sábado, 18 de junho de 2011

As universidades medievais dos séculos XII e XIII

As Sete Artes Liberais

Os séculos XII e XIII foram o palco de uma das maiores revoluções intelectuais já testemunhadas pelo mundo ocidental. Pela primeira vez desde o final do Império Romano do Ocidente, no século V, a Europa estava de novo de posse de obras importantes do mundo clássico grego.

O esforço de tradução empreendido pelos europeus foi imenso e utilizou volumes árabes, siríacos e, principalmente, gregos. Tais livros provinham, em grande parte, da Espanha islâmica e eram traduzidos por clérigos cultos como o frade dominicano Wilhelm (Guillaume) de Moerbecke.

Moerbecke sozinho traduziu boa parte da obra de Aristóteles, o que possibilitou que um certo confrade italiano de Aquino, que não conhecia grego, pudesse estudar a obra do Estagirita. Traduziu também obras de Arquimedes e Proclus, além de comentadores da obra aristotélica como Alexandre de Afrodísias, Temistius, Simplicius, João Filoponos e outros. Devido a seu grande conhecimento de grego, Wilhelm foi nomeado bispo de Corinto, na Grécia, onde morreu no ano de 1286.

Até o século XII o ensino estava centrado nas escolas de catedral, onde mestres independentes e, por vezes, itinerantes ensinavam o trivium e o quadrivium. Dispondo somente de algumas obras do Órganon aristotélico traduzidas para o latim e de compêndios latinos de rudimentar filosofia natural, os pensadores daquele século se caracterizaram por seu uso da lógica como a mais pura expressão da razão.

O advento das traduções de Aristóteles mudará radicalmente esse cenário, apresentando uma coleção impressionante de obras que de muito ultrapassavam a lógica. De uma só vez os europeus se viram diante de tratados profundos de filosofia natural, meteorologia, cosmologia, biologia, metafísica, ética, política, poética e retórica. Todos provindo da pena de um só homem: Aristóteles. Não é à toa que Dante chamará o grego de "mestre daqueles que sabem" e que a Idade Média o conhecerá como "O Filósofo".

As consequências dessa descoberta são imensas. Primeiramente rejeitado pelas autoridades eclesiásticas, Aristóteles é abraçado por clérigos da estatura intelectual de um Alberto Magno e de um Tomás de Aquino e se torna a norma do pensamento racional-científico nas universidades europeias. Estas, nascidas de corporações análogas àquelas que congregavam padeiros e pedreiros - conhecidas como universitas - reuniam intelectuais em torno de uma instituição cujo objetivo era precipuamente fornecer uma educação marcadamente racional.

Divididas em faculdades, elas mesmas corporações, as universidades, espalhadas pela Europa (Bologna, Paris e Oxford entre as mais importantes), apresentavam um currículo cujos níveis básicos centravam-se nas artes liberais e na filosofia. Todo aquele que quisesse chegar às faculdades superiores de Teologia, Lei ou Medicina devia passar pela faculdade de Artes, cujo currículo incorporava o trivium (lógica, gramática e retórica) e o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) como disciplinas introdutórias ao estudo da filosofia, dividida por sua vez em filosofia moral, filosofia natural e metafísica.

Durante todo o período correspondente ao bacharelado em Artes, o aluno recebia lições cujo teor jamais era confundido ou misturado com questões teológico-confessionais. Baseando-se principalmente em Aristóteles, o estudo gravitava em torno de questões de filosofia natural (Física) e questões lógicas e metafísicas, sempre permeadas por um treino constante - que incluía frequentes submissões a testes e a disputas intelectuais - na arte da argumentação e da demonstração racionais.

É dessa época que datam as Sumas e os extensos comentários aos textos aristotélicos. Da prática assídua das disputatio, contendas intelectuais nas quais um aluno é instado a defender sua opinião contra uma série de perguntas e objeções levantadas por seus mestres e colegas, surgiu um estilo de argumentação na qual, uma vez posta um questão, todas as opiniões e argumentos contrários são apresentados, avaliados e, com sorte, refutados, estabelecendo-se assim uma tese segura.

O historiador da ciência Edward Grant resume os passos dessa forma medieval de argumentação:

1. Apresentação da questão;

2. Argumentos principais (rationes principalis), em geral eram alternativas à tese do autor;

3. Opinião oposta (oppositum ou sed contra), na qual o autor apresenta a sua tese sobre a matéria e invoca a autoridade de algum filósofo proeminente e, somente no caso de obras de teologia, a autoridade teológica;

4. Qualificações e esclarecimentos sobre a questão ou sobre os termos usados;

5. Corpo do argumento do autor;

6. Refutação das objeções propostas nos argumentos principais.

Em todos os passos dessa forma argumentativa percebe-se a absoluta preocupação com a racionalidade com que a questão proposta é debatida. Segundo Grant, nunca antes na história humana uma instituição centrou-se tão evidentemente na produção e divulgação do conhecimento racional.

É evidente que nem tudo foram flores. Havia conflitos entre os mestres de Artes, cuja ausência de formação teológica os impedia de manifestarem-se acerca de questões de fé e doutrina, e os mestres de teologia, ciosos da manutenção e defesa da sã doutrina.

Esses conflitos, cujo ápice foram as condenações de 1277, não impediram que as universidades mantivessem sua relativa autonomia frente às autoridades eclesiásticas e temporais pelo resto da Idade Média. Em tais instituições foram cultivadas diligentemente a ciência natural e a argumentação racional até que a decadência da escolástica tornasse suas lições cada vez menos relevantes e, por fim, fossem rejeitadas e substituídas pelo ideário da Renascença.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A simbologia dos deuses de H.P. Lovecraft

Não é difícil perceber que H.P. Lovecraft é um desesperado. Como Maurice Lévy bem aponta, o escritor de contos fantásticos se sente à vontade somente num mundo onde a maravilha e o espanto ainda estão presentes e não no mundo mecanizado, tecnológico e frio criado pela ciência moderna.

Já mostrei em outro post como para Lovecraft o conhecimento leva ao desespero e à loucura e como seu tema central gira em torno do fascínio fatal e intrinsecamente destruidor e decepcionante da busca intelectual. Seus personagens são sempre estudiosos envolvidos em pesquisas de naturezas diversas que, para sua desgraça, alcançam um vislumbre ainda diminuto do absoluto horror do lugar do homem no universo e da natureza das forças que o regem.

Alguém poderia afirmar que Lovecraft fosse fundamentalmente uma natureza místico-religiosa e que seus cultos imaginários, deuses aprisionados e estudiosos desgraçados representam e revelam uma busca espiritual fracassada da qual o que resta é o sonho irrealizável de maravilhas e portentos.

Lovecraft parece confirmar esse diagnóstico quando confessa que só se interessa por aquilo que sugere a presença de "maravilhas inacreditáveis". Mas talvez essa não seja a história toda. Em diversas culturas e tradições há a simbólica das águas superiores e das águas inferiores. Nas primeiras se encontra a possibilidade de uma união com um princípio superior a toda e qualquer diferença ou determinação. Nelas há a coincidentia oppositorum própria do divino, que se manifesta como arcabouço único e atemporal de todo ser limitado e transitório.

Nas águas inferiores há a possibilidade de uma imersão que se opera pela negação da individualidade num todo que tem ares caóticos e que contempla uma indistinção que é a da mera não-entidade, da dissolução alquímica do enxofre, da perda total daquilo que se é.

Enquanto nas águas superiores a individulidade é integrada plenamente a partir de um princípio supra-individual que funda metafisicamente toda entidade e que, por isso, pode estar acima das determinações sem negá-las ou destruí-las, nas águas inferiores a individualidade é tragada pela indistinção daquilo que só é como mera possibilidade não-efetivada.

O conflito entre essas dimensões pode ser plenamente percebido no símbolo dos deuses e/ou guerreiros solares que combatem serpentes, dragões ou touros. Marduk matando Tiamat, a serpente marinha que é, por vezes, identificada com as próprias águas inferiores; Rá, a divindade solar, desce todo dia às águas inferiores e, Seth, seu aspecto beligerante, mata a grande serpente Apophis; Hércules mata a Hidra de Lerna; Jorge, o Capadócio enfrenta e mata o dragão; Mithra domina e mata o touro, etc...

Em todos esses símbolos (como demonstrou Mircea Eliade em suas obras) apresenta-se a luta constante entre a ordem e o caos, entre o determinante e o determinável, entre a forma e a matéria, entre atualização limitadora e a possibilidade infinita. É o herói/deus solar que traz a determinação que torna possível o mundo, o cosmos. Enquanto possibilidade infinita, a serpente/dragão/touro é indócil, ameaçador porque não tem ainda regra, ordem e limites. Pode ser qualquer coisa, mas só será algo quando for dominada pela força do herói/deus solar que lhe impõe uma conformação determinada.

