"E se tu suprimes isso que está entre o Imparticipável e os participantes – ó qual vazio! - tu nos separas de Deus, destruindo o liame, e estabelecendo aí um grande e intransponível abismo. (...) Pois todo símbolo ou deriva da natureza do objeto do qual é símbolo ou pertence a uma natureza inteiramente diferente. Assim, quando o Sol está prestes a nascer, o amanhecer é um símbolo natural de sua luz e, de modo similar, o calor é um símbolo natural do poder incinerante do fogo.
(...) Assim, o símbolo natural sempre acompanha a natureza que fornece o seu ser, pois o símbolo é natural a essa natureza. Já para o símbolo o qual deriva-se de uma outra natureza, tendo sua própria existência, é totalmente impossível para ele ser constantemente associado com o objeto que simboliza, pois nada o impede de existir antes ou depois de seu objeto, como qualquer realidade que possui sua própria existência. Em suma, o símbolo que não possui uma existência independente não existe nem antes e nem depois de seu objeto, pois tal é impossível."
SÂO GREGÓRIO PALAMAS, Tríadas, III, I, 14
"Estamos numa praia. Olhamos o mar, e vemos uma mancha branca no horizonte. 'Um barco', diz um. 'Não', responde outro, 'uma nuvem'. 'Qual', afirma um terceiro, 'deve ser a fumaça de um navio'. 'É uma onda muito alta', propõe um quarto. Em tal caso, dá-se uma fraca acomodação devido à distância e à dificuldade dos esquemas se acomodarem ao fato. Há apenas uma nota que pode ser de barco de vela, de onda, de fumaça, de nuvem, mas por si só não é suficiente para dar uma certeza, uma inteligência do fato. Os quatro assimilaram mais do que acomodaram, pois assimilaram a esquemas vários. Portanto, os quatro realizaram uma ação simbólica."
MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS, Tratado de Simbólica, p. 23
MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS, Tratado de Simbólica, p. 23
O símbolo é toda e qualquer realidade conhecida que ilumina uma realidade desconhecida, ou diretamente incognoscível, por meio de vínculos analógicos. Na obra "Tratado de Simbólica" (1956), o filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos afirma que os antigos gregos davam o nome genérico de symbolon (σύμβολον) a todo sinal convencionado, como as insígnias dos deuses, os emblemas, os presságios, augúrios e, inclusive, as convenções internacionais e comerciais que se estabeleciam na época. Símbolo significaria "aproximação", "ajustamento", "encaixamento".
Os antigos gregos não distinguiam o símbolo do sinal, e, etimologicamente, os termos significam "lançar junto", "arremessar junto". O que caracteriza univocamente sinais e símbolos, do ponto de vista formal, é a referência a um outro, apresentar-se no lugar de um outro. Ambos substituem algo, referem-se a algo que não eles mesmos. Ainda segundo Mário Ferreira, todo símbolo é um sinal, dado que sinal é aquilo que aponta para outra coisa com a qual tem uma relação natural ou convencional. Estando o símbolo no lugar de outra coisa, então ele é um sinal.
Contudo, se todo símbolo é sinal, o inverso não é verdadeiro. O símbolo, é uma espécie dentro do gênero dos sinais. O que distingue especificamente o símbolo é o fato de que o sinal pode ser apenas convencional ou arbitrário, enquanto o símbolo sempre guarda alguma semelhança de ordem analógica com o simbolizado. Isto é, há sempre uma semelhança real entre o símbolo e aquilo que ele simboliza. O símbolo é um sinal com a repetição de alguma nota própria do simbolizado.
O sinal é natural, quando representa algo naturalmente, ou arbitrário, quando instituído pelo arbítrio humano. O gemido, por exemplo, é o sinal natural da dor. O ramo de videira pintado na porta da taberna para indicar que ali vende-se vinho é um sinal arbitrário. Entre sinal e sinalizado não há a participação (metéxis, μέθεξις) de uma perfeição. Porém, entre símbolo e simbolizado essa participação é imprescindível, pois é ela que marca a diferença específica do símbolo.
O filósofo francês Gilbert Durand, autor de "L'Imagination Symbolique" (1964) compreende que os sinais não são mais do que subterfúgios de economia que retornam a um significado que poderia estar presente ou verificado. Da mesma forma, uma palavra, as iniciais, um algoritmo substituem economicamente uma longa definição conceitual. Por essa razão, não sendo mais que meios de economizar as operações mentais, nada impede que os sinais sejam escolhidos arbitrariamente.
Durand distingue também símbolo de alegoria. Embora sejam sinais, a alegoria refere-se a abstrações, especialmente qualidades do espírito ou do domínio moral dificilmente apresentáveis em "carne e osso". Por exemplo, a ideia de justiça pode ser representada pela figura de um personagem punindo ou absolvendo, munido das tábuas das leis, do martelo, da balança, etc.
