sexta-feira, 30 de outubro de 2020
Comentário curto ao Mênon de Platão (parte 1)
terça-feira, 22 de setembro de 2020
Luke Skywalker e o simbolismo iniciático do herói - parte 2 - A Confirmação
O eu consciente vive a partir das dualidades e das preferências. A visão representa o mundo das formas e da discriminação. Abandonar a visão representa simbolicamente o abandono das distinções e das oposições. A ação de Luke nasce, agora, não da discriminação, mas sim da escuridão que nada distingue porque a tudo abarca em uma unidade subjacente. O indiscriminado dá origem à ação perfeita no mundo do discriminado. Não há eu, nem a espada e nem o adversário. Luke começa a conhecer os caminhos da Força. Esta representa o Absoluto, a realidade que subjaz a tudo e que, portanto, une em si mesma como possibilidades os contrários do bem e do mal.
O mal é representado pelo Império Galáctico, cuja estrutura apresenta a união de duas correntes aparentemente inconciliáveis: uma corrente mágico-religiosa e uma corrente materialista-tecnológica. A primeira é personificada por Darth Vader, o sacerdote-guerreiro que optou pelo lado sombrio da realidade e que traiu a Ordem Jedi em nome dos desejos egoicos de poder e de ordem imposta pela violência externa. Acima de Vader, que simboliza a figura do aprendiz falhado, está o Imperador Palpatine, o mago negro.
A outra corrente é representada pelo cruel Grand Moff Tarkin, comandante militar da Armada Imperial e responsável pela construção da Estrela da Morte. Não obstante, o poder bélico não é mais do que o braço armado de uma dimensão mais sombria, a religião antiga professada por Vader. Os militares não a compreendem e a desprezam, pondo toda a sua fé no terror tecnológico da Estrela da Morte. O Lorde Sith demonstra seu poder enforcando à distância um dos oficiais que teve a ousadia de menosprezar a sua "triste devoção" à Força, chamando-o de "feiticeiro".
O episódio é simbólico e demonstra que o horizonte de Vader, embora pervertido, é mais vasto do que o de seus subordinados. A opressão visível e militarizada esconde a ação de forças invisíveis, muito mais sombrias e sinistras. A ditadura recebe seu fundamento de uma sociedade secreta, os Sith, que servem ao lado escuro da realidade.
Buscando alcançar Aldeeran, Obi Wan e Luke Skywalker são conduzidos, sem que o saibam, à Estrela da Morte, a fortaleza oculta nos céus na qual se encontra cativa a princesa. Mais uma vez, os acontecimentos se desenrolam a despeito dos planos do herói. Descobrindo por acaso que a princesa está na estação espacial, Luke e seus amigos partem para o resgate de Leia, enquanto Obi Wan, conduzido pelo destino, confronta seu antigo aprendiz, Darth Vader.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
Mircea Eliade na Índia
"Eu descobri essa dimensão muito ignorada pelos orientalistas, descobri que a Índia conheceu certas técnicas psicofisiológicas graças às quais o homem pode a um só tempo fruir a vida e a dominar. A vida pode ser transfigurada por uma experiência sacramental."(tradução minha)
MIRCEA ELIADE, L'Épreuve du labirinthe, p. 68
No primeiro volume de sua autobiografia, Mircea Eliade conta que jamais esquecera daquela tarde de maio de 1928 quando, em uma biblioteca de Roma, enquanto pesquisava para a sua tese sobre filosofia renascentista (hermetismo, ocultismo e alquimia, entre outras coisas), encontrou por acaso o primeiro tomo do clássico History of Indian Philosophy, do scholar indiano Surendranath Dasgupta.
No prefácio do livro, Eliade encontrou o agradecimento de Dasgupta ao Maharaja Mahindra Chandra Nandry, que havia financiado tanto seus estudos em Cambridge por seis anos quanto a publicação de seu livro pela Cambridge University Press. O jovem Eliade copiou o nome do Maharaja e enviou uma carta a ele contando sobre seu interesse em filosofia indiana e sobre seu desejo de estudar por dois anos com Dasgupta em Calcutá. Três meses depois, para a surpresa de Eliade, chega a carta do Maharaja respondendo que dois anos seriam insuficientes para um estudo sério da filosofia indiana e que ele financiaria cinco anos de estudo com Dasgupta na Índia!
