sábado, 30 de agosto de 2014

"Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip K. Dick




O real e a imitação, o ser e a aparência, o verdadeiro e o falso dominam a trama de Do Androids Dream of Electric Sheep do escritor de ficção científica americano Philip K. Dick. Como em outros de seus livros, a atração e a busca por aquilo que é real é obstaculizada por inúmeras ambiguidades nascidas, desta feita, do progresso da capacidade humana de produção.

O natural e o artefato - outra modalidade da oposição entre o verdadeiro e o falso - aparecem como o centro de gravitação dos conflitos do livro. O homem produz obras externas a ele, que não raro são mais longevas que ele mesmo e que, por assim dizer, tomam uma "vida própria" ameaçando a vida de seu próprio criador.

Em 2019 a Terra é um planeta devastado por uma guerra atômica, a Guerra Mundial Terminus, que matou todos os animais e que obrigou boa parte da população - aquela que podia pagar - a emigrar para colônias em outros planetas. "Terminus" é o nome do deus romano dos limites e dos limiares. Ele marcava o fim e o início, a linha que distingue a entrada e a saída.

Fica evidente que a Guerra Mundial Terminus marcou o início de uma nova era, de um novo tempo no qual a Terra não é mais o habitat natural do homem. Ele é obrigado então a exilar-se, a fugir de sua própria casa, apartando-se de seu centro. Os eleitos ascenderam às estrelas, os proscritos foram deixados para testemunharem o "choro e o ranger de dentes" de um mundo condenado à decrepitude progressiva.

O mundo é coberto por uma camada radioativa crescente chamada de "A Poeira". É ela a responsável pela decomposição de toda a superfície da Terra e pelas mutações bizarras de muitos de seus habitantes. Entre estes figuram os "cabeça de galinha", aqueles que foram afetados pela Poeira a tal ponto que suas faculdades intelectivas embotaram-se até à idiotia. 

Foi o homem que lançou sobre si mesmo esse destino lúgubre pela invenção e uso de um de seus artefatos, a bomba atômica. Tal engenho humano destruiu o habitat próprio do homem, o seu nascedouro. Eis o primeiro exemplo de como o natural é vencido pelo artefato.

A fim de reparar sua hubris, os homens criam animais elétricos. Estes se tornam presentes em inúmeras casas daqueles que permaneceram na Terra. São artigo comum e barato. Enfim Descartes estaria certo: animais são máquinas regidas por inflexíveis leis mecânicas. 

Os homens, entretanto, não sonham com ovelhas elétricas. O mecânico pode até ser exteriormente idêntico ao animal legítimo, emular todos os seus comportamentos típicos e mesmo possuir programas a fim de simular doenças e até a morte. Mas é só um produto, mais um exemplar produzido industrialmente. Em uma palavra, mais uma cópia

Não somos todos cópias e não pertencemos todos à uma unidade formal que nos define, a espécie? Sob esse aspecto, não somos todos iguais na generalidade e diferentes na singularidade como qualquer carro produzido em série? Por qual razão os homens não sonham com ovelhas elétricas?

Ovelhas elétricas não são naturais. Há mais do que a relação entre universal e singular. O que funda a desvalorização da cópia produzida é justamente o fato de que ela é um artefato. Não é natural. É uma junção de partes anteriormente existentes e que são dispostas em uma ordem imposta de fora. O natural é um desenvolvimento a partir de si mesmo, no qual as partes e o todo são coetâneos, as partes se formando e assumindo funções tendo em vista a realização do todo.

O natural é mais real. O artefato imita o natural e não o inverso. Rick Dekkard, o protagonista, sonha com ovelhas verdadeiras. Elas custam caro, são vendidas em catálogos junto com outros animais. São sinal de status. Para ele é vergonhoso possuir uma ovelha falsa e por isso ele finge que a sua é verdadeira. Quando sua ovelha pára de funcionar, Dekkard determina-se a comprar uma ovelha real. 

Sua esposa não entende sua obsessão por uma ovelha verdadeira. Ela vive deprimida e escolhe o tipo de emoção que irá sentir utilizando um aparelho de modulação de emoções por ondas. Se quiser ficar feliz, escolhe no menu o número corresponde à alegria. Mais uma vez, o artefato domina o natural, toma o seu lugar. Nem mesmo as emoções e os sentimentos nascem espontaneamente. São produzidos por um engenho.

Dekkard é um caçador de "andys", andróides exteriormente idênticos aos humanos produzidos por megaindústrias como as organizações Rosen. O problema é que a perfeição dos engenhos humanos é tanta que o risco é de que eles se infiltrem entre os homens reais e acabem por dominá-los. O dever de Dekkard é impedir que isso aconteça. Cabe ele ser a linha de frente da distinção entre o natural e o artefato, aquele que decide o que é real e o que é falso, aquele que impede que a humanidade seja tragada por suas invenções.

Sua posição é a de todo homem: busca orientar-se precariamente entre a realidade e a aparência. Por isso ele é um sujeito comum, até mesmo apagado, sem graça e meio burocrático. Até como caçador de recompensas Dekkard não se destaca. É somente quando o melhor caçador é gravemente ferido por um andy que ele consegue ascender ao primeiro escalão de sua corporação. 

Ele não é exatamente "o homem certo para o trabalho certo". Ao contrário, ele é o que estava disponível, o segundo que finalmente se torna o primeiro somente pela ausência de alguém melhor. Nem mesmo ele seria a opção natural para o trabalho. Sua entrada no caso é também artificial.

Seis andys Nexus-6, os mais avançados no mercado, fugiram de Marte e pousaram na Terra. Depois de colocarem o melhor caçador de recompensas fora de ação, eles infiltraram-se na sociedade humana e desapareceram. A missão de Dekkard é "aposentá-los", isto é, matá-los. O que parece à primeira vista ser um mero eufemismo descortina-se em uma questão crucial: se eles são andróides, eles morrem? 

Um artefato não morre. Deixa de ser útil, perde sua validade, esgota-se, acaba sua bateria. Mas morrer, não morre. Quem morre são os que estão vivos. Os seres orgânicos e naturais. Sendo assim, matá-los, digo, aposentá-los não é uma questão ética. É como desligar um aparelho que já cumpriu sua função. Se os criamos, então os desligamos.

Se os andys são exteriormente idênticos aos humanos, se conseguem imitar os comportamentos humanos com perfeição, o problema evidente será saber como distinguí-los de humanos legítimos. Eles são somente res extensa, máquinas regidas por inflexíveis leis mecânicas. Mas nós não somos exatamente res cogitans, algo pensante, e sim algo empático. No livro de Philip Dick, o que nos distingue dos andróides é nossa capacidade de sentir empatia.

A empatia é o centro, por sua vez, do mercerismo. Não se sabe qual sua origem, mas esse culto é o que há de mais próximo de uma religião em todo o livro. Consiste basicamente em um aparelho de realidade virtual interativa na qual os "fiéis" testemunham a difícil caminhada ladeira acima de um homem idosos chamado Wilbur Mercer. Durante o processo, há uma união de todos aqueles conectados naquele momento e eles compartilham inclusive os ferimentos sofridos pelo idoso em sua subida.

Evidentemente, Mercer tem algo de Cristo. Sua mensagem é semelhante à mensagem de amor, embora se limite a um exercício momentâneo de empatia compartilhada. Mercer sofre, sua subida parece uma missão a cumprir e ela implica em sofrimento e sacrifício. Alguns afirmam mesmo que ele seja de origem não-humana, divina.

Estranhamente, é também um culto via artefato, uma liturgia - se assim podemos dizer - mediada por aparelhos, muito distante do contato direto com o transcendente através de uma real experiência místico-religiosa. A artificialidade é sua marca. Por medíocre e superficial que o mercerismo seja, reduzido como é a um congraçamento virtual baseado no sentimento, ele aparece como uma refirmação da natureza humana e da diferença essencial que separa os homens dos andys.

Os andys seriam capazes de fingir empatia, simular sua aparência externa. Não conseguem, contudo, fingir as micro-reações físico-corporais espontâneas e involuntárias que acompanham o sentimento de empatia em humanos. A distinção é feita na medição dessas reações em um teste de empatia chamado de escala Voigt-Kampf. Mais uma vez, é o natural que separa o verdadeiro do falso.

A medição, o quantitativo, o externo pretende identificar o que não é mensurável, o estado qualitativo, o interno, aquilo que é pessoal e intransferível, o que somente um ser animal individual vivo pode sentir. Eu não sinto a dor de um outro homem. Seu comportamento externo ma indica. Ele pode fingí-la, contudo, como um ator finge uma dor que não sente. 

O espontâneo e o involuntário não podem ser simulados. Eles são a sede da verdade, imunes ao falso. É neles que o fantasma na máquina se revela. A mão humana, entretanto, avança na imitação e ameaça essa fronteira que pode bem não ser intransponível. O teste Voigt-Kampf pode ser eficiente mesmo com os andys Nexus-6, os mais avançados robôs já criados. No futuro, pode tornar-se obsoleto. 