A alegoria é a tradução concreta de uma ideia difícil de alcançar ou de expressar de modo simples. As alegorias figuram concretamente uma parte da realidade que elas significam. O todo é representado por alguma de suas partes (metonímia). A alegoria, segundo entende P. Godet, parte de uma ideia abstrata para chegar a uma figura, enquanto que o símbolo é de início e por si mesmo figura e, como tal, fonte de ideias, entre outras coisas.
Retornando a Mário Ferreira dos Santos, o filósofo define o símbolo como "tudo quanto está em lugar de outro, sem acomodação atual à presença desse outro, com o qual tem, ou julgamos ter, qualquer semelhança (intrínseca por analogia), e por meio do qual queremos transmitir ou expressar essa presença não atual no que indicamos." O símbolo apresenta uma série de características próprias:
I) Polissignificabilidade: aptidão dos símbolos a se referirem a mais de um simbolizado. Um único símbolo pode simbolizar mais de um simbolizado, como a água que representa tanto a virtude regeneradora e criadora quanto o perigo da degeneração no amorfo e a morte;
II) Polissimbolizabilidade: um único simbolizado pode ser referido por vários símbolos. Deus, por exemplo, pode ser simbolizado pelo Sol e pelo centro de uma circunferência;
III) Gradatividade: o símbolo exibe uma escalaridade de significabilidade a um simbolizado. Há símbolos melhores e piores, que têm mais ligação analógica com o simbolizado do que outros;
IV) Fusionabilidade: capacidade do símbolo se fundir com o simbolizado. Ocorre frequentemente em religiões que o símbolo da divindade substitua o simbolizado, e se torne ele próprio o objeto de culto;
V) Substituibilidade: os símbolos que se referem a um mesmo simbolizado permitem a sua mútua substituição. É possível passar de um símbolo a outro quando o simbolizado é idêntico;
VI) Função simbólica: enquanto o sinal tem uma função meramente indicativa, o símbolo tem uma função analógica. Portanto, o símbolo oferece uma via explicativa.
O último ponto exige um aprofundamento. O símbolo possui uma relação não arbitrária de algum nível com o simbolizado. Se o símbolo por si mesmo revela algo do simbolizado, então essa virtude exige alguma ligação entre primeiro e o segundo. Por conseguinte, o símbolo é informativo. Resta esclarecer de qual natureza é essa relação entre os dois. Os termos e os conceitos tradicionalmente admitem três tipos de significações:
Univocidade: quando o mesmo termo é aplicado a diversos seres com a idêntica significação em todos os casos. Empregamos "animal" no mesmo sentido para nos referirmos ao cachorro e ao homem. O cachorro é tão animal quanto o homem. No que tange à animalidade, ambos têm as mesmíssimas características essenciais, o que permite que o termo seja usado nos dois casos sem nenhuma diferença de significado;
Equivocidade: quando o termo é aplicado a diversos seres com significações totalmente diferentes em todos os casos. Por exemplo, usamos "manga" para designar a fruta e uma parte da camisa. A coincidência é meramente na grafia do termo, pois não há nenhuma semelhança entre a manga da camisa e a fruta manga. O mesmo termo designa seres completamente diferentes;
Analogia: quando o termo é aplicado a diversos seres com significações que não são nem totalmente idênticas e nem totalmente diferentes. A analogia é, portanto, a síntese do semelhante e do diferente. Quando dizemos que "o leão é o rei da floresta", fazemos uma analogia. O leão é o "rei da floresta" porque, assim como o rei propriamente dito, o leão exerce domínio hegemônico e inconteste sobre um determinado território. Afirmamos tais características semelhantes sem descurar das diferenças entre os entes analogados. Obviamente, o leão não é rei no sentido de pertencer à nobreza, usar coroa e cetro, sentar no trono ou governar por direito divino.
A relação entre símbolo e simbolizado é de ordem analógica, não unívoca, e menos ainda equívoca. Quando simbolizamos Deus pelo Sol, não afirmamos que Deus seja um astro, nem que tenha raios ou emita calor, mas usamos o Sol para afirmar o caráter luminoso e iluminador de Deus, sua virtude criadora e mantenedora da vida, etc. O símbolo, portanto, faz referência analógica, de modo limitado, a uma forma que é superior ou absoluta. Destarte, o símbolo é hierarquicamente inferior ao simbolizado.
Ademais, o símbolo é vivo. Ele pode morrer, assim como pode ressuscitar. A vida de um símbolo depende de sua significabilidade. À medida que essa significação é clareada, e que a visão do simbolizado fica mais nítida, o símbolo começa a desaparecer, como acontece com certos símbolos religiosos quando são perscrutados pela mente analítica que busca as formulações precisas das doutrinas.
O símbolo é mais vago e mais aberto que o dogma, que é uma formulação clara e precisa de uma doutrina acerca de um determinado ente. No nível simbólico, várias formulações são possíveis justamente por causa da polissignificabilidade do símbolo. E muitas dessas formulações parecerão frontalmente contraditórias entre si.