Dominada, a serpente gera o mundo com tudo o que ele contém. Assim, a serpente é também um símbolo feminino, de geração e de gestação. O que se gesta ainda não é, virá a ser. Contudo, devido a seu caráter de indistinção, a serpente/dragão/mulher/águas inferiores é, ao mesmo tempo, sinal de dissolução, porque tudo o que é, é limitado, é uno e deixa de ser justamente quando perde sua unicidade. Ou melhor, a coisa só é enquanto é limitada e a perda da unidade é a perda de seus limites próprios e o mergulho na indistinção.

Desse ponto de vista, as águas inferiores são símbolo de dissolução e da perda do ser. E os deuses de Lovecraft são deuses das águas inferiores. Cthulhu, o mais conhecido dos Antigos, é um deus exilado das estrelas, ou seja, é um expulso dos infinitos superiores e confinado às profundezas das águas inferiores. Só se comunica por sonhos, na esfera de uma realidade incorpórea, febril e fantasmática.

Os sonhos são reflexos pálidos e desconexos da ordem testemunhada na vigília, apontando simbolicamente para um plano inferior e imitativo da realidade. Os sonhos estão num nível abaixo da consciência total da própria individualidade, apontam para sedimentos psíquicos não racionais e não ordenados, rebeldes às regras da realidade.

Cthulhu vive no fundo dos mares, onde a luz não alcança. É um deus abissal, confinado à indistinção das trevas submarinas. A simbólica das águas profundas e da luz é evidente. Cthulhu é o dragão/serpente intocado pelo poder do deus/herói solar. Seu próprio corpo é apresentado em O Chamado de Cthulhu como algo que tem ares de indistinção. Sua cidade, R'lyeh, confirma essa impressão na medida em que sua estrutura arquitetônica tem toques titânicos.

O infinito matemático, quantitativo, é uma das únicas possibilidades de expressão do infinito conhecidas pela cultura moderna largamente influenciada pelas opções teórico-ontológicas da ciência. Por ser uma mera soma de unidades, elas mesmas limitadas, essa expressão não pode certamente representar adequadamente o infinito que não admite qualquer limite sob qualquer aspecto. Lovecraft usa frequentemente a impressão de infinitude matemática para expressar a grandiosidade dos Antigos, como no caso de Cthulhu, seja para expressar a solidão das vastidões cósmicas na qual o homem some como um ponto que submerge no infinito.

Assim, a magnitude da arquitetura da cidade de R'lyeh repete a simbólica que alcança o efeito da indistinção pela grandeza espacial-matemática das dimensões da cidade perdida. A antiguidade dos deuses aponta para essa mesma direção. Eles eram antes do homem, de éons tão distantes que parecem remontar à indiferenciação primordial.

Por outro lado, a arquitetura da cidade perdida desobedece mesmo às mais fundamentais regras da geometria e da matemática. Outros contos de Lovecraft , como Os Sonhos da Casa das Bruxas, também apresentam esses paradoxos como constitutivos da dimensão sobrenatural.

Aliás, seria melhor dizer infranatural ao invés de sobrenatural. Se o supranatural não nega a ordem - possibilitando sua realização na qualidade de seu fundamento - o infranatural é a acosmia, a negação do cosmos, da ordem e da natureza. Não é à toa que no topo do panteão lovecraftiano esteja Azathoth, o deus estúpido e idiota que deve permanecer dormindo para que não destrua todo o universo.

Lovecraft parece aí reconhecer que para o mundo se manter, o caos deve ser contido e que seu deus supremo é uma negação absoluta de todo e qualquer nível de ordem. É uma negação da própria vida e uma expressão do desejo de se perder numa indistinção dissolvente. Essa dissolução pode vir, por exemplo, de forma menos dramática na transformação do Shoggoth a qual os habitantes de Innsmouth se submetem de bom grado.

Além de viverem para sempre - mais uma vez o símbolo da infinitude meramente matemática -, eles se transformam em criaturas não-humanas, anfíbios híbridos que retornam para o mar para viver com Dagon e Cthulhu. Seres humanos que perdem seu próprio, ou seja, sua humanidade para se tornarem seres indefiníveis, sem categoria, cuja própria existência já é uma subversão da ordem natural. Eles se lançam ao mar, às àguas inferiores para viver nas profundezas abissais dos oceanos. Outra vez o símbolo da indistinção dissolvente.

Aberrações têm o papel simbólico de representar aquilo que resiste à formação, aos limites, ou seja, ao ser algo. Aristóteles já formulava sua teratologia em termos de resistência da matéria à forma. Em termos simbólicos, o monstro, a aberração, é a vitória da serpente sobre o herói/deus solar. É algo cujo ser é ambíguo, não cabendo em uma classe, não realizando plenamente nenhuma natureza. Ser é ser instância e a aberração não instancia nada plenamente.

A mesma ambiguidade se encontra em Yog-Sothoth, a Porta e a Chave. Ele não está no tempo e no espaço, mas em "lugar" entre ambos. É a porta por onde Antigos passaram e por onde passarão de novo. Como ele é a porta e o guardião da porta, seu status é o mesmo do limite. O limite marca o fim da coisa, sua conformação, mas ele mesmo não é nada. A porta não é a casa nem a rua, está entre os dois. Poder-se-ia considerar que a porta marca a entrada da rua tanto quanto a entrada da casa.

Talvez aí se anuncie uma aproximação débil e tímida com a coincidentia oppositorum, mas ela não se completa porque o símbolo escolhido por Lovecraft remete ao não-ser, ao contrário de um princípio supra-individual que não nega as determinações das coisas das quais é o fundamento. O fracasso é confirmado por uma descrição de Yog-Sothoth como um "conglomerado de globos faiscantes", que remete diretamente ao borbulhar de um líquido fervente no qual as bolhas não apresentam nenhuma permanência ou ordem. De novo, acosmia.

Diante de tantas negações da ordem, não será surpresa saber que o "porta-voz" de um desses deuses malditos tem como epíteto o nome de "caos rastejante". Nyarlathotep, de longe o deus mais próximo dos homens, e por isso mesmo o mais horripilante, reafirma a acosmia em seu próprio nome. É o caos, a indistinção dissolvente. Mas é também rastejante, ou seja, preso à terra, outro símbolo equivalente às àguas inferiores.

Ele comunica a desordem e espalha a destruição. Seu perfil sinistro se coaduna perfeitamente com Azathoth, o deus idiota "cujo nome não se deve pronunciar". Note-se que pronunciar é, para diversas tradições, efetivar, tornar real aquilo que é dito. Como se pode tornar real o que é a negação da ordem e do real?

Os estudiosos que entram em contato com tais seres (?) têm como recompensa a destruição física ou mental. Ou são eliminados do ser pela morte ou são mergulhados na dissolução da loucura. Não há escapatória. Eles representam a ordem que se dissolve ante a desordem primordial. São heróis solares invertidos. Perdem a luta contra a serpente/dragão.

Lovecraft demonstra um desejo inequívoco de imersão dissolvente e seus deuses malignos refletem sua incapacidade de abordar o divino a não ser numa perspectiva destruidora do cosmos. Incapaz de afirmar um princípio transcendente supra-individual e assolado pelo isolamento, ele só concebe o infinito em categorias que têm na aniquilação de toda a diferença e na dissolução no difuso caótico seu único resultado.

A obra lovecraftiana seria então um tortuoso elogio das águas inferiores e de profundezas dissolventes que testemunham abismos que estão muito além da prosaica e superficial interpretação psicológica que insiste em reduzir todos os símbolos a meros esquemas psíquicos.
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segunda-feira, 30 de maio de 2011

A preservação da cultura grega no Oriente: Grandishapour e Bayt Al-Hikmah

Quando o imperador bizantino Justiniano ordenou o fechamento de todas as escolas filosóficas pagãs em 529DC, houve um êxodo de filósofos e pensadores em direção ao oriente. Damascius, o último hierarca da Academia platônica, por exemplo, encontrou refúgio e proteção no império persa sassânida.

Sob os auspícios do rei sassânida Khosrau I, formou-se em Gundishapour uma academia científica dedicada ao estudo da astronomia, da matemática, da filosofia e da medicina. Ao mesmo tempo, estudiosos traduziram para o persa diversas obras do mundo clássico grego, bem como da sabedoria indiana e chinesa.

No século VII os exércitos islâmicos árabes derrotaram definitivamente o império persa pondo fim à dinastia sassânida. No ano de 832 DC o califa abássida Al Ma'mum fundou em Bagdá o Bayt Al Hikmah, a "Casa da Sabedoria".

Segundo a tradição, Al Ma'mun teve um sonho no qual Aristóteles lhe apareceu, discutiu com ele sobre a natureza do bem e pediu-lhe que se dedicasse a reunir e traduzir as obras da Grécia antiga. O califa envia então expedições ao império bizantino, à Índia e à Pérsia em busca de obras filosóficas e científicas. Trazidas à Casa da Sabedoria, elas eram traduzidas por uma equipe de sábios de diversas origens e religiões liderados pelo cristão nestoriano Hunayn Ibn Ishaq.

