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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"Hereditary", liberdade, maldição e ancestralidade

O caráter mais essencial de nossa existência contingente é o fato de que devemos nossa própria existência a outrem, isto é, ao contrário de Deus, não existimos desde sempre e para sempre e não temos em nós mesmos a razão de nossa existência. Não existíamos e passamos a existir e, um dia, não existiremos mais.

Em razão disso, nossa constituição física e psíquica é fruto da combinação de caracteres de nossos ancestrais e parte considerável do que somos está fora completamente de nossa escolha. O que herdamos nos constitui, torna-nos o que somos, mas tudo o que é algo determinado só pode sê-lo na medida em que exibe limites, constrangimentos que definem a coisa no ato mesmo em que restringem todas as outras possibilidades de ser. Não posso ser qualquer outra coisa, somente eu mesmo.

Esse ser que eu sou também exibe um conjunto de possibilidades que pode ou não realizar-se, variando em grau de acordo com as oportunidades externas e as decisões que eventualmente tomo. Nesse cenário, as decisões que nossos ancestrais tomaram também restringem nosso horizonte de possibilidades assim como o expande em outras direções. Em certo sentido, como diriam os gregos antigos, todos estão submetidos à Moira, o lote que lhe cabe no mundo.

Acontece que, aparentemente, o lote de alguns é mais favorável do que o de outros. Não é preciso pensar muito para identificar terríveis circunstâncias herdadas às quais inúmeras pessoas estão submetidas e que fazem o homem questionar a justiça e mesmo o valor da própria existência. Entre as mais comuns fontes de sofrimento, estão as escolhas feitas por nossos pais. 

Obviamente, essas escolhas são inevitáveis, pois as crianças não são capazes de um julgamento responsável acerca da maioria das circunstâncias de sua ainda inexperiente vida. Igualmente óbvio é o fato de que as decisões dos pais podem prejudicar os filhos grandemente, ainda que tomadas na mais pura intenção de realizar o certo e o melhor para seus rebentos. No pior dos casos, tais decisões são tomadas por razões sinistras que destroem as vidas de seus filhos para sempre. 

Qual destino pode ser mais inquietante do que ter a sua vida completamente decidida desde antes de seu nascimento, seja pela imprevisibilidade da Roda da Fortuna ou seja pela decisão de seus genitores ou ancestrais? Esse é caso de Hereditary, certamente o melhor filme de horror de 2018, que apresenta os horripilantes acontecimentos que se abatem sobre uma família após à morte da matriarca.

Desde o início do filme, fica clara a ascendência de Ellen Leigh sobre a família de sua filha Annie (a excelente Toni Collette), pois a película começa com o convite para o funeral da idosa. Tudo girará em torno desse evento e das decisões tomadas por Ellen. Em certo sentido, ela é o centro da trama e a influência maligna que decidirá o destino de todos os envolvidos.

Em seu funeral, Annie faz uma estranha eulogia onde declara que a mãe era uma pessoa difícil e reservada. E acrescenta que não conhece a maioria dos presentes à cerimônia, o que atesta o quanto a mãe tinha uma vida que não compartilhava sequer com sua filha. Esse é um ponto central na trama, pois é justamente o afastamento das duas, mãe e filha, que torna possível o desenrolar ordenado e planejado dos eventos.

Annie é miniaturista, uma artista que cria miniaturas perfeitas de situações cotidianas. O afastamento e o controle caracterizam a profissão de Annie e remetem ao papel de sua mãe na vida de todos à sua volta. Annie vê sua própria vida sob a lente de aumento sem a qual seria impossível criar os diminutos cenários que retratam os diversos acontecimentos passados e presentes de sua família. Note-se que a lente de aumento implica afastamento, mas também observação e controle dos mínimos detalhes. As "vidas" dos bonecos que constrói são controladas de fora pela artista Annie.

O que Annie ainda não sabe é que controle sobre os acontecimentos é justamente aquilo que ela não possui, pois tudo está decidido pelos desígnios sinistros de sua mãe. O que se seguirá é a paulatina perda de controle e de liberdade de todos os membros de sua família e o progressivo desvelamento de um plano com raízes sobrenaturais profundas. Há aí duas hereditariedades, no sentido daquilo que outros decidem sobre nós, uma de ordem natural, a ancestralidade, e outra de ordem metafísica, o poder que certos entes têm sobre o homem.

A mesma tendência artística se manifesta em Charlie, sua filha, que desenha e constrói bonecos, embora em ambos os casos, as obras demonstrem alguma excentricidade. Os desenhos são toscos, feios e apresentam todos os retratados em traços que remetem à loucura ou ao sofrimento. Os bonecos são feitos de materiais incomuns e inadequados que parecem ser torturados para adquirirem as formas que lhes são impostas por Charlie.

Aliás, Charlie parece ser ela mesma uma inadequada. A começar por seu nome masculino, a menina apresenta traços de uma personalidade retraída e ensimesmada, impenetrável e incompreensível.  Ela gosta de isolamento e teima em dormir em uma casa na árvore a despeito das advertências em contrário de Annie. Tudo isso poderia ser atribuído à adolescência, uma fase de mudanças, de meio termo entre a infância e a vida adulta, em que o jovem parece ainda não estar confortável com o próprio corpo e com seu papel no mundo. Mas há algo muito mais sinistro nessa inadequação e que só será revelado no fim do filme.

No funeral de Ellen, olhares estranhos são dirigidos a Charlie, assim como homenagens pouco usuais são feitas ao corpo da avó que é enterrada com um pingente com um símbolo que mais parece um selo. O interessante é que Annie também usa um pingente idêntico, embora não saiba seu significado.  A família, formada também pelo marido de Anne, Steve (o ótimo Gabriel Byrne) e pelo filho mais velho, Peter, retorna ao lar ao fim do funeral.

