ERNST JÜNGER, "O Combate como Experiência Interior", Prefácio
Dedicado a seu irmão Fritz como lembrança do encontro de ambos no campo de batalha de Langemarck, o livro "Krieg als inneres Erlebnis" ("O Combate como Experiência Interior"), de 1922, do escritor, filósofo, entomologista e militar alemão Ernst Jünger**, é uma impressionante reflexão acerca do significado da primeira guerra mundial para os que dela participaram, àquela altura já retornados à vida civil. Na contramão de boa parte da literatura produzida por combatentes durante e após a guerra, Jünger enxerga o conflito como uma oportunidade de revelação de verdades fundamentais sobre a realidade e o ser humano.
Não se encontram no livro os belos e pungentes lamentos dos poetas britânicos Wilfred Owen (morto em combate em 1918) e Siegfried Sassoon ou a condenação explícita da guerra do clássico "Nada de Novo no Front Ocidental", de Erich Maria Remarque. Ao contrário, o estilo brutal, informativo, analítico e, por vezes, de uma assustadora frieza, caracterizara a sua obra mais famosa e celebrada, o relato de combate "Tempestades de Aço" (In Stahlgewittern), de 1920.
No prefácio de "O Combate como Experiência Interior", o autor afirma que a geração que voltara das trincheiras era formada por homens forjados na luta, a um só tempo filhos e pais do combate, e que carregavam dentro de si tanto o impacto da destruição no fogo das trincheiras dos antigos ídolos de barro da Sociedade, do Estado, de Deus e da Moral, quanto a possibilidade nietzschiana de forjamento de novos valores.
Antes orgulhosos da técnica, “embriagados da matéria, crentes que a máquina seria a chave da semelhança com o divino”, esses mesmos homens lançaram-se à guerra numa orgia de pulsões por muito tempo sufocadas pela sociedade e pelas leis. Paixão, êxtase e embriaguez são termos recorrentes no texto para descrever o estado interior dos soldados na guerra. Nessa linha, em sua novela "Sturm", publicada no ano seguinte (1923), Jünger faria o protagonista, o fictício escritor e soldado Tenente Sturm, admitir que "todos aqueles ideais nacionais e heroicos que até então, pensava, eram os motivos que me guiavam, haviam evaporado no fogo da paixão como gotas d'água sobre uma placa de ferro quente."
O capítulo seguinte, intitulado "Blut" ("Sangue"), apresenta a tese de que a vida, a humanidade e o indivíduo têm a mesma capacidade de convocar, quando necessário, as camadas mais longínquas e mais fundamentais de sua constituição, ainda que estas pareçam mortas e definitivamente ultrapassadas pela hegemonia das formas atuais e dianteiras. A analogia com o mundo natural permite a Jünger explicar o estado de espírito que toma o soldado no campo de batalha. Nada é realmente abandonado, e as forças mais antigas, as configurações há muito desaparecidas da superfície do mundo, são novamente convocadas a atuar no palco do teatro como personagens de uma nova peça.
Os estratos mais recentes da vida devem sua existência àqueles mais remotos, e, no momento propício, as águas calmas da superfície dão lugar à turbidez das correntes profundas. A cultura refina, decanta, enobrece, impõe limites e forma ao fundo amorfo e agitado das paixões primevas sem jamais eliminá-lo. O animal domado ataca quando ameaçado, recuperando em um átimo a fera que herdou de seus ancestrais.
Há nisso uma sabedoria da Natureza. No combate, diz Jünger, o sangue retoma seus direitos, flui escaldante nas veias sem encontrar os obstáculos usuais dos ditames da convivência social, e faz emergir das eras imemoriais o "primeiro homem", o atavismo da besta livre de cadeias. Maça ou granada, o tipo de arma não importa. Dois seres disputam a sobrevivência, a situação mais originária e desprovida de adornos.
"A visão do adversário proporciona, além de um cúmulo de horror, a libertação de uma pressão pesada e insuportável." A embriaguez da volúpia do sangue toma a consciência, mobiliza todas as forças para o único objetivo de matar o inimigo, se possível com as mãos nuas. Entusiasmado por essa divindade vermelha, o guerreiro sonâmbulo avança esquecido de tudo até que a corrente animal diminui e cessa, entregando à consciência normal um homem pálido, esgotado e horrorizado consigo e com os perigos que enfrentou durante o frenesi. Segundo Jünger, é somente aí que inicia a bravura, ao fim da mania do sangue.