Há a possibilidade de que um humano seja tomado por um andy e que seja, em seguida, aposentado, digo, morto? Há homens bem pouco ou nada empáticos. Ainda assim permanecem homens. De todo modo, uma anomalia não anula a natureza. Impede-a de efetivar-se plenamente. Homens sem empatia são filhos de outros homens, portanto humanos. O problema é que Dekkard só tem um medidor de reações físico-corporais externas espontâneas para decidir quem é homem e quem não é.

O teste deve ser testado. Dekkard vai até as organizações Rosen para aplicar a medição Voigt-Kampf em diversos voluntários da empresa, entre os quais se encontraria pelo menos um Nexus-6. A sobrinha do sr. Rosen, Rachael Rosen, é sua primeira candidata.  Ele descobre que ela é, sem o saber, um andy. Memórias implantadas a fazem pensar que é humana.

Sabendo que o teste ainda é efetivo, Dekkard parte para a caçada. Um andy tenta matá-lo travestido como comissário soviético, um grupo de andys o captura e o conduz à uma central de polícia falsa e ele conhece um caçador de recompensas que acreditava ser um andróide. O falso como armadilha, o falso como proteção e o falso como erro.

Restam três Nexus-6 a serem aposentados e Rachael Rosen se oferece para ajudá-lo a caçá-los. Dekkard envolve-se cada vez mais a situação dos andys e começa mesmo a ter empatia por eles. Por fim, acaba tendo relações sexuais com Rachael. Esta, no entanto, maquiavelicamente, deita-se com o caçador de recompensas - como fez com seus antecessores - somente para fazê-lo envolver-se emocionalmente com ela a fim de que não fosse capaz de aposentar os outros andys, principalmente um que era idêntico à Rachael.

Dekkard encontra os últimos três andys no apartamento de um "cabeça de galinha" chamado Isidore em um prédio abandonado desde o fim da Grande Guerra Terminus. Isidore é infantilizado e pouco inteligente. Um filho perfeito dos novos tempos. Discriminado, vive solitário e encontra nos andys fugitivos um consolo para sua solidão. Mesmo que seus "amigos" não sejam capazes de amizade. Isidore é o homem tão degradado intelectual e emocionalmente que não vê problemas em buscar o afeto de quem claramente não é capaz de dá-lo.

Tal incapacidade fica evidente quando ele encontra uma aranha viva real e assiste uma das andys friamente cortar as patas do bicho simplesmente para saber com quantas pernas ele conseguiria andar. Nenhuma empatia é demonstrada. Eles são máquinas. E Isidore é ainda abalado pela notícia de que o mercerismo é uma fraude. Mercer na verdade é um ator fracassado em um cenário pintado.

Dekkard chega ao apartamento de Isidore e aposenta os três andys restantes. Ao contrário do que Rachael esperava, ele sequer hesita em aposentar sua cópia. Ele termina sua missão. E, ao chegar em casa, sua mulher conta-lhe que sua cabra - que ele havia comprado com o pagamento dos dois primeiros andys aposentados - estava morta, lançada do alto de seu prédio por Rachael.

Incapaz de empatia, como qualquer andy, Rachael sabe bem como sentem os humanos. Ela sabe como usar a humanidade contra os homens. Compreende conceitualmente o que é empatia, mas não a sente. Sua atitude seria a vingança de uma mulher apaixonada ou simplesmente mais uma imitação de uma reação legitimamente humana?

Na volta para casa Dekkard encontra um sapo vivo em uma área abandonada, deserta e sem vida. Mas para sua surpresa, o sapo também é mecânico. A fim de consolá-lo, sua mulher compra moscas artificiais para o sapo artificial. O artefato vence mais uma vez e se impõe ao homem.

Assim como ele se impõe ao próprio mundo na qualidade de "bagulho", a acumulação progressiva de artefatos humanos abandonados, inúteis, sem sentido que aos poucos toma a face da Terra. A deterioração progressiva do mundo pela ação da Poeira e do "bagulho" parece ser a última palavra da vitória do artefato sobre o natural, do falso sobre o verdadeiro. E parece não haver esperança.

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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Larry Laudan, racionalidade, progresso científico e tradições de pesquisa




"Eu defendo que a racionalidade e a progressividade de uma teoria estão mais intimamente ligadas não à sua confirmação ou à sua refutação, mas sobretudo com sua eficácia na resolução de problemas." (Tradução própria)

LARRY LAUDAN, Progress and its Problems: Towards a Theory of Scientific Growth 

A posição do filósofo americano Larry Laudan caracteriza-se por uma redefinição dos conceitos usados tradicionalmente na epistemologia no tratamento da questão acerca das relações entre racionalidade e progresso. Segundo o filósofo americano, até hoje, todas as discussões sobre essa questão passaram pela subordinação do progresso à racionalidade. Aquele nada mais era do que a sucessão temporal de escolhas baseadas em padrões atemporais.

Assim, o progresso era uma conseqüência da aplicação em casos particulares de uma racionalidade auto-fundada e fora das vicissitudes do tempo. Por isso se justificava a busca por um método distintivo para as ciências que as legitimasse a priori. Entretanto, tal modelo não deu os frutos que se esperava.

É essa perspectiva que Laudan pretende ultrapassar. Para tanto, ele apresenta a tese de que deveríamos inverter a relação tradicional que vê o progresso dependente de noções de racionalidade. A tese então é aquela segundo a qual a racionalidade será definida em termos de progresso. Logo, ser racional é aceitar a teoria mais progressiva, a que exibe maior progresso cognitivo “com respeito às aspirações intelectuais da ciência” distinto do progresso material, social ou espiritual.

No primeiro capítulo de seu livro Progress and its Problems, Larry Laudan afirma que ciência é essencialmente uma atividade de resolução de problemas. Ele admite que essa é uma definição quase trivial (já encontrada em Popper) e que, por outro lado, outros objetivos são encontrados na atividade científica.

Entretanto, segundo ele, um modelo baseado na caracterização da ciência como atividade de resolução de problemas é capaz de capturar melhor o traço distintivo da empresa científica do que outros modelos baseados em outras definições.

Ciência é resolução de problemas. Mas que tipo de problemas? Laudan apontará o que considera como problemas científicos e, em seguida, apontará para dois tipos principais de problemas que as teorias científicas deverão dar conta. O primeiro tipo é o dos problemas empíricos e o segundo o dos problemas conceituais.

Segundo Laudan, os problemas científicos não são fundamentalmente diferentes de outros tipos de problemas e o modelo por ele defendido pode ser estendido para outras disciplinas. O autor não dá nenhuma definição demarcatória de ciência e diz que as teorias nada mais são do que tentativas de resposta adequada para os problemas. As teorias então devem fornecer uma explicação, trazer o irregular para as cercas da uniformidade e permitir a antecipação preditiva dos eventos.

Assim, toda teoria deve fornecer respostas aceitáveis para questões consideradas importantes e interessantes. Todavia, a aceitabilidade das respostas de uma teoria não será avaliada segundo idéias tradicionais de verdade, confirmabilidade e corroboração e sim segundo o critério de constituírem elas adequadas soluções para problemas importantes.

O que define um problema como empírico é o fato de ele ser tratado dentro de determinada ciência, por conseguinte dentro de seus pressupostos teóricos, como um problema acerca dos objetos de estudo do domínio em questão. Não importam aqui questões sobre se tais problemas correspondem a reais estados de coisa. Basta que eles sejam pensados como reais e tratados como tal.

O que faz um fato corriqueiro se tornar um problema empírico é o fato de alguém, em determinada época, decidir que tal fato merece ser explicado. Um evento pode passar séculos sendo encarado com naturalidade e indiferença e depois, num tempo posterior, tornar-se um problema cognitivamente importante.

Dentre os problemas empíricos, Laudan distingue três tipos: problemas não-resolvidos, problemas resolvidos e anomalias. Os primeiros são aqueles problemas ainda não resolvidos adequadamente por nenhuma teoria. Os problemas resolvidos são aqueles problemas já resolvidos adequadamente por alguma teoria e as anomalias são problemas que uma determinada teoria não resolveu e que, no entanto, já foram resolvidos por uma teoria rival.

Os problemas não-resolvidos contam somente como problemas genuínos e de importância quando eles são resolvidos. Até então, eles são somente potencialmente problemas para as teorias. Isso se deve ao fato, observado muitas vezes na história da ciência, de não se poder prever a priori a qual domínio de teorias um fenômeno pertence. 

Até que seja solucionado adequadamente por alguma teoria T, não se pode dizer com certeza que um problema não-resolvido P deve ser resolvido por uma teoria da química, da física ou da biologia. Não se podendo determinar a priori de quem é a responsabilidade de resolvê-lo, o problema não ameaça a nenhuma teoria.

Se um problema só conta como tal quando ele é resolvido por alguma teoria, quando um problema pode ser considerado como resolvido?


"(..) podemos afirmar que um problema empírico está resolvido quando, dentro de um contexto particular de pesquisa, os cientistas não o encaram mais como uma questão não respondida, isto é, quando eles acreditam que compreendem porque a situação proposta pelo problema é do jeito que é."