A dimensão simbólica é especialmente importante no mito e na religião. O historiador das religiões romeno Mircea Eliade, entende que o símbolo prolonga a hierofania, a manifestação do sagrado. Tudo aquilo que não é diretamente consagrado por uma hierofania torna-se sagrado por causa da participação de um símbolo. Toda uma série de objetos e de signos simbólicos deve seu valor e sua função sagrada ao fato de se integrarem na epifania de uma divindade.
Todavia, isso não é verdade para todos os símbolos. Há aqueles que precedem a forma histórica da divindade, como os símbolos vegetais, a Lua, o Sol, a luz, certos desenhos geométricos (cruz, pentágonos, círculos, suástica, etc.). Alguns desses símbolos foram anexados pelas divindades, outros mantiveram certa autonomia com relação aos deuses. Ocorre ainda a passagem do símbolo de uma divindade à outra.
O símbolo não somente prolonga uma hierofania, mas ele próprio é uma hierofania. Isto porque o símbolo revela uma realidade sagrada ou cosmológica que nenhuma outra manifestação poderia revelar. O desenho simbólico de um deus é uma epifania daquela divindade, e guarda seu poder (numen). Enquanto a hirofania necessariamente instaura a ruptura entre o sagrado e o profano, o símbolo realiza a solidariedade permanente entre o homem e o sagrado.
O símbolo transporta o homem, onde quer que esteja, para a dimensão sagrada. Uma cruz pendurada no pescoço é um acesso constante à dimensão do sagrado, onde quer que o devoto esteja. O símbolo trai a necessidade que o homem tem de prolongar indefinidamente a hierofanização do mundo, e revela, em qualquer situação, a unidade fundamental das esferas da realidade, ainda que estejam separadas pela distinção entre o sagrado e o profano.
A função sagrada do símbolo é dupla: por um lado, prolonga a hierofania, tornando os objetos comuns algo diferente daquilo que aparentam ser cotidianamente, e, por outro, enquanto signos de realidades transcendentes, os símbolos anulam os limites naturais dos objetos, integrando-os em um vasto sistema de relações. Todo simbolismo almeja integrar e unificar o maior número possível de zonas e de setores da experiência, e tende a identificar consigo mesmo o maior número de objetos, situações e modalidades.
O simbolismo aquático, para citar somente um exemplo entre muitos possíveis, tende a integrar tudo o que é vida e morte, como visto anteriormente. No entanto, essa unificação não é confusão. O simbolismo permite a passagem e a circulação de um nível a outro da realidade, de um modo a outro do Ser, integrando todos esses níveis e planos sem confundi-los. O símbolo tem a tendência de coincidir com o todo, uma vez que integra os níveis da realidade em uma espécie de sistema, reduzindo a multiplicidade a uma situação única, de maneira a torná-lo o mais transparente possível.
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4 comentários:
"Quando simbolizamos Deus pelo Sol, não afirmamos que Deus seja um astro, nem que tenha raios ou emita calor, mas usamos o Sol para afirmar o caráter luminoso e iluminador de Deus, sua virtude criadora e mantenedora da vida, etc. " Prof., aqui eu tenho uma dificuldade. O sr. selecionou um aspecto na exclusão de outros que não precisariam ser excluídos ao meu ver. E por que? Deus-símbolo tanto poderia ser visto sob o aspecto astral, raiado ou caloroso, porém astro, raios e calor seriam outra coisa não literal, outros símbolos. Isso em nada prejudicaria o preceito de não "descurar das diferenças entre os entes da analogia."
A dificuldade é a seguinte: qual o limite, se há limite, para as analogias, ou ela vai até onde a própria potência poética de quem as faz alcança? Só para ensaiar uma suspeita de resposta, os entes simbolizados requerem certa obediência para serem utilizados(a girafa e o seu pescoço), mas bem obedecida a sua imagem, não é a partir daqui que a coisa fica ilimitada?
Obrigado, eu estava precisando desse texto!
Valeu. Muito bom.
Olá Rogério!
Sim, de fato, não é necessário excluir uma coia e privilegiar outra. Só o fiz para efeito de exemplificação de uma interpretação literal do símbolo que desfiguraria a analogia correta. Certamente, "raio" pode ser um símbolo, mas somente se não for interpretado literalmente. Era isso que queria mostrar.
Quando aos limites do símbolo, em certo sentido há limites e e em outro não há limites. Não há limites no sentido em que qualquer coisa pode ser símbolo de alguma outra realidade. Mas há limite no sentido de que não é toda coisa que pode ser símbolo de qualquer coisa.
A própria lógica da analogia imprime esse limite. Se todas as coisas podem ser símbolos de alguma outra realidade, isso não significa que qualquer coisa simbolize qualquer coisa. Isso seria sinal e não símbolo. Posso sinalizar qualquer coisa com qualquer coisa, figura, imagem, etc. Não posso é simbolizar qualquer coisa com qualquer coisa. Os limites são aqueles da semelhança estrutural entre símbolo e simbolizado.
Abraços!
belo texto.
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