Mircea Eliade chegou em Calcutá para estudar com Surendranath Dasgupta sem saber sânscrito ou bengalês. Dasgupta passou a ministrar suas aulas em inglês só para ajudar Eliade enquanto este lutava para dominar o sânscrito. Solicitude de professor. O romeno morou inicialmente em uma pensão para estrangeiros, mas posteriormente mudou-se para a própria casa de Dasgupta, em Calcutá, a fim de estudar com mais comodidade. Contudo, algum tempo depois, ele e a filha de Dasgupta, Maitreyi, se apaixonaram. O professor descobriu o namorico e expulsou o aluno estrangeiro de sua casa.
Eliade, em vez de retornar à Europa, partiu em busca de um ashram no Himalaya para praticar Yoga. Como era a época dos dias sagrados de Pūjā, o romeno se banhou cerimonialmente no Ganges e depositou pétalas de rosa no templo da deusa Lakṣmī, causando grande curiosidade e espanto nos fiéis presentes. Instalou-se, por fim, no Svarga Ashram, onde foi recebido por Swami Shivananda. Para permanecer no ashram, Eliade teria de abandonar suas roupas européias, adotar como vestimenta um manto branco ou amarelo, andar de sandálias e praticar o vegetarianismo. Sob a orientação de Shivananda, realizou muitas das práticas que havia aprendido teoricamente com Dasgupta, grande estudioso da Yoga.
É interessante notar que Eliade confessa que chegara ao ashram na pior das condições psicológicas, abalado pela ruptura brusca com Dasgupta e pela separação de Maitreyi, com quem pensou seriamente em se casar. Considerava que a “Índia histórica”, representada por Dasgupta, estava perdida para ele e que agora abria-se o horizonte da “Índia eterna”, a Índia dos saddhus e yogues. O resultado imediato da prática da Yoga foi o restabelecimento de seu equilíbrio mental e a certeza de que aqueles exercícios espirituais estavam plenos de conhecimento profundo e verdadeiro da condição humana.
“Próximo do Natal, eu era um homem ‘mudado’. Não tentarei aqui repetir os passos dessa transformação interior. O que pode ser dito acerca dos resultados de vários exercícios preliminares, eu descrevi tão precisamente quanto possível em minhas obras sobre Yoga. Os outros exercícios e experiências devem passar em silêncio, pois estou obrigado a permanecer fiel à tradição indiana que prevê somente comunicar os segredos de iniciação do guru ao discípulo. Ademais, duvido que eu deva ser capaz de descrever exatamente — isto é, em linguagem científica — certas experiências. O único modo de expressão aproximadamente exato seria uma nova linguagem poética, e eu nunca tive esse dom.”(tradução minha)
Swami Shivananda, impressionado com o progresso de seu pupilo, profetizou um futuro brilhante para o romeno no qual ele seria um novo Vivekananda. A comparação desagradou Eliade que, a despeito da admiração por Ramakrishna, considerava os escritos de Vivekananda suaves e moralistas, obras de popularização de conteúdo híbrido e não-indiano. Ademais, não desejava ser portador de qualquer missão ou mensagem. Queria mergulhar, tanto quanto fosse possível, nos segredos da contemplação indiana. Mas as coisas não aconteceram do modo como ele esperava.
Jenny, uma violoncelista sulafricana que estava em busca “do Absoluto” na Índia, chegara ao ashram na véspera do Natal, e logo ela e Eliade tornaram-se amigos. A moça estava interessada nas doutrinas do Vedanta e insistia para que o romeno desse a ela lições sobre o tema na ausência de seu guru, Swami Shivananda. Ocorre que Eliade não se interessava pelo Vedanta e sim pela Yoga e pelo Tantrismo e, nas visitas constantes à habitação de Jenny, mais e mais o assunto girava em torno de práticas tântricas. As coisas começaram a se tornar estranhas quando, um dia, Eliade esqueceu de visitar Jenny como havia prometido e isso resultou em uma recriminação indignada da moça regada com muitas lágrimas. Tentando contornar a situação, ele prometeu à Jenny que a visitaria ainda naquele dia.
