segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

"Trono Manchado de Sangue": ambição, usurpação e o triunfo do mal

"Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas." (Lucas 22:53)

O par homem/mulher simboliza tradicionalmente a pessoa tomada enquanto unidade substancial, como uma inteireza que unifica e dá sentido às potências distintas, porém não separadas, da alma humana. A mulher representa a parte nutritiva e apetitiva, ao passo que o homem representa a parte intelectiva. A ordenação homem/mulher reflete a hierarquia das potências humanas: o intelecto governando a escolha dos bens apetecíveis.

No Éden, Adão é tentado não pela serpente, mas sim por Eva. Ao aceitar a oferta do fruto proibido vinda da serpente, Eva simboliza o apetite humano que se inclina àquilo que considera um bem. O fruto é símbolo de um bem correspondente àquela porção mais básica e menos racional da alma. Não à toa, a serpente é tentadora. É a animalidade que dita a dinâmica dos atos. A mulher, a parte apetitiva, se rebaixa ao nível do animal por haver seguido o desejo por bens tão pedestres.

Contudo, tomados em si mesmos, os bens mais pedestres não são maus. Tornam-se maus somente quando usurpam o lugar dos bens superiores. É o que acontece quando Adão aceita o fruto proibido oferecido por Eva. O princípio intelectivo da alma não mantém a ordenação sadia das potências, mas abaixa-se para provar do bem imediato e pedestre, esquecendo do Sumo Bem (Summum Bonum).

A proibição divina manifesta a hierarquia das coisas. A árvore no Éden, o centro do mundo, ascende simbolicamente como uma escada aos céus. Quando escolhe seus frutos e não seu Criador, o homem prefere os bens pedestres em vez do único Bem verdadeiro. Em razão disso, o homem passa a conhecer a dualidade do bem e do mal. O homem perfeitamente ordenado não conhece o mal porque tudo nele é bom. O mal só aparece no recuo do bem.

O equilíbrio perdido é dificilmente recuperável, e o destino dos seres humanos é a vida no exílio do Éden, fora da perfeição harmoniosa de sua natureza original, porém sempre anelando pelo dia feliz do retorno. Cada homem, então, é um Éden desfeito, tendo em si um Adão e uma Eva desterrados, ansiosos pelo hieros gamos (ἱερός γάμος), o matrimônio sagrado, a conjugação perfeita de suas potências complementares.

O centro do horizonte simbólico de “Kumonosu-jo” (“Trono Manchado de Sangue”), de 1957, filme clássico do grande diretor japonês Akira Kurosawa, encontra-se no casal formado por Lorde Washizu e Lady Asaji que cede ao desejo do fruto proibido que resulta na desventura da Queda. Baseado na tragédia “Macbeth”, de William Shakespeare, a trama sombria do filme segue as linhas gerais da peça clássica do bardo inglês.

Taketoki Washizu (Macbeth), interpretado pelo fantástico Toshiro Mifune, é um guerreiro corajoso e leal que conduz os exércitos de seu daimyo Kuniharu Tsuzuki (rei Duncan) à vitória sobre seus inimigos, revertendo graças à sua audácia uma derrota quase certa. Ao final da batalha, Washizu parte com seu fiel companheiro de armas Yoshiteru Miki para se reunir com o seu senhor.

No caminho, ambos são surpreendidos por uma tempestade e, perdidos, acabam encontrando uma choupana onde uma velha fiandeira os recebe com saudações as mais surpreendentes. A Washizu ela diz que ele será senhor do Castelo do Norte e, depois, senhor do Castelo da Teia de Aranha, onde agora reside seu daimyo Kuniharu Tsuzuki. A Miki a anciã declara que ele será senhor do Primeiro Castelo, e que seu filho será posteriormente o dono do Castelo da Teia de Aranha.

Ao ser ameaçada por Washizu, a velha desaparece tal qual um fantasma (yūrei). Os guerreiros retomam seu caminho pensativos. Chegando ao castelo, são calorosamente recebidos pelo daimyo. Como recompensa, Tsuzuki nomeia Washizu senhor do Castelo do Norte e Miki o mestre do Primeiro Castelo. Ambos se dão conta que a velha misteriosa havia dito a verdade.

A velha fiandeira que prediz o futuro é uma referência às três Moirai (Lachesis, Athropos e Clotho), deusas que fiavam, mediam e cortavam o fio da vida humana na mitologia grega. Elas tecem o destino dos mortais do início ao fim. Nas palavras da anciã, como ficará claro adiante, habita a ambiguidade tradicional das profecias: o que é predito se realiza de uma forma inesperada, frustrando as expectativas e as interpretações daqueles sobre os quais elas versam.

As profecias da velha espectral põem em movimento a roda dos acontecimentos funestos apresentados na trama. No entanto, é ela a causa das desgraças de Washizu? O conhecimento das predições o condenaria a usar todos os meios à sua disposição para realizá-las? Sem dúvida, Washizu já trazia em seu íntimo o desejo de se tornar daimyo. Não poderia ser diferente em se tratando de um guerreiro. Mesmo assim, do desejo ao crime há um grande abismo. Ainda mais se o caminho que conduz ao trono exige a quebra das leis sagradas da lealdade e da hospitalidade.

