcança a ciência (ἐπιστήμη ou νόησις) das Formas (ἰδέα) eternas. Ultrapassando as Formas, chega-se à ideia do Bem (Ἀγάθων), origem e fundamento daquelas. Dionísio dá à ascensão um sentido precipuamente ontológico. Subindo a partir dos sensíveis, a alma reconhece que as coisas inferiores estão contidas nas realidades que lhes são superiores, e estas, assim como todas as possibilidades não efetivadas, residem na fonte última e absoluta de todo e qualquer ser.

Tudo provêm do Uno (ou Bem), ensinava Plotino nas Enéadas, alguns séculos antes de Dionísio. As Formas são traços do Uno, e, em conjunto, formam o paradigma eterno em imitação (μίμησις) do qual é feito este Cosmos sensível das coisas cambiantes e perecíveis. Ora, o Cosmos contém contrários que são ordenados numa harmonia. O Uno, o poder supremo, contém em si eminentemente todas as coisas, mesmo aquelas que são mutuamente contrárias. 

A mesma doutrina será exposta por Nicolau de Cusa, quase um milênio depois, na sua obra A Douta Ignorância. As coisas residem em Deus, enquanto possibilidades, numa coincidentia oppositorum, coincidência dos opostos. Não há contradição porque ali as coisas são meros possíveis dentro da Possibilidade Absoluta. Todos os raios de todas as circunferências possíveis estão contidos no seu centro, o ponto adimensional do qual partem, em referência ao qual eles existem, e para o qual retornam.

"Pois Ele não é isto sem ser aquilo, nem deve Ele possuir este modo de ser sem aquele. Ao contrário, Ele é todas as coisas enquanto causa de todas elas, possuindo e antecipando Nele todos os princípios e todos os fins de todos os entes. Está acima de todos eles porque, sendo-lhes anterior, transcende-os supraessencialmente. Por isso todos os predicados podem ser a Ele atribuídos simultaneamente, ainda que Ele não seja algo." (V,8)

Enquanto causa de tudo, e contendo em Si tudo o que há e pode haver, Deus não pode ser isto ou aquilo. Ser algo, não importa o que esse algo seja, significa ser limitado, pois ser um humano necessariamente exclui a possibilidade de ser um gato. Dionísio não está dizendo que Deus é um gato ao mesmo tempo que é um homem. Não se trata tampouco de um panteísmo, a afirmação de que tudo é Deus. As coisas não são Deus, mas Ele é todas as coisas no sentido de que as contém na qualidade de causa e princípio universal.

Ele é todas as coisas porque é o princípio das possibilidades do que pode ou não haver no mundo. Nesse sentido, e somente nesse sentido, podemos atribuir-Lhe todos os predicados que encontramos nas coisas. Mas isso não faz com que Ele seja algo. este ente e não aquele. Então, num aparente paradoxo, Deus possui todos os nomes e nenhum deles. Quando a alma ascende até o Princípio derradeiro, contempla ali tudo o que há e pode haver numa unicidade suprema anterior a qualquer identidade, diferença e multiplicidade, e percebe que tudo pertence a Ele sem que Ele se identifique com nada em particular.*

Plotino, nas Enéadas, admite que essa experiência, enquanto dura, não pode ser dita, nem há tempo para fala. Só depois se consegue raciocinar sobre ela. Não obstante, naquele momento, a alma iluminada tem completa confiança da presença do Uno. Não é possível dizer nada justamente porque ali não há nada distinto, separado, identificado como isto ou aquilo. Só há o Absoluto na sua unicidade originária  incompreensível a qualquer ser limitado.

"Quando é iluminada, a alma possui o que buscava, e esse é o seu fim real: entrar em contato e ver essa luz por ela mesma, e não por qualquer outro, enxergar aquilo mesmo que torna possível que ela enxergue. Pois os meios de sua iluminação é o que a alma deve ver. Não vemos o Sol pela luz de outra coisa. Como, então, isso (essa experiência) se dá? Faça abstração de tudo." (Enéadas, V, 3 - 17)

A alma vê o Sol por meio do qual as coisas podem ser vistas. Dionísio usa também a analogia do Sol e diz que, embora permanecendo um, ele lança uma luz indivisa que faz aparecem as coisas, age sobre elas nutrindo-lhes, renovando-lhes, guardando-lhes, atualizando-lhes, fazendo-lhes crescer, mudar, frutificar, viver. Se o Sol contém antecipadamente nele mesmo na forma da unidade as causas das coisas que participam dele, Deus contém eminentemente tudo, inclusive as Essências das coisas existentes, em uma Unicidade Supraessencial.

