sábado, 5 de abril de 2014

Platão, Eudoxo de Cnide, Aristóteles e a matematização da Astronomia

"As teorias de Eudoxo e de Calipe eram construções puramente matemáticas. Nenhum desses dois astrônomos afirmava o que quer que seja sobre a mecânica dos movimentos celestes, da natureza  das esferas concêntricas, nem da maneira  na qual o movimento se transmitia de uma à outra. O modelo de Eudoxo sofreu uma nova modificação nas mãos de Aristóteles, que pretende utilizar essa teoria matemática para torná-la a base  de um sistema mecânico. Aquilo que o interessava não era somente tentar reduzir as trajetórias observáveis dos planetas  a combinações de movimentos circulares simples, mas também, e mais particularmente, compreender como se efetuava  a transmissão do movimento, desde a esfera mais externa do céu, até à região sublunar."

G.E.R. LLOYD, Early Greek Science: Thales to Aristotle (tradução própria)

O astrônomo e matemático grego Eudoxo de Cnide foi discípulo de Platão na Academia assim como Aristóteles. De seu mestre ateniense, Eudoxo havia aprendido, como testemunha a República (528), que a astronomia deveria ser uma ciência precipuamente matemática, e que, como a geometria, ela deveria fazer uso de problemas em vez da mera observação daquilo que se passa nos céus. 

Segundo G.E.R. Lloyd, em sua obra de história da ciência grega, é no século IV A.C. que a idéia de uma astronomia matematizada toma impulso. A questão que iria guiar as pesquisas astronômicas dali por diante - que, segundo um testemunho tardio registrado por Simplicius, teria sido formulada pelo próprio Platão - era a seguinte: "Quais são os movimentos uniformes e ordenado que devemos supor para dar conta do movimento aparente dos planetas?"

Tal questão abrange diversos aspectos importantes. O primeiro deles é a idéia de que o movimento dos planetas deveria ser "uniforme e ordenado". Lloyd assevera que isso significava que o movimento deveria ser circular. O cosmos é um todo ordenado e é ordenado da melhor maneira. Por conseguinte, a ciência deveria buscar modelos matemáticos que expusessem essa ordem.

E isso nos conduz ao segundo aspecto importante. Embora seja uma ciência matemática, a astronomia, no final das contas, ainda era uma ciência sobre os astros. Estes eram passíveis de observação empírica, ou seja, eles se apresentavam aos sentidos, assim como as coisas na Terra. A diferença estava no fato de que seus movimentos eram só parcialmente observáveis. 

O pouco que o homem podia observar dos astros testemunhava uma regularidade evidente. Mas como seriam os movimentos dos astros que não testemunhamos? Se o testemunho dos sentidos nos mostra que os astros aparentemente giram em torno da Terra e que eles apresentam regularidades evidentes, então nada mais lógico do que supor que essa regularidade se mantenha naqueles movimentos não observados, por exemplo, na forma geral de suas órbitas.

A matematização se apresenta, por conseguinte, como uma tentativa de dizer como seriam as órbitas dos planetas. E os modelos matemáticos propostos deveriam necessariamente concordar com aquilo que se podia perceber e observar nos céus. Sabendo que tais movimentos deveriam ser ordenados - e apresentarem uma ordenação específica: movimentos circulares uniformes - os astrônomos deveriam unir três qualidades em seus modelos:

1) A suposição de caráter qualitativo de que a melhor ordenação seria a de órbitas circulares e uniformes;
2) A necessidade e apoditicidade da matemática na invenção de modelos sobre os movimentos celestes não observados;
3) A adequação desses mesmos modelos ao que se observa nos céus. 

O último ponto era conhecido como "salvar os fenômenos". A rigor, um modelo matemático, enquanto estrutura formal, só pode afirmar possibilidades, não realidades.  Em si mesmo o modelo só diz que é possível que a realidade seja como a descrita matematicamente pelo modelo. Nada impede que seja diferente, de acordo com um modelo diverso daquele proposto. 

O controle da imaginação matemática provém da exigência de adequação ao observado. O modelo deve estar em harmonia com o que os céus testemunham. Ainda assim, o caráter hipotético do modelo permanece, já que um modelo diferente e incompatível com aquele proposto anteriormente pode ser igualmente adequado ao observado.

Essa adequação tem um desafio adicional. Ela deve dar conta de movimentos observáveis anômalos que apresentam irregularidades. Em outros termos, os astros manifestam ordenação, mas também anomalias. O principal desafio será, consequentemente, propor um modelo matemático do movimento dos astros que, postulando movimentos circulares e uniformes, seja capaz de não somente concordar com a ordenação que os céus testemunham aos observadores terrestres, mas também manifestar que os movimentos anômalos observados são irregulares e desordenados somente em aparência.

Em suma, o dever do astrônomo é propor um modelo matemático hipotético que revele a posição em que se encontra o observador na relação estabelecida entre ele e os astros em seus movimentos, salientando assim a ordem e harmonia do cosmo. A observação direta não é negada, mas incluída em um esquema matemático mais amplo que deve respeitá-la e a ela se adequar em última instância.

Entre as aparentes anomalias testemunháveis ao observador atento dos céus estavam interrupções e movimentos retrógrados. Os astrônomos antigos haviam percebido por observação que os planetas por vezes regrediam, estacionavam e depois retornavam a seu curso normal. Como um fenômeno observável desse gênero poderia ser harmonizado com a exigência de ordem no cosmos?

Eudoxo propõe um modelo que utiliza somente movimentos circulares uniformes para dar conta dessas anomalias. Lloyd assim o descreve:

"A solução de Eudoxo, que nos foi conservada por Aristóteles e Simplicius, a despeito do desaparecimento de sua obra própria, era das mais engenhosas.  Ele supunha que as trajetórias aparentes do Sol da Lua e dos planetas, que são complexas, eram produzidas, caso a caso, pelos movimentos circulares simples de um certo número de esferas concêntricas. A Terra é imóvel  no centro comum de todas essas esferas, mas seus respectivos eixos são inclinados um com relação ao outro, e eles giram a velocidades diferentes, ainda que uniformes." (tradução própria)

Existiam quatro dessas esferas para cada cinco dos planetas conhecidos. Os planetas continuavam a se movimentar em órbitas circulares perfeitas e uniformes em torno da Terra, mas nesse movimento o planeta avançava, estacionava ou regredia de acordo com os eixos e direções das suas quatro esferas.*

O movimento resultante desse esquema matemático concorda com o movimento observável dos planetas. O modelo de Eudoxo, acrescido de aperfeiçoamentos feitos por Calipe, foi utilizado por Aristóteles em seu cosmos de esferas concêntricas. Contudo, o enfoque aristotélico é diferente daquele de Eudoxo. Aristóteles encara o modelo do ponto de vista do físico e, por isso, implementa nele algumas modificações.

Tanto na Física como na Metafísica, Aristóteles reconhece três ciências teoréticas:

Física;
Matemática;
Metafísica.

A física trata dos entes móveis, ou seja, de todo e qualquer ente que sofra mudança, seja ela uma mudança qualitativa ou uma mudança quantitativa. O objetivo do físico é compreender a natureza formal e material dos entes móveis, aqueles que têm em si mesmos o princípio de mudança e de repouso.

A matemática é a ciência dos números e de suas relações e propriedades. Ao contrário da física, trata de  objetos formais e imutáveis  - os números - e se limita a considerar os aspectos quantitativos dos objetos físicos como se eles fossem subsistentes em si mesmos e independentes.

A metafísica trata do ser enquanto ser, não mais dos entes mutáveis da física e nem dos entes formais e imutáveis da matemática, mas somente do ser considerado em si mesmo.

Ora, Aristóteles reconhece que entre a física e a matemática estão as ciências médias ou ciências mais matemáticas. São elas a ótica, a harmonia e a astronomia. Sua característica é tratar dos objetos mutáveis da física de acordo com a matemática. Em outros termos, ao invés de tratar dos aspectos quantitativos dos entes físicos como se eles fossem independentes deles, como o faz o matemático, as ciências médias tratam das coisas físicas segundo seus aspectos matemáticos, não os separando em seu estudo.

Segue-se, portanto, que os objetos e objetivos do físico, do matemático e do astrônomo, respectivamente, são distintos. O físico busca entender a natureza dos entes móveis, o matemático busca depreender os aspectos quantitativos que neles existem para tratá-los como se fossem entes independentes de toda materialidade e o astrônomo estuda os astros por meio daquilo que neles é matemático.

Eudoxo não se preocupava em saber como, na realidade, suas esferas comunicavam umas às outras o seu movimento. Bastava-lhe mostrar que, matematicamente, era possível que as órbitas dos planetas fossem aquelas que ele postulava em seu esquema hipotético. Já Aristóteles, do ponto de vista do físico, sentia-se obrigado a perguntar como aquele esquema seria fisicamente possível, como ele poderia encarnar-se na realidade concreta, dentro dos princípios da física.

Por essa razão, Aristóteles introduziu algumas esferas novas que giravam na mesma velocidade e no sentido oposto da imediatamente anterior com o objetivo de compensar seus movimentos, já que o movimento dos corpos celestes seria afetado não somente por suas próprias esferas, mas por todas aquelas que os englobam.

