domingo, 30 de dezembro de 2007

SPE SALVI

"Se, diante do sofrimento deste mundo, o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz de fazer é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira. Não é por acaso que dessa premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça".

BENTO XVI

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

O Paraíso com os meios da Queda

Em http://oleniski.blogspot.com/2007/10/tenso-religiosa.html e http://oleniski.blogspot.com/2007/10/tenso-religiosa-ii.html tratei da tensão essencial que está no âmago da religiosidade, a tensão entre o caráter atemporal do mundo divino e o caráter temporal do mundo humano.

A religiosidade surge do fato de que nossa existência temporal somente tem sentido e importância a partir de uma dimensão transcendente e atemporal que ultrapassa qualquer consciência individual. Assim, este mundo é uma parte ínfima de uma verdade ainda a ser descortinada.

A teologia ortodoxa afirma (contra o amartiocentrismo de Tomás de Aquino) que a Encarnação do Verbo, o nascimento do Messias, é a realização da divinização da natureza por iniciativa exclusiva de Deus. Ou seja, Deus se torna homem, encarna-se, torna-se temporal, para que a criação temporal seja tornada divina. O mundo divino absorve o mundo dos homens. Realiza-se a junção entre o transcendente e o imanente.

A tensão religiosa é resolvida então por Deus e em Deus. Não é o homem que constrói uma ponte entre essas dimensões, mas é Deus que toma a iniciativa. É graça e não trabalho humano. Como dizia São João da Cruz, "se é verdade que o homem procura Deus, é mais verdade ainda que Deus procura o homem."

A civilização ocidental, pós-Idade Média até nossos dias, se caracteriza pelo processo inverso. Dostoievski, Nietzsche, Cioran, Voegelin entre outros (com semelhanças e diferenças) perceberam que o caminho ocidental marcava-se pela tentativa de fazer coincidir a cidade dos homens com a cidade de Deus, fazer o imanente, o temporal engolir o atemporal e o transcendente.

Ou seja, o ocidente tentou realizar o paraíso aqui mesmo na Terra com os meios terrestres. Seja a idéia do progresso científico-tecnológico do iluminismo e de seus filhos cientificistas, seja as idéias de sociedades pacíficas, igualitárias e utópicas do anarquismo, seja a sociedade sem classes do socialismo-comunismo ou a raça ariana nazista, todas querem fazer o paraíso à força. Contem-se os corpos...

A unidade e a felicidade trazidas ao mundo por meio da força e do engenho humano, eis o que se tentou realizar. Entretanto, os valores transcendem os indivíduos e estes só o podem encarná-los limitadamente.Tentar fazer com que os indivíduos os encarnem perfeitamente, por força humana somente, é não compreender suas naturezas (a dos homens e a dos valores).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Criative Elements in Science



"There is a creative element in every reasoning: this is most strongly manifested in explanation. [...] The generalization 'every S is P' may be interpreted either as a set of singular descriptions or as the relationship 'if something is S, then it is P'. If a generalization is a set of singular judgements, it covers not only those cases which have been investigated, but unknown cases as well. By assuming that the unknown cases behave like the known ones, we do not reproduce facts that are empirically given, but we create new judgements on the model of judgements about known cases.

If a generalization expresses a relationship, it introduces a factor that is alien to experience. Since Hume's time we have been permitted to say only that we perceive a coincidence or a sequence of events, but not a relationships between them. Thus a judgement about relationship does non reproduce facts that are empirically given, but again is a manifestation of man's creative thought"

"[...] which scientific judgements are pure reproductions of facts? For if generalizations, laws, and hypotheses, and hence all the theories of the empirical sciences and the entire sphere of the a priori sciences are the result of the creative work of the human mind, then there are probably few judgements in science that are purely reproductive.

The answer to this question appears to be easy. Only a singular statement about a fact which is directly given in experience can be a purely reproductive judgement, for instance: 'a pine grows here', 'this magnetic needle now deviates (from its previous position)', 'in this room there are two chairs'. But whoever investigates these judgements more closely will perhaps find creative elements even in them. The words 'pine', 'magnetic needle', and 'two' stand for concepts, and hence concealed labour of spirit through them. All the facts formulated in words are, primitively it may be, interpreted by me. A 'crude fact', untouched by the human mind, seems to be a limiting concept."

JAN LUKASIEWICZ

sábado, 8 de dezembro de 2007

Outros pensamentos sobre a História Sem Fim

"Há pessoas que não podem ir a Fantasia , disse o Sr. Koreander, e há pessoas que podem, mas ficam lá para sempre. Porém, há outros que vão a Fantasia e regressam. Como você, Bastian. E são esses que devolvem a saúde aos dois mundos."