Naquela tarde de fevereiro, Eliade se dirigiu à casa onde Jenny morava às margens do Ganges para cumprir sua promessa de poucas horas atrás. Pequenos eventos sem nenhum grande significado aparente podem mudar a vida de alguém de uma hora para outra e a decisão de fazer aquela visita mudaria para sempre a vida de Eliade na Índia, como ele mesmo admite. Ao entrar na casa da moça, ele logo notou que a atmosfera havia mudado, pois Jenny usava batom e vestia um sari de seda transparente. Sua expressão em nada se assemelhava à moça tímida, carente e ofendida que o recriminara. Seja lá o que for que tenha acontecido, aquela Jenny inspirava temor em Eliade, e ele sentia que, qualquer que fosse a sua atitude, jamais retomaria a serenidade e a plenitude conquistadas com tanto esforço nos últimos cinco meses.
Jenny perguntou a Eliade se ele já havia visto uma nayika de carne e osso, a parceira consagrada de certas cerimônias tântricas. O romeno respondeu que não havia sido iniciado e, por isso, não poderia participar de tais ritos. nem ambos poderiam ser iniciados sem um guru. Jenny insistiu para que procurassem juntos um guru que os iniciasse e que, até que o encontrassem, eles podiam realizar alguns ritos preliminares dos quais Eliade havia falado em suas visitas. Eram ritos perigosos, mas não havia como escapar. Eliade não diz quais práticas eram essas, mas assegura que elas tiveram enorme efeito benéfico em sua constituição física. Todas as noites, após à meia-noite até uma hora antes do raiar do dia, o romeno passava na casa de Jenny.
Em uma manhã de março, quando retornava à sua habitação, Eliade foi advertido por um asceta Naga acerca dos perigos que aquelas práticas representavam. “As pessoas hoje são impuras e fracas”, disse o homem santo. Era necessário abandonar aquela via. Aos poucos ficava claro a Eliade que ele havia sido enganado pelas ilusões de Māyā. Seu engano foi crer que poderia se unir a Jenny de modo “mágico”, em uma forma lúcida e desapegada que só um iniciado pode realizar. Segundo ele, havia se deixado enredar em um jogo “mágico” sem sentido.
Não havia mais condições de continuar no ashram. Eliade despediu-se de Jenny (que caiu em lágrimas) vestiu suas roupas européias (pela primeira vez em seis meses) e tomou o trem para Delhi. Eliade percebera seu erro essencial: renunciar ao mundo antes do devido tempo. Sua vocação não era a renúncia ou a santidade, mas a vida cultural em sua terra natal, a Romênia. Compreendeu que não podia renunciar ao mundo sem antes cumprir seu dever de explorar todas as suas potencialidades criativas.
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domingo, 23 de agosto de 2020
Comentário simbólico: Menelau contra Proteu na Odisséia
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Porfírio de Tiro, neoplatonismo, caminho espiritual e vida filosófica
sábado, 25 de julho de 2020
Chuang Tzu: Tao, o sábio e os homens
PIERRE HADOT, Quest-ce que la Philosophie Antique?, p. 334 (tradução minha)
O sábio é exteriormente como qualquer homem, embora já não seja igual aos homens. Lieh Tzu, outro dos três sábios do Taoísmo, era conhecido por ser "incomumente comum". O que distingue o sábio dos outros homens é o fato de que ultrapassou as distinções e polaridades, vivendo em harmonia com o Tao. Preferências e aversões são características do homem, e o sábio não se deixa abalar por essas distinções.
O Tao e o Céu o fizeram humano, então ele permanece humano. Todavia, ao mesmo tempo, o sábio não é mais humano, pois ultrapassou o horizonte dual que caracteriza os homens. Ele provou o alimento do Céu, está desperto, iluminado. É por essa razão que o sábio deixa tudo exatamente como está, sem impor qualquer tipo de juízo. Considerando todas as coisas a partir da equanimidade absoluta, o sábio retorna ao Princípio original sem deixar de ser homem e sem ser mais como os outros homens.
Hui Tzu não compreende como o sábio pode viver dessa forma, desatento às necessidades da vida. Chuang Tzu repete a afirmação da forma humana do sábio e de sua realidade interior livre das oposições. E repreende Hui Tzu por viver afastado de seu espírito, sem considerar o privilégio de haver nascido homem e dedicando-se a debates sobre distinções sutis. Note-se que a própria pergunta de Hui Tzu sobre como alguém pode ser homem e não possuir a natureza humana é, ela mesma, uma questão acerca de distinções.
O sábio é também figura central na filosofia greco-romana antiga, como o filósofo francês Pierre Hadot sublinha em seu clássico Quest-ce que la Philosophie Antique?. Segundo Hadot, a filosofia na Antiguidade era encarada precipuamente como um modo de vida, uma opção existencial que se manifestava em discursos teóricos e em exercícios espirituais. Ocorre que seu motor primeiro era o desejo de encontrar a sabedoria. Por essa razão, a figura do sábio tomava a forma de uma norma transcendente que determina o modo de vida filosófico.
