"No momento em que experimentamos um estado de consciência de natureza direta, ainda não existe sujeito nem objeto, ocorrendo aí uma perfeita unidade entre o conhecimento e o seu objeto. Esse é o supremo aspecto da experiência."
KITARO NISHIDA, Ensaio sobre o Bem, p.23 (trad. Joaquim Antonio Bernardes Carneiro Monteiro)
"O dois depende do um,
Não vos apegueis ao um.
Se um espírito não se manifesta,
Os fenômenos serão sem erro.
KANCHI SOSAN, Shin Jin Mei, 23 -24 (tradução de Taisen Deshimaru)
O filósofo japonês Kitarō Nishida (1870-1945), no primeiro capítulo de sua obra "Zen no kenkyū" ("Ensaio sobre o Bem", 1911), examina o tema da experiência pura, conceito central de sua filosofia. A experiência pura é o conhecimento das coisas tais como elas são sem quaisquer elaborações, juízos ou discriminações de nossa parte. É o momento anterior à distinção relacional de sujeito e objeto, quando ouvimos um som e ainda não discernimos a sua origem em um objeto externo ou identificamos a sua natureza.
Nishida afirma que todos os fenômenos espirituais aparecem dessa forma: sensação, percepção, memória ou abstração. A experiência pura é sempre simples no momento de sua ocorrência, mas pode ser considerada complexa porque é suscetível de ser analisada posteriormente, como ocorre quando a consciência presente é analisada e, por essa razão, não há mais a mesma experiência de antes. A análise é uma diferenciação no interior da experiência pura, o que rompe natureza da unidade originária.
A experiência pura se caracteriza pela unidade rigorosa da consciência concreta, e não pela mera simplicidade ou pela suposta impossibilidade de análise posterior. Essa unidade da consciência é o que permite que haja a multiplicidade de estados mentais. Originalmente, não há distinção de interior e exterior, e o que constitui a experiência pura é sua unidade, não suas modalidades.
A simplicidade nesse contexto não significa a ausência da pluralidade, mas sim a experiência indistinta daquilo que é distinto. A esse respeito, Nishida fala de uma unidade caótica como a consciência de um bebê recém-nascido que não distingue ainda entre a luz e a escuridão. Algo semelhante pode ser aplicado a atividades cuja continuidade perfeita de atenção não permite a intromissão de qualquer pensamento, como uma escalada ou ainda a performance de um músico. Embora haja extensão temporal, sucessão de um momento a outro, existe unidade perfeita entre sujeito e objeto.
Nishida não cita o caso das artes marciais, mas cremos que nesse ponto seja possível fazer um paralelo com as lições de Yagyū Munenori (1571-1646), fundador da escola de kenjutsu Yagyū Shinkage-ryū. Munenori afirma em seus escritos que serão instáveis os golpes de um samurai consciente de portar uma espada. Outrossim, o flautista e o escritor não executarão bem as suas respectivas atividades se houver a interferência do pensamento consciente que pensa cada movimento.
Alguém está na Via (道) somente quando não resta nada no seu coração (心), diz Munenori. O espelho reflete perfeitamente as coisas justamente porque é amorfo, e o coração daqueles que estão na Via é semelhante a um espelho vazio e claro, inconsciente e sem desejos. A mente de um artista marcial treinado não está concentrada especificamente em nenhum dos pontos dos movimentos do kata. Ela está, por assim dizer, presente por toda a extensão do movimento, em uma unidade indiferenciada. Se a mente estiver atenta a cada movimento, haverá erro na execução do kata. Quando os efeitos do treino contínuo são absorvidos, os golpes são executados espontaneamente, livres de pensamentos conscientes.
Nishida considera que a experiência pura seja uma intuição dos fatos tais como eles são, e que, portanto, seja desprovida de significado. Sendo caótica e indistinta, os significados e os juízos que surgem da experiência pura são diferenciações que não acrescentam nada ao seu conteúdo, são elementos abstraídos da unidade originária. Em certo sentido, trata-se de um empobrecimento da experiência.
Quando identificamos uma percepção auditiva com o som de um sino, relacionamos essa percepção presente a uma percepção passada. O juízo e o significado nascem graças ao rompimento da unidade da experiência. Todavia, diz Nishida, o juízo, quando sua unidade é rigorosa, pode assumir a forma de uma experiência pura. Tal é o caso do aprendizado de uma arte que no início exige a atenção consciente de cada passo do processo, e que depois, graças ao treino, a sua execução torna-se automática e inconsciente.
A unidade da experiência pura e a diferenciação implicada no significado e o juízo são dois aspectos da mesma consciência ou duas formas de ver a mesma coisa, pois na consciência existe sempre unidade e diferenciação. Não obstante, no terceiro capítulo da segunda seção, Nishida afirma que na experiência pura não há divisão entre sujeito e objeto, mas um fato independente e completo em si mesmo. Arrebatados por uma bela melodia, esquecemos de nós mesmos e das coisas, e tudo se torna uma unidade absoluta. Nesse momento, a realidade verdadeira se manifesta. Quando o "eu" faz sua entrada, surgem o pensamento e a reflexão, e então esquecemos da experiência pura.
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3 comentários:
Prezado Rogério
Nicolai Berdiaev começa seu opus magno "Sobre a destinação do homem - ensaio de ética paradoxal" com uma acusação contra a gnosiologia: "A gnosiologia é uma expressão de dúvida na força e na validade do conhecimento filosófico. Há nela uma divisão, a qual inibe a possibilidade do conhecimento. Aquele que se dedica à gnosiologia, raramente chegará à ontologia". E além da gnosiologia e da ética, o misticismo e a metafísica de Berdiaev muito lembram o budismo mahayana, ainda que com fortes e óbvios contornos ortodoxos russos.
Eu acabei de traduzir do russo e publicar aqui em Lisboa esta obra de Berdiaev. Se tiver interesse em melhor conhecê-la (ao menos em português), eu lhe ofereço um exemplar de bom grado. Escrevi também uma introdução à vida e obra do filósofo russo, além de traduzir o importante poema "O Profeta" de Pushkin, que tão bem retrata a filosofia religiosa russa.
Olá, eu gostaria, sem dúvida, de ler a sua tradução de Berdiaev. Já li alguns dos livros dele e cheguei a escrever algo aqui no blog há uns dez anos, creio.
Não havia ainda pensado nesse paralelo da mística de Berdiev com o budismo Mahayana. Muito interessante.
Obrigado pelo comentário!
Abraços!
Olá Rogério
No séc. II Orígenes afirmava que até o demônio deverá ser reintegrado no paraíso divino (apocatástase). Isto lembra o voto do Buda Amida antes de alcançar a iluminação, de que todos renasceriam na Terra Pura (Shin Budismo).
Mande por favor seu endereço postal para o meu email, que eu remeto o livro de Lisboa. Esta é a 1a edição da minha tradução, e a minha idéia é editar uma 2a edição incorporando uma outra obra do Berdiaev que ja comecei a traduzir, intitulada 'Dialética existencial do divino e do humano'. Essas duas obras compõem o livro da edição russa que estou utilizando, e elas em conjunto fazem bastante sentido. Mas isto é só para o final do ano que vem, ou depois. Até lá, senti que precisava publicar o que já fiz.
Abraços
Joao Mendonca
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