É muito fácil perder-se no torvelhinho dos desejos que Fantasia realiza. Mais fácil ainda é perder-se em ilusões de poder absoluto. Muitos se perderam justamente aí. Ao tornarem-se ditadores, perderam a lembrança de sua vida humana. Como poderiam tornar-se ilimitadamente poderosos em Fantasia sem perder sua condição de homens, sua inerente limitação humana? Tornar-se outro totalmente não implica o abandono do passado que será esquecido como se não houvesse existido?

Na Cidade dos Imperadores Esquecidos, Bastian está a um passo de perder-se definitivamente. Moveu guerra contra os seres de Fantasia que não se submeteram às suas vontades (nem tudo em Fantasia está sob nosso comando) e agora, sozinho vê-se numa cidade cujos habitantes nada mais são do que zumbis estúpidos que não mais podem desejar depois de desejarem ser os reis e senhores de Fantasia. Quiseram identificar-se com a alma de Fantasia, a Imperatriz Criança.

Ao fazerem isso, enlouqueceram. Esqueceram suas vidas anteriores, e com isso, perderam sua própria natureza humana. A via de auto-conhecimento que o AURIN indica em sua inscrição se tornou para eles motivo de destruição. Os desejos são traiçoeiros, nos levam a direções diversas. Há que saber usá-los para a Grande Busca.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Em Fantasia..

Continuação do post anterior...

Os homens projetam em Fantasia seus anseios, desejos, carências, fomes, medos e sonhos. Se ela pode se tornar um caminho de conhecimento, também pode se tornar uma via de ensimesmamento e egoísmo. Bastian é assaltado por desejos de fazer o bem para os seres de Fantasia dando-lhes histórias, sentido. Mas também se sente inclinado ao desejo de reconhecimento e gratidão, de reverência e submissão.

Ser bom, mas ser conhecido e reverenciado por isso. Ser sábio, a ponto de humilhar os mais sábios e inteligentes, mas ser famoso por isso. Ser notório em Fantasia, uma vez que não o era no mundo dos homens.

Não é difícil perder-se em seus próprios desejos, já o advertia Graograman. Não será bom ter servos feitos de lata e ocos por dentro, que nada fazem além da vontade de seu mestre, como a feiticeira Xaíyde? Será que Bastian é como certos homens que só freqüentam Fantasia para se deleitarem com imagens de poder e controle absolutos? É ele assim tão comum? O Salvador de Fantasia vai estragar tudo desejando somente imperar egoisticamente?

E note que à medida em que Bastian se sente mais inclinado a tais desejos, mais ele se esquece da sua vida na terra dos homens, seu mundo-natal. Embrenhar-se em Fantasia tem seus riscos. Pode-se desejar nunca mais voltar. Há o risco de se perder duplamente. Perder-se no caminho de seus desejos e daí perder-se de si mesmo, cair presa de sonhos megalômanos.

Ao que parece, não é o suficiente salvar Fantasia, não deixar que seus habitantes, uma vez engolidos pelo Nada, se tornem ilusões e mentiras no mundo dos homens. É preciso saber estar em Fantasia.

Pensamentos sobre A História Sem Fim



Após dar um novo nome à Imperatriz-criança, salvando assim Fantasia do perigo de ser engolida pelo Nada, Bastian entra, ele mesmo, na História Sem Fim. Ele agora não é mais um leitor, mas ele vive em Fantasia. Assim, o novo nome, a nova função de Fantasia na vida dos homens é dado primeiro por uma decisão individual. É Bastian quem decide primeiro, em sua vida, o destino de Fantasia. Se ao menos um filho dos homens o fizer, então a ameaça pode ser afastada.

Uma vez feito isso, ele é admitido no mundo da História Sem Fim. Ele se encontra em Fantasia, mas mudado, segundo seu desejo de não ser mais um fracote gordo e desengonçado. Ele agora é forte e bonito. Em suma, ele é outro. Quem entra em Fantasia não permanece o mesmo. Molda-se segundo seus desejos. Aliás, Fantasia também se molda segundo seus desejos. Bastian sente então a alegria da criação livre, o desatar da imaginação.

Recebe de Graograman o AURIN (o símbolo de regência de Fantasia pertencente à Imperatriz criança) que lhe dá plenos poderes e que tem atrás a inscrição: "FAZE O QUE DESEJARES". Mas isto não significa que Bastian pode fazer arbitrariamente o que quiser. Ele deve percorrer a perigosa via de seus desejos em busca de sua Verdadeira Vontade. Então, a inscrição indica um meio para o auto-conhecimento. Para a descoberta do que somos de verdade, de qual é nosso mais verdadeiro desejo, e, por conseguinte, nosso maior valor.

Fantasia pode se tornar uma via de conhecimento de nosso eu mais profundo se, no turbilhão de nossos desejos, nos dedicamos a descoberta daquilo que realmente desejamos, aquilo que viemos buscar em Fantasia, aquilo de que é carente o mundo dos homens. E só se descobre isso desejando, até que nossa Verdadeira Vontade apareça, livre do peso esmagador da desordem dos desejos passageiros ou de valor inferior.