Obviamente, por mais afastada que estivesse de sua mãe, a morte de um ente próximo é sempre uma situação difícil e Annie tem de lidar com os sentimentos ambíguos que nutre por Ellen em meio ao luto. Ela busca apoio em um  grupo comunitário de enlutados e ficamos sabendo do triste histórico da família. Segundo Annie, sua mãe era bipolar e tinha múltiplas personalidades, seu pai morrera deliberadamente por inanição e seu irmão esquizofrênico se suicidara acusando a mãe de lançar sobre ele as vozes que o atormentavam.

Eis outro sentido da hereditariedade, o que herdamos corporal e fisicamente de nossos ancestrais.  Não pedimos e nem fizemos nada para merecê-lo, mas recebemos, como em uma loteria cósmica, uma série de características deletérias na forma, por exemplo, de doenças ou predisposições a doenças presentes em nossos pais ou em ancestrais mais remotos. Annie, dado o histórico familiar, pode desconfiar que sua saúde mental e a de seus filhos não sejam as melhores.

A própria Annie apresenta episódios de sonambulismo e, a julgar por algumas passagens no filme, também sofreu um surto não muito tempo atrás. Note-se, contudo, que essas doenças, de Annie e de seus pais e irmão, podem ter outro significado. Alterações radicais de ânimo, múltiplas personalidades, sonambulismo, audição de vozes, depressão são encaradas em certos círculos como manifestações espirituais de influência de forças sobrenaturais. E mais, os dois homens da família morrem em circunstâncias trágicas, o pai em um ato de profunda desesperança com a vida e o outro, o irmão, em um ato de desesperada fuga do que acreditava ser a influência nefasta de sua mãe. Doenças mentais os mataram ou a percepção de realidades insuportavelmente sinistras ligadas à Ellen?

O centro da trama, por enquanto,  ainda é Annie e seu luto, mas logo isso mudará e o foco estará na gradativa dissolução de sua própria família. Em certo sentido, há um paralelo entre a tragédia familiar de Ellen e a tragédia familiar de Annie. Ambas serão o vetor da ação demoníaca (a mãe deliberadamente e a filha inconscientemente) e ambas trarão a destruição para os seus, principalmente aos homens.

Charlie tem uma intolerância a amendoim e seu irmão, Peter, ao levá-la a uma festa, deixa-a sem supervisão e a menina come um bolo feito com amendoim. O resultado é um choque anafilático e Peter tenta levá-la a um hospital. No meio do caminho, contudo, com dificuldade de respirar, Charlie coloca a cabeça para fora da janela do carro e é decapitada pelo choque com um poste (que, aparentemente, leva o mesmo selo do pingente de Ellen). O luto que se segue à tragédia expõe e agrava a relação conflitiva que Annie tem com seu filho.

Como era de se esperar, Annie guarda ressentimento contra Peter pela morte de Charlie e o filho sente-se culpado pelo acidente. Graças a um episódio de sonambulismo entremeado por sonhos, o espectador é apresentado a fatos como a tentativa de aborto de Peter, que não aconteceu graças à intervenção de Ellen. Mais ainda, em certo momento do filme, Annie conta que, sonâmbula, havia encharcado seus dois filhos com uma substância inflamável e que estava prestes a incendiá-los com um fósforo aceso quando subitamente despertara de seu torpor. Mais uma vez, a sanidade de Annie pode ser posta em questão ou há aí algum estranho significado oculto?

Steven, o marido e a pessoa mais equilibrada da família, nota a piora no comportamento da esposa e teme que ela esteja próxima de sofrer em algum surto. Com a finalidade de não perturbá-la ainda mais, ele não conta à Annie que recebeu uma ligação da funerária dando conta de uma profanação do túmulo de Ellen. Haverá consequências disso em breve.

Annie, em uma tentativa de retornar ao grupo de apoio de enlutados, é abordada por Joan, uma mulher que alega haver perdido seu neto em um acidente há pouco tempo. Após uma inicial resistência de Annie, as duas  tornam-se amigas e, um dia, Joan confidencia que uma médium conseguira invocar o espírito de seu neto e que ela a ensinara como realizar o ritual de invocação em casa. Annie se deixa convencer, participa de uma sessão conduzida por Joan e recebe desta uma fórmula em língua desconhecida e as instruções para invocar o espírito de Charlie.

É nesse momento do filme que o drama da dissolução de uma família pela dor da perda violenta de um de seus membros dá lugar ao elemento sobrenatural. Annie primeiramente realiza o ritual sozinha e depois, tendo tido sucesso, exige que Steve e Peter participem de uma sessão. O que se segue é uma manifestação espiritual assustadora que, ao final, parece converter-se em algum tipo de possessão temporária de Annie.

O ponto é que, querendo ou não, Annie havia invocado algo que parecia atender pelo nome de Charlie, mas de cuja natureza real ninguém poderia afirmar nada. Se há um mundo de seres espirituais, nada impede que dentre eles haja alguns que possam assumir as identidades dos entes falecidos invocados pelos vivos. Ademais, Annie confessara desconhecer o idioma da invocação, o que aumenta a possibilidade de que aquilo que foi convidado não era o espírito de Charlie.

Peter, enfraquecido pelo remorso e pela culpa, parece estar sendo perseguido por forças ocultas. Ele vê coisas estranhas, entre elas uma luz azulada que se aproxima dele e desaparece. Durante a aula, ele mal consegue prestar atenção ao que é ensinado pelo professor. Mas, para o espectador, o tema das aulas esclarece muito do que acontece durante o filme todo. O professor discute figuras da mitologia e da tragédia gregas, como Hércules e Ifigênia, personagens que têm em comum um destino sobre o qual não tinham responsabilidade direta.