Além do que foi dito, para Laudan os problemas resolvidos têm ainda três importantes características. Primeiramente, as soluções para os problemas são sempre aproximativas, variando o graus de aproximação de ciência para ciência. Por exemplo, o grau de discrepância aceitável entre as predições e os dados serão maiores em domínios como os da cosmologia e menores em domínios cotidianos da mecânica newtoniana.

Em segundo lugar, é irrelevante se as soluções para os problemas são verdadeiras ou falsas. Basta para que uma teoria T seja vista como uma solução adequada para um problema P se de T possamos inferir P como conclusão. E, por último, as soluções serão sempre impermanentes. Ou seja, o que conta hoje como uma resposta adequada ao problema P pode no futuro ser considerada inadequada.

Tradicionalmente as anomalias têm sido vistas como motivos sérios para o abandono das teorias que as exibem. Entretanto, desde a crítica Duhem/Quine, sabe-se que a existência de anomalias não necessariamente exige o abandono da teoria. Uma teoria é composta de outras teorias das quais se derivam dedutivamente predições. Se as predições se revelam falsas, não é possível determinar qual das teorias componentes é a culpada.

Por outro lado, os próprios dados experimentais que refutam a teoria em teste são, eles mesmos, frutos de teorias. Assim, sua confiablidade não é total. Se a teoria T é refutada pelos dados experimentais, o problema pode estar nos dados e não em T. Diante disso, Laudan propõe que a existência de anomalias numa teoria T faz nascerem dúvidas sobre ela, mas não obrigam o abandono de T.

Todavia, a inconsistência lógica entre teoria e observação está longe de ser (como foi tradicionalmente considerada) a única forma de anomalia. Uma das mais importantes espécies de anomalia são aquelas em que uma teoria T, embora consistente com resultados observacionais, não é capaz de resolver um problema já solucionado por uma teoria rival no mesmo domínio. Qualquer problema empírico resolvido por uma teoria T se tornará uma anomalia para qualquer teoria do mesmo domínio que não o consiga solucionar. 

Assim, o peso de resolver uma anomalia será grande na avaliação crítica de uma teoria. Se um problema P for uma anomalia para uma teoria T, a resolução do mesmo se tornará uma tarefa importante para T e, uma vez solucionado, P entra para a lista de sucessos da teoria T.

Se a tarefa das teorias, e da ciência por extensão, é resolver problemas cognitivamente importantes, como avaliar o grau de importância desses problemas? Laudan pretende dar alguns critérios, sugestivos e não exaustivos, para essa avaliação.

O peso e a importância dos problemas empíricos podem variar de um tempo para outro, de época para época. Com o intuito de possibilitar uma avaliação, Laudan fornece alguns critérios. A importância de um problema pode crescer justamente porque ele foi resolvido. O status de problema só se torna evidente quando ele é adequadamente solucionado, pois até aquele momento, não se poderia dizer qual teoria deveria resolvê-lo. Pode-se dizer, inclusive, que é somente após sua solução que o reconhecemos como um problema.

Um problema também pode crescer de importância quando ele é uma anomalia há muito resistente e que é finalmente resolvida; quando são arquetípicos, ou seja, se mostram como instâncias particulares dos problemas considerados básicos em um domínio (problemas de choque entre corpos para teorias cartesianas, por exemplo); quando um problema é considerado mais geral que os outros.

Alternativamente, um problema pode decrescer em importância quando as crenças sobre o que há no mundo mudam e, com elas, os problemas que lhes são próprios; quando um problema passa de um domínio para outro e quando o tipo de problemas considerados básicos em um domínio muda.

Laudan fornece alguns critérios para a avaliação da importância cognitiva das anomalias. Ela varia segundo o grau de discrepância entre as predições e os dados experimentais; segundo o tempo de resistência da anomalia frente às tentativas teóricas de resolução; e segundo a situação comparativa das teorias rivais dentro de um determinado domínio.

Segundo Larry Laudan, a importância dos problemas conceituais foi geralmente ignorada por epistemólogos e historiadores da ciência. Entretanto, o papel desempenhado por tais problemas é, no mínimo, tão importante quanto aquele dos problemas empíricos. Enquanto estes se caracterizam como questões sobre as entidades substanciais constituintes de um determinado domínio, os problemas conceituais se caracterizam como problemas de primeira ordem concernentes aos fundamentos das estruturas conceituais (as teorias).

Os problemas conceituais podem ser internos ou externos. No primeiro caso, quando uma teoria T exibe inconsistências internas (inconsistências lógicas e auto-contradições) ou ambigüidade nas suas categorias básicas. Certamente algum grau de ambiguidade deve ser esperado de qualquer conceito ou termo usados em teorias científicas. Entretanto, o esclarecimento e especificação progressivos desses termos é tarefa das mais importantes na atividade científica.

No segundo caso, os problemas são externos, quando uma teoria T entra em conflito com uma outra teoria qualquer do domínio cujos proponentes consideram-na bem-fundada. Nesses casos, duas teorias podem apresentar inconsistências lógicas entre si, como quando uma teoria mais recente faz afirmações que desafiam as afirmações de uma teoria mais antiga, bem-fundada e universalmente aceita.

Um outro caso comum de problema conceitual é quando duas teorias não são incompatíveis, mas cuja adoção de uma torna a outra implausível. Geralmente isso se dá quando uma teoria T, embora compatível com T1, afirma mais que esta, sendo portanto mais plausível a aceitação de T do que a aceitação de T1.

Também há o caso em que duas teorias são meramente compatíveis. Uma teoria química que somente seja compatível com a mecânica quântica sem, no entanto, utilizar nenhuma categoria teórica da última, torna-se suspeita.

Com tudo o que foi dito acima, resta uma questão importante: quais as fontes dos problemas conceituais? Se isso não for determinado, qualquer teoria científica pode ser impugnada por não se coadunar com alguma crença qualquer. Segundo Laudan, existem três tipos de dificuldades que podem, legitimamente, gerar problemas conceituais.

O primeiro deles nasce de dificuldades intra-científicas e se dá quando duas teorias estão em conflito. Quando isto acontece não há regras para definir de antemão qual das duas deverá ser eliminada. A suspeita é igualmente partilhada entre as duas e nada obriga o cientista a abandonar uma das teorias que constitui o par. A inconsistência somente indica que há ali motivos para se considerar a possibilidade de abandono de pelo menos uma das duas teorias.

O segundo tipo diz respeito aos problemas nascidos de dificuldades normativas. Eles surgem quando uma teoria infringe as regras metodológicas esposadas por uma determinada época. Na maior parte das vezes, o trabalho é de reconciliar a teoria com a metodologia, embora em muitos casos, ao contrário, são as metodologias que acabam por se coadunar com as teorias.

Por fim, o terceiro tipo de problemas conceituais nasce quando uma teoria está em conflito com algum aspecto relevante de nossa comum visão de mundo. Essas dificuldades se dão não mais, como nos dois casos anteriores, no interior a ciência, mas sim em um campo de discussão que extrapola o âmbito científico. Assim, teorias podem entrar em conflito com nossas crenças não-científicas que vão desde a metafísica, a lógica, a ética até a teologia.

Como no caso dos conflitos entre teorias científicas, quando a suspeita recaía sobre todas as teorias envolvidas, também no caso de conflitos entre teorias científicas e crenças não-científicas a suspeita será compartilhada por todas as visões envolvidas.

Não há, de antemão, nenhum privilégio a ser dado, como se poderia imaginar, à teorias científicas. A avaliação desse conflito deverá levar em conta o quão entranhada uma crença está em nossa visão de mundo como também o aumento de nossa capacidade de resolução de problemas.

Laudan afirma que os problemas conceituais, em geral, são mais sérios que os problemas empíricos. Isto se deve ao fato de que problemas empíricos são mais fáceis de solucionar do que os problemas conceituais. E a importância desses problemas varia de acordo com a confiabilidade que se tenha em cada uma das teorias em conflito, com o estado comparativo das teorias no momento e com a idade do problema conceitual.

Para sumarizar suas idéias acerca dos problemas científicos, Larry Laudan aponta para uma forma, ainda que aproximativa de como um modelo de progresso científico deve ser. Segundo tal modelo, o problema resolvido – seja empírico ou conceitual – é a unidade básica do progresso científico e maximizar o escopo de problemas empíricos resolvidos, minimizando ao mesmo tempo o escopo de anomalias e problemas conceituais, é o objetivo da ciência.

Para acentuar a importância dos problemas conceituais no modelo acima descrito, Laudan afirma que pode haver progresso sem crescimento de solução de problemas empíricos e que a troca de uma teoria por outra pode ser regressiva mesmo que o número de problemas empíricos resolvidos cresça se, na troca, apareçam mais anomalias e problemas conceituais do que aqueles que a teoria antiga apresentava.

As redes de proposições que usualmente chamamos de teorias devem ser distinguidas em duas categorias. A primeira delas se refere às teorias particulares cuja avaliação se dá segundo sua adequação enquanto soluções para problemas empíricos e conceituais. Podemos citar a título de exemplo, uma teoria que tente explicar o comportamento dos ursos no acasalamento. O segundo tipo se refere à maxi-teorias de maior generalidade, menor testabilidade e caracterizadas como um conjunto de doutrinas ou asserções. Como exemplo, podemos citar o darwinismo.