E essa parece ser a questão: valor. O que há em ti de mais importante, o ápice da pirâmide de teus valores? Acho que é essa a pergunta. E Fantasia, pode ser um caminho para isso. Deter-nos em Fantasia revela nossos desejos e nossos valores porque nela só buscamos o que, de algum modo, nossa alma anseia . E ao identificar em Fantasia o que ansiamos e, principalmente, o que ansiamos acima de tudo, descobrimos o nos vai na alma no seu mais profundo. É um socrático "conhece-te a ti mesmo" nos domínios de Fantasia.

...

Continua em:



domingo, 2 de dezembro de 2007



Essa foto me lembrou o stariéts Zózima d`Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Michael Ende e a Arte

"El artista, pues, se halla inmerso en una polaridad -idea y sensorialidad- que ofrece una extrema tensión. Lo suprasensible tiene que ser idéntico a lo sensible. Por eso, lo que pretenden el artista y el poeta no es explicar el mundo sino presentar mundos."

MICHAEL ENDE

Carta de Ende sobre sua concepção de Arte, a função da fantasia e a freqüente acusação de que seu livro A História Sem Fim tenha sido influenciado por idéias do ocultista britânico Aleister Crowley:

http://www.solotxt.com/valverde/ende09.htm

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Filosofia é desentocamento?

" Tudo é fonte. Nada é autoridade."
SIR KARL POPPER



Existe um projeto em filosofia que consiste em afirmar que o processo filosófico é um despertar crítico para o que "está por trás" dos discursos proclamados no cotidiano. Ou seja, a filosofia serviria simplesmente para revelar a mentira através da identificação dos interesses daquele que pretende propor algum tipo de verdade.

Não se pode negar que, de fato, interesses existem por trás de qualquer tese. Mas interesses não são ruins por serem interesses. Há quem se interesse pela verdade, pelo bem-estar do próximo,etc...E há quem se interesse pela destruição do bem, pela anuência dos trouxas, etc...

O problema é quando a crítica passa de análise de argumentos para investigação de origens. Explico: o problema é quando deixo de me preocupar em analisar se o argumento de meu interlocutor é válido, se ele de fato está dizendo algo plausível ou mesmo verdadeiro, e ao invés disso, procuro saber se ele é de direita ou de esquerda, cristão ou ateu, brasileiro ou estrangeiro. Ou seja, quando eu me preocupo com a origem daquele que argumenta.

Há muito que a filosofia tem sido vista sob esse prisma desastroso. E nisso, há interesses sim. E funestos. Ao incentivar a crítica, não a partir de argumentos, mas a partir das origens de meu interlocutor ( sejam elas políticas, étnicas, religiosas, etc...) o que se faz é um movimento de desvio. A atenção é desviada da discussão teórica dos argumentos para a pesquisa biográfica de meu interlocutor.

E isso é um movimento de mão dupla. Se meu interlocutor não merece ser ouvido pelo fato de pertencer a um partido oposto ao meu, a outro credo religioso, ou por qualquer motivo imaginável, por outro lado, qualquer um que espose as idéias de minha seita, ainda que seja uma besta, acaba se tornando uma autoridade incontestável.

Por exemplo, a filosofia que querem ensinar nas escolas não passa, freqüentemente, de propaganda partidária e de catalisador de ressentimentos de classe. Ao aluno é ensinado que, desde sempre, ele é um injustiçado e que há poderes ocultos que conspiram para esconder a verdade.

Desde sempre ele é um traído e o professor de filosofia é o "cara legal" que vai ensinar o aluno a desentocar a verdade, a entender o "que está por trás " de tudo o que ele ouve por aí. " Desconfie de X, Y e Z...não leia esses caras...eles estão do lado de A, B e C que querem que você não saiba disso tudo que só os partidos P e T te mostram."

O passo seguinte, logicamente, é dividir as fontes de informação entre as ideologicamente contaminadas e aquelas que estão do lado do "bem", fiéis, imparciais e objetivas. As fontes tendenciosas serão, é claro, as opositoras. As boas serão as aliadas.
Todos trabalham a partir de premissas. Não há como fugir. O trabalho da crítica é analisar essas premissas e os argumentos que são construídos a partir delas e descobrir qual o grau de evidência dessas premissas, quais suas conseqüências, se elas são validamente deduzidas, etc...
A biografia de meu oponente pode ser interessante, mas não pode se tornar uma cortina de fumaça para escoder fragilidade argumentativa e proteger propaganda ideológica.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Em tempos de Chavez e outros...

