quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"Ichimei": as leis da misericórdia e as leis da honra


"Bushido não é objeto somente de ostentação."

TSUGUMO HANSHIRO, pouco antes de morrer.

"Ichimei" (2011), de Takashi Miike, consagrado e prolífico diretor japonês de "Itchi, o Assassino" e "13 Assassinos", é uma refilmagem do clássico "Harakiri" (1962), de Masaki Kobayashi, ambos com roteiro de Yasuhiko Takiguchi. A trama é densa, repleta de simbolismos e de conflitos éticos. Um ronin chamado Tsugumo Hanshiro procura o castelo de Saitō Kageyu, daimyo de uma importante casa guerreira para lhe pedir um favor específico: cometer o seppuku, o suicídio ritual, nos átrios daquela honrada fortaleza.

Hanshiro estivera a serviço de uma casa que fora derrotada e perdera a sua relevância. Como os tempos são de paz durante o longo shogunato Tokugawa, parece não haver mais lugar para a arte marcial dos samurais. Vivendo pobremente, trajando um kimono puído, Hanshiro entende que a única saída honrosa à sua disposição seria cometer suicídio nas dependências de uma casa respeitável.

A princípio, Hanshiro é decentemente recebido e logo conduzido à presença do chefe da casa,  Kageyu. Este o indaga sobre seus motivos, compreende-os, mas indaga o samurai acerca de um certo jovem chamado Chijiiwa Motome. Hanshiro responde que não conhece esse jovem. Kageyu passa a contar a história de Motome. Hanshiro vem a saber por Kageyu que ele não é o primeiro samurai que vem àquela casa solicitar o seppuku. Na verdade, Motome foi o último de muitos que vieram antes dele.

Ocorre que esses samurais em situação penosa de pobreza encontraram uma saída para o seu estado deplorável mediante uma artimanha. Eles entravam em uma casa respeitável, pediam para realizar ali o suicídio ritual, porém sem a real intenção de realizá-lo. Conseguiam assim uma audiência com o daimyo e aproveitavam a oportunidade para solicitar dinheiro a fim de melhorar a sua condição precária.

Ora, Kageyu, sabendo do estratagema, e instigado por seu melhor guerreiro, Omodaka Hikokurō, resolveu usar Motome como exemplo para desencorajar quaisquer outros samurais com as mesmas intenções. Em vez de recebê-lo para uma audiência, Kageyu ordenou que Motome fosse conduzido diretamente ao pátio do suicídio, onde o daimyo e seus guerreiros já o aguardam para assistir ao rito.

Acuado, Motome foi forçado pelas circunstâncias a se suicidar. Contudo, ele havia trazido consigo uma espada com lâmina de madeira, e é esta arma que lhe foi entregue por Omudaka para o seppuku. Motome, desesperado, confessou de pronto que não tinha intenção de realizar o rito, mas sim de pedir dinheiro para curar a sua esposa e o seu filho enfermos.

Diante da humilhação à qual se submetera, Motome tomou a obstinada decisão de se matar com a espada falsa. A cena é angustiante, pois a madeira é completamente inadequada para a tarefa, e o esforço de penetrar a própria carne com a lâmina resulta em enorme dor e sofrimento para Motome. Exercendo a função de kaishakunin, assistente responsável por decapitar aquele que se suicida a fim de lhe poupar sofrimento, o inflexível Omudaka se recusa a pôr fim à dor do jovem Motome. Coube a Kageyu, por fim, desferir o coup de grâce em Motome.

A intenção de Kageyu ao contar esse episódio trágico é óbvia: ele quer desencorajar Hinshiro de tentar usar o estratagema dos samurais depauperados. Para a surpresa do daimyo, ao invés de desistir, Hinshiro reafirma seu intento convictamente. Ato contínuo, ele é conduzido ao mesmo pátio onde Motome morrera, e todos os preparativos necessários são feitos para o seppuku. Prestes a iniciar o rito, Hinshiro pede a Kageyu um último favor. 

Kageyu aquiesce, e Hinshiro solicita que seus kaishakunin sejam os mesmos que assistiram Motome em seu horrendo suicídio: Omodaka e outros dois samurais. O daimyo é informado por seus subordinados que estranhamente os três guerreiros não haviam retornado ao castelo na noite passada. Kageyu ordena que sejam encontrados e trazidos imediatamente ao pátio. Hinshiro pede a palavra e diz que aqueles samurais não serão encontrados. 

