"Bushido não é objeto somente de ostentação."
TSUGUMO HANSHIRO, pouco antes de morrer.
"Ichimei" (2011), de Takashi Miike, consagrado e prolífico diretor japonês de "Itchi, o Assassino" e "13 Assassinos", é uma refilmagem do clássico "Harakiri" (1962), de Masaki Kobayashi, ambos com roteiro de Yasuhiko Takiguchi. A trama é densa, repleta de simbolismos e de conflitos éticos. Um ronin chamado Tsugumo Hanshiro procura o castelo de Saitō Kageyu, daimyo de uma importante casa guerreira para lhe pedir um favor específico: cometer o seppuku, o suicídio ritual, nos átrios daquela honrada fortaleza.
Hanshiro estivera a serviço de uma casa que fora derrotada e perdera a sua relevância. Como os tempos são de paz durante o longo shogunato Tokugawa, parece não haver mais lugar para a arte marcial dos samurais. Vivendo pobremente, trajando um kimono puído, Hanshiro entende que a única saída honrosa à sua disposição seria cometer suicídio nas dependências de uma casa respeitável.
A princípio, Hanshiro é decentemente recebido e logo conduzido à presença do chefe da casa, Kageyu. Este o indaga sobre seus motivos, compreende-os, mas indaga o samurai acerca de um certo jovem chamado Chijiiwa Motome. Hanshiro responde que não conhece esse jovem. Kageyu passa a contar a história de Motome. Hanshiro vem a saber por Kageyu que ele não é o primeiro samurai que vem àquela casa solicitar o seppuku. Na verdade, Motome foi o último de muitos que vieram antes dele.
Ocorre que esses samurais em situação penosa de pobreza encontraram uma saída para o seu estado deplorável mediante uma artimanha. Eles entravam em uma casa respeitável, pediam para realizar ali o suicídio ritual, porém sem a real intenção de realizá-lo. Conseguiam assim uma audiência com o daimyo e aproveitavam a oportunidade para solicitar dinheiro a fim de melhorar a sua condição precária.
Ora, Kageyu, sabendo do estratagema, e instigado por seu melhor guerreiro, Omodaka Hikokurō, resolveu usar Motome como exemplo para desencorajar quaisquer outros samurais com as mesmas intenções. Em vez de recebê-lo para uma audiência, Kageyu ordenou que Motome fosse conduzido diretamente ao pátio do suicídio, onde o daimyo e seus guerreiros já o aguardam para assistir ao rito.
Acuado, Motome foi forçado pelas circunstâncias a se suicidar. Contudo, ele havia trazido consigo uma espada com lâmina de madeira, e é esta arma que lhe foi entregue por Omudaka para o seppuku. Motome, desesperado, confessou de pronto que não tinha intenção de realizar o rito, mas sim de pedir dinheiro para curar a sua esposa e o seu filho enfermos.
Diante da humilhação à qual se submetera, Motome tomou a obstinada decisão de se matar com a espada falsa. A cena é angustiante, pois a madeira é completamente inadequada para a tarefa, e o esforço de penetrar a própria carne com a lâmina resulta em enorme dor e sofrimento para Motome. Exercendo a função de kaishakunin, assistente responsável por decapitar aquele que se suicida a fim de lhe poupar sofrimento, o inflexível Omudaka se recusa a pôr fim à dor do jovem Motome. Coube a Kageyu, por fim, desferir o coup de grâce em Motome.
A intenção de Kageyu ao contar esse episódio trágico é óbvia: ele quer desencorajar Hinshiro de tentar usar o estratagema dos samurais depauperados. Para a surpresa do daimyo, ao invés de desistir, Hinshiro reafirma seu intento convictamente. Ato contínuo, ele é conduzido ao mesmo pátio onde Motome morrera, e todos os preparativos necessários são feitos para o seppuku. Prestes a iniciar o rito, Hinshiro pede a Kageyu um último favor.
Kageyu aquiesce, e Hinshiro solicita que seus kaishakunin sejam os mesmos que assistiram Motome em seu horrendo suicídio: Omodaka e outros dois samurais. O daimyo é informado por seus subordinados que estranhamente os três guerreiros não haviam retornado ao castelo na noite passada. Kageyu ordena que sejam encontrados e trazidos imediatamente ao pátio. Hinshiro pede a palavra e diz que aqueles samurais não serão encontrados.
Em seguida, revela a Kageyu e a seus pares que, diferentemente do que afirmara antes, ele conhecia sim o jovem Motome. Na verdade, Motome era seu filho adotivo, casado com sua filha e pai de seu neto. O subterfúgio adotado por Motome fora ditado pela necessidade de pagar um médico para salvar a sua mulher e o seu filho, ambos gravemente enfermos. Infelizmente, continua Hinshiro, durante o tempo em que Motome esteve fora de casa fazendo sua tentativa malograda de conseguir dinheiro, a sua esposa e o seu filho morreram.