Isso não significa que o próprio filósofo se considerava um sábio, mas que a filosofia era um modo de vida conducente à sabedoria, ao menos como aspiração. A despeito das diferenças entre as diversas escolas filosóficas (platônicos, aristotélicos, cínicos, estóicos, epicuristas, céticos), alguns traços comuns seriam identificáveis. O sábio seria dotado de saber perfeito, obviamente, mas isso não corresponderia a um simples acúmulo de conhecimentos e sim a um modo de vida que realiza aquilo que de mais alto há no homem.
O sábio é sempre idêntico a si mesmo, isto é, permanece o mesmo a despeito das circunstâncias. Ele encontra em si mesmo a sua felicidade e, por isso, é autárquico, independente. Sabe que são os juízos sobre a realidade que conduzem os homens ao sofrimento e que, controlando esses juízos, ele assegura sua perfeita liberdade interior, baseada na identificação com uma instância transcendente e supra-individual (Natureza, Razão ou Deus). Surge nesse ponto uma questão que é semelhante à indagação posta por Hui Tzu a Chuang Tzu: "na realidade, o sábio não se confunde com o divino?".
Indubitavelmente, o divino (deuses e/ou Deus) é o modelo da sabedoria para os filósofos antigos, afirma Hadot. Aproximar-se da serenidade, da imperturbabilidade e da felicidade do divino é tornar-se sábio. Mas, ao mesmo tempo, é tornar-se mais humano, verdadeiramente humano. A vida do espírito é uma identificação do homem com aquilo que é mais divino nele mesmo. O ponto central das éticas antigas e tradicionais é que o homem é mais homem quanto mais ele imita o divino, ou seja, quanto mais unifica suas ações segundo a natureza imóvel do divino e não segundo a variabilidade das preferências humanas.
Entretanto, Hadot ressalta, o sábio é considerado pela filosofia antiga como algo raro ou inexistente. O único consenso entre as diversas escolas filosóficas parece ser a figura de Sócrates. Cada escola reconhecia outros sábios, notadamente seus fundadores ou figuras proeminentes como Cato, o jovem, entre alguns estóicos, ou Plotino, entre seus discípulos. Para os filósofos gregos e romanos, o sábio é menos uma pessoa concreta e mais um modelo que define os traços de um comportamento ideal a ser imitado como um modo de vida.
O Tao é incondicionado, equânime e autárquico. O sábio descrito por Chuang Tzu possui as mesmas características, ainda que permanecendo um homem como todos os outros homens. Possui tudo, pois vive a partir do Princípio último das dez mil coisas. Não necessita de nada e nem teme perder nada.
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Chuang Tzu, Confúcio e a retidão do Tao:
Chuang Tzu e a inutilidade do sábio:
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Chuang Tzu, Confúcio e a equanimidade absoluta do sábio:
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quinta-feira, 9 de julho de 2020
Chuang Tzu, Confúcio e a retidão do Tao
TAO TE CHING, 38
"O sábio ultrapassou todas as distinções inerentes aos pontos de vista exteriores. No ponto central onde ele se encontra, toda oposição desapareceu e se dissolveu em um perfeito equilíbrio."
RENÉ GUÉNON, Aperçus sur l"ésoterisme islamique et le Taoïsme, p.118 (tradução minha)
O relato de Chuang Tzu, um dos três sábios fundadores do Taoísmo, repete o tema do homem cujo pé foi cortado como punição por uma transgressão. Simbolicamente, Shu-shan representa o homem que falhou no cumprimento das normas exteriores e comuns pelas quais todos são julgados na sociedade. Ele carrega publicamente a marca de seu desajuste e de seu crime, e é desprezado e vilipendiado por todos.
Shu-shan visita Confúcio e é repreendido pelo mestre justamente por sua inadequação às normas. Do que adiantaria agora, quando ele já havia se tornado um réprobo, procurar Confúcio? Ele deveria ter feito isso antes, a fim de que não desrespeitasse as normas e não fosse castigado como consequência de seu descuido. Shu-shan responde que, de fato, não compreendera seu dever e fora descuidado a ponto de receber a mutilação como castigo. No entanto, havia mais valor nele do que essa falha e Confúcio deveria ser como o Céu e a Terra, tudo acolhendo. Um mestre que não é capaz de perceber isso não pode ser realmente um mestre.
