
sábado, 5 de dezembro de 2009
Pierre Gassendi e a possibilidade da física

terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Aspectos da tradição monista indiana II - Sankara e o Advaita Vedanta

"Aquele que compreendeu o Supremo, descarta toda identificação com os objetos dos nomes e das formas (namarupa).(...)Não há nada que que não seja Brahman. Se qualquer objeto parece existir, outro que Brahman, é irreal como uma miragem. (...) Tudo que é percebido ou ouvido é Brahman e nada mais. Alcançando o conhecimento da Realidade, se enxerga o universo como Brahman não-dual, Existência-Conhecimento-Beatitude (Saccitananda)." (tradução minha)
SANKARA ACARYA, Atma Bodha, 40-63-64
Sankara Acarya, considerado o maior filósofo ortodoxo hindu, viveu provavelmente no século VIII da era cristã. Na Índia, as correntes heterodoxas, compostas basicamente pelo Jainismo, pelo Sankhya-Yoga e pelo Budismo, são aquelas que não se baseiam nos Vedas e nos livros sagrados da tradição ariana. Sankara Acarya, embora ortodoxo, sofreu, por intermédio de seu mestre Gaudapada Acarya, considerável influência do budismo não-dualista de Nagarjuna Acarya.
Como já dissemos algumas vezes, a discriminação indiana não passa, como muitas vezes aconteceu no ocidente, por uma divisão entre alma e corpo, ou mente e corpo. Tanto os fenômenos mentais e internos quanto os fenômenos corporais externos estão incluídos num mesmo reino. A metafísica indiana essencialmente discrimina entre o mundo de nomes e formas determinadas e finitas (namarupa) e “o que não tem características” (nirguna), o indeterminado.
Nirguna pode ser traduzido como “aquilo sem determinações ou qualidades”. O prefixo nir indica negação e guna é um conceito presente desde os primórdios do pensamento indiano que pode ser entendido como elemento, aspecto, qualidade. Em geral, assume-se que o mundo fenomênico é formado pelos três tipos básicos de gunas: Sattva, Raja e Tamas. O primeiro corresponde à qualidade sutil predominante nos deuses e nos santos. Raja predomina na ignorância e na força que motiva a luta e a ânsia pela sobrevivência. Tamas predomina na cegueira do mundo vegetativo e mineral e na maldade e trevas dos demônios e homens egoístas e cruéis.
Na filosofia pregada por Sankaracarya, o adjetivo nirguna será aplicado a Brahman, a realidade subjacente não-dual e imanifestada que se revela e se esconde em cada manifestação fenomênica. Tudo o que é é Brahman, mas Brahman não é nenhuma das coisas em particular e nem a soma delas. Ele é transcendente no sentido de que nada do que há o esgota e é imanente no sentido de que cada coisa, sem exceção, manifesta-o.
Brahman Nirguna é o substrato de todas as coisas do qual nada se pode dizer, pois a linguagem dual do mundo das formas e dos nomes (namarupa) não é capaz de descrevê-lo. A doutrina de Sankara é chamada de Advaita (não-dual) Vedanta (fim dos Vedas), pois afirma que Brahman Nirguna não é ontologicamente diferente do mundo fenomênico. Ele simplesmente é o barro do qual o vaso é a modificação. É a corda que, por engano e por ilusão (Maya), é vista como uma cobra.
Brahman Nirguna é o real e o divino. Por assim dizer, ele se manifesta se escondendo. Ele se manifesta em cada vaso, mas nenhum vaso o contém totalmente.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Aspectos da tradição monista indiana