Foram traduzidos livros de Platão, Aristóteles, Plotino, Ptolomeu, Galeno, Euclides, Hipócrates, Plutarco, Aryabhata, Brahmagupta, além de textos chineses.

Mesmo com todo o zelo, seriedade, respeito e aperfeiçoamento, muitas dessas traduções atribuíam obras apócrifas a autores célebres. A Platão (Aflatun, para os árabes), o autor clássico menos traduzido, foi atribuída a autoria, além de suas próprias obras, de livros de alquimia e de magia.

Aristóteles - Aristutalis - se tornou rapidamente o autor grego mais traduzido e lido no Islã e teve quase a totalidade de sua produção conhecida e estudada. Sua fama trouxe-lhe a paternidade de obras apócrifas como aquela que o ocidente cristão conhecerá com o nome sugestivo de Secretum Secretorum.

Mas a história mais interessante é o do apócrifo Teologia de Aristóteles. Por um erro ainda hoje não completamente explicado, essa paráfrase de capítulos das Enéadas de Plotino foi incorporada ao corpo aristotélico como obra original do estagirita.

Como resultado, o Aristóteles islâmico é permeado pelo neoplatonismo plotiniano. Alguns sábios muçulmanos duvidaram da autoria aristotélica desse escrito, mas acolheram as teses nele contidas por seu valor intrínseco. Esse aristotelismo neoplatonizado exercerá grande influência na filosofia islâmica, como testemunha a obra de Ibn Sina.

É graças ao esforço de preservação da cultura clássica dentro do universo islâmico que, através do Al Andalus, a sabedoria grega chega à Europa na época das grandes traduções dos séculos XII e XIII. E são as traduções de obras de Aristóteles até aquele momento desconhecidas, principalmente as de metafísica e de filosofia natural, que tornarão possível a era de ouro da Escolástica medieval, representada precipuamente por São Tomás de Aquino.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Adelard de Bath: filosofia natural e teologia nos séculos XI e XII

"Eu não retiro nada de Deus, pois tudo o que existe vem de Deus e por causa Dele. Mas a ordem natural não existe confusamente e sem um arranjo racional e a razão humana deveria ser ouvida no que concerne àquelas coisas que ela trata. Quando, contudo, ela falha completamente, a questão deve ser referida a Deus. Assim, uma vez que não perdemos ainda o uso de nossas mentes, deixe-nos retornar à razão."

ADELARD de BATH (1080-1142), Quaestiones Naturales

Os séculos XI e XII são o palco de transformações profundas no mundo medieval. As catedrais tornam-se centros de ensino das disciplinas liberais reunidas no trivium e no quadrivium. O primeiro compreendia o estudo da poética, da retórica e da dialética e o segundo compreendia o estudo da aritmética, da geometria, da astronomia e da música.

Nessas escolas de catedral desenvolveu-se rapidamente um interesse fecundo pela lógica, representada principalmente pelas poucas obras do Órganon aristotélico disponíveis em traduções para o latim. Como os romanos tiveram pouco interesse em traduzir as obras clássicas da filosofia grega para o latim, aquelas poucas que sobreviveram à hecatombe do fim do Império e ao caos que se seguiu e que, por fim, chegaram às mãos dos intelectuais dos séculos XI e XII, foram tratadas como a expressão mais perfeita da razão helênica.

Por esse motivo, a teologia que se desenvolve nesse período é fortemente marcada pela busca de demonstrações rigorosamente lógicas. Ainda dentro do ideal agostiniano do credo ut intelligam, ou seja, crer para compreender, os teólogos dessa época se destacam pela busca de um esclarecimento racional, até onde a potência humana permite, do conteúdo da Revelação.

Certamente não era um projeto de fundamentação racional, ou em outros termos, uma tentativa de fundar a fé em premissas racionais, mas sim de tornar a teologia uma ciência rigorosa que apela para o raciocínio e para demonstrações rigorosamente deduzidas dos dados da fé.

Esse gênero de teologia, que teve como seus maiores expoentes Berengário de Tours, Anselmo de Aosta, Pedro Abelardo e o famoso Pedro Lombardo, teve também adversários igualmente importantes que tomavam os novos teólogos como cultores de sofisticações ilegítimas e perigosas e defendiam o que se poderia chamar de "teologia monástica".

Mística e experiência direta de Deus eram as principais características dessa teologia que tinha nos mosteiros suas fortalezas. São Bernardo de Clairvaux e São Pedro Damião estão entre seus maiores expoentes. Este último atacava animosamente os filósofos: "Platão escruta os segredos da misteriosa natureza, fixa limites às orbes dos planetas e calcula o curso dos astros: eu o rejeito com desdém!" Para os "teólogos monásticos" o que importa é a salvação da alma e não os estudos filosóficos.

Ao lado dessas reações fideístas, encontram-se também posições marcadamente favoráveis não só ao estudo da lógica, mas da própria natureza. Adelard de Bath, por exemplo, propugna um estudo detido dos eventos naturais numa disciplina independente de recursos à autoridade da Revelação.

A natureza foi criada por Deus e a Ele está incontestavelmente submetida. Contudo, ela exibe uma ordenação racional capaz de ser captada pela mente humana. Por esse motivo, o homem deve buscar explicações naturais para os fenômenos que ele testemunha neste mundo, só permitindo referências ao poder sobrenatural do Criador onde as potências racionais se encontrem incapazes de fornecer uma explicação satisfatória.

Guillaume de Conches, outro pensador da época, testemunhava o mesmo senso de independência dos estudos de filosofia natural com relação à autoridade da Tradição e da Revelação. Como Adelard, Guillaume crê firmemente em Deus e na dependência ontológica do mundo com relação ao Criador, mas assevera que os fenômenos naturais têm uma racionalidade própria dada por Deus e que, por isso, eles devem ser estudados em suas causas intrínsecas.

Quanto aos ataques dos teólogos fideístas ao seus empreendimentos de filosofia natural, Gullaume assinala que "quando os padres modernos ouvem isso [suas teses naturais], eles as ridicularizam porque não as encontram na Bíblia. Eles não percebem que os autores da verdade silenciaram nas questões de filosofia natural não porque estas são contra a fé, mas porque essas coisas têm pouco a ver com o fortalecimento dessa mesma fé, aquilo com o qual esses autores estavam preocupados. Mas os padres modernos nãos nos querem inquirindo sobre nada que não esteja nas Escrituras, querendo somente que creiamos simplesmente, como camponeses."

Revela-se assim que os séculos XI e XII preparavam uma grande mudança na mentalidade medieval que se ia completar com a tradução, iniciada ainda no século XII, das obras de Aristóteles. Libertados do cadre limitador da tradição platônica e apresentados a um sistema completo de filosofia natural, como era aquele do Estagirita, os filósofos naturais dos séculos seguintes encontraram um ambiente propício para suas especulações.

A mesma atitude de Adelard de Bath e Guillaume de Cronches vai permear doravante o estudo do mundo natural, apresentando-o como disciplina autônoma e independente de considerações bíblicas ou teológicas e atribuindo às coisas um comportamento racional fundado nas naturezas criadas por Deus. Dessa forma, o mundo seria regido pelas causas intrínsecas das coisas e não pela intervenção direta e constante do Criador.

Não se pode esquecer, contudo, que esses pressupostos sofrerão contínuo ataque dos mestres de teologia que, à guisa de defender a onipotência e ação divinas, condenarão as pretensões de verdade da física aristotélica e tornarão teologicamente impossível um conhecimento certo do mundo físico.

sábado, 7 de maio de 2011

Curto comentário simbólico ao "Stalker" de Tarkovsky

O stalker é um psicopompo. Ou seja, um guia da alma que a conduz para regiões afastadas da experiência comum e cotidiana e que revela a ela uma realidade superior a qual deve por força conhecer e conformar-se.

Hermes conduz as almas dos mortos ao Hades. Virgílio conduz Dante pelo Inferno, pelo Purgatório e, finalmente, ao Paraíso. A viagem é sempre um símbolo de uma jornada espiritual que culmina numa modificação efetiva do ser, na restauração de um estado primordial e verdadeiro.

A viagem é uma iniciação. E a Zona é uma região afastada, cercada por forças hostis que pretendem barrar a passagem dos que porventura queiram nela se aventurar. Os guardas do filme são análogos simbólicos das sentinelas que guardam os tesouros nas mitologias, como os dragões ou os homens-escorpiões na Epopéia de Gilgamesh.

A Zona é fruto da queda de um meteorito, ou seja, é o lugar onde a força celeste se depositou no terrestre, onde o superior desceu sobre o inferior. Quod est superius est sicut quod est inferius. Ela é, então, o "centro do mundo", o ponto de convergência.

