sexta-feira, 16 de outubro de 2009

São Justino, filosofia e Revelação


"Porque tudo que de bom disseram e acharam os filósofos e legisladores foi por eles elaborado segundo a participação que tiveram no Verbo, pela investigação e pela intuição. Mas como não conheceram o Verbo inteiro, que é Cristo, se contradisseram também com freqüência entre si. (...) Cada um deles falou bem, vendo aquilo que tinha afinidade com ele, da parte do Verbo seminal divino que lhe coube; mas é evidente que em muitos pontos se contradisseram mutuamente, e assim não alcançaram ciência infalível nem conhecimento irrefutável. Porém, tudo que de bom está dito em todos eles, pertence-nos a nós, cristãos, pois adoramos e amamos, depois de Deus, ao Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável. (...) E todos os escritores só puderam, obscuramente, ver a realidade graças à semente do Verbo depositada neles."

SÃO JUSTINO, Apologia II


O filósofo e mártir cristão Justino, morto em Roma provavelmente no ano 165 D.C., lançou as bases das relações entre a herança filosófica grega e o cristianismo que se desenvolveriam plenamente ao longo da história do ocidente.

Mente inquieta, na busca pela verdade, freqüentou filósofos aristotélicos, platônicos, pitagóricos e estóicos sem, contudo, achar em nenhum deles as respostas que buscava. Segundo o próprio Justino, sua peregrinação teve fim quando, em Éfeso, um ancião lhe falou sobre Cristo e os profetas.

Embora um sincero convertido, não deixou de ensinar filosofia e, pela primeira vez no nascente cristianismo, dedicou-se à tarefa de determinar as justas relações entre Cristo e os filósofos, entre a Revelação e a filosofia.

Ora, para Justino nada do que é verdadeiro pode estar separado, em sua origem, da Verdade em si mesma que é o Verbo encarnado, Jesus de Nazaré. E uma vez que que tudo o que é verdadeiro vêm de Cristo e os filósofos disseram verdades, então estes só o puderam fazer por uma participação na verdade do Verbo.

Tal participação é imperfeita obviamente, pois nenhum deles conheceu a verdade plena, uma vez que esta só pode ser conhecida pela Revelação. Mas ainda assim, Justino diz, Sócrates conheceu parcialmente o Cristo, pois buscava a verdade.

Justino pode então afirmar que tudo o que de verdade foi dito pelos antigos gregos pertence, por direito, ao cristianismo. Se toda verdade procede do Verbo e os cristãos adoram o Verbo procedente do Deus ingênito, então toda e qualquer verdade lhes pertence. Não há conflito fundamental entre os filósofos e Cristo. Duas verdades não podem se contradizer.

Por outro lado, os erros dos filósofos gregos lhes pertencem, pois não lhes foi dado a graça dos profetas que, sem ajuda de raciocínio ou demonstração, conheciam diretamente a verdade e a transmitiam ao povo israelita. Aristóteles e Platão se contradizem mutuamente? Pudera, eles não são os profetas! Eles disseram verdades mas jamais souberam A Verdade.

Dessa forma, Justino fornece o critério para o julgamento do conhecimento profano: tudo o que concorda com a Revelação deve ser assumido pelo cristão como sua herança legítima, enquanto tudo o que estiver em desacordo com a Revelação deve ser posto de lado. A questão não é de simples e obtusa rejeição do raciocínio filosófico, mas de uma justa hierarquização dos saberes.

Pode-se dizer que, ainda que sempre existissem vozes discordantes e hostis à filosofia, a doutrina de Justino saiu vitoriosa nas complexas relações entre o cristianismo e a herança grega que se estabeleceram nos séculos seguintes. O testemunho dos gênios de Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e outros luminares do pensamento medieval mostrou o quanto esse diálogo foi frutífero.

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