A relação entre a astronomia de Eudoxo e a física de Aristóteles corresponde à relação que Pierre Duhem estabelece entre a descrição matemática que apenas adequa-se ao observado, mas não se compromete com uma investigação das naturezas dos fenômenos sob estudo e uma física que ambiciona justamente determinar essas naturezas. A primeira só pode afirmar que o real poderia ser assim, dado que a estrutura matemático-formal hipotética não discorda daquilo que pode ser empiricamente observado, e a segunda diz o que é o real de fato, a partir da consideração da natureza das coisas.
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* O belíssimo modelo de Eudoxo de Cnide pode ser visto no início desse vídeo que apresenta também o modelo posterior de epiciclos e o modelo copernicano: http://youtu.be/hhikvgDVcGY
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Nigel Warburton, Anselmo e Aquino

Lendo por acaso o capítulo dedicado a Anselmo de Cantuária e a Tomás de Aquino no livro Uma Breve História da Filosofia de Nigel Warburton, deparei-me com erros importantes na descrição dos argumentos dos dois autores medievais.

Em primeiro lugar, Warburton afirma que Anselmo, no argumento ontológico, parte da afirmação de que "não se pode conceber nada maior do que Deus".

Infelizmente, isso não é verdade. Anselmo parte, isso sim, do conceito do "ser do qual não se pode pensar nada maior", o que vem a ser a definição de Deus. Sendo o "ser do qual não se pode pensar nada maior", não é possível que lhe falte nenhuma perfeição. 

Daí que conceber "o ser do qual não se pode pensar nada maior" como uma mera ideia na mente de um sujeito, sem existência extra mentis, é concebê-lo privado de de uma perfeição. Se ele estiver privado de algo, não poderá ser "o ser do qual não se pode pensar nada maior", o que seria contraditório. Logo, conceber na mente "o ser do qual não se pode pensar nada maior" implica necessariamente afirmar a sua existência, sob pena de contradição.

A apresentação que Warburton faz do cerne do argumento não o simplifica ou o torna mais acessível a um público leigo em filosofia, mas, ao contrário, deturpa-o transformando-o em um espantalho.

O argumento ontológico não diz que "não se pode pensar nada maior que Deus". Fosse isso verdade, seria fácil perguntar-se a razão pela qual não seria possível pensar nada maior que esse ente, Deus. O caso é que Deus necessariamente existe fora da mente que o concebe porque seu conceito - "o ser do qual não se pode pensar nada maior" - o exige logicamente.

Para mais detalhes: http://oleniski.blogspot.com.br/2013/05/anselmo-platonismo-medieval-e-o.html

O segundo erro importante de Warburton é afirmar que Tomás de Aquino, em sua prova da existência do primeiro motor (Deus), asseverava que "cada coisa que existe e é o que é porque teve um tipo de causa".

É um erro muito comum acerca dessa via de demonstração da existência de Deus afirmar-se que a premissa básica é "tudo o que existe tem uma causa". 

Ora, seria fácil objetar ao suposto argumento de Tomás - como efetivamente Warburton o faz em seguida - dizendo: 

"Se tudo o que existe tem uma causa, então Deus também tem uma causa".

A estrutura desse condicional é clara. Se realmente tudo o que existe tem uma causa, naturalmente Deus também tem uma causa. Mas, note-se, o condicional diz "se". Ou seja, pode ou não ser verdade que tudo tenha uma causa, mas sendo isso verdade, então qualquer ente necessariamente terá que ter uma causa.

O problema é que Tomás - com Aristóteles - nunca afirmou que tudo o que existe tem uma causa.  Ele afirmou, isso sim, que "tudo o que que se move só se move por um outro". Ou seja, tudo o que estava em potência só se torna ato por ação de um ente que já está em ato. Tudo o que não era e passou a ser só passou a ser por ação de algo que já era.

A exigência de uma causa só se aplica aos entes nos quais o aparecimento se dá em um determinado momento, não existindo anteriormente. A casa exige uma causa porque seu aparecimento se deu em um determinado momento do tempo - não existindo antes - e, por isso, sendo inexistente antes, não poderia dar existência a si mesma, mas necessitava de um agente que a construísse.

Corrigindo-se a premissa, fica obliterada a suposta refutação. Se se afirma que tudo o que existe tem uma causa, então claramente Deus também tem uma causa. Mas se se afirma que tudo o que não era e veio a ser só vem a ser por intermédio de uma causa, fica totalmente em aberto a questão de haver ou não um ente que não tenha causa.

A existência de um ente incausado é determinada justamente pela segunda premissa do argumento de Tomás - e Aristóteles - que Warburton também enuncia de forma errada. Ele diz que Tomás afirma que é impossível um regresso temporal infinito de causas. Sendo impossível tal regresso, necessariamente há uma causa incausada, Deus.

Isto é, seria impossível recuar temporalmente de uma causa à sua anterior infinitamente. Se B é causado por A, A é causado por G e G por Y e Y por V e assim por diante em um regresso infinito de causas. Daí, para encerrar essa série, seria necessário que existisse um ente sem causa, ou seja, Deus.

Warburton diz, então, que não há nada que impeça uma série desse gênero e que por isso o argumento de Aquino estaria errado. Warburton está certo. O problema é que, mais uma vez, Aquino não disse o que Warburton acha que ele disse.

Aquino retira seu argumento de Aristóteles e este formula sua prova tendo em vista a eternidade do mundo. O mestre macedônio acreditava que não havia um momento tal em que não se pudesse pensar em um momento anterior. Em outras palavras, não importa o quão recuado seja o regresso temporal, sempre é possível recuar mais.

Esse é um outro ponto em que há muita confusão. É perfeitamente possível recuar indefinidamente em uma série na qual José gera Pedro, João gera José, Isaac gera João e assim por diante. Isso é uma série regressiva de causas acidentais. 

José foi gerado por João, mas não necessita de João para gerar Pedro. É certo que Pedro não existiria sem que João gerasse José e José gerasse Pedro. Contudo, José poderia não ter gerado Pedro e se porventura decidisse gerá-lo, não necessitaria de seu pai em nada para gerar Pedro. Esse é o ponto.

O fato é que Pedro deve sua existência a João e João dotou Pedro de uma capacidade - a de gerar descendentes - que não depende mais do próprio João. Pedro pode gerar descendentes independentemente de João assim como este pôde gerar Pedro independentemente de seu pai, João.

Cumpre notar que nada impede que uma cadeia assim seja infinita em um regresso temporal. Todavia, Aquino admite isso e distingue esse gênero de série de um outro gênero de série regressiva que não pode ser infinito. É a série de causas simultânea e essencialmente ordenadas.

Para que eu esteja aqui e agora escrevendo, há uma série de causas que atuam simultaneamente e que, se fossem infinitas, eu não estaria aqui escrevendo. São as causas essencialmente ordenadas, isto é, causas cuja existência depende das anteriores e estas das anteriores.

Nesse gênero de série, cada movido é movido pelo anterior simultaneamente como uma mão que move uma vareta que move uma pedra que move uma folha. O movimento de cada um dos moventes não vem dele mesmo, mas do anterior e dele depende inteiramente. Ou seja, em si mesmos, nenhum dos motores tem poder de mover o subsequente, recebendo esse poder do anterior e este, por sua vez, o recebe do anterior e assim por diante.

Em uma série desse gênero, em que nenhum dos motores tem em si mesmo o poder de mover, é necessário um motor que mova sem que receba de outro seu poder de mover. Em outras palavras, esse motor deve estar fora da série de moventes essencialmente ordenados.

No caso da folha que é movida pela pedra que é movida pela vareta, nem a pedra e nem a vareta movem com poder próprio e, se deixadas a si mesmas, nada moveriam e nem se moveriam. Elas recebem seu poder de mover do motor anterior e, em conjunto, simultaneamente, recebem seu poder da mão. Esta sim, é o motor verdadeiro.

Por conseguinte, não é possível um regresso infinito de causas simultânea e essencialmente ordenadas. Deus é o motor que move sem ser movido por um anterior.

Ao confundir o regresso infinito temporal de causas como o regresso infinito de causas essencialmente ordenadas, Warburton cria um espantalho do argumento aristotélico-tomista. Embora tal erro seja frequente, isso não o torna menos importante ou menos reprovável. Principalmente em uma obra que promete ao leitor uma introdução fiel ao pensamento dos filósofos clássicos.
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Para mais detalhes: 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ibn Tufayl, unidade, conhecimento e religião II

"A pedagogia que conduz à plena consciência das coisas não é obra de um mestre humano exterior. Ela é a iluminação pelo Intelecto Agente, mas este não ilumina o filósofo a não ser sob a condição de que ele se desfaça de todas as ambições profanas e mundanas e viva, no meio do mundo, a vida do solitário. (...) pois o sentido último do relato de Ibn Tufayl parece ser o seguinte: o filósofo pode compreender o homem religioso, mas a recíproca não é verdadeira. O homem religioso não pode compreender o filósofo."

HENRY CORBIN, Histoire de la Philosophie Islamique, p. 333

Após as investigações apresentadas em http://oleniski.blogspot.com.br/2013/10/ibn-tufayl-unidade-conhecimento-e.html , Hayy Ibn Yaqsan, no quinto septênio de sua vida, passou a ter em vista somente o conhecimento do Ser Necessário que havia descoberto após tanto esforço.

Ele questionou-se, em seguida, sobre qual parte de si mesmo poderia ter lhe fornecido esse conhecimento de Deus. Bem, se Deus é completamente incorpóreo, seguia-se necessariamente que se não poderia conhecê-Lo por alguma parte corpórea de si mesmo. Tendo em vista o fato de o conhecimento de Deus apresentar-se a ele de forma demonstrativa, Hayy viu-se obrigado a admitir que ele mesmo - isto é, sua essência - era também incorporal. O semelhante capta o semelhante.

Como poderiam os sentidos, que captam somente corpos, apreender a Deus, o incorpóreo? E mesmo a imaginação, criadora de imagens a partir dos dados dos sentidos, poderia ela apreender a Deus? Certamente que não. 