A Zona tem virtudes e propriedades que não se encontram em nenhum outro lugar e ela abriga um "quarto" que realiza o mais íntimo desejo dos homens. O "quarto" é símbolo da irradiação pelos quatro cantos do mundo - da cruz - das influências do centro do mundo. É imagem do objetivo último, da realidade perfeita a que tende todo ser.

É referência ao quarto no qual deve se recolher o crente, afastado da azáfama cotidiana e dos olhos curiosos, para orar ao Pai, segundo o relato evangélico. "Onde estiver teu coração, aí estará teu tesouro", diz o Mestre. Assim também o quarto, imagem do coração, revela qual o mais íntimo desejo do homem.

Para entrar nessa região, deve-se tomar um psicopompo por guia. Ele conhece o caminho, ele faz o caminho. Não se pode esquecer que o guia, o sacerdote, o santo recebem por vezes o nome de pontifex, "o construtor de pontes". Assim é chamado o Papa, que tem as chaves do Reino e que liga o Céu e a Terra, e Mahavira, um dos Tirthankaras do Jainismo.

O stalker faz as pontes na medida em que, no filme, ele sempre arremessa pequenas pedras amarradas em panos brancos antes de prosseguir a jornada. E ele adverte aos seus guiados que aquele que tenta desviar-se ou tomar um atalho se expõe a perigos inauditos. Sua audácia é interditada pela própria Zona.

Ele assevera ainda que não é possível chegar ao "quarto" simplesmente avançando numa linha reta. Deve-se circunscrevê-lo, tomar caminhos difíceis, aceitar os obstáculos e as provas necessárias. Nisso se evidencia ainda mais claramente o papel de pontifex do stalker, ou seja, aquele que faz o caminho: o homem sozinho não pode alcançar o "quarto", alguém deve fazer a ligação entre os mundos, tal como o Redentor a realizou na encarnação.

O escritor e o cientista representam simbolicamente, respectivamente, as potências afetivas e racionais do homem. Ou ainda, os aspectos psíquicos e sutis e os aspectos densos e materiais. Eles representam ainda a natureza dual do mundo manifestado.

O escritor deplora a monotonia do universo mecanicamente concebido pelas lentes da ciência. O cientista não compreende, mas teme seus perigos e anseia pela destruição do "quarto".

Nenhum dos dois entra no "quarto". Mas será possível entrar no "quarto"? Não será que a sina de nosso mundo é permanecer à porta do Santo dos Santos e não penetrá-lo?

Eles cedem ao mistério sem querer penetrá-lo. Deixam-no como ele é. Renunciam ao conhecimento segundo os modos humanos. O silêncio os envolve. Apophasis. O fim último de toda iniciação é o mistério que jamais pode ser posto em palavras.

Eles retornam ao mundo cotidiano. Não são os mesmos. E a indicação de tal mudança não é dada neles, mas na filha do stalker. Ela é fruto da união do mundo humano e do mundo divino. Sua mãe aceita os sofrimentos e as penas de ser esposa do stalker, de viver sob o signo de uma realidade que ela não compreende totalmente, mas à qual dedica toda sua vida e toda sua vontade.

A filha dessas bodas alquímicas é um criança que molda a própria realidade, que age sem agir diretamente. A ação própria do Espírito.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Notas curtas sobre o simbolismo da entrada de Jesus em Jerusalém


Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho e aclamado como rei pela multidão que acena-lhe com palmas e ramos dizendo: "Hosana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor."

Nessas curtas frases de júbilo são afirmadas a autoridade espiritual e o poder temporal harmoniosamente reunidos na figura de Jesus. Ele é filho de David, ou seja, da casa real de Israel, usurpada pelo rei estrangeiro Herodes Antipas, fantoche patrocinado pelos romanos.

Jesus "vem em nome do Senhor", ou seja, quem O envia é o próprio Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Paulo, em suas epístolas, afirma categoricamente que Cristo é o Sumo Sacerdote legítimo e completo que realiza o sacrifício da nova e Eterna Aliança. É sacerdote "segundo a ordem de Melchisedec", o misterioso rei-sacerdote de Salem (paz), no Gênesis, que traz consigo o pão e o vinho.

Jesus é o rei-sacerdote que entra na cidade de Jerusalém aclamado e reconhecido pelo povo e, por algumas horas, até sua detenção tramada por Caifás e pelo Sinédrio corrupto, Ele é legitimamente o rei. Mas Seu reino "não é deste mundo" e Jesus, após ser aclamado, retira-se dali.

Humildemente, sobre um jumentinho que ainda não havia sustentado carga, Jesus adentra Jerusalém simbolizando a simplicidade na qual os eventos divinos se dão. O microcósmico encontra o macrocósmico, o que está embaixo se encontra com o que está em cima. O Logos se assenta sobre um animal de carga.

O Verbo entra em Jerusalém, simbolicamente o centro do mundo e inaugura Seu reino. Jerusalém era governada por um poder temporal ilegítimo e por uma autoridade espiritual destituída de suas prerrogativas. Caifás é o símbolo da autoridade espiritual que já não reconhece a Verdade, que apega-se aos ritos exteriores e aos apelos do mundo, e que escandaliza-se diante da manifestação livre e sublime do divino.

Ao centro do mundo retorna o Logos, o criador, o alfa e o ômega de tudo o que há. O simbolismo é claro: restaura-se o equilíbrio perdido. E a "iniciativa" é sempre divina, jamais humana. Os vínculos sagrados estão restabelecidos.

O reino de Israel cumpre nesse dia seu fim no plano terrestre: o Messias se torna rei na sua capital, Jerusalém, e inaugura um reino que ultrapassa os sentidos. O centro do mundo está agora dentro do coração dos homens. "O Reino dos Céus está dentro de vós".

domingo, 3 de abril de 2011

Stanley Jaki e as origens da ciência

"A originalidade europeia, a qual se evidencia muito palpavelmente na ciência, tem sua origem no Evangelho, cuja pregação plantou fundo nas mentes europeias, muito antes de Bacon e Descartes, a convicção de que o universo era o produto racional do Criador e de que, como cristãos, eles tinham se tornado mestres e donos da natureza. O novo Organon da ciência não estava no extenso tatear de Bacon sobre fatos na maior parte das vezes irrelevantes, mas na convicção partilhada bem antes dele de que, uma vez que o mundo era racional, ele poderia ser compreendido pela mente humana, embora, como produto de um Criador, ele não pudesse ser derivado da mente do homem, uma criatura. É óbvio que as sementes do Evangelho, ou mais concretamente do credo cristão, o qual afirma ao mesmo tempo a Antiga e a Nova Aliança, precisaram de uma matriz natural, social e psicológica para germinar em palpáveis originalidade e gênio sobre a natureza." (tradução minha do original em inglês)

STANLEY JAKI, The Origin of Science and the Science of its Origin, p.21

Onde se encontra na história a origem da ciência? Na Grécia antiga ou na pregação baconiana do século XVII? O historiador e filósofo da ciência, físico, matemático, professor de Física na Seton Hall University, teólogo e monge beneditino húngaro Stanley Jaki diria que nenhuma das duas respostas possíveis dessa disjunção é correta.

Avesso a certas historiografias da ciência que tentam remontar as origens da ciência às elucubrações geométricas de Arquimedes ou buscam explicar o fenômeno científico do século XVII através da postulação de uma transformação mental e conceitual súbita, misteriosa e sem precedentes, Jaki defende a tese de que essas origens devem ser encontradas na Idade Média, em estreita conexão com os pressupostos mais característicos do cristianismo.

Segundo Jaki, é na pressuposição de que o homem é uma criatura racional habitando um universo criado livremente por um Deus igualmente racional que a ciência pôde dar seus primeiros passos ainda na Idade Média e não, por exemplo, na Grécia antiga. Se houve progressos na geometria e na matemática gregas - principalmente com Arquimedes - eles foram obnubilados pelas metafísicas restritivas de Platão e Aristóteles que vetavam, com maior ou menor ênfase em cada caso, a aplicação da matemática ao mundo natural.

Ao contrário dos gregos, o cristão medieval sabia que o mundo era um artefato racional e consistente criado por um Deus que dispôs todas as coisas "em medida, número e peso", como asseveram as Escrituras (Sabedoria 11, 21). O que Platão nunca sonhou em fazer, uma ciência física baseada na geometria e na matemática, o cristão poderia realizar sem medo de erro. E, de fato, Galileu, um cristão devoto, o realizou sobejamente. Nesse sentido, defende Jaki, Galileu estava seguindo seus mestres medievais.

Contudo, o gênio italiano se afasta deles na sua cegueira em não compreender os limites intrínsecos do método quantitativo, tomando o homem como imagem de quantidades e não de Deus. Jaki, apoiando-se e inspirando-se na obra historiográfica de Pierre Duhem, combateu durante sua longa e prolífica vida acadêmica as principais correntes interpretativas da história da ciência que relegam o cristianismo ao papel de inibidor do nascimento e do progresso da ciência.

