sábado, 6 de junho de 2026
Agostinho de Hipona e o argumento ontológico
domingo, 4 de dezembro de 2022
Leibniz e a reformulação do argumento ontológico
"Denomino Perfeição toda qualidade simples que é positiva e absoluta, ou que exprime sem limite algum tudo aquilo que ela exprime."
G.W. LEIBNIZ, Quod Ens perfectissimum existit
O filósofo, físico e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz escreveu em 1676 um curto texto, Quod Ens perfectissimum existit, em que apresenta a sua tentativa de reconstrução do famoso argumento ontológico. À época, Leibniz estava retornado de Paris e se aprofundava durante o caminho nas obras de René Descartes. É nessa viagem que ele se encontra com Baruch Spinoza.
O argumento ontológico, em sua formulação clássica, fora formulado primeiramente pelo pensador medieval Anselmo de Cantuária em sua obra Proslogion. O argumento era a resposta a um pedido de alguns monges que instavam Anselmo a apresentar uma prova puramente racional da existência de Deus. O filósofo apresentou a eles uma demonstração a priori, por pura lógica e sem remissão aos sentidos, da realidade de Deus.
Anselmo diz que "o ser do qual não se pode conceber nada maior" não pode existir somente como um conceito na mente de quem o concebe, pois nesse caso ele não seria "o ser do qual não se pode pensar nada maior". Haveria contradição em afirmar ao mesmo tempo que ao "ser do qual não se pode pensar nada maior" nenhuma perfeição está ausente e que, no entanto, ele não existe. Se não existe, então não é "o ser do qual não se pode pensar nada maior", pois a existência seria uma perfeição que lhe faltaria.
Assim, dada a definição de Deus como o "ser do qual não se pode pensar nada maior", negar sua existência seria uma contradição lógica. O argumento de Anselmo não é um raciocínio no sentido de um encadeamento de premissas das quais se deduz uma conclusão. É uma operação de análise do conceito pela qual se compreende tudo o que nele está implicado logicamente.
Se digo que "todo solteiro não tem sogra", nada mais afirmo do que o que já está implicado no próprio conceito de "solteiro". Do mesmo modo, o argumento anselmiano é menos um argumento do que uma análise do conceito de Deus. Isto é, o próprio conceito de Deus como "o ser do qual não se pode pensar nada maior" inclui logicamente a existência como uma de suas notas.
Descartes, já no século XVII, reformula o argumento em suas Meditações Metafísicas postulando como uma idéia clara e distinta que Deus é o ser soberanamente perfeito e ilimitado e que tudo o que posso demonstrar clara e distintamente de algo pertence necessariamente a esse algo. Um ser perfeito e ilimitado não pode estar privado da existência, pois tal seria uma limitação e uma imperfeição. Então, necessariamente Ele existe.
Há diversas objeções ao argumento ontológico que remontam até ao tempo de Anselmo. O mesmo acontece com as tentativas de sua reformulação. Leibniz tenta reformular o argumento começando por definir o que ele entende como perfeição:
"A Perfeição é toda qualidade simples que é positiva e absoluta, ou que exprime sem limite algum tudo aquilo que ela exprime. Ora, tal qualidade, dado que é simples, é irresolúvel ou indefinível, pois, de outro modo, não seria uma, mas agregado de muitas. Ou, sendo uma, seria circunscrita dentro de limites, contra a hipótese que a colocou como puramente positiva. A partir daí, não é difícil mostrar que todas as qualidades são compatíveis entre elas ou podem estar em um só sujeito.
Cabem aqui alguns comentários interpretativos dessa primeira parte do argumento. O texto de Leibniz se restringe a formular a prova sem esclarecimentos mais detalhados. Mas creio que podemos facilitar sua compreensão. Primeiramente, o filósofo define a Perfeição como uma qualidade simples, absoluta e que exprime sem limites o que ela exprime. Depreende-se disso que a Perfeição é uma qualidade em manifestação infinita.
Tomemos a qualidade "bondade". Segundo a definição acima, se a bondade é perfeita, então ela é infinita. Isto é, a perfeição da bondade não apresenta nenhum limite. Se não há limite, então não há lugar para nada que não seja ela. Sendo assim, onde não há limite, não há o outro, e, portanto, não pode haver multiplicidade, pois o múltiplo exige o limite. Não pode haver uma quantidade qualquer de qualquer coisa a não ser que haja limites que distingam uma coisa da outra.