Ele está presente em todas as coisas tal qual o som que permanece inalteradamente um e o mesmo apesar de ser ouvido por muitos. Porém, nenhum conceito e nenhuma medição interiores a este mundo, que tem a sua origem e sua sustentação Nele, podem ser aplicados adequadamente ao Princípio que é também o Fim de tudo. Segue-se disso que nem o nome Ser pode ser atribuído a Ele, e se o chamamos assim é porque o ser ou a existência é o dom primordial que todos os entes recebem ao entrar na realidade.

Deus está acima do próprio Ser se considerarmos que o Ser é o princípio que torna as coisas existentes como isto ou como aquilo, já sob as condições da identidade e da diferença. Portanto, o Ser é o princípio da limitação e da multiplicidade. Plotino considera o Ser (ou o Nοῦς) o começo de toda a multiplicidade, o Um-Muitos, pois nele se encontram reunidas todas as Formas, os verdadeiros Seres. Acima do Ser só há o Uno absoluto sobre o qual só é possível falar negativamente.
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* O mesmo tema é apresentado no Corpus Hermeticum, obra fundamental da tradição hermética: 
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quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livro IV, sobre o mal)


"Agora, alguém dirá: 'Se o Belo e Bom é objeto de anelo, de desejo e de amor de todos (pois mesmo aquilo que não existe anseia por Ele, como foi dito, e busca encontrar Nele o seu repouso, e assim Ele cria uma forma mesmo nas coisas informes, e, portanto, Ele contém, de fato, supraessencialmente aquilo que é inexistente), se isso é verdade, como é possível que a hoste demoníaca não deseje o Belo e Bom, mas, inclinada à matéria e caída do alto de seu afixado estado angélico de anelo pelo Bem, torne-se causa de todos os males para si e para todos os outros seres que descrevemos como maus?'

DIONÍSIO AREOPAGITA, Os Nomes Divinos, Livro IV

No Livro IV de sua obra capital "Os Nomes Divinos", após o discurso sobre o Bem*, Dionísio Areopagita enfrenta a difícil questão da origem e da natureza do Mal. O problema já havia sido discutido na antiguidade tardia por filósofos de escol como Plotino, Agostinho e Proclo. A resposta dada por Dionísio segue de perto a solução básica oferecida pelos pensadores neoplatônicos que o antecederam. 

Primeiramente, o Mal não pode vir do Bem, pelo fato de que não é possível que o Bem seja tanto o fundamento da existência e da preservação das coisas quanto a causa da corrupção das coisas, como o Mal. Se tudo o que existe possui seu ser graças ao Bem, então nada pode vir do Mal, dado que este nem sequer pode existir por seu próprio poder. E, se o Mal existe, há algo nele de Bem, justamente aquilo que o faz existir. Não havendo no Mal nada de Bem, não possui existência possível.

O argumento de Dionísio deve ser entendido à luz do que foi dito nas páginas anteriores do Livro IV acerca do Bem. Analogamente ao Sol, que ilumina e revela as coisas visíveis, o Bem é a origem e sustentáculo de tudo o que existe, existiu e pode existir. E se usualmente se pensa que o Mal é o contrário do Bem, isto é, a corrupção e a destruição das coisasele é o não-Bem, a não-existência. 

Na verdade, nem sequer é correto pensar que o Mal seja o contrário do Bem. Para melhor compreendermos a questão, retornemos à identidade entre Bem e Ser. Parmênides demonstrou que só há e pode haver o Ser, pois o Não-Ser é precisamente a negação do Ser, a inexistência absoluta. Aquilo que é absolutamente inexistente é Nada, não possui e nem pode possuir qualquer realidade. Portanto, afirmar que o Nada possa existir é um contrassenso.

Ora, se a existência do Nada é impossível, então não há e nem pode haver o contrário do Ser. Segue-se daí que se o Mal é pensado como o Não-Ser, ele não existe e nem pode existir em nenhum sentido. Aquilo que não existe não possui nenhum poder. Como seria possível que o Mal tornasse algo real se ele mesmo não existe? Somente o Bem pode tornar algo real. Admitir que o Mal existe é afirmar que nele reside pelo menos o poder de existir, o que contradiz a sua absoluta inexistência. Mais ainda, se o Mal existisse, a sua existência proviria do Bem, o que o tornaria pelo menos parcialmente Bem.

Conclui-se que o Mal, considerado como a absoluta inexistência ou o Nada, não existe e nem pode existir, já que nada advém do nada. No entanto, é inegável que há algo a que damos o nome de Mal, caso contrário a virtude e o vício seriam idênticos. Sendo Bem tudo o que existe, não resta espaço para distinguir o homem virtuoso do homem vicioso. Considerar um santo e um assassino igualmente bons seria um patente absurdo.