Ifigênia foi sacrificada em Áulis pelo próprio pai, Agamemnon, por exigência de Ártemis, porque ele havia ofendido a deusa ao matar um cervo sagrado. O significado é claro: uma filha morre pelas mãos do pai por exigência de uma potência sobre-humana. Aqui fica claro também que o centro da trama de hereditariedade não era Charlie, mas sim Peter. Ele é a Ifigênia que deverá ser sacrificada por exigência de um deus. E Annie pode ter selado o pacto naquele ritual em língua estranha que ela realizou buscando invocar a filha defunta.

Annie desconfia que pode ter trazido algo sobrenatural naquela séance e decide ir atrás de Joan. Ela não consegue encontrá-la, mas o espectador testemunha que na casa da mulher há um altar com o símbolo estranho do pingente de Ellen assim como uma espécie de trabalho de bruxaria contendo a foto de Peter e vários dos bonecos feitos por Charlie. Além disso, na porta estava um capacho bordado idêntico aos que sua mãe fazia.

Annie volta para casa e revira os pertences da mãe, os quais permaneciam até então intocados em caixas. Lá ela encontra fotos de Ellen com Joan e livros de invocação demoníaca com o estranho símbolo na capa, que ela descobre ser um selo de Paimon, um dos reis do inferno que, em troca de fortuna e de conhecimento, exige um corpo masculino para habitar. Subindo ao sótão, ela descobre, horrorizada, o mesmo símbolo escrito na parece com sangue e o corpo em putrefação da mãe, decapitado, e circundado por velas.

Quando ela tenta queimar o caderno de desenhos de Charlie, que havia usado como forma de ligação com a filha na invocação, Annie começa a pegar fogo. Assustada, pede a Steve que lance o caderno no fogo, mas ele, já desconfiado de que a esposa não estava mais em seu juízo perfeito, recusa-se. Ela toma-lhe o caderno das mãos, lança-o no fogo e é Steve que queima até a morte. Nesse instante, Annie é possuída e, depois, passa a perseguir Peter que, apavorado, refugia-se no sótão.

Lá, ele encontra o mesmo símbolo escrito na parede com sangue, mas, em vez do corpo putrefato de Ellen, está sua foto com os olhos furados. E percebe que sua mãe também está lá, flutuando e cortando a própria garganta com uma corda de piano. Aterrorizado, ele constata que há pessoas nuas na casa observando tudo. Ele se joga da janela e é nesse momento que a luz azulada penetra seu corpo e ele acorda já não mais o mesmo, mas outro. O corpo decapitado de Annie flutua até a casa da árvore na qual Charlie insistia em passar as noites.

Peter (?) se dirige para lá e no caminho há outras pessoas nuas observando tudo. Ele sobe a escada e quando chega na casa encontra uma cena dantesca. Pessoas, algumas nuas e outras vestidas, prostradas em adoração frente a um boneco de madeira segurando um cajado e trazendo no peito o símbolo de Paimon. Prostrados também estavam os corpos decapitados de sua avó e de sua mãe. A cabeça do boneco, contudo, era a cabeça putrefata e coroada de Charlie. E, em uma das paredes, a foto de sua avó com a inscrição "Queen Ellen".

Então uma das adoradoras retira da cabeça de Charlie a coroa e a coloca em Peter e lhe diz que eles haviam corrigido o corpo feminino em que Paimon estava habitando, Charlie, e haviam dado a ele um corpo masculino adequado, Peter. Ele não é mais Peter, mas Paimon, um dos reis do inferno. O filme termina com saudações exultantes dos adoradores prostrados diante de Peter, assim como  estão prostrados diante dele os corpos de sua mãe e de sua avó. O filme termina com uma miniatura da cena, o que indica o caráter de controle de uma potência infernal.

Não há dúvida que Hereditary repete temas de clássicos do horror como Rosemary's Baby. Culto satânico secreto, relação homem-mulher, relação mãe-filho, encarnação do mal no mundo, desconfiança, alucinações, possibilidade de loucura, etc. O filme também pode ser comparado com o excelente The VVitch, onde há igualmente o cerco insidioso de forças demoníacas a uma família, a presença dissimulada de uma convenção de bruxas, a morte dos familiares e o pacto final com as forças do mal.

Por outro lado, simbolicamente, essas forças destrutivas e malignas conjuradas por Ellen podem representar o fardo que todos carregam das escolhas equivocadas de nossos ancestrais bem como da herança genética que se manifesta em doenças, distúrbios psíquicos e tendências deletérias. Fica evidente no filme que a família de Ellen é, de certa forma, amaldiçoada com uma série de problemas físicos e psíquicos. Annie é sonâmbula e parece já ter tido surtos, Ellen era bipolar e tinha múltiplas personalidades, o pai morreu voluntariamente de inanição, o irmão suicidou-se porque ouvia vozes, Charlie era quase autista e era alérgica a certos alimentos e Peter transparece tendências a comportamentos irresponsáveis.

A partir de um ponto de vista racional, a maioria das desgraças da família se deve à grande loteria da Natureza que a uns dá saúde e a outros contempla com desordens mentais e físicas. Não há ninguém a culpar e o que se pode fazer é, quando possível, tentar amenizar os efeitos dessas condições. Nesse caso, o filme aponta para um certo determinismo segundo o qual alguns de nós estamos condenados desde o nascimento seja a repetir os erros de nossos pais e ancestrais remotos, seja a carregar distúrbios psíquicos e físicos igualmente herdados. Como Ifigênia, somos sacrificados por nossos ancestrais e não há nada que possamos fazer quanto a isso.

Cumpre lembrar que Steven, o marido e pai amoroso, é um psiquiatra. Ele representa os meios humanos de lida com essas heranças deletérias, mas, mesmo sendo o mais equilibrado dos membros da família, ele é impotente diante da carreira avassaladora dos acontecimentos e das forças destrutivas que estão em ação ali. Ele hesita, tenta racionalizar e dar alguma ordem ao caos, tenta amenizar os efeitos das manifestações agressivas, procura compreender a esposa e o filho, poupa Annie de notícias que agravariam sua condição. Tudo em vão. Ele acaba sendo uma das vítimas da maldição que assola aquela família. O homem é impotente diante do destino.

