terça-feira, 25 de novembro de 2008

O divino é lótus florescendo



Se há uma dicotomia na filosofia indiana, não é certamente entre corpo e alma ou matéria e espírito como no ocidente. O corte, como testemunham os Upanishads, está situado entre determinado e indeterminado. De um lado estão entrelaçados determinação, limite, substancialidade, forma, multiplicidade, mudança, ego, vida-morte-e-renascimento. Do outro, está o indeterminado, " o que não tem nome ou forma", o infinito e o eterno.


No Budismo a doutrina do Anatma, da não-substancialidade do EU tem seu desenvolvimento na negação de Nagarjuna Acarya da substancialidade de todos os fenômenos. Para ele as coisas são dependentemente originadas. Se elas dependem de outras, não têm natureza intrínseca e não são subsistentes por si mesmas. Elas são SUNYA, vazio, ausência de natureza intrínseca e independente. Em outras palavras, as coisas não são coisas.


Sankara Acarya, o filósofo Vedantino ortodoxo, que sofreu influência de Nagarjuna por meio de seu mestre Gaudapada Acarya, também nega a realidade última dos fenômenos determinados em favor de Brahman Nirguna, o indeterminado. Brahman é a verdadeira natureza, a "substância" por trás das coisas passageiras. Mas dessa substância nada se pode dizer, pois é sem limites, "sem outro", infinita. É o indeterminado que possibilita o determinado.


Sankara e Nagarjuna parecem-me agarrar o mesmo elefante por partes diferentes. Se é verdade que as coisas dependentemente originadas não têm natureza intrínseca e independente como quer Nagarjuna, é também verdade que as coisas não vêm do nada. Algum solo imutável é necessário. Sankara afirmaria ser esse solo Brahman Nirguna. Mas Brahman não é algo, uma coisa, nada de determinado. O que dizer de "algo" sem determinações a não ser que ele é nada?


Como entendo essa disputa, ela pode ser harmonizada somente na idéia de que o solo imutável é a infinita possibilidade de determinações. Possibilidade não é nada determinado, mas dá azo à determinações. Tampouco é nada, embora não sendo algo. É aí que está o divino, na perpétua possibilidade de ser, de seres.


O divino é a infinita possibilidade de determinação. O divino é lótus florescendo.

3 comentários:

Fábio Creder disse...

O que aproxima a mística renana do hinduísmo é justamente o que a torna intrinsecamente heterodoxa: ela vai de encontro ao elementro central do monoteísmo, que é a idéia de criação. O imanentismo do hinduísmo, e das metafísicas ocidentais com raízes no oriente, como o platonismo e o neoplatonismo, no âmbito das quais se pode dizer que tudo é Deus, é radicalmente oposta à dicotomia Criador/criatura do monoteísmo.

Roger Oleniski disse...

De fato, o hinduísmo não entende a idéia de criação ex nihilo. Tudo é emanação da fonte primordial, mas ainda assim esta fonte permanece transcendente. Como ao raio de luz não é distinto, em essência, do foco de luz, assim também não seriamos distintos do divino. Entretanto, da mesma forma que o raio de luz não é o foco da luz, assim também não seríamos o divino. Somos possibilidades condicionadas daquilo que é a torna possível toda coisa. O divino, no entanto, é incondicionado, eterno, imutável, enquanto que todas as coisas que dele provém são limitadas, mutáveis, temporais, etc... Aí se coloca a transcendência absoluta do divino. Somos ele, mas nenhum de nós o esgota. Nenhum de nós é ele em plenitude, por assim dizer.

Roger Oleniski disse...

Creio que nem mesmo possa se dizer que o hinduísmo é imanentista, uma vez que esse termo geralmente significa que Deus é o conjunto da natureza. Entretanto, o hinduísmo está longe dessa apreensão do divino, uma vez que afirma peremptoriamente a transcendência de Brahman que está além de qualquer condicionamento ou limite. Para o Ser, os hindus reservam o nome Ishwara, tal que udo o que é ou pode vir a ser é Ishwara. Brahman está além até do Ser, uma vez que este, embora geral, já é ele mesmo uma determinação. Só o Ser poderia ser identificado com o mundo, ou natureza, ou universo, etc...