Para resolver problemas filosóficos é necessário realizar as devidas distinções. Em primeiro lugar, o Mal, tomado como a inexistência absoluta, o Nada, certamente não pode existir, mas e quanto ao mal relativo? Reconhecemos que algumas coisas não existem hoje, outras não existiram no passado e existem hoje, outras não existiram no passado e não existem hoje, outras não existem ainda e algumas nem sequer existirão no futuro. Nada disso poderíamos afirmar se em algum sentido não fosse possível falar do Não-Ser. 

Não obstante, não afirmamos a existência do Não-Ser absoluto, o Nada (o que seria absurdo), mas do não-ser relativo a algo. O sentido da sentença "João não veio à aula" não é a afirmação de que não há absolutamente Nada. O que queremos dizer é que este ente da realidade, João, não se encontra presente naquele lugar, a sala de aula. A ausência de João é o seu não-ser na sala de aula, é relativo a um ugar onde João poderia estar. Certamente ele está em outro lugar (no cinema, por exemplo), o que permitiria afirmar que "João está no cinema". Todos os lugares onde João não está são a sua ausência, o seu não-ser naqueles locais.

Outrossim, quando afirmamos a existência de alguma coisa, não afirmamos o Ser absoluto, mas tão somente a existência deste ente. Ao menos nesse sentido, assim como distinguimos o Não-Ser absoluto do não-ser relativo, também podemos distinguir o Ser absoluto do ser relativo. O Mal, tomado absolutamente, seria o Nada, algo cuja existência é impossível. O Mal, tomado relativamente, seria o não-ser relativo, uma falta, uma ausência, uma privação.

Em segundo lugar, citando Aristóteles na Metafísica, "o ser se diz de diversas formas". Embora atribuamos realidade a muitas coisas, nem todas elas são exatamente coisas. Quando afirmamos "João está na sala" nos referimos a um ente que, grosso modo, existe de forma independente de todos os outros entes ao seu redor. É desnecessário lembrar que essa independência não é absoluta, e que ela se refere ao poder de existir sem estar dependentemente em outro (como a cor está dependentemente na camisa). 

Atribuímos existência primariamente aos entes que existem de modo independente. Secundariamente, atribuímos existência a tudo o que em algum grau existe dependendo de outro. Um atributo como a cor só existe dependentemente em algo (camisa, tela, muro, etc.). Ninguém negará a existência da cor, mas ela existe de modo mais tênue que a camisa na qual se encontra. A sereia existe somente na qualidade de ente de razão, algo que não possui realidade independente daquele que o pensa. Um time existe somente como uma configuração (conjunto ordenado de relações) passageira assumida pelos jogadores que possuem realidade independente uns dos outros.

As negações fazem sentido somente porque se referem a entes realmente existentes. Negar que João está na sala de aula não é afirmar que existe alguma coisa chamada ausência que aguardava fora da sala e que entra e ocupa o espaço de João tão logo este saia da sala. A ausência expressa o não-ser de João naquele lugar. É sempre em relação a algo que podemos formular negações. Ao falarmos sobre o Nada, a negação absoluta, temos a impressão de que atribuímos alguma existência àquilo que absolutamente não existe.

Essa impressão é ilusória, pois o Nada não adquire nenhuma existência pelo fato de nos referirmos a ele. Na realidade, não nos referimos ao Nada diretamente como se fosse algo. Ao negar a presença de João na sala, nós nos referimos à possibilidade não efetivada de um ente (que possui realidade independente) de estar colocado naquele lugar. A impressão de que a ausência possui alguma realidade vem justamente da referência a João. A ausência é sempre ausência de algo. A impressão de que o Nada possui alguma realidade vem da referência indireta a tudo o que existe efetivamente, e que só pode ser negado hipoteticamente no pensamento.

Feitas as distinções necessárias, o caminho para a solução do problema fica mais claro. Só o Bem concede ser e realidade às coisas, e o Mal não produz nada. A destruição ou a corrupção de um ente não é a produção de algo. É verdade que, tal qual diz a fórmula latina, corruptio unius generatio alterius ("a corrupção de um é a geração de outro"). Porém, não é a corrupção que gera um outro ser. 

Um animal morto se corrompe e de sua matéria vários seres vivos serão gerados. A corrupção pode ser a ocasião ou a condição que torna possível a geração de outros seres vivos, mas a geração utiliza o que ainda existe da matéria do animal, e se distingue do processo de deterioração que destrói o animal. Considerada em si mesma, a corrupção não produz nada. 

