segunda-feira, 3 de maio de 2010

O simbolismo mitológico indiano e o Absoluto metafísico






"A filosofia e a ortodoxia hindu esclarecida são fundamentalmente monistas e monoteístas, apesar das multidões de deuses e seres supra-humanos em que é prolífica a mitologia no país. As múltiplas representações são apenas especializações, virtudes específicas, atitudes, componentes, facetas.Olhados sob o ponto de vista da própria divindade (...), os aspectos da existência que nos parecem contraditórios - criação, duração, dissolução - são apenas um e o mesmo em termos de origem e significado final.(...) A compreensão dessa unidade é o objetivo da sabedoria hindu."

HEINRICH ZIMMER, Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia, pag. 113


O simbolismo de Vishnu deitado sobre Ananta, a serpente de mil cabeças, é sublimemente rico. É, no seu sentido mais profundo, uma tradução simbólica e mitológica das mais altas verdades metafísicas da filosofia e da religião hindu.

Vishnu representa o Absoluto, Brahman, imanente e transcendente. Imanente porque se revela em todas as coisas e transcendente porque nada pode esgotá-lo. Podemos dizer que o vaso é de barro, mas o vaso é uma forma cambiante de uma matéria, o barro, que permanecerá e assumirá outra forma.

Desse modo, o vaso é barro, mas o barro não é só um vaso. Ele transcende essa configuração particular e transitória, tem em si mesmo inúmeras outras possibilidades ainda não atualizadas.

De modo análogo, o que sou hoje é a atualização daquilo que tinha em potência. Contudo, cada homem "é" sempre mais do que é num momento determinado. Ele "é" também tudo aquilo que tem potência para ser e que talvez um dia possa atualizar.

Vishnu, na figura do Absoluto, engloba todo o cenário em torno. Ele é Ananta, é o oceano, é Lakshmi, sua esposa que acaricia seus pés e também Brahma, o demiúrgico deus que nasce de seu umbigo. Todos não são mais que emanações, aspectos de uma só e mesma realidade, distintos somente por uma função no teatro cósmico universal.

Vishnu deitado siimboliza também o aspecto masculino, produtor que se une ao aspecto passivo da infinita possibilidade, feminina e passiva, representada pelo oceano, pela infinitude de Ananta e pela divina esposa Lakshimi.

Da infinitude potencial, maternal e uterina das águas do oceano, Vishnu como poder masculino formador faz brotar Brahma, o deus criador do universo manifestado. Ele vem montado numa flor de lótus e tem quatro rostos representando as quatro eras da manifestação. Após o fim dessas eras, o todo retorna de novo à fonte para, depois de gestado como uma criança, retornar em novo ciclo.

Mas se da infinita potencialidade do oceano nasce o mundo manifestado, nama-rupa, este não esgota o Absoluto. Como ensinam os Upanisads, o que sobra do infinito é sempre infinito e Ananta, a serpente de mil cabeças, representa também o infinito que ainda "sobra" após a manifestação.

As representações artísticas, em que deuses, como Vishnu e Shiva, assumem o papel do Absoluto, têm missão didática, de apoio à meditação, de veículo de sabedoria metafísica por meios mitológicos. E mesmo quando diante de trindades, como a Trimurti, os deuses não são mais que aspectos de uma só e mesma realidade absoluta.

Visnu é o aspecto mantenedor, Brahma o criador e manifestador e Shiva é o destruidor. Três aspectos do Absoluto que, por vezes identificado simbolicamente a Vishnu ou Shiva, engloba os três numa unidade transcendente à qualquer determinação.

Brahman, a realidade subjacente e impessoal, está para além de qualquer determinação e é a fonte última de tudo quanto há, dos deuses, homens, animais, demônios, vegetais e tudo quanto já se manifestou, se manifesta agora ou venha a se manifestar em algum momento.

Brahman é Purusha, o homem universal e primevo, de cujo sacrifício tudo provêm, a respeito do qual se diz no Rig Veda: "[Este] homem (Purusha) é o universo inteiro/o que foi e o que ainda vai ser."