A bondade infinita é irresolúvel e indefinível. Irresolúvel porque não se reduz a nada que não seja ela mesma. Em outros termos, ela não é composta por nada que não seja ela mesma. Indefinível porque a definição reúne em si o conjunto mínimo de características que fazem de algo o que ele é. A definição encontra e expressa os limites da coisa definida em uma fórmula única. É impossível definir algo sem dizer os seus limites próprios. Consequentemente, uma qualidade infinita é indefinível, posto que não possui limites.
Tendo definido a Perfeição, Leibniz julga que não será difícil mostrar que todas as qualidades são compatíveis entre si ou podem estar todas em um sujeito. Esse passo é crucial para Leibniz avançar na direção da existência de Deus. As qualidades, sendo perfeitas, podem todas estar em um sujeito (no sentido de "em algo") ao mesmo tempo, no mesmo nível e sem contradições? Para responder a essa pergunta, Leibniz apresenta a segunda parte de sua argumentação.
Tomemos a seguinte proposição: A et B são incompatíveis. A e B são qualidades perfeitas no sentido acima definido. Está claro que não se pode demonstrar essa proposição sem a resolução dos termos A ou B ou dos dois. Se for possível demonstrar a verdade dessa proposição, então seria fácil mostrar a incompatibilidade de quaisquer outras qualidades ou dessas mesmas. Mas sabemos que A e B são irresolúveis. Então, não se pode demonstrar essa proposição.
Eis o ponto crucial. Leibniz criticou o argumento de Descartes por ele supor sem demonstração de que todas as perfeiçoes estão em Deus de modo infinito e de que elas não são incompatíveis entre si. O alemão tem que mostrar que é possível que as qualidades não se excluam mutuamente. Para isso, ele apresenta a proposição "A e B são incompatíveis", tendo as letras como representações de qualidades perfeitas. A pergunta, então, é se qualidades infinitas, quaisquer que sejam, podem ser incompatíveis.
O caminho tomado por Leibniz é muito elegante. Ele diz que a proposição "A e B são incompatíveis", se verdadeira, tem de ser demonstrável, posto que não é evidente. Se essa proposição não é conhecida por si, então não é necessariamente verdadeira. Se não é necessariamente verdadeira, é logicamente possível que seja falsa. Isto é, nada impede que a proposição seja falsa. Por isso, é bem possível que qualidades perfeitas não sejam incompatíveis e que estejam todas em um só sujeito.
Nada impede que se conceba um ser no qual estejam presentes todas as qualidades de modo perfeito ou o ser todo perfeito. Donde está claro que ele existe, pois a existência está compreendida entre as perfeições.
Leibniz remove desse modo a dificuldade que encontrara no argumento de Descartes acerca do Ser Perfeito. Basta mostrar que as qualidades perfeitas não são necessariamente incompatíveis para permitir a concepção de um ser que as possua todas. O conceito de um Ser Perfeito não contém contradições, já que aquilo que não é necessariamente impossível é necessariamente possível. Não havendo impedimentos lógicos para a concepção de um ser absolutamente perfeito, é completamente possível afirmar que se um ser é perfeito, ele necessariamente existe.
Mais alguns comentários. O argumento de Leibniz não prova que Deus existe. Somente demonstra que um Ser Perfeito é concebível sem contradições. A presença de todas as qualidades de modo perfeito em um único sujeito é possível, dado que a incompatibilidade não é evidente/necessária. Se uma proposição não é evidentemente verdadeira, não é necessariamente verdadeira. É o mesmo que afirmar que ela pode ser falsa.
Quando digo que "todo solteiro não tem sogra" não necessito de nada além do significado dos termos para saber que ela é verdadeira. A razão disso é que o termo "solteiro" exclui o casamento. Quem não casa não tem sogra. Quando afirmo que "A e B são incompatíveis", sendo A e B perfeições, não digo nada de evidente/necessariamente verdadeiro. Logo, não há necessariamente incompatibilidade entre as perfeições. Significa que a proposição é falsa? Não, significa apenas que pode ser falsa. Significa que é verdadeira? Também não, significa somente que nada impede que ela seja falsa.
A e B são perfeições. Se nada evidente impede a conjunção, pelo menos sabemos que a proposição é possível. Leibniz não desenvolve no texto as razões pelas quais as perfeições não são necessariamente incompatíveis. Há algumas indicações, contudo. Tomemos o fato de que as perfeições, tal como definidas no início do raciocínio, são indefiníveis. Sua indefinibilidade se segue de sua infinitude. Por lógica, algo metafisicamente infinito não pode ser definido justamente porque o que é infinito não possui limites.
