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sábado, 15 de abril de 2017

"Samurai Assassin", tragédia, ambição e convenções sociais

Samurai Assassin (1965), dirigido por Kihachi Okamoto, apresenta uma história de fundo histórico com contornos trágicos. Em 1860, pouco antes da Restauração Meiji, um grupo de conspiradores reúne-se em frente à saída do portão Sakurada do castelo Edo. Seu objetivo é assassinar Ii Naosuke, daimyo de Hikone, braço direito do shogunato Tokugawa. O motivo da conspiração é a insatisfação com a escolha do Shogun, influenciada por Naosuke e a posterior Purga de Ansei, ordenada por ele para calar os descontentes.

Sabendo dos hábitos de Naosuke, os conspiradores aguardam por sua saída para atacá-lo em uma emboscada. Naosuke, entretanto, não sai do castelo Endo e a frustração do plano dos conspiradores desperta em seus líderes, em especial Kenmotsu Hoshino, a desconfiança de que há traidores entre eles. Uma investigação é iniciada e as suspeitas recaem sobre dois forasteiros, Tsuruchyio Niiro e Einosuke Kurihara.

Hoshino, líder dos conspiradores, deseja saber os motivos dos dois suspeitos para juntarem-se à conspiração. Tsuruchyio Niiro (interpretado pelo grande Toshiro Mifune) é um ronin pobre e inclinado aos excessos da bebida e das mulheres. Aparentemente, seu motivo é o anseio de conquistar uma posição como samurai. Einosuke Kurihara é um ex-servo de um importante daimyo que largou tudo para dedicar-se somente aos estudos e à arte da espada. Sua motivação parece vir de uma certa visão universalista do bem-estar humano haurida na leitura de filósofos ocidentais.

Os dois tornaram-se bons amigos após um combate de kendo, onde mostraram-se tão habilidosos um contra o outro que ambos reconheceram o empate e a equivalência de seus talentos na esgrima. Embora amigos, eles têm vidas bem diferentes. Einosuke vive bem, é abastado e casado com uma mulher de posição, enquanto Niiro é paupérrimo e vive de pequenos serviços.

Niiro, no entanto, sem o saber, é filho bastardo de um nobre importante e sua mãe recusa-se a revelar a sua identidade. Seu único contato com seu passado, após a morte de sua mãe cinco anos antes, é um comerciante, Masagoro Kisoya, que pagou seus estudos e que, eventualmente, paga seus excessos. Kisoya sabe a identidade do pai de Niiro, mas prometera à mãe jamais revelá-la.

Mais à frente, descobre-se o motivo pelo qual Niiro tornou-se um "cão vadio", como ele mesmo afirma, e o motivo de desejar tanto ser um samurai a ponto de juntar-se à uma conspiração de assassinato. Quando jovem, Niiro apaixonou-se por uma moça de alta estirpe e pediu-a em casamento. O pai, contudo, recusou-lhe a mão, pois Niiro não era de família nobre, mas sim um bastardo filho de uma concubina. Ele só daria a mão da filha se Niiro pudesse provar a ascendência nobre de seu pai.

Kisoya e a mãe de Niiro recusam-se a revelar-lhe a identidade de seu pai, destruindo assim as suas possibilidades de casamento. Niiro, amargurado e revoltado, entrega-se aos excessos da bebida e das mulheres e, como resultado de seu comportamento descontrolado, é expulso do dojo onde praticava kendo. Decide, então, tornar-se um ronin. 

Depois de tantos anos de pobreza e de descaminhos, Niiro quer, de novo, ser um samurai. A conspiração de Hoshino é sua grande chance. Mas o preço a pagar será alto. Uma ligação fortuita de seu amigo Kurihara com alguém próximo ao daimyo Ii Naosuke, lança sobre Kurihara a certeza de que ele é o traidor. Hoshino, então, ordena a Niiro que o mate, já que ele é o único que pode equiparar-se a Kurihara em habilidade no uso da espada.

Niiro, mesmo sabendo que Kurihara é seu amigo e que sempre o tratou com estima e deferência, deixa seu desejo de ser samurai falar mais alto que a amizade e embosca Kurihara, matando-o. No entanto, para sua desgraça, logo depois, Hoshino encontra o verdadeiro traidor, mata-o e queima todos os registros de sua participação no grupo. Kurihara, afinal, era inocente e Niiro matara injustamente seu único e verdadeiro amigo por nada.

Os planos dos conspiradores seguem e Hoshino, um dia antes da data marcada da nova tentativa de assassinato de Ii Naosuke, envia homens para assassinar Niiro. Este, contudo, mata todos eles e segue para o locar combinado. Kisoya, o mercador amigo da mãe de Niiro fica sabendo indiretamente da participação de Niiro na conspiração e, desesperado, procura-o para impedí-lo.

O desespero de Kisoya justifica-se. Niiro não sabe, mas é o filho bastardo de Ii Naosuke, o alvo dos conspiradores. Sem querer, ele cometerá parricídio. Kisoya não consegue encontrar Niiro e este parte célere para o local combinado com o resto dos conspiradores.

Enfim, na hora marcada, Ii Naosuke sai do castelo Endo com sua comitiva. Os conspiradores os atacam. Após luta renhida, Niiro consegue alcançar Ii Naosuke e o decapita. Niiro não sabe, mas Hoshino também queimou todos os seus registros no grupo, de modo que ninguém saberá do seu feito e nenhum posto de samurai ser-lhe-á concedido.

E mais. Como Ii Naosuke prevê em seus últimos instantes de vida, aquele assassinato enfraquecerá o shogunato e dará um fim a era dos samurais. Ignorante de tudo isso, Niike segue na neve exibindo a cabeça de Ii Naosuke fincada em sua espada.

A história de Niiro tem alguns traços da tragédia de Édipo, pois ele mata seu pai sem o saber, apesar de não casar com a própria mãe, como no mito grego. Todavia, Ii Naosuke não assume seu filho, abandona-o, afasta-o, entrega-o a outros e, por fim, considera que ele está morto. Mas as Moiras fazem com que o filho acabe participando do assassínio de seu próprio pai.

