domingo, 3 de abril de 2011

Stanley Jaki e as origens da ciência


"A originalidade européia, a qual se evidencia muito palpavelmente na ciência, tem sua origem no Evangelho, cuja pregação plantou fundo nas mentes européias, muito antes de Bacon e Descartes, a convicção de que o universo era o produto racional do Criador e de que, como cristãos, eles tinham se tornado mestres e donos da natureza. O novo Organon da ciência não estava no extenso tatear de Bacon sobre fatos na maior parte das vezes irrelevantes, mas na convicção partilhada bem antes dele de que, uma vez que o mundo era racional, ele poderia ser compreendido pela mente humana, embora, como produto de um Criador, ele não podesse ser derivado da mente do homem, uma criatura. É óbvio que as sementes do Evangelho, ou mais concretamente do credo cristão, o qual afirma ao mesmo tempo a Antiga e a Nova Aliança, precisaram de uma matriz natural, social e psicológica para germinar em palpáveis originalidade e gênio sobre a natureza." (tradução minha do original em inglês)

STANLEY JAKI, The Origin of Science and the Science of its Origin, p.21


Onde se encontra na história a origem da ciência? Na Grécia antiga ou na pregação baconiana do século XVII? O historiador e filósofo da ciência, físico, matemático, professor de Física na Seton Hall University, teólogo e monge beneditino húngaro Stanley Jaki diria que nenhuma das duas respostas possíveis dessa disjunção é correta.

Avesso a certas historiografias da ciência que tentam remontar as origens da ciência às elucubrações geométricas de Arquimedes ou buscam explicar o fenômeno científico do século XVII através da postulação de uma transformação mental e conceitual súbita, misteriosa e sem precedentes, Jaki defende a tese de que essas origens devem ser encontradas na Idade Média, em estreita conexão com os pressupostos mais característicos do cristianismo.

Segundo Jaki, é na pressuposição de que o homem é uma criatura racional habitando um universo criado livremente por um Deus igualmente racional que a ciência pôde dar seus primeiros passos ainda na Idade Média e não, por exemplo, na Grécia antiga.

Se houve progressos na geometria e na matemática gregas - principalmente com Arquimedes - eles foram obnubilados pelas metafísicas restritivas de Platão e Aristóteles que vetavam, com maior ou menor ênfase em cada caso, a aplicação da matemática ao mundo natural.

Ao contrário dos gregos, o cristão medieval sabia que o mundo era um artefato racional e consistente criado por um Deus que dispôs todas as coisas "em medida, número e peso", como asseveram as Escrituras (Sabedoria 11, 21).

O que Platão nunca sonhou em fazer, uma ciência física baseada na geometria e na matemática, o cristão poderia realizar sem medo de erro. E, de fato, Galileu, um cristão devoto, o realizou sobejamente. Nesse sentido, defende Jaki, Galileu estava seguindo seus mestres medievais.

Contudo, o gênio italiano se afasta deles na sua cegueira em não compreender os limites intrínsecos do método quantitativo, tomando o homem como imagem de quantidades e não de Deus.

Jaki, apoiando-se e inspirando-se na obra historiográfica de Pierre Duhem, combateu durante sua longa e prolífica vida acadêmica as principais correntes interpretativas da história da ciência que relegam o cristianismo ao papel de inibidor do nascimento e do progresso da ciência.

Com Duhem, Jaki defendia que foi no fim da Idade Média, nos trabalhos dos parisienses Jean Buridan e Nicolas Oresme, que se formularam pela primeira vez as idéias fundamentais do que seria posteriormente conhecido como o princípio da inércia.

Tal formulação foi possível graças à inovadora doutrina cristã da criação livre do mundo que rompeu com a idéia grega da eternidade do cosmos. Foi através dessa doutrina que os medievais puderam conceber a idéia de um movimento celeste perpétuo impulsionado de uma vez por todas por Deus no início dos tempos.

Para Duhem e Jaki, essa formulação, embora ainda limitada ao mundo supralunar, inaugura a ciência moderna na medida em que rompe decididamente com as amarras da física aristotélica e permite o posterior desenvolvimento e postulação definitiva, já no século XVII, do princípio da inércia.

...

Leia também:

Biografia intelectual de Stanley Jaki


5 comentários:

Pedro Sampaio disse...

A aplicação da matemática ao mundo natural data dos pitagóricos, pelo menos. E os astrônomos gregos seguiram o trajeto, sendo que o método das suposições foi mencionado e avaliado, mais de uma vez, pelo Aquinatense. O padre ouviu o galo cantar e não sabe onde.

O que jamais ocorreu a grego algum foi o rebaixamento dos modelos matemáticos ao mundo sublunar, das coisas sensíveis cujas operações são profundamente variáveis e difíceis de determinar. A dificuldade de aplicação não acabou com a Modernidade; foi apenas escondida debaixo do tapete, por meio de mil e um truques conceituais, que terminaram no monstro mecanicista. Newton, por exemplo, convenceu gerações de que forças SÃO vetores, quando na verdade o vetor é tão somente uma representação, quase uma metáfora, da força objetivamente existente.

Não me parece uma obra muito cristã. Tudo bem que os pagãos consideravam os corpos celestes como deuses visíveis, mas aí é outra história :-D

Roger Oleniski disse...

Por outro lado, creio que Jaki menospreza a força da reação teológica dos séculos XIV e XV cuja ação centrou-se justamente no questionamento da possibilidade de harmonização das exigências epistêmicas de uma física com a crença em um Deus onipotente.

O interessante é que esses mesmos questionamentos chegaram aos tempos modernos e prova disso é o esforço de Descartes para tornar as leis matemáticas confiáveis a partir justamente da postulação de seu fundamento em um Deus que não engana jamais. Só dessa forma se pode garantir que Deus não vai mudá-las a seu bel-prazer como queriam muitos ocasionalistas e voluntaristas do fim da Idade Média ou do tempo de Descartes.

Obrigado pelo comentário!

Abraços!

Jose Lima disse...

Olá Rogério.
Existe um livro chamado "the christian delusion" Prometheus Books, 2010
Conhece? Eu li um artigo presente no livro (escrito por Richard Carrier) e parece que ele recorre a algumas inconsistências ao argumentar que o cristianismo não foi responsável pela ciência moderna.
Você já leu? Tem alguma indicação ou contra-indicação? Este é o artigo supracitado (https://www.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Frebeldiametafisica.wordpress.com%2F2012%2F04%2F21%2Fhistoriadores-cristaos-incompetentes-desonestos-ou-iludidos%2F&h=pAQGUeGK6&s=1)

Rogério da Costa disse...

Olá José!

Olha, para te ser bem sincero, tenho muito pouca paciência para discussões conduzidas por militantes de qualquer gênero. Dei somente uma olhada por alto no artigo traduzido no link.

Toda essa discussão está errada desde o nascedouro. O cristianismo não pode ser avaliado ou julgado seja por haver dado origem à ciência moderna ou obstaculizado o seu nascimento. Do ponto de vista de sua validade intrínseca, ser ou não a origem da ciência moderna não torna nenhuma religião mais ou menos verdadeira.

É óbvio que a questão subjacente aqui é outra: o tema iluminista da vitória das luzes da razão sobre a superstição religiosa é verdadeiro ou é um mito? Esse é o busílis. São duas versões da História disputando o terreno da hegemonia do discurso sobre o passado: uma "laica" e outra "religiosa".

Bem, aí começam os problemas. História não é matemática e o alcance de suas conclusões e hipóteses sobre ligações causais são difíceis de verificar.

Por exemplo, Carrier diz que o cristianismo dominou por milênio e nenhuma revolução científica aconteceu. Segundo Carrier, isso já demonstraria que ele não é a causa da ciência moderna. Ora, é um argumento muito fraco. A maioria dos historiadores cristãos que falam sobre o assunto não defendem que o cristianismo foi o ÚNICO fator causal, mas o determinante ou um dos mais importantes.

Qualquer um pode ver que a ausência de um efeito por si só não elimina a relação causal. Simplesmente a revolução científica pode haver nascido de muitos fatores, entre eles o cristianismo. Este pode ter sido um fator muito importante, mas não suficiente, necessitando de outros, que podem ser mais ou menos importantes.

Permanece um fato que a ciência grega decaiu e estagnou séculos antes do advento do cristianismo e que a revolução científica do século XVII foi obra de cientistas cristãos em um ambiente cristão. Como explicar isso é matéria de muita discussão.

Há ainda a espinhosa questão epistemológica acerca do que é ciência. A definição que Carrier utiliza é questionável (teste controlado de hipóteses através de predições, etc.) e boa parte da História da Ciência muda radicalmente de aspecto de acordo com o conceito de ciência adotado.

Enfim, há muita coisa a ser discutida e aqui não toquei sequer na superfície dos problemas.

Quanto às indicações, há livros excelentes sobre a revolução científica (cujo próprio conceito é largamente debatido) e História da Ciência em geral. Listo abaixo alguns autores imprescindíveis:

Alexandre Koyré
Bernard Cohn
Richard Westfall
Pietro Redondi
Paolo Rossi
Ernan Mcmullin
Edward Grant
George Sarton
Alasdair Crombie
Pierre Duhem
Edwin Burtt
Stephen Gaukroger
G.E.R. Lloyd
Thomas Kuhn

São autores de diversas posições. Nenhum militante.

Se precisar de algum outro direcionamento, pode pedir por aqui.

Abraços!






Jose Lima disse...

Amigo eu agradeço pelos seus esclarecimentos, o que posso perceber é que Richard Carrier, demonstra um enorme desdém pelo cristianismo, ele se demonstra ser anticlerical, portanto suas afirmações a respeito da historia do período medievo são completamente tendenciosas. E gostaria de parabeniza-lo pelo blog, realmente fenomenal, eu possuo uma pagina no facebook, chamada "ciência e religião", e compartilho muitos de seus trabalhos, mas não se preocupe, sempre tenho o cuidado de pôr a fonte de onde extrai o artigo ou a citação. Estou me graduando em matemática, mas despertou-me um grande interesse por filosofia da ciência, metafísica e epistemologia, também simpatizei-me com a historia da ciência e suas bases. Estou começando a estudar Stanley Jaki, Ronald Stark, Whitehead, John Polkinghorne, Ian Barbour, entre outros. Desde já agradeço.