Com Duhem, Jaki defendia que foi no fim da Idade Média, nos trabalhos dos parisienses Jean Buridan e Nicolas Oresme, que foram formuladas pela primeira vez as ideias fundamentais do que seria posteriormente conhecido como o princípio da inércia. Tal formulação foi possível graças à inovadora doutrina cristã da criação livre do mundo que rompeu com a ideia grega da eternidade do cosmos. Foi através dessa doutrina que os medievais puderam conceber a ideia de um movimento celeste perpétuo impulsionado de uma vez por todas por Deus no início dos tempos.

Para Duhem e Jaki, essa formulação, embora ainda limitada ao mundo supralunar, inaugura a ciência moderna na medida em que rompe decididamente com as amarras da física aristotélica e permite o posterior desenvolvimento e postulação definitiva, já no século XVII, do princípio da inércia.
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Biografia intelectual de Stanley Jaki: http://theor.jinr.ru/~kuzemsky/sljkbio.html

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pierre Duhem e o método experimental

"O que é uma teoria física? Um grupo de proposições matemáticas cujas consequências devem representar os dados da experiência. A validade de uma teoria é medida pelo número de leis experimentais que ela representa e pelo grau de precisão pelo qual ela as representa; se duas teorias diferentes representam os mesmos fatos com o mesmo grau de aproximação, o método físico considera-as como tendo absolutamente a mesma validade; ele não tem o direito de ditar nossa escolha entre essas duas teorias equivalentes e é obrigado a nos deixar livres. Sem dúvida, o físico vai escolher entre essas duas teorias logicamente equivalentes, mas os motivos que vão guiar sua escolha serão considerações de elegância, de simplicidade, de comodidade, razões de conveniência essencialmente subjetivas, contingentes e variáveis de acordo com o tempo, as escolas e as pessoas. Por mais graves que esses motivos possam ser em alguns casos, eles não serão jamais de tal natureza que a adesão a uma das teorias ou a rejeição da outra sejam consequências necessárias deles." (tradução minha do original em francês)

PIERRE DUHEM, Physique de Croyant

No trecho citado acima o filósofo, físico e historiador da ciência francês Pierre Duhem explica de forma clara sua concepção acerca da natureza da teoria física.

A ciência, longe de poder provar suas asserções por meio de uma derivação lógica de princípios autoevidentes, tem como seu método derivar predições empíricas de suas teorias e compará-las com o que é observado.

Por esse método, porém, nenhuma teoria pode ser estabelecida definitivamente, pois sempre é possível que mais de uma teoria se adeque satisfatoriamente aos dados empíricos. Ou seja, para qualquer conjunto de dados observacionais, um número indefinido de teorias pode ser adequado a ele.

"O método experimental não pode transformar uma hipótese de física numa verdade incontestável porque não se pode jamais estar certo de que se tenham esgotado todas as hipóteses imagináveis que podem se aplicar a um grupo de fenômenos. O experimentum crucis é impossível." (Duhem, Quelques Réflexions au sujet de la Physique Éxperimentale)

A pedra de toque de uma teoria física será sua adequação ao comportamento observável dos corpos. E essa adequação depende do grau de aproximação apresentado pela teoria. Daí, Pierre Duhem defende, é errado falar de verdade ou de falsidade com relação às teorias físicas. Elas são sempre aproximativas e, por isso, nem falsas e nem verdadeiras, somente mais ou menos adequadas.

"Do ponto de vista da pura lógica, os princípios fundamentais das teorias da mecânica e da física podem ser encarados somente como postulados livremente colocados pela mente. Do conjunto desses postulados o raciocínio dedutivo deduz um conjunto mais ou menos remoto de consequências as quais concordam com os fenômenos observados; essa concordância é tudo o que o físico espera desses princípios postulados." (itálicos no original, carta de Duhem ao Fr. Reginald Garrigou-Lagrange)

E as propriedades que as teorias postulam, compõem elas a natureza última dos fenômenos?

"A esses princípios da física, podemos e devemos fazê-los corresponder a proposições que afirmam certas propriedades reais dos corpos? À Lei da Inércia, por exemplo, devemos fazer corresponder a afirmação de que há, em cada corpo em movimento, uma certa realidade, um impetus, dotado de tais e tais características? Essas proposições se aplicam ou não a seres dotados de livre arbítrio? Estes são problemas que o método do físico é incapaz de solucionar e ele os deixa para a livre discussão dos metafísicos." (itálico no original, carta já citada)
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terça-feira, 8 de março de 2011

Tomás de Aquino, Revelação e Filosofia

"Para qualquer crente sincero que é, ao mesmo tempo, um verdadeiro filósofo, a menor oposição entre a sua fé e a sua razão é um sinal seguro de que algo está errado com sua filosofia. Pois, de fato, fé não é um princípio do conhecimento filosófico, mas um guia seguro para a verdade racional e uma advertência infalível contra o erro filosófico. Um homem que não gosta de crer naquilo que ele pode conhecer, que nunca pretende conhecer aquilo que ele somente pode crer e que é ainda um homem cuja fé e conhecimento crescem numa unidade orgânica porque ambas nascem da mesma fonte divina; este é, se não o retrato, no mínimo o modelo do típico membro da família tomista."

ÉTIENNE GILSON, Reason and Revelation in the Middle Ages

Após o longo esforço de tradução das obras de filósofos gregos, principalmente de Aristóteles, levado à cabo no século XII, o século XIII desponta como a época de absorção do saber dos pensadores da Grécia clássica pelos mestres das universidades europeias.

É também a era de uma síntese original entre as exigências racionais, representadas pelos tratados peripatéticos, e os deveres da fé, apresentados pelas Escrituras e pela Tradição.

A síntese aqui referida é obra da pena de um frade mendicante dominicano da Itália chamado Tomás de Aquino. Inteligência das mais radiantes, o Doctor Angelicus é, sem dúvida alguma, o maior filósofo da Idade Média, seja pela amplidão de sua obra monumental, seja pela profundidade e rigor lógico que testemunha no tratamento das mais espinhosas questões da filosofia e da teologia.

Sobre as relações entre fé e conhecimento, Tomás inicia definindo os termos em disputa. Pela consideração das suas natureza, expostas nas suas definições, será possível dizer, sem erro, o lugar de cada uma na vida humana.

A fé é o assentimento a conteúdos revelados diretamente por Deus. O conhecimento é o assentimento àquilo que se demonstra verdadeiro por meio da luz da razão natural.

Em termos estritos, não sabemos que os conteúdos da fé são verdadeiros. Não chegamos a eles por meio de raciocínios dedutivos a partir de premissas verdadeiras ou evidentes. Nesse sentido, não sabemos e nem conhecemos.

Por outro lado, o crente confia que tais conteúdos sejam verdadeiros por causa da fonte do testemunho, o próprio Deus. O autor do testemunho testemunha a Si mesmo revelando-se ao homem em afirmações que não poderiam ser alcançadas pela luz natural da razão humana.

O crente não sabe, por vias dedutivas naturais, que há a Encarnação do Verbo eterno de Deus e nem que há uma Trindade consubstancial e indivisível. E nem poderia saber, ainda que se esforçasse por milênios em elucubrações filosóficas. O que Deus revela é algo que, por sua própria natureza, não pode ser alcançado pelo homem.

Mas existem algumas coisas sobre Deus que podem ser conhecidas por meios naturais.

O filósofo pode saber que Deus existe, conhecer alguns de seus atributos e afirmar o conhecimento de que há uma alma imortal. Mas nem todos os homens são filósofos, e é por isso que estes conteúdos, ainda que naturalmente alcançáveis pela razão humana, são também objeto da Revelação, a fim de que nenhum homem se perca por não os haver conhecido.

Outros conteúdos há que nem o homem comum, incapaz de empreender investigações filosóficas, e nem o filósofo propriamente dito podem alcançar. Tais são as verdades de fé divinamente reveladas. E verdades, sejam elas quais forem, não podem se contradizer.

Por isso, as verdades da fé e aquelas da filosofia necessariamente concordam. Se há discordância, ela é aparente e se deve a uma falha da filosofia. As Escrituras são a Palavra de Deus e jamais estão enganadas. O erro só pode ser atribuído às falhas da razão humana limitada.

Mas as Escrituras não determinarão as premissas corretas para os argumentos filosóficos. Filosofia não é teologia, ciência que baseia suas cadeias demonstrativas em premissas cujo conteúdo é revelado por Deus diretamente.

A filosofia, enquanto ciência, é independente. Suas demonstrações não partem de conteúdos de fé, mas de premissas evidentes hauridas pela experiência comum. Quando uma discordância se apresenta entre a fé e a filosofia, então isso é sinal de que esta se enganou, que está em erro.