As tradições de pesquisa não se restringem ao campo científico. Elas estão presentes também na filosofia, na teologia, na ética, na psicologia em toda e qualquer disciplina intelectual. Toda tradição de pesquisa tem um certo número determinado de teorias que a exemplificam e parcialmente a constituem.

Ao mesmo tempo, elas exibem um conjunto de asserções e comprometimentos de ordem metafísica e de ordem metodológica que as distingue de outras tradições. Ao contrário das teorias específicas, as tradições se desenvolvem durante longos períodos de tempo e exibem formulações diversas e mesmos contrastantes.

Entre as funções da tradição de pesquisa está aquela de fornecer linhas-mestras para a criação de teorias específicas. Ela diz quais entidades básicas existem em seu domínio e como essas entidades interagem entre si. As teorias específicas deverão explicar os problemas empíricos a partir desses pressupostos e , assim, reduzí-los à ontologia básica da tradição de pesquisa.

A tradição de pesquisa também fornece uma metodologia básica para as teorias específicas que a constituem. Tais pressupostos determinam em que se constituem os métodos de pesquisa legítimos bem como as técnicas experimentais, modos de teste e avaliação teóricos. O conceito de tradição de pesquisa é assim definido por Laudan:


"Uma tradição de pesquisa é uma série de afirmações gerais sobre as entidades e processos em um domínio de estudo e sobre os métodos apropriados a serem usados na investigação dos problemas e na construção das teorias naquele domínio."


As teorias que constituem uma tradição de pesquisa seguem os pressupostos metafísicos e metodológicos dessa tradição. Evidentemente, fugir ou violar esses parâmetros é colocar-se fora dos limites dessa tradição de pesquisa. Laudan aponta para o fato de que isso não é necessariamente ruim, pois grandes revoluções na história científica nasceram justamente por uma quebra, deliberada ou não, dos cânones de determinadas tradições de pesquisa.

A associação de teorias particulares à tradições de pesquisa não significa que essas teorias devam ser homogêneas. Ao contrário, o que mais ocorre é que elas sejam mutuamente inconsistentes, uma vez que cada uma delas representa tentativas, dentro da estrutura daquela tradição, de solucionar problemas e corrigir as teorias predecessoras.

As tradições não são elas mesmas explanatórias, preditivas, testáveis diretamente com são as teorias particulares. No entanto, isso não significa que elas não tenham função no processo de resolução de problemas que é o objetivo maior da ciência. As tradições proverão as teorias específicas com instrumentos necessários para a resolução dos problemas, sejam eles empíricos ou conceituais.

Assim, uma tradição de pesquisa pode ser avaliada através do sucesso na resolução de problemas de suas teorias constituintes. Uma tradição será progressiva se levar a um maior número de problemas resolvidos. Mas, ao avaliá-la deste modo, não estaremos dizendo nada acerca de sua verdade ou falsidade. Estaremos somente avaliando sua capacidade de resolver problemas, sem nos determos no questionamento acerca da veracidade ou falsidade de seus pressupostos metafísicos e metodológicos.

E se uma tradição de pesquisa está estagnada ou não logrou sucesso até o momento, isso não significa que ela deverá ser esquecida para sempre. A decisão de abandoná-la será sempre tentativa, comparativa (escolhem-se outras tradições mais progressivas à disposição) e referente ao tempo da avaliação, não derivando daí nenhuma predição sobre o futuro dessa tradição.

Contudo, as teorias particulares compartilham do destino das tradições que por elas são constituídas. Uma teoria altamente bem-sucedida que se encontra numa tradição de pesquisa estagnada, terá seus méritos serão cobertos pela desconfiança. De forma inversa, uma teoria de poucos frutos pode ser defendida pelo fato de pertencer a uma tradição bem-sucedida na resolução de problemas.

O fato de as teorias particulares serem construídas a partir dos pressupostos metafísicos e metodológicos da tradição de pesquisa a que pertencem não deve levar à idéia de que a relação entre tradição e teorias seja de derivação lógica. As tradições fornecem somente linhas-mestras gerais para a construção de teorias e estas articulam esses pressupostos na busca da solução dos problemas com os quais se defrontam.

Além disso, diversas teorias de uma mesma tradição de pesquisa são mutuamente inconsistentes. Por outro lado, uma mesma teoria pode ser sustentada coerentemente por diferentes tradições.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Os três mundos de Karl Popper



"Nesta filosofia pluralista, o mundo consiste de, pelo menos, três submundos  ontologicamente distintos; ou, como eu diria, há três mundos: o primeiro é o mundo material, ou o mundo dos estados materiais; o segundo é o mundo mental, ou o mundo dos estados mentais; e o terceiro é o mundo dos inteligíveis, ou das idéias no sentido objetivo; é o mundo de objetos de pensamento possíveis: o mundo das teorias em si mesmas e de suas relações lógicas, dos argumentos em si mesmos, e das situações de problema em si mesmas."

KARL POPPER, Conhecimento Objetivo, p.152 (Trad. Milton Amado)

Karl Popper se definia como um filósofo pluralista e em suas obras sempre se opôs às teorias monistas, as quais tentam explicar o real reduzindo sua complexidade a um único elemento ou espécie de fenômenos. Ele se contrapôs, por exemplo, tanto aos “fenomenistas” que tentavam reduzir os objetos físicos à simples impressões sensoriais do sujeito quanto aos chamados “fisicalistas” ou “behavioristas” que defendiam que na realidade só existiam objetos físicos e que todo comportamento humano nada mais é que resposta orgânica à estímulos externos.

Contra essas idéias Popper afirma a sua tese da existência de, pelo menos, três mundos: o mundo 1 é aquele dos objetos físicos exteriores como pedras, árvores e animais. O mundo 2 é aquele dos eventos mentais e o mundo 3 seria aquele dos produtos da mente humana como teorias, hipóteses (sejam elas falsas ou verdadeiras), problemas não-resolvidos e argumentos. O filósofo, em uma fase posterior de sua obra, abre a possibilidade de um mundo 4 para abrigar obras de arte.

Os três mundos acima citados são, segundo Popper, reais, independentes e ontologicamente distintos. O mundo material e o mundo mental pertencem à tradição dualista cartesiana e não oferecem grandes obstáculos para o seu entendimento. Contudo, o mundo 3 (mundo das teorias em si mesmas, dos argumentos em si mesmos e das situações de problema em si mesmas) sustenta particularidades que merecem um esclarecimento mais pormenorizado.

A tese de um mundo 3 tem semelhanças com o mundo das Idéias postulado por Platão. Entretanto, ao contrário das Idéias platônicas imutáveis, eternas e verdadeiras, o mundo 3 popperiano é aquele dos produtos da mente humana, de teorias e hipóteses (verdadeiras ou falsas), problemas e argumentos, que estão constantemente sendo modificados e ampliados pela ação humana e que agem sobre o mundo material através do mundo 2.

Popper defende que o mundo 3 é o mundo do conhecimento objetivo. A formulação popperiana tem raízes nas teses de Bolzano da existência de uma área de “afirmações enquanto tais ” (embora o filósofo não tenha chegado à uma afirmação explícita da realidade de tal área) e, principalmente, no conceito de pensamento em Frege. 

Segundo Frege, é de suma importância a distinção entre os aspectos psicológicos e os aspectos lógicos constitutivos do pensamento. Os aspectos psicológicos dizem respeito aos processos do pensamento subjetivo, enquanto que os aspectos lógicos se referem ao conteúdo informativo do pensamento, ou seja, seu sentido objetivo.

Assim, para Popper, o mundo 3 tem como seus mais importantes habitantes as teorias, argumentos e problemas tomados em seu conteúdo informativo e suas relações lógicas. É este o mundo do conhecimento objetivo, objeto da epistemologia, e é nele que se dará a crítica intersubjetiva. As teorias são expostas por seus proponentes (não importando aqui o processo subjetivo de criação das teses) e julgadas segundo seu conteúdo objetivo.

A grande dificuldade da teoria popperiana é a afirmação da realidade e da autonomia do mundo 3. Popper admite essa dificuldade e, para tornar clara sua concepção, define “real” qualquer coisa que seja capaz de produzir um efeito, direta ou indiretamente, no mundo 1. Ora, claramente as teorias científicas, pertencentes ao mundo 3, têm efeito direto e indireto no mundo 1 e assim podem ser chamadas de reais.

Por outro lado, o mundo 3 é independente dos outros dois mundos. É certo que teorias estão nas mentes dos cientistas (mundo 2),mas ainda assim exibem autonomia com relação a essas mesmas mentes. Por exemplo, ninguém jamais pode determinar todas as possíveis conseqüências lógicas de um teorema da matemática. Elas certamente decorrem necessariamente dos seus axiomas, mas pode levar anos ou mesmo séculos, para que sejam conhecidas e passem a pertencer também ao mundo 2.

Outro exemplo simples oferecido por Popper é o caso dos números primos. Sua existência, embora decorra necessariamente dos números naturais enquanto inventados pelo homem, foi por muito tempo desconhecida dos matemáticos. Quantos são os números primos ou se são infinitos ainda é algo ignorado. Uma vez que tal conhecimento seja alcançado, ele será verdadeiramente uma descoberta, pois podemos dizer que a solução já existia antes de ser encontrada. Os problemas e paradoxos da lógica e da matemática são conseqüências não-pretendidas de teorias do mundo 3 e mostram assim sua autonomia com relação ao mundo 2.