Ora, se as qualidades perfeitas são infinitas, elas são indefiníveis. Não resta obstáculo para a compatibilidade entre as qualidades na medida em que sua infinitude as destitui dos limites que as distinguem umas das outras. A incompatibilidade só existe na medida em que a presença de uma parte exclui a presença de outra. A indistinção que se segue da infinitude extingue a presença de partes que se excluiriam.
As qualidades neste mundo não são sempre compatíveis, ou pelo menos não no mesmo grau, por conta de sua finitude. Uma limita a presença da outra. Um exemplo simples disso é a impossibilidade de haver ao mesmo tempo e no mesmo grau a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Se tentamos igualar as coisas, limitamos a liberdade. Se exigimos a fraternidade, limitamos a justiça, e assim por diante.
A totalidade das perfeições pode estar em Deus exatamente porque Nele tudo é uma e só realidade. A simplicidade divina se deve, por assim dizer, à sua infinitude. Deus, sendo infinito, não possui nenhuma limitação em nenhum sentido ou grau. Por isso Ele é simples, sem limites internos ou externos. Nós vemos as qualidades de modo limitado, onde cada uma difere da outra e, em certas situações, elas são incompatíveis entre si. Em Deus, porém, elas são uma e a mesma natureza simples.
Poderíamos enunciar uma lei: todas as infinitudes metafísicas se reduzem à uma unidade puramente simples ou não há e nem pode haver múltiplas infinitudes metafísicas. Na medida em que é perfeita, a qualidade se confunde com o próprio Ser de Deus. As qualidades, então, como definidas por Leibniz, seriam a própria natureza una e simples de Deus.
Como disse anteriormente, Leibniz não realiza esse desenvolvimento no texto a fim de mostrar que poderia haver um caminho para não só afirmar a ausência de incompatibilidade lógica e evidente entre as perfeições, mas também afirmar a necessidade de sua compatibilidade. A argumentação que apresento aqui estaria, creio, em harmonia com a metafísica da natureza divina tanto da tradição platônica (Anselmo de Cantuária, Nicolau de Cusa e Marsilio Ficino), quanto da tradição aristotélica (Tomás de Aquino).
O que percebemos como multiplicidade é em Deus pura unidade. Em certo sentido, poderíamos afirmar que não há perfeições a não ser a natureza divina diversamente captada pelo ser humano com seus limitados meios de cognição. O que é percebido é percebido na medida do percipiente. Desse modo, as perfeições não seriam somente compatíveis, mas seriam necessariamente uma só e mesma natureza divina metafisicamente simples e infinita. A infinitude metafísica poderia estar privada da perfeição da existência?
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domingo, 25 de maio de 2014
Anselmo de Cantuária na Ilha Perdida de Gaunillon
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Nigel Warburton, Anselmo e Aquino
Para mais detalhes: http://oleniski.blogspot.com.br/2013/05/anselmo-platonismo-medieval-e-o.html
O segundo erro importante de Warburton é afirmar que Tomás de Aquino, em sua prova da existência do primeiro motor (Deus), asseverava que "cada coisa que existe e é o que é porque teve um tipo de causa".
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Descartes, ideias e existência de Deus
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Anselmo, platonismo medieval e o argumento ontológico.
“Então comecei a pensar comigo mesmo se não seria possível encontrar um único argumento que, válido em si e por si, sem nenhum outro, permitisse demonstrar que Deus existe verdadeiramente e que Ele é o bem supremo, não necessitando de coisa alguma, quando, ao contrário, todos os outros seres precisam dele para existirem e serem bons.”
SANTO ANSELMO, Proslogion, capítulo II
Anselmo de Canterbury (1033-1109), no capítulo II de sua obra Proslogion, intende formular um argumento que demonstre racionalmente a existência de Deus sem o auxílio da Revelação bíblica. Seguindo Santo Agostinho, o bispo de Canterbury concebe que o valor da filosofia está em auxiliar a compreensão das verdades da fé.
Os intelectuais do século XI tinham em suas mãos somente algumas obras do Órganon de Aristóteles traduzidas para o Latim, e, por isso, em sua maioria, concebiam a filosofia a partir de categorias eminentemente lógico-formais. É a época dos grandes lógicos, como Roscellin e Pedro Abelardo. Não à toa, Anselmo formula um argumento totalmente a priori, ou seja, independente de qualquer apoio ou referência à experiência. Destarte, no argumento ontológico, é pela consideração do significado do conceito de Deus que se chega a conhecer a necessidade da sua existência.