Em outros termos, Confúcio só enxergou Shu-shan no nível do cumprimento exterior da norma e o rejeitou. Seu horizonte é limitado, e só entende sua própria função como mestre a partir da manutenção da norma exterior. Mas a resposta de Shu-shan faz Confúcio perceber que errara ao tratar o homem daquela forma e, desculpando-se, ele o convida a ser seu discípulo. Ocorre que Shu-shan percebeu algo fundamental em Confúcio e não tem mais interesse no mestre.
Confúcio, então, retorna aos discípulos e diz a eles que aquele homem, mesmo tendo errado, buscava endireitar o seu caminho. Mais ainda deveriam ser atentos aqueles cuja retidão é irrepreensível. Novamente, Confúcio entende o episódio em termos da manutenção da norma exterior, do dever e da reputação que a obediência angaria diante dos homens. "Atenção à conduta!", é o que diz o mestre a seus aprendizes. A irrepreensibilidade é o valor a ser cultivado e preservado.
Sendo Chuang-tzu um mestre taoísta, o problema suscitado no episódio com Confúcio receberá sua resposta no diálogo posterior de Shu-shan com o grande mestre taoísta Lao-Tzu, autor do Tao Te Ching.*. Shu-shan considera que Confúcio não alcançara o estado do homem perfeito, pois seu horizonte era ainda o da fama e da reputação, exterioridades que não são mais do que grilhões para o homem realmente perfeito. Lao-Tzu indaga Shu-shan se não seria o caso de libertar Confúcio desses grilhões mostrando a ele que a vida e a morte, o aceitável e o inaceitável são uma mesma e só realidade.
O mestre ancião fala aqui da sabedoria que ultrapassa todas as oposições porque se instala no eixo do Tao (道), e não de uma equivalência superficial e vulgar entre retidão e engano, virtude e vício. O supremo Tao é retidão justamente porque não é reto como retos são os homens, de forma participativa e limitada. O Tao é retidão justamente porque não é reto como os homens são retos, mas como a fonte última e ilimitada de toda a retidão.
As normas exteriores enraízam-se em preferências e oposições, mas o sábio habita no centro absolutamente equânime das dez mil coisas. O sábio ultrapassa as exterioridades das normas porque ultrapassou as preferências e os apegos dos homens comuns. Confúcio ainda não compreendeu o Tao e, por isso, seus julgamentos permanecem no reino das oposições. Shu-shan considera não ser possível libertá-lo de suas amarras, pois ele recebeu um castigo do Céu.
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sexta-feira, 3 de julho de 2020
René Guénon, monoteísmo, politeísmo e angeologia
segunda-feira, 22 de junho de 2020
Sobre a vida moral e as artes marciais
上德不德,是以有德
TAO TE CHING, 38
Parte substancial da vida racional e da vida moral depende de nossa capacidade não só de perceber a validade de certos princípios racionais e morais muito gerais, mas, principalmente, de saber como aplicar esses mesmos princípios às situações concretas com as quais nos deparamos. Afirmamos que um homem é razoável não quando ele sabe afirmar em público princípios de conduta racional e sim quando ele demonstra que sabe aplicar os princípios nos acontecimentos singulares e irrepetíveis de sua vida.
Bruce Lee, em uma entrevista para a TV, afirmou que as artes marciais têm como característica a junção harmoniosa do natural e do inatural, do espontâneo e do artificial. Uma "inaturalidade natural" ou "naturalidade inatural". A inaturalidade está em que não se trata mais de reações completamente impensadas e espontâneas, ditadas pelos instintos ou por emoções como o medo e a surpresa. A naturalidade está em que o treino age sobre capacidades já existentes, restringindo-as como a canalização restringe, potencializa e dá direção a uma fonte natural de água.
Dar forma a algo é impor limites onde antes não havia para tornar real uma das incontáveis possibilidades contidas no amorfo. Em outros termos, o treino marcial é a imposição de um conjunto de regras a capacidades já existentes no homem com o objetivo de que as reações espontâneas às situações de risco sejam moldadas por essas técnicas e não sejam somente impulsividade desregrada e ineficiente. É a produção de um "instinto metodizado", pois a reação ao ataque será automática como são as reações instintivas, mas completamente racionalizada na medida em que exibe padrões previamente pensados e estudados.
