sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Os três mundos de Karl Popper



"Nesta filosofia pluralista, o mundo consiste de, pelo menos, três submundos  ontologicamente distintos; ou, como eu diria, há três mundos: o primeiro é o mundo material, ou o mundo dos estados materiais; o segundo é o mundo mental, ou o mundo dos estados mentais; e o terceiro é o mundo dos inteligíveis, ou das idéias no sentido objetivo; é o mundo de objetos de pensamento possíveis: o mundo das teorias em si mesmas e de suas relações lógicas, dos argumentos em si mesmos, e das situações de problema em si mesmas."

KARL POPPER, Conhecimento Objetivo, p.152 (Trad. Milton Amado)

Karl Popper se definia como um filósofo pluralista e em suas obras sempre se opôs às teorias monistas, as quais tentam explicar o real reduzindo sua complexidade a um único elemento ou espécie de fenômenos. Ele se contrapôs, por exemplo, tanto aos “fenomenistas” que tentavam reduzir os objetos físicos à simples impressões sensoriais do sujeito quanto aos chamados “fisicalistas” ou “behavioristas” que defendiam que na realidade só existiam objetos físicos e que todo comportamento humano nada mais é que resposta orgânica à estímulos externos.

Contra essas idéias Popper afirma a sua tese da existência de, pelo menos, três mundos: o mundo 1 é aquele dos objetos físicos exteriores como pedras, árvores e animais. O mundo 2 é aquele dos eventos mentais e o mundo 3 seria aquele dos produtos da mente humana como teorias, hipóteses (sejam elas falsas ou verdadeiras), problemas não-resolvidos e argumentos. O filósofo, em uma fase posterior de sua obra, abre a possibilidade de um mundo 4 para abrigar obras de arte.

Os três mundos acima citados são, segundo Popper, reais, independentes e ontologicamente distintos. O mundo material e o mundo mental pertencem à tradição dualista cartesiana e não oferecem grandes obstáculos para o seu entendimento. Contudo, o mundo 3 (mundo das teorias em si mesmas, dos argumentos em si mesmos e das situações de problema em si mesmas) sustenta particularidades que merecem um esclarecimento mais pormenorizado.

A tese de um mundo 3 tem semelhanças com o mundo das Idéias postulado por Platão. Entretanto, ao contrário das Idéias platônicas imutáveis, eternas e verdadeiras, o mundo 3 popperiano é aquele dos produtos da mente humana, de teorias e hipóteses (verdadeiras ou falsas), problemas e argumentos, que estão constantemente sendo modificados e ampliados pela ação humana e que agem sobre o mundo material através do mundo 2.

Popper defende que o mundo 3 é o mundo do conhecimento objetivo. A formulação popperiana tem raízes nas teses de Bolzano da existência de uma área de “afirmações enquanto tais ” (embora o filósofo não tenha chegado à uma afirmação explícita da realidade de tal área) e, principalmente, no conceito de pensamento em Frege. 

Segundo Frege, é de suma importância a distinção entre os aspectos psicológicos e os aspectos lógicos constitutivos do pensamento. Os aspectos psicológicos dizem respeito aos processos do pensamento subjetivo, enquanto que os aspectos lógicos se referem ao conteúdo informativo do pensamento, ou seja, seu sentido objetivo.

Assim, para Popper, o mundo 3 tem como seus mais importantes habitantes as teorias, argumentos e problemas tomados em seu conteúdo informativo e suas relações lógicas. É este o mundo do conhecimento objetivo, objeto da epistemologia, e é nele que se dará a crítica intersubjetiva. As teorias são expostas por seus proponentes (não importando aqui o processo subjetivo de criação das teses) e julgadas segundo seu conteúdo objetivo.

A grande dificuldade da teoria popperiana é a afirmação da realidade e da autonomia do mundo 3. Popper admite essa dificuldade e, para tornar clara sua concepção, define “real” qualquer coisa que seja capaz de produzir um efeito, direta ou indiretamente, no mundo 1. Ora, claramente as teorias científicas, pertencentes ao mundo 3, têm efeito direto e indireto no mundo 1 e assim podem ser chamadas de reais.

Por outro lado, o mundo 3 é independente dos outros dois mundos. É certo que teorias estão nas mentes dos cientistas (mundo 2),mas ainda assim exibem autonomia com relação a essas mesmas mentes. Por exemplo, ninguém jamais pode determinar todas as possíveis conseqüências lógicas de um teorema da matemática. Elas certamente decorrem necessariamente dos seus axiomas, mas pode levar anos ou mesmo séculos, para que sejam conhecidas e passem a pertencer também ao mundo 2.