" Many socialists have the tragic illusion that by depriving private individuals of the power they possess in an individualist system, and transferring this power to society, they thereby extinguish power. What they overlook is that, by concentrating power so that it can be used in the service of a single plan, it is not merely transformed but infinitely heightened. By uniting in the hands of some single body power formerly exercised independently by many, an amount of power is created infinitely greater than any that existed before, so much more far-reaching as almost to be different in kind. It is entirely fallacious to argue that the great power exercised by a central planning board would be "no greater than the power collectively exercised by private boards of directors." There is, in a competitive society, nobody who can exercise even a fraction of the power which a socialist planning board would possess. To decentralize power is to reduce the absolute amount of power, and the competitive system is the only system designed to minimize the power exercised by man over man. Who can seriously doubt that the power which a millionaire, who may be my employer, has over me is very much less than that which the smallest bureaucrat possesses who wields the coercive power of the state and on whose discretion it depends how I am allowed to live and work? "

Friedrich von Hayek

Versão reduzida de The Road to Serfdom:

http://jim.com/hayek.htm

Em cartoons:

http://www.mises.org/books/TRTS/

domingo, 11 de novembro de 2007

Bento XVI: reacionário ou fiel?


Falaram mal de Bento XVI por dizer que a Igreja Católica era a única igreja verdadeira. mas o que se esperava? Que ele dissesse que tudo vale???? Chamaram-no de dogmático, reacionário e de coisinhas menos elegantes. Mas qual a razão?? Será que alguma igreja, mesmo aquela da esquina que ontem mesmo era um supermercado ou um cinema pornô, acha que não é a verdadeira? Aliás, algum de nós acha que está errado? Todos temos a boa e velha pretensão à verdade. Achamos que estamos certos. Se estamos ou não é outra questão. Se podemos justificar nossa crença é uma questão ainda mais espinhosa.

O Papa representa valores eternos, gostem ou não. O que ele deve defender é uma doutrina que é considerada divinamente revelada. Eu não creio. Ok, mas então o que eu tenho a ver com a crença do Papa e de milhões de católicos? Nada, absolutamente nada. Ele crê no que quer e eu no que quero. Estamos resolvidos.

O Papa é reacionário? É reacionário quem defende os valores que julga verdadeiros??

A maioria dos críticos do Papa nesse caso não passam de medíocres autômatos repetidores dos slogans e fábulas do Iluminismo voltairiano. Sabem eles do que falam ? Conhecem o cristianismo a fundo, a história e a filosofia da Igreja ? Não, é claro. Não é necessário conhecer. A Igreja está errada de saída. Como o rei era desde sempre um usurpador do poder, tal qual os revolucionários gostavam de dizer, assim também a Igreja está errada em qualquer coisa que defenda. " Era melhor que fosse silenciada de vez", é o que pensam secretamente.Consideram-se muito sagazes, mas não agüentam cinco minutos de discussão séria e pesada sobre o mais trivial problema filosófico.

São só tagarelas que não percebem as próprias pretensões e o próprio dogmatismo raso.
Para encerrar, ecumenismo não é relativismo. É sintomático que só possamos pensar em tolerância a partir da dúvida, da incapacidade de discernir a verdade. Toleramos porque não sabemos a quem dar razão. Se soubéssemos...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Lonergan sobre o conhecimento humano:

"Na investigação humana está presente uma exigência ilimitada de inteligibilidade. No juízo humano está presente uma exigência do incondicionado. Na deliberação humana está presente um critério que critica todo bem finito. "

BERNARD LONERGAN

terça-feira, 6 de novembro de 2007

NONDUALITY




" Changes in one`s train of thought produce corresponding changes in one`s conception of the external world...As a thing is viewed, so it appears. To see things as a multiplicity, and so to cleave unto separateness, is to err."


PADMASAMBHAVA




Citação contida no livro Nonduality de David R. Loy. Um excelente livro sobre as correntes não-dualistas do pensamento hindu e budista. Um estudo comparativo muito interessante dessas escolas de pensamento. O livro, além disso, põe o leitor em contato com a riqueza e sutileza filosófica de pensadores como Sankaracarya e Nagarjuna, ainda amplamente desconhecidos pelo mainstream acadêmico ocidental.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"Morte de Deus" e o sagrado