No momento do combate, não há como pensar. O lutador não tem tempo para aplicar-se a cálculos matemáticos sobre como reagirá a um ataque. Não há um raciocínio no sentido formal de dedução de uma conclusão a partir de premissas explicitamente formuladas. Não obstante, há uma percepção da situação concreta e singular e de como responder eficientemente a ela empregando movimentos disponíveis no cabedal de técnicas que a sua arte marcial dispõe. Em certo sentido, há uma phronesis marcial, uma capacidade de perceber o que é bom para vencer na situação concreta de um combate.
Ser bom é bom para o próprio homem. É de seu maior interesse, pois é bom escolher aquilo que é nobre. A vida boa é a sua recompensa. Só não é fácil identificar o bem em todas as situações da vida. Assim como não é fácil aplicar o golpe certeiro em um combate.
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domingo, 14 de junho de 2020
Luke Skywalker e o simbolismo iniciático do herói - parte 1 - O Chamado
OBI WAN KENOBI, Star Wars: A New Hope, 1977
O Céu intervém em sua vida por meio de dois andróides vindos do espaço, R2D2 e C3PO, que trazem uma mensagem que, aparentemente, não é endereçada a ele. O grande chamado esconde-se nos pequenos atos, como a negociação mundana de máquinas agrícolas. Tudo acontece dentro da rotina e da normalidade. Luke compra os andróides sem saber que essa decisão seria o primeiro passo de sua caminhada na Via. Até este momento, o Céu encarrega-se de fazer chegar a Luke os emissários do chamado.
Os andróides o conduzem ao encontro do mentor. Na Odisséia, Mentor era o ancião a quem Odisseus confiou sua casa e seus pertences e, posteriormente, quem conduz Telêmaco, filho de Odisseus, na busca por notícias de seu pai, desaparecido desde a guerra de Tróia. Coincidentemente, Obi Wan Kenobi também é portador de notícias sobre o pai de Luke, Anakin Skywalker, além de guardar e passar ao jovem a herança de seu pai, o sabre de luz. Em certo sentido, Obi Wan conduzirá Luke em uma busca por seu pai, pois Anakin é dado como morto desde as Guerras Clônicas, como Odisseus desde a guerra de Tróia. Ainda sem o saber, Luke partirá em uma jornada que, em breve, revelará que seu pai não só está vivo, como ele não é quem Luke imagina.
Obi Wan Kenobi salva a vida de Luke e o conduz à sua casa. Ele vive no deserto, longe da azáfama do mundo, isolado como um monge ou um anacoreta do deserto. Aqui manifesta-se o aspecto religioso-monástico de Obi Wan. Todavia, ele não é um monge comum. Ele é um monge-guerreiro, como os cavaleiros hospitalares e os cavaleiros templários na Idade Média ou os sohei, monges-guerreiros budistas japoneses. Cumpre recordar que é atribuído a um patriarca budista indiano, Bodhidharma, a paternidade das artes marciais chinesas.
A um só tempo, Obi Wan possui a autoridade espiritual dos sacerdotes e o poder secular dos guerreiros. Sua vestimenta é composta por um kimono branco japonês sobre o qual repousa um manto com capuz, como o de um monge cristão. Esses dois aspectos, o monge e o guerreiro, aparentemente opostos e inconciliáveis, estão em harmonia na pessoa de Obi Wan. Ele representa uma antiga linhagem de monges-guerreiros extinta naqueles tempos de decadência moral e espiritual. Obi Wan oferecerá a Luke a admissão nessa linhagem e a responsabilidade de reavivar a ordem Jedi e os seus valores eternos.
A proposta de Obi Wan a Luke só acontece como resposta à uma motivação externa. O Céu enviou os mensageiros e estes entregam a mensagem que, aparentemente apenas, dirige-se ao Jedi idoso. A mensagem da princesa Leia guarda um sentido simbólico: tradicionalmente, a mulher detém o tesouro, como a donzela acastelada e aprisionada por um dragão que guarda um tesouro a espera de um herói. O tesouro de Leia são os planos da Estrela da Morte, isto é, os meios para destruir o império vigente do mal.
