terça-feira, 20 de outubro de 2026

Breves reflexões sobre a nova trilogia de Star Wars

A despeito das intenções dos roteiristas, o modo de vida da protagonista Ray revela o problema central da mais recente trilogia de Star Wars. A catadora (scavenger) recolhe e revende peças, desconexas e achadas ao acaso, oriundas de estruturas organizadas que perderam seu uso e foram abandonadas. Analogamente, os três filmes parecem o produto de uma junção de elementos pinçados das duas trilogias anteriores de acordo com o valor isolado das partes e sem que uma ordem interna seja identificável. As razões para isso são várias, e algumas delas derivam de outros problemas mais fundamentais.

A primeira impressão que o espectador acostumado ao universo de Star Wars tem ao assistir à nova trilogia é que após a queda do Império não restaram adultos na galáxia muito, muito distante. A questão é menos a idade dos atores e mais a mentalidade dos personagens principais. O termo adulto está sendo usado aqui no sentido de certa capacidade de controle emocional, pensamento e ação segundo parâmetros racionais e estabilidade de caráter. Talvez os dois melhores exemplos do problema sejam Kylo Ren e o General Hux.

O ator Domhnall Gleeson, que interpreta Hux não tem o physique du rôle para o papel de comandante supremo de uma organização militar com o poderio bélico da First Order. Hux, quando muito, não passaria de tenente na hierarquia de qualquer exército do mundo. Seu discurso histérico, descomposto, cheio de trejeitos e de chavões é o oposto do que se espera de um comandante experiente e confiante que quer elevar o moral de sua tropa. 

O cenário (com estandartes com o símbolo da First Order em preto dentro de um círculo branco em um fundo vermelho), e o uniforme negro (típico da Schutzstaffel) são alusões claras ao nacional-socialismo, um recurso fácil e preguiçoso de identificação imediata do inimigo e da dimensão do perigo que representa. O efeito pretendido não acontece graças à contradição visível entre a imagem do personagem e a função que supostamente ele desempenha na trama.

O jovem filho de Han Solo e da princesa Leia, por sua vez, é descontrolado emocionalmente, confuso, impulsivo e sujeito a patéticas explosões de raiva que mais parecem birras de um adolescente contrariado pelos pais do que ações malignas de um aspirante a Lord Sith. O parricídio, calculado para dar ao personagem um peso trágico, aumenta a impressão de superficialidade na medida em que parece uma vingança vulgar ditada pelo rancor e não uma parte necessária dentro de um caminho contra-iniciático trilhado intencionalmente. A sua hesitação entre os lados da Força é fruto da instabilidade e da fraqueza e não possui a profundidade mínima de um conflito moral entre parcelas opostas da herança recebida dos pais.

A conversão de Finn, que passa de stormtrooper a rebelde, acontece sem grandes dificuldades, o que faz espectador suspeitar que o seu papel não seja muito maior do que o de um substituto dos droids R2-D2 e C3PO responsáveis no primeiro filme da trilogia original por fazer a ponte entre os eventos do universo exterior e o planeta caipira de Tatooine. Seu confronto com a Capitã Phasma não tem a tonalidade épica que deveria por falta de desenvolvimento de um real antagonismo entre ambos.

Poe Dameron, de longe o melhor e mais promissor personagem de todos os três filmes, é a única voz sensata que se levanta contra a "estratégia militar" aberrante da Vice-Almirante Holdo, sob cujo comando os rebeldes só seriam capazes de vencer a First Order se houvesse uma intervenção milagrosa da Força. Previsivelmente, ele é relegado a um papel secundário e insosso. Fica a impressão de que Dameron e Finn poderiam ter sido fundidos em um só personagem com mais presença e mais história.

A instabilidade não permite que haja a coagulação do caráter, aquela estabilidade de pensamento e de ação que resiste ao fluxo incessante e caótico dos sentimentos e das emoções. As partes não encontram um centro ordenador e ficam dispersas e sem direção clara. Sem uma base fixa sobre a qual os eventos se desenrolam, a trilogia não logra construir uma história consistente de evolução heroica ou de degradação moral.

