sábado, 2 de julho de 2011

Jeova Sanctus Unus: Newton e a Alquimia

“Uma das maiores paixões de sua vida, como testificado por um vasto corpo de papéis que se estendem por trinta anos, um propósito o qual incluiu contato com círculos alquímicos como é atestado por suas cópias de tratados não publicados, permaneceu largamente escondido da visão do público e permanece como tal até hoje.” (tradução minha do original em inglês)

RICHARD WESTFALL, Never at Rest - A Biography of Isaac Newton, p.289

A relação de Isaac Newton com a Alquimia ficou definitivamente comprovada com a revelação em 1942 da existência de certas obras até então não publicadas. Seis anos antes, o economista britânico John Maynard Keynes comprara em um leilão um lote de manuscritos classificado como “impróprio para a publicação” (“not fit to be printed”) após a morte do sábio inglês em 1727.

Desde então, os estudos acerca das influências alquímicas na obra de Newton já geraram clássicos acadêmicos como “The Foundations of Newtons’s Alchemy” (1975) e “The Janus Faces of Genius: The Role of Alchemy in Newton’s Thought”, ambos de Betty Jo Dobbs. A erudita e definitiva biografia “Never at Rest” (1980), de Richard Westfall, conta com um capítulo dedicado aos estudos alquímicos de Newton no qual o autor mostra que Newton dedicou-se avidamente aos experimentos e à leitura de obras de Alquimia.

A despeito de todo o estudo e de todos os esforços feitos até aquele momento, Westfall afirma que muitas lacunas importantes sobre os interesses alquímicos de Newton permaneciam abertas. As anotações do físico trazem diversos nomes de autores cujas identidades ainda são ignoradas, além de encontros com personagens misteriosos que Westfall especula (ele mesmo admite) que tenham sido eventos com “motivação alquimista”.

O que não é especulação é que Newton inicia seus estudos sobre Alquimia pelo ano de 1669. A extensa série de obras alquímicas, grande parte delas copiadas à mão pelo próprio Newton, sugere fortemente o contato com uma “sociedade de alquimistas ingleses largamente clandestina”(p. 286). A origem desses livros é desconhecida.

É certo também que quando de sua morte, a coleção alquímica de Newton contava com cento e setenta e cinco volumes, entre livros e panfletos, perfazendo dez por cento de sua biblioteca. A referida coleção incluía volumes anteriores ao século XVII e obras de autores contemporâneos como Sendivogius d’Espagnet e Eirenaeus Philalethes, objetos de atento estudo por parte do físico e matemático inglês.

Westfall, que teve acesso aos manuscritos alquímicos de Newton, estima que ele tenha devotado mais de um milhão de palavras à Alquimia. Ainda segundo o biógrafo, Newton copiou e estudou, entre muitos outros, o “Secrets Reveal’d” de Philalethes, o “Novum Lumem Chymicum” e o “Arcanum Hermeticae Philosophiae Opus” de Sendivogius, “Symbola Aurae Mensae Duodecim” de Michael Maier, “Opera” de George Ripley, alquimista medieval, “Triumphal Chariot of Antinomy” de Basil Valentine, as coleções de tratados “Theatrum Chemicum” de Elias Ashmole, “Turba Philosophorum”, “Ars Auriferae”, “Musaeum Hermeticum”, além de citar em suas notas de estudo as autoridades de Morienus, Hermes Trismegistus, Tomás de Aquino e Bacon.

Não obstante, adverte Westfall, o objetivo de Newton era precipuamente penetrar nos símbolos alquímicos e descobrir o processo comum a todas as transformações da Obra e, por isso mesmo, considerava que a Alquimia estudava as mudanças que ocorrem nas substâncias materiais. Sendo assim, os seus estudos carregam a marca da experimentação contínua e do rigor matemático e racional, inclusive na aplicação de medições, algo não muito comuns na literatura ou na prática alquimista. Mostra-se aí o método newtoniano, agora nas searas da Alquimia, de deduzir leis fundamentais a partir da observação atenta dos fenômenos e sua posterior extensão indutiva a domínios diferentes do campo originalmente observado.

Jeova Sanctus Unus (anagrama de Isaacus Neuutonus), foi o pseudônimo alquímico utilizado por Newton durante seus estudos e experimentos que, longe de buscarem objetivos vulgares como a transformação de pedra em ouro, tinham o objetivo de encontrar a verdade e a sabedoria. Segundo Westfall, foi essa busca incessante pela verdade que fez com que Newton logo se sentisse insatisfeito com os resultados do mecanicismo que ele mesmo postulara em seus tratados de Física.