O que acontece a uma sociedade que não é mais capaz de reconhecer que há diferença, que há algo que eleva-se acima do comum, algo sagrado? Quando Nietzsche proclamou que Deus estava morto, ele apenas fizera um constatação. Mas ela vai muito além da mera negação de Deus, do mero ceticismo raso ou da revolta adolescente.
Deus está morto significa o fim do norte de uma cultura. Significa que uma cultura chegou ao esgotamento de seus valores. Aqueles valores que dão a direção, que constrangem como a gramática e suas regras constrangem o poeta, mas que, por outro lado o adestram, o disciplinam e o tornam capaz de suas realizações. Que se siga regras ( sempre "arbitrárias") por um tempo e que através dela se realize algo de valor, algo pelo qual se queira viver!
A busca ocidental por um fundamento último a ser alcançado por vias argumentativas, criou as condições para a crítica ( um tanto insolente ) de tudo o que se considerava sagrado. Então o sagrado, justificativa de todas as coisas, é chamado ao tribunal da razão dedutivo-argumentativa para justificar-se. Se o sagrado não tem bons argumentos, então é ilegítimo, deve ser derrubado. Acontece que o otimismo racionalista chega ao século XXI com a desagradável impressão ( eu diria certeza ) de que nada foi encontrado que sirva de fundamento. A racionalidade não é capaz de dar fundamentos últimos, somente hipotéticos. "Não era lá que devíamos procurar...erramos o caminho."
Então derrubamos os deuses, os nobres, o Antigo Regime, em nome de uma faculdade que, ao fim e ao cabo, é incapaz de fornecer novos valores sem devorá-los pelo ceticismo e insolência que estão na sua raíz. Estamos, nós ocidentais, desorientados, sem rumo, fracos demais para resistir a quem quer que seja que ainda tenha convicções fortes.
Como dizia Cioran, nossa tolerância vem da dúvida, vem da incapacidade. E a mesma dúvida que nos faz tolerantes impedirá que nos posicionemos decididamente contra o que evidentemente nos ameaça. A morte de Deus, antes de ser uma vitória, pode ser somente um prenúncio da nossa queda.
Um discurso comum uniu e une revolucionários burgueses e comunistas, anarquistas e socialistas: todos se apóiam na idéia racionalista da submissão do sagrado ao crivo argumentativo que, no fim, leva ao esvaziamento de todo fundamento e todo valor. Ou em outras palavras, não há nada que seja realmente diferente, nada que se eleve acima do comum, nada que seja sagrado.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Filisteus e poetas



O poeta russo Joseph Brodsky frente ao juiz soviético quando de seu julgamento por "parasitismo" em 1964:

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Sou poeta.

Juiz: Quem o reconhece como poeta? Quem lhe deu autoridade para se intitular poeta?

Brodsky: Ninguém. Quem me deu autorização para fazer parte da raça humana?

Juiz: Estudou para isso?

Brodsky: Para que?

Juiz: Para ser poeta. Por que não continua os estudos numa escola onde podem prepará-lo, onde pode aprender?

Brodsky: Não acho que se possa aprender poesia.

Juiz: Como assim?

Brodsky: Acho que ela é um dom de Deus.

Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados e depois expulso da União Soviética em 1972 e recebeu o Nobel de Literatura em 1987.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Hume e o ceticismo relaxado II


"A conduta de um homem que estuda filosofia dessa maneira desleixada é mais verdadeiramente cética do que a de alguém que, sentindo em si mesmo uma inclinação para ela, está, contudo, tão desesperado com dúvidas e escrúpulos a ponto de rejeitá-la totalmente. Um verdadeiro cético será desconfiado de suas dúvidas filosóficas, bem como de sua convicção filosófica."

DAVID HUME





Hume é um cético moderado, ou seja, um cético que conhece a natureza humana o bastante para duvidar da força que qualquer argumentação, ainda que válida e irrefutável, possa ter sobre as crenças naturais e instintivas. Os argumentos céticos revelam a fragilidade de nosso entendimento, lançam dúvidas sobre a possibilidade de se assegurar da existência do mundo externo e de justificar racionalmente nossos raciocínios baseados na experiência e conduzem-nos à suspensão do juízo. Contudo, eles nada podem fazer contra os instintos naturais de conservação que regem a natureza dos seres vivos e, em particular, a do homem.

Não há risco de inação, pois não há possibilidade de que argumentos se sobreponham aos instintos. O cético está correto e suas críticas são irrefutáveis, desbancando com elas as pretensões de um racionalismo onipotente e mostrando os estreitos limites de nosso entendimento. Mas a vitória do ceticismo na argumentação desvela também a força dos instintos na medida em que nenhum argumento resiste à força das necessidades de conservação do ser vivo.

No fim o ceticismo revela a fragilidade do entendimento e da argumentação assim como a inelutável natureza dogmática de nossas crenças mais básicas que garantem nossa sobrevivência cotidiana .

Sobre a Navalha de Ockam III

"Não preciso dessa hipótese", disse Laplace a Napoleão quando o imperador francês perguntou pelo lugar de Deus no seu sistema do mundo. O recado é claro. Se não há lugar para Deus numa explicação teórica sobre o mundo, porquê deveríamos nos preocupar com Ele?
O quadro do mundo só comporta peças que tenham função. Ou seja, peças que funcionem para produzir o funcionamento de outras peças e assim produzam o funcionamento do todo, da máquina inteira. Entretanto, se peças precisam de outras peças para funcionar, onde acaba isso? O mecanicismo aparece sempre como um modelo incompleto. Não é à toa que tantos se dedicaram ( e se dedicam ) à busca do motor perpétuo ( alguém aí lembrou do Motor Imóvel ??).