Em alguma medida, está em ação uma justiça trágica, já que o rejeitado ataca o coração da autoridade temporal que sustenta todas as convenções que o condenam à sua vida miserável. Mas isso não acontece pela ação consciente do rejeitado contra a autoridade, tomada deliberadamente como alvo de sua revolta. Isso acontece como consequência do pecado pessoal, da ação injusta da autoridade que resulta em um castigo acidental.

Niiro, contudo, não é exatamente a vítima inocente das injustiças da comunidade humana. Ele escolhe tornar-se um ronin e abandonar-se aos vícios. E, quando a oportunidade aparece, Niiro não se furta a matar seu único amigo verdadeiro a fim de tornar-se um samurai. Ele escolhe cometer injustiças em nome da ambição e da posição social. Embora, em certo sentido, seja inocente da morte do pai, ele não o é da morte de Kurihara.

Há algo de ingênuo e até mesmo de imaturo em Niiro. É o beberrão que, com suas extravagâncias, foge das convenções sociais. É também o homem que, sóbrio, é capaz de matar para mantê-las e beneficiar-se delas. Confusão e contradição encontram-se nos atos de Niiro.

Se, em suas últimas palavras, Ii Naosuke tinha razão em afirmar que seu assassinato teria como efeito não o fortalecimento, mas o fim do shogunato, então, simbolicamente, os atos, as motivações e as personalidades de Niiro e dos conspiradores representam as forças desagregadoras que moviam-se no interior daquela instituição e que a conduziram à queda. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Samurai Rebellion: virtude, valores e revolta

Toshiro Mifune e Tetsuya Nakadai

"O que é um homem revoltado? É, antes de tudo, um homem que diz não. Mas, se ele nega, ele não renuncia. É também um homem que diz sim. Entremos no detalhe do movimento da revolta. Um funcionário que recebeu ordens toda a sua vida julga, subitamente, inaceitável uma nova ordem. Ele se levanta e diz não. O que significa esse não? Ele significa, por exemplo: 'as coisas foram longe o suficiente', 'há limites que não podem ser ultrapassados', ou ainda, 'você foi longe demais'. Em suma, esse 'não' afirma a existência de um limite."

ALBERT CAMUS, L'Homme Revolté, p.26

Na história espiritual humana, há momentos cruciais em que os valores centrais acalentados e partilhados pelos membros de uma comunidade são confrontados com valores superiores apreendidos por figuras solitárias que, por essa razão, tornam-se pedra de tropeço e centro de um conflito moral inelutável. Como tais valores superiores demandam obediência por sua autoridade intrínseca, e como a comunidade ainda não alçou-se ao nível de sua compreensão e de sua aceitação, aquele que os capta em sua consciência encontra-se no centro de um drama no qual a única parte que lhe cabe é a fidelidade à ordenação superior, ainda que a preço de sua vida e as de seus queridos.

Esse conflito é o tema de Joi-uchi: Hairyo tsuma shimatsu (Samurai Rebellion, em inglês) filme jidaigeki do ano de 1967, dirigido por Masaki Kobayashi, tendo como protagonista o grande Toshiro Mifune e, como coadjuvante, o igualmente grande Tetsuya Nakadai. Na trama, Isaburo Sasahara (Mifune) é um samurai veterano que serviu fielmente ao daimyo do clã Aizu e que pede para ser substituído em suas funções pelo filho mais velho, Yogoro.

Isaburo, originalmente de uma família samurai de baixa extração, ingressou na prestigiosa família Sasahara através de um casamento arranjado, infeliz e sem amor. Pouco tempo depois de seu filho substituí-lo na liderança de sua casa e nas suas antigas funções junto ao daimyo, Isaburo recebe a visita de um oficial superior do clã que vem apresentar-lhe uma proposta.

Ichi, a ex-concubina do daimyo, mesmo sendo mãe de um de seus filhos, cai em desgraça e, para livrar-se dela e evitar escândalos, ele resolve honrá-la casando-a com Yogoro, filho de Isaburo. A proposta é uma honra para a família Sasahara, mas também, ou principalmente, uma ordem direta que não pode ser descumprida.

Após uma pequena hesitação, Yogoro casa-se com Ichi e dessa união forçada nasce não somente uma filha, Tomi, mas, surpreendentemente, também amor verdadeiro entre os dois cônjuges. Dois anos após a união, contudo, o primeiro herdeiro do daimyo falece e a este só resta como herdeiro o filho que Ichi lhe dera. O daimyo exige que Ichi retorne ao castelo do clã Aizu para cuidar do seu filho e reassumir seu posto junto a ele.

Yogoro recusa-se a devolver Ichi e esta recusa-se a retornar ao castelo do daimyo, mesmo diante da forte pressão familiar que acusa a ambos de negligência com relação à honra e ao futuro dos Sasahara. O único que apoia o casal enamorado é o veterano Isaburo, pois percebe claramente a crueldade da ordem e a tirania do daimyo.

O conflito está posto entre a lealdade ao clã e à família de um lado e o amor conjugal ameaçado pelo arbítrio tirânico do governante do outro. Aceitar um mandatário que cria e que destrói laços matrimoniais entre seus servos de acordo com seu capricho ou sua conveniência é um jugo indigno e insuportável. Não parece admissível, no entanto, que interesses pessoais sobreponham-se aos interesses coletivos de uma família ou de um clã.

Auxiliado por um estratagema, o daimyo consegue ludibriar Ichi e trazê-la para o seu castelo. A situação parece resolvida. Isaburo e Yogoro estão irredutíveis, contudo, e, insolentemente, exigem a devolução de Ichi. Por meio de mensageiros, o daimyo exige que ambos realizem o seppuku. Isaburo dispensa seus servos, envia sua esposa e seu filho mais novo para a residência de parentes e prepara sua casa para a batalha junto com Yogoro.

O mordomo do daimyo, escoltado por uma tropa de homens do clã Aizu, segue para a casa de Isaburo trazendo consigo Ichi. Ele exige que ela renuncie a seu casamento com Yogoro. Ichi, contudo, recusa-se e, em seguida, suicida-se com a lança de um dos guardas. Yogoro corre na sua direção e é morto pela escolta do mordomo.

A luta começa e Isaburo, o melhor espadachim do clã Aizu, massacra os guardas e mata o mordomo. Em seguida, após enterrar o filho e a nora, toma sua neta consigo e parte decidido a denunciar a crueldade do daimyo ao shogun em Edo.