Da mesma forma, as teorias científicas, embora de feitura humana, geram conseqüências não-pretendidas que exibem a autonomia do mundo 3. Diante de uma situação de problema, uma teoria é criada para sua solução e esta solução certamente gera mais questões e problemas que são suas conseqüências não-pretendidas. 

Há um efeito de retrocarga no qual o homem inventa teorias e estas lhe devolvem questões novas nas quais o inventor jamais pensara. Todavia, é dessa forma que o conhecimento objetivo progride, pois os novos problemas demandam novas soluções e estas gerarão novos problemas fazendo com que o mundo 3 esteja sempre em crescimento.

Popper representa o efeito de retrocarga envolvido na evolução do conhecimento através de um esquema simplificado que pode ser denominado de método de conjecturas e refutações ou método de ensaio e de eliminação de erros:

P 1 -> TT -> EE -> P2

onde P1 é o problema do qual se parte, TT são as teorias que pretendem resolver o problema inicial e que são submetidas ao teste; EE é o processo de eliminação dos erros e P2 representa os novos problemas surgidos a partir da solução encontrada. Tal esquema se aplicará, na obra popperiana, não somente ao crescimento do conhecimento objetivo, mas também ao processo de adaptação dos seres vivos ao ambiente.

A interação entre os três mundos se dá na forma como as teorias do mundo 3 influenciam o mundo 1 por meio do mundo 2. Ao contrário do que sustentam os fisicalistas e os behavioristas, há um mundo mental, pois este serve de medium para a interação entre as teorias e o mundo físico. Se a teorias atuam sobre o mundo físico por meio do mundo mental, como parece evidente pelas modificações da realidade impostas pelas idéias humanas, então não restariam argumentos contra a interação corpo-mente. 

O mundo 3 jamais pode ser abarcado em sua totalidade por nenhuma mente humana, ou seja, pelo mundo 2. Ao contrário, ainda que não haja quem leia a solução de um problema matemático ou de uma questão científica publicada em um livro, ainda assim tal solução será parte do conhecimento objetivo. Isto porque o que importa dessa solução é seu conteúdo informativo, suas relações lógicas e os problemas não-pretendidos que gera e estes mantêm-se independentemente do mundo 2.

Popper, por estas razões, defende uma epistemologia sem um sujeito conhecedor, ou seja, uma epistemologia em que a análise e avaliação das sentenças das teorias e hipóteses se dê somente sobre o conteúdo informativo e lógico das mesmas. Ao invés de preocupações subjetivistas acerca de como e em que circunstâncias um determinado sujeito pode dizer “eu sei “ ou “estou pensando ” (questões centrais para a epistemologia tradicional seja racionalista ou empirista), o que importa para o conhecimento objetivo são os problemas em si mesmos e as teorias criadas para solucioná-los. 

Popper propõe um deslocamento das questões epistemológicas de uma posição subjetivista (mundo 2) constituída de estados de espírito e disposições para reagir, para uma epistemologia que se ocupe somente com o conteúdo dos problemas e das teorias em si mesmos (mundo 3).

...

Leia também:


Hilary Putnam sobre a dicotomia fato/valor



“O que estive a defender até aqui poderia ser sumarizado na afirmação de que se 'valores' parecem um tanto suspeitos a partir de um ponto de vista estritamente científico, eles têm, no mínimo, diversos 'cúmplices': justificação, coerência, simplicidade, referência, verdade, e outros termos, todos exibem os mesmos problemas que bondade e gentileza exibem, de um ponto de vista epistemológico. Nenhum deles é redutível a noções físicas; nenhum deles é governado por leis sintaticamente precisas. Ao contrário de abandoná-los todos (o que significaria abandonar as idéias de pensar e de falar), e ao contrário de fazer o que estamos fazendo, que é rejeitar alguns - aqueles que não se encaixam em uma concepção instrumentalista limitada de racionalidade a qual carece ela mesma de justificação intelectual -, nós deveríamos reconhecer que todos os valores, incluindo os cognitivos, derivam sua autoridade de nossa idéia de florescimento humano e de nossa idéia de razão. Estas duas idéias estão interconectadas: nossa imagem de uma inteligência teorética ideal é simplesmente uma parte de nosso ideal de um florescimento humano total e não faz sentido deslocado do ideal total, como Platão e Aristóteles sabiam."

HILARY PUTNAM, Beyond the Fact/Value Dichotomy


Em seu livro Reason, Truth and History, o filósofo da ciência norte-americano Hilary Putnam, tenta mostrar que a pretendida dicotomia positivista entre fato e valor é fundamentalmente errônea. O livro é amplo nos assuntos que aborda, indo desde o problema da referência, passando por uma crítica ao relativismo e ao realismo metafísico , até chegar à concepção de ciência no mundo contemporâneo.

Putnam assevera que ao longo do século XIX desenvolveu-se uma visão na qual os ditos valores morais e éticos foram aos poucos relegados a um segundo plano, preteridos pelos chamados “fatos” da ciência. Essa visão afirmava que os valores são não-objetivos, variam de cultura a cultura (e também de indivíduo a indivíduo!), são objeto de intermináveis e cansativas disputas filosóficas que não chegam perto de um fim e que não podem ser determinados para além de controvérsias.

Por outro lado, os fatos da ciência, principalmente aqueles da Física, são objetivos, gozam de um limitado espaço para controvérsias e alcançavam a concordância geral de todos os homens racionais. Assim, no positivismo lógico, essa visão chega à uma formulação madura, na qual os valores são tidos como “expressões de tendências subjetivas”, e as proposições éticas e metafísicas são relegadas à categoria de pseudoproposições sem sentido.

A tese de Putnam é, grosso modo, a de que sem valores não existem sequer fatos. Nosso critério de aceitabilidade racional depende de um corpo de valores que vão muito além da mera verificabilidade dos fatos empíricos. Em sua crítica, Putnam ataca principalmente a pretensão positivista de reduzir a racionalidade e a ciência a um método formal de verificação de teorias.

O formalismo positivista tinha por objetivo criar um critério verdade científica que estivesse para além de todas as infindas disputas da metafísica e da ética. Entretanto, se considerarmos qual critério de aceitabilidade racional que é revelado ao olharmos o que cientistas e as pessoas em geral consideram racional aceitar, veremos que o que se quer construir é uma representação do mundo que seja instrumentalmente eficaz, coerente, compreensiva e funcionalmente simples.

E um tal sistema de representações é parte de nossa idéia de um florescimento cognitivo humano vigoroso. Só há um mundo empírico, só há mundo, porque há um tal critério de aceitabilidade racional.

Se consideramos os valores como algo acessório, sem assertibilidade e cognitivamente vazios, como sustentar que teorias científicas devem ser coerentes, simples, instrumentalmente eficazes? Acaso coerência, simplicidade e eficácia não são valores? Sem tais valores não existe mundo ou fatos.

A ciência não busca somente teorias universais e verdadeiras sobre fenômenos empíricos, mas teorias verdadeiras e relevantes. Relevância traz consigo uma série de valores e interesses e Putnam defende que não somente nosso conhecimento pressupõe valores, mas que, radicalmente, o que conta como real depende de nossos valores.

Não há um mundo independente de nossos valores cognitivos, há mundo por causa de nossos valores cognitivos. E estes se encontram ligados à idéia do “bem”. Para exemplificar como fatos e valores estão inerentemente imbricados, Putnam considera os significados de palavras como “honesto”. Tomemos uma declaração do tipo:

“Fulano é honesto.”

É possível, sem dúvida, encará-la como uma simples descrição do comportamento manifesto de alguém assim como é possível encará-la como o reconhecimento elogioso de uma virtude num indivíduo. Em ambas, “honesto” significará alguém cujo comportamento se coaduna com os valores morais de uma sociedade, age segundo tais valores, cumpre seus deveres a despeito de suas inclinações pessoais entre outras características.

Consideremos uma sociedade tal cujos valores fossem orientados por uma idéia de “bem” que grosso modo significaria “a maior felicidade para o maior número de indivíduos”. Em tal sociedade, que Putnam apelidou de Super-Benthamites (referência ao utilitarista Jeremy Bentham), não haveria problema em perpetrar atos cruéis se estes pudessem, reconhecidamente, realizar “ a maior felicidade para o maior número de indivíduos“. Certamente nenhum de nós concordaria com tais valores, considerando-os então errados e cruéis.

Vejamos o que aconteceria, no contexto dos Super-Benthamites, com a palavra “honesto”. Alguém honesto em nossa sociedade não poderá contar mentiras ou perpetrar atos cruéis com vistas a realizar “a maior felicidade para o maior número de indivíduos". Entretanto, na sociedade dos Super-Benthamites, isso será possível e justificado moralmente.

O uso descritivo da palavra “honesto” será diferente entre nós e os Super-Benthamites. O mesmo acontecerá com termos como “considerado” e “bom cidadão” por exemplo. O vocabulário disponível aos Super-Benthamites para a descrição de situações de relacionamento entre pessoas será, cada vez mais, diferente daquele disponível a nós.