Todavia, se mantivermos o elemento demoníaco, o resultado não é menos desalentador. Desde o início, Ellen, e por meio dela, Paimon, estavam no controle de tudo e o desenrolar dos acontecimentos já estava selado. O histórico familiar aparece sob outra luz. O que pareciam doenças e distúrbios psíquicos, provavelmente eram efeitos do pacto demoníaco de Ellen. Suas bipolaridade e múltiplas personalidades, a manifestação de seu conluio com entidades malévolas. A morte por inanição do marido, provavelmente uma reação desesperada à revelação dos laços de Ellen com o oculto e seus planos de encarnação no mundo de Paimon. O suicídio do filho talvez tenha sido uma fuga igualmente desesperada do destino de ser o veículo da vinda do mal ao mundo. E, quem sabe, Annie mesmo não tenha tentado impedir o destino de realizar-se quando quase incendiou os filhos durante um episódio de sonambulismo?

Peter é o receptáculo adequado da hereditariedade do título do filme. Simbolicamente, ele é aquele que é tomado e dominado completamente pelas tendências herdadas a ponto de não ser mais ele mesmo, mas somente o veículo de inclinações subterrâneas que falam e agem por sua boca e por seu corpo. Ele resiste  inicialmente, mas fraqueja e falha ao final. Peter é o símbolo da derrota da afirmação de uma personalidade individual diante das exigências comunitárias e parentais, das forças herdadas que se agitam no interior de cada homem. É a submissão que destrói toda a possibilidade de autodeterminação pessoal.

No fundo, Peter é o não-homem. Nesse sentido, ele harmoniza-se com a tendência moderna de ver no ser humano não um centro racional, moral e autodeterminante, mas somente como o resultado do movimento interno de forças infrarracionais que se manifestam externamente no comportamento e nas ideias dos homens. Nesse caso, Paimon expressa o poder e o controle determinante que essas forças subterrâneas exercem sobre o homem a ponto de curvá-lo a seus "desígnios".

Paimon também representa o conjunto de aspirações e ambições em nome do qual a comunidade não se furta a sacrificar o indivíduo. Os adoradores de Paimon pedem conhecimento, riquezas, bons parentes e a aquiescência de todos os homens às suas vontades. Assim como Agamemnon precisa sacrificar Ifigênia para poder chegar à Tróia e combater os troianos, Ellen e seus seguidores não hesitam em sacrificar Peter para obter o que desejam. O centro valorativo desse culto não está nos ideais transcendentes representados pela Trindade, a qual eles expressamente rejeitam, mas justamente nos bens transitórios oferecidos pelo diabo a Cristo.

Peter é a vítima das escolhas valorativas equivocadas da ancestralidade, seja a comunidade ou seja a família. Isso se expressa não somente pelo culto a um rei do mundo subterrâneo e das forças dissolventes, mas também manifesta-se no boneco que adoram. É uma imagem de madeira sem vida, oca, que imita um homem e cuja cabeça está morta e em estado avançado de putrefação. Sua mão direita aponta para baixo, para os infernos, e sua mão esquerda segura um cajado cuja ponta é também uma mão apontando para a esquerda. À direita de Deus ficarão os eleitos, à esquerda, os réprobos.

O homem-demônio é o resultado final dessas escolhas e dessas tendências ancestrais. E ele é coroado por seus súditos e adoradores e reina sobre eles. Como em Rosemary's Baby, há um nascimento, uma encarnação profana do mal no mundo. No caso de Hereditary, a gestação não é realizada por uma mulher grávida e sim por uma ancestralidade comunitária que decide pelas trevas. Peter não sabe,  mas ele é o vaso de eleição das forças caóticas que o espreitam desde seu nascimento. O mesmo tema da eleição demoníaca aparece recentemente tanto em The VVitch quanto em Kill List.

Há também similaridades com The Antichrist de Lars von Trier, como o trauma da perda de um filho e o luto que a ele se segue desencadeando eventos aterrorizantes que destroem uma família, a relação mãe e filho e a relação marido e esposa, a incapacidade do homem racional (o terapeuta) de lidar com as potências caóticas que se manifestam e acabam por sobrepujá-lo, a afirmação do poder de uma certa ancestralidade sobre os atos humanos, entre outros aspectos sobre os quais não comentarei aqui.

Cabe ressaltar a excelente trilha sonora que, na sequência final do filme, em vez de optar por um tema musical de tensão e de horror, opta por um tema jubiloso, de ascensão espiritual, o que faz o espectador sentir que está diante de um milagre, de um acontecimento portentoso. Essa sensação causa enorme incômodo, pois sabemos que nada ali é divino, não obstante seja, sob certo aspecto, espantoso, maravilhoso. O belo no horror. O contraste entre a trilha e a natureza do evento tem um efeito perturbador que permanece mesmo depois de encerrada a película. É o que se espera de um bom filme de terror.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

"The VVitch" e o cerco insidioso do Mal

“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.”

MATEUS 4:1

The VVitch
(2015) tem como premissa narrativa a história de uma família puritana do século XVII que abandona sua Inglaterra natal em busca de liberdade de culto no Novo Mundo. Devido a divergências teológicas, Will, o chefe da família, abandona a comunidade religiosa a que pertencia levando consigo seus filhos e esposa para uma região inóspita, nos limites de uma densa floresta.

Todavia, no fundo, trata-se de uma história de iniciação demoníaca de Thomasin, a filha mais velha do casal Will e Katherine. A menina, uma adolescente passando pelas transformações e pelos conflitos da puberdade, é insidiosamente cercada pelas trevas e o conjunto de acontecimentos que se seguem constituem o seu progressivo afastamento da luz e a revelação paulatina de sua eleição .