Entretanto, para que isso aconteça, Isaburo tem de atravessar a fronteira guardada por seu bom amigo Tatewaki Asano (Tetsuya Nakadai). Apesar de sua amizade, Asano deve enfrentar Isaburo e impedir sua passagem pela fronteira. A honra samurai o exige. Isaburo pede a Asano que cuide de Tomi, caso morra no combate. Eles lutam e, ao final, Isaburo sai vencedor.

Incapazes de vencer Isaburo em um combate com katanas, os homens do daimyo, traiçoeiramente escondidos no meio da vegetação, o alvejam com suas carabinas. Isaburo mata vários deles, mas, ao final, é também morto. Tomi, por sua vez, é levada embora pela esposa de um membro do clã.

Em sua rebelião e sua insolência, é Isaburo que realiza concretamente as virtudes dos samurais e não os seus representantes oficiais, totalmente apegados a exterioridades solenes ou, pior ainda, corrompidos pela posição de poder que ocupam. E Isaburo exemplifica tais virtudes porque reconhece uma hierarquia de valores mais profunda que escapa aos outros membros daquela comunidade.

Isso não significa que os valores da comunidade sejam errôneos ou que devam ser abandonados em sua totalidade. Significa somente que é preciso compreender como aplicá-los às condições específicas. A revolta de Isaburo em obedecer ao desejo do seu senhor é, como dizia Camus, é a percepção de um limite objetivo e intransponível nas relações entre os homens.

Como em diversos filmes do estilo jidaigeki (Harakiri, Ichimei, 13 Assassins, Yojimbo, Sanjuro, entre outros), são os proscritos, os rebeldes ou os insolentes que incorporam realmente as virtudes características do Budô. Toda a comunidade está cega pelo cumprimento desencarnado das tradições e dos costumes, mas samurais como Isaburo demonstram com suas ações o significado da ordenação correta da realidade.

terça-feira, 7 de junho de 2016

"Ame Agaru" e a inadequação da virtude

"E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma só ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não há de lançar mão dela, e tirá-la?" (Mateus 12,11)

Ame Agaru ("Após a Chuva"-1999), roteiro de Akira Kurosawa e filmado após sua morte, conta uma história simples: um ronin, Ihei Misawa, e sua esposa são detidos em uma hospedaria por uma forte chuva que tornou impossível a travessia de um rio no caminho de sua viagem. A hospedaria é simples, pobre e habitada por gente de baixa extração social.

Vendo a pobreza do lugar, Misawa organiza um grande banquete a fim de alegrar seus habitantes. Como não tem renda e nem emprego, dedica-se a lutar por dinheiro. Sua esposa, no entanto, o obrigou a prometer nunca mais arriscar-se nesses duelos. 

Certo dia, o tempo já melhorado, sai sozinho para passear e treinar na floresta e, inadvertidamente, vê-se diante de um duelo entre jovens samurais de um chefe local. Habilmente, ele interfere na luta e desarma os oponentes. Nesse ínterim, é visto pelo chefe local, o Senhor Nagai Izuminokami Shigeaki.

Impressionado com sua destreza, Shigeaki convida Misawa para ser seu mestre-de-armas. Este reluta, pois nunca conseguira firmar-se no serviço de nenhum senhor. Por fim, Misawa vai ao castelo de Shigeaki, onde é muito bem recebido e reverenciado. 

Não obstante, quando Shigeaki anuncia seus planos para Misawa, seus outros servidores exigem uma demonstração pública do talento de Misawa como espadachim, pois essa era a tradição. Contrariado, Shigeaki aceita a exigência. Ocorre que o ronin facilmente derrota dois dos espadachins de Shigeaki no combate com bokutos (espadas de madeira).

Como ninguém se apresentasse para duelar com Misawa, o próprio Shigeaki tomou uma lança de verdade e foi ao encontro de Misawa. Este, contudo, no afã do combate, derruba Shigeaki na água na frente de todos os deus subordinados. Misawa pede sinceras desculpas, não obtendo mais do que aumentar a raiva de Shigeaki que se ofende com a bondade e a gentileza do ronin.

Desolado, Misawa volta para a hospedaria sabendo que estragara tudo de novo. No caminho de volta, um grupo de subordinados de Shigeaki, ofendidos com Misawa, tentam matá-lo. Este os adverte que não prossigam com seu intento, pois ele  facilmente se deixava levar pelo impulso violento do combate e pedia o controle.

Eles não lhe dão ouvidos e são facilmente derrotados e feridos, sendo um deles morto pela espada de um de seus próprios companheiros. Nesse momento, Misawa sabe que seu destino está selado. Ele não será mais mestre-de-armas do castelo de Shigeaki.

Nesse ínterim, o tempo firma-se e o rio volta a seu volume normal. Misawa e sua esposa preparam-se para partir. O ronin ainda acalenta alguma esperança de ser contratado, mas logo ela é desfeita pela chegada de subordinados do chefe Shigeaki que o informam que, a despeito de seus grandes e evidentes talento e habilidade, ele não será chefe-de-armas porque dedicou-se a combates por dinheiro, algo desonroso.

A esposa de Misawa intervém e defende o marido dizendo que o único motivo pelo qual ele deedicava-se a esses combates era o desejo de ajudar as pessoas. O que importa não é o que se faz, mas razão pela qual se faz algo. Se assim Misawa ajuda os miseráveis e os desamparados, por qual razão as convenções devem ser seguidas?

Esse é o cerne de Ame Agaru. O costume pode obnubilar a visão, impedir que se reconheça que há uma lei mais profunda que os costumes externos da comunidade e à qual a alma humana deve obedecer, ainda que sob o preço da desonra e do desprezo públicos.

É porque Misawa é bom que ele é malsucedido socialmente. Enquanto os outros guiam-se por tradições caducas que não refletem ou enobrecem o espírito, Misawa busca a vida virtuosa que se esconde por trás dos atos aparentemente escandalosos ou desonrosos. A virtude não está no cumprimento cego de normas externas vazias e sim na ordenação da alma segundo valores inegociáveis que transcendem os passageiros acordos e convenções humanas.