É na época dos grandes pensadores e místicos dos Upanisads que a busca pelo conhecimento afastou-se da ciência das fórmulas sacerdotais e dos deuses, sem jamais negá-los, e se orientou para a descoberta da essência última de todo mundo fenomênico, do qual mesmo os deuses fazem parte.
Essa essência se revela não numa pesquisa do mundo externo, mas numa decidida busca introspectiva que leva a ultrapassar o mundo captado pelos sentidos e o mundo sutil da psiquê e da personalidade que constituem o ego e alcança enfim o escopo último de todas as coisas.
Tat tvam asi. “Tu és isso”, ensinam os Upanisads. Tu, e todas as coisas, nada mais são do que modificações passageiras e mutáveis de um princípio universal e eterno, que não é atingido por nenhuma das vicissitudes humanas, cujo mundo fenomênico é sua manifestação. Cada ser que observamos no exterior assim como nosso corpo e nossa realidade psíquica interior são manifestações desse princípio infinito, impessoal e sem atributos chamado Brahman.
Os deuses, os homens, os demônios, os animais, as plantas e os seres inanimados são manifestações desse mesmo princípio. Formas passageiras entrelaçadas no turbilhão mutável de namarupa. Nama pode ser traduzido por “nome” e rupa por “forma”. Namarupa designa assim o mundo dos nomes e das formas, o mundo fenomênico, a manifestação do princípio imanifestado.
Como diz o Brhadaranyaka Upanisad: "Assim como a aranha extrai de si mesma o fio e o recolhe novamente; assim como a erva cresce na terra e os cabelos num homem vivo, assim também o universo cresce a partir do Imperecível."
E o Mundaka Upanisad (2.1.1): "
O mesmo ensinamento é ministrado, em tempos posteriores, no Bhagavad Gita, “O Canto do Senhor” que faz parte do poema épico Mahabharata. Antes de uma grande batalha, o príncipe Arjuna, cuja carruagem se encontra entre os dois exércitos adversários, se questiona sobre a necessidade e a justiça daquela guerra fratricida.
No campo inimigo estão seus parentes próximos e Arjuna, um membro da varna (casta) dos Kshatryas (guerreiros e reis) se deprime diante da perspectiva de matar seus entes queridos. Sendo um guerreiro, seu dharma, seu dever assinalado por seu lugar no mundo, é matar seus parentes usurpadores nessa batalha. Seu auriga, Krshna, é uma manifestação divina e, diante do desânimo de Arjuna e antevendo o descumprimento do dharma pela recusa da ação, revela-lhe a doutrina suprema sobre a realidade.
Ele lhe diz que aqueles parentes contra os quais Arjuna lutará nada mais são do que formas passageiras de um princípio eterno. E o sábio não se incomoda nem pelos vivos nem pelos mortos.
Assim diz Krishna a Arjuna (Gita, 2,18): "Estes corpos do incorporado que é eterno, indestrutível e incognoscível, são ditos terem um fim. Então luta, ó descendente de Bharata!"
O princípio eterno é chamado de Incorporado, pois os corpos são manifestações suas. Porém eles têm um fim, são passageiros, cambiantes e, de um certo ponto de vista, ilusórios. Por isso, não há razão para Arjuna se desesperar. Embora as manifestações cessem, Brahman permanece. Arjuna deve cumprir seu dharma.
Ele vai para a guerra, porém vai iluminado. Vai cumprir o dever que seu lugar no universo exige sem manchar-se pois ele agora sabe a verdade. Sabe que este é o jogo infinito das manifestações de Brahman. Sabe que os aspectos sutis e grossos de si mesmo e das coisas ao seu redor, bem como as alegrias e tristezas, desgraças e júbilos, dor e prazer, doença e saúde, vida e morte são namarupa, o mundo dos nomes e das formas, a manifestação do princípio imanifestado, são Maya.
No ápice da revelação, Krishna declara: “Eu sou a fonte de tudo. De mim tudo emana.” Tudo provém de uma mesma fonte, desde o santo até o assassino. E a tradição metafísica monista indiana se consolida na obra monumental do filósofo e santo Sankara Acarya que, com suas obras filosóficas e seus comentários aos Upanisads e ao Bhagavad Gita, desenvolve metodicamente a doutrina segundo a qual tudo é uma manifestação de Brahman e, em última instância, não é diferente dele.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Renascença e ontologia

sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Alvin Plantinga, ciência e metafísica