As relações entre a Navalha e a ontologia são mais complexas que parecem à primeira vista. Dissemos anteriormente que, ao explicar um evento existente qualquer, postulamos a existência de outros eventos que atuam em conjunto como causas daquilo de desejamos explicar. Nem sempre é assim. Há as correntes instrumentalistas para as quais as teorias não passam de instrumentos de predição e de controle do mundo e que nada têm a ver com conceitos de verdade ou falsidade ou existência. Ou seja, uma teoria é boa se funciona empiricamente, para fins práticos. É como um martelo ou uma chave de fenda. Se funciona, ótimo!

Nessa perspectiva as coisas se dão diferentemente. Se para explicar um fenômeno existente X preciso de Y e Z, NÃO necessariamente estou afirmando a existência de Ye Z. Importa que os cálculos sejam simplificados pelo uso de Y e Z como elementos da explicação e que, com isso, as predições sejam mais precisas.

Agora a Navalha não corta somente o que é desnecessário à explicação, mas também os próprios elementos da explicação teórica. O caráter prático da Navalha, como um princípio de simplificação, passa de seu papel auxiliar na pesquisa para o papel principal. Simplificar é o lema. Na verdade, agora se podem multiplicar as entidades, desde que seja para simplificar os cálculos.

sábado, 20 de outubro de 2007

Sobre a Navalha de Ockam II

Continuando o post anterior, entendo aqui ontologia como qualquer teoria que tente dizer o que há, o que efetivamente existe ou não existe no universo.

Frequentemente se esquece a diferença entre a explicação de eventos e a ontologia . Para explicar um evento X tenta-se encontrar outros eventos que, em conjunto, atuem como causas de X. Ou seja, que sejam como as premissas a partir das quais se possa derivar logicamente o evento X. É claro que toda explicação tem consequências ontológicas. Se digo que X é um evento real e que para explicá-lo preciso de Y e Z, tenho que dizer necessariamente que Y e Z são também reais.

O problema é quando se tenta negar a existência de uma entidade simplesmente porquê ela não é necessária para explicar algum evento. O raciocínio seria este: se necessito de Ye Z e não de K para explicar X então Y e Z existem e K não existe. Se algo não é necessário para explicar um dado evento, então esse algo ( seja o que for ) não existe.

Uma coisa é a simplicidade prática e a elegância que facilitam o cálculo e a manipulação dos eventos. Outra bem diferente é a existência ou não de entidades não diretamente envolvidas em explicações teóricas.

Sobre a Navalha de Ockam


Muitas coisas interessantes poderiam ser ditas sobre o princípio metodológico da Navalha de Ockam. Contudo, o que mais me interessa é aquele ligado à ontologia. O princípio da Navalha diz, em poucas palavras, que não se deve multiplicar entidades para explicar um evento. Ou seja, se para explicar X alguém só precise de Y e Z não é necessário complicar as coisas acrescentando outras causas. Numa linguagem mais popular, poderia-se dizer que não se deve utilizar um canhão para matar uma mosca.

Alguns dizem que este é um princípio próprio da racionalidade. Entretanto, já se mostrou que tal princípio não é sempre aplicável, nem mesmo auto-evidente. Nele está subentendida a idéia de que a natureza é simples e que a economia e a elegância são valores epistemológicos.

A ciência passou a usá-lo como regra metodológica sem querer envolver-se em discussões filosóficas acerca de sua justificação racional. Afinal, para todos os fins práticos, essa regra facilitava as coisas, principalmente os cálculos.

O problema aparece quando a Navalha deixa de ser usada como um instrumento metodológico ( ainda que controverso ) com fins de economia e simplificação prática e passa a ser usada com pretensões ontológicas. Em outras palavras, quando se pretende determinar quais entes existem no mundo a partir da aplicação da Navalha.

domingo, 7 de outubro de 2007

A tensão religiosa II


Um exemplo que considero claro da tensão exposta no post anterior é o de Arjuna e Krishna. Resumindo selvagemente a beleza do Bhagavad Gita, Arjuna é um príncipe Kshatria (casta guerreira) que vai à guerra contra seus parentes próximos. Antes da batalha questiona-se sobre a validade daquela luta fratricida.

Krishna, seu auriga, surprendentemente mostra-se como um avatar (manifestação corporal) do absoluto (Brahman, o imanifestado) e lhe ensina a verdade sobre as coisas. Este mundo fenomênico (o mundo que percebemos cotidianamente), captado pelos sentidos e afetos nada mais é que Maja (ilusão), fruto da Avdja (ignorância). Matar não significa extinguir alguém, pois esse corpo material é um invólucro ilusório e no fundo, as coisas materiais não têm constituição ontológica, ou seja, não existem no sentido forte do termo existir.