A tarefa, contudo, de apontar o erro e corrigi-lo, pertence à própria filosofia. Nenhum apelo às Escrituras deve ser permitido. Cabe à filosofia reparar seus erros com os meios que lhe são próprios. Ela deve rever seus argumentos e encontrar o erro, substituindo-o pelo acerto. Sozinha, sem ajuda da teologia.

A discordância com a fé revelada aparece então como um sinal claro e inequívoco de que foi cometido um erro filosófico.

Conquistada no século XIII pelo tomismo, a síntese entre fé e razão será duramente criticada por uma onda de reação teológica contra a filosofia inaugurada pelas condenações de 1277, poucos anos após a morte de Tomás, e finalmente perdida nos séculos XIV e XV.

domingo, 6 de março de 2011

Filosofia medieval e a "doutrina da dupla verdade".

O que fazer quando as conclusões escrupulosamente deduzidas de princípios evidentes hauridos da própria experiência comum discordam dos conteúdos mais importantes da Revelação divina? O que acontece quando a filosofia diz que é rigorosamente impossível aquilo que afirmam as Escrituras como verdade indubitável?

É óbvio que o conflito entre a sabedoria filosófica pagã e a Revelação cristã já era sentido e debatido desde o segundo século depois de Cristo - talvez desde as cartas de São Paulo - e que soluções já haviam sido propostas, mas é nos séculos XII e XIII que a discussão tem, sem dúvida, seu ápice.

Enquanto os cristãos viveram sob a égide do império romano, eles foram obrigados a conviver com uma gama crescente de seitas, cultos de mistério, sociedades esotéricas e religiões de diversos gêneros. É nesse ambiente que os primeiros filósofos cristãos, os apologistas, desenvolveram seu pensamento, em geral para defender a fé nascente das perseguições movidas pela ignorância das autoridades pagãs acerca de sua real doutrina ou para expressá-la da forma mais clara possível a fim de impedir o engano e a heresia dentro de suas próprias fileiras.

A queda do império do ocidente trouxe caos, destruição e, como consequência, a perda quase total da cultura clássica. Até o século XII, os europeus ocidentais ignoravam quase a totalidade da obra de Aristóteles e Platão. Contudo, homens como Wilhelm von Morbecke e outros realizaram um grande empreendimento de tradução de obras da filosofia grega trazidas dos domínios árabes na Espanha.

Junto com inúmeros apócrifos - como o Secretum Secretorum, atribuído a Aristóteles - começou a circular pelas universidades um conjunto formidável de obras do Estagirita que, rapidamente se tornaram o centro dos estudos dos mestres de artes, filósofos sem treino em teologia.

Ora, com Aristóteles vieram também as doutrinas de seu maior comentador, Ibn Rushd ou Averróes, que defendia a total independência e implícita superioridade da filosofia com relação à teologia. Seria tal doutrina compatível com a fé cristã?

E mais, se Aristóteles se mostrava tão convincente em seus argumentos a ponto de suas conclusões serem inegáveis e se estas entravam em conflito direto com a Revelação, que decisão um filósofo poderia tomar? Abraçar a fé ou o silogismo, Jerusalém ou Atenas?

Diante desse impasse, alguns pensadores passaram a defender a "doutrina da dupla verdade". Étienne Gilson afirma que essa é uma designação ruim, pois nenhum medieval poderia admitir que duas verdades realmente pudessem se contradizer mutuamente. Posto que há contradição evidente entre aquilo que a filosofia afirma ser necessariamente verdadeiro e aquilo que a fé revelada aponta como absolutamente verdadeiro, então uma das duas deve ceder seus direitos.

Que seja então a filosofia a fazê-lo. Assim, tudo o que se sabe por meios racionais é o que se poderia saber se Deus não se houvesse revelado. Deus é a razão infinita, além de todo e qualquer conceito ou argumento e, por conseguinte, ultrapassa infinitamente nossa razão humana limitada.

É nesse espírito que diversas teses de Averróes e Aristóteles serão condenadas pelo bispo de Paris Étienne Tempier em 1277. O que é necessário filosoficamente não constrange Deus em nenhum grau, isto é, ainda que algo seja racionalmente provado como impossível, Deus sempre poderá realizá-lo pois Ele é onipotente e fonte de tudo o que há.

O que o homem pretende saber é somente o que ele pode saber a partir de sua mente limitada. Mais alta é a sabedoria que vem diretamente da Revelação contida nas Escrituras. O papel do filósofo seria raciocinar independentemente de qualquer conteúdo de fé, como se o mundo não fosse cristão, e apresentar suas conclusões sem se imiscuir nos assuntos pertencentes à esfera de estudo dos mestres de teologia.

Essa solução lança, intencionalmente ou não, uma grave suspeita sobre a validade ou a utilidade da própria filosofia, além de implicar uma interpretação fideísta da Revelação. Nessa mesma época, entretanto, surge ainda uma outra possibilidade se fazer justiça às pretensões da filosofia e às exigências da fé. Ela estará plenamente desenvolvida no pensamento de São Tomás de Aquino.

sábado, 5 de março de 2011

Um frade poeta contra Sócrates e Platão

"Platão e Sócrates podem se dedicar a contendas
E gastar todo o fôlego de seus corpos
Discutindo sem fim -
O que é isso tudo para mim?

Somente um coração puro e uma mente simples
Seu caminho direto para o céu podem encontrar;
Louva o Rei - enquanto deixa para trás
O mundo da filosofia."

BEATO JACOPONE DA TODI (1236-1306)

No post anterior tratamos da corrente medieval - representada pelo personagem Venerável Jorge de Burgos do romance O Nome da Rosa - que não via com bons olhos a relação entre a Revelação e a filosofia grega estabelecida pelo pensamento tomista.

Essa reação contrária ao saber dos filósofos não era nova. Ela nasceu já no século II, o momento em que o cristianismo nascente começou a atrair para seu redil pagãos de sólida formação filosófica. A disputa ocasionada pela questão acerca dos direitos da filosofia não se limitou aos primórdios do cristianismo, mas se estendeu pelos séculos seguintes da chamada Idade Média.

Aqueles que negavam qualquer utilidade da filosofia para o cristão, vendo em suas elucubrações sofisticadas não mais do que uma indulgência aos pecados da vaidade e da curiosidade vã, o faziam respaldados por uma tradição que remontava às invectivas de Tertuliano contra a sabedoria pagã.

Dessa corrente "tertuliana", como a designou o medievalista francês Étienne Gilson, pertenceram místicos, monges, clérigos e poetas da estatura de São Bernardo de Clairvaux, de São Pedro Damião e do beato Jacopone da Todi, cujo poema acima traduzimos.

Jacopone era membro do grupo dos "espirituais", um segmento dentro da ordem franciscana que pregava um retorno à simplicidade e à pobreza que marcaram a vida do seu fundador São Francisco de Assis. Os "espirituais" não encaravam com simpatia os estudos filosóficos e teológicos a que se dedicavam cada vez mais seus confrades desde a morte do poverello em 1226.

Os versos resumem os traços básicos dessa corrente: o caráter vão das discussões filosóficas, os fundamentos da salvação e a consequente rejeição da filosofia. Platão e Sócrates representam o conjunto da sabedoria pagã que se resume a uma história de contendas infindas que duram até a morte de seus participantes. Eles gastam até seu último fôlego, morrem discutindo porque não chegam a nenhum resultado positivo. Nenhum conhecimento é alcançado por essa via.

Ao utilizar dois grandes mestres como personagens de seu poema, Jacopone parece querer insinuar que se os mais dotados contradizem-se mutuamente sem chegar a qualquer solução, o mesmo fardo está destinado a todos aqueles que, sem os mesmos dotes, vierem porventura a se aventurar pelas elucubrações filosóficas.

Mas o que é isso para ele, o cristão? Não recebeu ele a graça da fé e do entendimento da vontade de Deus por meio das Escrituras? Então que significado pode ter para ele esse espetáculo triste apresentado pelos sábios pagãos?

O prêmio da salvação, o único bem absoluto, só pode ser alcançado por um coração puro e uma mente simples. O caminho já está revelado, basta ao homem trilhá-lo. E ao fazê-lo, louvando o criador e sustentáculo do universo, ele necessariamente deixa para trás o mundo confuso em que habitam aqueles seres infelizes e amantes da contenda, os filósofos.

Os "tertulianos" não são a única força dentro do cristianismo medieval. Na verdade, representam uma posição extremada que tende a minimizar o conteúdo especulativo da própria tradição cristã e a ignorar as claras afirmações dos direitos da razão contidas nas próprias Escrituras.

