domingo, 13 de dezembro de 2009

Wolfgang Smith e as bases da ciência moderna


"A minha fundamental objeção à visão de mundo científica é que ela concebe o mundo externo como não-percebido e imperceptível. O mundo concreto, feito de elementos sensórios tais como cores e sons e inumeráveis qualidades é tornado subjetivo, o que é o mesmo que dizer que é relegado à esfera da mente, ou se quiser, à função cerebral. Ora, concordando com importantes correntes filosóficas (começando com Husserl e Whitehead), eu considero essa subjetivação ao mesmo tempo ilegítima e profundamente enganosa. Meu objetivo em Cosmos and Transcendence foi mostrar que, de um lado, essa subjetivação das qualidades não é uma descoberta científica, como hoje tão facilmente se assume, mas constitui-se de fato em uma infundada pressuposição filosófica estipulada por René Descartes e, por outro lado, demonstrar que essa premissa cartesiana contradiz a sabedoria perene da humanidade." (tradução minha direto do original em inglês)

WOLFGANG SMITH, Cosmos and Transcendence, p.3

Em seu livro Cosmos and Transcendence, o físico, matemático e filósofo Wolfgang Smith se dedica a explicitar e a questionar diversos pressupostos metafísicos e filosóficos que dão sustentação a teorias que, científicas ou não, formam o arcabouço cultural do mundo moderno.

Tendo sido professor de matemática no MIT, na UCLA e na Oregon State University, Smith está à vontade em meio às complexidades da matemática e da física contemporâneas, mas também exibe desenvoltura no tratamento das sutilezas do pensamento filosófico ocidental e das diversas tradições religiosas da humanidade.

Smith mostra, nos capítulos dedicados às bases filosóficas e metafísicas da ciência moderna, como a física deve ao cartesianismo e ao newtonianismo a sua rejeição das qualidades sensíveis em favor de uma apreensão quantitativa do mundo natural e, ao mesmo tempo, aponta para o fato de que essa rejeição é uma pressuposição filosófica altamente questionável e não uma descoberta baseada em fatos puros.

Seguindo a crítica de outro matemático e filósofo, Alfred North Whitehead, Smith traça as origens da ciência moderna na idéia de que o mundo físico deve ser encontrado não na percepção comum e cotidiana, povoada de cores, cheiros e sabores, mas numa estrutura matemática subjacente aos fenômenos observados que, não obstante seu caráter abstrato e formal, constituiria a realidade objetiva.

Ora, essa pressuposição, longe de ser um fato bruto, acarreta problemas lógico-filosóficos (como o das relações entre corpo e mente) e inconsistências que tenazmente desafiam as tentativas de solução dadas até hoje. Historicamente, foi o fascínio dos resultados práticos e uma retórica eficiente que obscureceram os problemas de uma base racional tão frágil e transformaram uma teoria filosófica numa verdade científica inquestionável.

Segundo Smith, os resultados da física contemporânea demonstram que o modelo mecanicista é errôneo e que necessita ser questionado e revisto em suas bases. De forma análoga, outras teorias que moldaram a consciência do homem moderno, como a biologia darwinista, a psicanálise freudiana e a psicologia junguiana, devem passar pelo mesmo processo de reavaliação, uma vez que apresentam graves inconsistências e problemas epistemológicos.

Adepto do perenialismo, o físico-filósofo americano propõe uma retomada de princípios metafísicos tradicionais da filosofia ocidental e do cristianismo para fazer frente às limitações das concepções científicas modernas. Suas pesquisas nessa direção deram fruto em livros como The Quantum Enigma e The Wisdom of Ancient Cosmology.

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