A tensão cresce, e Hinshiro retira do interior de seu kimono três topos de chonmage (corte de cabelo dos samurais) que pertenciam aos guerreiros ausentes. Ele afirma que os derrotou em combate, e que estavam escondidos por causa da vergonha e da desonra da derrota. Após ouvirem o relato, os indignados samurais de Kageyu atacam Hinshiro, que enfrenta a todos usando a espada de lâmina de madeira que pertencera ao desafortunado Motome. No fim da luta, Hinshiro derruba a yoroi (armadura) vermelha que ficava exposta no centro da fortaleza, simbolizando os ideais e a honra daquela casa guerreira, e deixa-se matar por seus inimigos.
O centro de "Ichimei" reside no tema clássico do conflito entre uma lei superior de justiça que é percebida por uma consciência individual e os valores e tradições sustentados por uma comunidade. Kageyu tenta a todo custo preservar a honra e a respeitabilidade de sua casa guerreira nos tempos pacíficos do shogunato Tokugawa. No entanto, o próprio daimyo admite que seus subordinados jamais foram testados no campo de batalha e que tudo o que conhecem sobre a arte do combate é meramente teórico.
Essa realidade é plenamente simbolizada pela yoroi vermelha, cotidianamente polida, preservada e exibida com orgulho. Bela, limpa e conservada exteriormente, porém vazia por dentro. Ela é o símbolo de uma tradição já caduca, apegada às aparências, ciosamente mantida como um relicário oco e inanimado que o espírito não mais vivifica. Em nome dessa tradição meramente externa, Kageyu permite que seu subordinado Omudaka, imbuído de ideais marciais que conhecia apenas teoricamente, perpetre uma flagrante injustiça contra Motome. A manutenção da honra aparente sobrepujou a misericórdia.
Note-se também que no filme Kageyu caminha mancando. Simbolicamente, o próprio daimyo não é um exemplo perfeito de samurai. Seu andar é claudicante assim como a sua moral. O defeito físico espelha o defeito moral. Ele hesita entre a misericórdia e o cumprimento ritual da lei. A cegueira de Kageyu permanece até o final, mesmo após Hanshiro lhe contar toda a história de Motome.
Quando Hinshiro derruba a venerada yoroi rubra, símbolo da observação vazia das leis tradicionais, Kageyu o chama de louco. Hinshiro conhecia bem esse tipo de cegueira, pois ele e o pai de Motome foram expulsos de sua província de origem porque tomaram a iniciativa de recuperar os muros defensivos de um castelo em vez de, como a tradição exigia, aguardar a ordem expressa do Shogun.
O pai de Motome morreu logo depois desse episódio, e Hinshiro foi lançado na pobreza com a sua filha e com o seu filho adotivo. Sustentou sua família fabricando guarda-chuvas. A condição precária o impediu de ajudar a sua filha e o seu neto doentes e impeliu Motome a realizar sua fatídica tentativa de angariar fundos para pagar um médico.
Essencialmente, trata-se de uma mesma situação nos dois casos. Tanto Hinshiro quanto Motome são vítimas da manutenção meramente exterior das leis e dos costumes tradicionais. O que Hinshiro realiza, contudo, não é uma vingança vulgar. Ele não mata ninguém, não exige dente por dente e olho por olho. Hinshiro realiza a verdade do bushido diante de seus adversários.
Ele encarna o bushido ao enfrentar todos aqueles guerreiros teóricos armados de katana usando somente uma espada de madeira. Hinshiro, um guerreiro de verdade testado no clamor do combate, é o próprio espírito da tradição viva derrubando a armadura vazia e morta. Entretanto, ele diz aos seus adversários que é somente um homem comum querendo viver a sua vida em paz, aguardando a próxima primavera.
Os três samurais que Hinshiro vencera em combate (Omudaka entre eles), e dos quais arrancara parte do cabelo, agora conhecem verdadeiramente o que significam a desonra e o desamparo da ignomínia. Kageyu, aparentemente, não compreendeu a mensagem. Tempos depois do incidente com Hinshiro, em resposta ao imperador que elogiara o polimento reluzente da yoroi vermelha, Kageyu afirma: "ela é o orgulho de nossa casa".
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3 comentários:
Muito interessante. Será que há algum trocadilho entre Kageyu e o estilo tradicional de bushido "Kage ryu"?
http://www.imdb.com/title/tt0056058/?ref_=nv_sr_2. Por favor veja essa versão.
Interessante sua análise, principalmente a parte "Ele não mata ninguém, não exige dente por dente ou olho por olho", pois na versão original desse filme (Kobayashi) Hanashiro mata em sua vingança. Isso me faz refletir que o filme do Miike talvez tenha preservado mais essa mensagem do bushido (mostrar que o bushido da casa Kageyu está oco) do que no filme original (que ao meu ver se destaca na criação do clima de suspense e tensão).
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