Em geral, o pensador da Idade Média busca uma compatibilidade de alguma ordem entre sua fé, mantida como o porto seguro de sua vida, e suas necessidades de entendimento racional. E é nessa perspectiva que o pensamento medieval apresenta suas mais instigantes realizações teóricas.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Nome da Rosa: Jorge de Burgos contra Aristóteles


"Cada livro daquele homem destruiu uma parte da sabedoria que a cristandade acumulara no crescer dos séculos. Os padres disseram aquilo que era preciso saber sobre a potência do Verbo, e bastou que Boécio comentasse o Filósofo para que o mistério divino do Verbo se transformasse na paródia humana das categorias e do silogismo. O livro do Gênese diz o que é preciso saber sobre a formação do cosmos, e bastou que se descobrissem os livros físicos do Filósofo, para que o universo fosse repensado em termos de matéria surda e viscosa, e para que o árabe Averróes quase convencesse a todos da eternidade do mundo. Sabíamos tudo sobre os nomes divinos, e o dominicano sepultado por Abbone - seduzido pelo Filósofo - os nomeou de novo seguindo as sendas orgulhosas da razão natural. Desse modo, o cosmos , que para o Areopagita se manifestava a quem soubesse olhar para cima a cascata luminosa da causa primeira exemplar, tornou-se uma reserva de indícios terrestres dos quais se remonta para nomear uma abstrata eficiência. Primeiro olhávamos para o céu, dignando de um olhar agastado a lama da matéria, agora olhamos para a terra, e acreditamos no céu pelo testemunho da terra. Cada uma das palavras do Filósofo, sobre as quais já agora juram também os santos e os pontífices, viraram de cabeça para baixo a imagem de Deus."

VENERÁVEL JORGE DE BURGOS, O Nome da Rosa *

A fala do monge ancião venerável Jorge de Burgos, personagem fictício do famoso romance O Nome da Rosa de Umberto Eco faz alusão a um dos grandes debates da Idade Média: o lugar da filosofia no seio do Cristianismo.

A trama do livro se passa na primeira metade do século XIV, numa época onde os estudos filosóficos já eram uma atividade mais do que consolidada na vida da Igreja ocidental. Na verdade, desde seus inícios, o cristianismo travou contato com a herança filosófica grega, chegando mesmo a utilizar-se de seus termos para melhor transmitir o conteúdo da fé.

Qual o papel que o saber pagão deveria ter na vida cristã permaneceu, porém, uma questão em aberto por toda a Idade Média. Havia os que, seguindo o exemplo de Tertuliano, rejeitavam toda e qualquer especulação filosófica como desnecessária e, por vezes, prejudicial àqueles que já tinham aceitado a revelação divina na pessoa de Cristo.

Outros havia que a utilizavam para melhor transmitir os conteúdos complexos dos dogmas, restringindo desse modo o erro no entendimento dos mesmos sem, contudo, comprometerem-se com a defesa de um sistema filosófico qualquer. Outros ainda defendiam a submissão da filosofia à Revelação, da qual deveriam ser retiradas todas as premissas das investigações dignas desse nome.

Como asseverava Étienne Gilson, é o frade mendicante italiano Tomás de Aquino que concede ao empreendimento filosófico bases independentes da Revelação e sustenta que as conclusões deduzidas logicamente de premissas evidentes, hauridas da experiência sensível comum, jamais podem realmente estar em contradição com aquilo que é revelado por Deus. Em outras palavras, duas verdades jamais se contradizem.

Por esse motivo, qualquer conclusão que seja fruto dos poderes naturais da razão humana e que contradiga direta ou indiretamente os conteúdos revelados deve estar errada. O erro, porém, não é corrigido pelas Escrituras, a partir da adoção de suas afirmações sobrenaturais como premissas. Ele deve ser corrigido por meios racionais e naturais, em um reexame das premissas de onde foram deduzidas as conclusões errôneas.

O conflito com a Revelação indica uma falha cognitiva humana, mas não aponta em que ponto está a falha e nem provê as premissas corretas para corrigí-la.

A atitude tomista recebeu duras críticas de seus contemporâneos, principalmente dos agostinianos, que usavam acusá-la de introduzir o paganismo no cristianismo. Tomás, entretanto, jamais deixou de enfatizar a diferença entre aquilo que se pode saber por meio da razão natural e aquilo que só se pode saber por meio da revelação divina. Esta será sempre superior àquela.

Contudo, nem todos se convenceram dessa doutrina cautelosa do Aquinate. O século XIII foi a época da absorção do corpus filosófico e científico aristotélico traduzido ainda no século XII pelo esforço admirável de monges e frades como Wilhelm de Moerbeke. Nesses tempos, não foram poucos que se convenceram do perigo de uma contaminação da fé pelos silogismos do Estagirita.

É de 1277 a condenação de diversas teses da física de Aristóteles pelos mestres teólogos da Universidade de Paris em comunhão com o bispo Étienne Tempier. Essa condenação, já comentada aqui em post anterior, teve como motivação a defesa da liberdade divina frente às pretensões de certeza dos filósofos naturais.

O que Jorge de Burgos bem percebe é que a filosofia aristotélica, cujas bases são buscadas sempre na observação sensível cotidiana, opera uma curiosa inversão no caminho do pensamento. Pela consideração dos seres e de suas essências se chega ao motor imóvel eterno e imutável para o qual todas as coisas tendem como o amante busca o amado.

Ora, se a teologia apofática do mestre São Dionísio Areopagita resguardava o cristão do erro na concepção de Deus negando a possibilidade de afirmação de qualquer atributo ou nome à divindade, cuja supra-essência está além de toda essência e de todo o conceito, como poder-se-ia confiar num caminho que atraía a inteligência às realidades sensíveis?

E mais, Aristóteles considerava as coisas a partir de suas essências, suas formas substanciais, de onde provinham todas as suas potencialidades e onde, por conseguinte, se enraizavam causalmente todas as suas ações. Um modo como esse de considerar o mundo não afastava a ação divina? Se não a afastava completamente, não a limitava ao menos?

Muitos apontaram para a ausência nessa filosofia pagã da radical dependência ontológica das coisas com relação ao Criador. Para o cristão tudo o que há foi tirado do nada pela vontade livre e soberana de Deus. Por isso mesmo, as coisas não apresentam uma subsistência ontológica a não ser por meio da ação contínua de Deus.

No século XII o místico sufi Al Ghazali já havia defendido o absoluto ocasionalismo divino. Em outras palavras, nada há de subsistente nas coisas e quando se observa um corpo agindo sobre outro se observa na verdade a ação divina que une causa e efeito por sua livre e soberana intervenção e não pela suposta presença de essências ou naturezas intrínsecas nesses corpos.

Contra ele se levantaram tanto Averróes quanto o dominicano de Aquino, argumentando que se não houvesse naturezas intrínsecas nas coisas pelas quais elas agem, não haveria também nenhuma possibilidade de conhecimento real do mundo. Deus age no mundo diretamente através da excepcionalidade dos milagres nos quais capacita as coisas a apresentarem efeitos que vão além de suas capacidades naturais e ordinárias.

Jorge de Burgos via a inversão gnosiológica empreendida por Tomás e seus seguidores como uma perigosa inversão também na ordem ontológica e que esta teria como consequência o esquecimento da dependência dos seres criados com relação a Seu Criador.

Se os temores do venerável monge eram fundados ou não, é assunto para uma investigação robusta da filosofia e da teologia do Aquinate, o que não vai ser feito aqui neste momento. O que é certo, contudo, é que eles encontram eco em várias polêmicas e disputas da fascinante aventura intelectual que caracterizou a Idade Média.
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Leia também:
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* O "Filósofo": Aristóteles; o "dominicano sepultado por Abbone": Tomás de Aquino.
A edição utilizada é da editora record e foi traduzida por Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade.

Voegelin, o abismo moral e a ordem transcendente

"A world that allows itself to be shaken by an irrational man is contemptible."

ERIC VOEGELIN

A frase acima do grande filósofo e cientista político alemão radicado nos Estados Unidos Eric Voegelin foi proferida em uma das onze palestras proferidas na Alemanha na década de 60 e que foram reunidas em livro sob o título Hitler and the Germans.

Pode-se dizer que ela aponta para a questão central das palestras de Voegelin sobre as relações de Hitler com a sociedade alemã de sua época. Uma nação que permite que um homem desprezível moralmente alcance o poder máximo sobre tudo e sobre todos só pode estar num estado tão desprezível moralmente quanto seu líder.

Ou seja, que estado de degradação cultural, intelectual, social, ética e moral uma sociedade tem que atingir para que certos tipos possam galgar com sucesso as escadarias do poder? Voegelin aponta para o fato doloroso de que Hitler não foi um acidente imprevisível num percurso de resto retilíneo e constante, mas o sintoma incontornável de uma doença espiritual que não foi reconhecida a tempo como tal.

Contudo, o abismo que tornou possível a ascensão de Hitler ao poder não é uma idiossincrasia da alma germânica. E a questão para a qual Voegelin aponta vai além da situação histórica determinada estudada por ele naquelas palestras.

Como o próprio Voegelin declara, o importante não é mergulhar no conhecimento milimétrico de cada uma das atrocidades nazistas. É bom que elas sejam denunciadas como tais, como atrocidades absolutamente execráveis. Mas essa denúncia deixa intocada a questão central sobre o estado de uma sociedade que permite a tais homens deploráveis chegar ao poder.