Evidentemente, ela não é destinada à danação, mas só se é tentado por aquilo a que já se está inclinado volitivamente. Se a palavra divina tem que encontrar solo fértil para frutificar, o mesmo acontece com a semente diabólica. O demônio percebe em Thomasin propensões, fraquezas e até virtudes que podem, sob sua ação dissolvente, se converter em rendição pactual ao maligno.

O filme, quando observado do final para o início, mostra uma continuidade de eventos que parecem concebidos e arquitetados por uma consciência cujo objetivo obscuro era afastar Thomasin de todos os laços de proteção natural e torná-la totalmente vulnerável à ação sedutora do mal. É possível perceber, por exemplo, que o início da influência diabólica se dá muito antes do isolamento da família na floresta.

Will, o pai puritano fervoroso, entra em conflito teológico com sua congregação e prefere o exílio à reconciliação com seus pares. Ele crê que a sua interpretação do Evangelho é a correta, e acusa seus juízes de serem falsos cristãos. A autoridade deles não se aplica mais a Will. Os juízes, por seu turno, o acusam do pecado original do anjo caído: orgulho. Obstinado, Will corta sua ligação e de sua família com o corpo de Cristo configurado pela comunidade cristã a que pertenciam.

Isto é, a série de eventos desastrosos se inicia no orgulho e na divisão, as marcas do diabo (diabolos, διάβολος, "o que divide"). Insidiosamente, ele separa a família da comunidade dos homens por meio da teimosia e da arrogância de seu patriarca que não se submete às determinações teológicas de sua congregação. O primeiro laço de proteção natural de Thomasin é cortado.

Will conduz sua família ao isolamento, constrói sua casa em frente a uma inóspita e sombria floresta. Simbolicamente, o afastamento do corpo de Cristo os conduz à proximidade com o indistinto, com o infrahumano, com o mal. A floresta é símbolo daquilo que resiste à ação da forma e da ordem, é o indomado e o rebelde. A resistência à ordem é exemplificada no filme pela tentativa frustrada de Will de fazer uma plantação de milho no lugar.

Inadvertidamente, Will abriu as portas ao perigo espiritual, e quando seu filho recém-nascido desaparece misteriosa e inexplicavelmente sob os cuidados de Thomasin, começa a paulatina dissolução da família. Thomasin afirma que um lobo levou o bebê, mas ela sabe que isso não é verdade. O véu do sobrenatural recai sobre a menina. A crise e a desconfiança se instalam, e Katherine, a mãe, mergulhada em doloroso luto, manifesta seu rancor contra a filha.

Will, amoroso, tenta não culpar Thomasin e chega a vender um cálice de prata da esposa para comprar uma armadilha contra lobos a fim de capturar o animal que matara seu filho recém-nascido. Ele nada conta à sua esposa da venda, e acaba obrigando seus filhos a sustentar uma mentira. E, dizem as Escrituras, o diabo é o pai da mentira.

O medo e o rancor aumentam quando Katherine ousa expressar seu receio de que estejam todos amaldiçoados por terem abandonado a comunidade religiosa da qual faziam parte. O inverno se aproxima, e a fracassada plantação não sustentará a família. Katherine e Will cogitam entregar Thomasin como criada à alguma família de posses. A menina ouve os planos de seus pais e teme por seu destino. Caleb, o filho mais velho, não quer que a irmã vá embora. Mas ele, também na puberdade, confuso e culpado, sente que dirige olhares impróprios à Thomasin.

O casal caçula de irmãos, Jonas e Mercy, acusam Thomasin de bruxaria por conta do desaparecimento do bebê. Estranhamente, afirmam que sabem disso graças a Black Philip, um enorme bode preto mantido no curral. Mais estranho ainda, o casal de crianças, em seus folguedos, entoa repetidamente uma canção sinistra dizendo que Black Philip é rei do Céu e da Terra e tem uma coroa sobre sua cabeça.

Caleb e Thomasin partem para a floresta, mas o rapaz some e só ela retorna. Os pais se desesperam, e, no meio de uma acalorada discussão, Will admite para a esposa que havia mentido sobre a venda do cálice de prata. A desconfiança e o rancor tomam conta do espírito da mãe, já propensa por natureza a superstições e a radicalismos histéricos, e a separam de vez do marido e da filha.

Surpresa, Thomasin encontra Caleb deitado nu e fraco no chão do estábulo. No dia seguinte, a despeito de todas as orações da família, o jovem morre ao fim de um êxtase horripilante que parece misturar influência demoníaca e fanatismo religioso. A mãe sucumbe à dor, e a família já não mais existe. O casal de caçulas torna a acusar Thomasin de bruxaria. O pai suplica à filha que confesse suas feitiçarias.

Thomasin perdera seu irmão protetor, perdera o amor de sua mãe e agora perdia a confiança de seu pai. Acusada pelas crianças, seu isolamento e seu desamparo são quase perfeitos. Ela acusa a dupla de conversar com Black Philip. Transtornado por tantas desgraças, Will tranca Thomasin e os caçulas no estábulo. O corte definitivo dos laços protetores de Thomasin acontece no dia seguinte.

Ela acorda no estábulo destruído. Os animais estão mortos e seus irmãos desapareceram. Will é atacado e morto por Black Philip. Katherine culpa Thomasin por toda aquela desgraça e avança contra a filha. Na luta que se segue, a jovem acaba matando a própria mãe. Thomasin não só está sozinha, sem família e sem laços, mas também se tornara uma matricida. Qual pecado pode ser mais odioso?

Não há esperança de redenção ou de salvação. Nada mais lhe resta. Deus ocultou a Sua face. Desesperada, Thomasin vai até Black Philip que, na forma de um homem sedutor, promete à moça aquilo que o demônio oferece desde o início dos tempos: "Gostarias de viver de modo deleitoso?"

O que uma jovem puritana poderia desejar a não ser aquilo que lhe fora negado desde sempre? Provar o gosto da manteiga, possuir um belo vestido e conhecer o mundo. Considerados em si mesmos, são pedidos medíocres, ingênuos e de curta imaginação. Porém, simbolizam desejos universais. A manteiga representa o prazer imediato dos sentidos. O belo vestido é a vaidade de ser vista e reconhecida por todos. O conhecimento do mundo é o alargamento dos horizontes, a libertação das limitações geográficas, culturais, religiosas e sociais. Em suma, a saciedade, o sucesso e o mundo.

Thomasin aceita a oferta. O pacto foi firmado. O caminho contra-iniciático alcançou seu termo. Black Philip conduz a moça à densa floresta como um hierofante guia o iniciado aos mistérios, e lá Thomasin participa do Sabbath Negro junto com outras mulheres. O filme se encerra com o êxtase coletivo e orgiástico das bruxas levitando em torno de uma fogueira observadas pelo bode negro. Consummatum est.

The VVitch é a história de uma inexplicável eleição diabólica e do fracasso em resistir ao cerco e ao apelo das tentações. Thomasin, ao fim de um processo de privações materiais e afetivas se lança nos braços daquele que oferece abrigo e delícias. Sem dúvida, a antiga serpente enganadora mentiu, e a vida que espera Thomasin é de natureza sub-humana, como ela própria testemunhou quando viu pela primeira vez uma bruxa se alimentando de um animal.

Thomasin é o oposto do Cristo que é conduzido ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jesus rejeita as ofertas do maligno: a saciedade, o sucesso e o mundo. E, mesmo no abandono do Getsêmani, quando todos os laços protetores são rompidos, ele permanece fiel e obediente a Deus até à solidão final da cruz. "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres". O cálice que Cristo aceitou foi simbolicamente vendido pelo pai de Thomasin.

No Antigo Testamento, Jó, que teve os seus bens terrenos retirados por Satanás sob permissão divina, permanece fiel e temente a Deus em meio a todas as suas vicissitudes. No texto sagrado, a ação diabólica coincide com o teste divino na medida em que ambos são oportunidade para a manifestação da virtude do homem santo. Jó a tudo suporta, e sua justiça resplandece por meio das privações. Afinal, como o próprio demônio aponta, não é fácil ser fiel e agradecido a Deus quando tudo vai bem?

Em The VVitch, não há a clareza do teste divino, somente o contínuo despojamento dos bens terrenos por obra do demônio. Deus é a figura onipresente e, não obstante, a mais ausente no filme. Embora tudo na família seja feito para Deus e em seu nome, as orações, os sacrifícios e as súplicas a Ele dirigidas parecem quedar sem efeito algum. O único lampejo da presença celeste ocorre no êxtase de Caleb, quase indistinto dos frêmitos da alucinação febril.

Em certa inversão ontológica, é Deus que aparece como uma sombra diante do protagonismo do demônio. O corrupto, e não o íntegro, o Não-Ser, e não o Ser, parecem constituir o centro desse mundo sombrio e invertido. O destino de Thomasin e de sua família se desenrola com a inevitabilidade de uma cadeia necessária de eventos. A impressão é a de que, desde o início, tudo concorre para a danação de Thomasin. O horror de The VVitch é o horror da inexplicável eleição diabólica.
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Cinema:

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As tentações de Cristo no deserto:

http://oleniski.blogspot.com.br/2012/04/curto-comentario-simbolico-sobre-as.html

Simbolismo do deserto:
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terça-feira, 31 de maio de 2011

A simbologia dos deuses de H.P. Lovecraft

Não é difícil perceber que H.P. Lovecraft é um desesperado. Como Maurice Lévy bem aponta, o escritor de contos fantásticos se sente à vontade somente num mundo onde a maravilha e o espanto ainda estão presentes e não no mundo mecanizado, tecnológico e frio criado pela ciência moderna.

Já mostrei em outro post como para Lovecraft o conhecimento leva ao desespero e à loucura e como seu tema central gira em torno do fascínio fatal e intrinsecamente destruidor e decepcionante da busca intelectual. Seus personagens são sempre estudiosos envolvidos em pesquisas de naturezas diversas que, para sua desgraça, alcançam um vislumbre ainda diminuto do absoluto horror do lugar do homem no universo e da natureza das forças que o regem.

Alguém poderia afirmar que Lovecraft fosse fundamentalmente uma natureza místico-religiosa e que seus cultos imaginários, deuses aprisionados e estudiosos desgraçados representam e revelam uma busca espiritual fracassada da qual o que resta é o sonho irrealizável de maravilhas e portentos.

Lovecraft parece confirmar esse diagnóstico quando confessa que só se interessa por aquilo que sugere a presença de "maravilhas inacreditáveis". Mas talvez essa não seja a história toda. Em diversas culturas e tradições há a simbólica das águas superiores e das águas inferiores. Nas primeiras se encontra a possibilidade de uma união com um princípio superior a toda e qualquer diferença ou determinação. Nelas há a coincidentia oppositorum própria do divino, que se manifesta como arcabouço único e atemporal de todo ser limitado e transitório.

Nas águas inferiores há a possibilidade de uma imersão que se opera pela negação da individualidade num todo que tem ares caóticos e que contempla uma indistinção que é a da mera não-entidade, da dissolução alquímica do enxofre, da perda total daquilo que se é.

Enquanto nas águas superiores a individulidade é integrada plenamente a partir de um princípio supra-individual que funda metafisicamente toda entidade e que, por isso, pode estar acima das determinações sem negá-las ou destruí-las, nas águas inferiores a individualidade é tragada pela indistinção daquilo que só é como mera possibilidade não-efetivada.

O conflito entre essas dimensões pode ser plenamente percebido no símbolo dos deuses e/ou guerreiros solares que combatem serpentes, dragões ou touros. Marduk matando Tiamat, a serpente marinha que é, por vezes, identificada com as próprias águas inferiores; Rá, a divindade solar, desce todo dia às águas inferiores e, Seth, seu aspecto beligerante, mata a grande serpente Apophis; Hércules mata a Hidra de Lerna; Jorge, o Capadócio enfrenta e mata o dragão; Mithra domina e mata o touro, etc...

Em todos esses símbolos (como demonstrou Mircea Eliade em suas obras) apresenta-se a luta constante entre a ordem e o caos, entre o determinante e o determinável, entre a forma e a matéria, entre atualização limitadora e a possibilidade infinita. É o herói/deus solar que traz a determinação que torna possível o mundo, o cosmos. Enquanto possibilidade infinita, a serpente/dragão/touro é indócil, ameaçador porque não tem ainda regra, ordem e limites. Pode ser qualquer coisa, mas só será algo quando for dominada pela força do herói/deus solar que lhe impõe uma conformação determinada.

Dominada, a serpente gera o mundo com tudo o que ele contém. Assim, a serpente é também um símbolo feminino, de geração e de gestação. O que se gesta ainda não é, virá a ser. Contudo, devido a seu caráter de indistinção, a serpente/dragão/mulher/águas inferiores é, ao mesmo tempo, sinal de dissolução, porque tudo o que é, é limitado, é uno e deixa de ser justamente quando perde sua unicidade. Ou melhor, a coisa só é enquanto é limitada e a perda da unidade é a perda de seus limites próprios e o mergulho na indistinção.

Desse ponto de vista, as águas inferiores são símbolo de dissolução e da perda do ser. E os deuses de Lovecraft são deuses das águas inferiores. Cthulhu, o mais conhecido dos Antigos, é um deus exilado das estrelas, ou seja, é um expulso dos infinitos superiores e confinado às profundezas das águas inferiores. Só se comunica por sonhos, na esfera de uma realidade incorpórea, febril e fantasmática.

Os sonhos são reflexos pálidos e desconexos da ordem testemunhada na vigília, apontando simbolicamente para um plano inferior e imitativo da realidade. Os sonhos estão num nível abaixo da consciência total da própria individualidade, apontam para sedimentos psíquicos não racionais e não ordenados, rebeldes às regras da realidade.

Cthulhu vive no fundo dos mares, onde a luz não alcança. É um deus abissal, confinado à indistinção das trevas submarinas. A simbólica das águas profundas e da luz é evidente. Cthulhu é o dragão/serpente intocado pelo poder do deus/herói solar. Seu próprio corpo é apresentado em O Chamado de Cthulhu como algo que tem ares de indistinção. Sua cidade, R'lyeh, confirma essa impressão na medida em que sua estrutura arquitetônica tem toques titânicos.

O infinito matemático, quantitativo, é uma das únicas possibilidades de expressão do infinito conhecidas pela cultura moderna largamente influenciada pelas opções teórico-ontológicas da ciência. Por ser uma mera soma de unidades, elas mesmas limitadas, essa expressão não pode certamente representar adequadamente o infinito que não admite qualquer limite sob qualquer aspecto. Lovecraft usa frequentemente a impressão de infinitude matemática para expressar a grandiosidade dos Antigos, como no caso de Cthulhu, seja para expressar a solidão das vastidões cósmicas na qual o homem some como um ponto que submerge no infinito.

Assim, a magnitude da arquitetura da cidade de R'lyeh repete a simbólica que alcança o efeito da indistinção pela grandeza espacial-matemática das dimensões da cidade perdida. A antiguidade dos deuses aponta para essa mesma direção. Eles eram antes do homem, de éons tão distantes que parecem remontar à indiferenciação primordial.

Por outro lado, a arquitetura da cidade perdida desobedece mesmo às mais fundamentais regras da geometria e da matemática. Outros contos de Lovecraft , como Os Sonhos da Casa das Bruxas, também apresentam esses paradoxos como constitutivos da dimensão sobrenatural.

Aliás, seria melhor dizer infranatural ao invés de sobrenatural. Se o supranatural não nega a ordem - possibilitando sua realização na qualidade de seu fundamento - o infranatural é a acosmia, a negação do cosmos, da ordem e da natureza. Não é à toa que no topo do panteão lovecraftiano esteja Azathoth, o deus estúpido e idiota que deve permanecer dormindo para que não destrua todo o universo.

Lovecraft parece aí reconhecer que para o mundo se manter, o caos deve ser contido e que seu deus supremo é uma negação absoluta de todo e qualquer nível de ordem. É uma negação da própria vida e uma expressão do desejo de se perder numa indistinção dissolvente. Essa dissolução pode vir, por exemplo, de forma menos dramática na transformação do Shoggoth a qual os habitantes de Innsmouth se submetem de bom grado.

Além de viverem para sempre - mais uma vez o símbolo da infinitude meramente matemática -, eles se transformam em criaturas não-humanas, anfíbios híbridos que retornam para o mar para viver com Dagon e Cthulhu. Seres humanos que perdem seu próprio, ou seja, sua humanidade para se tornarem seres indefiníveis, sem categoria, cuja própria existência já é uma subversão da ordem natural. Eles se lançam ao mar, às àguas inferiores para viver nas profundezas abissais dos oceanos. Outra vez o símbolo da indistinção dissolvente.

Aberrações têm o papel simbólico de representar aquilo que resiste à formação, aos limites, ou seja, ao ser algo. Aristóteles já formulava sua teratologia em termos de resistência da matéria à forma. Em termos simbólicos, o monstro, a aberração, é a vitória da serpente sobre o herói/deus solar. É algo cujo ser é ambíguo, não cabendo em uma classe, não realizando plenamente nenhuma natureza. Ser é ser instância e a aberração não instancia nada plenamente.

