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domingo, 3 de janeiro de 2010

Chesterton e a moral revolucionária

"Os homens tentaram transformar o verbo transitivo 'revolucionar' em um verbo intransitivo. O jacobino poderia indicar não somente o sistema contra o qual se rebelava, mas também (e isso era o mais importante) o sistema contra o qual ele não se rebelava, o sistema sobre o qual ele depositava confiança. Mas o novo rebelde é um cético e não vai confiar inteiramente em nada. Ele não tem lealdade; então ele não poderá jamais ser um verdadeiro revolucionário. E o fato de que ele duvida de tudo se mostra realmente quando ele pretende denunciar tudo. Pois toda denúncia implica uma doutrina moral de algum tipo; e o revolucionário de hoje duvida não somente da instituição que ele denuncia, mas também da doutrina pela qual ele denuncia. (...) Em suma, o revolucionário moderno, sendo infinitamente cético, está sempre engajado em minar suas próprias minas. Em seu livro sobre política ele ataca os homens por pisotearem a moral; em seu livro sobre ética ele ataca a moralidade por pisotear os homens. Assim, o homem revoltado moderno se tornou praticamente inútil para todos os propósitos da revolta. Por se rebelar contra tudo ele perdeu seu direito de rebelar-se contra qualquer coisa."

G.K. CHESTERTON, Orthodoxy, pags.46/47 (tradução própria)

O que o ensaísta e escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936) denuncia no trecho acima retirado de sua obra Orthodoxy (1908) é a impossibilidade de um revolucionário moderno defender realmente a Revolução a partir de qualquer ponto de vista ético minimamente válido. E isso é simples de se entender, uma vez que entre as suas ideias está a relatividade desses mesmos valores, considerados então como mera fachada ideológica usada pelas classes dominantes para a opressão das classes dominadas.

Se realmente os valores nada mais são do que expressões e reflexos culturais diretos de uma infraestrutura econômica, então a partir de quais valores seria possível defender uma transformação radical dessas mesmas relações? E sobre qual eixo ético deverá girar a roda da Revolução? Pois se o revolucionário é cético acerca da validade absoluta dos juízos morais, então não há motivos para que qualquer pretensa opressão seja interrompida ou para que qualquer suposta injustiça seja reparada. Não há justiça a ser feita. Há mera facticidade, mero acaso. Uns oprimem e outros são oprimidos, that is all.

Que motivo pode o revolucionário fornecer para a mudança senão aquele do desejo meramente egoísta e tirânico de tomar ele próprio o lugar do opressor? É claro que ele enfeitará sua retórica com palavras como liberdade e emancipação. Mas para ele essas palavras não podem ser mais do que termos vazios, flatus voces como diriam os nominalistas medievais. Chesterton não o diz explicitamente, mas o niilismo é a marca distintiva do revolucionário. Ele luta por valor nenhum além de seu próprio egoísmo. Não reconhece universalidade alguma nos valores mais caros à humanidade. Ele os usa como meros instrumentos para seus ardis enganadores.

Como Popper indicou em suas obras sobre política, a única moral que o revolucionário pode defender é uma pretensa moral do futuro, aquela que ele pretende conhecer "cientificamente" de antemão como a ética dos vencedores no inexorável processo histórico que conduzirá ao Éden terrestre. "A força que está por vir é o direito", diz o revoltado moderno. O revolucionário vive de "futurismo moral". Ele supõe que a ética que ele defende seja aquela que prevalecerá no fim da História enquanto um fato científico. Mas como um mero "fato científico" pode fundamentar uma moral? E se uma pretensa lei histórica indicasse que a moral do futuro seria escravagista? Dever-se-ia assim mesmo defendê-la e lutar para instaurá-la?

Eis mais uma consequência da ideia de que valores são meras fachadas de interesses de classe. A moral futura não será nada além da expressão dos vencedores do inescapável processo histórico, e não um valor absoluto e inegociável para a dignidade humana. O revolucionário floreia esse futuro com expressões morais e valores agradáveis de ampla aceitação. E em nome desse futuro edênico supostamente inexorável, ele se permite toda e qualquer ação imoral aos olhos da sociedade vigente. Inverte-se a ordem natural das coisas: o presente é substituído e regido pelo futuro.

Sergei Nechaiev e Leon Trotsky eram unânimes em dizer que qualquer ato ou prática são legítimos, desde que contribuam para a malfadada Revolução. Todo escrúpulo ou resistência moral à utilização de atos torpes é considerado como um obstáculo que pode retardar o processo revolucionário, e, por fim, é creditado à resistência fútil das classes dominantes ameaçadas pela Revolução. O revolucionário não pode se basear em valores para defender as suas atividades. Na verdade, ele é a última pessoa que deveria ser ouvida quando se trata de moralidade, uma vez que ninguém pode dar aquilo que não tem.
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