Outro exemplo simples oferecido por Popper é o caso dos números primos. Sua existência, embora decorra necessariamente dos números naturais enquanto inventados pelo homem, foi por algum tempo desconhecida dos matemáticos. A quantidade de números primos era algo ignorado até a demonstração de Euclides provar sua infinitude. Uma vez que tal conhecimento foi alcançado, ele foi verdadeiramente uma descoberta, pois podemos dizer que a solução já existia antes de ser encontrada. Os problemas e paradoxos da lógica e da matemática são conseqüências não-pretendidas de teorias do mundo 3 e mostram assim sua autonomia com relação ao mundo 2.

Da mesma forma, as teorias científicas, embora de feitura humana, geram conseqüências não-pretendidas que exibem a autonomia do mundo 3. Diante de uma situação de problema, uma teoria é criada para sua solução e esta solução certamente gera mais questões e problemas que são suas conseqüências não-pretendidas. 

Há um efeito de retrocarga no qual o homem inventa teorias e estas lhe devolvem questões novas nas quais o inventor jamais pensara. Todavia, é dessa forma que o conhecimento objetivo progride, pois os novos problemas demandam novas soluções e estas gerarão novos problemas fazendo com que o mundo 3 esteja sempre em crescimento.

Popper representa o efeito de retrocarga envolvido na evolução do conhecimento através de um esquema simplificado que pode ser denominado de método de conjecturas e refutações ou método de ensaio e de eliminação de erros:

P 1 -> TT -> EE -> P2

onde P1 é o problema do qual se parte, TT são as teorias que pretendem resolver o problema inicial e que são submetidas ao teste; EE é o processo de eliminação dos erros e P2 representa os novos problemas surgidos a partir da solução encontrada. Tal esquema se aplicará, na obra popperiana, não somente ao crescimento do conhecimento objetivo, mas também ao processo de adaptação dos seres vivos ao ambiente.

A interação entre os três mundos se dá na forma como as teorias do mundo 3 influenciam o mundo 1 por meio do mundo 2. Ao contrário do que sustentam os fisicalistas e os behavioristas, há um mundo mental, pois este serve de medium para a interação entre as teorias e o mundo físico. Se a teorias atuam sobre o mundo físico por meio do mundo mental, como parece evidente pelas modificações da realidade impostas pelas idéias humanas, então não restariam argumentos contra a interação corpo-mente. 

O mundo 3 jamais pode ser abarcado em sua totalidade por nenhuma mente humana, ou seja, pelo mundo 2. Ao contrário, ainda que não haja quem leia a solução de um problema matemático ou de uma questão científica publicada em um livro, ainda assim tal solução será parte do conhecimento objetivo. Isto porque o que importa dessa solução é seu conteúdo informativo, suas relações lógicas e os problemas não-pretendidos que gera e estes mantêm-se independentemente do mundo 2.

Popper, por estas razões, defende uma epistemologia sem um sujeito conhecedor, ou seja, uma epistemologia em que a análise e avaliação das sentenças das teorias e hipóteses se dê somente sobre o conteúdo informativo e lógico das mesmas. Ao invés de preocupações subjetivistas acerca de como e em que circunstâncias um determinado sujeito pode dizer “eu sei “ ou “estou pensando ” (questões centrais para a epistemologia tradicional seja racionalista ou empirista), o que importa para o conhecimento objetivo são os problemas em si mesmos e as teorias criadas para solucioná-los. 

Popper propõe um deslocamento das questões epistemológicas de uma posição subjetivista (mundo 2) constituída de estados de espírito e disposições para reagir, para uma epistemologia que se ocupe somente com o conteúdo dos problemas e das teorias em si mesmos (mundo 3).

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2 comentários:

David Sousa disse...

Olá. O texto e o seu blog são bastante interessantes, sempre acompanho as atualizações. Gostaria de fazer um comentário acerca deste texto.

É dito que "Quantos são os números primos ou se são infinitos ainda é algo ignorado". Mas isto não é verdade. O fato de que existem infinitos números primos é conhecido desde a Antiguidade. A prova deste resultado deve-se a Euclides. Veja mais em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teorema_de_Euclides

Rogério da Costa disse...

Olá, David!

Muito obrigado pela correção!

Acertarei o texto. Reli as passagens de Popper sobre os primos e constatei que o erro foi meu.

Abraço!