"O que é importante, na ciência, não é a ausência de hipóteses se referindo a Deus, ou à metafísica como tal, ou a outras idéias filosóficas, mas sim a ausência de visões e de asserções que nos dividam. Se existem visões metafísicas que todos nós compartilhamos, então não haveria razão, desse ponto de vista, de banir tais visões metafísicas da ciência. (...) Até onde a sugestão de Duhem vai, a ciência pode empregar qualquer proposição ou asserção universal seja ela qual for, mesmo que ela seja de fato uma peça de metafísica ou de teologia. Talvez seja metafísica acreditar que realmente haja existido um passado, ou que existem realmente objetos materiais independentemente do pensamento humano. Se essas são asserções que todos ou quase todos fazemos, então nessa perspectiva, elas podem ser incluídas na ciência."(tradução minha do original em inglês)
ALVIN PLANTINGA, Methodological Naturalism?
Os pressupostos metafísicos determinam nossa relação com os fenômenos da experiência, informando toda e qualquer atividade cognitiva posterior. Se isso é assim, pressupostos metafísicos diferentes darão origem a metodologias e teorias diferentes entre si.
Um pesquisador que aceita um conjunto C de pressupostos metafísicos poderá trabalhar junto, numa mesma pesquisa, a um outro pesquisador que aceita um conjunto P de pressupostos diferentes ?
Para lidar com essa questão, o filósofo americano Alvin Plantinga desenvolveu os conceitos de “ciência duhemiana” e de “ciência augustiniana”, em parte reinterpretando as idéias desenvolvidas pelo físico e filósofo francês do início do séc. XX Pierre Duhem a respeito das relações entre ciência e metafísica. Segundo ele, Duhem afirma que toda explicação implica em asserções acerca da constituição última do fenômeno a ser explicado.
Um newtoniano conceberá a natureza do movimento, por exemplo, de forma diversa de um cartesiano que, por sua vez, terá conceitos diversos dos de um aristotélico. As diferenças aqui serão metafísicas. E se essas diferenças são importantes, então a física será subordinada à metafísica.
Segundo Duhem, “se a física teórica é subordinada à metafísica, as divisões separando os diversos sistemas metafísicos vão se estender ao domínio da física. Uma teoria física aceita como satisfatória pelos seguidores de uma escola metafísica vai ser rejeitada pelos partidários de outra.”
Ora, em posts anteriores já mostramos o cerne das idéias de Duhem sobre a teoria física a qual não será uma teoria acerca da natureza última dos fenômenos físicos, mas uma descrição matemática do comportamento observável das magnitudes físicas.
Inspirando-se nessa concepção e reinterpretando-a, Plantinga defenderá a idéia de uma atividade científica que se caracterizaria pelo uso exclusivo de pressupostos metafísicos aceitos de forma consensual e pragmática por todos os participantes de um campo de pesquisa científica.
Plantinga assevera que essa perspectiva, batizada por ele de "ciência duhemiana" envolve um certo “naturalismo metodológico” assim definido: “A doutrina filosófica do naturalismo metodológico sustenta que, para todo estudo sobre o mundo que se classifique como científico, não se deve fazer referência à atividade criadora de Deus (ou qualquer tipo de atividade divina).”
Ainda segundo Plantinga, o “naturalismo metodológico” é apenas a menor parte de uma atividade muito mais inclusiva. Se hipóteses sobre Deus não são usadas, também não são permitidas, por exemplo, hipóteses que tomem por necessária a verdade do naturalismo metafísico, segundo o qual nada há no mundo que tenha sido obra da atividade divina.
O naturalismo da “ciência duhemiana” é somente metodológico, tem cunho somente prático, instrumental e pragmático. Talvez então, Plantinga sugere, devêssemos chamá-lo de “methodological neutralism” ou de “metaphysical neutralism”.
Entendido nesses termos, o “naturalismo metodológico” não endossaria a posição metafísica chamada de teísmo nem a versão metafísica do naturalismo ou do materialismo. A “ciência duhemiana” seria, assim, uma atividade amplamente inclusiva baseada em pressupostos obtidos através de um consenso de cunho pragmático.
Então, Plantinga afirma, todos poderiam trabalhar juntos na “ciência duhemiana”. Entretanto, cada um dos grupos envolvidos – naturalistas e teístas, por exemplo (e outros também) – poderiam por sua vez incorporar a “ciência duhemiana” a um contexto mais amplo que inclui os princípios metafísicos e religiosos específicos de cada grupo. Chame essa ciência mais ampla de “ciência augustiniana”.
A “ciência augustiniana” é referência ao filósofo e teólogo da virada dos séculos IV/V, Agostinho de Hipona, responsável por uma robusta tentativa sistemática de harmonização da fé cristã com princípios da filosofia grega.
Plantinga admite que a motivação para fazer essa “ciência augustiniana” vai variar muito de área à área. Ela seria particularmente útil, segundo ele, nas ciências humanas e não tão útil na física e na química.
Respondendo então à pergunta se a comunidade científica cristã deve ou não observar os limites impostos pela “ciência duhemiana”, Plantinga responde: “Sim, é claro. Naquelas áreas onde a ‘ciência duhemiana’ é possível e valiosa.
Mas nada aqui sugere que a comunidade científica cristã não deva também se engajar em uma ‘ciência augustiniana’ onde isso for relevante. Não há nada aqui para sugerir que se não for duhemiana, não é ciência.”
Assim, para Plantinga, nada há de errado, numa perspectiva de “ciência augustiniana”, em um cientista cristão que use “tudo o que ele sabe sobre Deus e o homem por via da Revelação divina” na construção de teorias científicas.
Aqui de novo, a questão é de premissas e pressupostos metafísicos muito gerais, que vão determinar que tipo de teorias serão adequadas para lidar com os fenômenos daquilo que (parcialmente à luz desses mesmos pressupostos) se considera real.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Aristóteles, Hume e conhecimento empírico

sexta-feira, 16 de outubro de 2009
São Justino, filosofia e Revelação
domingo, 4 de outubro de 2009
Martin Lings e a hierarquia dos saberes

segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Aristóteles e Descartes: lugar, finalidade e física

sábado, 19 de setembro de 2009
Galileu, Barberini e a verdade das teorias astronômicas

quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Kepler, Brahe e o critério das teorias astronômicas

quarta-feira, 2 de setembro de 2009
"Nostalghia" de Andrei Tarkovsky

sábado, 29 de agosto de 2009
Dostoievski profeta

domingo, 23 de agosto de 2009
Guénon e a ciência moderna

terça-feira, 18 de agosto de 2009
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009
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quinta-feira, 30 de julho de 2009
George Berkeley: Física e o movimento

domingo, 26 de julho de 2009
Aristóteles, Sankara e a natureza de um vaso de barro


sexta-feira, 24 de julho de 2009
René Guénon, Gnose e Vedanta

sábado, 18 de julho de 2009
Nirguna