A ausência de um núcleo claro gera a multiplicação dos personagens, recurso que tenta emular a riqueza das perspectivas unidas e coordenadas por referência a um princípio ordenador. Com efeito, a quantidade não substitui a qualidade, e as subtramas de tantos coadjuvantes, longe de enriquecer ou fazer avançar a história, dispersam a atenção, cansam o espectador e diminuem o espaço de desenvolvimento adequado dos protagonistas.

Aquilo que não exerce uma função é logo descartado, e a consequência lógica da multiplicação desordenada é a dispensabilidade dos personagens. Eles são introduzidos para ali adiante serem mortos ou abandonados como peças inúteis que se acumulam num canto. O Líder Supremo Snoke, a eminência parda atuando por trás da First Order, é eliminado com insólita facilidade. O mesmo destino decepcionante foi reservado à Capitã Phasma, antagonista muito mais ameaçadora do que Snoke, Kylo Ren e Hux juntos e multiplicados por qualquer número. Rose aparece na trama para morrer quase em seguida (e ainda demorou demais) numa tentativa malograda de clímax romântico.

A dispensabilidade não atinge somente os novos personagens. Han Solo é dispensável, Leia é dispensável, Chewbacca é dispensável, e até Luke Skywalker é descartado na sua primeira aparição na tela. Sim, porque, embora a sua morte só aconteça no final do segundo filme, o seu significado na saga é vilipendiado e abandonado no momento em que joga para o alto o seu sabre de luz. 

O “ponto alto” de sua participação é o uso covarde de um truque mental Jedi numa luta (com o sobrinho Kilo Ren) em que sequer está fisicamente presente. Luke não morre como um herói. A sua morte é a de um asceta que se desfaz no ar igual a um fantasma. Ele é insubstancial porque não passa de uma imagem ou de uma lembrança que não pode ser compreendida fora de uma continuidade narrativa.

O tratamento dispensado a Luke Skywalker marca a atitude geral dessa trilogia com relação ao universo consolidado de Star Wars: o antigo deve ser superado pelo novo. A transmissão de uma herança sempre exige a sua adaptação às novas circunstâncias, nunca uma ruptura total seguida de completo ineditismo. Mas Rey é desenraizada, não tem história, seus pais são desconhecidos. Ela busca uma ligação com o passado na figura de Luke Skywalker, e vive em um limbo até adquirir uma identidade ad hoc no fim da trilogia com Palpatine.

Mestre Yoda queima os livros Jedi como um iconoclasta queimava os ícones. De fato, tudo é pó diante da experiência real daquilo que uma tradição veicula e vincula por meio das suas manifestações materiais passageiras. O reformador pode destruir as antigas formas a fim de manifestar o que é essencial de acordo com as exigências de seu tempo. A forma muda, o conteúdo permanece.

Porém, o descarte fácil dos personagens revela certa dificuldade geracional de lidar com algo que seja um pouco mais permanente do que a rolagem contínua de conteúdos curtos e sem relação uns com os outros na tela de um celular. A sucessão de vídeos ou de textos desconexos não favorece a percepção dos liames que ligam os eventos (externos e internos), e nem a formação de um núcleo estável que administra e organiza o câmbio dos sentimentos e das emoções. Tudo é sempre novo e fugidio.

A dispensabilidade e leviandade com que são tratados os protagonistas das trilogias anteriores de Star Wars demonstra a incapacidade hodierna de compreender que o que concede sentido e justifica a posição privilegiada de um personagem é o caminho percorrido na narrativa. Isso impede a construção de um arco sólido de formação do herói. O heroísmo de Rey parece muito mais destino do que chamado e esforço (ἀγών).

Outra dificuldade é que Rey busca guiamento com um mestre falhado. A reação de Luke ao perder seu discípulo amado Kylo Ren para o Lado Negro da Força é oposta à atitude de seus mestres, Yoda e Obi Wan Kenobi, que sofreram idêntica traição perpetrada por Anakin Skywalker. Luke, seguindo certas tendências do psicologismo moderno, é um homem traumatizado que reage à adversidade com amargura, fraqueza e deserção do Caminho. Yoda e Kenobi reconheceram a derrota dos Jedi, não abandonaram a senda e viveram anonimamente nas franjas da galáxia à espera de que a providência da Força fizesse surgir uma Nova Esperança.