Outra consideração fundamental a ser feita é sobre a diferença e a hierarquia dos seres. Nenhum ente pode ser idêntico a qualquer outro ente. A diferença existe quando algo, seja lá o que for, que está presente numa coisa não está presente em outra. Isto é, deve haver algo, por mínimo que seja, que esteja presente neste ente e não esteja naquele outro. Dois vasos em tudo o mais idênticos se distinguem pelo fato de que a porção de matéria de cada um não é idêntica à porção de matéria do outro.

Não obstante, é preciso recordar que somente a presença é real e que a ausência é meramente falta, privação, não-ser. O que funda a realidade de um ente é a presença nele de um conjunto de atributos ordenado segundo determinada natureza (ou essência). Não é a ausência de certos atributos ou características que define a natureza de um ser. O tipo de ser do homem é definido pela presença da animalidade racional, o que implica a coincidência de vários atributos que pertencem também a outros seres e a ausência de outros tantos atributos que estão presentes em muitos seres.

Entre as diferenças que existem no mundo, estão aquelas de grau e de proporção.  hierarquia entre os seres baseada na proporção na qual cada um participa do Bem. Alguns possuem maior participação, enquanto outros possuem grau menor de participação. Nenhum ente limitado pode ser absolutamente Bem. Cada ente possui em si o grau de Bem que corresponde à sua natureza. tipo de ser que a coisa é corresponde ao grau da presença do Bem nele. A consequência é que a estrutura da realidade é constituída por uma desigualdade ontológica irredutível.

"Em suma, todas as criaturas, na medida em que têm ser, são boas e vêm do Bem. E na medida em que são desprovidas do Bem, não são boas e nem têm ser". Até os seres que militam contra o Bem só o podem fazê-lo pela existência que é dispensada pelo próprio Bem. Dionísio não está afirmando que todas as coisas são boas moralmente. O que está sendo afirmado é que a existência enquanto tal é uma participação no Bem. 

Por essa razão, mesmo o homem mau, na medida em que existe, participa do Bem. O réprobo, desprovido do Bem com relação aos seus desejos embrutecidos, de certo modo não existe e anseia por irrealidades. Mas na medida em que sente desejo e quer aquilo que em sua visão é a melhor vida, o réprobo participa do Bem. E ele só pode agir mal porque possui forças e atributos reais que o permitem realizar ações. Nesse sentido, mesmo as más ações dependem do Bem para que possam ser realizadas. 

O homem mau só consegue agir contra outro ser humano porque possui realmente o poder (nos seus braços, pernas, raciocínio, etc.) de realizar seu intento. Os elementos necessários para a sua ação estão presentes e funcionando do modo como deveriam, e todo esse conjunto é em si mesmo bom. O que não é bom é o objetivo, o fim que foi escolhido pelo homem. Sob essa perspectiva, o aparato do seu corpo é um instrumento bom utilizado para realizar um objetivo mau.

As ações do homem mau estão ordenadas à realização de um fim objetivamente mau, mas esse fim foi escolhido porque ele considerou-o benéfico em algum sentido e em alguma medida. Nem que seja a satisfação imediata e fugidia de um desejo mesquinho. A vingança é moralmente , o que não significa que não traga certa satisfação que pode ser subjetivamente encarada como um bem. O mal moral está justamente em trocar um bem (que pode ser difícil, distante no tempo, incompreendido, etc.) por alguma vantagem ou satisfação menor.

Nenhum ente pode ser o Bem absoluto, dado que qualquer ente participa do Bem, no sentido de que é uma manifestação limitada da presença do Bem. Sendo assim, então nenhum ente pode ser o Mal absoluto, pois o Mal é o Não-Ser, a falta, a privação. Um ser qualquer que fosse totalmente mau seria inexistente. A desordem completa não pode existir, uma vez que a existência, por si mesma, exige alguma ordem mínima.

O Mal é sempre relativo, só existe indiretamente por referência a algo bom que esteja ausente ou diminuído, e depende do que há de bom na coisa. Por assim dizer, o Mal é parasitário, sua "realidade" é a da diminuição ou da ausência de uma propriedade em algo que de fato existe. Poder-se-ia afirmar, inclusive, que a existência do Mal, enquanto não-ser, é ilusória. Dionísio assevera que o Mal é não-existente.