Se, de um lado, no “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica” (1687) Newton rejeitava o uso de “hipóteses não diretamente deduzidas dos fenômenos” na Física, de outro, na Alquimia, ele esposava princípios de uma ordem que ultrapassa o caráter inerme da Natureza considerada mecanicamente.

“Na filosofia mecânica, Newton encontrou um enfoque da natureza que separou radicalmente o corpo do espírito, eliminou o espírito das operações da Natureza e as explicou somente pela necessidade mecânica das partículas de matéria em movimento. A Alquimia, ao contrário, oferecia a incorporação quintessencial de tudo aquilo que a filosofia mecânica havia rejeitado. Ela olhava para a Natureza como vida e não como máquina, explicava os fenômenos pela agência ativante do espírito e afirmava que todas as coisas eram geradas pela cópula dos princípios masculino e feminino.” (Westfall, p. 299)

Influenciado pela Alquimia e pelo “platonismo de Cambridge” (Henry More, em especial), e instigado pelo desejo de refutar o ateísmo que julgava depreender-se da Física de René Descartes (um universo físico constituído somente por extensão e movimento obedecendo inflexivelmente a leis mecânicas de choque e tração sem qualquer intervenção divina), Isaac Newton, nos diz Westfall, teria buscado uma solução que ultrapassasse o fantasma do mecanicismo estrito. Nisso constituiria a “rebelião” de Newton (título sugestivo do capítulo de “Never at Rest” dedicado às pesquisas alquímicas e teológicas newtonianas).

Philip Ashley Fanning, em seu livro “Isaac Newton and the Transmutation of Alchemy” defende que o teor positivista do “Principia” tinha como objetivo duplo encobrir e proteger as crenças alquímicas de Newton. Dessa forma, o físico poderia explanar uma teoria mecanicista e, ao mesmo tempo, advertir o leitor de que seu ponto de vista não significava uma afirmação acerca da natureza dos fenômenos físicos, mas tão somente uma descrição matemática de seu comportamento através de propriedades hauridas na observação direta.

No plano dos princípios matemáticos da filosofia natural tudo poderia ser apreendido pela observação meticulosa sem a tentativa de construir “hipóteses” sobre a natureza daquilo que fora observado. Estava fora de dúvida que o comportamento das grandezas no mundo podia ser descrito a partir de princípios matemáticos e mecânicos. Se o mundo é de facto constituído exclusivamente de partículas materiais em movimento, isso já é uma questão à qual a filosofia natural parece não poder responder sem ultrapassar seus limites metodológicos intrínsecos.

Todo esse discurso newtoniano teria como fonte não uma manifestação de humildade apenas retórica, mas um desejo sincero de preservar o âmbito próprio daquilo que está para além do mecanicismo, e de também ocultar uma série de opiniões que estariam em pleno desacordo com a ortodoxia científica que se formava em seu tempo.

Não é possível ignorar ou subestimar um elemento importante que pode ajudar a compreender o caráter privado das convicções alquímicas de Newton: a natureza secreta de todo o hermetismo. Se Newton fez parte realmente de um grupo de alquimistas clandestinos, como quer Westfall, então nada seria mais natural do que um esforço calculado de ocultação, ou mesmo de despistamento, com o fim de evitar os olhares dos curiosos e, principalmente, dos incapazes de compreender a Obra.

A forma como a Alquimia e as influências platônicas e teológicas estão presentes na obra científica de Newton ainda são objeto de discussão e demandam estudos mais aprofundados. O que está claro pela pesquisa histórica e pelo advento dos manuscritos de Keynes é que Newton tinha interesses que iam muito além do campo da Física e da Matemática. Interesses que adentravam em esferas consideradas irracionais pela tradição iluminista que, a partir do século XVIII, vai eleger Newton seu patrono e profeta. Mas certamente confirma-se aqui a regra de que os mestres são sempre mais interessantes e sutis do que seus discípulos e, principalmente, do que aqueles que se pretendem defensores de suas obras.

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http://oleniski.blogspot.com/2010/11/isaac-newton-fisica-metafisica-e.html

http://oleniski.blogspot.com/2010/07/henry-more-o-espirito-contra-o.html

2 comentários:

Anônimo disse...

nice!

Anônimo disse...

Vim aqui logo depois de ler "o símbolo perdido" do Dan brown, muito interessante!