Ora, se sua essência não era corpórea, então, Hayy conclui, ela não estaria submetida à corrupção que é o apanágio dos corpos. Sua essência, então, é imperecível. Quando o corpo seguir o curso natural de sua corrupção, sua essência permanecerá o que é sem alteração nenhuma.

A pergunta óbvia é: "o que acontece com a essência depois que o corpo se dissolve?". Hayy percebera que cada sentido ou faculdade humana se inclina para seu objeto próprio e nele tem o seu prazer. Aristóteles não afirmara que o homem ama ver mesmo quando não há nenhum interesse prático nisso? Sendo assim, se um sentido for impedido de voltar-se para seu objeto próprio por algum motivo, isso trará sofrimentos. Como a ausência da visão faz sofrer o cego.

Se o objeto da essência humana é o incorpóreo e o inteligível, não poderá haver maior prazer e felicidade do que estar unido ao mais alto objeto incorpóreo e inteligível: o Ser necessário. Hayy pensa em três possibilidades na vida post-mortem:

1) Aquele que jamais adquiriu a idéia desse Ser necessário e que, por isso, quando morre não o deseja e não sofre por estar privado dele. Como as faculdades corpóreas não O apreendem, elas estarão desprovidas de seus objetos próprios e desaparecerão com a desaparição do corpo. Essa é a condição das bestas, humanas ou não.

2) Aquele que teve a idéia desse Ser necessário, inclinou-se a Ele, mas deixou-se tragar pelas paixões e morreu dessa forma. Sentirá grande dor e assim permanecerá por um tempo ou para sempre, dependendo de sua vida pregressa.

3) Aquele que não somente apreendeu a idéia do Ser necessário, mas também contemplou-a, viveu para Ela e a Ela dedicou toda sua vida, dispensando todas as paixões mundanas e morrendo em contemplação intuitiva.

Este viverá feliz, abandonados os sentidos e seus órgãos, na contemplação perpétua e sem ocaso do Ser necessário, a mais alta perfeição e o mais alto inteligível.

Entretanto, enquanto ainda no corpo, Hayy compreendeu que deveria adotar uma série de práticas de acordo com a semelhança que guardava com os animais, com os astros e com o Ser necessário.

Sendo um animal, Hayy percebeu que teria que manter seu corpo. Por outro lado, as necessidades do corpo não podem tornar-se obstáculos ou tentações no caminho ao Ser necessário. Concluiu que deveria alimentar-se somente naquilo que era estritamente necessário para a sobrevivência do corpo e proteger-se das intempéries que ameaçam sua integridade física.

Para mais assemelhar-se ao Ser necessário mesmo no corpo, comprometeu-se a só alimentar-se de um modo que seja o menos destrutivo possível. Ingeria primeiramente as frutas maduras que tinham numerosas sementes a fim de preservá-las. Na falta destas, ingeria as sementes comestíveis e na falta destas ainda, alimentava-se de animais. Contudo, somente daqueles muito numerosos, a fim de também preservá-los.

No que tange à assemelhação aos corpos celestes, Hayy descobriu que estes têm efeitos benéficos sobre os corpos terrestres, que sua essência é inteligente, que movem-se em perfeitos círculos e que estão perpetuamente voltados ao Ser necessário. 

Hayy dedicava-se então a todo benefício que pudesse conceder aos seres que o rodeavam. Ao mesmo tempo, imitando a perfeição dos astros, impunha-se os mais rigorosos hábitos de higiene e longas caminhadas circulares pela ilha, além de pôr-se, o máximo possível, em contemplação do Ser necessário.

Para assemelhar-se ao Ser necessário, Hayy notou que Ele tinha dois tipos de atributos: os positivos e os negativos. Os positivos - bondade, perfeição, eternidade, etc. - não O tornam múltiplo em si mesmo, já que todos esses atributos não eram algo acrescentado à Sua essência, mas Sua essência mesma dita de diversas formas. Os atributos negativos eram justamente a negação dos limites intrínsecos dos corpos e dos atributos positivos.

Pois bem, o jovem então dedica-se, para imitar a unicidade divina, a contemplar somente à Ele, esquecendo-se de si mesmo. Uma vez que o conhecimento de Deus não é algo acrescentado a Ele, mas Ele mesmo, decidiu-se a conhecer somente a Ele, isolando-se em uma caverna, imóvel, como Deus é imóvel, abstraindo-se de todo e qualquer ente sensível.

Em uma dessas meditações, alcançou enfim a união perfeita com o Ser necessário, de modo que tudo o que existe no mundo sensível desapareceu, bem como toda idéia inteligível e mesmo sua essência. Só restou o Único, o Ser permanente, o Real, para além de qualquer conceito e pensamento.

Sendo uno com o Uno, todo o resto desapareceu e nenhuma diferença pôde se afirmar, de modo que Hayy compreendeu que nessa esfera sagrada e bendita, não há diferença ou multiplicidade, características somente daquilo que é corporal e limitado. O Uno põe a unidade e o diferente põe a diferença.

Ibn Tufayl assevera:

"(...) Hayy Ibn Yaqzan quando, examinando-o de certo ponto de vista, via-o múltiplo com uma multiplicidade impossível de abarcar, escapando a todo limite; depois, examinando-o de um outro ponto de vista, via-o uno e ficava indeciso sobre essa questão, sem poder decidir num ou noutro sentido. Pois o mundo sensível é a pátria do plural e do singular: nele se apreende a verdadeira natureza de ambos, nele aparecem a separação e a reunião, o lugar, a distinção numérica, o encontro e a dispersão.

Que pensará então do mundo divino, ao qual não se podem aplicar as palavras todo e parte, em relação ao qual não se pode proferir nenhum dos termos a que nossos ouvidos estão habituados, sem supor nisso alguma coisa contrária à realidade?" (p. 159/160 da edição brasileira da Editora Unesp)

Na época dessas descobertas místicas, havia aparecido uma nova religião que ensinava as mesmas verdades conhecidas por Hayy, mas de forma simbólica, a fim de alcançar a mente de todos os homens. Tal religião facilmente converteu os habitantes de uma ilha vizinha à ilha onde habitava o filósofo autodidata.

Nessa ilha vizinha viviam dois homens piedosos e justos, Assal e Sulaiman. O primeiro deles inclinava-se sobretudo ao sentido interior e esotérico das verdades reveladas por aquela religião. O segundo, inclinava-se primariamente ao sentido externo, às leis escritas e aos mandamentos públicos.

Esses curiosos personagens são imagens da Haqiqah e da Shariah, do sentido esotérico (bâtin) e do sentido exotérico (zahir) da revelação corânica. Para além do sentido imediato da lei comum que rege a vida de todo muçulmano, haveria um sentido interno, esotérico, que seria alcançado somente por uma minoria entre os fiéis islâmicos.

Tal dualidade está presente tanto no sunismo quanto no shi'ismo. No primeiro, pela existência das tariqas sufis e no segundo, principalmente pela existência do walayah, a cadeia sucessiva dos Imames, guardiões e reveladores do sentido esotérico da lei comum.

Assal, inclinado à solidão da contemplação, partiu para a a ilha de Hayy Ibn Yaqzan. Lá chegando, deparou-se com o solitário e, após um breve período de adaptação e conhecimento mútuo, ambos tornaram-se próximos e passaram a conviver. Assal ensinou-lhe sua língua e logo passaram a conversar sobre suas experiências.

Hayy contou a Assal sobre todas as suas descobertas e sobre seus êxtases. O religioso viu então que tudo o que Hayy lhe dizia concordava com aquilo que lhe ensinara sua religião. E Hayy percebeu que tudo o que Assal lhe ensinara acerca daquela religião - sua doutrina e seus mandamentos - estavam em total acordo com o que ele mesmo aprendera sozinho naquela ilha deserta.

Contudo, Hayy se perguntava porque esses homens simplesmente não falavam a língua da verdade sem símbolos e porque eles simplesmente não se afastavam de todo apego, ao invés de ainda permitirem riquezas e dinheiro em seu meio. Concebeu então o plano de ir pregar a verdade completa a eles.

Hayy e Assal tomam um navio para a ilha vizinha e lá o solitário começa sua pregação. Contudo, ele rapidamente percebe que as coisas não eram exatamente como ele gostaria que elas fossem. Mesmo os mais elevados dentre os habitantes da ilha tinham enorme dificuldade e opunham grande resistência ao ensino da verdade clara.

Muitos se apegavam insistentemente ao sentido exotérico da lei e outros, a maioria, só queriam da religião aquilo que tinha a ver com este mundo, com as vantagens da vida sensível. Logo compreendeu que sua missão estava fadada ao fracasso.

E a causa desse fracasso era a constituição dos homens. Nem todos eram talhados para aquela verdade límpida e translúcida que Hayy vinha anunciar. A maioria jamais poderia alcançá-la, de modo que a providência divina concedeu-lhes as palavras e as leis dos profetas, a fim de que fossem instruídos na medida em que fossem capazes de instrução.

Hayy Ibn Yaqzan retratou-se publicamente de seus discursos e afirmou ser sua a mesma fé daqueles homens e exortou-os ao cumprimento diligente das leis reveladas. Diante de Sulaiman - tornado rei da ilha logo depois da partida de Assal - conclamou-os à virtude e à fé no sentido exterior da revelação divina e aconselhou-os à simplicidade de pensamento, desaconselhando qualquer busca mais profunda acerca do sentido esotérico da lei religiosa.

Depois disso, partiu junto com Assal para sua ilha e lá morreu adorando a Deus.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Curta introdução ao externalismo epistemológico

A despeito de algumas obscuridades óbvias, como as que cercam a relação entre a justificação e o acesso do sujeito conhecedor àquilo que justifica suas crenças, pode-se afirmar com segurança que o internalismo tem na deontologia sua característica mais expressiva. O que importa em termos de conhecimento é quanto o agente se esforçou para atingir a excelência epistêmica. 

Se ele cumpriu todos os seus deveres, então nada o impedirá suas crenças verdadeiras de receber a chancela de conhecimento. É justamente contra esse ponto central da tradição internalista que alguns filósofos, conhecidos como externalistas, irão se posicionar a fim de formular uma alternativa teórica que dê conta satisfatoriamente da questão do conhecimento. 

Externalismo é a designação dada a um conjunto bastante diversificado de teorias sobre o conhecimento que têm em comum a negação do deontologismo internalista. O sujeito S não está justificado em suas crenças verdadeiras, ou seja, não tem conhecimento legítimo graças ao cumprimento diligente e voluntário de certos deveres epistêmicos aos quais tem pleno acesso e dos quais tem  consciência. O que confere o caráter de conhecimento às suas crenças está fora do seu alcance imediato. 

Segundo Laurence Bonjour, o confiabilismo é a versão mais discutida e defendida do externalismo e se baseia na ideia de que 

"o que torna uma crença epistemicamente justificada é a confiabilidade cognitiva do processo causal por meio do qual a crença é produzida, ou seja, o fato de que o processo em questão leva a uma alta proporção de crenças verdadeiras, com o grau de justificação dependendo do grau de confiabilidade. Se o processo que cria a crença é confiável dessa forma, então (todas as condições sendo iguais) será objetivamente razoável ou provável no mesmo grau que a crença particular em questão, tendo sido produzida dessa forma, seja ela mesma verdadeira."

O que torna o confiabilismo uma forma de externalismo, salienta Bonjour, é que o sujeito conhecedor não necessita ter qualquer acesso privilegiado à confiabilidade dos próprios processos cognitivos que fornecem suas crenças para que esteja plenamente justificado. Se suas faculdades cognitivas ou métodos de conhecimento forem real e objetivamente confiáveis, ainda que o agente nada saiba acerca desse caráter de confiabilidade, então as crenças hauridas por meio desses processos e métodos terão um status epistêmico positivo, isto é, serão conhecimento legítimo.

O exemplo mais óbvio para ilustrar essa tese externalista é o da percepção sensível. Quando o sujeito S percebe através de seus órgãos visuais que há um cachorro à sua frente, se seus órgãos são confiáveis, nada o impede de estar justificado em sua crença de que há um cachorro à sua frente. Ainda que o sujeito S jamais tenha se questionado acerca da confiabilidade de seus olhos e de seu aparelho cognitivo visual e ainda que ele nunca venha um dia a conhecer o grau de confiabilidade dos mesmos, ele ainda estará plenamente justificado em suas crenças.

Nenhum dever epistêmico é aqui exigido para que haja conhecimento. Nenhuma norma indispensável sem a qual não há justificação é especificada. Do sujeito S não é exigido que ele tente obter excelência epistêmica e nem sequer que se esforce para cumprir suas responsabilidades enquanto ser racional. O que confere o caráter de justificação e, por conseguinte, de conhecimento, às suas crenças é o grau de confiabilidade dos processos cognitivos que as criaram. Mesmo um agente relapso e leviano em suas investigações e atividades epistêmicas pode estar plenamente justificado em suas crenças desde que estas sejam produto de faculdades ou métodos confiáveis.

A partir dessa perspectiva, métodos lógicos e probabilísticos de inferência também são julgados de acordo com sua confiabilidade. Se tais métodos (cumpridos seus requerimentos específicos) têm a tendência de produzir mais asserções verdadeiras do que falsas, então o sujeito S que os utiliza em seus raciocínios e argumentos estará justificado em crer naquilo que é produzido por esses processos, mesmo que não tenha conhecimento do grau de confiabilidade deles. 

Dessa forma, mesmo crianças pequenas e animais podem estar justificados uma vez que o que importa é a confiabilidade dos processos cognitivos e não a consciência ou a iniciativa em se conformar com pretensos deveres epistêmicos. Na concepção do filósofo externalista as condições descritas até aqui, juntamente com a crença e a verdade da crença, seriam necessárias e suficientes para se atribuir conhecimento a um sujeito conhecedor qualquer. 

Evidentemente, essa tese apresenta problemas teóricos que são explorados por seus adversários, internalistas ou não. Laurence Bonjour aponta três objeções que considera como as mais importantes e que questionam a confiabilidade como critério para o conhecimento. 

A primeira dessas objeções faz uso, novamente, de um demônio cartesiano enganador.  Suponha-se um grupo de pessoas submetido aos desígnios malévolos de um demônio que controla todas as suas faculdades. Sob o poder dessa criatura, o grupo crê se encontrar num mundo muito parecido com o nosso, com seres atuando uns sobre os outros causalmente no tempo e no espaço. 

Os componentes do grupo criam teorias sobre esse mundo e chegam a determinadas conclusões ditadas por princípios epistemológicos válidos. Apesar de tanta diligência, as suas conclusões são falsas, pois o mundo que experimentam não existe.  O filósofo externalista diria que o grupo não tem conhecimento porque suas crenças são fruto de processos cognitivos que estão longe de serem confiáveis. Bonjour, entretanto, afirma que seria intutivamente inválido afirmar que seres que tomaram todas as providências para conhecer corretamente seu mundo não estejam justificados em suas crenças. 

Uma resposta possível a essa objeção é afirmar que estão justificadas as crenças produzidas por faculdades e processos que teriam confiabilidade em um mundo “normal” (naquele em que realmente existem os seres e situações que são percebidos), ainda que os mesmos estejam funcionando em um mundo bizarro criado por um demônio. Por esse motivo, as pessoas do grupo estariam totalmente justificadas.

A segunda objeção é, de certa forma, óbvia, pois se o que importa para a justificação é que a crença seja produzida por faculdades confiáveis, então nada impede haja processos confiáveis fornecendo crenças verdadeiras a despeito da descrença do sujeito com relação à eficiência dos mesmos. Um exemplo fácil desse tipo de situação seria a clarividência

O sujeito S pode ser um clarividente e receber crenças verdadeiras dessa faculdade extranormal o tempo todo, mesmo que não tenha nenhum motivo para acreditar na confiabilidade da clarividência ou mesmo duvide dela decididamente. Num caso assim, a questão é se realmente se pode dizer que S está justificado.

Bonjour, novamente, usa um exemplo para ilustrar sua objeção. Suponha-se que exista um homem cujo nome é Norman e que ele possui o dom da clarividência. Através dessa faculdade Norman tem crenças sobre o paradeiro do presidente dos Estados Unidos. Essas crenças surgem espontaneamente em sua mente e ele crê nelas sem jamais ter tido o trabalho de verificar se são verdadeiras ou não, e nem mesmo tem uma concepção acerca do que isso é ou do alcance do fenômeno da clarividência

Acontece que suas crenças sobre o paradeiro do presidente estão sempre certas.  De acordo com o confiabilismo, Norman está totalmente justificado e tem conhecimento legítimo. O problema é que intuitivamente parece irracional acreditar, como faz Norman, em coisas das quais não se tem nenhuma evidência ou cujas evidências são contrárias.

Robert Fogelin, comentando essa objeção de Bonjour ao externalismo, assevera que ela não é conclusiva e que tira sua força aparente da desconfiança comum contra alegações de clarividência e do fato que a caracterização de Bonjour faz com Norman acredite em coisas que parecem surgir em sua mente do nada. Se a clarividência for colocada em situações mais cotidianas e normais, a objeção perderá força. 

Fogelin fornece um exemplo engenhoso no qual S tem clarividência e esta se manifesta cotidianamente de uma forma muito simples. Embora não tenha consciência desse fato, S tem o poder de saber o que está escrito na primeira linha da página seguinte à que está lendo. Ato contínuo, S começa a leitura da página seguinte já na segunda linha e não se dá conta disso. Fogelin afirma então que, da forma como a história é contada, dificilmente se diria que S não tem conhecimento, ainda que S tivesse evidências contra a crença em clarividência.

Outro exemplo, não mais hipotético e sim real, é dado pela propiocepção, a faculdade humana de perceber a posição de partes do corpo não por meio dos sentidos externos e sim pelo sentido interno. Poucas pessoas já ouviram falar dessa faculdade e muitas creem na ideia da existência de somente cinco sentidos, o que excluiria a possibilidade da propiocepção

Todo e cada ser humano sabe a orientação do seu corpo ou a disposição de seus lábios por meio dessa faculdade. A certeza das crenças assim obtidas não é em tempo algum submetida ao escrutínio crítico ou a uma avaliação segundo evidências sensoriais externas. Entretanto, seria absurdo dizer que uma crença desse gênero é irracional porque não possui “base em evidências”. Desse modo, a tese confiabilista do externalismo perderia o caráter irracionalista que Bonjour almeja imputar-lhe.

O terceiro e último argumento de Bonjour contra o confiabilismo se baseia no que ele denomina de problema da generalidade. Se o que importa para a justificação de uma crença qualquer é o grau de confiabilidade em geral do tipo do processo cognitivo do qual ela é o resultado, impõe-se a pergunta acerca da caracterização do nível de generalidade desse processo. Tome-se como exemplo a percepção visual de uma caneca sobre uma mesa. É possível descrever o processo de geração da crença de que há uma caneca sobre a mesa de diversas formas.

Como a percepção visual de uma caneca de perto e sob uma boa luz; como a percepção visual de uma caneca (sob condições e distância não especificadas); como a percepção visual de um “objeto físico de tamanho médio” (com mais ou menos especificações sobre as condições e a distância); como percepção visual em geral (incluindo as percepções de objetos bem maiores ou bem menores, com várias especificações das condições e da distância); ou simplesmente como percepção sensível em geral. (...) Qual dessas descrições do processo cognitivo em questão, deve-se perguntar, é a relevante para aplicar o simples princípio confiabilista de justificação?

Para Bonjour, essa objeção é importante porque ela mostraria que o externalista terá de admitir que há múltiplas formas de descrição de processos cognitivos e que a confiabilidade destes varia de acordo com as descrições dadas. Seria possível então descrever um processo cognitivo de tal maneira que o tornasse virtualmente infalível ou totalmente inútil. 

Sem uma resposta adequada a essa questão, segundo o autor, o confiabilismo perderia muito de sua força de persuasão, mesmo admitindo-se que algumas descrições são mais naturais que outras. De qualquer forma, dentro dessa naturalidade, há possibilidades diversas de descrição, o que mostraria que o problema é incontornável.

O confiabilismo tem no filósofo americano Alvin Goldman seu mais tradicional defensor. É impossível tratar do externalismo sem citar as principais teses postuladas por esse influente pensador contemporâneo da tradição anglo-saxã de filosofia. A posição goldmaniana é claramente confiabilista e sua formulação das exigências dessa corrente é considerada como paradigmática.

Para Goldman, a justificação de uma crença é uma “função da confiabilidade do processo ou dos processos que a causam, onde (como primeira aproximação) a confiabilidade consiste na tendência de um processo de produzir mais crenças verdadeiras do que crenças falsas.”

Em outras palavras, importa para que o sujeito S esteja justificado em suas crenças que estas, além de verdadeiras, tenham sido produzidas por processos cognitivos que se caracterizem pelo caráter disposicional de confiabilidade. Nenhuma exigência é feita quanto à responsabilidade epistêmica do agente conhecedor e nem valores cognitivos deontologicamente entendidos são postulados.

A formulação de Goldman, em que pese sua clareza e honestidade, abre espaço para críticas e objeções importantes. Alvin Plantinga, fazendo coro com Richard Feldman e Laurence Bonjour, aponta para o fato de que a ideia goldmaniana de confiabilismo não pode se desembaraçar do problema da generalidade. Como a confiabilidade de um processo é determinada por seu tipo, fica em aberto o grau de confiança de suas diversas instâncias. Tomando-se como exemplo o processo cognitivo da visão, ainda que este seja confiável em geral, as suas instâncias apresentarão diferentes graus de confiabilidade

Certamente a visão de um corpo médio a curta distância durante o dia tem mais confiabilidade do que a visão de um objeto médio à longa distância à noite ou em meio à neblina. A generalidade do tipo de processo cognitivo dificilmente poderá garantir a confiabilidade dessas instâncias particulares. Tomar o caráter confiável do tipo como garantia para todas as crenças produzidas por suas instâncias seria ignorar deliberadamente essas diferenças e lançar sobre casos menos confiáveis o manto da confiabilidade do tipo.

Não obstante, o confiabilismo lança luz sobre o fato de que a justificação das crenças é variada e que nem toda crença pode e deve obter sua justificação por meio de argumentos. Como Robert Fogelin salienta, é um preconceito intelectualista exigir que o sujeito conhecedor sempre justifique aquilo em que crê por meio de uma complexa cadeia de raciocínios. 

Em muitos casos, como o da propiocepção, nenhuma outra evidência ou explicação é necessária ou deve ser exigida além da afirmação daquilo que se apresenta para o sujeito como sendo o caso. Alguém sentado, vendado e instado a responder perguntas acerca da posição de seus lábios, de suas mãos ou de suas pernas não é culpado de irresponsabilidade epistêmica se baseia suas respostas (e confia) naquilo que seu sentido interno lhe informa. 

Evidentemente, se a pessoa em questão está sob efeito de uma droga que a faz pensar que seu corpo está em determinada posição quando na verdade está em outra, então sua crença nada tem de justificada. Neste caso, está claro que a confiabilidade natural do sentido interno se encontra drasticamente enfraquecida. Em circunstâncias normais, contudo, nada impedirá que essa pessoa esteja plena e satisfatoriamente justificada quando, sem recorrer à visão, crê que seus lábios ou suas pernas estão em tal e tal posição. 

Fogelin afirma que este é o caso inclusive do clarividente Norman apresentado como exemplo por Bonjour. Ao contrário do que este pretende provar, o exemplo mostraria que afinal não há nada de errado com a “intuição central do externalismo – que conhecimento pode surgir através do uso não-refletivo de uma capacidade perceptual.”

A discussão acerca da justificação das crenças hauridas por meio do funcionamento da percepção interna ou externa conduz também a considerações sobre o controle do sujeito conhecedor sobre suas crenças. Para o internalista o sujeito conhecedor tem deveres epistêmicos, e um deles é exercer um controle rígido sobre aquilo em que acredita. 

O externalismo aponta para o fato de que essa exigência é impossível de ser cumprida, pois não se pode controlar tudo aquilo em que se crê. O erro estaria na ideia de que a crença é algo temporalmente posterior à percepção da coisa. Primeiramente aconteceria a percepção e, então, por meio de uma consideração crítica da mesma, aconteceria ou não o assentimento a seu conteúdo.

Em muitos casos de percepção sensível, a crença não é resultado de uma avaliação posterior das evidências daquilo que se apresenta perceptualmente. A relação entre apresentação e crença não é temporalmente distinta, mas simultânea. Quando se percebe, se crê. Na maior parte do dia qualquer sujeito conhecedor age baseado em percepções internas e externas sem quaisquer considerações acerca de evidências. 

E isso não porque seja irresponsável epistemicamente, mas porque ele não é livre para crer no que quer ou somente naquilo que submete a rigoroso escrutínio ou ainda porque, como querem os externalistas, essas considerações são totalmente descabidas e dispensáveis.

As observações acima sobre a liberdade limitada do sujeito conhecedor em seu desempenho epistêmico são parte importante da argumentação utilizada em defesa do externalismo por parte de outro influente filósofo americano contemporâneo, Alvin Plantinga. Sua posição está centrada no questionamento da tradição internalista e justificacionista e na defesa de um externalismo que toma o conhecimento como função daquilo que ele chama de garantia (warrant). 

"Da forma como vejo a questão, uma crença tem garantia se ela é produzida por faculdades cognitivas funcionando apropriadamente (não sujeitas a qualquer mau funcionamento) em um ambiente adequado para tais faculdades, de acordo com um desenho exitosamente planejado objetivando a verdade."

O sujeito conhecedor não precisa saber que suas crenças são produzidas por faculdades que têm garantia para ter conhecimento legítimo. Basta que elas o sejam de facto. Plantinga admite que seu conceito de conhecimento seja complexo e que só pode ser compreendido plenamente a partir do estudo de casos paradigmáticos e aplicações analógicas, e que existem muitas situações nebulosas e de difícil interpretação que ainda permanecem como casos não esclarecidos. 

A ideia que subjaz à teoria, e que se realiza plenamente nos casos paradigmáticos, é que a garantia se ancora no bom funcionamento das faculdades e num projeto específico destas. Em Plantinga, o desempenho epistêmico que garante o conhecimento é transferido às faculdades cognitivas. As exigências não são mais deontológicas, mas teleológicas

São as faculdades cognitivas que deverão ter um funcionamento apropriado (proper function), livre de qualquer falha, dentro de um meio condizente com seu plano orientado para a obtenção da verdade. Tudo ocorrendo comme il faut, de acordo com as predeterminações do seu “projeto”, o aparelho cognitivo fornecerá ao sujeito que dele faz uso crenças com um status epistêmico positivo.

Diversas críticas foram dirigidas contra as concepções epistemológicas de Plantinga, em especial no tange às suas implicações teleológicas e teístas.* Laurence Bonjour, por exemplo, tentou demonstrar a inadequação do conceito de funcionamento apropriado através de um experimento de pensamento. 

Suponha-se um ser chamado Frank cujas faculdades cognitivas tenham sido formadas rigorosamente a partir do acaso. Em seguida suponha-se também que essas mesmas faculdades são tão acuradas e confiáveis quanto as de um ser humano normal, que Frank tenha sido submetido a uma educação ordinária e que ele realizou importantes descobertas no campo das ciências. A pergunta é se Frank tem ou não conhecimento, pois suas faculdades não são o produto de um desenho ou projeto. 

No caso de uma resposta negativa, parece estranho que alguém que consiga realizar descobertas reconhecidamente importantes e ainda assim não estar justificado em suas crenças porque suas faculdades não são fruto de um desenho e sim de um mero acaso. Por outro lado, o exemplo de Bonjour peca por supor demais. Supõe que realmente algo tão complexo quanto um ser humano e suas faculdades cognitivas possam ser construções da aleatoriedade. O problema é saber que força tem um experimento mental cujas premissas implicam a ideia de acaso puro. 

Bonjour afirma que o seu exemplo hipotético reflete a situação real se não houver realmente nenhum Deus criador e formador. Essa afirmação é controversa, pois nem mesmo darwinistas ateus pressupõem esse grau de aleatoriedade postulado por Bonjour.

Um segundo exemplo fornecido por Bonjour tem o objetivo de mostrar que as teses de Plantinga não escapam às críticas dirigidas ao confiabilismo no que tange aos casos de suposta clarividência. Admita-se a existência de um homem comum chamado Boris que esteja com suas faculdades totalmente saudáveis e trabalhando de acordo com seu desenho num ambiente adequado. 

A única coisa diferente em Boris é que Deus implantou um módulo cognitivo em seu cérebro que o habilita a saber com o máximo de certeza possível, com poucos dias de antecedência, o dia do Juízo Final. Suponha-se que realmente o Juízo Final esteja próximo e Boris reage da maneira correta, ou seja, ele tem certeza absoluta, tanto quanto de que 2+2=4, que o fim dos dias está próximo. 

Ora, se Boris tomasse qualquer atitude baseado nessa crença, alguém porventura poderia afirmar que ele está justificado racionalmente? A questão é que, de certa forma, nenhuma evidência há que suporte tal crença. Ao fim e ao cabo, Boris não estaria agindo de uma forma racional. 

Plantinga responderia à essa objeção apontando para o fato de que, como externalista, ele não concebe a evidência como necessariamente disponível à consciência do agente. No entanto, a evidência existe na qualidade de uma crença básica fornecida por uma faculdade cognitiva funcionando apropriadamente em um ambiente adequado a seu desenho e que impele por uma força impulsional à sua aceitação.

Apesar das diversas divergências internas, as correntes do externalismo e do internalismo possuem certa unidade doutrinária que permite que seus aspectos essenciais possam ser apresentados sem a necessidade de uma exposição minuciosa de todas as filigranas das teorias particulares de cada pensador. Há outras teorias que pretendem se afastar dessa dicotomia internalismo-externalismo que domina o debate epistemológico anglo-saxão, principalmente no que tange à busca de soluções para o problema de Gettier. Eventualmente trataremos delas em postagens futuras.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Breve introdução ao internalismo epistemológico

No debate acerca das condições necessárias e suficientes para o conhecimento duas correntes dominam o cenário filosófico analítico anglo-saxão: o internalismo e o externalismo. Embora existam ainda muitas obscuridades, incompreensões e controvérsias na própria classificação e entendimento dessas correntes, existe certa concordância na questão de suas características gerais. 

Laurence Bonjour, em artigo publicado na coletânea que integra o Oxford Handbook of Epistemology, afirma que ambas as correntes pretendem estabelecer a terceira condição do conhecimento, aquela que junto à crença e à verdade da crença, torna o conhecimento legítimo. A partir disso, segundo o autor, a definição dessas correntes se daria nos seguintes termos:

"Uma teoria epistemológica conta como internalista se e somente se ela exige que todos os elementos necessários para que uma crença satisfaça essa condição deve ser cognitivamente acessível à pessoa em questão; e como externalista, se ela permite que pelo menos alguns desses elementos não sejam acessíveis, permitindo-os ser externos à perspectiva cognitiva daquele que crê."

Evidentemente, há controvérsias acerca do significado de termos como “cognitivamente acessível” e “perspectiva cognitiva”, permanecendo sua compreensão ainda numa esfera bastante intuitiva. Não obstante, Alvin Plantinga define o internalismo em termos semelhantes aos usados por Bonjour. Ele assim afirma:

"A ideia básica do internalismo é, obviamente, aquela segundo a qual o que determina se uma crença é garantida para uma pessoa são fatores ou estados em algum sentido internos a ela; as propriedades que conferem garantia são de alguma forma internas ao sujeito ou ao conhecedor."

Tanto Plantinga quanto Bonjour assinalam a origem cartesiana do internalismo, na medida em que mantém como seu objetivo a construção do conhecimento a partir de bases consideradas indubitáveis. Segundo Plantinga, a origem do internalismo pode ser rastreada até as posições epistemológicas de Descartes e de Locke, e delas ainda conserva muitos traços distintivos. O aspecto central dessa perspectiva epistemológica é o caráter deontológico da justificação das crenças. 

O internalista clássico pensa que é preciso não dar chance ao acaso quando se trata de justificação. Aqui nosso empenho está inteiramente sob nossa responsabilidade. O destino pode conspirar para me enganar, eu poderia estar enganado a respeito da existência do mundo externo, do passado, ou mesmo de outras pessoas. Por mais que esteja convencido do contrário, ainda assim é possível que eu seja um cérebro numa cuba ou a vítima de um maléfico demônio cartesiano que se delicia na enganação. Posso estar totalmente enganado. Mesmo assim, ainda consigo cumprir meu dever epistêmico, fazer o meu melhor e estar acima da reprovação. 

A justificação (diferente de uma constituição forte, por exemplo) não é algo que acontece com uma pessoa. É, ao contrário, o resultado de esforço intencional. Talvez eu não possa levar o crédito pela minha boa digestão ou pela minha bela disposição corporal. Todavia, posso levar crédito por estar justificado. Da forma que o deontologista clássico vê as coisas, a justificação não se dá por fé, mas por obras, e depende de nós se somos justificados em nossas crenças.

O internalismo concebe a justificação das crenças em termos de cumprimento de certos deveres epistêmicos, os quais serão condições necessárias e suficientes para que haja conhecimento legítimo. A partir dessa constatação, Plantinga aponta para o que ele considera o primeiro tema internalista, segundo o qual “a justificação epistêmica (isto é, a justificação epistêmica subjetiva, tal que não sou sujeito à crítica) está inteiramente sob minha responsabilidade e dentro de meus poderes.” 

O que é exigido do sujeito conhecedor S é que ele cumpra diligentemente seu dever, ou seja, que tenha um desempenho epistêmico impecável e sem sombra de leviandade. O segundo tema internalista, de acordo com Plantinga, afirma que: 

"Para uma classe extensa, importante e básica de deveres epistêmicos objetivos, os deveres objetivos e subjetivos coincidem. Aquilo que alguém deve fazer objetivamente se encaixa com aquilo que é tal que, se alguém não o fizer, será culpado e criticável.” 

O tema acima, que une o dever subjetivo do sujeito conhecedor com aquilo que é objetivo, tem como corolários que, para uma série extensa e importante de casos, um ser humano funcionando propriamente consegue perceber (ou seja, não pode cometer um erro involuntariamente) o que o dever epistêmico exige e se a proposição tem a propriedade por meio da qual ele reconhece uma proposição como justificada para ele.

Há um terceiro tema internalista que, Plantinga cuidadosamente apenas sugere, estaria ligado precipuamente aos estados internos do sujeito. Segundo sua interpretação, o caráter deontológico do internalismo implica que as únicas proposições que se coadunam com as suas exigências sejam aquelas em que o sujeito não pode cometer erros. 

Ao contrário de proposições acerca, por exemplo, do bom funcionamento do pâncreas, proposições do tipo “creio que Albuquerque fica no Novo México” ou “isto me parece vermelho” são indubitáveis toda vez que um sujeito creia nelas. Alguém pode certamente ignorar a verdade e errar num julgamento sobre a saúde de um órgão interno, porém não pode, sob nenhum aspecto, enganar-se sobre se algo, num determinado momento, aparece-lhe como vermelho.

Apesar de sua caracterização do internalismo basear-se principalmente nas fontes dessa tradição, Descartes e Locke, Plantinga pretende que ela encontra-se em grande parte confirmada pelas obras de filósofos internalistas contemporâneos. Estes, embora com algumas divergências, endossariam em geral as ideias de que a justificação junto com a verdade seriam condições necessárias e suficientes para o conhecimento, que há uma forte conexão entre a justificação e a evidência e que a justificação envolve o internalismo epistêmico.

Em primeiro lugar, Plantinga aponta que para esses autores contemporâneos a justificação é sempre vista sob a ótica deontológica. Estar justificado em crer numa proposição ou tese significa ter cumprido seus deveres epistêmicos adequadamente. Por outro lado, a justificação significa possuir bases aceitáveis, ou seja, é necessário ter evidências para se crer em algo. 

Se o sujeito conhecedor buscou diligentemente basear suas crenças em evidências adequadas, ainda que ele esteja (sem o saber) sob a influência de um gênio maligno ou seja um cérebro numa cuba, nada impede que se atribua a ele conhecimento legítimo. Em terceiro lugar, as evidências requeridas para a justificação das crenças devem ser internamente acessíveis ao sujeito que conhece.

Laurence Bonjour afirma, em sua análise do internalismo, que este tem seu rationale em duas ideias fundamentais. A primeira delas é a concepção segundo a qual a justificação epistêmica se dá no cumprimento dos deveres e responsabilidades de uma criatura racional, de modo que uma pessoa só está justificada em suas crenças na medida em que ela tenha cumprido diligentemente tais obrigações (concepção deontológica da justificação). A segunda é a ideia de que o papel central da justificação epistêmica é guiar o sujeito na decisão do que crer.

No tocante à primeira concepção que forma o centro do rationale internalista, a de que o cumprimento de deveres e responsabilidades epistêmicas é condição necessária e suficiente para a justificação de crenças, Bonjour aponta para os casos onde o sujeito se encontra numa situação de “pobreza epistêmica”. A situação em que uma pessoa se encontra pode ser tão epistemicamente empobrecida que ser-lhe-ia impossível obter boas evidências e bases adequadas para suas crenças. 

E tal pode se dar por uma ampla diversidade de fatores como falta de evidências seguras, métodos disponíveis inadequados ou mesmo falhas e deficiências no aparelho cognitivo. Nessas situações, ainda que o sujeito em questão dê o melhor de si nos seus empreendimentos cognitivos, ele não terá condições de alcançar e preencher as exigências para um conhecimento legítimo. Não obstante, em nenhum momento será possível criticá-lo ou condená-lo por negligência ou leviandade. O sujeito conhecedor cumpriu seus deveres, mas ainda assim não está epistemicamente justificado em suas crenças.

Com respeito à segunda ideia que compõe o rationale internalista, a de que a justificação funciona como um guia para o sujeito na aceitação ou na rejeição de suas crenças, Bonjour aponta para o fato cotidiano da impossibilidade de um controle efetivo sobre as crenças. Em boa parte dos casos o assentimento dado está longe de corresponder a um controle voluntário. Esse fato, por sua vez, não invalida a tese de que algumas vezes a justificação possa realmente funcionar como guia para a aceitação ou rejeição das crenças.

Mattias Steup, em artigo para a Stanford Encyclopedia of Philosophy, aponta para algumas concepções características do internalismo. A primeira delas, seria a ideia da existência de deveres epistêmicos que, por sua vez, não podem ser confundidos com normas éticas ou prudenciais. Segundo ele, a justificação deontológica pode ser formulada como se segue: “S está justificado em crer em P se e somente se no ato de crer em P, S não esteja violando qualquer de seus deveres epistêmicos.”

O conteúdo desses deveres epistêmicos são objeto de controvérsia, mas o que pode ser dito com segurança é que eles nascem da busca pela verdade. Daí a possibilidade de formular a justificação em termos de tudo aquilo que não se opõe à persecução do que é verdadeiro. Em segundo lugar, se há uma deontologia epistêmica, então uma de suas exigências deve ser a de somente se dar assentimento àquilo que tem bases evidenciais, e desde que essas bases são diretamente reconhecíveis pelo sujeito conhecedor, a justificação é igualmente reconhecível internamente

A terceira característica do internalismo se apresenta em contraste com uma das exigências do confiabilismo externalista. Este concebe que a justificação de uma crença é uma função da confiabilidade dos processos ou faculdades cognitivas. Contra isso, o internalista aponta para a possibilidade lógica de um demônio cartesiano estar deturpando essas faculdades de tal forma que nenhum resultado positivo em termos de conhecimento real possa ser obtido. Todas as crenças, memórias e evidências estão sob o domínio maléfico do gênio cartesiano que engana sistematicamente aquele que crê possuir conhecimento. 

Para o internalista nenhum efeito negativo é produzido por essa hipótese uma vez que o sujeito conhecedor apoiou-se nas evidências disponíveis e corretas e baseou suas crenças sobre elas. Ele cumpriu seu dever diligentemente e seu desempenho é inatacável, ainda que tenha sido enganado pelo gênio malévolo.
   
A fim de ilustrar as características do internalismo até aqui elencadas, não será ocioso apresentar de modo sucinto e resumido algumas das concepções epistemológicas do filósofo americano Roderick Chisholm, considerado como um dos mais destacados e influentes representantes do internalismo no século XX. 

Alvin Plantinga afirma que existe um “internalismo chisholmiano clássico”, que é compreendido pelo período que vai da publicação de seus primeiros escritos até a publicação de Foundations of Knowledge. Nessa fase, o filósofo americano vê a justificação das crenças ou o caráter epistêmico positivo em função do cumprimento de deveres ou obrigações epistêmicas:

"Pode-se dizer que essa é a responsabilidade ou dever de uma pessoa qua ser racional (...) Uma forma de recolocar a  locução “P é mais razoável que Q para S em t” é dizer  isso: “S está de tal forma situado em t que seu dever intelectual, seu dever como ser racional, é melhor satisfeito pela crença em P do que em Q.” 

Para Chisholm, crer ou se abster de uma crença é parte essencial da realização dos deveres epistêmicos de um agente racional. E este só pode dar assentimento a uma proposição se ela apresenta-se como mais razoável do que sua negação ou outra proposição qualquer. De acordo com sua razoabilidade, as crenças serão classificadas por meio de termos epistêmicos como “certo”, “além da dúvida razoável”, “evidente” e “aceitável”

A razoabilidade, entendida em um sentido normativo e deontológico, tem semelhanças com conceitos éticos ou morais, embora com eles não se confunda. Se o sujeito cumpre seu dever epistêmico com responsabilidade somente aceitando crenças que possuam razoabilidade, e se essas mesmas crenças são verdadeiras, então ele estará justificado em suas pretensões de conhecimento.

Plantinga, comentando as teses de Chisholm, afirma que este, ao subscrever o deontologismo epistêmico, acaba por também subscrever o primeiro lema internalista, segundo o qual a obtenção de um status epistêmico positivo para as crenças está sob o alcance do sujeito conhecedor e depende só dele. Ou seja, para que haja conhecimento é preciso somente que o investigador cumpra o dever que está, ampla e irrestritamente, em suas mãos e à sua disposição. 

Tal obrigação não é do mesmo gênero daquelas cujo cumprimento se dá de uma só vez, como a restituição de um objeto furtado, mas exige um constante empenho em manter a acuidade epistêmica em todas as atividades cognitivas. O compromisso, para todo ser racional, é sempre buscar a realização da excelência no âmbito epistêmico. Isso não significa que seja necessário, a fim de cumprir a contento os deveres acima citados, que as crenças que o sujeito conhecedor sustenta sejam de fato todas verdadeiras. 

Não é preciso nem mesmo que a maioria delas seja. O que é exigido é que haja um esforço continuado e constante por parte do sujeito para cumprir os deveres impostos pelo fato de pertencer à classe dos seres racionais. Na qualidade de um ser intelectual, seu dever é esforçar-se por alcançar a excelência. É evidente que essa tese de Chisholm contém um forte elemento decisional. O sujeito decide esforçar-se para obter o status epistêmico positivo para suas crenças. Está sob seu inteiro poder acolher algumas e rechaçar outras. 

A racionalidade do ser intelectual se desvela aí como uma decisão consciente de submeter suas crenças a certos exames calcados em parâmetros determinados, de forma análoga à metáfora cartesiana do homem que examina as maçãs de sua cesta uma a uma, preservando as que estão em boas condições e jogando fora as que estão podres. 

Como foi dito, não é necessário para o cumprimento do dever epistêmico que todas as crenças sustentadas pelo sujeito sejam efetivamente verdadeiras, bastando-lhe a constância no esforço de alcançar a excelência no conhecimento. Infere-se daí que esse empreendimento é tentativo, ou seja, o que se pode exigir do agente conhecedor é que ele tente sempre cumprir diligentemente seus deveres como ser racional.

Se suas faculdades estão sob efeito de uma ilusão criada por um demônio maligno ou se ele mesmo não é mais do que um cérebro numa cuba no laboratório de um cientista excêntrico, nada disso tem importância no tocante à justificação de suas crenças. Tendo feito tudo aquilo que estava ao seu alcance para cumprir com suas obrigações como um ser racional, o sujeito conhecedor está plenamente justificado em crer naquilo em que crê.

Um dos seis princípios epistêmicos que Chisholm apresenta para guiar o sujeito nas suas atividades de conhecimento afirma que 

"(1) se o sujeito percebe algo como um F e se (2) sua percepção é epistemicamente clara para ele, então está além da dúvida para o sujeito que ele está percebendo algo que é F. E, se além de (1) e (2) a percepção de que algo é F for membro de um conjunto de proposições que se apoiam mutuamente e cada uma delas está além da dúvida razoável para o sujeito, então é evidente para o sujeito que ele percebe algo que é F."

De acordo com a tese internalista defendida por Chisholm, o agente conhecedor tem a obrigação de cumprir seus deveres enquanto ser racional, os quais se resumem a permanentemente tentar alcançar a excelência epistêmica em suas atividades cognitivas cotidianas. Se esse agente se encontra numa situação na qual os critérios acima dispostos são realizados convenientemente, então é seu dever assentir com a crença segundo a qual algo é F. Cumprindo dessa maneira sua obrigação enquanto um ser consciente e racional, o agente está totalmente justificado em sua crença, e esta detém um status epistêmico positivo, ou seja, é conhecimento legítimo

Suponha-se, entretanto, que um agente conhecedor esteja sob efeito da ilusão criada por um demônio malévolo ou que tenha sofrido um acidente que lesionou seu cérebro. Em seguida acrescente-se que o efeito desse feitiço ou dessa lesão é fazer com que quando o agente ouve distintamente algo que lhe parece um sino de igreja tenha a irresistível tendência ou impulso para acreditar que algo dessa natureza lhe apareceu e que esse algo é laranja

O sujeito em questão não sabe de sua condição de enfeitiçado por um demônio ou de lesionado cerebral e é um investigador consciente e responsável que tenta permanentemente realizar com acuidade seus deveres epistêmicos. Além disso, suponha-se que todos ao seu redor sofram da mesma condição. A pergunta que se impõe obviamente é se realmente o sujeito conhecedor tem conhecimento.

O exemplo descrito, em suas linhas gerais, é da autoria de Alvin Plantinga e intenta mostrar dois fatores importantes. O primeiro deles é que, consoante com a tradição internalista, Chisholm diria que o sujeito em questão tem sim conhecimento legítimo. As condições adversas às quais o agente está submetido são por ele totalmente desconhecidas e, por isso, não influenciam no seu desempenho qua conhecedor. Nada no comportamento do sujeito indica leviandade ou displicência com relação a seus deveres enquanto ser racional. Ele fez tudo corretamente e em concordância com aquilo que lhe era disponível no momento. 

O segundo fator aponta para o que Plantinga supõe ser a fragilidade dessa perspectiva teórica. Embora não se possa dizer que, em termos internalistas, o sujeito não esteja plenamente justificado a crer naquilo em que crê, intuitivamente parece que algo não se encaixa nesse quadro. Afinal, sabemos que ele sofre de uma condição que, apesar de ignorada, faz com que suas faculdades funcionem de uma forma não ordinária e que isso o conduz a conclusões falsas. 

Ou seja, efetivamente aquilo que ele crê não tem relação com o real. Sob essa ótica privilegiada, a do leitor que sabe da ilusão a que o sujeito está submetido, pode-se dizer que não há conhecimento efetivo. Para Plantinga, isso seria um indício forte da insuficiência das teorias internalistas.
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sábado, 25 de janeiro de 2014

Alvin Plantinga, conhecimento e normatividade epistemológica

Um dos problemas centrais da epistemologia contemporânea tem sido aquele de determinar em que condições há conhecimento. Segundo alguns intérpretes hodiernos, Platão teria formulado o problema no Teeteto e no Simpósio perguntando-se como se poderia passar de crenças verdadeiras (o meio-termo entre ignorância e sabedoria) ao legítimo conhecimento. 