A virtude de Misawa é interpretada como arrogância pelo senhor Shigeaki. Este sente-se ofendido menos pela derrota no combate do que pela preocupação e gentileza demonstradas por Misawa após sua vitória. A pretensa humilhação pública é seu único horizonte moral. Ele não consegue enxergar que ali em Misawa manifesta-se bondade e respeito legítimos e não a mera adulação exterior de seus subordinados.

Em sua juventude, Misawa, levado pela ambição de chegar a Edo, viajara aplicando um golpe em diversos dojos por onde passara. Ele entrava no dojo e, sem nenhum desejo sincero de vencer, desafiava o sensei para um combate. Antes que o adversário pudesse desferir o primeiro golpe, Misawa rendia-se dizendo-se derrotado. O sensei,então, ficava favoravelmente inclinado com relação a Misawa e o chamava à sua mesa e, por vezes, dava-lhe dinheiro.

Certa vez, contudo, diante de um grande mestre espadachim, Tsuji Gettan, Misawa estava prestes a render-se, como de costume, quando foi surpreendido pela rendição de seu nobre adversário. Este explicou a Misawa que, mesmo tendo lutado com muitos espadachins, não soubera o que fazer diante de alguém tão calmo e sem nenhum sinal de desejo de vencer.

Tsuji Gettan toma Misawa como discípulo e ensina-lhe tudo o que sabe. Está aí a origem de sua técnica imbatível. Misawa torna-se servo de um senhor, mas nada dá certo e ele volta à estrada. o mesmo acontece com mais dois senhores posteriormente. Misawa parece não servir para nada, como ele mesmo confessa.

Apesar disso, Misawa encontra um bom uso para suas habilidades. Elas servem aos pobres e necessitados. Ele não ambiciona vencer combates e duelos. Na verdade, Misawa não se encaixa em nenhuma das expectativas daqueles que o cercam. Mesmo sua gentileza parece deslocada e exagerada.

O rio caudaloso que interrompe a viagem de Misawa e de sua esposa representa o fluxo incessante dos assuntos mundanos que, por vezes, impedem a passagem e o seguimento do caminho verdadeiro. É um obstáculo acompanhado de uma forte tentação pela mundanidade e pelo sucesso exterior. É um nó que deve ser desatado por uma iluminação interior.

Essa iluminação se dá na figura da esposa de Misawa que, diante dos emissários de Shigeaki, ainda na hospedaria, finalmente compreende os motivos do esposo para continuar a duelar por dinheiro a despeito de sua promessa de não fazê-lo. Tendo compreendido, a esposa libera-o de seu juramento e diz a ele para duelar sempre que for preciso, se for para ajudar os pobres e os necessitados.

Misawa e sua esposa só podem atravessar o rio quando conformam-se com sua condição e compreendem as implicações da opção pela bondade e pelo caminho verdadeiro. A estrada agora está aberta e a recompensa não tardará.

Informado por seus servos dos reais motivos dos duelos por dinheiro de Misawa, Shigeaki percebe seu erro de julgamento e parte ao encalço de Misawa. Este e a esposa, porém, já estavam fora do alcance de Shigeaki. O homem cego pelos costumes não alcança o homem da virtude.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

"Trono Manchado de Sangue": ambição, usurpação e o triunfo do mal

"Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas." (Lucas 22:53)

O par homem/mulher simboliza tradicionalmente a pessoa tomada enquanto unidade substancial, como uma inteireza que unifica e dá sentido às potências distintas, porém não separadas, da alma humana. A mulher representa a parte nutritiva e apetitiva, ao passo que o homem representa a parte intelectiva. A ordenação homem/mulher reflete a hierarquia das potências humanas: o intelecto governando a escolha dos bens apetecíveis.

No Éden, Adão é tentado não pela serpente, mas sim por Eva. Ao aceitar a oferta do fruto proibido vinda da serpente, Eva simboliza o apetite humano que se inclina àquilo que considera um bem. O fruto é símbolo de um bem correspondente àquela porção mais básica e menos racional da alma. Não à toa, a serpente é tentadora. É a animalidade que dita a dinâmica dos atos. A mulher, a parte apetitiva, se rebaixa ao nível do animal por haver seguido o desejo por bens tão pedestres.

Contudo, tomados em si mesmos, os bens mais pedestres não são maus. Tornam-se maus somente quando usurpam o lugar dos bens superiores. É o que acontece quando Adão aceita o fruto proibido oferecido por Eva. O princípio intelectivo da alma não mantém a ordenação sadia das potências, mas abaixa-se para provar do bem imediato e pedestre, esquecendo do Sumo Bem (Summum Bonum).

A proibição divina manifesta a hierarquia das coisas. A árvore no Éden, o centro do mundo, ascende simbolicamente como uma escada aos céus. Quando escolhe seus frutos e não seu Criador, o homem prefere os bens pedestres em vez do único Bem verdadeiro. Em razão disso, o homem passa a conhecer a dualidade do bem e do mal. O homem perfeitamente ordenado não conhece o mal porque tudo nele é bom. O mal só aparece no recuo do bem.

O equilíbrio perdido é dificilmente recuperável, e o destino dos seres humanos é a vida no exílio do Éden, fora da perfeição harmoniosa de sua natureza original, porém sempre anelando pelo dia feliz do retorno. Cada homem, então, é um Éden desfeito, tendo em si um Adão e uma Eva desterrados, ansiosos pelo hieros gamos (ἱερός γάμος), o matrimônio sagrado, a conjugação perfeita de suas potências complementares.

O centro do horizonte simbólico de “Kumonosu-jo” (“Trono Manchado de Sangue”), de 1957, filme clássico do grande diretor japonês Akira Kurosawa, encontra-se no casal formado por Lorde Washizu e Lady Asaji que cede ao desejo do fruto proibido que resulta na desventura da Queda. Baseado na tragédia “Macbeth”, de William Shakespeare, a trama sombria do filme segue as linhas gerais da peça clássica do bardo inglês.

Taketoki Washizu (Macbeth), interpretado pelo fantástico Toshiro Mifune, é um guerreiro corajoso e leal que conduz os exércitos de seu daimyo Kuniharu Tsuzuki (rei Duncan) à vitória sobre seus inimigos, revertendo graças à sua audácia uma derrota quase certa. Ao final da batalha, Washizu parte com seu fiel companheiro de armas Yoshiteru Miki para se reunir com o seu senhor.