Tudo se passa como se o herói a quem se destinam o chamado e o tesouro fosse Obi Wan e não Luke. Há uma ocultação, pois ainda não é o momento certo, o kairós, da confirmação da eleição do herói. Ocorre que Obi Wan é idoso e pede a Luke que o acompanhe em sua missão. O cavaleiro promete treiná-lo no Caminho (Tao) da Força e entrega ao jovem o sabre de luz, a espada de seu pai Anakin. A oferta de presentes ao herói ou ao santo é tradicional na mitologia e nas tradições religiosas, como as armas ofertadas por Atena a Aquiles na Ilíada e os dons ofertados a menino Jesus pelos reis magos.
A espada é símbolo óbvio da via guerreira, mas também de penetração espiritual. Ela separa e penetra, distingue o verdadeiro do falso, o bem do mal, o justo do injusto. Erguida, simboliza o Axis Mundi, o eixo que liga o Céu e a Terra, e a mente imóvel que não oscila, como na imagem do Fudo Myoo na tradição budista japonesa. A espada indica comprometimento, disciplina, força e retidão. Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares (MT 10: 35,36).
O primeiro chamado de Luke é o de aprendiz e de escudeiro de um cavaleiro experimentado, nobre e virtuoso. Mas o jovem é provinciano, acredita que tem responsabilidades para com seus pais adotivos, e recusa o convite. A voz dos tios é a da prudência daquilo que é familiar, seguro e umbilical e que, muitas vezes, impede o homem de crescer na direção de horizontes espirituais mais vastos.
Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim. A ação do Céu trouxe os mensageiros até Luke e essa mesma ação trouxe a morte a seus tios por meio da ação dos agentes sinistros do Império. O Céu corta os laços que prendem Luke à Terra e o liberta para a sua missão. Tudo o que o jovem tem que fazer agora é assumir seu destino. Nada mais o prende ao horizonte existencial de seus tios, por justo e decente que ele fosse em si mesmo. O eremita e o fazendeiro devem partir do planeta-deserto, o primeiro para retornar aos conflitos do mundo que outrora havia abandonado, e o segundo para realizar seu destino oculto de equilibrar em si mesmo as oposições da Força.
Luke aceita o chamado parte com Obi Wan Kenobi. Começarão o treinamento e as provas do herói. Nada está garantido, e o jovem terá de provar a si mesmo e aos outros o seu valor. O Chamado do Céu não significa garantia de sucesso na empreitada do herói. Astra inclinant sed non obligant. Nesse momento, Luke é somente a Nova Esperança.
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terça-feira, 9 de junho de 2020
Chuang Tzu, Confúcio e a equanimidade absoluta do sábio
道常無名
"O Tao constante é inominável."
TAO TE CHING, 32
"Transcender o nascimento e a morte é entrar no ilimitado, é ser um com a origem do Céu e da Terra."
Confúcio responde que Wang T'ai era um sábio e que, se ele mesmo fosse ter com Wang T'ai, tornar-se-ia seu discípulo, bem como todo o distrito de Lu e, no futuro, todo o mundo. Ch'ang Chi responde que se ele, mesmo havendo perdido seu pé como castigo por uma infração, era superior até a Confúcio, o que dirá o homem comum? E, em seguida, pergunta a Confúcio como aquele sábio, Wang T'ai, usava sua mente.
Confúcio responde que a vida e a morte são preocupações sérias, mas para o o sábio não representam motivo de mudança. Mesmo se o Céu (天) e a Terra (地) fossem abalados e caíssem, isso não seria para o sábio algo perturbador, pois ele tem os olhos voltados àquilo que não tem falsidade e não muda como as coisas. As transformações do mundo, ele bem o sabe, são inevitáveis, e o sábio mantém-se firme na fonte.
Ch'ang Chi pergunta o que Confúcio quer dizer com aquele discurso e o mestre assevera que se alguém enxerga as coisas em termos de suas diferenças, há fígado e há vesícula, há as terras de Ch'u e há as terras de Yueh, mas se alguém enxerga tudo em termos de igualdade, então todas as dez mil coisas são uma só realidade. Um homem assim não conhece aquilo que os olhos ou os ouvidos devem aprovar ou não, e seu espírito (心) se move em harmonia com a retidão (德). Como o sábio enxerga as coisas em unidade, não considera sequer a falta de um pé uma perda.
