terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Aspectos da tradição monista indiana II - Sankara e o Advaita Vedanta


"Aquele que compreendeu o Supremo, descarta toda identificação com os objetos dos nomes e das formas (namarupa).(...)Não há nada que que não seja Brahman. Se qualquer objeto parece existir, outro que Brahman, é irreal como uma miragem. (...) Tudo que é percebido ou ouvido é Brahman e nada mais. Alcançando o conhecimento da Realidade, se enxerga o universo como Brahman não-dual, Existência-Conhecimento-Beatitude (Saccitananda)." (tradução minha)


SANKARA ACARYA, Atma Bodha, 40-63-64


Sankara Acarya, considerado o maior filósofo ortodoxo hindu, viveu provavelmente no século VIII da era cristã. Na Índia, as correntes heterodoxas, compostas basicamente pelo Jainismo, pelo Sankhya-Yoga e pelo Budismo, são aquelas que não se baseiam nos Vedas e nos livros sagrados da tradição ariana. Sankara Acarya, embora ortodoxo, sofreu, por intermédio de seu mestre Gaudapada Acarya, considerável influência do budismo não-dualista de Nagarjuna Acarya.


Como já dissemos algumas vezes, a discriminação indiana não passa, como muitas vezes aconteceu no ocidente, por uma divisão entre alma e corpo, ou mente e corpo. Tanto os fenômenos mentais e internos quanto os fenômenos corporais externos estão incluídos num mesmo reino. A metafísica indiana essencialmente discrimina entre o mundo de nomes e formas determinadas e finitas (namarupa) e “o que não tem características” (nirguna), o indeterminado.


Nirguna pode ser traduzido como “aquilo sem determinações ou qualidades”. O prefixo nir indica negação e guna é um conceito presente desde os primórdios do pensamento indiano que pode ser entendido como elemento, aspecto, qualidade. Em geral, assume-se que o mundo fenomênico é formado pelos três tipos básicos de gunas: Sattva, Raja e Tamas. O primeiro corresponde à qualidade sutil predominante nos deuses e nos santos. Raja predomina na ignorância e na força que motiva a luta e a ânsia pela sobrevivência. Tamas predomina na cegueira do mundo vegetativo e mineral e na maldade e trevas dos demônios e homens egoístas e cruéis.


Na filosofia pregada por Sankaracarya, o adjetivo nirguna será aplicado a Brahman, a realidade subjacente não-dual e imanifestada que se revela e se esconde em cada manifestação fenomênica. Tudo o que é é Brahman, mas Brahman não é nenhuma das coisas em particular e nem a soma delas. Ele é transcendente no sentido de que nada do que há o esgota e é imanente no sentido de que cada coisa, sem exceção, manifesta-o.


Brahman Nirguna é o substrato de todas as coisas do qual nada se pode dizer, pois a linguagem dual do mundo das formas e dos nomes (namarupa) não é capaz de descrevê-lo. A doutrina de Sankara é chamada de Advaita (não-dual) Vedanta (fim dos Vedas), pois afirma que Brahman Nirguna não é ontologicamente diferente do mundo fenomênico. Ele simplesmente é o barro do qual o vaso é a modificação. É a corda que, por engano e por ilusão (Maya), é vista como uma cobra.


Brahman Nirguna é o real e o divino. Por assim dizer, ele se manifesta se escondendo. Ele se manifesta em cada vaso, mas nenhum vaso o contém totalmente.

Nenhum comentário: