domingo, 5 de julho de 2009

"O Sacrifício" de Tarkovsky



O Sacrifício (1986), último filme do grande cineasta russo Andrei Tarkovsky, ceifado pouco tempo depois pelo câncer, é um dos mais belos filmes do cinema contemporâneo. Sua riqueza é imensa e seu simbolismo inesgotável.

Que sacrifício deve ser feito para que haja futuro, para que a vida tenha sentido e para que a catástrofe da destruição não se abata sobre o homem?

Alexander, o protagonista, é um intelectual que tem conversas monologais com seu filho que se encontra momentaneamente mudo. Eles plantam juntos uma árvore seca esperando, como na história do monge ortodoxo, que ela um dia renasça. Alexander estudou filosofia, religião comparada, estética e foi ator de teatro onde chegou a participar de encenações de Ricardo III de Shakespeare e de O Idiota de Dostoievski.

Ele sente nostalgia da fé dos tempos passados, desaprova o rumo tecnológico de nossa civilização e, diante de ícones ortodoxos, lamenta que tanta beleza esteja agora perdida, pois hoje nem mesmo conseguimos rezar.

Ele é tomado de surpresa pela notícia da deflagração de uma guerra nuclear e, no ápice de seu desespero, reza a Deus pedindo que tudo retorne ao normal e que aquela catástrofe não se abata sobre o mundo. O intelectual promete então que, se Deus escutar seu pedido, ele em troca renunciará à sua vida, à sua casa e até mesmo a seu filho.

Otto, o carteiro, atua então como o mensageiro, o angellos, que lhe traz a possibilidade, ainda que incompreensível e irracional, de realizar seu sacrifício. Segundo Otto, todo aquele mal poderia ser evitado se Alexander se deitasse com Maria, uma estranha empregada islandesa considerada como bruxa ou algo do gênero.

É interessante notar que a cama de Alexander é encimada por um quadro de Leonardo que representa a homenagem dos reis magos ao menino Jesus. Otto confessa não gostar de Leonardo e isso é compreensível, pois o pintor representa a Renascença, o fim da autoridade espiritual do cristianismo medieval e o início do humanismo que desembocaria na ciência moderna e no mundo contemporâneo.

Alexander é então o homem que vive sob essa herança, na qual os artigos da fé sobrevivem somente como temas artísticos dos quais não se concebe qualquer realidade. O homem moderno que olha para o quadro vê somente beleza, técnica e graça, mas não sacralidade. Ao contrário dos ícones ortodoxos que tanto apelo nostálgico têm na alma de Alexander.

E também ao contrário do crucifixo que encima a cama de Maria, a dita bruxa. Aquele símbolo, e todos os outros objetos de culto que se vêem em sua casa, mostram que ali o universo tem um outro centro de gravitação. Ali ainda vive o cristianismo, o supra-racional que aos olhos modernos nada mais é que o irracional.

Então Alexander, acolhido amorosamente por Maria, derrama em seus braços toda sua aflição e seu medo e consuma com ela o ato sexual. Então os dois mundos se encontram. O intelectual que sempre anelou pelo religioso e o religioso que foi posto num cargo subalterno (Maria é empregada) e que, no entanto, sempre esteve por perto e o acolhe com compreensão e ternura maternas.

Ao acordar em sua casa, Alexander constata que a realidade voltara ao que era antes. Mas ele não é o mesmo, ele está transfigurado pela experiência de união com Maria. E ele sabe o preço dessa união. O sacrifício deve seguir em frente. Não se pode continuar na mesma casa, na mesma segurança, estrutura e apoio que até então lhe eram caros.

Ele queima a casa. A família se desespera. Considerado louco, o preço por abraçar o "irracional", uma ambulância vêm buscá-lo. As instâncias racionais, científicas, o aprisionam e o levam para longe de Maria que, numa bicicleta, consegue apenas acompanhar de longe o trajeto da ambulância.

Mas se Alexander renunciou a tudo para que a destruição não caísse sobre o mundo, ele realizou a mensagem cristã da renúncia a si mesmo. "Não há maior amor do que dar a vida pelo seu irmão", disse Jesus. E se um dia Alexander foi nos palcos, na mentira da arte, o príncipe Mishkin, ele agora era, na realidade, o cristão perfeito, o Idiota descrito por Dostoievski.

Mas, o fruto não pertence a Alexander. O fruto pertence ao seu filho mudo que, no final do filme se encontra deitado ao lado da árvore seca. Ela voltará à vida? E a voz do menino um dia proclamará a verdade eterna de que no princípio, em todos os sentidos que essa palavra encerra, era o Verbo e o Verbo era Deus?