Em seguida, revela a Kageyu e a seus pares que, diferentemente do que afirmara antes, ele conhecia sim o jovem Motome. Na verdade, Motome era seu filho adotivo, casado com sua filha e pai de seu neto. O subterfúgio adotado por Motome fora ditado pela necessidade de pagar um médico para salvar a sua mulher e o seu filho, ambos gravemente enfermos. Infelizmente, continua Hinshiro, durante o tempo em que Motome esteve fora de casa fazendo sua tentativa malograda de conseguir dinheiro, a sua esposa e o seu filho morreram. 

A tensão cresce, e Hinshiro retira do interior de seu kimono três topos de chonmage (corte de cabelo dos samurais) que pertenciam aos guerreiros ausentes. Ele afirma que os derrotou em combate, e que estavam escondidos por causa da vergonha e da desonra da derrota. Após ouvirem o relato, os indignados samurais de Kageyu atacam Hinshiro, que enfrenta a todos usando a espada de lâmina de madeira que pertencera ao desafortunado Motome. No fim da luta, Hinshiro derruba a yoroi (armadura) vermelha que ficava exposta no centro da fortaleza, simbolizando os ideais e a honra daquela casa guerreira, e deixa-se matar por seus inimigos.

O centro de "Ichimei" reside no tema clássico do conflito entre uma lei superior de justiça que é percebida por uma consciência individual e os valores e tradições sustentados por uma comunidade. Kageyu tenta a todo custo preservar a honra e a respeitabilidade de sua casa guerreira nos tempos pacíficos do shogunato Tokugawa. No entanto, o próprio daimyo admite que seus subordinados jamais foram testados no campo de batalha e que tudo o que conhecem sobre a arte do combate é meramente teórico.

Essa realidade é plenamente simbolizada pela yoroi vermelha, cotidianamente polida, preservada e exibida com orgulho. Bela, limpa e conservada exteriormente, porém vazia por dentro. Ela é o símbolo de uma tradição já caduca, apegada às aparências, ciosamente mantida como um relicário oco e inanimado que o espírito não mais vivifica. Em nome dessa tradição meramente externa, Kageyu permite que seu subordinado Omudaka, imbuído de ideais marciais que conhecia apenas teoricamente, perpetre uma flagrante injustiça contra Motome. A manutenção da honra aparente sobrepujou a misericórdia.

Note-se também que no filme Kageyu caminha mancando. Simbolicamente, o próprio daimyo não é um exemplo perfeito de samurai. Seu andar é claudicante assim como a sua moral. O defeito físico espelha o defeito moral. Ele hesita entre a misericórdia e o cumprimento ritual da lei. A cegueira de Kageyu permanece até o final, mesmo após Hanshiro lhe contar toda a história de Motome. 

Quando Hinshiro derruba a venerada yoroi rubra, símbolo da observação vazia das leis tradicionais, Kageyu o chama de louco. Hinshiro conhecia bem esse tipo de cegueira, pois ele e o pai de Motome foram expulsos de sua província de origem porque tomaram a iniciativa de recuperar os muros defensivos de um castelo em vez de, como a tradição exigia, aguardar a ordem expressa do Shogun.

O pai de Motome morreu logo depois desse episódio, e Hinshiro foi lançado na pobreza com a sua filha e com o seu filho adotivo. Sustentou sua família fabricando guarda-chuvas. A condição precária o impediu de ajudar a sua filha e o seu neto doentes e impeliu Motome a realizar sua fatídica tentativa de angariar fundos para pagar um médico.

Essencialmente, trata-se de uma mesma situação nos dois casos. Tanto Hinshiro quanto Motome são vítimas da manutenção meramente exterior das leis e dos costumes tradicionais. O que Hinshiro realiza, contudo, não é uma vingança vulgar. Ele não mata ninguém, não exige dente por dente e olho por olho. Hinshiro realiza a verdade do bushido diante de seus adversários. 

Ele encarna o bushido ao enfrentar todos aqueles guerreiros teóricos armados de katana usando somente uma espada de madeira. Hinshiro, um guerreiro de verdade testado no clamor do combate, é o próprio espírito da tradição viva derrubando a armadura vazia e morta. Entretanto, ele diz aos seus adversários que é somente um homem comum querendo viver a sua vida em paz, aguardando a próxima primavera. 