A figura do mestre exige a autarquia (αὐτάρκεια), a autossuficiência interior, e a ataraxia (ἀταραξία), a imperturbabilidade diante dos acontecimentos. Destituído dessas virtudes, Luke cede à desesperança e ao niilismo por causa de um mero padawan. O mesmo herói que se recusou a matar um rematado Lord Negro de Sith em "O Retorno de Jedi" porque confiou até o fim na fagulha de bondade que Darth Vader talvez tivesse, cogita agora matar um garoto por aquilo que ele pode se tornar no futuro. É a mentalidade atual que, invertendo a estrutura cronológica da experiência moral, considera justo matar certo jovem austríaco para evitar que ele se torne Hitler.

Não obstante, a trama precisa de um fio condutor que forneça pelo menos a ameaça que justifica o arco do herói da trilogia. Dado que os candidatos a vilão foram descartados sem cerimônia (Snoke) ou são fracos demais para servirem a esse propósito (Kylo Ren e Hux), a solução é recorrer ao deus ex machina. Palpatine, o mago negro, retorna como a ameaça perene, o velho mal que as gerações anteriores (Anankin e Luke) não conseguiram extirpar. 

O Imperador serve também a outro objetivo. Incapazes de presentificar em um personagem a gravidade do Mal, e, por consequência, incapazes de entender o herói, os roteiristas são obrigados a trazer Palpatine de volta para tornar Rey uma personagem maior do que ela é graças à dimensão da ameaça que ela enfrenta. 

O expediente não funciona porque, ao contrário da trilogia original em que a figura sinistra do Imperador paira no ar desde o primeiro filme e vai progressivamente adquirindo presença física nas duas partes seguintes, na nova trilogia Palpatine é uma peça descartada que é recolocada no jogo para reverter uma derrota iminente. O artificialismo da manobra é evidente e não agrada ao espectador atento.

Enfim, para os roteiristas, o universo de Star Wars é só um monte de sucata do qual o catador retira as peças que lhe interessam revender sem atenção à função que desempenhavam na ordem a que pertenciam.

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sábado, 17 de outubro de 2026

Ernst Jünger e o sentido da guerra

 
"O homem livre é um guerreiro."

FRIEDRICH NIETZSCHE, Götzen-Dämmerung

Nos dois últimos capítulos de “A Guerra como Experiência Interior”, intitulados “O Inimigo” e “Antes da Batalha”, Ernst Jünger reflete sobre o soldado às vésperas de uma grande ofensiva. A tediosa vida da trincheira era vez por outra interrompida por escaramuças com patrulhas inimigas que tinham a ousadia suicida de cruzar a terra de ninguém sob o manto protetor de Nix, rastejando dentro das crateras do terreno fustigado pela artilharia e se ocultando atrás dos destroços do que um dia poderia ter sido uma aldeia ou uma cidade.

Nada grandiosos em si mesmos, esses pequenos combates seriam anos depois floreados e contados com orgulho pelos veteranos aos seus conterrâneos, filhos e netos. O efeito dessas histórias seria encher os jovens de inveja e de nostalgia até que, graças ao funcionamento das leis imutáveis do sangue, o repositório de energia acumulada pelos tempos de paz dará lugar à necessidade irrefreável da força transbordar em proezas guerreiras, vencendo assim as vozes prudentes e recalcitrantes dos pacifistas e dos filósofos morais.

O inimigo na guerra moderna é uma presença difusa e impessoal que se manifesta nas tempestades de aço maciças que castigam as trincheiras e colhem suas vítimas ao acaso. Raramente é um ser de carne e osso contra o qual se pode investir olhando nos seus olhos injetados de fúria. Na ofensiva, ao contrário, quando um dos lados em luta abandona a proteção de seus bastiões e avança na direção das linhas do outro atravessando o mar revolto da terra de ninguém, o soldado tem finalmente a inesquecível experiência do inimigo que retoma a aparência humana, do fantasma que assume as cores terrosas de um uniforme. O combate une as partes em um só corpo, um Todo que afirma simultaneamente amigo e inimigo, uma trama urdida pelas Moirai.

