"Para tudo aquilo que existe, sua existência é necessária por si mesma ou não é. Toda coisa cuja existência não é necessária por si mesma é ou impossível ou contingente. Toda coisa que é impossível por si mesma não pode jamais existir. Então, para que possa existir, é necessário que ela seja contingente em si mesma e, então, que ela se torne necessária somente se ela tiver uma causa que a cause e que ela se torne impossível na falta de uma causa que a cause. Pois, uma é a coisa considerada em si mesma. Outra, é a coisa considerada enquanto tendo uma causa ou não tendo uma causa. Quando a consideras em si mesma, sem relação com nenhuma causa, ela não é nem necessária e nem impossível. Quando consideras a realização da causa como a sua causa determinante, então a coisa se torna necessária. Mas, quando a consideras sob o ângulo da não realização da causa como sua causa, a coisa se torna impossível."
ABU ALI HUSSAIN IBN SINA, Danesh Nama Alai, Livro II- Metafísica
Abu Ali Al Hussayn Ibn Abdu Allah Ibn Al Hasan Ibn Ali Ibn Sina, mais conhecido pelo nome latino Avicena, nasceu em Bukhara, Korassan, Uzbequistão no ano de 930 DC (morre em 1037 D.C.). Gênio precoce, Avicena foi poeta, músico, geômetra, astrônomo, filósofo, médico, matemático e gramático. Seu livro de medicina, intitulado Al-Qanun, foi adotado pelas universidades europeias até o século XVI.
Entre suas principais obras está o Danesh Nama Alai ("Livro da Ciência"), espécie de suma dos saberes onde o sábio islâmico trata de Lógica, Metafísica, Física, Geometria, Astronomia, Aritmética e Música. Nessa obra, mais precisamente no livro sobre Metafísica, o filósofo trata das relações existentes entre as naturezas das coisas, a causalidade e a existência das mesmas. Segundo Avicena, os entes estão divididos em entes possíveis por si mesmos, necessários por outros, impossíveis por si mesmos e necessários por si mesmos.
Ao examinarmos a natureza de algo (essência, o que a coisa é), sabemos de antemão se se trata de:
1) Ente possível por si mesmo, isto é, um ente que pode existir;
2) Ente impossível por si mesmo, ou seja, um ente que não pode existir;
3) Ente necessário por si mesmo, o ente que não pode não existir.
O homem, por exemplo, é um ser possível por si mesmo, pois nada no seu conceito impede a sua existência, assim como nada em seu conceito exige a sua existência. Ademais, do simples fato da existência concreta de homens é necessário inferir-se a sua possibilidade. Aquilo que existe necessariamente era possível.
O ente impossível por si mesmo seria aquele não pode existir porque é contraditório. Por exemplo, um "triângulo quadrado". Nada pode ser um triângulo e um quadrado ao mesmo tempo e no mesmo sentido. O ente necessário por si mesmo seria aquele cuja essência exige a sua existência. Ele não é meramente possível, ele é por natureza sempre existente.
Avicena considera que há diferença real entre essência e existência, isto é, a essência de algo não implica necessariamente a sua existência. Pensar em uma sereia (uma essência) não exige afirmar a sua existência no mundo fora da mente (extra mentis) de quem a pensa. Segue-se daí que o ente meramente possível é contingente, ou seja, é um ente que pode ou não existir.
O ser contingente passa a existir porque, em primeiro lugar, é um possível em si mesmo e, em segundo lugar, é trazido à existência por um ente que já existe. Uma vez posto na existência por um ser existente (a causa), o ente contingente (o causado) torna-se um ser necessário por outro.
Dito de outro modo, o ser contingente, quando é causado por outro, torna-se necessário, pois, uma vez que existe somente por causa de outro, ele não é mais meramente possível, mas existe necessariamente porque há uma cadeia causal que determina a sua existência. Inversamente, se não há uma causa que cause a sua existência, o ser contingente não pode existir concretamente.
O ser contingente que não tem uma causa que cause a sua existência concreta é chamado por Avicena de ser impossível. Contudo, essa impossibilidade é apenas relativa, e não deve ser confundida com a impossibilidade absoluta do ente impossível por si mesmo. O "triângulo quadrado" é impossível por si mesmo e jamais existirá porque é contraditório. O ente contingente pode ser dito impossível somente no sentido de que não há (até o momento) uma causa que o traga à existência.
Assim, todo ser contingente que passa a existir tem dois aspectos:
I) Por si mesmo é meramente possível;
II) Pelo outro que o causa, é necessário.
Avicena infere dessa doutrina uma consequência importante para a ontologia e para a teologia natural: uma demonstração racional da existência de Deus. Se todo ser contingente só existe por outro, então todo ser contingente existente tem uma causa. O conjunto formado pela totalidade dos seres contingentes existentes deve ser necessário ou possível. Porém, dado que se trata de um conjunto de seres contingentes existentes, então não pode ser necessário, já que é formado exclusivamente por seres possíveis.
Resta a segunda opção, o conjunto da totalidade dos seres possíveis é possível. Se é possível, então necessita de uma causa para existir. Se a causa do conjunto dos entes contingentes existentes pertencesse ao mesmo conjunto, então essa causa seria também um ser possível. O que não resolve o problema. A única solução que resta é que o conjunto da totalidade dos entes contingentes existentes deve ter uma causa que não seja em si mesma meramente possível e sim necessária em si mesma.
Ora, visto que o conjunto dos entes contingentes existentes não abriga nenhum ente necessário por si mesmo e que a causa da totalidade dos entes contingentes existentes não pode ser meramente possível, então a sua causa só pode ser externa ao conjunto e necessária por si mesma. Por conseguinte, deve haver necessariamente uma causa necessária por si mesma externa ao conjunto da totalidade dos entes contingentes existentes. E tal causa necessária por si mesma não é outra se não aquilo que denominados Deus.
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