Os três samurais que Hinshiro vencera em combate (Omudaka entre eles), e dos quais arrancara parte do cabelo, agora conhecem verdadeiramente o que significam a desonra e o desamparo da ignomínia. Kageyu, aparentemente, não compreendeu a mensagem. Tempos depois do incidente com Hinshiro, em resposta ao imperador que elogiara o polimento reluzente da yoroi vermelha, Kageyu afirma: "ela é o orgulho de nossa casa".
...
Leia também: 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Avicena e a natureza de Deus

"Aquilo cuja essência (haqiqah) é outra que sua existência (anniyat) não é o Ser necessário. É evidente que em tudo aquilo em que a essência é outra que a existência, esta é algo acidental. (...) A substância é aquilo que tem uma essência, tal como 'corporeidade', 'espiritualidade', 'humanidade', 'cavalidade'. A essência tem a seguinte característica: enquanto sua existência não é realizada  em um sujeito, não podes saber se ela possui a realidade existencial ou não. Tudo aquilo que é assim tem a essência outra que a realidade existencial. Por conseguinte, tudo aquilo cuja essência não é outra que a realidade existencial não é substância."

ABU ALI HUSSAIN IBN SINA (AVICENA), Danesh Nama, Metafísica

Após determinar metafisicamente a existência de Deus a partir das noções de contingência, necessidade e possibilidade (*), o falasifa persa Avicena, em seu Danesh Nama, discute uma importante consequência daquilo que foi demonstrado. Todo ente contingente pode ou não existir concretamente. Contudo, tudo aquilo que existe, possui uma essência (haqiqah) cuja existência (anniyat) pode ou não vir a se concretizar. Por exemplo, a essência do cavalo ("cavalidade") é uma estrutura formal que não exige que haja cavalos no mundo. Seria possível jamais ter havido sequer um cavalo.

Todavia, todo cavalo existente é um exemplar concreto dessa "cavalidade", isto é, é a "cavalidade" singularizada em indivíduos realmente existentes. O cavalo concreto é o exercício da "cavalidade" enquanto ente singular, uma substância, justamente porque nele há essência e uma distinção real entre essa essência e a sua existência concreta. Avicena assinala que a existência é como um acidente para ressaltar essa distinção que se encontra nas substâncias. 

Os entes contingentes apresentam em sua constituição ontológica a distinção entre sua essência e sua existência. A existência concreta e individual não é algo que lhes seja próprio, algo que lhes pertença essencialmente. Nada na "humanidade", tomada como a essência do homem, exige que tal gênero de ente fosse realizado em existências singulares. 

Considerando que a sua realidade existencial não vem essencialmente deles mesmos, os entes contingentes só podem existir na medida em que recebem a existência de uma causa que lhes ocasione o existir concreto. Tomados em si mesmos, diz Avicena, os entes contingentes são como se não existissem. Tomados a partir de suas causas (em particular, de sua Causa Última), eles existem realmente.

Ora, argumenta o filósofo persa, o Ser necessário, a Causa das causas, não pode ter em si mesmo essa distinção entre essência e existência que caracteriza as substâncias contingentes. Ele não é uma essência "à espera" de ser concretizada pela existência. Caso houvesse tal distinção, Deus seria contingente e não necessário, pois sua existência seria obra de uma causa exterior a Ele.

No Ser necessário não há distinção entre essência e existência. Dito de outro modo, sua essência é existência. Existência pura, simples e necessária. Portanto, nenhuma divisão interna lhe é atribuível. Se assim é, então a conclusão inevitável é a de que Deus não é uma substância. Ele não faz parte de nenhuma categoria, pois todas as categorias são acidentais, exteriores à essência, por assim dizer.

"De tudo o que foi dito, assevera o sábio persa, torna-se evidente que o Ser necessário não possui gênero e, por consequência, não possui diferença específica e, logo, não possui definição.Torna-se evidente também que Ele não está em um receptáculo e nem em um sujeito. Então, não tem contrário. Evidentemente, não possui espécie. Portanto é incomparável e não possui semelhante."

O Ser Necessário não cabe nas distinções e determinações próprias dos seres contingentes. Está para além até mesmo da substancialidade, aquilo que nos é mais próximo. Em Deus, a essência é existência, ou seja, é existência par excellence. Nele toda diferença não se diferencia.
...
Leia também:

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Popper, linguagem e argumentação

"A ideia de validade - nomeadamente a validade do argumento ou a crítica - também emana do nível argumentativo ou crítico. E também funciona como ideia reguladora,  mas diz respeito a argumentos e à crítica e não a histórias ou teorias. Contudo, opera de modo totalmente análogo àquele em que a verdade se refere a histórias e teorias. Tal como procuramos avaliar criticamente uma história ou uma teoria, também procedemos assim para apreciar um argumento crítico a favor ou contra uma história ou uma teoria."

KARL POPPER, Knowledge and the Body-Mind Problem 

A linguagem humana reveste-se na epistemologia popperiana de uma importância capital, pois é através dela que torna-se possível o chamado mundo 3 * de teorias, argumentos e problemas tomados em seu conteúdo objetivo. Inspirado na teoria das funções da linguagem de Karl Bühler, Popper afirma que a linguagem tem diversas funções e que algumas delas os seres humanos compartilham com os animais. 

