“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.”
MATEUS 4:1
The VVitch (2015) tem como premissa narrativa a história de uma família puritana do século XVII que abandona sua Inglaterra natal em busca de liberdade de culto no Novo Mundo. Devido a divergências teológicas, Will, o chefe da família, abandona a comunidade religiosa a que pertencia levando consigo seus filhos e esposa para uma região inóspita, nos limites de uma densa floresta.
Todavia, no fundo, trata-se de uma história de iniciação demoníaca de Thomasin, a filha mais velha do casal Will e Katherine. A menina, uma adolescente passando pelas transformações e pelos conflitos da puberdade, é insidiosamente cercada pelas trevas e o conjunto de acontecimentos que se seguem constituem o seu progressivo afastamento da luz e a revelação paulatina de sua eleição .
Evidentemente, ela não é destinada à danação, mas só se é tentado por aquilo a que já se está inclinado volitivamente. Se a palavra divina tem que encontrar solo fértil para frutificar, o mesmo acontece com a semente diabólica. O demônio percebe em Thomasin propensões, fraquezas e até virtudes que podem, sob sua ação dissolvente, se converter em rendição pactual ao maligno.
O filme, quando observado do final para o início, mostra uma continuidade de eventos que parecem concebidos e arquitetados por uma consciência cujo objetivo obscuro era afastar Thomasin de todos os laços de proteção natural e torná-la totalmente vulnerável à ação sedutora do mal. É possível perceber, por exemplo, que o início da influência diabólica se dá muito antes do isolamento da família na floresta.
Will, o pai puritano fervoroso, entra em conflito teológico com sua congregação e prefere o exílio à reconciliação com seus pares. Ele crê que a sua interpretação do Evangelho é a correta, e acusa seus juízes de serem falsos cristãos. A autoridade deles não se aplica mais a Will. Os juízes, por seu turno, o acusam do pecado original do anjo caído: orgulho. Obstinado, Will corta sua ligação e de sua família com o corpo de Cristo configurado pela comunidade cristã a que pertenciam.
Isto é, a série de eventos desastrosos se inicia no orgulho e na divisão, as marcas do diabo (diabolos, διάβολος, "o que divide"). Insidiosamente, ele separa a família da comunidade dos homens por meio da teimosia e da arrogância de seu patriarca que não se submete às determinações teológicas de sua congregação. O primeiro laço de proteção natural de Thomasin é cortado.
Will conduz sua família ao isolamento, constrói sua casa em frente a uma inóspita e sombria floresta. Simbolicamente, o afastamento do corpo de Cristo os conduz à proximidade com o indistinto, com o infrahumano, com o mal. A floresta é símbolo daquilo que resiste à ação da forma e da ordem, é o indomado e o rebelde. A resistência à ordem é exemplificada no filme pela tentativa frustrada de Will de fazer uma plantação de milho no lugar.
Inadvertidamente, Will abriu as portas ao perigo espiritual, e quando seu filho recém-nascido desaparece misteriosa e inexplicavelmente sob os cuidados de Thomasin, começa a paulatina dissolução da família. Thomasin afirma que um lobo levou o bebê, mas ela sabe que isso não é verdade. O véu do sobrenatural recai sobre a menina. A crise e a desconfiança se instalam, e Katherine, a mãe, mergulhada em doloroso luto, manifesta seu rancor contra a filha.
Will, amoroso, tenta não culpar Thomasin e chega a vender um cálice de prata da esposa para comprar uma armadilha contra lobos a fim de capturar o animal que matara seu filho recém-nascido. Ele nada conta à sua esposa da venda, e acaba obrigando seus filhos a sustentar uma mentira. E, dizem as Escrituras, o diabo é o pai da mentira.
O medo e o rancor aumentam quando Katherine ousa expressar seu receio de que estejam todos amaldiçoados por terem abandonado a comunidade religiosa da qual faziam parte. O inverno se aproxima, e a fracassada plantação não sustentará a família. Katherine e Will cogitam entregar Thomasin como criada à alguma família de posses. A menina ouve os planos de seus pais e teme por seu destino. Caleb, o filho mais velho, não quer que a irmã vá embora. Mas ele, também na puberdade, confuso e culpado, sente que dirige olhares impróprios à Thomasin.
O casal caçula de irmãos, Jonas e Mercy, acusam Thomasin de bruxaria por conta do desaparecimento do bebê. Estranhamente, afirmam que sabem disso graças a Black Philip, um enorme bode preto mantido no curral. Mais estranho ainda, o casal de crianças, em seus folguedos, entoa repetidamente uma canção sinistra dizendo que Black Philip é rei do Céu e da Terra e tem uma coroa sobre sua cabeça.
Caleb e Thomasin partem para a floresta, mas o rapaz some e só ela retorna. Os pais se desesperam, e, no meio de uma acalorada discussão, Will admite para a esposa que havia mentido sobre a venda do cálice de prata. A desconfiança e o rancor tomam conta do espírito da mãe, já propensa por natureza a superstições e a radicalismos histéricos, e a separam de vez do marido e da filha.