No caminho, ambos são surpreendidos por uma tempestade e, perdidos, acabam encontrando uma choupana onde uma velha fiandeira os recebe com saudações as mais surpreendentes. A Washizu ela diz que ele será senhor do Castelo do Norte e, depois, senhor do Castelo da Teia de Aranha, onde agora reside seu daimyo Kuniharu Tsuzuki. A Miki a anciã declara que ele será senhor do Primeiro Castelo, e que seu filho será posteriormente o dono do Castelo da Teia de Aranha.

Ao ser ameaçada por Washizu, a velha desaparece tal qual um fantasma (yūrei). Os guerreiros retomam seu caminho pensativos. Chegando ao castelo, são calorosamente recebidos pelo daimyo. Como recompensa, Tsuzuki nomeia Washizu senhor do Castelo do Norte e Miki o mestre do Primeiro Castelo. Ambos se dão conta que a velha misteriosa havia dito a verdade.

A velha fiandeira que prediz o futuro é uma referência às três Moirai (Lachesis, Athropos e Clotho), deusas que fiavam, mediam e cortavam o fio da vida humana na mitologia grega. Elas tecem o destino dos mortais do início ao fim. Nas palavras da anciã, como ficará claro adiante, habita a ambiguidade tradicional das profecias: o que é predito se realiza de uma forma inesperada, frustrando as expectativas e as interpretações daqueles sobre os quais elas versam.

As profecias da velha espectral põem em movimento a roda dos acontecimentos funestos apresentados na trama. No entanto, é ela a causa das desgraças de Washizu? O conhecimento das predições o condenaria a usar todos os meios à sua disposição para realizá-las? Sem dúvida, Washizu já trazia em seu íntimo o desejo de se tornar daimyo. Não poderia ser diferente em se tratando de um guerreiro. Mesmo assim, do desejo ao crime há um grande abismo. Ainda mais se o caminho que conduz ao trono exige a quebra das leis sagradas da lealdade e da hospitalidade.

Nada obriga Washizu a cometer o horrendo crime de matar seu senhor. Ele foi honrado por Tsuzuki com bens largamente condizentes com a sua bravura na guerra. Nada lhe foi tirado. Não existe um Agamemnon para acender a fúria de Aquiles. Nenhum motivo justifica um assassinato covarde que Washizu cometerá em breve. A anciã etérea deu voz ao desejo íntimo do coração de Washizu. Ela, de certa forma, agiu como a serpente que explicitou o desejo tácito do casal edênico. Toda tentação toca em alguma disposição apetitiva já presente no tentado. Washizu quer ser o senhor do Castelo da Teia de Aranha.

Mas nada disso obriga que Tsuzuki deva ser morto. Eis o ponto crucial da tragédia. É aqui que Washizu mostra seu verdadeiro caráter. Sua reação a dois componentes novos na situação determina tanto os rumos da trama quanto o destino de sua alma. Em primeiro lugar, uma oportunidade se apresenta fortuitamente. Tsuzuki, em viagem, vai se hospedar no castelo de Washizu. O guerreiro logo compreende que pode chegar ao trono simplesmente matando seu daimyo durante a noite. Mas ele tem consciência clara da gravidade de tal ato. Hesita.

Então, entra o segundo componente: as palavras de incentivo de sua esposa Lady Asaji. A mulher cobra do marido uma atitude de "verdadeiro homem", insinua que ele é covarde, apresenta todo o esquema do assassinato, o humilha com seu desprezo, instila a desconfiança contra Tsuzuki e alimenta a sua ambição. Washizu, fraco, cede. Lady Asaji usurpou o seu lugar, e Washizu capitulou ante as palavras da cônjuge.

O crime se desenrola segundo o que foi planejado. Asaji embebeda as sentinelas e Washizu penetra livremente nos aposentos de Tsuzuki e o mata. O alarme é soado por Asaji enquanto Washizu, fingindo comoção diante dos outros hóspedes, mata as sentinelas adormecidas antes que pudessem dizer qualquer coisa.

A trama da usurpação do trono por Washizu reflete exteriormente a usurpação do mal sobre a virtude no interior das almas de Washizu e de Lady Asaji. Tomados como uma unidade, o guerreiro e sua esposa simbolizam o ser humano cuja ordenação justa das potências da alma se desfez. Tragado pelo desejo e pela ambição, o homem desordenado quebra as leis mais sagradas e fundamentais.

O castelo simboliza a Árvore do Bem e do Mal e o Eixo do Mundo (Axis Mundi). A usurpação é exatamente a tentativa de conquistar o Bem Supremo identificando-o com os bens pedestres e relativos. Washizu toma o trono que não lhe pertence, e desta feita instala simbolicamente no Eixo do Mundo seus próprios desejos. É ele agora que define o que são o bem e o mal. Washizu não se submete à hierarquia das coisas, mas, ao contrário, revolta-se contra ela e quer subverter a sua ordem.

Visto por esse prisma, Washizu não é menos que demoníaco. Que é o demônio senão um anjo que desviou seu rosto da contemplação divina para a contemplação de seus próprios desejos? Tsuzuki, o daimyo, representa a virtude e o direito. Ele é justo e recompensa generosamente aqueles que lhe são leais. Washizu provou dessa generosidade. Porém, isso não foi suficiente. Ele quer o lugar de Tsuzuki, mesmo não possuindo a envergadura moral para se sentar no trono. "Better to reign in Hell, than to serve in Heaven", diz o Lúcifer de Milton.

Washizu governa e instaura o horror. A fim de impedir a realização da profecia da anciã sobre o filho de Miki se tornar um dia daimyo, o atormentado Washizu ordena secretamente a morte de seu antigo amigo, sem contudo conseguir assassinar o filho. Este foge para junto do herdeiro de Tsuzuki e de seus homens no exílio. O mal que Washizu realizou começa a exigir vingança. O fantasma de Miki o assombra durante um banquete. A consciência dá sinais de remorso. A tragédia se abate sobre ele: Lady Asaji engravida logo em seguida, mas a criança nasce morta. Não haverá herdeiro do Grande Senhor Washizu.

