
"O homem deve se preparar para adquirir um conhecimento terrificante do Cosmos e do lugar que ele mesmo ocupa no turbilhão do tempo. É necessário pôr-se em alerta contra um perigo secreto bem determinado que, se não ameaça destruir a raça humana inteira, pode infligir aos seus representantes mais aventureiros horrores monstruosos e indefiníveis."
H.P. LOVECRAFT, The Shadow out of Time
Quem quer que já tenha lido boa parte dos contos fantásticos de H.P. Lovecraft terá notado um tema constante que atravessa suas obras: o terror advém do conhecimento. Em seus contos, de alguma forma, todos os estudiosos que se aventuram a conhecer as profundezas da realidade, sejam eles matemáticos, físicos, filósofos, antropólogos, ou mesmo ocultistas e teósofos, encontram ao final de sua jornada somente horror e loucura.
Há em Lovecraft a consciência de que a atividade do conhecimento abre para os olhos humanos o abismo de sua pequenez cósmica e da indiferença essencial do universo. Alguns críticos já salientaram que as obras lovecraftianas têm um sabor de decepção com o rumo mecanicista e desespiritualizado da ciência moderna que culmina na afirmação de um mundo frio e indiferente.
Porém, há algo mais: a convicção de que o conhecimento pode ser tão destruidor que a loucura talvez seja a única alternativa misericordiosa frente a tal horror. Se um dos mais poderosos deuses antigos, Azathoth (cujo nome não se deve pronunciar em voz alta), é um deus cego e idiota que tem de continuar adormecido para não destruir todo o Cosmos, e se seu preposto, Nyarlathotep, é maligno o suficiente para, tomando a forma humana, conceder aos homens o poder de se autodestruírem, então as forças que controlam o universo não são somente indiferentes. Elas são más.
Deuses dotados de uma vontade maligna, por vezes cega e por vezes intencional, mas sempre detestável e malévola num nível desconhecido ao ser humano. Blasfêmia é um termo usado amiúde por Lovecraft para descrever essas forças. Blasfemo é aquele que, nega ou escarnece de tudo o que consideramos sagrado e certo. Essas forças, por sua própria existência e lugar no universo, escarnecem de nossas mais íntimas e ingênuas convicções sobre o bem e a harmonia cósmica.
O destino humano é, portanto, miserável, e o conhecimento que o revela é maldito em si mesmo. Não seria melhor ter permanecido na era dos mitos e da poesia, da qual Lovecraft tentas vezes manifesta nostalgia? A curiosidade do conhecimento se mostra como uma armadilha que lança seus artifícios insidiosos gradativamente, e que, ao final, guarda somente engano e sofrimento.
Lovecraft parece não haver indicado qualquer solução para esse dilema a não ser, talvez, a rejeição implícita dessa curiosidade que deu azo ao conhecimento que conduz à nossa própria ruína. Talvez seja exagero classificar Lovecraft como irracionalista. Entretanto, ele é certamente um autor que, como diversos outros nos tempos recentes, por meio da literatura, lança dúvidas sombrias sobre as vantagens do conhecimento, e se questiona se, sendo nosso lugar no mundo tão triste e insignificante, talvez não fosse melhor não conhecê-lo.
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