Surpresa, Thomasin encontra Caleb deitado nu e fraco no chão do estábulo. No dia seguinte, a despeito de todas as orações da família, o jovem morre ao fim de um êxtase horripilante que parece misturar influência demoníaca e fanatismo religioso. A mãe sucumbe à dor, e a família já não mais existe. O casal de caçulas torna a acusar Thomasin de bruxaria. O pai suplica à filha que confesse suas feitiçarias.
Thomasin perdera seu irmão protetor, perdera o amor de sua mãe e agora perdia a confiança de seu pai. Acusada pelas crianças, seu isolamento e seu desamparo são quase perfeitos. Ela acusa a dupla de conversar com Black Philip. Transtornado por tantas desgraças, Will tranca Thomasin e os caçulas no estábulo. O corte definitivo dos laços protetores de Thomasin acontece no dia seguinte.
Ela acorda no estábulo destruído. Os animais estão mortos e seus irmãos desapareceram. Will é atacado e morto por Black Philip. Katherine culpa Thomasin por toda aquela desgraça e avança contra a filha. Na luta que se segue, a jovem acaba matando a própria mãe. Thomasin não só está sozinha, sem família e sem laços, mas também se tornara uma matricida. Qual pecado pode ser mais odioso?
Não há esperança de redenção ou de salvação. Nada mais lhe resta. Deus ocultou a Sua face. Desesperada, Thomasin vai até Black Philip que, na forma de um homem sedutor, promete à moça aquilo que o demônio oferece desde o início dos tempos: "Gostarias de viver de modo deleitoso?"
O que uma jovem puritana poderia desejar a não ser aquilo que lhe fora negado desde sempre? Provar o gosto da manteiga, possuir um belo vestido e conhecer o mundo. Considerados em si mesmos, são pedidos medíocres, ingênuos e de curta imaginação. Porém, simbolizam desejos universais. A manteiga representa o prazer imediato dos sentidos. O belo vestido é a vaidade de ser vista e reconhecida por todos. O conhecimento do mundo é o alargamento dos horizontes, a libertação das limitações geográficas, culturais, religiosas e sociais. Em suma, a saciedade, o sucesso e o mundo.
Thomasin aceita a oferta. O pacto foi firmado. O caminho contra-iniciático alcançou seu termo. Black Philip conduz a moça à densa floresta como um hierofante guia o iniciado aos mistérios, e lá Thomasin participa do Sabbath Negro junto com outras mulheres. O filme se encerra com o êxtase coletivo e orgiástico das bruxas levitando em torno de uma fogueira observadas pelo bode negro. Consummatum est.
The VVitch é a história de uma inexplicável eleição diabólica e do fracasso em resistir ao cerco e ao apelo das tentações. Thomasin, ao fim de um processo de privações materiais e afetivas se lança nos braços daquele que oferece abrigo e delícias. Sem dúvida, a antiga serpente enganadora mentiu, e a vida que espera Thomasin é de natureza sub-humana, como ela própria testemunhou quando viu pela primeira vez uma bruxa se alimentando de um animal.
Thomasin é o oposto do Cristo que é conduzido ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jesus rejeita as ofertas do maligno: a saciedade, o sucesso e o mundo. E, mesmo no abandono do Getsêmani, quando todos os laços protetores são rompidos, ele permanece fiel e obediente a Deus até à solidão final da cruz. "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres". O cálice que Cristo aceitou foi simbolicamente vendido pelo pai de Thomasin.
No Antigo Testamento, Jó, que teve os seus bens terrenos retirados por Satanás sob permissão divina, permanece fiel e temente a Deus em meio a todas as suas vicissitudes. No texto sagrado, a ação diabólica coincide com o teste divino na medida em que ambos são oportunidade para a manifestação da virtude do homem santo. Jó a tudo suporta, e sua justiça resplandece por meio das privações. Afinal, como o próprio demônio aponta, não é fácil ser fiel e agradecido a Deus quando tudo vai bem?
Em The VVitch, não há a clareza do teste divino, somente o contínuo despojamento dos bens terrenos por obra do demônio. Deus é a figura onipresente e, não obstante, a mais ausente no filme. Embora tudo na família seja feito para Deus e em seu nome, as orações, os sacrifícios e as súplicas a Ele dirigidas parecem quedar sem efeito algum. O único lampejo da presença celeste ocorre no êxtase de Caleb, quase indistinto dos frêmitos da alucinação febril.
Em certa inversão ontológica, é Deus que aparece como uma sombra diante do protagonismo do demônio. O corrupto, e não o íntegro, o Não-Ser, e não o Ser, parecem constituir o centro desse mundo sombrio e invertido. O destino de Thomasin e de sua família se desenrola com a inevitabilidade de uma cadeia necessária de eventos. A impressão é a de que, desde o início, tudo concorre para a danação de Thomasin. O horror de The VVitch é o horror da inexplicável eleição diabólica.
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As tentações de Cristo no deserto:
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