Unidos em torno do filho de Tsuzuki, os inimigos de Washizu iniciam uma guerra de reconquista e tomam os seus castelos, restando-lhe apenas o Castelo da Teia de Aranha. Onde buscar auxílio se não nas forças que profetizaram sua chegada ao poder? Washizu consulta a velha etérea, e esta lhe promete que nada haverá a temer enquanto a floresta da Teia de Aranha não atacar o castelo de Washizu. Os inimigos acampam na floresta diante da fortaleza. Washizu nada teme. Confiante, ele revela a profecia da anciã aos seus homens reunidos para o combate.

Não obstante, sinais de desgraça acontecem. Pássaros entram na fortaleza em debandada. Lady Asaji sucumbe ao remorso e à dor da perda do filho e enlouquece. O desfecho está próximo. Ao alvorecer, uma sentinela apavorada diz a Washizu que a floresta avança contra a fortaleza. Desesperado, o infeliz guerreiro contempla pela torre o movimento das árvores. Seus inimigos cortaram as árvores e as usaram como cobertura para seu avanço. Mais uma vez, o sentido da profecia era ambíguo e obscuro. O vaticínio se cumpriu como fora predito. Washizu ouviu o que queria ouvir.

Os soldados de Washizu, sabendo da profecia de sua derrocada, alvejam seu senhor com inúmeras flechas e o matam. O ciclo da violência e do crime se encerrou. Washizu, o assassino de seu senhor, é morto por seus homens. O destino do ambicioso e do criminoso é a morte pelas mãos das forças que ele próprio conjurou.

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sábado, 23 de janeiro de 2016

"Ran", caos, cegueira e decadência

“Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada, pela espada morrerão." (Mt 26,52) 

Ran (1985), de Akira Kurosawa, é um filme sobre a decadência, a cegueira e o caos que resulta de ambos. Sombrio como Trono Manchado de Sangue e também inspirado em uma tragédia de Shakespeare, o filme apresenta a queda e a desgraça de um lorde guerreiro ancião como consequências de suas próprias escolhas passadas e presentes.

A trama inicia-se após uma caça na qual toma parte o senhor guerreiro Hidetora Ichimonji, já ancião, seus três filhos, Taro, Jiro e Saburo, e dois de seus antigos inimigos, igualmente senhores guerreiros, Ayabe e Fujimaki. Ichimonji anuncia a inesperada decisão de renunciar ao comando de seu clã, embora mantendo seu título e as honras respectivas, passando-o a seu filho mais velho, Taro. Os outros dois filhos deverão, dali por diante, ajudar e apoiar o irmão.

Taro e Jiro concordam, mas Saburo percebe o perigo dessa decisão e insta o pai a voltar atrás. Segundo Saburo, a divisão e a destruição seriam as consequências de tal desarrazoada medida. Ao mesmo tempo, Tango, fiel conselheiro, concorda com Saburo e suplica a Ichimonji que reconsidere. 

O chefe ancião, ao invés de ouvir o filho, expulsa-o de seus domínios bem como a seu antigo conselheiro, Tango. Ichimonji logo percebe que seu status não se manterá intacto, pois Taro - instigado pela esposa Kaede, filha de um antigo senhor da guerra morto por Ichimonji -  obriga o pai a assinar um documento no qual abdica de todos os seus direitos. 

Ichimonji parte do castelo de seu filho e busca abrigo no castelo de Jiro. Este, porém, temendo desagradar o irmão, não o recebe devidamente e o ancião parte ofendido e sem rumo com seu séquito de concubinas, seu bobo e seus trinta guerreiros de escolta. Logo em seguida fica sabendo que Taro o havia banido e que ninguém poderia recebê-lo sem indispôr-se com o novo chefe do clã.

O velho guerreiro então dirige-se ao terceiro castelo de seus antigos domínios e o toma para si. O infortúnio de Ichimonji, entretanto, torna-se maior, pois as forças conjugadas de Taro e de Jiro atacam o castelo, massacram suas concubinas e seus guerreiros e o expulsam de lá. Mais uma vez, o ancião deve vagar sem rumo, agora somente na companhia de seu bobo e de seu antigo conselheiro banido que retornara ao mestre.

A desgraça não cai somente sobre Ichimonji, Taro é traiçoeiramente morto por um dos homens de Jiro durante a confusão do sítio do castelo. Jiro torna-se então o novo senhor do clã Ichimonji. Desafortunadamente, o segundo filho do velho guerreiro é fraco e logo cai sob a nefasta influência da viúva de seu irmão, Kaede. Esta o faz repudiar e prometer a cabeça de Sue, a sua legítima esposa.

Sue, tal qual Kaede, é filha de um senhor da guerra morto pelo patriarca Ichimonji. Ao contrário de Kaede, contudo, Sue não odeia o velho, não ambiciona vingar-se do clã Ichimonji e busca consolo e transcendência nos pacíficos rituais budistas.

Enquanto isso, o ancião, desamparado e desabrigado, colapsa mentalmente por conta dos infortúnios que sobre ele se abateram e é conduzido por seu bobo e Tango até as ruínas de uma velho castelo em busca de abrigo. Lá encontram um jovem cego, Tsurumaru. Este reconhece o velho como o antigo senhor Ichimonji que o cegara quando garoto. Tsurumaru é irmão e Sue e aquele castelo pertenceu a seu pai, morto por Ichimonji.

Saburo, exilado nas terras de Fujimaki, retorna pacificamente para buscar seu pai, apoiado de longe pelas forças Fujimaki e de Ayabe. Jiro, instigado por Kaede, move guerra a seu irmão e é derrotado e morto pela coalizão das forças dos antigos inimigos de Ichimonji. Saburo encontra o pai, mas é logo morto por remanescentes das tropas de Jiro. Ichimonji não suporta mais esse revés e morre sobre o cadáver do filho que exilou.

Por toda a obra imperam a decadência e a cegueira. Em primeiro lugar, o ancião, símbolo da sabedoria, é o mais iludido de todos e sua fraqueza é sintoma da decadência dos tempos. O que esperar de um tempo em que mesmo os idosos são tão incapazes de enxergar a realidade? Ichimonji não é capaz de perceber a verdade diante de seus olhos. 