A mesma ambiguidade se encontra em Yog-Sothoth, a Porta e a Chave. Ele não está no tempo e no espaço, mas em "lugar" entre ambos. É a porta por onde Antigos passaram e por onde passarão de novo. Como ele é a porta e o guardião da porta, seu status é o mesmo do limite. O limite marca o fim da coisa, sua conformação, mas ele mesmo não é nada. A porta não é a casa nem a rua, está entre os dois. Poder-se-ia considerar que a porta marca a entrada da rua tanto quanto a entrada da casa.

Talvez aí se anuncie uma aproximação débil e tímida com a coincidentia oppositorum, mas ela não se completa porque o símbolo escolhido por Lovecraft remete ao não-ser, ao contrário de um princípio supra-individual que não nega as determinações das coisas das quais é o fundamento. O fracasso é confirmado por uma descrição de Yog-Sothoth como um "conglomerado de globos faiscantes", que remete diretamente ao borbulhar de um líquido fervente no qual as bolhas não apresentam nenhuma permanência ou ordem. De novo, acosmia.

Diante de tantas negações da ordem, não será surpresa saber que o "porta-voz" de um desses deuses malditos tem como epíteto o nome de "caos rastejante". Nyarlathotep, de longe o deus mais próximo dos homens, e por isso mesmo o mais horripilante, reafirma a acosmia em seu próprio nome. É o caos, a indistinção dissolvente. Mas é também rastejante, ou seja, preso à terra, outro símbolo equivalente às àguas inferiores.

Ele comunica a desordem e espalha a destruição. Seu perfil sinistro se coaduna perfeitamente com Azathoth, o deus idiota "cujo nome não se deve pronunciar". Note-se que pronunciar é, para diversas tradições, efetivar, tornar real aquilo que é dito. Como se pode tornar real o que é a negação da ordem e do real?

Os estudiosos que entram em contato com tais seres (?) têm como recompensa a destruição física ou mental. Ou são eliminados do ser pela morte ou são mergulhados na dissolução da loucura. Não há escapatória. Eles representam a ordem que se dissolve ante a desordem primordial. São heróis solares invertidos. Perdem a luta contra a serpente/dragão.

Lovecraft demonstra um desejo inequívoco de imersão dissolvente e seus deuses malignos refletem sua incapacidade de abordar o divino a não ser numa perspectiva destruidora do cosmos. Incapaz de afirmar um princípio transcendente supra-individual e assolado pelo isolamento, ele só concebe o infinito em categorias que têm na aniquilação de toda a diferença e na dissolução no difuso caótico seu único resultado.

A obra lovecraftiana seria então um tortuoso elogio das águas inferiores e de profundezas dissolventes que testemunham abismos que estão muito além da prosaica e superficial interpretação psicológica que insiste em reduzir todos os símbolos a meros esquemas psíquicos.
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sábado, 4 de abril de 2009

Lovecraft e o terror do conhecimento

"O homem deve se preparar para adquirir um conhecimento terrificante do Cosmos e do lugar que ele mesmo ocupa no turbilhão do tempo. É necessário pôr-se em alerta contra um perigo secreto bem determinado que, se não ameaça destruir a raça humana inteira, pode infligir aos seus representantes mais aventureiros horrores monstruosos e indefiníveis."

H.P. LOVECRAFT, The Shadow out of Time

Quem quer que já tenha lido boa parte dos contos fantásticos de H.P. Lovecraft terá notado um tema constante que atravessa suas obras: o terror advém do conhecimento. Em seus contos, de alguma forma, todos os estudiosos que se aventuram a conhecer as profundezas da realidade, sejam eles matemáticos, físicos, filósofos, antropólogos, ou mesmo ocultistas e teósofos, encontram ao final de sua jornada somente horror e loucura.

Há em Lovecraft a consciência de que a atividade do conhecimento abre para os olhos humanos o abismo de sua pequenez cósmica e da indiferença essencial do universo. Alguns críticos já salientaram que as obras lovecraftianas têm um sabor de decepção com o rumo mecanicista e desespiritualizado da ciência moderna que culmina na afirmação de um mundo frio e indiferente.

Porém, há algo mais: a convicção de que o conhecimento pode ser tão destruidor que a loucura talvez seja a única alternativa misericordiosa frente a tal horror. Se um dos mais poderosos deuses antigos, Azathoth (cujo nome não se deve pronunciar em voz alta), é um deus cego e idiota que tem de continuar adormecido para não destruir todo o Cosmos, e se seu preposto, Nyarlathotep, é maligno o suficiente para, tomando a forma humana, conceder aos homens o poder de se autodestruírem, então as forças que controlam o universo não são somente indiferentes. Elas são más. 

Deuses dotados de uma vontade maligna, por vezes cega e por vezes intencional, mas sempre detestável e malévola num nível desconhecido ao ser humano. Blasfêmia é um termo usado amiúde por Lovecraft para descrever essas forças. Blasfemo é aquele que, nega ou escarnece de tudo o que consideramos sagrado e certo. Essas forças, por sua própria existência e lugar no universo, escarnecem de nossas mais íntimas e ingênuas convicções sobre o bem e a harmonia cósmica.

O destino humano é, portanto, miserável, e o conhecimento que o revela é maldito em si mesmo. Não seria melhor ter permanecido na era dos mitos e da poesia, da qual Lovecraft tentas vezes manifesta nostalgia? A curiosidade do conhecimento se mostra como uma armadilha que lança seus artifícios insidiosos gradativamente, e que, ao final, guarda somente engano e sofrimento.

Lovecraft parece não haver indicado qualquer solução para esse dilema a não ser, talvez, a rejeição implícita dessa curiosidade que deu azo ao conhecimento que conduz à nossa própria ruína. Talvez seja exagero classificar Lovecraft como irracionalista. Entretanto, ele é certamente um autor que, como diversos outros nos tempos recentes, por meio da literatura, lança dúvidas sombrias sobre as vantagens do conhecimento, e se questiona se, sendo nosso lugar no mundo tão triste e insignificante, talvez não fosse melhor não conhecê-lo.
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