Anselmo, no Proêmio do Proslogion, conta que seus irmãos de vida monástica lhe solicitaram a formulação de uma prova da existência de Deus puramente racional. O seu tratado é dirigido aos que se esforçam para compreender aquilo em que já creem. Fides quaerens intellectum. “A fé busca compreensão”. Não se trata, decerto, de fundar a Fé na Razão, ou seja, de buscar bases estritamente racionais para aquilo em que se crê, mas sim tentar compreender melhor os mistérios da Revelação Divina tanto quanto for possível à inteligência limitada do homem.
“Com efeito, não busco compreender para crer, mas crer para compreender”, assevera o bispo de Canterbury ao final do primeiro capítulo, ecoando o tradicional motto do agostinianismo. Compreender para crer é o caminho do conhecimento das coisas às quais o homem tem acesso por vias naturais. No caso das coisas divinas, porém, é preciso antes crer, receber com fé a Revelação, para só depois buscar o entendimento de seu sentido mais profundo sempre dentro dos limites estritos da compreensão humana.
No capítulo II, Anselmo enuncia a crença comum de que Deus é “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Ora, é um fato inegável que há quem não creia na sua realidade. As próprias Sagradas Escrituras afirmam no Salmo 13 que “o insensato diz em seu coração: não há Deus”. Aparentemente, nada impede a descrença com respeito à existência de Deus.
Contudo, será mesmo assim? Afirmar que Deus não existe é afirmar que Deus só existe como mera ideia ou conceito na mente de quem o afirma ou o nega. É possível, por exemplo, compreender e ter na inteligência diversos conceitos de coisas sem que isso implique que essas coisas existam realmente. Inclusive, podemos compreender um conceito sem saber se aquilo ao qual ele se refere existe de fato extra mentis, ou seja, fora da mente de quem o concebe. Compreendo o conceito de “unicórnio” mesmo sem saber se ele existe ou não.
Todo o argumento de Anselmo está centrado em uma só questão: o “ser do qual não se pode pensar nada maior” pode existir apenas como uma ideia na mente de quem o pensa? Só existem duas respostas possíveis. Ou bem o “ser do qual não se pode pensar nada maior” existe só na inteligência de quem o concebe ou bem o “ser do qual não se pode pensar nada maior” tem uma existência independente de quem o pensa. Silogismo disjuntivo simples: A ou B/ não-B/ logo, A. Tertium non datur.
Anselmo mostra que primeira opção é contraditória. O “ser do qual não se pode pensar nada de maior” não pode existir somente na inteligência de um sujeito qualquer, pois assim ele não seria o “ser do qual não se pode pensar nada de maior”. O que distingue dois seres quaisquer é justamente o fato de que um deles tem uma propriedade que falta ao segundo. É essa falta que traça a fronteira entre um e outro. Se o “ser do qual não se pode pensar nada de maior” tiver alguma limitação, então algo lhe falta. Se algo lhe falta, há outro maior do que ele. Logo, ele não é “o ser do qual não se pode pensar nada maior”.
Não havendo nada maior do que ele, nada - absolutamente nada - pode restringi-lo, limitá-lo, delimitá-lo, contê-lo ou ultrapassá-lo. Nada pode lhe faltar. Na suposição de que lhe faltasse algo, esse algo, o que quer que fosse, pertenceria a um outro que, por isso, seria maior que “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Se nada lhe falta, então não pode lhe faltar a existência. Não existir é estar privado de existência. O unicórnio não existe porque é privado de existência. O que lhe falta é a virtude de ser um ente real extra mentis.
Se o “ser do qual não se pode pensar nada maior” estiver na mente humana da mesma forma que o unicórnio, então ele carece da existência independente de uma inteligência que o pense. Estando privado disso, o “ser do qual não se pode pensar nada maior” será limitado. Mas como pode ser limitado o “ser do qual não se pode pensar nada maior”? Isso seria contraditório.
Não se pode pensar o “ser do qual não se pode pensar nada maior” e ao mesmo tempo negar a ele uma existência extra mentis. Seria tão contraditório quanto definir o homem como “animal racional” e negar em seguida que os homens são racionais. Resta evidente, afirma Anselmo, que o “ser do qual não se pode pensar nada maior” existe verdadeiramente fora da mente de quem o pensa. Logo, a opção que afirmava o contrário disso é absurda e contraditória.