A preponderância das máquinas faz com que o homem quase desapareça do cenário, deixando a impressão de que uma causa mecânica, cega e morta é a responsável pelos eventos infelizes que se desenrolam diante dos olhos atônitos dos combatentes. Mas isso é uma ilusão. O ser mais perigoso e sedento de sangue da Terra, o homem, dirige as máquinas no sentido de seus propósitos. No espetáculo do combate moderno, o fenômeno do material intimamente unido à inteligência não tem paralelos na História. “Hoje escrevemos poemas de aço e composições de concreto reforçado. Lutamos pelo poder em batalhas onde os eventos se entrelaçam com a precisão das máquinas”.

É uma honra fazer parte da vanguarda do grande ataque que está por vir. Os estratagemas dos covardes já lhes garantiram a segurança da retaguarda. A Vida se expressa mais profundamente no comprometimento até a morte com a Ideia (Idee) do que nos livros dos filósofos que o soldado justamente ignora. Não importa se um dos lados esteja errado ou que ambos estejam, diz Jünger, pois “a morte por uma convicção é a mais alta das realizações”, é a “perfeição par excellence” neste mundo imperfeito. Aquele que morre por um erro ainda é um herói.

As controversas afirmações do escritor parecem reverberar o conceito de liberdade defendido por Friedrich Nietzsche no livro Götzen-Dämmerung (1888). Embora desprezasse os liberais, os socialistas, os anarquistas e os democratas, o filósofo alemão reconhecia que as lutas desses agentes em prol de seus ideais decadentes e gregários eram positivas porque a guerra educa para a liberdade:

“Pois, afinal, o que é a liberdade? É a vontade de assumir a própria responsabilidade. É manter a distância que nos separa dos outros, tornar-se indiferente ao esforço, à dureza, à privação, e até à própria vida. É estar disposto a sacrificar a si mesmo e outros homens pela sua causa. Liberdade significa que os instintos viris, aqueles voltados para a guerra e para a vitória, exercem domínio sobre outros instintos, como, por exemplo, os instintos voltados para a ‘felicidade’. ”

O valor de uma ação reside naquilo que ela exige do agente. Morrer por uma convicção é pagar o mais alto preço concebível, é desprezar o conforto mesquinho do “bem-estar” característico, segundo Nietzsche, dos mercadores, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e democratas. O esforço empreendido para superar a resistência de um obstáculo é o índice que mede a liberdade. O perigo revela o espírito de cada homem. Só é forte aquele que é obrigado a ser forte.

Vista por esse prisma, a guerra torna-se de fato uma experiência interior (Inneres Erlebnis). A verdade ou a falsidade de uma convicção não determinam o valor da ação empreendida em seu favor. O Agon (Ἀγών), a aristocrática virtude guerreira do esforço, da disputa e da proeza, é o exercício da liberdade. Desse modo, Jünger garante que o sentido de todo o sofrimento vivenciado durante o conflito mundial resida no interior do soldado e não na objetividade das reinvindicações dos Estados em luta entre 1914 e 1918.

“Aquele que enxerga nesta guerra somente negação e sofrimento, e não afirmação, o máximo dinamismo, terá vivido como um escravo. Terá tido somente uma experiência externa, não uma experiência interior”. A guerra é, para Jünger, a manifestação do fluxo incessante da própria Vida, que se manifesta nas formas modernas da Vontade de Luta (Wille zum Kampf) e da Vontade de Poder (Wille zur Macht), e arrasta o homem ao conflito como uma força elementar e avassaladora diante da qual tudo o mais perde seu significado.

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Ernst Jünger, o medo e o herói

"É da natureza do herói que a ideia o arrebate para além de todos os obstáculos da matéria."

ERNST JÜNGER, "A guerra como experiência interior"

Incontáveis são os pensamentos despertados na imaginação livre durante as longas noites servindo como vigia na trincheira, relata Ernst Jünger no décimo capítulo de “A guerra como experiência interior”. Quem está lá? “Um guarda, uma arma, a mais elementar unidade de combate, um número. Muitos não veem nada de diferente”. Os jornais elogiam o moral das tropas como quem reporta o desempenho e a resistência de um bom material. O soldado é um material, um recurso, o carvão a ser queimado até o fim nas fornalhas que alimentam a infernal máquina da guerra. No entanto, é também uma pessoa, um coração, uma alma.