A imagem do seu mundo humano começará a mudar e, por fim, os Super-Benthamites e nós viveremos em mundos humanos bem diferentes. Nossas descrições dos fatos serão completamente diferentes das deles e nenhum dos lados considerará a representação do mundo humano feita pelo outro como adequada e perspicaz.

A discordância então, não será sobre valores somente, mas sobre fatos também. Seus padrões errados de aceitabilidade racional tornarão seu mundo humano algo radicalmente diverso do nosso a ponto de não poder haver concordância sequer sobre fatos.

O que Putnam defende é que qualquer escolha de um esquema conceitual pressupõe valores. Não se pode escolher um esquema que simplesmente seja uma “cópia” do mundo, pois nenhum esquema conceitual é uma cópia do mundo. A noção mesma de verdade pressupõe e depende de nossos padrões de aceitabilidade racional e estes dependem de nossos valores. A teoria da verdade pressupõe a teoria da racionalidade que, por sua vez, pressupõe a teoria do “bem”.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

John Stuart Mill e o método científico



A obra System of Logic, de 1843, do filósofo utilitarista britânico John Stuart Mill, concentra-se numa discussão sobre os fundamentos do raciocínio indutivo e na sua importância para a experiência e o conhecimento científico-empírico. 

Ao tratar da natureza da lógica, Stuart Mill faz a distinção entre verdades imediatamente conhecidas e verdades inferidas. Estas são os conhecimentos sobre o que não testemunhamos, os acontecimentos da História ou os teoremas matemáticos, enquanto aquelas são nossas próprias sensações corporais e afecções mentais. Do que conhecemos por meio direto de nossa consciência podemos estar certos e seguros.

Entretanto podemos supor que o que achamos ser fruto da percepção direta possa de fato ser fruto de uma inferência. O que percebemos com os olhos é na realidade fruto de inferências tão rápidas e eficientes que delas não nos damos conta. Aqui fica claro a semelhança com o que no século seguinte Popper dirá acerca das observações, a saber, que elas são todas frutos de um processo de que não nos apercebemos por sua eficiência, mas que mostra não haver percepção imediata de nada.

Além disso, Popper dirá que mesmo uma observação singular transcende a experiência, sendo ela também uma teoria. Toda observação usa universais (como “água” e “copo”) e estes ultrapassam a experiência estrita, pois pressupõem um comportamento invariável  (law-like statements).

Toda inferência e descoberta de verdades não evidentes é indutiva e, segundo Mill, podemos definir a indução como a operação para descobrir e provar proposições gerais. Contudo, nem toda proposição geral é uma indução.

A preposição geral “todos os apóstolos eram judeus” não é indutiva, pois todas as suas instâncias estão ao alcance direto da verificação. É um fato contingente que os apóstolos fossem judeus e disso não tiramos nenhuma inferência para eventos futuros. Tais proposições gerais têm apenas um sentido descritivo, enquanto proposições gerais indutivas têm um caráter preditivo forte. Uma indução parte de um número limitado de instâncias observadas para inferir uma generalização de instâncias futuras potencialmente infinitas.

Todo raciocínio indutivo se funda na expectativa de que o futuro se conformará ao passado, ou seja, numa presumida uniformidade da natureza. Stuart Mill defende que este é o axioma geral da indução e que ele mesmo é um exemplo de indução. A uniformidade da natureza é ela mesma uma generalização baseada em outras generalizações anteriores. Só chegaríamos a ela por meio de induções anteriores.

Cremos que o que Stuart Mill está a dizer é que a idéia de uma uniformidade da natureza só se torna consciente para os filósofos após a experiência de muitas induções bem sucedidas. Entretanto, tal idéia, ainda inconsciente, guia a experiência humana quase como uma expectativa. Esta expectativa é confirmada por diversos casos em que, de fato, os fenômenos se comportam regularmente ao longo do tempo.

Isso levaria os homens a pensar indutivamente que, se muitíssimas instâncias observacionais claramente se comportam de forma uniforme, então é porque a natureza como um todo é regular . A questão aqui é que há um sistema de induções que se apoiam mutuamente, o que nos leva ao ponto seguinte: a regularidade geral da natureza é um tecido das regularidades parciais que chamamos de leis.

A regularidade geral da natureza é inferida dos muitos casos de regularidade que são objeto de experiência. Dentre estas existem as que chamamos de leis da natureza. Stuart Mill assevera que leis da natureza são as proposições gerais menos numerosas e mais simples a partir das quais todas as uniformidades poderiam ser inferidas dedutivamente. Dessa forma encontraríamos um sistema coerente de regularidades que poderíamos chamar de natureza, tornando assim clara a idéia de uma uniformidade natural.

Mill também levanta a questão de como podemos rejeitar a afirmação de que há homens com as cabeças embaixo dos ombros e admitir que podem existir cisnes negros. A resposta é que indutivamente sabemos que a possível variação de cores de um animal é bem maior que uma variação anatômica da magnitude de um homem com cabeça embaixo dos ombros. A experiência é critério de si mesma. Sabemos pela experiência quais regularidades são mais inflexíveis e quais menos.

Hume havia dividido o conhecimento humano possível em duas classes distintas: relações de idéias e relações de fatos. A primeira classe diz respeito aos sistemas formais como a matemática e a geometria, onde se opera por simples operações do pensamento, intuitiva e demonstrativamente, com base na necessidade lógica. A segunda classe se refere aos fatos empíricos, fundados na causalidade e na indução.

Stuart Mill realiza uma divisão semelhante onde distingue o que ele chama de fenômenos sincrônicos, exemplificados pelas leis dos números e pela geometria, caracterizados pela certeza e perfeição, e fenômenos sucessivos que são os fatos empíricos, fundados na causalidade e na indução. A causalidade é a base para o conhecimentos dos fenômenos sucessivos e Mill a define como a lei de que todo conseqüente tem um antecedente invariável.

Se todos os fenômenos sucessivos são regidos pela e conhecidos através da causalidade, então deve haver algum método para determinar com alguma certeza se um fenômeno é realmente a causa de outro. Não é necessária muita reflexão para se constatar que a simples sucessão temporal de um fenômeno a outro não é suficiente pra determinarmos uma relação de causalidade entre eles.

Certamente ninguém diria que o dia causa a noite somente pelo fato de que um sucede o outro temporalmente. Isto seria cair na falácia post hoc ergo propter hoc. Stuart Mill sugere cinco métodos para se descobrir se um objeto é causa de outro.

O primeiro deles é o método da concordância que diz que se de diversos casos de um fenômeno investigado eles têm somente uma circunstância em comum, essa única circunstância deve ser a causa ou o efeito do fenômeno. Buscam- se casos em que haja concordância numa dada circunstância mas que difiram em outros aspectos. Entretanto, para Stuart Mill, o método da concordância apenas sugere casos para a aplicação do método da diferença.

O segundo método analisado, sendo o mais importante e mais interessante, é o método da diferença. Uma vez constatada uma regularidade, fazemos um teste no qual deixamos intactas as outras circunstâncias e suprimimos aquela que até agora se comportou regularmente. Se a regularidade for interrompida, teremos determinado uma relação de causa e efeito. O interessante deste método é que ele deve ser usado precipuamente em experiências artificiais. É usado largamente por cientistas em seus laboratórios e fornece, segundo Mill, certeza acerca das relações de causalidade.

Os dois métodos seguintes são um tanto quanto variações dos anteriores e chamam-se método unido de concordância e diferença e método dos resíduos. O primeiro nos diz que se em vários casos em que ocorre um fenômeno eles têm apenas uma circunstância em comum enquanto outros casos onde ele não ocorre só têm em comum a ausência de tal circunstância, esta é o efeito ou a causa do fenômeno. Por sua vez, o segundo nos diz que subtraindo de um fenômeno a parte que indutivamente sabemos ser o efeito de alguns antecedentes , o efeito dos antecedentes restantes é o resíduo do fenômeno.

O quinto método é chamado de método das variações concomitantes e afirma que se um fenômeno varia de maneira específica sempre que outro varia, também de maneira específica, então as variações daquele são causa ou efeito das variações deste.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Popper e a teoria evolucionária do conhecimento



Livro editado pouco antes do falecimento de seu autor em 1994, All Life is Problem Solving é uma coletânea de escritos e conferências de Sir Karl R. Popper que abrange textos da década de setenta até seus últimos anos de atividade intelectual no início dos anos 90.

O livro é dividido em duas partes, a primeira tratando de epistemologia e a segunda de assuntos políticos diversos. Na parte epistemológica, Popper reafirma as suas teses principais sobre a Ciência, suas críticas à indução e aprofunda sua reflexão acerca da biologia e do darwinismo dentro da perspectiva da teoria do conhecimento. 

Na parte política, Popper se detém na avaliação dos principais acontecimentos do final da década de oitenta e início da década de noventa: a queda do muro de Berlim, a reunificação alemã, o fim da URSS e a guerra do Golfo.

