sábado, 16 de agosto de 2014

THX 1138



"Increase production.
 Prevent accidents.
 Work hard and buy more.
 Be happy."

"Estou certo disso, respondo por isso, pois me parece que a grande preocupação do homem sempre foi provar a si mesmo que é um homem e não uma tecla de piano!"

FEDOR DOSTOIEVSKI, Notas do Subsolo, cap.VIII



"THX 1138" (1971) foi o primeiro filme dirigido e escrito por George Lucas. A trama apresenta uma sociedade distópica (como todas as utopias quando tentam se realizar) onde seus habitantes - homens, mulheres e crianças - são identificados por um prefixo formado por letras e um sufixo formado por números e vigiados continuamente por policiais-andróides.

A despersonalização do ser humano aparece como o tema central do filme. Nessa sociedade, a única identidade possível é a de um simples código alfa-numérico e todos os movimentos humanos são concebidos, controlados e vigiados a partir de um modelo maquinal, onde toda e qualquer espontaneidade e imprevisibilidade estão ausentes.

Descartes afirmava que o mundo material nada mais era do que uma grande máquina regida por leis mecânicas tendo como contraponto ontológico somente o ser pensante, ente imaterial, sede da razão e da vontade. Não muito tempo depois, La Méttrie formulou a idéia de um homem-máquina.  Desde então, a nova Utopia constituiu-se a partir do ideal de uma sociedade cientificamente regida e estruturada, onde os terrores da irracionalidade humana seriam definitivamente afastados e onde a paz e o progresso seriam finalmente garantidos.

No mundo apresentado no filme, todas as dimensões da vida são destituídas de suas potencialidades propriamente humanas e substituídas por atividades mecânico-impessoais. Não há casamentos, mas um sorteio feito por computadores no qual roommates são escolhidos para coabitarem em apartamentos despersonalizados, assépticos e sem vida. As refeições são sintéticas e o único meio de distração é uma espécie de televisão holográfica que veicula cenas de consumo ou de violência policial, quando não exibe cenas eróticas que servem como estímulo visual para uma máquina de masturbação diretamente ligada ao órgão sexual do espectador.

A sexualidade e o erotismo são esvaziados de seu conteúdo humano e tornados inócuos, assim como o gosto é eliminado pela impessoalidade dos apartamentos brancos e carentes de qualquer decoração e por um cardápio que impede o desenvolvimento de qualquer expressão de gosto culinário. A escolha computadorizada dos roommates impede a liberdade da associação entre os homens.

Ainda assim, há o risco do desenvolvimento de uma ligação afetiva real entre os roommates. Para que isso não aconteça, uma dose determinada de drogas é meticulosamente determinada para cada habitante a fim de controlar qualquer reação emocional. Todos permanecem em um estado emocional e quimicamente equilibrado ao qual o governo - outra instância impessoal que jamais revela seus líderes concretos - considera como felicidade. 

O uso de drogas para controle social já fôra profetizado por Aldous Huxley em seu Brave New World e se tornou um tema constante nas histórias de distopias tecnológicas. No filme de Lucas, as drogas mantém os indivíduos controlados e conformados, entes inteiramente dedicados aos seus trabalhos monótonos e aos seus deveres como consumidores. 

LUH 3417, a roommate mulher de THX 1138, o protagonista, começa a apresentar sintomas de desiquilíbrio emocional. Ela começa a mudar secretamente a ingestão das drogas prescritas e muda igualmente as de THX 1138. Este começa a desenvolver reações emocionais que prejudicam sua concentração em seu perigoso e delicado trabalho em uma usina nuclear que produz policiais-andróides. Preocupado com sua situação, THX 1138 procura ajuda para tentar compreender seu problema.

Ele se dirige à uma cabina-confessionário onde uma imagem de Cristo chamada de OMM 0910 (referência à sílaba sagrada hindu OM)  e uma voz monótona automática repete sempre as mesmas palavras-chave de frio conteúdo motivacional. Mais uma vez, a redução da humanidade ao mecanismo. A religião, expressão de realidades suprassensíveis e de valores que ultrapassam de muito as necessidades meramente mecânicas de uma sociedade tecnologicamente regida e orientada, torna-se mero reforço positivo na máquina da produção tecnocrata.