Se isto é assim, então para quê ir à guerra? Ela no fundo não é ilusória ? Agir neste mundo não é entranhar-se nessa teia ilusória ? Não é identificar-se com um "eu agente" que afinal de contas é tão ilusório quanto o resto ? Agir não é dizer de si mesmo "sou aquele que age" e esperar os frutos dessa ação (sentido original de Karma) e assim aprofundar-se na ilusão ?
Não seria a inação o melhor caminho ? Renunciar ao comércio com este mundo ?

Não é necessário explicitar os perigos desse pensamento para a ordenação social. Qual a solução da Gita ? O Karma-Yoga, ou seja, a disciplina de agir no mundo sem se preocupar com os frutos da ação. Agir sem identificar-se com o agente, aquele que anseia por resultados.

Assim, o nobre guerreiro mantém sua função social (guerrear) como Krishna dele exige e, ao mesmo tempo, se torna iluminado. Para reforçar essa resposta, a Gita nos diz que não se pode ser jamais inativo, pois mesmo Krishna, personalidade de deus, é ele mesmo sempre ativo.

Cumprir seus deveres sociais e ao mesmo tempo ser consciente da ilusão deste mundo é, mais uma vez, a mensagem (ou uma das principais) do Bhagavad Gita. A doutrina do Karma-Yoga é a solução elegante pra esse conflito que perpassa a religião.

Se essa solução dá conta do problema é um questionamento que não será levado a cabo neste post. Minha intenção foi somente exemplificar com um caso concreto as teses expostas no post anterior.

A tensão religiosa


Uma tensão atravessa toda religião: o conflito entre seu caráter atemporal e sua temporalidade. Explico. Marx viu muito bem que a religião é um "protesto contra a realidade", ou seja, é a consciência de que este mundo não pode ser assim. Este mundo deve mudar ou deve haver outro além dele que satisfaça nossas mais íntimas necessidades e aspirações.

Pela mudança do mundo luta o revolucionário acreditando poder determinar o que é essencial ao humano (restringindo tudo, é claro, às necessidades materiais) e acreditando ser capaz de realizar esse Éden material. Prepotente, o revolucionário pretende dizer o que é o homem, desnudar seu mistério, reduzí-lo ao mundo "concreto", e satisfazer plenamente todas as necessidades humanas mudando a forma de governo.

A religião, mais prudente, reconhece o anseio do absoluto da alma humana que não pode ser realizado no mundo dos seres materiais espaço-temporalmente condicionados, na multiplicidade e na impermanência. Sua solução é o "outro" mundo. Seja ele como for, será sempre o "lugar" de nossa verdadeira e completa realização.

Nietzsche chama os defensores dessa visão de "caluniadores da vida" e de "profetas do extramundano". E está certo. Só que a calúnia talvez não seja deles, mas da própria vida. Ela é a grande calúnia contra a qual se levantam as religiões. E se pregam o "extramundano" é porque reconhecem que este "mundo" não é tão mundo afinal. Falta-lhe algo (muito, inconcebivelmente muito) para ser chamado de mundo e ter o sentido que damos a esta palavra, onde afetivo e racional são irmãos.

Então, como Nietzsche percebeu (mais uma vez) é nossa incapacidade de dar um sim afirmativo a este "mundo" que cria um "outro mundo". Não este, mas o outro mundo é nossa pátria. Somos exilados, estrangeiros até o dia feliz em que adentraremos em nosso verdadeiro lar.

A tensão está dada. Se este mundo não é o meu, porque agir nele? Por qual motivo teria eu de me entranhar nesse mar ilusório ? Para que fazer projetos, trabalhar, buscar minha sobrevivência num mundo que, afinal de contas, não é o meu ?

Equilibrar-se entre a rejeição deste mundo e o elogio do outro é o desafio principal da religião. Aparentemente, ao dar um sentido a este mundo (o de prenúncio negativo do outro) o religioso só consegue retirar todo o sentido da vida neste mundo .

sábado, 6 de outubro de 2007

Hume e o ceticismo relaxado.



O ceticismo sempre foi considerado um perigo. Hume percebeu que isso não era lá tão verdadeiro. Pelo menos, não verdadeiro quanto à nossa capacidade de ação mais imediata, aquela do cotidiano, de comer, beber , etc... A incapacidade de dizer se qualquer coisa, mesmo as mais familiares, são verdadeiras levaria à morte do cético.

Hume diz-nos para não nos preocuparmos com isso, pois mesmo que duvidemos seriamente que o Sol irá se levantar amanhã, isso não evitará que tenhamos uma boa noite de sono. E porquê? Bem, nossas dúvidas só alcançam a casca da vida. Não somos capacitados a duvidar daquilo que garante nossa sobrevivência. Podemos duvidar de teorias mil, até da realidade do mundo externo, mas quando tiramos o nariz do livro, ou saímos da aula, somos os mais comuns dos mortais. A dúvida se esvai. Somos incapazes de duvidar seriamente, de seguir até o fim da cadeia de razões que nos conduziria ao abismo. Sobrevivemos somente porque somos incapazes.