O materialismo convicto do jovem Jünger estudante de ciências naturais e leitor de literatura moderna deu lugar à incerteza, a um senso de mistério acerca do sentido e do propósito de tudo o que acontecia ao seu redor. Forças obscuras e sangrentas movem as ações. “Mas no sangue há sempre uma razão profunda”, reflete. Na redescoberta da força e no contato com o solo (Grund) uma nova direção se revela à consciência. As intermináveis discussões sobre o conflito mostram o quanto seus companheiros são dominados por um materialismo rasteiro. Ainda julgam que a guerra é uma causa, e não compreendem que a pergunta está mal colocada. A guerra é uma expressão cuja causa está no interior e não no exterior.

A consciência daqueles homens se chocava contra os próprios limites, incapazes de formular uma pergunta que se dirigisse para além das superficialidades e das necessidades imediatas e egoístas. Eram matéria-prima para a realização dos fins da ideia sem que disso tivessem a menor noção. Os slogans, que reinavam como verdades absolutas nas incessantes discussões, constituíam os únicos instrumentos disponíveis para compreender a sua situação presente. 

Os conceitos de nação e de pátria não significam para eles outra coisa que não o pedaço de terra familiar onde nasceram e cresceram, enriquecido de recordações absolutamente pessoais. Jünger não os condena. Ao contrário, defende que sejam tratados compassivamente enquanto indivíduos. São companheiros fiéis que lutam e sofrem juntos enfrentando um tempo que não compreendem totalmente, esperando um dia discernir alguma razão superior em tanto sofrimento.

A luta é uma das maiores paixões humanas. Amanhã, quando o ataque às linhas inimigas houver terminado com sucesso, os vencedores contemplarão do alto de seu poder os derrotados em fuga, e um grito selvagem e primitivo, em uníssono emergindo das auroras da existência, será ouvido ao longo dos campos da morte. Ninguém é indiferente à vitória. O Agon (Ἀγών) a todos governa. A força quer ser exercida, a prova é desejada, o domínio do sofrimento revela a natureza de cada homem, as fontes mais recônditas da vida são acessadas no clangor do combate. O guerreiro é um asceta da agonística.

"É terrível matar alguém que você nunca viu e que não lhe fez nenhum mal", lamenta o espírito comum que admite que se mate apenas por ódio, em resposta a um motivo pessoal. Não compreende que, observa Jünger, é possível respeitar o inimigo e ainda combatê-lo, não como um ser humano, este homem contra o qual não tenho nenhuma desavença, mas enquanto puro princípio (Prinzip), e que uma ideia possa ou deva ser defendida com todos os recursos da inteligência e da violência. Sobre isso, só se pode falar entre homens.

Os portões do Hades infundem medo (Angst, o tema do ensaio seguinte) até nos soldados mais experientes. Em breve, terá início o combate renhido, a avalanche metálica dos projéteis de artilharia atingirá o solo desfigurado e irreconhecível, os gritos lancinantes dos feridos serão ouvidos por toda parte, os mortos acumulados servirão de passarela para os combatentes e o acaso reinará inconteste. Fortuna imperatrix mundi.

"Vorwärts!" O que os faz o soldado avançar na direção do inimigo a despeito do medo que o domina? A situação é séria demais e demanda muito além da disciplina, e não admite a exaltação do entusiasmo típico do patriotismo e do senso de dever. O fato de que tudo o que é pessoal e individual no combatente se opõe à intrepidez do ataque revela a agência de uma vontade superior (höherer Wille) da qual não tem consciência, e que atua por meio dele para realizar seus próprios fins. É o poder da Ideia (Idee) que guia o guerreiro, e que encontra os meios necessários para alcançar o objetivo. Em retrospectiva, as proezas realizadas sob o signo dessa vontade lhe parecem com razão heroicas.

"Sentimos medo por sermos criaturas finitas, mas, quando algo imperecível em nós vence esse medo, podemos nos orgulhar disso. Isso demonstra que estamos verdadeiramente ligados à vida, e não apenas à mera existência."

O temor é o domínio do pessoal e do individual. O homem pode se orgulhar quando as exigências e os cuidados desta existência singular (Dasein) que o constitui são superados pela ação interior de um princípio (Prinzip) inextinguível, a Vida (Leben), que o emprega como instrumento de sua vontade superior. Os limites intrínsecos da finitude humana são suspensos enquanto dura o entusiasmo (ἐνθουσιασμός) que arrebata o herói e o transmuta em veículo de uma realidade primordial que o ultrapassa infinitamente.

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