Ch'ang Chi insiste e pergunta por qual razão as coisas reúnem ao redor de Wang T'ai. Confúcio responde que os homens não espelham a eles mesmos em água corrente, mas tão somente em água serena e quieta. Somente a quietude pode aquietar a quietude das coisas. Entre as coisas que recebem a vida da Terra, somente o pinheiro e o cipreste são os melhores, pois mantém-se verdes seja verão ou inverno. E entre as coisas que recebem sua vida do Céu, somente os imperadores Yao e Shun são os melhores, pois mantiveram-se acima das dez mil coisas. Ordenaram suas próprias vidas e, por isso, ordenaram as outras coisas.
Preservar as sutilezas da origem é um ato de bravura. Um bravo guerreiro, em busca de fama e de glória, pode atacar sozinho exércitos poderosos, disse Confúcio a Ch'ang Chi. Se isso é verdade para alguém guiado somente pela ambição, o que dizer daquele cujo reino é o Céu e a Terra e que possui as dez mil coisas, cujos olhos e ouvidos são janelas vazias e seu corpo um mero alojamento, e para quem tudo é unidade e cujo espírito é imortal? Tal homem escolhe um dia e ascende ao Céu. Os homens o seguem, mas como ele poderia importar-se com as coisas?
A história relatada no livro de Chuang Tzu ilustra a figura do sábio taoísta, aquele que vive na absoluta equanimidade do Tao (道). Enxergar todas as coisas a partir de sua comunidade fundamental, ou seja, a partir de sua fonte última para além de todas as diferenças é ser absolutamente equânime, pois, desse modo, nada resta para ser classificado como agradável ou desagradável, bom ou mau, segundo as avaliações e preferências do ego.
Lieh Tzu, outro dos três sábios fundadores do Taoísmo, ensina que o sábio transcende o nascimento e a morte, isto é, os opostos e todas as diferenças entre os entes, e habita em Wu-Chi (無極), o "sem pólo" ou o "sem extremidade", traduzido também como "infinito". É a realidade imanifestada que transcende a toda a dualidade manifestada ou possível, inclusive a polaridade primordial entre o Céu e a Terra. O sábio enxerga a realidade para além do pensamento discriminativo do homem comum.
O filósofo francês Louis Lavelle, em sua obra La Présence Totale, afirma que é somente quando os entes deixam de ser objeto de apego que eles manifestam ao homem seu valor real. Se um ente qualquer, por mais humilde que ele seja, torna-se para nós um meio de fruir da presença absoluta do Ser, então ele nos apresenta a realidade do Todo. Ao contrário, se encaramos os entes somente do ponto de vista da posse, nada jamais satisfará os nossos desejos, pois os entes são cambiantes. Segundo Lavelle, paradoxalmente, "é a indiferença a todo objeto que dá a cada objeto seu valor absoluto" (p. 45, tradução minha).
Wang T'ai não ensina ou discute, mas possui tantos discípulos quanto Confúcio. O sábio age sem agir, "wu wei" (無為), por sua mera presença, como a força interior de um guerreiro faz o adversário desistir da luta antes mesmo que qualquer golpe seja desferido. A ação do sábio está em harmonia com o Tao e não se origina dos desejos e das preferências do ego, o qual alterna entre a aprovação e a desaprovação das coisas.
Chuang Tzu, em outra passagem, ensina que insistir nos opostos, na aprovação e na desaprovação, é como viajar a Yüeh quando já se chegou a Yüeh. O sábio abraça tudo, os outros homens dividem as coisas e usam um ente para revelar o outro. Aqueles que dividem as coisas não enxergam. O ego obscurece a natureza das coisas com suas preferências e a equanimidade do sábio deixa que as coisas sejam o que são, sem interferência ou divisões.
Os homens seguem Wang T'ai porque a quietude da mente do mestre aquieta a mente dos discípulos. Novamente, a ação do sábio é não-ação. Na tradição Zen budista japonesa, a transmissão do mestre ao discípulo acontece de "mente a mente" (以心伝心), isto é, trata-se de um ensino não-verbal, mas não menos real. O homem sábio e virtuoso inspira a muitos por seu exemplo, mesmo que jamais profira uma só palavra. Os imperadores Yao e Shun ordenaram os seus reinos porque ordenaram a si mesmos.
Unido à fonte última e inominável, Wang T'ai compreende plenamente as transformações pelas quais passam todos os entes. A falta de um pé não afeta o sábio, pois, na realidade, nada pode faltar àquele cujo espírito se encontra no nascedouro onde todas as coisas tomam sua origem. Tudo pertence a ele justamente porque não discrimina nada. Chuang Tzu diz que um homem assim já não vive como os homens, pode ascender ao Céu no momento em que desejar.
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