Em sua parte epistemológica, o livro apresenta importantes reflexões sobre o papel do darwinismo moderno na sua epistemologia não-indutivista. Os escritos e conferências reunidos nessa primeira parte dão uma visão mais profunda do pensamento popperiano em sua fase mais avançada, marcada pela aproximação com a biologia.

Na presente postagem destacarei alguns temas importantes contidos nessas conferências e artigos sobre epistemologia.


No texto The logic and evolution of scientific theory (1972), Popper reafirma seu modelo do conhecimento pré-científico e científico:

1. o problema ;
2. tentativas de solução ;
3. eliminação dos erros.

Segundo o autor, todos os organismos, da ameba a Einstein, procedem de acordo com tal modelo. Este pode ser interpretado como o esquema da teoria da evolução de Charles Darwin. Para os seres vivos o problema básico como o qual se deparam é o da sobrevivência. Diante de tal problema, acontecem variações na estrutura interna dos organismos por meio de mutações aleatórias nos genes que podem ser encaradas como tentativas de solução para o problema do ambiente. A maiorias delas falha, e os portadores dessas variações mal-sucedidas são eliminados pela seleção natural.

Popper assevera na página 5:

"Minha primeira tese aqui é que a ciência é um fenômeno biológico. A ciência nasceu do conhecimento pré-científico; é uma continuação impressionante do conhecimento do senso comum, o qual pode, por sua vez, ser encarado como uma continuação do conhecimento animal."



O que haveria, então, de distintivo sobre a ciência humana? Qual a diferença entre a ameba e Einstein?

Popper responde: o método crítico. Enquanto a ameba sofre modificações fisiológicas aleatórias advindas de mutação genética, Einstein cria racional e conscientemente teorias e hipóteses linguisticamente formuladas e criticáveis intersubjetivamente. Se as tentativas de solução da ameba são mal-sucedidas, ela morre, enquanto que se as teorias de um cientista falharem, elas morrerão no seu lugar e serão substituídas por outras mais aptas.

Assim, que há de distintivo na ciência é a tentativa racional e linguisticamente formulada de criticar as teorias e hipóteses, onde o que está em jogo é o conteúdo assertivo das mesmas.


Em Notes of a realist on the body-mind problem (1972), Popper reafirma sua tese dos três mundos: o mundo 1 é aquele dos objetos físicos exteriores como pedras, árvores e animais. O mundo 2 é aquele dos eventos mentais e o mundo 3 seria aquele dos produtos da mente humana como teorias e hipóteses, sejam elas falsas ou verdadeiras. Popper abre a possibilidade de um mundo 4 para abrigar obras de arte.

A grande dificuldade é aceitar a realidade e a independência do mundo 3. Popper admite essa dificuldade e, para tornar clara sua concepção, define “real” como qualquer coisa que seja capaz de produzir um efeito, direta ou indiretamente, no mundo 1. Ora, claramente as teorias científicas, pertencentes ao mundo 3, têm efeito direto e indireto no mundo 1 e assim podem ser chamadas de reais.

Por outro lado, o mundo 3 é independente dos outros dois mundos. É certo que teorias estão nas mentes dos cientistas (mundo 2), mas ainda assim exibem autonomia com relação a essas mesmas mentes. Por exemplo, ninguém jamais pode determinar todas as possíveis conseqüências lógicas de um teorema da matemática. Elas certamente decorrem necessariamente dos seus axiomas, mas pode levar anos ou mesmo séculos, para que sejam conhecidas e passem a pertencer também ao mundo 2.

Um exemplo simples é o caso dos números primos. Sua existência, embora decorra necessariamente dos números naturais como concebidos pelo homem, foi por muito tempo desconhecida dos matemáticos. Os problemas e paradoxos da lógica e da matemática são conseqüências não-pretendidas de teorias do mundo 3 e mostram sua autonomia com relação ao mundo 2.

Há interação entre os três mundos, pois as teorias do mundo 3 influenciam o mundo 1 por meio do mundo 2. Ao contrário do que sustentam os fisicalistas e os behavioristas, há um mundo mental, pois este serve de medium para a interação entre as teorias e o mundo físico. 

Se a teorias atuam sobre o mundo físico por meio do mundo mental, como parece evidente pelas modificações da realidade impostas pelas idéias humanas, então não restariam argumentos contra a interação corpo-mente. Popper, contudo, admite que não sabe explicar como agem o cérebro e a consciência um sobre o outro.


Na conferência The epistemological position of evolutionary epistemology (1986), o filósofo austríaco defende que tudo o que sabemos é a priori. O que é a posteriori é a seleção do que temos a priori através do choque de nossas hipótese com o mundo.

Popper considera que Kant foi o primeiro filósofo da tradição a se dar conta da necessidade de um conhecimento anterior às observações para que estas fossem mesmo possíveis. Entretanto, tal conhecimento a priori não é necessariamente válido no sentido da modalidade lógica. Para Popper, esse conhecimento é somente geneticamente válido a priori como uma classe primeira de hipóteses que serão testadas frente ao ambiente.

Mais adiante no texto, Popper propõe um experimento mental acerca da origem da vida. Assumindo-se por hipótese que se pudesse criar vida num tubo de ensaio, Popper assevera que ela teria de se adaptar ao tão pobre ambiente do tubo. Para manter a vida viva (sic) teríamos que fazer modificações em tal ambiente, ou seja, adaptar o ambiente à vida.

Popper então defende que o surgimento da vida em si mesma não garante que para ela haja um ambiente propício. Daí ele pensar que o surgimento da vida pode se ter dado inúmeras vezes sem que houvesse um ambiente que a sustentasse. Desta forma, Popper argumenta, é necessário para que a vida se adapte que ela tenha um conhecimento a priori das constantes naturais. Adaptação é uma forma de conhecimento a priori. A vida antecipa o futuro do ambiente em linhas gerais.

Isso mostra, segundo Popper, que o conhecimento já começa nos primeiros passos da vida. Toda sua teoria (e também o darwinismo) depende de que haja uma homologia entre o conhecimento humano consciente e o “conhecimento” inconsciente dos animais e plantas e da vida em si mesma. Poder-se-ia então considerar as antecipações genéticas dos seres vivos em geral como um conhecimento hipotético a priori do mundo.

Dessa forma, o conhecimento, numa perspectiva biológica, dar-se-ia por um processo ativo de tentativa e erro. Expectativas inatas dos seres vivos seriam expostas ao crivo do ambiente e eliminadas quando se mostrassem errôneas. Popper defende ainda que tal perspectiva refuta o indutivismo, pois a percepção não seria a origem do conhecimento, mas ela mesma seria um processo de tentativas e erros.

Para Popper, tudo o que podemos fazer é comparar nossas expectativas inatas e nossas teorias linguisticamente formuladas com o ambiente externo e eliminar nossos erros. Conhecimento definitivo não é para animais como o homem, mas sim para deuses. Todo nosso conhecimento será para sempre conjectural e provisório.


Na conferência Towards na evolutionary theory of knowledge (1989), Popper divide seu texto em dezenove teses curtas onde reafirma muitos de seus já conhecidos pontos de vista sobre epistemologia evolucionária. 

Eis as teses:


1. Conhecimento tem caráter freqüente de expectativas ;
2. Expectativas têm usualmente o caráter de incerteza conjectural ;
3. O conhecimento, seja animal ou humano, tem caráter hipotético;
4. Embora seja sempre hipotético, muito desse conhecimento é verdadeiro, ou seja, corresponde aos fatos;
5. Podemos distinguir a idéia de verdade da de certeza ;
6. Há muita verdade em nosso conhecimento, mas pouca certeza. O que temos que fazer é julgar nossas teorias e expectativas criticamente;
7. Verdade é objetiva: correspondência com os fatos. (Alfred Tarski)
8. Certeza raramente é objetiva. É, em geral, um sentimento de forte convicção baseado em insuficiente conhecimento, gerando dogmatismo perigoso seja nos meios científicos seja nos meios políticos;
9/ 10 .Animais e plantas têm, no sentido biológico e evolucionário, conhecimento;
11. Organismos têm conhecimento das constantes law-like e do comportamento de longo prazo do ambiente;
12/ 13. Há distinção entre o conhecimento das constantes ambientais de longo prazo e aquelas de curto prazo. Estas se referem mais à vida de organismos individuais e podem mudar com maior velocidade. As constantes de longo prazo dizem mais respeito à sobrevivência da espécie como um todo.
14. Sem um conhecimento a priori das regularidades de longa duração os órgãos sensoriais como os olhos seriam inúteis. Daí Popper conclui que tais órgãos só se formaram por causa desse conhecimento prévio.
15. De um ponto de vista biológico, a tese de que o conhecimento começa nos sentidos é um erro. Nosso aparato biológico é altamente ativo e seletivo sobre o que é no momento biologicamente importante. As expectativas que antecipam as observações são resultado de uma evolução por tentativa e erro e adaptação às constantes de longo prazo do ambiente.
16. O conhecimento das constantes de longo prazo do ambiente precedem o conhecimento das constantes de curto prazo do cotidiano e não podem aquelas ser derivadas destas. As constantes de longo prazo podem ser revisadas, mas as de curto prazo podem somente ser mal-interpretadas.
17. O conhecimento de tais constantes servem para a adaptação dos organismos à seu ambiente.
18. Se a vida só pode sobreviver adaptada ao ambiente, é possível afirmar que o conhecimento é tão antigo quanto a própria vida.
19. Assim, a origem e evolução do conhecimento coincide com a origem e evolução da vida e está intimamente ligada com a origem e evolução do planeta Terra. A teoria da evolução liga conhecimento, e nós mesmos, ao cosmos. 

Popper declara na página 65:


“(...) e assim o problema do conhecimento torna-se um problema de cosmologia." 


Para Popper o problema do entendimento do mundo inclui o conhecimento de nós mesmos e de nosso conhecimento como parte do mundo. E com essas dezenove teses pretende ele resumir sua teoria evolucionária do conhecimento.

sábado, 16 de agosto de 2014

THX 1138



"Increase production.
 Prevent accidents.
 Work hard and buy more.
 Be happy."

"Estou certo disso, respondo por isso, pois me parece que a grande preocupação do homem sempre foi provar a si mesmo que é um homem e não uma tecla de piano!"

FEDOR DOSTOIEVSKI, Notas do Subsolo, cap.VIII



"THX 1138" (1971) foi o primeiro filme dirigido e escrito por George Lucas. A trama apresenta uma sociedade distópica (como todas as utopias quando tentam se realizar) onde seus habitantes - homens, mulheres e crianças - são identificados por um prefixo formado por letras e um sufixo formado por números e vigiados continuamente por policiais-andróides.

A despersonalização do ser humano aparece como o tema central do filme. Nessa sociedade, a única identidade possível é a de um simples código alfa-numérico e todos os movimentos humanos são concebidos, controlados e vigiados a partir de um modelo maquinal, onde toda e qualquer espontaneidade e imprevisibilidade estão ausentes.

Descartes afirmava que o mundo material nada mais era do que uma grande máquina regida por leis mecânicas tendo como contraponto ontológico somente o ser pensante, ente imaterial, sede da razão e da vontade. Não muito tempo depois, La Méttrie formulou a idéia de um homem-máquina.  Desde então, a nova Utopia constituiu-se a partir do ideal de uma sociedade cientificamente regida e estruturada, onde os terrores da irracionalidade humana seriam definitivamente afastados e onde a paz e o progresso seriam finalmente garantidos.

No mundo apresentado no filme, todas as dimensões da vida são destituídas de suas potencialidades propriamente humanas e substituídas por atividades mecânico-impessoais. Não há casamentos, mas um sorteio feito por computadores no qual roommates são escolhidos para coabitarem em apartamentos despersonalizados, assépticos e sem vida. As refeições são sintéticas e o único meio de distração é uma espécie de televisão holográfica que veicula cenas de consumo ou de violência policial, quando não exibe cenas eróticas que servem como estímulo visual para uma máquina de masturbação diretamente ligada ao órgão sexual do espectador.

A sexualidade e o erotismo são esvaziados de seu conteúdo humano e tornados inócuos, assim como o gosto é eliminado pela impessoalidade dos apartamentos brancos e carentes de qualquer decoração e por um cardápio que impede o desenvolvimento de qualquer expressão de gosto culinário. A escolha computadorizada dos roommates impede a liberdade da associação entre os homens.

Ainda assim, há o risco do desenvolvimento de uma ligação afetiva real entre os roommates. Para que isso não aconteça, uma dose determinada de drogas é meticulosamente determinada para cada habitante a fim de controlar qualquer reação emocional. Todos permanecem em um estado emocional e quimicamente equilibrado ao qual o governo - outra instância impessoal que jamais revela seus líderes concretos - considera como felicidade. 

O uso de drogas para controle social já fôra profetizado por Aldous Huxley em seu Brave New World e se tornou um tema constante nas histórias de distopias tecnológicas. No filme de Lucas, as drogas mantém os indivíduos controlados e conformados, entes inteiramente dedicados aos seus trabalhos monótonos e aos seus deveres como consumidores. 

LUH 3417, a roommate mulher de THX 1138, o protagonista, começa a apresentar sintomas de desiquilíbrio emocional. Ela começa a mudar secretamente a ingestão das drogas prescritas e muda igualmente as de THX 1138. Este começa a desenvolver reações emocionais que prejudicam sua concentração em seu perigoso e delicado trabalho em uma usina nuclear que produz policiais-andróides. Preocupado com sua situação, THX 1138 procura ajuda para tentar compreender seu problema.

Ele se dirige à uma cabina-confessionário onde uma imagem de Cristo chamada de OMM 0910 (referência à sílaba sagrada hindu OM)  e uma voz monótona automática repete sempre as mesmas palavras-chave de frio conteúdo motivacional. Mais uma vez, a redução da humanidade ao mecanismo. A religião, expressão de realidades suprassensíveis e de valores que ultrapassam de muito as necessidades meramente mecânicas de uma sociedade tecnologicamente regida e orientada, torna-se mero reforço positivo na máquina da produção tecnocrata.

Liberados das amarras químicas, LUH 3417 e THX 1138 apaixonam-se e têm relações sexuais ilegais, grave infração da ordem estabelecida. Ela propõe uma fuga para o mundo da superfície, mas ele teme e hesita. Inevitavelmente, o Estado onipresente faz sentir sua força repressora e LUH é afastada de THX por um membro do controle central, SEN 5241.

THX 1138 causa um grave acidente na sua fábrica graças às suas inquietações e é por fim preso, julgado e diagnosticado como um portador de desequilíbrio químico incurável. Preso, ele recebe a visita de LUH 3417, fica sabendo que ela está grávida e os dois têm relações sexuais ilegais. Ela é retirada de sua presença e ele é espancado por três policiais-andróides.

Confinado em uma espécie de prisão-limbo onde encontra SEN 5241, THX 1138 decide fugir. SEN 5241 decide acompanhá-lo e durante o caminho encontram SRT 5752, um ator que aparecia em comerciais na tv holográfica e que cansou de ser "um holograma" e que anseia ser "um ser humano". Os três partem e sua fuga é logo percebida e eles passam a ser perseguidos. No caminho, THX descobre que LUH está morta e que seu nome foi designado para um feto em gestação in vitro.

SEN 5241 separa-se de seus companheiros e acaba por descobrir que OMM 0910 não é mais do que uma tela em uma parede em um estúdio abandonado. Desolado, SEN deixa-se por fim capturar pelos policiais-andróides. SRT 5752 e THX 1138 conseguem roubar carros, mas o primeiro acaba por chocar-se contra uma coluna e morre. THX prossegue sua fuga dirigindo-se à superfície. Uma recompensa é fixada por sua captura e policiais-andróides são colocados ao seu encalço. 

Fora dos limites da cidade e ignorando os apelos e advertências dos policiais para que retornasse, THX sobe por uma alta escada até a superfície onde contempla o Sol pela primeira vez em sua vida. THX passa das trevas à luz, da ilusão à realidade, como o prisioneiro da caverna platônica é trazido à contemplação do Sol real que lhe fere os olhos inicialmente, mas que tem o peso e a substância da realidade.

Nesse mito da caverna lucasiano, o controle bioquímico-tecnológico estatal faz as vezes da caverna e LUH 3417 aparece como aquela que liberta THX 1138 de sua ilusão com as sombras. Porque deixou de usar as drogas prescritas, ela conhece a verdade e a revela a THX. E é por ela que a humanidade de THX é reconquistada. É pela emoção, pelo amor, pelo enlace sexual e pela geração de um novo ser que o mundo humano é restaurado. Ainda que para que isso aconteça uma Utopia tenha que ser negada.

O paralelo com a Queda é possível. Um homem e uma mulher em um Paraíso - artificial, contudo - que comem do fruto da árvore do conhecimento e que, sabendo do bem e do mal, são expulsos e condenados à uma vida de suor, de trabalho e de morte. Embora só THX tenha saído do Paraíso, sua expulsão acontece antes, quando ambos começam a sentir o que pode significar a humanidade. 

O desconforto, a dúvida, o desejo, a ambiguidade e, acima de tudo, a liberdade não se coadunam com o equilíbrio artificial e seguro do mundo tecnocrata e parecem apontar para o fato de que ser humano é saber carregar essas fontes perpétuas de desequilíbrio e de insegurança. Não é o entorpecimento químico que realiza o ideal ético de humanidade, pois não é possível ser bom sem a capacidade de não sê-lo e a decisão consciente e livre de sê-lo. É preciso estar acima do pecado por meio da ordenação das potências da alma, não abaixo dele, como um incapaz ou como um animal.

Tal qual o narrador e protagonista de Notas do Subsolo (alguém que vive, como THX, no subterrâneo) havia predito, por mais perfeita e matematicamente ordenada que fosse a sociedade, por mais harmoniosas e organizadas que fossem as vidas dos indivíduos em uma sociedade cientificamente planejada e controlada, por mais atraentes que fossem a segurança e a estabilidade alcançadas pela despersonalização do controle tecnológico, o homem, um dia, iria abrir mão de toda aquela perfeição somente para afirmar-se como aquilo que ele é, um homem. Somente para afirmar sua vontade e sua liberdade. A qualquer preço.