Liberados das amarras químicas, LUH 3417 e THX 1138 apaixonam-se e têm relações sexuais ilegais, grave infração da ordem estabelecida. Ela propõe uma fuga para o mundo da superfície, mas ele teme e hesita. Inevitavelmente, o Estado onipresente faz sentir sua força repressora e LUH é afastada de THX por um membro do controle central, SEN 5241.

THX 1138 causa um grave acidente na sua fábrica graças às suas inquietações e é por fim preso, julgado e diagnosticado como um portador de desequilíbrio químico incurável. Preso, ele recebe a visita de LUH 3417, fica sabendo que ela está grávida e os dois têm relações sexuais ilegais. Ela é retirada de sua presença e ele é espancado por três policiais-andróides.

Confinado em uma espécie de prisão-limbo onde encontra SEN 5241, THX 1138 decide fugir. SEN 5241 decide acompanhá-lo e durante o caminho encontram SRT 5752, um ator que aparecia em comerciais na tv holográfica e que cansou de ser "um holograma" e que anseia ser "um ser humano". Os três partem e sua fuga é logo percebida e eles passam a ser perseguidos. No caminho, THX descobre que LUH está morta e que seu nome foi designado para um feto em gestação in vitro.

SEN 5241 separa-se de seus companheiros e acaba por descobrir que OMM 0910 não é mais do que uma tela em uma parede em um estúdio abandonado. Desolado, SEN deixa-se por fim capturar pelos policiais-andróides. SRT 5752 e THX 1138 conseguem roubar carros, mas o primeiro acaba por chocar-se contra uma coluna e morre. THX prossegue sua fuga dirigindo-se à superfície. Uma recompensa é fixada por sua captura e policiais-andróides são colocados ao seu encalço. 

Fora dos limites da cidade e ignorando os apelos e advertências dos policiais para que retornasse, THX sobe por uma alta escada até a superfície onde contempla o Sol pela primeira vez em sua vida. THX passa das trevas à luz, da ilusão à realidade, como o prisioneiro da caverna platônica é trazido à contemplação do Sol real que lhe fere os olhos inicialmente, mas que tem o peso e a substância da realidade.

Nesse mito da caverna lucasiano, o controle bioquímico-tecnológico estatal faz as vezes da caverna e LUH 3417 aparece como aquela que liberta THX 1138 de sua ilusão com as sombras. Porque deixou de usar as drogas prescritas, ela conhece a verdade e a revela a THX. E é por ela que a humanidade de THX é reconquistada. É pela emoção, pelo amor, pelo enlace sexual e pela geração de um novo ser que o mundo humano é restaurado. Ainda que para que isso aconteça uma Utopia tenha que ser negada.

O paralelo com a Queda é possível. Um homem e uma mulher em um Paraíso - artificial, contudo - que comem do fruto da árvore do conhecimento e que, sabendo do bem e do mal, são expulsos e condenados à uma vida de suor, de trabalho e de morte. Embora só THX tenha saído do Paraíso, sua expulsão acontece antes, quando ambos começam a sentir o que pode significar a humanidade. 

O desconforto, a dúvida, o desejo, a ambiguidade e, acima de tudo, a liberdade não se coadunam com o equilíbrio artificial e seguro do mundo tecnocrata e parecem apontar para o fato de que ser humano é saber carregar essas fontes perpétuas de desequilíbrio e de insegurança. Não é o entorpecimento químico que realiza o ideal ético de humanidade, pois não é possível ser bom sem a capacidade de não sê-lo e a decisão consciente e livre de sê-lo. É preciso estar acima do pecado por meio da ordenação das potências da alma, não abaixo dele, como um incapaz ou como um animal.

Tal qual o narrador e protagonista de Notas do Subsolo (alguém que vive, como THX, no subterrâneo) havia predito, por mais perfeita e matematicamente ordenada que fosse a sociedade, por mais harmoniosas e organizadas que fossem as vidas dos indivíduos em uma sociedade cientificamente planejada e controlada, por mais atraentes que fossem a segurança e a estabilidade alcançadas pela despersonalização do controle tecnológico, o homem, um dia, iria abrir mão de toda aquela perfeição somente para afirmar-se como aquilo que ele é, um homem. Somente para afirmar sua vontade e sua liberdade. A qualquer preço.

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