Em suma, se compreendemos o que significa o conceito do “ser do qual não se pode pensar nada maior”, compreendemos também que por necessidade lógica ele deve existir realmente, uma vez que o oposto disso implicaria contradição. Assim sendo, segundo Anselmo, quem nega a existência de Deus o faz por não haver compreendido o conceito do “ser do qual não se pode pensar nada maior” em toda a sua extensão.
Nem todos se convenceram com a argumentação puramente lógica de Anselmo. Um certo monge chamado Gaunillon, embora de forma um tanto confusa, recusou ao argumento o caráter de apoditicidade que seu autor pretendia ter alcançado. Afirmava Gaunillon que se alguém contasse a ele sobre uma ilha perdida que está “repleta de todas as riquezas e delícias e que, apesar de não haver lá nem proprietários nem habitantes supera, em fartura de produtos, todas as terras habitadas pelos homens”, ele compreenderia facilmente o conceito dessa ilha. Mas acharia desarrazoado quem afirmasse que não se podia pôr em dúvida a sua existência, já que, se não existisse, haveria necessariamente uma outra ilha maior do que ela.
Gaunillon fala de uma ilha perdida cuja riqueza ultrapassa a de todas as terras. Como bem apontou Anselmo em sua réplica, isso não equivale logicamente ao “ser do qual não se pode pensar nada maior”. O “ser maior do que todas as coisas” (ou “a riqueza que ultrapassa a de todas as terras”) não é o mesmo que o “ser do qual não se pode pensar nada maior”. Enquanto “ser do qual não se pode pensar nada maior” enuncia a impossibilidade de algum ente ser maior do que ele sob qualquer aspecto, o “ser maior que todas as coisas” afirma apenas que factualmente, porém não necessariamente, ele é maior do que qualquer ente.
Consequentemente, se não se trata de enunciados equivalentes, existência daquilo que é “maior do que todas as coisas” não tem a evidência apodítica que tem a existência do “ser do qual não se pode pensar nada maior”. Quem compreende a apoditicidade do “ser do qual não se pode pensar nada maior”, afirma Anselmo, compreende também que esse ser só pode ser entendido como “o único maior entre todas as coisas”.
Tomás de Aquino não aceitará o argumento anselmiano, e apontará para uma falha que considera crucial: da mera consideração lógica do conceito, não se segue que o conceituado exista na realidade. Haveria, assim, um salto do lógico ao ontológico. Ademais, Anselmo é um platônico e um agostiniano, e concebe o conhecimento a partir da iluminação divina do intelecto que, dessa forma, conhece os inteligíveis, de acordo com o que Agostinho defendia no diálogo De Magistro. Portanto, o conhecimento se dá no contato da alma com a luz do Mestre Interior. Do conceito à coisa.
Tomás é um aristotélico. Para ele, o conhecimento se dá a partir dos dados dos sentidos. O conhecimento é um processo empírico-abstrativo no qual a observação dos entes singulares fornece a matéria com a qual a memória e a imaginação farão surgir certa unidade da experiência. Ao fim, o intelecto agirá abstraindo do objeto todos os seus aspectos particulares e reterá somente aquilo que nele é universal, aquilo que pertence a todas as instâncias de um mesmo tipo. essência das coisas observadas. Da coisa ao conceito.
É evidente, então, que para Tomás qualquer prova da existência de Deus deverá ser a posteriori, ou seja, a partir da experiência sensível. Inferir a existência de algo a partir de seu mero conceito é impossível, já que o próprio conceito só se torna forma ao fim de um longo processo abstrativo que inicia nos exemplares singulares e concretos dados aos sentidos na observação.
Claramente duas teorias sobre o conhecimento humano são opostas na interpretação e no juízo acerca da validade do argumento ontológico. Duas correntes que, de certa forma, repetem e atualizam a oposição clássica entre platônicos e aristotélicos. Cumpre lembrar que esse platonismo de Agostinho e de Anselmo sobreviverá aos conflitos intelectuais da Idade Média e se renovará, por exemplo, na obra de um dos fundadores da filosofia moderna, René Descartes. Este, nas suas Meditações Metafísicas, fará uso de uma versão sua do argumento ontológico anselmiano para provar a existência de Deus, pilar de sua metafísica e de sua física.
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Argumento ontológico: Νεκρομαντεῖον: Argumento ontológico