Purusha significa homem (macho, não espécie) e seu significado simbólico e filosófico é multifacetado e tem conotações diferentes, embora análogas, em diversas tradições dentro da Índia, inclusive aquelas não-védicas, como o Shankhya.

No caso, o Absoluto é um homem porque nele todas as coisas são um mesmo organismo, os órgãos são subordinados, hierarquizados e têm funções específicas. Essas partes são o organismo, mas este não é a simples soma quantitativa das partes. O homem transcende qualitativamente as partes e estas são como que virtualizadas quando se toma o homem como um todo.

Brahman é sempre mais do que se pode seguramente expressar. Os limites do símbolo não são os da coisa simbolizada e não se pode permitir que induzam ao erro. O Absoluto não é um homem, não é algo, nem tampouco é nada. É a infinita possibilidade de determinações.

Não é "algo", não tem fronteiras intrínsecas ou é limitado por "outro". Portanto, não pode ser distinto de nada. Como dito nos Upanisads, "é o Um-sem-segundo".

É o infinito, o que não tem "ser" porque não tem forma, limites, Eidos, mas que é a condição de possibilidade da determinação e de todo e qualquer ser determinado que, por conseqüência, é limitado, finito e transitório.

Brahman não é isso ou aquilo (neti neti), pois nada do que é manifestado pode identificar-se plenamente com Ele, assim como o vaso de barro não é o barro, que o transcende e o torna possível.

Assim sendo, é necessário que aquele que se aproxima das imagens artísticas e dos contos mitológicos dos deuses indianos tenha em mente que a realidade para a qual eles apontam e à qual eles prestam verdadeiro culto ultrapassa de muito os nomes e as formas, ainda que estas sejam aquelas dos deuses.

Om Shanti Shanti Shanti!

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4 comentários:

Fábio Creder disse...

"A filosofia e a ortodoxia hindu esclarecida são fundamentalmente monistas e monoteístas..." Eu talvez entenda o que o Zimmer quis dizer, mas acho, de certo modo, equivocado chamar o hinduísmo de monoteísta. Monista sim, mas não monoteísta, porquanto o monoteísmo implica uma transcendência que se afigura um abismo quase intransponível entre as duas ordens do tempo e da eternidade, o que não me parece haver no hinduísmo.

Roger Oleniski disse...

Depende do que se entende por monoteísmo. Eu acho absurdo chamar os hindus, por exemplo, de politeístas como alguns fazem. Isso porque se deve ter em mente o que se quer dizer por teísmo. Se isso significa que o divino é, ao mesmo tempo, o arcabouço ontológico, origem última de todas as coisas e é também pessoal, então o hinduísmo não é nem mesmo teísta. Dessa forma, o politeísmo nem mesmo se aplica.
Mas se o teísmo afirma que há um só (no sentido de unidade) divino, pessoal ou não, então certamente o hinduísmo é monoteísta. Vale lembrar que os Devas (deuses) não são outra coisa que seres de um estado de ser mais elevado (sátvico), mas não são os criadores ou a origem do universo ou do real. Eles fazem parte da manifestação tanto quanto eu, um cão ou uma pedra.

Fábio Creder disse...

Isso mesmo: acho que o hinduísmo não é sequer teísta, porque se o teísmo afirmasse "que há um só (no sentido de unidade) divino, pessoal ou não, então certamente" não só o hinduísmo, mas todos os panteísmos e panenteísmos seriam monoteísmos, o que seria absurdo. Plotino não é monoteísta. Tampouco Espinosa. O que marca a metafísica do monoteísmo, ao meu ver, é a teologia da criação.

Roger Oleniski disse...

"O que marca a metafísica do monoteísmo, ao meu ver, é a teologia da criação."De fato, uma vez que a criação é um ato de vontade livre de um ser absolutamente livre.E esse ser deve necessariamente ser onipotente, ou seja, nada pode ser maior que ele.Daí, o ser absoluto é, ao mesmo tempo, a origem e arcabouço ontológico de todas as coisas e é um ser pessoal dotado de vontade e liberdade.