A partir do que foi argumentado, resta óbvio que Deus não pode ser mau em nenhum sentido. Como o Absoluto, o Infinito, poderia conter qualquer falta, diminuição ou privação? E quanto às criaturas, elas podem ser naturalmente más? Se o fossem, elas seriam desde sempre más, sua natureza seria má. Ocorre que a natureza de um ente é constante, é a sua ordem intrínseca. O Mal não pode ser constante, caso contrário seria ordenado, e, por conseguinte, seria bom. 

Tampouco os demônios são naturalmente maus, afirma Dionísio:

"Eles são chamados maus porque falham no exercício de sua atividade natural. Portanto, o mal neles é uma deformação, um declínio de sua condição própria, uma falha, uma imperfeição, uma impotência, uma fraqueza, perda e lapso daquele poder que preservaria neles sua perfeição.(..) Por isso, os demônios não são maus enquanto realizam sua natureza, mas tão somente quando não a realizam."

Os seres humanos e os animais também não são naturalmente maus. A depravação da alma humana é uma deficiência com relação às boas qualidades e atividades. Os animais, por mais brutos que sejam, não são maus, ainda que algumas de suas características pareçam nocivas. O leão sem a sua ferocidade não seria um leão, e não poderia manter a sua existência. O Mal é a destruição da natureza, a fraqueza e a deficiência das qualidades, atividades e poderes naturais de um ente.

Alguns afirmaram que o corpo e a matéria são intrinsecamente maus. O corpo pode ser feio ou enfermo, o que significa que ele é apresenta respectivamente deficiência na forma ou diminuição na ordem. Tais males não o tornam mau por natureza. A matéria não pode ser má, dado que é elemento necessário da constituição dos entes deste mundo. Não é mau aquilo que entra na composição de certos entes e torna possível a sua existência, que é o bem primordial.

Sequer é cabível dizer que o Mal luta contra o Bem. A falta é impotente em si mesma para agir de qualquer modo. Somente é possível afirmar que o Mal possui existência no sentido de falta, privação, diminuição de algum bem em algo realmente existente. O Mal não possui um ser substancial e nem imutável. Ao contrário, é indeterminado, indefinido, insubstancial como a sombra de uma pessoa, acidental, desarrazoado, estéril, inerte, incongruente, desordenado.

Alguém poderia argumentar que vemos pessoas realizando ações más que são reais e que têm efeitos e consequências reais. Nesse caso, o mal moral só existe na medida em que é uma falta em pessoas que, justamente por serem reais, são capazes de produzir resultados na realidade. Não é pela maldade que são produzidos tais efeitos. O homem incontinente age porque é um ente real, o seu poder de ação deriva da realidade das potencialidades, capacidades e poderes que nele residem. A sua maldade consiste na falta de continência na ação, assim como o descontrolado é alguém deficiente no que tange ao autocontrole.

A ação é real porque é um ato que deriva sua realidade dos poderes de um ser real. A ação é não pelos poderes ativos desse ser real, mas porque é praticada num nível moral deficiente. Em vez de agir com a continência adequada à situação concreta, o incontinente age num nível de continência inferior ao que seria exigido. A omissão também pode ser moralmente condenável. O covarde que permanece calado quando a justiça demanda o protesto verbal se furta de agir de modo adequado numa situação de tensão ou de perigo.

Na linguagem comum, os termos ruim mau são igualmente aplicados a seres inanimados quando eles apresentam deficiências ou faltas. A cadeira ruim ou má cadeira é aquela que não possui suficientemente as características essenciais que correspondem ao que é uma cadeira. Ela pode ser pequena demais ou grande demais, pode ter uma perna faltante ou de comprimento diferente das outras. Todo o resto da cadeira que está adequado ao exigido desempenhará sua função conforme o esperado. Da mesma forma, um defeito numa parte da máquina, a depender de sua função no todo, não impede que as demais partes funcionem normalmente. 

A deficiência é a falha na medida (logos, proporção, forma, natureza) própria de algo. A ação é desmedida em algum de seus aspectos, seja nos objetivos, na adequação, na oportunidade, nos meios, na intensidade, etc. Enquanto deficiência ela não é algo, é uma diminuição em algo. A ação é com referência à moralidade por ser inadequada às exigências morais. A ação não é em tudo aquilo que se refere aos poderes naturais do homem que a tornam possível e que funcionam normalmente. 

O braço da pessoa que agride fisicamente outra pessoa não é mau, apenas está sendo usado instrumentalmente para realizar um objetivo mau, inadequado, deficiente. Quando vemos uma ação , a sua realidade reside somente naquilo que é necessário para realizá-la e que funciona normalmente. As consequências e os efeitos da ação também são reais segundo as potencialidades, capacidades e funcionamento ordenado daquelas realidades sobre as quais ela é exercida.

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