Ele não percebe que é Saburo, o impulsivo e inconveniente, quem realmente o ama e não os ambiciosos Taro e Jiro, exteriormente solícitos e obedientes. Tudo decide-se naquele momento fatídico em que Ichimonji não foi capaz de ver a realidade por baixo das aparências. A aparente insolência de Saburo era, na verdade, conhecimento da realidade e amor filial. A aparente obediência de seus irmão era, no fundo, bajulação e dissimulação.

Taro e Jiro, por sua vez, são tão cegos quanto o pai, pois não vêem as intenções reais de Kaede e, fracos, deixam-se iludir pelos ardis de uma mulher cuja única motivação é a destruição do clã Ichimonji. Ela consegue o que quer, mas ao preço de sua própria vida. Sua cegueira vingativa nasce dos atos passados de Ichimonji. 

O mesmo destino é reservado a Sue, morta por ordens de Kaede. Aparentemente, não há recompensa para a virtude de Sue além da vida sem ódio e da prática transfiguradora dos ritos sagrados. Kaede busca sua própria ruína por conta de sua revolta e de seu desejo de vingança. Sue é tragada pelo caos que a cerca, mesmo buscando o caminho da compaixão. Ambas são vítimas do desequilíbrio criado pelos Ichimonji.

A inescapabilidade das consequências dos erros passados parece explicar o destino de Ichimonji. O patriarca, ainda na tenra juventude, no afã de construir seu domínio, espalha dor e caos. Kaede, Sue e Tsurumaru têm suas vidas destruídas por ele. O caso de Tsurumaru é simbólico. Ichimanji poupou sua vida, mas cegou-o. 

Tsurumaru é cego corporalmente. Ichimonji é cego no espírito. O paralelo é interessante porque a tortura física imposta a Tsurumaru simboliza e exterioriza a própria cegueira de Ichimonji. Há hubris na gênese do caos que se abate sobre ele. De certo modo, aquilo tudo não é fortuito. O círculo está simplesmente completando-se. Há uma lógica trágica operando no desenrolar dos eventos.

Ichimonji é incapaz de discernir corretamente o que tem diante de si. Até seu bobo sabe o que acontece e ousa dizer-lhe sem temor. Mas a perplexidade diante da gravidade dos fatos não o ajuda a entender o que se passa, mas o lança nos braços da loucura. Não há tempo para a sua redenção plena, pois Saburo morre antes que possa desculpar-se propriamente. Isto é, há um curto momento de retorno à lucidez e depois sobrevêm nova desgraça e, por fim, a morte.

O bobo desespera-se e censura Buda e os deuses por aparentemente divertirem-se, do alto de suas moradas espirituais, com as desventuras humanas. Tango, o sábio conselheiro de Ichimonji, retruca que os deuses não se divertem com tal espetáculo patético, mas sim lamentam e entristecem-se com o fato de que os homens preferem a guerra à paz, o horror à felicidade.

Ran (caos) é um conto sombrio sobre triunfo do mal. Há esperança? Em uma das últimas cenas, Tsurumaru, o cego, carrega consigo um rolo e o deixa cair do alto das ruínas de seu antigo castelo. Este desenrola-se na queda e revela ser uma imagem dourada e resplandecente de Buda, a mesma diante da qual a irmã de Tsurumaru, Sue, buscou consolo, redenção e libertação do ódio por Ichimonji. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

"Ichimei": as leis da misericórdia e as leis da honra


"Bushido não é objeto somente de ostentação."

TSUGUMO HANSHIRO, pouco antes de morrer.

"Ichimei" (2011), de Takashi Miike, consagrado e prolífico diretor japonês de "Itchi, o Assassino" e "13 Assassinos", é uma refilmagem do clássico "Harakiri" (1962), de Masaki Kobayashi, ambos com roteiro de Yasuhiko Takiguchi. A trama é densa, repleta de simbolismos e de conflitos éticos. Um ronin chamado Tsugumo Hanshiro procura o castelo de Saitō Kageyu, daimyo de uma importante casa guerreira para lhe pedir um favor específico: cometer o seppuku, o suicídio ritual, nos átrios daquela honrada fortaleza.

Hanshiro estivera a serviço de uma casa que fora derrotada e perdera a sua relevância. Como os tempos são de paz durante o longo shogunato Tokugawa, parece não haver mais lugar para a arte marcial dos samurais. Vivendo pobremente, trajando um kimono puído, Hanshiro entende que a única saída honrosa à sua disposição seria cometer suicídio nas dependências de uma casa respeitável.

A princípio, Hanshiro é decentemente recebido e logo conduzido à presença do chefe da casa,  Kageyu. Este o indaga sobre seus motivos, compreende-os, mas indaga o samurai acerca de um certo jovem chamado Chijiiwa Motome. Hanshiro responde que não conhece esse jovem. Kageyu passa a contar a história de Motome. Hanshiro vem a saber por Kageyu que ele não é o primeiro samurai que vem àquela casa solicitar o seppuku. Na verdade, Motome foi o último de muitos que vieram antes dele.

Ocorre que esses samurais em situação penosa de pobreza encontraram uma saída para o seu estado deplorável mediante uma artimanha. Eles entravam em uma casa respeitável, pediam para realizar ali o suicídio ritual, porém sem a real intenção de realizá-lo. Conseguiam assim uma audiência com o daimyo e aproveitavam a oportunidade para solicitar dinheiro a fim de melhorar a sua condição precária.

Ora, Kageyu, sabendo do estratagema, e instigado por seu melhor guerreiro, Omodaka Hikokurō, resolveu usar Motome como exemplo para desencorajar quaisquer outros samurais com as mesmas intenções. Em vez de recebê-lo para uma audiência, Kageyu ordenou que Motome fosse conduzido diretamente ao pátio do suicídio, onde o daimyo e seus guerreiros já o aguardam para assistir ao rito.

Acuado, Motome foi forçado pelas circunstâncias a se suicidar. Contudo, ele havia trazido consigo uma espada com lâmina de madeira, e é esta arma que lhe foi entregue por Omudaka para o seppuku. Motome, desesperado, confessou de pronto que não tinha intenção de realizar o rito, mas sim de pedir dinheiro para curar a sua esposa e o seu filho enfermos.

Diante da humilhação à qual se submetera, Motome tomou a obstinada decisão de se matar com a espada falsa. A cena é angustiante, pois a madeira é completamente inadequada para a tarefa, e o esforço de penetrar a própria carne com a lâmina resulta em enorme dor e sofrimento para Motome. Exercendo a função de kaishakunin, assistente responsável por decapitar aquele que se suicida a fim de lhe poupar sofrimento, o inflexível Omudaka se recusa a pôr fim à dor do jovem Motome. Coube a Kageyu, por fim, desferir o coup de grâce em Motome.

A intenção de Kageyu ao contar esse episódio trágico é óbvia: ele quer desencorajar Hinshiro de tentar usar o estratagema dos samurais depauperados. Para a surpresa do daimyo, ao invés de desistir, Hinshiro reafirma seu intento convictamente. Ato contínuo, ele é conduzido ao mesmo pátio onde Motome morrera, e todos os preparativos necessários são feitos para o seppuku. Prestes a iniciar o rito, Hinshiro pede a Kageyu um último favor. 

Kageyu aquiesce, e Hinshiro solicita que seus kaishakunin sejam os mesmos que assistiram Motome em seu horrendo suicídio: Omodaka e outros dois samurais. O daimyo é informado por seus subordinados que estranhamente os três guerreiros não haviam retornado ao castelo na noite passada. Kageyu ordena que sejam encontrados e trazidos imediatamente ao pátio. Hinshiro pede a palavra e diz que aqueles samurais não serão encontrados. 

Em seguida, revela a Kageyu e a seus pares que, diferentemente do que afirmara antes, ele conhecia sim o jovem Motome. Na verdade, Motome era seu filho adotivo, casado com sua filha e pai de seu neto. O subterfúgio adotado por Motome fora ditado pela necessidade de pagar um médico para salvar a sua mulher e o seu filho, ambos gravemente enfermos. Infelizmente, continua Hinshiro, durante o tempo em que Motome esteve fora de casa fazendo sua tentativa malograda de conseguir dinheiro, a sua esposa e o seu filho morreram. 

A tensão cresce, e Hinshiro retira do interior de seu kimono três topos de chonmage (corte de cabelo dos samurais) que pertenciam aos guerreiros ausentes. Ele afirma que os derrotou em combate, e que estavam escondidos por causa da vergonha e da desonra da derrota. Após ouvirem o relato, os indignados samurais de Kageyu atacam Hinshiro, que enfrenta a todos usando a espada de lâmina de madeira que pertencera ao desafortunado Motome. No fim da luta, Hinshiro derruba a yoroi (armadura) vermelha que ficava exposta no centro da fortaleza, simbolizando os ideais e a honra daquela casa guerreira, e deixa-se matar por seus inimigos.

O centro de "Ichimei" reside no tema clássico do conflito entre uma lei superior de justiça que é percebida por uma consciência individual e os valores e tradições sustentados por uma comunidade. Kageyu tenta a todo custo preservar a honra e a respeitabilidade de sua casa guerreira nos tempos pacíficos do shogunato Tokugawa. No entanto, o próprio daimyo admite que seus subordinados jamais foram testados no campo de batalha e que tudo o que conhecem sobre a arte do combate é meramente teórico.

Essa realidade é plenamente simbolizada pela yoroi vermelha, cotidianamente polida, preservada e exibida com orgulho. Bela, limpa e conservada exteriormente, porém vazia por dentro. Ela é o símbolo de uma tradição já caduca, apegada às aparências, ciosamente mantida como um relicário oco e inanimado que o espírito não mais vivifica. Em nome dessa tradição meramente externa, Kageyu permite que seu subordinado Omudaka, imbuído de ideais marciais que conhecia apenas teoricamente, perpetre uma flagrante injustiça contra Motome. A manutenção da honra aparente sobrepujou a misericórdia.

Note-se também que no filme Kageyu caminha mancando. Simbolicamente, o próprio daimyo não é um exemplo perfeito de samurai. Seu andar é claudicante assim como a sua moral. O defeito físico espelha o defeito moral. Ele hesita entre a misericórdia e o cumprimento ritual da lei. A cegueira de Kageyu permanece até o final, mesmo após Hanshiro lhe contar toda a história de Motome. 

Quando Hinshiro derruba a venerada yoroi rubra, símbolo da observação vazia das leis tradicionais, Kageyu o chama de louco. Hinshiro conhecia bem esse tipo de cegueira, pois ele e o pai de Motome foram expulsos de sua província de origem porque tomaram a iniciativa de recuperar os muros defensivos de um castelo em vez de, como a tradição exigia, aguardar a ordem expressa do Shogun.

O pai de Motome morreu logo depois desse episódio, e Hinshiro foi lançado na pobreza com a sua filha e com o seu filho adotivo. Sustentou sua família fabricando guarda-chuvas. A condição precária o impediu de ajudar a sua filha e o seu neto doentes e impeliu Motome a realizar sua fatídica tentativa de angariar fundos para pagar um médico.

Essencialmente, trata-se de uma mesma situação nos dois casos. Tanto Hinshiro quanto Motome são vítimas da manutenção meramente exterior das leis e dos costumes tradicionais. O que Hinshiro realiza, contudo, não é uma vingança vulgar. Ele não mata ninguém, não exige dente por dente e olho por olho. Hinshiro realiza a verdade do bushido diante de seus adversários. 

Ele encarna o bushido ao enfrentar todos aqueles guerreiros teóricos armados de katana usando somente uma espada de madeira. Hinshiro, um guerreiro de verdade testado no clamor do combate, é o próprio espírito da tradição viva derrubando a armadura vazia e morta. Entretanto, ele diz aos seus adversários que é somente um homem comum querendo viver a sua vida em paz, aguardando a próxima primavera. 

Os três samurais que Hinshiro vencera em combate (Omudaka entre eles), e dos quais arrancara parte do cabelo, agora conhecem verdadeiramente o que significam a desonra e o desamparo da ignomínia. Kageyu, aparentemente, não compreendeu a mensagem. Tempos depois do incidente com Hinshiro, em resposta ao imperador que elogiara o polimento reluzente da yoroi vermelha, Kageyu afirma: "ela é o orgulho de nossa casa".
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