Nada obriga Washizu a cometer o horrendo crime de matar seu senhor. Ele foi honrado por Tsuzuki com bens largamente condizentes com a sua bravura na guerra. Nada lhe foi tirado. Não existe um Agamemnon para acender a fúria de Aquiles. Nenhum motivo justifica um assassinato covarde que Washizu cometerá em breve. A anciã etérea deu voz ao desejo íntimo do coração de Washizu. Ela, de certa forma, agiu como a serpente que explicitou o desejo tácito do casal edênico. Toda tentação toca em alguma disposição apetitiva já presente no tentado. Washizu quer ser o senhor do Castelo da Teia de Aranha.

Mas nada disso obriga que Tsuzuki deva ser morto. Eis o ponto crucial da tragédia. É aqui que Washizu mostra seu verdadeiro caráter. Sua reação a dois componentes novos na situação determina tanto os rumos da trama quanto o destino de sua alma. Em primeiro lugar, uma oportunidade se apresenta fortuitamente. Tsuzuki, em viagem, vai se hospedar no castelo de Washizu. O guerreiro logo compreende que pode chegar ao trono simplesmente matando seu daimyo durante a noite. Mas ele tem consciência clara da gravidade de tal ato. Hesita.

Então, entra o segundo componente: as palavras de incentivo de sua esposa Lady Asaji. A mulher cobra do marido uma atitude de "verdadeiro homem", insinua que ele é covarde, apresenta todo o esquema do assassinato, o humilha com seu desprezo, instila a desconfiança contra Tsuzuki e alimenta a sua ambição. Washizu, fraco, cede. Lady Asaji usurpou o seu lugar, e Washizu capitulou ante as palavras da cônjuge.

O crime se desenrola segundo o que foi planejado. Asaji embebeda as sentinelas e Washizu penetra livremente nos aposentos de Tsuzuki e o mata. O alarme é soado por Asaji enquanto Washizu, fingindo comoção diante dos outros hóspedes, mata as sentinelas adormecidas antes que pudessem dizer qualquer coisa.

A trama da usurpação do trono por Washizu reflete exteriormente a usurpação do mal sobre a virtude no interior das almas de Washizu e de Lady Asaji. Tomados como uma unidade, o guerreiro e sua esposa simbolizam o ser humano cuja ordenação justa das potências da alma se desfez. Tragado pelo desejo e pela ambição, o homem desordenado quebra as leis mais sagradas e fundamentais.

O castelo simboliza a Árvore do Bem e do Mal e o Eixo do Mundo (Axis Mundi). A usurpação é exatamente a tentativa de conquistar o Bem Supremo identificando-o com os bens pedestres e relativos. Washizu toma o trono que não lhe pertence, e desta feita instala simbolicamente no Eixo do Mundo seus próprios desejos. É ele agora que define o que são o bem e o mal. Washizu não se submete à hierarquia das coisas, mas, ao contrário, revolta-se contra ela e quer subverter a sua ordem.

Visto por esse prisma, Washizu não é menos que demoníaco. Que é o demônio senão um anjo que desviou seu rosto da contemplação divina para a contemplação de seus próprios desejos? Tsuzuki, o daimyo, representa a virtude e o direito. Ele é justo e recompensa generosamente aqueles que lhe são leais. Washizu provou dessa generosidade. Porém, isso não foi suficiente. Ele quer o lugar de Tsuzuki, mesmo não possuindo a envergadura moral para se sentar no trono. "Better to reign in Hell, than to serve in Heaven", diz o Lúcifer de Milton.

Washizu governa e instaura o horror. A fim de impedir a realização da profecia da anciã sobre o filho de Miki se tornar um dia daimyo, o atormentado Washizu ordena secretamente a morte de seu antigo amigo, sem contudo conseguir assassinar o filho. Este foge para junto do herdeiro de Tsuzuki e de seus homens no exílio. O mal que Washizu realizou começa a exigir vingança. O fantasma de Miki o assombra durante um banquete. A consciência dá sinais de remorso. A tragédia se abate sobre ele: Lady Asaji engravida logo em seguida, mas a criança nasce morta. Não haverá herdeiro do Grande Senhor Washizu.

Unidos em torno do filho de Tsuzuki, os inimigos de Washizu iniciam uma guerra de reconquista e tomam os seus castelos, restando-lhe apenas o Castelo da Teia de Aranha. Onde buscar auxílio se não nas forças que profetizaram sua chegada ao poder? Washizu consulta a velha etérea, e esta lhe promete que nada haverá a temer enquanto a floresta da Teia de Aranha não atacar o castelo de Washizu. Os inimigos acampam na floresta diante da fortaleza. Washizu nada teme. Confiante, ele revela a profecia da anciã aos seus homens reunidos para o combate.

Não obstante, sinais de desgraça acontecem. Pássaros entram na fortaleza em debandada. Lady Asaji sucumbe ao remorso e à dor da perda do filho e enlouquece. O desfecho está próximo. Ao alvorecer, uma sentinela apavorada diz a Washizu que a floresta avança contra a fortaleza. Desesperado, o infeliz guerreiro contempla pela torre o movimento das árvores. Seus inimigos cortaram as árvores e as usaram como cobertura para seu avanço. Mais uma vez, o sentido da profecia era ambíguo e obscuro. O vaticínio se cumpriu como fora predito. Washizu ouviu o que queria ouvir.

Os soldados de Washizu, sabendo da profecia de sua derrocada, alvejam seu senhor com inúmeras flechas e o matam. O ciclo da violência e do crime se encerrou. Washizu, o assassino de seu senhor, é morto por seus homens. O destino do ambicioso e do criminoso é a morte pelas mãos das forças que ele próprio conjurou.

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