Que doença é essa que faz com que toda uma sociedade - sua elite intelectual aí incluída - torne-se praticamente insensível à baixeza moral manifestada por determinados elementos que pleiteiam o ingresso nos corredores do poder?

Tal pergunta é cabível ainda hoje, em nossa realidade. Que tipo de depravação é essa que faz com que aceitemos homens da mais baixa extração moral e intelectual como nossos governantes? Eles não são fruto do acaso ou da imposição externa, eles são o sintoma do grau de decomposição espiritual em que nos encontramos.

Para Voegelin, a razão última do fenômeno descrito até aqui está em uma insensibilidade à ordem transcendente das coisas. O cosmos interno do homem depende da ordem descoberta nas duas grandes experiências do divino na civilização ocidental: a revelação monoteísta israelita e a filosofia grega.

Em ambos os casos, na dignidade humana está implicada uma participação no divino, uma dependência do proton aition, da causa primeira. O solo é o Ser e a perda da realidade é sempre uma perda da ordem do Ser. A desdivinização tem como contrapartida necessária a desumanização.

A ordenação da realidade interna, não estando mais ancorada na ordem transcendente do Ser, mas no caudal caótico dos desejos, gera uma progressiva desumanização e uma hybris cuja máxima poderia ser a frase do poeta romântico alemão Novalis: "O mundo deve ser como eu quero!"

Aleksandr Solzhenitsyn já dizia que é nos corações humanos, e não nas classes ou partidos políticos, que encontra-se a linha separando o bem do mal. É o homem, cada homem, na medida em que opta pelo bem, pelo Ser, submetendo-se à ordenação "vinda do alto", que subverte a marcha da desumanização em si mesmo.

Outro nome para isso não há senão metanoia.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Considerações curtas sobre o simbolismo do deserto

Profeta Elias no deserto

Todo símbolo se presta a interpretações diversas de acordo com o ângulo sob o qual é encarado. O símbolo é sempre imperfeito, mais ou menos adequado ao simbolizado, também de acordo com o caso. E, em muitas circunstâncias, um mesmo símbolo pode referir-se a realidades diametralmente opostas.

Por outro lado, o símbolo jamais é arbitrário. Se o fosse, seria mero sinal, convenção, como ensina Mário Ferreira dos Santos. O deserto, por exemplo, é tradicionalmente visto como um símbolo do vazio, ou em outros termos, da indistinção radical. Obviamente o deserto atual e existente no mundo não é um vazio total e nem mesmo apresenta absoluta ausência de seres distintos, limitados.

O deserto real não é idêntico àquilo que simboliza. Mas ele é uma das experiências sensíveis e temporais mais próximas da indistinção e do vazio. O vazio pode ser símbolo tanto de ausência quanto de plenitude. Como ausência, é o símbolo do afastamento absoluto do Ser, da negação de todo e qualquer ente, possível ou efetivo. É o símbolo do mal, pois o mal é ausência de bem, que é sempre Ser.

A posse do órgão da visão e da sua respectiva faculdade são atualizações de potencialidades. São bens, são o Ser sendo. A cegueira é um mal porque é uma privação, a ausência do ser efetivo da visão. Sob essa ótica, o deserto é o lugar próprio da privação e da ausência. É o lugar da negação pura e simboliza o negativo absoluto, a privação total e completa que jamais pode se manifestar enquanto tal, pois tudo que se manifesta é Ser, é ente.

O deserto é a morada do negador par excellence: o demônio. Para o espírito maligno que habita o deserto era enviado o bode expiatório que carregava os pecados, as transgressões e as negações do povo hebreu. Para o êrmo eram impelidos os endemoniados do Evangelho que de todos se afastavam, como exemplos da negação radical da convivência com o outro.

É no deserto que o Senhor é tentado logo após seu batismo no Jordão. Mas é nesse mesmo lugar que o Cristo repele decididamente as ofertas do tentador. Neste ponto o simbolismo se reverte.

Jesus recusa o demônio, a negação personalizada, porque ele está no deserto que é plenitude. Está no vazio que é a suprema indistinção da divindade, que jamais pode ser classificada em nenhuma categoria humana. Deus não é isso ou aquilo. Está além de qualquer palavra ou pensamento, excede infinitamente toda expressão ou discurso humanos.

Em Deus nenhum limite há; portanto, aí nenhuma determinação, nenhuma classificação pode haver. Ele é Deus absconditus. O deserto transmuta-se em símbolo do divino. Moisés, após subir o monte Sinai, símbolo da ascensão espiritual, de Deus só vê trevas. Como ensina São Gregório de Nissa, comentando o texto mosaico, o conhecimento espiritual é cada vez mais perfeito quanto mais se reconhece a incompreensibilidade divina.

O deserto se torna então símbolo não da ausência radical dos seres, mas da realidade inapreensível que os ultrapassa e os funda primordial e absolutamente. De nenhum valor serão os reinos deste mundo oferecidos pelo demônio ao Cristo, pois Ele vive no vazio divino que está além de qualquer limite e determinação.

No Antigo Testamento, é para tal deserto que foge o santo profeta Elias, sofrendo "as perseguições movidas pelos poderes deste mundo", como expressa a Divina Liturgia Ortodoxa. O último profeta e precursor João Batista vem do deserto para anunciar a vinda do Senhor, que é a divinização do Cosmos.

É para esse deserto que a Igreja deve fugir toda vez que for tentada pelo poder temporal. É nesse deserto que se enraíza a autoridade espiritual. Quando a Igreja se tornou mundana, beneficiária dos privilégios concedidos pelos imperadores romanos, a verdadeira autoridade espiritual se destacou de seus representantes oficiais e se encarnou naqueles monges e anacoretas que partiam do saeculum para o deserto em busca somente daquilo que é mais importante.

O deserto dá testemunho tanto de plenitude espiritual quanto de perigos e tentações. Pode ser o vazio todo-excludente da negação pura ou a plenitude todo-abarcante do inabarcável ser divino. O monge ou anacoreta que partia para o deserto físico da privação material dos confortos deste mundo tinha como objetivo passar espiritualmente do vazio da negação e da ausência para o da união íntima com a supra-essência divina que ultrapassa infinitamente todo e qualquer conceito ou limitação.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aristóteles, física, movimento e a natureza da luz

"A luz não é fogo nem qualquer tipo de corpo e nem mesmo algum tipo de fluído de um corpo (se fosse isso, seria algum tipo de corpo também). (Luz) é a presença do fogo ou algo aparentado com o fogo naquilo que é transparente. Não é certamente um corpo, pois dois corpos não podem estar presentes no mesmo lugar. O oposto da luz é a escuridão; e escuridão é a ausência naquilo que é transparente do estado positivo correspondente acima caracterizado."

ARISTÓTELES, De Anima, II, 7, 15

A física de Aristóteles é uma física do movimento. E movimento é uma atualização de potencialidades, ou seja, é a passagem do potencial ao efetivo.

O mármore tem a potencialidade de ser moldado numa estátua. Há movimento enquanto as marteladas e cinzeladas transformam o mármore numa escultura. Quando, após todo aquele trabalho com o cinzel, finalmente surge um Apolo, aquela potencialidade é realizada plenamente. Agora há uma estátua em ato.

Note-se, entretanto, que a passagem da potência para o ato acima descrita é realizada por um agente externo, o escultor. O mármore não tem em si mesmo o princípio de seu movimento. Os seres naturais, ao contrário dos artificiais, têm em si mesmos o princípio, sua natureza, que os faz atualizar suas potencialidades específicas.

Ora, se a física trata do movente, então a luz será tratada sob o mesmo paradigma. A luz não será fogo, corpo ou fluído que se desprende de algum corpo, mas tão somente a atualização daquilo que é transparente.

Para Aristóteles toda percepção se dá entre um órgão sensitivo, um meio e um objeto sensível. Se este é colocado próximo demais do órgão sensitivo, não há percepção. O exemplo mais claro disso é quando algo é colocado perto demais dos olhos e, por isso, não se consegue enxergá-lo distintamente. Quando o objeto é afastado do órgão e um espaço se interpõe entre eles, acontece a percepção. A distância necessária para que isso aconteça varia de acordo com o sentido.

O ar, a água e alguns corpos sólidos são transparentes, ou seja, devem sua visibilidade à cor de alguma outra coisa. O ar serve usualmente como meio entre o olho e a coisa enxergada. Quando sob a ação do fogo ou qualquer substância ígnea, o ar atualiza sua potencialidade específica de transparência e assim permite que a cor, objeto primário da visão, seja enxergada.

A escuridão é então o meio transparente não atualizado, ou seja, em potência. O fogo é o agente externo que torna a transparência potencial do ar efetiva. E a luz é a atualização da potência do meio transparente.