Entretanto, existem duas funções específicas da linguagem humana, uma descritiva e outra argumentativa. Animais e homens compartilham as funções inferiores da linguagem, a função (auto) expressiva e a função comunicativa. Na primeira, os organismos expressam sintomaticamente seus estados fisiológicos como o bocejo de um leão expressa seu estado de sonolência. 

Na segunda, a comunicação ocorre sempre que o movimento expressivo de um indivíduo atua sobre outro na qualidade de sinal libertador da resposta deste último. Por exemplo, o bocejo em companhia contagia os outros e os induz a bocejar ou o rugido do leão induz uma resposta de amedrontamento em seu oponente.

A linguagem humana, apesar de compartilhar essas funções inferiores com a linguagem dos outros organismos, tem ainda, segundo Bühler e Popper, a função superior descritiva. O homem descreve diversos fenômenos, desde estados de coisas até argumentos e teorias de outros homens. É por meio dessa função que emerge a possibilidade de descrições que correspondam ou não aos fatos, ou seja, que sejam ou não verdadeiras. A ideia reguladora que atua aqui é a ideia de verdade. Sendo possível ao homem contar histórias falsas, enganar seus semelhantes, nasceu cedo a necessidade de critérios pelos quais determinar a verdade, a correspondência com os fatos, das descrições alheias.

A partir dessa necessidade nasceu outra função superior (um acréscimo popperiano à teoria de Bühler), a saber, a função argumentativa da linguagem humana. Intimamente ligada às descrições, a função argumentativa é o passo determinante no surgimento do mundo 3. Na argumentação, as descrições, as teorias e hipóteses são avaliadas em seu conteúdo objetivo. A postura crítica se torna possível somente na função argumentativa, onde a ideia de validade dos argumentos surge como ideia reguladora.

Certamente as funções inferiores estão presentes mesmo quando fatos são descritos e argumentos avaliados. Numa palestra não se pode evitar que o palestrante expresse seus estados fisiológicos ou que comunique sentimentos aos ouvintes que liberarão certos tipos de respostas. Contudo, a descrição feita pelo palestrante vai ser avaliada segundo critérios de verdade e de validade, ou seja, segundo um objeto do mundo 3. 

Não se pode rejeitar uma teoria simplesmente porque o seu proponente expressa medo em sua explanação ou seus ouvintes têm sensações de antipatia ao ouvi-lo. O que importa é a verdade da teoria, se ela é uma descrição correta dos fatos que pretende descrever, e se seus argumentos são válidos e convincentes. A linguagem humana, no mundo 3 ultrapassa as linguagens dos animais e torna possível a postura crítica que deve caracterizar a racionalidade. 

É possível, dessa forma, distinguir o conhecimento puramente subjetivo do conhecimento objetivo. O primeiro (subjetivo) constitui-se basicamente de conhecimento disposicional, pois o que queremos dizer quando afirmamos que alguém sabe cálculo diferencial ou sabe o nome da rainha da Inglaterra é que a referida pessoa têm a tendência ou disposição de fazer os cálculos adequadamente quando solicitada ou responder "Elizabeth II" quando questionada.

O conhecimento objetivo, ao contrário, não se liga a disposições e estados mentais de qualquer sujeito. Compõe-se das situações de problemas, das soluções e teorias verdadeiras e falsas, dos argumentos válidos e inválidos considerados segundo seu conteúdo informativo e suas relações lógicas. Ainda que o mundo 3 influencie o mundo 1 através do mundo 2, os produtos da mente humana não dependem de mentes humanas para conservar seu valor epistemológico, pois ainda que ninguém jamais leia a solução de um teorema escrito num livro numa biblioteca, essa solução permanecerá sendo objetivamente válida em suas relações lógicas, e terá consequências não pretendidas por seu proponente.

Popper assevera que, ainda que alguns filósofos neguem o mundo 3 e tentem reduzi-lo ao mundo 2 ou mesmo ao mundo 1, suas teorias e argumentos serão avaliados segundo critérios que não são subjetivos ou físicos, mas segundo as ideias reguladoras de verdade e de validade das funções superiores da linguagem. Assim também acontece com as teorias científicas que são avaliadas intersubjetivamente segundo critérios de conhecimento objetivo. Em suma, a epistemologia deve concentrar-se no valor objetivo das teorias e dos problemas científicos e na discussão crítica dos mesmos segundo valores de verdade e validade.
...
* Sobre os três mundos de Popper, leia: 
Leia também: