terça-feira, 28 de abril de 2015

Dionísio Areopagita, teologia catafática e teologia apofática



''E a vós, caro Timóteo, vos aconselho que, no fervoroso exercício da contemplação mística, deixeis os sentidos e as atividades do intelecto e todas as coisas que os sentidos e o intelecto podem perceber, e todas as coisas deste mundo de nulidades ou deste mundo do ser, e que, vosso entendimento em repouso, vos esforceis (tanto quanto puderdes) para vos unirdes com Ele a quem nem o ser e nem o entendimento podem conter. Pois, pela incessante e absoluta renúncia de si mesmo e de todas as coisas, deveis em pureza deixar de lado todas as coisas e serdes libertado de todas elas e, assim, deveis vos elevar ao Raio daquela Escuridão divina a qual excede toda existência.''

DIONÍSIO AREOPAGITA, Teologia Mística, I

“Ele não está contido no Ser, mas o Ser está contido Nele”

DIONÍSIO AREOPAGITA, Os Nomes Divinos, V, 8

''Alguns homens, porém, aderiram a ele e abraçaram a fé. Entre esses achava-se Dionísio, o Areopagita (…).''

Atos dos Apóstolos 17,34


Dionísio, o Areopagita, é o nome de um filósofo grego convertido por Paulo no Areópago quando da pregação deste apóstolo em Atenas. Nada se sabe com certeza de sua vida após a conversão, mas a ele são atribuídas diversas obras como Os Nomes Divinos, A Teologia Mística, A Hierarquia Celeste, A Hierarquia Eclesiástica e algumas outras das quais somente conservamos o nome, como a Teologia Simbólica.

As obras de Dionísio, escritas em uma linguagem de origem neoplatônica, influenciaram fortemente a mística cristã posterior, tanto no Ocidente como no Oriente. A sua doutrina mais conhecida, contudo, é a distinção entre dois tipos de teologia: a catafática e a apofática.

A teologia catafática é aquela em que diz-se algo positivo sobre o que Deus é. Por exemplo, que Deus é simples, onipotente, onisciente e onipotente. Esse gênero teológico pode estar associado a uma ascensão ao divino a partir das perfeições das coisas sensíveis. É possível inferir algo de Deus a partir de Suas obras, como por exemplo que Ele existe e é imutável.

Há também, obviamente, aquilo que as próprias Escrituras dizem acerca de Deus. Ele é descrito como um ser que caminha no Jardim do Éden, que possui uma mão poderosa e que o mundo é o escabelo de Seus pés. Desde cedo, os Padres da Igreja souberam ver nessas expressões somente um auxílio metafórico e antropomórfico às mentes simples dos fiéis incapazes de conceber a grandeza divina.

As mesmas Escrituras afirmam de Deus que Ele é espírito, que Nele não há sombra de mudança ou variação, que é amor, misericórdia e regente do mundo. Tais atributos estão mais distantes do antropomorfismo um tanto ingênuo de que se serve o texto sagrado para ensinar os homens simples acerca da imensidão divina.

Não obstante, segundo Dionísio, sabemos que Deus está para além de qualquer ser, conceito ou concepção humanas. Além mesmo daquelas expressões empregadas pelas Escrituras. Daí que, na realidade, nada do que se diz sobre Deus é estritamente adequado.

Dizer que Deus é matéria é obviamente errôneo. Afirmar que Deus é espírito é mais certo que afirmar que Deus é material. Não obstante, mesmo "espírito" é uma expressão inadequada e não cabe como descrição do que Deus é. Nem mesmo a mais sublime palavra do vocabulário humano poderia dar conta do que Ele é.

Por essa razão, Dionísio afirma, a melhor linguagem seria a da teologia apofática, aquela na qual nada dizemos de positivo sobre Deus, apenas negamos a adequação de qualquer conceito ou atributo derivado das criaturas.

Nas palavras de Dionísio:

''Em certo sentido Ele possui todos os atributos positivos do universo (sendo a causa universal), embora em um sentido estrito Ele não os possua, pois Ele os transcende a todos, de modo que não há contradição entre afirmar e negar que Ele os possui na medida em que Ele precede e ultrapassa toda privação, estando para além de toda distinção positiva ou negativa.''

Assim, a teologia apofática afirma a perfeição para negar a imperfeição e nega a perfeição para não afirmar a imperfeição. Isto é, atribui-se a Deus toda e qualquer perfeição, pois em Deus não reside nenhuma imperfeição. Mas, ao mesmo tempo, retira-se Dele todo e qualquer atributo, pois toda a perfeição que existe neste mundo traz consigo a marca da imperfeição e da limitação. 

Note-se que essa negação não é uma negação de ausência, como quando se diz de um animal que ele é irracional. Ser irracional significa a ausência da capacidade de raciocínio. Afirma-se usualmente que Deus é racional. Sua racionalidade, contudo, não tem medida de comparação com a humana, que procede a partir de conceitos, juízos e encadeamentos de juízos com o fim de derivar logicamente conclusões.

Não é, portanto, por falta, mas por uma superabundância acima de toda medida que Deus não pode ser descrito adequadamente como racional. O mesmo vale para qualquer outro atributo positivo de que a teologia catafática faz uso para falar de Deus. Do ponto de vista da teologia apofática, nem sequer pode ser dito com justiça que Deus existe.

Tudo o que há tem uma essência, aquilo que define o que uma coisa é. Em outros termos, a essência é a natureza ou o ser de um ente qualquer. A essência é uma delimitação, diz o que a coisa é e, por conseguinte, diz por exclusão o que ela não é. Tudo o que é definido é limitado. Se Deus é a origem de todo ser, não é possível que seja limitado e definível.

Para Dionísio, então, Deus é a realidade última supraessencial, para além de todo e qualquer conceito, definição ou essência. A linguagem não O pode abarcar. Tudo o que há de perfeição é um efeito de Deus, mas só conhecemos esses efeitos, nunca a essência da causa divina.

Dionísio afirma em Os Nomes Divinos, II,7:

"Todas as coisas divinas, mesmo aquelas que são reveladas a nós, são conhecidas somente por suas Comunicações. Sua natureza última, a qual elas possuem em seu ser original, está para além da mente, de todo Ser e do conhecimento. Por exemplo, se chamamos o Místério Supraessencial pelo nome 'Deus', 'Vida', 'Ser', 'Luz' ou 'Palavra', concebemos somente os poderes que descem de lá conferindo-nos Divindade, Ser, Vida ou sabedoria, enquanto tentamos apreender aquele Mistério em si mesmo pondo de lado todas as atividades de nossa mente, uma vez que não contemplamos nenhuma Deificação, Vida ou Ser que se assemelhe à Causa absolutamente transcendente de todas as coisas.''

Dionísio assevera que a teologia apofática não pode ser concebida como um mero artifício retórico ou como uma simples tese de teologia especulativa e sim como o resultado de uma experiência do divino na união mística. Longe de ser somente um assunto filosófico, o apofatismo seria uma realidade para a qual apontam aqueles que uniram-se misticamente a Deus:

''E mentes inclinadas ao divino, entrando angelicamente (na medida de seus poderes) em tais estados de união e sendo deificadas e unidas, através da cessação de suas atividades naturais, na Luz que ultrapassa a Deidade, não encontram método mais adequado para celebrar seus louvores do que negar-Lhe toda forma e atributo. Pois por uma iluminação verdadeira e sobrenatural proveniente de sua abençoada união, elas aprendem que Ela é a Causa de todas as coisas e que, contudo, em si mesma é nada, porque supraessencialmente transcende-as todas. Assim, com relação à Supraessência da Divindade Suprema não é permitido a qualquer amante daquela Verdade acima de toda verdade celebrá-la como Razão, Poder, Mente,Vida ou Ser, mas como o que ultrapassa completamente toda condição, movimento, vida, imaginação, conjectura, nome, discurso, pensamento, concepção, ser, repouso, união, limite, infinitude e tudo o que existe.'' (Os Nomes Divinos, I, 5)

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