O horror (Grauen), acompanha desde o início o homem primitivo, por exemplo, nas figuras dos predadores sempre à espreita e nos trovões e relâmpagos que iluminavam os céus manifestando divindades sombrias. O animal sente o medo e a angústia, contudo, para Jünger, o horror é uma experiência exclusivamente humana. “É o primeiro relampejo no céu da razão”, segundo suas palavras.
Por que só o homem sente o horror? Jünger não desenvolve esse ponto explicitamente, mas é possível aferir que essa experiência exige alguma ideia de significado do próprio mundo e da vida. O animal, por instinto e espontaneamente, tenta se afastar e escapar da ameaça que o assedia naquele momento sem que isso se transmute em material para reflexão posterior. Para o fim prático da sobrevivência, basta-lhe sentir a intenção que emana da própria forma do predador sem que sequer a ideia clara da morte lhe passe pela mente. Todos os seres vivos morrem, porém o homem sabe o que é a morte.
Na experiência do sagrado, o Mysterium Tremendum, de acordo com a célebre teoria de Rudolf Otto, combinam-se os elementos do temor e do fascínio. Há também um componente inegável de fascínio no horror. Não fosse assim, não teríamos a inclinação de ouvir histórias macabras e de assistir peças trágicas, não teríamos a curiosidade de conhecer os destruidores efeitos corporais de certas doenças e de acidentes os mais variados. Jünger enxerga um parentesco entre o horror e a luxúria, a embriaguez do sangue e a volúpia do jogo. Em comum, o excesso, o transe e o êxtase. O horror não é o simples medo determinado por uma ameaça imediata.
Os jovens voluntários, muito antes da partida para o front, reuniam-se em torno dos veteranos para ouvir seus relatos cheios dos terrores do campo de batalha. Semelhantes histórias, ainda que os assustassem e os fizessem empalidecer, tinham o condão de suscitar o desejo ardente de "encarar a Górgona de frente", não importando se o resultado desse confronto fosse a morte.
Após tanta espera e tanta fermentação, já nas trincheiras, vinha finalmente o momento do batismo de fogo, o choque longamente antecipado, "tão saturado de virilidade transbordante que cada inspiração embriagava, e que dava vontade de chorar sem que se soubesse o motivo. Ó corações viris, capazes de sentir isso!” O horror cobria com as suas asas as colunas entrincheiradas. "Então Ares ordenou a Deimos (Terror) e Fobos (Medo) que atrelassem seus cavalos, e ele próprio vestiu sua armadura brilhante", dizia o aedo no Canto XV da Ilíada.
Logo o primeiro morto fazia a sua sinistra e inolvidável aparição que congelava os corações. A lembrança de cada soldado guardava imagens diferentes desse evento funesto. Uns recordavam as mãos crispadas no solo, outros a crosta sangrenta nos cabelos ou os lábios azulados do caído. Aquele era o primeiro de muitos, e a variedade dos cadáveres mostrar-se-ia infinita a partir dali.
O odor pesado, adocicado e tenaz da putrefação emanava dos corpos que revelavam a céu aberto “os mistérios da tumba”. Vivos e mortos conviviam numa estranha e profana comunidade com ratos, moscas e vermes. Fora da frente de batalha, nas ruínas das cidades, vilas e fazendas arrasadas, o temor da aparição fantasmagórica das vítimas civis da guerra penetrava no coração dos combatentes saturados de horror.
A sobrevivência de restos da vida normal em meio à tal destruição gerava por vezes uma comicidade absurda: a vitrine repleta de chapéus femininos que permanecera incólume entre os escombros de uma loja, o piano mecânico que funcionou automaticamente numa casa enquanto soldados ferozes combatiam no andar de baixo, a ratazana bem nutrida que saltou do bolso do cadáver de um soldado. A fronteira que separava o riso da loucura era tênue, e Jünger menciona en passant o riso estridente dos homens cujos crânios acabavam de ser alvejados, o soldado que correu nu pelo campo de batalha em pleno inverno e o humor satânico dos postos de socorro.
Por mais saturados daquelas circunstâncias que os combatentes estivessem, não eram tanto os fatos, mas sim o incerto, o indizível e o pressentimento que pesavam sobre os sentidos. Quando um grupo isolado atravessava a "terra de ninguém" à noite, e, subitamente, a língua de fogo das metralhadoras lambia o solo dilacerado, um grito de reconhecimento ecoava, então o horror recaía sobre a mente, mas seu significado profundo, qualquer que fosse, não podia mais ser revelado através dos lábios petrificados do morto.
...
*Jünger faz alusão ao fragmento de Heráclito de Éfeso: "O conflito é o pai e rei de todos" ("Πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστι, πάντων δὲ βασιλεύς").
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