Para esses intérpretes, a resposta estaria na crença verdadeira justificada. Desde então assumiu-se que para o conhecimento três condições eram suficientes e necessárias: a crença, a verdade da crença e a justificação dessa crença.

Entretanto, como visto em posts anteriores, um artigo de Edmund Gettier, nos anos 60 do século passado, lançou sérias dúvidas sobre a idéia de que a justificação fosse uma condição suficiente para o conhecimento. Inaugurou-se a partir daí, um debate acirrado no mundo analítico anglo-saxão em busca de uma solução para o problema levantado por Gettier.

Se, de fato, o justificacionismo não era suficiente para o conhecimento, como então se poderia resolver o principal problema da epistemologia? E, se possuir crenças verdadeiras justificadas não garante conhecimento, em quê então poderemos crer? 

Evidentemente a questão afeta também a teoria da racionalidade. Se nos perguntamos em quê é racional crer, temos classicamente como resposta que é racional crer naquilo que podemos justificar. Se a justificação não é suficiente, então aquilo que considerávamos racional crer talvez não seja exatamente racional. Ou ainda, se não há meios de justificação de nossas crenças, então também não haveria meios de determinar a racionalidade de qualquer de nossas crenças.

Uma das tentativas de resolver esse problema seria a idéia de que a garantia do conhecimento não passa pela justificação das crenças e sim pela confiabilidade dos processos e das faculdades que as produzem. Nessa perspectiva naturalista, questões descritivas acerca da forma como adquirimos nossas crenças teriam então importância para questões de normatividade epistemológica. Seria necessário saber, entre outras coisas, quais faculdades produzem quais crenças, qual seu funcionamento próprio e quais seus limites e ambientes ideais de funcionamento. 

O filósofo americano Alvin Goldman, por exemplo, desvia a discussão do plano do justificacionismo e defende a idéia de que a condição suficiente para o conhecimento está na confiabilidade do processos que causam as crenças. Segundo Goldman,

"O status justificacional de uma crença é uma função da confiabilidade do processo ou dos processos que a causam, onde (como primeira aproximação) confiabilidade consiste na tendência de um processo produzir mais crenças verdadeiras que falsas."

Entretanto, para o filósofo analítico americano Alvin Plantinga, essa resposta não é suficientemente acurada, embora aponte para o lado certo. A condição suficiente do conhecimento não está no justificacionismo e sim na confiabilidade da fonte de nossas crenças. O que falta à definição de Goldman é uma investigação acerca da função própria das faculdades cognitivas. 

Os processos que Goldman chama de confiáveis podem ser somente acidentalmente confiáveis e não necessariamente confiáveis. Não basta sabermos que um determinado processo tem a tendência de causar mais crenças verdadeiras que falsas; não basta sabermos que essa tendência é expressa em termos do que freqüentemente acontece ou do que normalmente acontece.

Para Plantinga, é necessário sabermos a função própria desses processos. Sabermos que eles são necessariamente confiáveis. É necessário sabermos que faculdades têm como função própria a produção de crenças verdadeiras e quais não têm, qual seu alcance e seus limites, quais são seus ambientes adequados de funcionamento. Se todas essas condições forem cumpridas, então teremos a garantia que o justificacionismo não fornece. 

É possível pensar, por exemplo, em faculdades que geram crenças e que não têm como objetivo a verdade. É possível pensar, por exemplo, que o cérebro de alguém acometido de uma doença incurável e fatal pode, através de neurotransmissores ou coisa parecida, criar nele um sentimento de euforia e vivacidade que gera a crença de uma cura próxima. Essa faculdade pode ter o simples objetivo e função de criar bem-estar e não exatamente de fornecer um retrato fiel da situação real em que a pessoa se encontra.

Por outro lado, uma faculdade pode ter como objetivo um retrato fiel da situação real, mas que por algum problema, esteja funcionando mal. Um exemplo próximo é o de alguém embriagado ou sob efeito de entorpecentes. 

Um outro exemplo mais radical é o de alguém sofrendo de uma moléstia que o faça ver e formar a crença de que as pessoas não possuem rosto. Nestes casos, há uma faculdade envolvida, a visão, que é precipuamente cognitiva, cujo funcionamento próprio tem como objetivo um retrato fiel da situação e que, por efeito de uma moléstia, não funciona como devia.

Poderíamos também citar a possibilidade, de longe a mais radical, de que nenhuma de nossas faculdades tidas como cognitivas realmente nos dão conhecimento fidedigno do mundo. Com isto nos aproximamos da idéia do demônio cartesiano que nos faria crer, em cada momento, ser verdade aquilo que, na realidade, não é. Numa possibilidade menos dramática, podemos pensar, como os darwinistas, que nossas faculdades só podem nos dar um retrato do mundo externo cujo último objetivo é a sobrevivência e não a verdade.

Ao longo de suas obras, Plantinga desenvolve e amplia essa intuição inicial, discutindo seus aspectos gerais, seus problemas e sua aplicação e chega à formulação segundo a qual a condição suficiente do conhecimento será dada por uma crença básica produzida por faculdades designadas para a verdade funcionando propriamente (de acordo com seu desenho) num ambiente adequado à seu funcionamento.

Para Plantinga são essas “crenças básicas”, ou seja, crenças nas quais confiamos não por sua derivação de outras crenças por meio de raciocínios ou inferências dedutivas ou indutivas, que estarão no fundamento do edifício do conhecimento. Confiamos nelas porque são produzidas por faculdades cognitivas cujo objetivo é a verdade e que estejam funcionando propriamente (segundo seu “desenho”) e em um ambiente adequado para suas funções. Plantinga dá como exemplo de crenças geralmente tomadas como básicas:

1.Crenças perceptivas do tipo “Eu vejo uma flor”.
2.Crenças de memória do tipo “Eu tomei café da manhã hoje”. 
3.Crenças acerca dos estados mentais de outrem do tipo “Aquela pessoa está com fome”

Todas as crenças acima elencadas são caracterizadas pelo fato de que nada as fundamenta senão elas mesmas. Não cremos nelas por ação de algum raciocínio seja dedutivo, indutivo ou abdutivo. Ao contrário, sua confiabilidade se impõe a nós como uma tendência a acreditar nelas, ou seja, nos sentimos compelidos a crer. 

Plantinga alega que sua visão tem antecessores ilustres na tradição filosófica ocidental tais como Aristóteles, Tomás de Aquino e Thomas Reid. E, como esses dois últimos, Plantinga admite que a idéia de Deus tenha um papel preponderante no processo do conhecimento. 

E isso se vê facilmente, pois se a idéia de função própria envolve intimamente a noção de desenho (ou projeto num sentido teleológico), então deve haver um desenhista inteligente para essas faculdades. É exatamente pelo motivo de haver um Deus bom que criou-nos à sua imagem, capazes como Ele de conhecer verdadeiramente, que podemos então confiar em nossas crenças básicas produzidas por nossas faculdades.

É assim que a questionamento da justificação feito por Gettier se torna um problema sobre a confiabilidade de nossas faculdades cognitivas. O que está em jogo é o problema principal da teoria da racionalidade, a saber, o problema de identificar o que um agente racional está justificado a crer. E este só se resolve, em Plantinga, a partir do conhecimento da existência de Deus e de sua veracidade. Qualquer outra tentativa de resposta que ignore a ação de Deus na produção de nossa estrutura cognitiva está fadado à impossibilidade de garantir um status epistêmico positivo às nossas crenças.

Para Plantinga, o naturalismo só pode dar uma resposta satisfatória para a questão da origem, do funcionamento próprio e da confiabilidade de nossas faculdades cognitivas se ele estiver inserido numa metafísica teísta. 

Segundo ele, o naturalismo darwiniano de fundo ateu, por exemplo, não pode solucionar coerentemente essa questão uma vez que para o darwinista estrito as faculdades cognitivas humanas são fruto de um processo cego que não tem como objetivo fornecer um retrato verdadeiro do que há, mas somente a sobrevivência do indivíduo e da espécie.

Contudo, os opositores de Plantinga afirmam que a idéia de que um Deus bom projetou nossas faculdades visando à verdade é impossível de ser provada, uma vez que apela para o conhecimento de um ser que é infinitamente superior às nossas mais altas especulações. Como se pode conhecer as intenções de um ser que ultrapassa toda e qualquer perspectiva de cognição humana? 

Plantinga pretende resolver essa questão apelando para o que Calvino chamou de sensus divinitatis, uma crença em Deus que é tão evidente e tão básica quanto a evidência dos sentidos, da memória ou do “eu”. Desse modo, a crença em Deus é também uma crença básica produzida por uma faculdade cognitiva, o sensus divinitatis, operando segundo seu projeto em condições que sejam adequadas a seu desenho. 

Nem todos concordarão com essa crença básica, mas isso não contará como um argumento contra ela, da mesma forma que uma pessoa que sustente a crença de que tomou café pela manhã não se perturbará se encontrar alguém que não concorde com ela acerca da validade dessa crença básica.
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Leia também:
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Sugestões de leitura:

Alvin Goldman: 

What is Justified Belief” in Justification and Knowledge: New Studies in Epistemology, ed. George Pappas, Dordrecht: D. Reidel, 1979

Alvin Plantinga: 

The Nature of Necessity. New York: Oxford University Press, 1982 
Warrant: The Current Debate. New York: Oxford University Press, 1993
Warrant and Proper Function. New York: Oxford University Press, 1993
Warranted Christian Belief. New York & Oxford: Oxford University Press, 2000