Clément Rosset afirma que somos os únicos seres capazes de saber o que sabemos, mas que somos incapazes de suportar o que sabemos. Algo se interpõe entre o que sabemos e o que fazemos. É nossa natureza. Por isso Hume era cético "relaxado"(como ele mesmo dizia de si), ou seja, tinha dúvida de seu próprio ceticismo e do alcance de suas dúvidas. Os céticos antigos recomendavam o seguimento dos costumes antigos por não conseguirem determinar a verdade de nada.

Conselho supérfluo. Pelo menos no caso de nossas crenças mais imediatas. A natureza já nos dotou de uma incapacidade salvadora de levar as dúvidas até o fim. Levar as dúvidas até o fim, sustentar a insustentabilidade da mais familiar das crenças seria um ato de confiança final em nossa própria capacidade argumentativa...mas nem isso conseguimos. A natureza nos fez céticos de nosso próprio ceticismo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Os filhos de Sade, o puritano


Sade, o apóstolo da irracionalidade, do instinto e da imoralidade. Haverá alguém tão puritano quanto Sade? Sua vida desenvolveu-se sob o signo da proibição. "Se é proibido, gozo", devia ser seu lema. Mesmo quando praticava torpezas, pedia à Natureza ( alguém aí sentiu o cheiro de Deus? ) sua bênção, pois afirmava que todos os crimes nada mais eram do que a realização de instintos dados pela própria Natureza. Seguir a Natureza é o que se deve fazer. É quase um imperativo categórico. Com certeza um preceito moral. Mas se a Natureza inspirava todas as torpezas e seguí-las era o dever, então tudo não residia sob o manto da bênção? Sade sentia que isso não era lá muito excitante afinal de contas. Havia necessidade da blasfêmia, do proibido...
Mesmo quando Delmoncé ( o libertino-mor da Escola de Libertinagem ), demonstra elegantemente ( "raciocinado com método", dizia ele ) à sua discípula a inexistência de Deus, ensina-a contudo que durante o ato sexual deveria-se blasfemar contra aquele ser inexistente. Estranho...Como algo tido como inexistente pode dar tanto prazer ?
Tal caso não passa de um sintoma claro do puritanismo de Sade. Pode-se dizer que ninguém fez mais pelo cristianismo que Sade. Deviam canonizá-lo. Oficialmente liberado pela Natureza a cometer toda sorte de ato sórdido, ele sentiu a vacuidade dessa idéia e , imediatamente, pôs-se a perseguir seu grande crime, o maior de todos: um crime contra a Natureza. Algo que mesmo a Natureza se envergonhasse. Ou seja, algo supremamente proibido. Gozo supremo para o transgressor.
Criaturas como Sade nada realmente questionam, ao contrário, reafirmam os padrões e proibições. Se só se pode viver a sexualidade como pecado, como fruto proibido, então não somos em essência muito diferentes de uma monja enclausurada. Sexo em banheiros públicos, dark rooms, glory holes podem se tornar algo tão cristão quanto a missa dominical. Se alguém só pode vivenciar seus desejos em lugares obscuros, sujos, escondidos pela escuridão, com o ar do pecado, do proibido, do blasfemo, então esse alguém não passa de um puritano. E se alimenta doentiamente da idéia de culpa. "Só gozo se eu for culpado".
Alguém livre da culpa incorpora em sua vida seus desejos, não os relega e os empurra para a marginalidade dos cantos escondidos e insalubres. Esses lugares são reflexo de como alguém encara seus desejos.
Há muita coisa a se assumir. A mais difícil delas é a inocência.

domingo, 30 de setembro de 2007

Profetas de segunda mão...

Tenho a impressão que as pessoas (todas bem intencionadas) que muito falam de racionalidade e de postura crítica são aquelas que muito pouco têm contato com aquilo que defendem. Têm uma visão romântica na qual a racionalidade (pálido fantasma iluminista!) é um Messias bondoso que a todos conduzirá a um Reino Divino na Terra. É uma desejo utópico e como todo desejo utópico, diria-nos Emil Cioran, quer "construir o Éden com os meios da Queda ".

Assim, a postura crítica salvará a sociedade brasileira e o mundo dos seus males e conduzirá a todos pelo caminho plano da cidadania e da virtude. Eis o peso que se põe sobre a educação e a filosofia enquanto disciplina escolar.

Será mesmo assim? Não será mais saudável a dúvida dos antigos de que a virtude pudesse ser ensinada? Será mesmo a razão a melhor fonte e o melhor motor da ação ?

Algum desses hodiernos advogados da racionalidade, filhos de uma cultura dedicada ao aviltamento e esquecimento voluntário do transcendente (ideologia dominante das universidades), realmente já se dedicou ao árduo trabalho da razão, ou são apenas profetas de um deus conhecido de segunda mão?